Arquivo do mês: julho 2010

Contando os Passos

Eu queria muito conseguir escrever um conto  com personagens inventados e tirar, finalmente, o foco de mim. Mas, sinto-me incapaz de fazê-lo porque sempre que tento inventar uma história ela tem que ter um fundo musical. Na verdade, é como imagino que seja a vida. Que vivemos como nas grandes e memoráveis cenas das que vemos no cinema. Com uma música de fundo. Pode ser um samba, um rap, um rock, uma valsa ou um tango.
O meu conto deveria ter um compasso de dois por quatro e começaria no quarto de um hospital. Carlos Augusto, um senhor de 65 anos sofre de um mal que nenhum médico sabe a causa. Matilde, sua esposa dedicada há 40 anos, acabou de ser avisada por um homem alto de jaleco branco com um estetoscópio pendurado no pescoço que Carlos Augusto, bem, lamento, dona Matilde, mas Carlos Augusto vai morrer.
Um, dois…três, quatro. Um, dois…três, quatro.
Atordoada. Desesperada e sem saber o que fazer, Matilde faz uma promessa. Nunca mais tomaria refrigerantes. Nem aqueles com adoçantes! Mas deixe, meu Deus, por favor, que eu vá primeiro… Enxugou as lágrimas e foi ao encontro do velho companheiro.
Carlos Augusto assim sabendo da notícia, desespera-se ao lembrar-se de Patrícia!
Um, dois…três, quatro. Um, dois…três, quatro.
Matilde sempre atenta ao seu lado, certa de que qualquer coisa faria pelo coitado, percebe Carlos Augusto preocupado. Amor, você vai sair dessa. Disse a esposa fiando-se na promessa. Carlos Augusto descrente e com a morte a se aproximar, sentiu que precisava se confessar.
Matilde, meu amor, preciso te dizer. Eu tenho outra família em Irajá.

Tenho até netos!

Um, dois, três, quatro com o Xiquinho.
E fechou os olhos sem esperanças de mais viver.
O que Matilde sentiu todos sabemos. Com o que ninguém contava foi com Deus que não gosta de refrigerantes, ter achado a troca de Matilde interessante!
Um, dois…três, quatro. Um, dois…três, quatro.
Aconteceu que Carlos Augusto melhorou e em menos de uma semana para casa voltou. Dona Matilde recebeu orientação de controlar bem a alimentação. Os dois retomaram a  rotina, mas vivem num silêncio constrangedor. Carlos Augusto arrependido da confissão, Matilde não querendo se aproveitar da situação. Afinal, o que no leito de morte é falado é bem passível de ser perdoado.
Agora, quando Carlos Augusto vai dar uns passeios em Irajá, dona Matilde delicia-se com litros de Guaraná. Um, dois, três … quatro. Um, dois, três … quatro!

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Suíça

Frente fria que se aproxima. Que venha a chuva e que a minha indiferença a impermeabilidade não me desaponte. É preferível encharcar-se do que precaver-se com um objeto que nasce e respira quando o sol desaparece. Ventos fortes se aproximam. Que meus cabelos se embaracem com os meus olhos semi-abertos e que eu me vista de poeira. É preferível sujar-se a deixar que o ar em movimento ria no seu ouvido. Deixar que o suor lhe seja roubado e permitir-se ser acariciado pela aragem. E que o agasalho resista um pouco a ser usado para que eu aqueça a atmosfera. Que ninguém ao meu lado precise de ajuda porque os meus braços estarão ocupados. Abertos.
Que as metáforas decadentes como essas sejam úteis, mas sublimadas junto com o meu medo. Porque é preciso ser só e a viagem… a viagem tem que ser feita.

