Lentamente para não Atrasar

arte

Eu não tenho religião, mas sempre leio a Bíblia por curiosidade e certas coisas escritas nela me fazem pensar, Peguei-me aqui lendo o episódio da Torre de Babel em Gênesis. Segundo o Livro Sagrado, a Torre foi construída por homens com a intenção de fazê-la tão alta que alcançasse o céu. Esta soberba provocou a ira de Deus que, para castigá-los, confundiu-lhes as línguas e os espalhou por toda a Terra. Por isso, o chinês, o malaio, o russo, o bengalês,o persa, o alemão, o iídiche, o telugu, o javanês…

O ponto é que as pessoas falavam, antes desse castigo, a mesma língua, ou seja, entendiam-se muito bem entre eles. Para que eles não mais dialogassem, Deus criou os idiomas. Eu completaria essa história dizendo que por causa desse quiproquó nasceu a arte, a música, a dança, as pinturas e os homens trataram de continuar a comunicação, ainda que cada um falasse palavras ininteligíveis aos ouvidos do outro. E o mundo ficou muito mais interessante. Mas veja, pela arte também continuamos sem captar a essência do que o outro quer dizer, ou melhor, sem termos a certeza de que, de fato, compreendemos, mas ainda assim conseguimos interagir muito bem mesmo diante de tantas dúvidas. Amamos a arte e a incapacidade de apreensão de seus conceitos.

Daí comecei a pensar em quão mais interessante são as coisas e as pessoas que eu não compreendo. Clarice Lispector, Pablo Neruda, Manoel de Barros, Michael Jackson, Salvador Dali, minha empregada Lucimar, Marie Curie, Hugo Cavalcanti, a Filosofia como um todo, o tempo, a inércia,… No caso desta última, vejam vocês, enquanto acreditei que entendia sobre ela, a inércia não possuía o menor charme para mim. Explicava o conceito em menos de cinco minutos para os meus alunos. Depois que passei praticamente quatro anos da minha vida lendo sobre o quão controverso ela vem a ser, passei a amá-la e até escrevi um livro sobre ela (“Como Enlouquecer seu Professor de Física”, ainda não publicado).

Agora estou aqui pensando… a compreensão pode tornar tudo insuportável. A lucidez pode ser tediosa. Para se querer ficar junto de alguém, acho que é fundamental não entender bem o que o outro diz e, diria mais!, nem se esforçar tanto quanto temos nos esforçado para isso. Muitos casais, de repente, andam brigando é por insistir nessa ideia. Querem porque querem se entender, fazem terapia juntos amparados na esperança de que compreendendo melhor o outro, a união virá por consequência. Bah. Ledo engano. Quantas vezes a conclusão seguiu mesmo essa premissa? Pois é.

A compreensão pode ser tão fatal para um relacionamento – seja ele de que natureza for – quanto ela foi para mim ao saber como era feito o sarapatel e a galinha ao molho pardo. Enquanto era ignorante, lambia os lábios degustando esses pratos. Hoje, sinto náuseas só em pensar sobre eles.

É conversando que a gente se entende. Então, acho que podemos dar um descanso para as frases sintaticamente corretas e claras. Elas não estão me parecendo lá tão funcionais. Tentemos pintar, fotografar, dançar, escrever, poetizar, compor, gesticular mais para nos fazermos menos claros e, quem sabe, mais atraentes.

Sei lá. Só pensando aqui.

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