Caleidoscópio

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“Lúcia ao chegar na cozinha vê uma barata, pisa e mata o inseto.” – Elika Takimoto

“Eu estava nu na cozinha, quando Lúcia entrou com a bunda de fora. Uma trintona atraente, a boca um pouco grande, mas eu já encontrei mulheres assim que não valiam nada. Tive que bancar o gentil e me prontifiquei para matar uma barata gorda e suculenta que desfilava no chão. Lúcia pediu para que, antes, eu passasse a minha mão nos pêlos de sua púbis enquanto ela corria o dedo de leve pelo meu pau. Em pouco tempo, expeli lava como um vulcão. O sêmen, cola exposta no ar. Lúcia com os dedos provou-o e com os pés descalços matou a barata. Aquele bicho foi dilacerado pelas mãos de Lúcia e sua gosma, junta da minha lambuzaram a sua boca.” – Rubem Fonseca

“-Argh! Mãe, fala sério! Mata logo essa barata! Eu super tenho nojo desse bicho e quero mega beijar na boca do Dudu quando ele chegar aqui. Fala sério, mãe! Se você não matar eu tenho que super sujar os meus chinelos mega lindos! – Falou a fofa da Lúcia.

A barata correu na direção da menina e ela no instinto pisou na bichinha com seus chinelos fofuréééésimos.

– Fala sério, mãe! Nem me ajudou!” –  Thalita Rebouças

“Em Lisboa, no outono de 1875, Lúcia já era conhecida na vizinhança da rua de S. Francisco de Paula em todo o bairro das Janelas Verdes, pela casa do Ramalhete, ou simplesmente Ramalhete. Apesar deste fresco nome de vivenda campestre, o Ramalhete tinha paredes severas, com um renque de estreitas varandas de ferro no primeiro andar e insetos relambórios d´onde D.Maria cozinhava. Affonso ia longe. Naquela idade, de verão ou de inverno, ao romper do Sol, estava a pé, saindo logo para a quinta, depois de uma boa oração da manhã que era um mergulho na água fria.  Lúcia, com seu lenço de seda comprado em Coimbra por Affonso, às vésperas da chegada de Carlos, ao sair do fumoir, a sala mais cômoda do Ramalhete, adentrou a cozinha. Ao olhar para o chão, tão pleno de cores cantantes de velhas faianças holandesas, deparou-se com uma barata. Indignou-se com o inseto fugindo airosamente à bolina. O nojo exagerado e mórbido cessou por fim. Lúcia, numa exuberância ansiosa que desencadeou tão subitamente, na sua natureza desequilibrada, pisou depressa naquela criatura que sequer deixou ser percebida por D.Maria. A vida d’aquele invertebrado dissipou-se no piso do Ramalhete.” – Eça de Queiroz

“Lúcia da Paz entrou com o à-vontade de quem conhece os cantos à cozinha, e perguntou para a barata que viu no chão, O que fazes aqui, e ela ao não responder ouviu mais, Exijo que me faça um favor de sumires, Tome logo a sua direcção, Enfrenta-me? E matou a barata. Lúcia da Paz passou as costas da mão pela testa molhada de suor. Tinha conseguido o seu objectivo, não lhe deviam portanto faltar razões para estar satisfeita, mas a condução daquele dificultoso diálogo que correra sempre por conta dela mesmo quando não parecia que assim estivesse sucedendo, sujeitando a barata a um contínuo rebaixamento que não se objectivava explicitamente nas palavras por ela pronunciadas, mas que porém, uma a uma, iam-lhe dando nojo e fez-lhe de pura uma assassina.” – José Saramago

“Mire veja: de tudo não falo e dizendo vou. Eu quis lavar as mãos que muito sujavam. Acho que, de cansado estava também com dôres redondas de cabeça, molhei minhas palmas e minhas fontes. Cansaço faz tristeza, em quem dela carece. Adentrando na cozinha, vi Luça distraída sem ver uma baratinha. Os outros, o resto, essas criaturas? Assim eu discernava, sorrateiro, muito estudantemente. Mas nem birra nem agarre Luça estava acautelando. O que era direito, que se tinha. O que pensei, deu de ser assim. Luça pisou na bicha porque para matar ela sempre foi pontual. Se diz.”- João Guimarães Rosa

“A única verdade é que a barata ainda vive. Quem é ela? Bem, isso já é demais (…) Perco a consciência, mas não importa, encontro a maior serenidade na alucinação. É curioso como não sei dizer o que é uma barata. Quer dizer, sei-o bem, mas não posso dizer. Sobretudo tenho medo de dizer, porque no momento em que tento falar não só não exprimo o que sinto como o que sinto se transforma lentamente no que eu digo. Pensou Lúcia. Mato-a e tudo isso acaba.” – Clarice Lispector

“Lúcia descobriu, ao ver uma barata, que é preciso superar a dor onde estiver, mesmo que isso signifique horas, dias, semanas de decepção e tristesa. Porque ao momento em que partimos para que tenhamos menas dor, ela também parte de nós. Lúcia matou a barata e olhou para as estrelas.”- Paulo Coelho

“Boa pontaria faz toda a diferença. – pensou Lúcia. Às vezes um alvo está mais perto que outro e isso parece facilitar as coisas, às vezes uma pessoa parece legal mas é camuflagem, às vezes alguém se move em nossa direção e, antes de ouvi-lo, o abatemos. – E concluiu ao ver uma barata: – Viver é lutar um pouquinho a cada dia pela nossa felicidade. Ninguém sai ileso dessa briga, mas fere-se menos quem tem bom faro, noções de diplomacia e, principalmente, sabedoria para distinguir a hora de atacar e a hora de se defender. Lúcia, então, bem mais segura, percebeu que era hora de matar a barata.” – Martha Medeiros

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Arquivado em Crônicas

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