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Quando O Coração Não Se Apóia No Diafragma

Era para ter sido uma visita ao supermercado sem grandes reflexões. Preciso comprar batata, iogurtes e algum pedaço de bicho para comer mais tarde. Passo no caixa. Pago e volto para casa ouvindo música enquanto dirijo. Era para ter sido assim. Indolor.
Caminhando para o estacionamento aqui do Wall Mart do Campinho nos deparamos com algumas lojas e quiosques e foi num desses, para ser mais precisa, no quiosque do Cacau Show que me deparei com o rosto conhecido da vendedora que fez uma expressão de surpresa quando os olhos se direcionaram para mim.
– Elika?
– Erica?
Erica foi minha amiguinha da escola quando cursei o que chamávamos de primário. Pela semelhança do nome e pelo fato de dividirmos o gosto pelo pique-pega na hora do recreio acabamos nos aproximando no primeiro dia de aula.
– Quanto tempo!
– Pois é, quanto tempo!
Erica havia envelhecido a beça, estava com o cabelo pintado e com uma maquiagem que parecia brigar com o diabo do tempo. Meo deos… o que Erica está pensando de mim que nem maquiagem passei ao sair de casa? Por que vim assim tão desarrumada fazer compras? Há três anos fui proibida de pegar Sol pela dermatologista e devo estar com a maior cara de vampira para quem me olha assim de repente, depois de quantos anos? Quantos???
– Devem fazer uns 30 anos que não nos vemos! – Respondeu Erica aos meus pensamentos.
– Tudo isso???
Caramba…já? Ela era da pá virada. Vivia na turma da bagunça e colava igual uma desesperada nas provas. Lembro-me de que tive que pedir para tia me deixar longe dela nos dias em que nossos conhecimentos eram testados porque ela nem esperava eu ler a questão direito e já começava a me cutucar querendo saber a resposta. Ela mesmo nem se dava ao trabalho de ler. Dizia que não adiantava mesmo.
– Você continua estudiosa? Porque eu me lembro que você era a maior CDF.
– Ah não. Nunca fui isso não…
Teve um dia que ela foi chamada na sala da diretora porque mordeu a orelha de um menino igual o Mike Tyson fez. Na verdade, quando eu o vi na televisão por causa desse lamentável episódio lembrei-me da Erica. O Humberto (caramba, por onde será que ele anda com um pedaço a menos de orelha?) não tinha nada que ter chamado a minha amiga de gorda.
– E você continua tocando piano?
– Ah… não mais. Agora quem toca é minha filha de 12 anos. Eu tive três filhos: o mais velho com 16, ela com 12 e esse aí com 3. – Apontei o Yuki que estava enfiando o dedinho na gaiola da kalopsita no pet shop ali ao lado.
– Nem parece que tem um filho de 16 anos. Aliás, nem parece que teve 3 filhos. Você está otima!
E o dia que ela vomitou depois do recreio? Também, comeu um egg-cheese-presunto-tomate-alface(mal lavado)-burger com grapete e foi pro pique-pega… todo mundo teve que sair da sala por causa do cheiro e ela ficou toda boba, se sentindo a mulher-maravilha, uma heroína porque a aula foi cancelada. Ela tinha o estranho poder de vomitar sem constrangimento.
– Ah, minha filha, eu tive um só. Mas tenho duas enteadas. Na verdade mataram meu marido porque, nem te conto, ele sabia demais. – e abaixou o tom de voz como se me contasse um segredo. – Ele trabalhava ali, naquele restaurante bombadésimo na Abolição, de segurança. Mas o dono? Ih! Nem te conto…- e desatou a me contar um punhado de falcatrua do dono que mandou matar o marido que sabia demais(?), mas eu nem me interessei em assimilar nada do que estava sendo cochichado. Dois motivos: não ouço mais naquela frequência e porque Yuki estava tentando abrir a gaiola.
– Yuki, tira a mão daí!
– Depois que ele morreu, eu e a amante dele nos tornamos amigas e passei a amar as minha enteadas como se fossem meu filho! Tem que ver como elas são lindas. Outro dia elas dormiram comigo para a Bê sair, ficamos vendo filminhos até tarde…elas nem perguntaram pela Bê, acredita? Tem visto o Fabinho?
– Quem? Ah não. Nunca mais vi ninguém. Ás vezes pelo orkut um ou outro aparece…
– Ele era CDF igual você, né? Sabe do que eu me lembro bem, na verdade uma das únicas coisas que me lembro da época de escola? Daquele boneco que você levou para a feira de ciências que mostrava o corpo todo por dentro, você ainda tem esse boneco? Caramba, vira e mexe eu me lembro dele. Lembro que você tirava tudo de dentro dele e ficava montando e explicando para gente cada lugar de cada parte do nosso corpo. Intestino, pulmão, coração…era maneiro o boneco. Nunca mais me esqueci disso. De resto, não me lembro de mais nada. Queria mostrar aquele boneco para as meninas…
Caramba. Nem me lembrava mais do boneco. Acho que papai o havia trazido do Japão de presente para gente, era tipo um quebra-cabeças. Ele só fechava se tivesse tudo no seu devido lugar…lembro-me de mamãe dizendo que poderíamos aproveitá-lo na feira de ciências … lembro-me de que o estômago fica entre o pâncreas e o fígado que é grandão e é ele  quem liga o esôfago ao intestino delgado (senão o boneco não fechava).
Óbvio que fui tentar resgatar o boneco. Liguei para minha mãe assim que cheguei em casa e antes de guardar as compras. Mamãe se lembrou dele na hora e também do tamanho dos nossos intestinos. Mas, infelizmente, ela me disse que não sabia do paradeiro do brinquedo. Uma pena. As meninas da Erica iriam se divertir.

