Número de Emergência

solidao-221

Despachando bagagem e fazendo o check-in, a moça de uniforme sem olhar para mim com os olhos fixos para a telinha do computador pergunta em forma de um pedido:

– Um número de telefone em caso de emergência.

– Se o avião cair? É isso? A senhora quer saber para quem tem que ligar se o piloto tipo não conseguir voltar para cabine?

– Mais ou menos isso, senhora.

– Mas se eu entrar nesse avião pensando que ele pode cair, isso não deve fazer bem para a energia do sistema. A senhora pergunta isso para todo mundo? Pois não deveria, pensamento negativo atrai, sabia? Não acredita? Nem eu. Mas esse papo me deixou muito tensa e pensativa. Não imaginava que pudesse morrer agora…

– Um número de emergência, senhora.

– O da minha mãe. 9804… não, péra. Meu pai não está muito bem de saúde e pode enfartar se souber que morri. Pensando bem, isso vai matar a minha mãe de depressão também. Eles não podem saber da minha morte. E receber essa notícia da companhia aérea não vai ser nada legal. Diga para meus irmãos, anota aí o telefone deles, diga para eles cuidarem um dos outros e para minha empregada, pode ligar lá para casa mesmo, agradeça pela dedicação. Só um número? Pode ser o da minha irmã mais velha, mas se for ligar só para ela eu queria que você deixasse um recado também. Diga para ela dar um jeito e vir morar perto do papai e da mamãe. Não quero eles sozinhos. Diga também para ela dizer para meus pais que eu estou em um lugar muito bonito e para conversar muito com a Nara, minha filha adolescente. Ela tem andado de mau humor ultimamente, mas pode ser hormônios. Não sei. Diga para a minha irmã ter paciência com a minha filha. De repente, ela anda irritada porque andei fazendo coisas, tipo me separado do pai dela. Mas diga para a minha irmã dizer para a minha filha que eu estava precisando ficar sozinha e, com ele, estava me sentido sozinha. Eu sei. É difícil de entender. Estou fazendo terapia para resolver isso e se essa budega cair não vai dar tempo. Morrerei sem esclarecer porque as minhas manhãs foram tão paradoxais, as tardes, plenas de incertezas e as noites têm sido tão escuras e, ao mesmo tempo, em claro. Diga para ela dizer ao Hideo, meu filho mais velho, que ele é muito inteligente e que ele vai brilhar como músico. Eu fui mãe dele muito nova, sofri muito quando estava grávida. Meu pai queria até que eu não morasse mais com eles, agora veja. Não quis casar com o pai do Hideo, que não é o mesmo pai da Nara e do Yuki mas que acabou sendo o pai dos três com o tempo, papo longo esse, depois te conto se quiser, mas continuando… e o fato de não ter conseguido dar uma família do tipo ideal para Hideo me encheu de culpa durante muitos anos e, sabe deus por quê, descarreguei essa raiva de mim mesma nele. Sinto muito por essa péssima administração de meus problemas. Diga ao Yuki, meu caçula, que as mães não morrem. Que estarei com ele sempre. Yuki é muito sensível, chora por qualquer coisa e não vê mais filmes da Disney com medo do momento-barra-pesada. Avisa para a minha irmã que ela tem que conversar muito com ele para quando a vida chegar, ele conseguir deixar o filme rodando e não dar pause como ele faz com os desenhos. Peça para ela ler para ele sempre. Quero que meus filhos morem com o pai e gostaria que eles nunca tivessem deixado de conviver com ele. Sinto vergonha por ter feito essa separação forçada com todos eles. Imagina… separá-los do pai… uma pessoa tão bacana que só acrescenta na vida deles. Quanto mais perto dele, melhor para os três. Quiçá para mim também. Mas por que não estava sentindo que era bom para mim? Por que quanto  mais tento consertar mais pioro tudo? Por isso as pessoas são acomodadas, moça. Todos têm medo. E é para ter mesmo porque a dor pode passar do limite de ser insuportável, sabia? A inércia não pode jamais ser julgada. Diga ao Nelson, o pai dos meus filhos e o melhor ser humano que já conheci na face da Terra, anota aí 9767…, diga a ele que eu morri sem entender nada. Que eu morri sem futuro por sequer conseguir imaginá-lo mais. Que eu não morri arrependida, pois, fiz o que deveria ser feito para nos poupar de mais sofrimento, mas que ainda assim, se vivesse, não sei se teria coragem mais de olhar para ele de tanta vergonha por ser tão incompreensível para mim mesma. Gostaria de ter sido uma pessoa mais simples, mas não consegui. Peça-lhe que me perdoe, pois eu não fui capaz de fazê-lo. A casa está florida, procuro deixar sempre assim, mas não ando mais rumo às primaveras. Parei no outono desde início 2014 quando, ao ler Proust, tive uma doce, breve e ímpar sensação de ter sido compreendida. Se meu corpo for encontrado, quero que este livro seja enterrado comigo.

A senhora quer só um número, correto? Pois então, agora veja, acabo de descobrir que preciso de um número de emergência também, mas caso o avião não caia.

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Arquivado em Crônicas

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