Livro sempre. Livre cada vez mais.

LKA

Li em um artigo não sei mais onde que quem lê livros de literatura tem mais facilidade de se relacionar com outras pessoas do que os que passam por este mundo sem viver esse tipo de apneia. Isso porque ao ler tentamos imaginar e decifrar os personagens que se mostram múltiplos e surpreendentes tal como nós e os outros emergimos neste mundo. É um exercício que inevitavelmente carregamos para o dia a dia. A novela, dizia o artigo, já é um desserviço pois sempre mostra os sujeitos muito esteriotipados fazendo com que julguemos com facilidade, pressa e “sem erro” a atitude representada. Literatura aprimora os sentidos e a nossa capacidade de ver as coisas por vários ângulos e em um nível muito maior de profundidade. Ainda que não seja uma verdade absoluta, parece-me que faz sentido.

Recebo, sem merecimento, elogios da minha maneira leve, do meu modo de viver e da facilidade de lidar com todos que me cercam, sejam alunos, filhos ou meus pais, por exemplo. Digo ‘sem merecimento’ pois tenho lá minhas dificuldades e minha alta conta no analista. Porém, de fato, percebo que a minha interpretação de muitos episódios difere do senso-comum. Sabedoria? Maturidade? Espiritualidade? Paciência? Nada disso. Ou pelo menos, nada que tivesse nascido pronto.

Eu poderia ter estudado nas mesmas escolas, ter tido os mesmos professores, ter tido o mesmo pai e a mesma mãe, convivido com os mesmos irmãos e feito a mesma faculdade; poderia ter visto os mesmos filmes e escutado as mesmas músicas e, ainda assim, seria uma pessoa muito diferente do que sou hoje se não tivesse lido tudo o que já li. Foram os livros que me moldaram como ser humano. Foram os livros que me deram consciência da complexidade dos sentimentos. Foram os livros que derrubaram todos os meus preconceitos. Foram os livros que me tornaram mais compreensiva com as diferenças, mais tolerante com quem, a princípio, me incomodava. Foram os livros que me fizeram andar nas ruas e observar poesia em várias esquinas do subúrbio.  Foi nos bons livros que conheci melhor a mim mesma e me descobri como escritora, pois, um bom livro nos dá a nítida impressão de que estamos sendo lidos e não lendo. Quantas vezes aprendi a expressar minhas emoções lendo e relendo um parágrafo que radiografafa exatamente o que sentia e não conseguia verbalizar? Foi pelos livros que eu viajei para longe de casa, pois leitura é uma outra maneira de estar em outro lugar.

Eu adoro ler segurando um lápis. Meu caçula de oito anos já me questionou sobre essa mania. Expliquei a ele que é interessante sublinhar as partes que eu gosto muito. Assim, quando eu quiser vê-las de novo, é só dar uma foleadinha básica e pronto. Quando rabisco meus livros sinto que ouvi e que de certa forma estou dizendo algo também para o autor. No momento em que a ponta do lápis toca a página, uma conversa sempre, para mim, começa a ser delineada. Ao me ver um dia lendo muito sem nada sublinhar, meu caçula perguntou-me se eu estava só ouvindo. E era justamente isso que fazia com os olhos. Foram os livros que me afastaram de qualquer tipo de solidão pois ao ler um diálogo íntimo sempre se inicia.

Há quem pense que se chega a Deus pelos pastores, padres e lendo a Bíblia. Eu, a despeito de minha ateinidade, penso que se chega a Ele muito mais rápido pela literatura e pela poesia. Ao abrir um livro bom, abrimos os olhos, as janelas do nosso corpo e um universo se mostra refletido dentro da gente. Somente quem experimenta a beleza e a complexidade do existir, sinto eu, está em comunhão com o sagrado. Agora vejam, foram os livros que me fizeram ateia. E foi nos livros que comunguei com o sagrado.

Há quem imagine o paraíso repleto de cachoeiras, árvores e anjos. Eu pressuponho que ele seja uma espécie de livraria. Beleza incomensurável pela sua infinitude de possibilidades e que também é uma forma de felicidade.

E outra inexplicável de liberdade.

1 comentário

Arquivado em Crônicas

Uma resposta para “Livro sempre. Livre cada vez mais.

  1. Nelson

    Adorei o texto e sobre o conteúdo, vi acontecer está transformação bem na minha frente, a cada livro, mesmo sem entender bem o que acontecia.

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