Pique-pega. Grapete. Piano. Crianças. Feira-de-ciências. Assassinato. Cola na escola. Amizade. Eis o boneco com as vísceras à mostra.
Realmente não é fácil fechá-lo.

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Ciclo Sem Fim

Nara tem sentido medo ultimamente. E como consequência de qualquer medo anda tendo umas visões. Minha filha que eu julguei pronta para viver quando completara oito anos, tamanha era sua independência e determinação, agora, pré-adolescente, cisma em ter a mãe ao lado na hora de dormir a anda dando uns gritos estridentes pela casa como se realmente estivesse vendo fantasmas.
Achei estranho e resolvi apurar o caso com a delicadeza de uma bailarina e a esperteza de Sherlock Holmes. Enfim, coisas que só as mães sabem fazer.
– Nara, desembucha logo e diz o que está acontecendo. – Essa sou eu, como sabem. Quando sou firme e não sei ao certo o que fazer, eu falo desse jeito aí.
– Ai, mãe, você nem vai acreditar, mas a Aline é espírita e a Erica estava me explicando que quando a gente morre, a gente fica por aí, sabe? Quer dizer, uns ficam, outros voltam em uma outra pessoa, sei lá, mãe, uma confusão. E a Izumi disse que é espírita também porque estava fazendo um trabalho sobre o nosso bisavô que morreu na guerra e começou a sentir umas coisas. Daí, a professora disse que ela estava sentindo o espírito dele e ela que anda meio mística ultimamente falou para mim que era espírita agora. Ai, mãe, eu acho que sou espírita também porque ando vendo umas coisas que eu não quero ver…
– Deixa de bobeira, Nara! – Disse eu tentando usar sem sucesso o que aprendi nos livros de Içami Tiba.
Expliquei depois, mais comedida, que algumas crianças da roça juram de pé junto que já viram mula-sem-cabeça, que quando estou sozinha em casa e com medo de ladrão qualquer vento batendo na janela me assusta, que os católicos veem a Nossa Senhora numa nuvem…
– … e tem mais, madame, se for sair por aí dizendo que é espírita tem que saber sobre o que está falando!
Eu, na verdade, estava despreparada como os pais pegos de surpresa quando os filhos perguntam de onde vem os bebês. Por  mais que eu tenha um parecer bem definido sobre o tema, eu não me sinto preparada para discutir ainda, com profundidade,  questões dessa natureza com um filho.  Achei o debate precoce. Mas, o que eu não queria decididamente naquele momento  é que  Nara formasse uma opinião somente com o que chegasse pelos ouvidos. Em se tratando de algo tão importante, que será o alicerce para a  visão que se terá de mundo e consequentemente para a vida, é preciso experimentar por todos os sentidos. Beber de várias fontes não como os jogadores bebem água no intervalo de uma partida, mas sim como os enólogos que visualizam o vinho no copo, sentem o aroma, verificam a textura para enfim, só depois, degustá-lo.
Não posso me esquecer de que esteja ou não essa explicação correta, não há dúvida de que a religião tem tido o papel de fazer com que as pessoas se contentem com o que possuem e com o que deixam de ter de uma hora para a outra. Todos, em maior ou menor grau, viveriam bem menos angustiados sendo religiosos. Vai que Nara precise disso…
