Julgando o Julgamento

julga

Estava eu no salão. Ao meu lado, havia uma outra mulher bem mais arrumada do que eu. As manicures fazendo nossas unhas. E a perua desata a falar:

– Não sei por qual motivo essas pessoas ficam pegando bicho doente na rua. Não pode ver um cachorro magro que sofrem como o diabo. Com tanta criança passando fome no mundo, eles ao invés de cuidar das crianças preferem cuidar de gato e cachorro vira lata. E…

– Mas quem disse que essas pessoas não se sensibilizam com as crianças? – me meti. – E onde está escrito que quem cuida de bicho não se importa com a fome no resto do mundo?

– Ah, minha filha, não mesmo. Elas só postam fotos de cachorros e gatos!

– E qual o problema? Ainda que elas se lixem para as crianças no mundo, não é melhor que existam pessoas que cuidem dos animais? Por que ficar incomodada com elas se elas não estão fazendo mal algum, inclusive para as crianças que passam fome no mundo?

Enquanto falava pude observar que o cabelo da mulher era tratado a base de formol e ela usava uma bolsa Prada.

– Seu cabelo está lindo. – menti – O que fez nele?

– A escova london. Lá num salão no Valqueire.

– Estou doida para fazer isso no meu. – menti de novo.- Desculpe perguntar. Foi caro?

– Olha, eu não achei não. Meu cabelo é longo. Ela me cobrou trezentos e…

– Por que você não doou esse dinheiro para as crianças da África?

A mulher me olhou dos pés a cabeça mesmo eu estando sentada.

– Eu já entendi. Você é dessas…

– Sim. Sou dessas que acreditam que quem julga as pessoas não têm tempo de amá-las e compreendê-las. Sou dessas também que acreditam que quem faz bem a um cachorro de rua jamais vai fazer mal a uma criança ou a um ser humano… Sou dessas que acreditam que melhor do que nada é fazer bem até a um caramujo contanto que faça o bem. Sou des…

– Eu leio para crianças cegas…- ela me interrompeu.

Emudeci.

Morri de vergonha de mim mesma…

Enfim. Perdão, Pai. Eu pequei. Falei contra o julgamento e eu mesmo julguei errado… Mais uma vez, o preconceito me deu um forte tapa na cara. É agindo assim que perdemos pessoas especiais.

Ganhamos as duas depois que eu pedi perdão e conversamos sobre essas coisas de forma mais branda e com a mente bem mais aberta.

Saímos do salão muito mais bonitas que entramos.

1 comentário

Arquivado em Crônicas

Uma resposta para “Julgando o Julgamento

  1. Rosani

    Que bom que você conseguiu conversar com ela e, principalmente, que bom que se entenderam. Uma de minhas grandes amigas pensa totalmente diferente de mim em assuntos bem polêmicos e eu já consegui conversar com ela mais de uma hora, uma colocando sua opinião para a outra num tom de voz calmo e amoroso, simplesmente porque existe muita amizade envolvida e, lógico, muito amor. Saímos ganhando as duas, foi uma experiência bem legal. Acho que o grande barato é conversar, expor e não tentar convencer a outra parte…

    Curtido por 1 pessoa

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