O Rosto do Flávio

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Recebi uma intimação oficial para comparecer em uma audiência sobre o menino menor de idade que roubou meu celular há um mês munido de um facão afiado. Fui. Lá chegando, tive que relatar, mais uma vez, com detalhes tudo o que havia acontecido, a forma da abordagem e como ele foi pego pelo guarda municipal que prontamente disparou atrás dele. O rapaz não estava presente nesse momento na sala da audiência porque isso me exporia demais. Achei justo. Amém.

Eu já sabia (porque tive que ir no mesmo dia que fui assaltada prestar depoimento) que o menino ficaria não preso (pois é menor) mas “recluso”. Era a terceira vez que ele passava pela polícia e, portanto, ficaria durante um ano sob os cuidados de um grupo especializado em menores. A famosa galera dos “Direitos Humanos” que tanto falam.

Em um determinado momento da audiência, a juíza me perguntou:

– Você seria capaz de reconhecer o garoto que te roubou?
– Sim. Claro. – respondi prontamente.

Daí, ela me levou para um local que parecia coisa de filme. A juíza me assegurou que ele não conseguia me ver, mas eu, de onde estava, vi cinco meninos e cada um segurando uma placa com um número. Ela então falou:

– Quem foi que te apontou a faca?

Fiquei olhando. Não vi. Depois pensei: vou sair eliminando quem eu tenho certeza que não é. Não é o 2. Não é o 5. Não é o 1. Nem o 4.

Seria o três? Olhei bem… era ele mesmo!

– O número 3.
– Ok. Voltemos para a sala, então.

Lá chegando, assinei vários papéis e fui dispensada. Mas antes de sair, senti um bolo na garganta e pedi a palavra:

– Eu queria dizer algo…

– Pois não, senhora.- permitiu-me a juíza.

– Eu queria confessar que tive dificuldade em reconhecer o Flávio, ainda que eu tenha certeza de que foi ele que tenha me roubado. Mas tive meus motivos… e queria fazer uma pergunta para vocês. O que esse menino fez aqui durante esse mês que ele ficou recluso?

– Ele fez cursos, está matriculado em um curso de marcenaria. Está tendo acompanhamento psicológico e conversando com assistentes sociais. Ele tem praticado esporte todos os dias e ouvido música… e assim vai ficar durante mais quase um ano já que é a terceira vez que ele passa pela polícia.

– Ele está com outro rosto. – falei emocionada. – O Flávio que me roubou parecia um rato, não tinha foco no olhar, estava imundo, descalço, com cara de bicho mesmo. Abandonado. Agora não. Ele está limpo. Com um olhar sereno. Parecia um aluno meu… Eu queria dar um abraço nele, sei que não posso, mas gostaria que vocês mandassem esse abraço para ele e dissesse a esse menino bonito que eu acredito que ele pode ser muito melhor do que se mostrou para mim há um mês atrás e que eu já vejo que ele está melhor! Quero dizer a ele que o perdôo e que vou continuar lutando para que a sociedade não o exclua tanto e que ele não sinta mais necessidade de roubar.

Eu sempre acreditei que os seres humanos se constroem com as experiências e aprendizados, portanto, o meio em que se vive tem grande influência sobre ele. E o rosto do Flávio me provou que estou certa. Tenho agora a visão ainda mais clara de que algo acontece na sociedade que transforma as pessoas em marginais…

Eu queria dar os parabéns para vocês que trabalham lutando pelo Estatuto da Criança e do Adolescente e compartilhar algumas perguntas que me ocorrem:

O que há na sociedade que leva essas crianças e esse meninos a cometerem crimes? O que podemos fazer para diminuir? Mais presídios? Diminuição da maioridade? Suponhamos que a maioridade no Brasil fosse de 16 anos e ele fosse preso junto com adultos e recebendo o mesmo tratamento que nossos presidiários recebem. Flávio estaria com esse rosto que eu vi hoje??? Ou estaria com uma aparência ainda mais assustadora???

Definitivamente, o rosto do Flávio só me deu a certeza de que ao reduzir a maioridade penal não estamos focando na raíz do problema, estamos apenas sugerindo uma maneira de remediar. Pouco importa se a maioridade penal é de 16, 18 ou 21 anos se o país continuar a formar criminosos! Devemos pensar em maneiras de diminuir a criminalidade, no processo que transforma as pessoas em transgressoras da lei, ou logo teremos mais presídios do que universidades e mais marginais do que cidadãos comuns! Devemos também mostrar que essa transformação no rosto e na postura do Flávio não é à toa. Tudo bem, ele pode retornar à sociedade e voltar a cometer crimes, mas pode ser que não dessa forma que vocês estão fazendo. Da outra, com certeza, ele será de novo reincidente!

Punindo apenas, aplicando mais violência ainda e enclausurando esses infratores não os transformamos em seres melhores e estamos gastando nosso dinheiro público à toa! Pior, todos esses que estão presos sob esse regime estão sendo soltos todos os dias! Melhores? Como eu vi o Flávio??? Claro que não!

Então, gostaria de dizer a todos os presentes nessa sala, antes de eu ir, que eu acredito no trabalho de vocês, embora tenha plena consciência de que ainda há muito a se fazer e a melhorar. Vocês concordam com isso, não? – todos responderam positivamente com a cabeça.

Continuei:

– E que fique claro: eu não quero que criminosos não sejam punidos. Todos devem pagar penas! Mas sei que a pessoa só vai presa depois de cometer o crime, isto é, depois que alguém já foi lesado como eu fui e por isso aqui estou hoje. Portanto, a minha luta será para que a sociedade não estrague mais tantas crianças. Acredito, depois de ter visto o Flávio, no resultado dos esforços em reabilitar e prevenir a reincidência. Gostaria de parabenizar todos vocês por isso.

Eu quero que ele continue recluso, porque não quero que ele faça mais nenhuma vítima quando voltar à sociedade. Continuem dando atenção a ele, por favor. Sempre desconfiei que aplicando mais violência em quem comete um crime é ir na contra-mão da reabilitação. O rosto do Flávio me provou que há grandes chances de todos aqui nesta sala estarmos certos.

Obrigada a todos. Por tudo. E não esqueçam de mandar meu abraço a ele.

Saí de lá só depois de receber alguns abraços. Acho que quebrei algum protocolo, sei lá. Falei demais mas agradei aos que lá estavam. Coisa rara por onde passo…

Voltei para casa usando o GPS mas, mesmo sem ele, sinto que estou no caminho certo.

2 Comentários

Arquivado em Crônicas, Opinião, Política

2 Respostas para “O Rosto do Flávio

  1. Fantástico! Concordo com você em tudo. Acho que no tocante a violência estamos combatendo apenas os sintomas e não a causa do problema. Precisamos focar em oferecer mais oportunidades a todos e reabilitar quem se desviar do caminho.
    Se truculência fosse eficiente os EUA seriam o lugar mais pacífico do mundo.

    Curtido por 1 pessoa

  2. Wagner

    Fico curioso em saber se este seria o mesmo ponto de vista de vocês caso o menor infrator, no momento do roubo, tivesse usado seu facão afiado e assassinado a vítima. Escrevam isso para aqueles que perderam seus amigos e parentes numa situação como esta.

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