– Toma aqui. – E dei a ela, com a mesma vontade e insegurança de uma criança que devolve o brinquedo do amigo, o Livro dos Espíritos de Allan Kardec. Nara ficou olhando assustada para a capa.
– Quem foi esse cara?- Perguntou minha filha apontando o desenho do rosto do autor estampada na capa e desprezando completamente a minha vontade silenciosa de adiar a discussão.
Antes de responder a essa pergunta, descontrolei-me ao ver a Nara folheando, curiosa, o livro que eu mesma havia acabado de colocar em suas mãos.
– Presta atenção, mocinha, num fato interessante: quando alguém tem uma experiência religiosa que provoca a sua conversão, é sempre para a religião ou para uma das religiões mais comuns em sua própria comunidade. E há tantas possibilidades, Narinha …por exemplo, é muito raro por essas bandas daqui que alguém tenha uma experiência religiosa que leve à conversão para uma religião em que a principal divindade tenha a cabeça de um elefante!
– Cruzes, mãe! Que doideira!
– É, mas fique você sabendo que na Índia existe um deus meio rosa de cabeça de elefante que tem muitos devotos! Por que a Virgem Maria não aparece lá na China onde não há tradição cristã pronunciada? Por que os detalhes da crença religiosa não ultrapassam as barreiras culturais? Se você quiser muito saber a Verdade, é necessário ficar esperta, mocinha. Quando compramos um carro usado não basta lembrar que precisamos de um carro. Afinal de contas, ele tem que funcionar! Não basta que o vendedor seja simpático, carismático e bem articulado. Mesmo diante de uma figura dessas, chutamos os pneus, abrimos o capô, verificamos o odômetro…ou até chamamos um amigo que entenda de carros mais que a gente! Fazemos tudo isso por uma coisinha assim, como um carro. Em questões sobre a origem do mundo, a natureza dos seres humanos, como devemos nos comportar? Lembre-se disso ao ler essas páginas, ok?
E no momento que estava falando tive uma epifania que subitamente me acalmou. Meu coração desacelerou com a entrada lenta do ar que preencheu ao máximo meus pulmões e os deixou com a mesma demora.
– Nara, minha filha, na verdade eu acho que a busca é válida e que deva ser praticada sempre, mas não com o intuito de descobrir a resposta e ficar com a sensação arrogante de que a possui perante os outros que ainda não a encontraram. Mesmo porque eu acho que se algum dia chegarmos a ponto de imaginar que compreendemos a fundo quem somos e de onde viemos, teremos fracassado. Buscar não é impor ao Universo ou a Deus nossas predisposições emocionais, mas aceitá-Los com coragem e receber com humildade o que a nossa exploração revelar. A propósito, esse cara da capa foi o fundador do espiritismo. Allan Kardec, Nara. Nara, Allan Kardec. Agora que vocês dois já se conhecem , vão conversar em outro lugar, por favor.
Verbalizei a minha vontade de ficar só e fui respeitada da mesma hora. Nara pegou o livro pelos braços como se abraçasse um amigo. Agora lá estão eles iniciando uma grande discussão e cá estou eu refletindo sobre o que ando fazendo com meus filhos.

