O Doce da Terra

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Ontem estava querendo conversar com a Nara, minha filha adolescente, sobre o filme-documentário-foda que vi sobre Sebastião Salgado: Sal da Terra, o nome da película. Eu estava mega emocionada e queria contar tudo, inclusive o final, porque acho que ela não vai ver mesmo e eu achei a história giga interessante e inspiradora. Sebastião Salgado destacou-se menos pelas fotos e mais pelo seu foco nos seus sonhos, fossem eles quais fossem.

Comecei, então, a fazer com que ela visse o filme com os meus olhos. Fui detalhando tudo o que observei, os detalhes das fotos, os filhos, a relação com a esposa, até que chegou o grand finale. Terminei super emocionada vendo uma floresta na minha frente plantada por um ser humano.

Quase chorei de novo…

– Grande merda. – Nara disse. – Grande merda! – repetiu assim que eu terminei.

Tóim Tóim Tóim. Mil martelos de borracha bateram na minha cabeça. Como assim ela não achou tudo fantástico?

– Então esse cara para você – esse cara é o Sebastião Salgado. Sintam o meu drama… – esse cara aí tem valor porque plantou árvores? – Disse ela balançando a cabeça como um sino e com a boca bem mole. E, continuou. –  Primeiro, ele era podre de rico, depois, por que diabos ele não ajudou as crianças da África com o dinheiro dele? Não seria mais nobre?

– Mas, Nara, minha filha, para que temos que dar um julgamento moral? Simplesmente ele fez isso e não aquilo, mas fez isso!

– E, daí, responda, mãe, uma ilustre pobre desconhecida que ajudou dez crianças na África, que se sensibilizou messsssmo com elas e não ficou só tirando fotos bem enquadradas não tem o mesmo valor do que ele para você?

– Por que temos que fazer essa comparação? – Questionei. –  Se esses dois que você citou tivessem em um barco e o barco afundando e você só pudesse salvar um, quem você salvaria?

– Justamente isso que te pergunto, mãe!

– Mas, filha, perceba, para que essa hipótese absurda? O que ganhamos fazendo isso? Para que comparar e não somente admirarmos muito o que um fez e depois o feito do outro? Nós que não somos capazes de fazer nem uma coisa e nem outra… Para que dar um juízo de valor nas atitudes e não somente nos inspirarmos nelas?

-Veja bem, mãe, eu não estou discordando de você. Estou exercitando a minha retórica.

Caraca. Nara estava era pra lá de, digamos, despirocada. A bichinha estava azeda, com o coração peludo e discutindo mega emocionada com uma pessoa com a qual ela estava concordando. Fala sério…

– Logo você, artista!, – continuei – que veio ao mundo para sensibilizar pessoas, por que se fecha para um tipo de arte como a da fotografia?

– Aí é que está. Eu não estou aqui para sensibilizar ninguém. E não vejo valor algum em alguém que fotografa a fome e sai plantando árvores.

Meodeos… Nara estava parecendo a menina do exorcista virando a cabeça.

– Como assim, minha filha? Você vai cantar e representar N tipos de dor. Vai sim emocionar e sensibilizar muita gente para uma determinada causa, o que não te dará nenhuma obrigação de lutar por ela! E você não será pior por não fazer isso! Apenas cante e já faz muito para o mundo! No mais, as coisas que eu escrevo, por exemplo, cumprem o seu destino apenas quando são lidas por alguém. Não importa a quantidade de pessoas. O artista não é feliz sozinho!, isso que estou querendo dizer, filha. O artista precisa de cúmplices da sua arte para ser feliz! Não percebe?

– Eu não preciso de ninguém, nem de você nem nada. Eu quero continuar ensaiando e acabar com essa conversa chata que não leva a nada.

– Mas, Nara…

– Eu já te disse não estou discordando de você! Estou exercitando minha fala! Aprendendo a argumentar! Eu não estou discordando de você! E esse cara é um nada para mim!

E subiu para o quarto correndo.

Jesuis… Socorro.

Corta. Cena 2:  Meia hora depois.

Nara está no banheiro e, de repente, abre a porta e me grita ainda sentada no vaso.

– O que foi, minha filha? – Disse assim que a vi sorrindo com todo o rosto.

– Mãe! Menstruei! Menstruei!

– Que bom,  Nara! Parabéns!

Não. Não era a menarca. Era a milionésima vez que Nara menstruava, mas era o sinal de que ela se livrou a TPM e isso, para nós mulheres, é o tipo de coisa que merece uma festa nível entrega de Oscar, no mínimo.

Nos abraçamos fortemente e jogamos vários pacotinhos de absorventes para o teto do banheiro como quem joga confetes e serpentinas. Foi lindo, gente…

– Passou, mãe! Acabou!!!

Não tocamos mais no assunto de fotos e florestas.

Nara hoje acaba de me ligar mega feliz para dizer que tomou um suco de todas as frutas do mundo, inclusive beterraba!

– Foi caro, mãe… Mas tipo tinha tudo! Uma delícia! E olha que eu não curto uma beterraba, mas mãe… Que delícia! Fiquei mega feliz em tomar o suco, mãe!

Não me chamo Sebastião, não fotografei a fome, não viajei pelo mundo, não plantei florestas. Não fui o Sal da Terra. Mas tenho a impressão de que, de uma forma bem humilde e modesta, hoje consegui registrar uma grande amizade e, também, de que ajudei a semear um colorido jardim.

Enfim, como disse, um filme inspirador.

1 comentário

Arquivado em Crônicas, Educação, Filhos, Nara

Uma resposta para “O Doce da Terra

  1. Márcia Lolata

    Linda cronica! Gosto muito do que escreve! Grande abraço.

    Curtido por 1 pessoa

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