Terapia

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Ninguém é totalmente ateu quando a porca torce o rabo. Sendo assim, fui me meter com os deuses orientais. Todos sabemos que há uns conhecimentos milenares por aí associados a pirâmides e chás que funcionam tão bem como bonecos de vodu. Só é difícil encontrar pessoas portadoras desses saberes no subúrbio carioca. Aqui temos muita batucada, trabalhos com galinhas pretas, cultos evangélicos, mas nada que se pareça com o que fazem os monges do Tibet ou algo que o valha. E eu precisava algo nessa linha aê para resolver um probleminha aqui que tem tirado meu sono.

Doctor Gogol me ajudou e lá fui eu para uma espécie de templo em Copacabana que fica em um prédio que a gente sobe num elevador antigo. O ambiente era cheio de letras que não entendia patavinas do que estava escrito, tinha uns elefantes e uns vasos indianos que me lembro de ter visto algo parecido nas lojas ting lings de Madureira, mas certamente aqueles foram feitos de barro branco colhido das montanhas em que conseguimos ver o equinócio surgindo a 12 graus leste de Meca, assim suspeitei com todo o meu conhecimento sobre o assunto querendo fazer parte daquele novo mundo. O que estava escrito com letras do nosso alfabeto dizia mais ou menos assim: Guru Shishya Abhilasha Baijayanthi, Dakshirina Tantra. Ou algo parecido. Tinha Yoga também. Não me lembro direito. Acho que foi o chá que me deram, mas continuando…

Indicaram-me levitação mental dos monges do vale Kangra. Fiquei interessada. Levitação é sempre uma boa para quem padece de amor não correspondido e insônia por causa desse desgraçado. Mas para ficar melhor ainda, eu também poderia fazer dança indiana, ministrado pelo guru Dakshayani Damayanti. Ou algo que o valha… Não me lembro direito. Deve ser o charuto que me deram, mas continuando…

Eu queria fazer algo só para conseguir pronunciar os nomes daqueles malucos barbudos vestidos de branco daquele ambiente. Já ia me sentir melhor. Ofereceram-me de cara “Tagrahashi dance” que prometia me ajudar a fazer uns movimentos que estimulariam os chakras meridionais. Adorei. Preciso, disse com a firmeza daqueles que sofrem.

O cheiro de incenso-patchuli já estava nos meus cabelos e às olheiras somaram-se náuseas que foram rapidamente percebidas pelo guru Champabati Achala que me convidou para uma reunião que iria acontecer ali, naquele momento, com a pretensão de equilibrar o cosmos interno do Eu Kama Surta. Namastê, ele me disse. Saravá, respondi no reflexo. Os nomes me confundem, não os lembro direito, deve ser as folhas que me mandaram cheirar, mas continuando…

No local, havia almofadas orientais no chão e uma mestra que queria saber o que eu conhecia sobre os ensinamentos do Maharish Kartikeya. Eu que nunca fui boba e sempre um pouco mentirosa, mandei na lata que havia lido algo sobre encarnações, Brahmas, Karmas, pontos de energia cardeal e coisa e tal. Na mosca.

– Você sabe que vai estar entrando em transe daqui a pouco e preciso preparar você para isso.

Pronto. Até aqui havia nos ajudado o Senhor. Após esse gerúndio, a macumba da magia do placebo desandou toda. Eu fui lá para fazer uma lobotomia ou algo que trouxesse o ser amado em três dias, mas aplicando mal o português nem Buda na causa. Porém, eu já estava lá dentro e acabei ouvindo sobre o tal do Maharish Kartikeya e os sete patamares energéticos de evolução do edifício nirvana que nos leva a uma transcendência espiritual de uma força cósmica que emana de Shiva. Algo que é idêntico ao tudo e ao nada e que explicam os limites do Universo por forças antagônicas Yin Yang e mengalafumenga. Sei lá. Não me lembro direito, deve ser o pedaço de gengibre ou algo que o valha que me deram para mastigar enquanto ouvia uma flauta de bambu plantado há 2345 anos nas montanhas sudoríficas cósmicas energéticas e mais outras palavras proparoxítonas que estavam confundindo o meu entendimento. Mas continuando…

Eu estava com um problema kármico nessa encarnação que me impedia de ver a beleza da essência absoluta já que estava apegada ao amor egoísta ocidental judaico cristão e meu espírito tinha que se preparar para se libertar desse encosto e, para tanto, parecia que a presença de um narguilé era necessária. Deitaram-me no tapete do Aladim que estava estacionado naquela sala plena de ídolos hindus, cântaros made in china, espelhos, bambus, parede cor de curry com letras formando uma geometria bizarra mandalence e muitos vidrilhos. Com certeza, nos vales dos confins da Índia há um local com essas artes decorativas brhamitosas desenvolvidas por peruas esotéricas.

Havia uma energia no ar. Isso é certo. Os guias espirituais me orientavam a abrir a mente, as narinas, a boca e grazadeus as pernas ficaram cruzadas o tempo todo por recomendação, ou seja, não iriam abusar de minha xakra. Sei que tive uma orientação de repetir um mantra que tinha um som bom mas nada significava já que as palavras nos aprisionam e são traiçoeiras como uma serpente. Devidamente desmentalizada, massageada tantricamente na cabeça, ter dividido um chá em um cumbuca de madeira, dançado para aumentar a minha potência enquanto ser cósmico, fiz o check in no nirvana e acumulei pontos para as próximas existências e desistências.

Aquela nhaca toda não me deixava mais perceber a realidade como outrora. Estava mergulhada numa zoeria malucobelezóide e tudo chegava a mim carregado de profundas simbologias e as sequelas profundas somente dessa encarnação vinham sob a forma de emoções vertiginosas. O aqui e agora era só dejá vu, as paredes rebolavam e as moléculas de ar são lindas e como são todas coloridas gente…

Para vocês entenderem bem como me senti, era algo como uma semente perdida no núcleo duro de um caroço amargo do meu âmago habitado no interior do meu ser volátil se desabrochando. Não sei se fui clara. De uma forma didática, o arquétipo do meu eu inconsciente holisticofrênico me liberava de fobias arcaicas naquele transe demencial de uma forma que não dá para explicar por qualquer linguagem inteligível.

Houve mais detalhes, mas resumidamente foi isso. Super adiantou. Saí de lá, recebi uma mensagem-convite para tomar um café. Não era do causador das insônias. Deus ouviu minhas preces e me deu força nesse momento. Devidamente espiritualizada, ciente dos meus 1762 anos na Terra, depois de resistir a entrar por tantas portas que se abriram, aceitei.

Nada como uma ilusão bem vivenciada.

Batuquemos.


Claro que eu não entendi nada do que escrevi. Essa narrativa faz parte da brincadeira. A verdadeira, única e real experiência foi escrever esse texto. Terapia para mim é isso.

2 Comentários

Arquivado em Crônicas

2 Respostas para “Terapia

  1. Rindo pelas próximas cinco encarnações!!!! :))

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  2. Marcello

    Gostei particularmente desse texto. Por que será? Talvez pela “ilusão bem vivenciada” 😉

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