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A Tristeza É Senhora

Já acreditei até em Deus um dia, mas nunca na psicanálise. Uma terapia para quem tem alguma fobia, alguma compulsão, vá lá. Fora isso a consulta, para mim, se igualava a dar dinheiro para o padre ouvir sua confissão com o ponto desfavorável de ficarmos sem a penitência e nada que nos lave a alma. Muito pelo contrário. As pessoas que eu conheço e que são adeptas a tal prática falam de mergulhos internos, reflexões sobre o “eu” intensas, de ficar colocando o dedo em feridas já cicatrizadas para tentar entender por que doeu e ainda me recomendam! Um troço de louco, coisa para ir ao psicólogo mesmo.

Pelo fato de não acreditar na força do Bem e muito menos na força do Mal (e na terapia), eu saía por esse mundo despida e desavergonhada. Nunca escondi de ninguém meu medo de dormir sozinha, meu excesso de alegria por ter uma casa cheia, o relacionamento truncado com meu filho mais velho, como para mim é inconcebível ficar longe de meus pais, o orgulho do meu nome e o fato de não tê-lo mudado depois que me casei, minha fobia de insetos, meu medo de envelhecer, minha descrença em qualquer religião, a vontade de crer em alguma coisa, a saudade descontrolada que sinto das minhas irmãs e dos meus sobrinhos, minha mudez nas aulas de filosofia, a dificuldade de aceitar alguém amando meu filho, a tristeza que senti juntamente com o alívio no dia em que ligaram as minhas trompas, a minha supervalorização a leitura, meus pesadelos, a quantidade de relógios que tem aqui em casa, a segurança necessária ao olhar-me no espelho, o desejo de embriagar-me, o orgulho de minha filha, a incapacidade de encorajar meu filho mais novo a dormir longe de mim, a minha dificuldade em dizer não até para atendente de telemarketing, a minha gula e outras tantas coisas que só se deve falar para os amigos mais íntimos.

Com o tempo, porém, por não ter aprendido a controlar os músculos de minha boca fazendo-os descansar com a frequência exigida pelas normas de segurança, até aqueles que nunca estiveram em um divã recomendaram-me para que eu me deitasse em um. Maldita hora em que dei ouvidos aos amigos. E lá estava eu, na terça-feira passada. Deitada. Em silêncio. Pensando sobre o que mais me afligia no momento para começarmos a terapia.

(Demorei a falar porque são muitas as minhas aflições ou porque me sentia um enólogo pagando para provarem o meu Petrus?)

Farei uma mala. Dentro dela não terá nada que não pertença a mim. Mandei um trabalho para participar de um congresso em Salvador e me inscrevi numa escola de Física de Partículas que ocorrerá em Genebra. Nada certo ainda. Mas a possibilidade não da viagem em si, mas da mala preenchida exclusivamente por coisas minhas é a visão do inferno.

(…)

Pesadelo? Que pesadelo? O da semana passada? Nem me lembrava mais do diabo desse pesadelo. Ah sim, estávamos todos num templo budista e começaria uma sessão do avesso de harakiri. Todos, a contragosto, deveriam se matar. Bem, estavam meus pais, meus filhos, meu marido,Lucimar e um punhado de gente.No final, restavam somente minha mãe e eu. Eu pedi para morrer primeiro porque não queria ficar um minuto sequer sem a minha mãe, mas no momento em que ia espetando uma faca, ou melhor, a espada ninja em meu coração minha mãe perguntou se eu não queria ligar para o Hideo, meu filho mais velho, que este ano está morando com o pai. Peguei o celular, saí do templo e liguei para meu filho em prantos, pedi para que ele estudasse, que vendesse a nossa casa e comprasse um apartamento melhor para ele e para o pai. Disse que o amava. Depois, falei com o Ricardo. Agradeci a ele o fato dele ter me dado o Hideo e disse para cuidar bem do nosso filho porque eu ia morrer em minutos. Ao desligar o celular, o pesadelo começa. A sessão esquizofrênica do harakiri havia encerrado. Apareceram duas freiras dizendo que proibiram que aquilo se repetisse. Eu não morreria mais e, no entanto, desesperei-me por continuar viva e não mais poder morrer. Não havia sobrado ninguém. Eu estava só.Voltei para casa, abri a porta e caí no chão em prantos.

(…)

Sim, é verdade, eu me perco quando estou só ou diante da possibilidade da solidão, mas isso não é característica minha. Se você tirar isso de mim, eu deixarei de ser humana.

(…) foram cinco comprimidos que tomei na semana passada. A caixa de Cefalium não tem durado quase nada ultimamente.

Continuei na minha apnéia interna olhando para um quadro feio na parede desejando não fazer parte dele.

A noite, as aulas de italiano. Chegamos num ponto no curso que o importante é falar, expressar-se sobre seja lá o que for na língua de Pavarotti. E lá estava eu falando, em italiano, da mala de novo e do pesadelo que agora eu não esqueceria mais (grande terapia…eu quero é esquecer! Esquecer!).

Hai paura di stare da soli? Perché non fare un patto con una amica? Ho fatto con la mia! Se rimaniamo in soli, vivremo insieme! Basta fare un patto! Stop con questa sofferenza!

Caramba! Adoro isso! Viver no modus simplificadus! Nada de complicar a vida! Basta combinar com uma amiga de ficarmos juntas na velhice. E se eu sentir que ela está tendo um troço, pego a espada de harakiri e me mato primeiro.

Amanhã. Terça-feira. Dia de divã.

Lá vou eu (.) (?) (!) (…)

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