Arquivo do mês: abril 2010

"A memória é o único paraíso do qual não podemos ser expulsos" *

*Johann Paul Richter

Ando desmemoriada. Dizem que quando a idade vai chegando é assim mesmo. Mas que idade? Trinta e sete anos?!? Outro dia li uma pesquisa, não me lembro onde, que dizia que o cérebro dá tilte com excessos de informação e se tem algo de que nós, atualmente, temos overdose diária é isso. Informação. Internet, celular, televisão, telefones, rádios, pessoas… ficamos no meio de tudo isso tentando filtrar o que é importante. Fora isso, tenho que ficar atenta aos horários dos remédios do caçula, às datas de vencimentos das contas, aos horários do piano, da dança, do teatro, do inglês e da escola da minha filha, aos prazos de entrega dos originais de provas e aos textos super cabeludos de filosofia. O HD está lotadaço.
Não há o que fazer no meu caso. Boa alimentação, estudar uma outra língua, ler e fazer exercícios físicos regularmente é o que aconselham. Isso tudo eu já faço, levando em conta a minha definição de regularmente: uma vez por mês. E mesmo assim, ando esquecendo, por exemplo, de fechar a porta do carro com a chave. Outro dia lembrei de fechar, mas esqueci a chave pendurada bem na porta. Ontem, levantei-me rápido do computador por lembrar de que tinha algo importante a fazer. Entrei no banheiro, olhei-me no espelho, notei que não havia passado o fio dental, passei o fio dental e voltei pro computador. Minutos depois… pus-me de pé ligeiramente de novo, assustada, ao  certificar-me da mesma coisa que me fez sair da cadeira num passado pouquíssimo remoto e de que não tinha absolutamente nenhuma ligação com passar o diabo do fio dental.
O interessante é que, na contramão, tenho me lembrado de outras coisas assim do nada. Posso estar escrevendo, dirigindo, nas aulas de filosofia, no supermercado e de uma hora para outra…pronto. Pego-me rindo ou chorando sozinha devido a uma breve recordação de algum episódio visto, vivido ou ouvido que vem do além direto para a minha cabeça. Coisas bem nada a ver mesmo, como essas:
– Fafá de Belém cantando o Hino Nacional no Fantástico quando Tancredo Neves que foi eleito presidente morreu antes mesmo de se apresentar aos brasileiros como tal. A cantora que fez jus ao título de intérprete emocionou a todos que ouviram o hino ser cantado como ninguém cantou antes. Por isso foi processada na época, mas não importa. Foi lindo. E eu não me esqueci. Outro dia, fechei os olhos tentando me lembrar do nome do pedreiro que esteve aqui em casa e nesse mesmo instante comecei a ouvir a Fafá. Oooouuuu…viram do Ipiraaaanga as margens plááááááááciiidas. Assim, de repente. Fiquei toda arrepiada, com cara de boba, abri os olhos devagarinho e disse de sopetão em voz alta: Gelson!
– Quando era adolescente fui à Minas passar férias em Itajubá, terra natal de mamãe, com meu namorado (que hoje é meu marido) e alguns amigos. Ficamos na casa da madrinha de minha irmã mais velha, amicíssima de mamãe desde quando eram crianças. Nelson havia saído de bicicleta sozinho. Ficou um tempão fora e voltou pedalando com dificuldade por estar com um braço segurando o guidão e o outro, um quadro enorme. Ficamos curiosos para ver que quadro era aquele. Depois de tanto mistério, ele tirou o papel que protegia a imagem e mostrou pra gente super animado o quadro recém adquirido. E então, gostaram? Lú, nossa amiga, disse que havia adorado, mas fez uma observação: Não sabia, Neca, que você gostava do Sílvio Brito! O quadro, na verdade, era uma pintura super mal feita de John Lennon. Tudo bem que os dois são meio parecidos, mas não importa, o quadro foi vendido e comprado como sendo uma imagem do ex-beatle. A cara do Nelson ao olhar para a da Lú sorrindo para o quadro … Vira e mexe eu tenho me lembrado dela assim do nada  e caido na gargalhada sozinha. Outro dia foi na fila do supermercado. Um moço até olhou para mim procurando, inutilmente, a graça. Em tempo, o quadro nunca foi pendurado em lugar nenhum.
– O cheiro, exatamente, o cheiro da sala dos meus avós nas tardes de sábado. Mais precisamente quando vovô tocava bandolim e tio Sebastião violão, sentados no sofá (Eles deviam fazer isso de segunda à sexta também, mas eu só os via nos finais de semana). Eles passavam horas tocando. O som era muito agradável, ver os dois tocando e se divertindo era um deleite, mas o aroma sempre presente naquela cena … Puxa vida, tem me causado dores e produzido lágrimas assim…do nada. Quarta-feira passada, na UERJ, entrei no elevador super bem e foi só apertar o nono que senti o cheiro sem quê nem por quê. Cheguei lá em cima malmalmal de tanta saudade.
– Cenas do filme “A Noviça Rebelde” agora tem me perseguido. “Vejo”, quase todo dia, Julie Andrews ora ensaiando as crianças para cantarem quando o pai  delas chegasse de viagem, ora correndo e girando em torno de si mesma de braços abertos nas montanhas da Áustria, ora ensinando uma música que nos faz perder o medo (seja lá do que for) quando a cantamos … essas cenas tem vindo à minha mente de uns tempos pra cá quando eu tomo banho. Agora é assim. De vez em quando, eu e The Sounds of Music nos amalgamamos debaixo do chuveiro.
– Glória Pires, no papel de Ana Terra, cavalgando na minissérie “O Tempo e O Vento” exibida na Rede Globo, baseada na obra homônima de Érico Veríssimo. Da história mesmo, lembro-me de pouca coisa, quase nada. Sei que se passava no Rio Grande do Sul e olhe lá. Lembrei-me exatamente da Ana em cima de um cavalo com os cabelos balançando e sendo penteados pelo vento quando entrei na Presidente Vargas outro dia e vi todos os sinais abertos. Verdes para mim. Todos eles! Acelerei o máximo que pude e nesse momento, sabe deus por quê, desliguei o ar, abri os vidros e de repente… eu era a Ana Terra em cima de um cavalo, sorrindo à toa, mas com os cabelos todos nos olhos e na boca.
Vai entender…

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E para quem nunca viu nem ouviu falar…com vocês: Sílvio Brito!

Argh!

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Acorda, Rosely Sayão!

Hoje de manhã, indo para o CEFET animadíssima e engarrafadíssima na rua Goiás, às seis e quarenta da manhã, liguei o rádio para ouvir as notícias do dia (anterior) pela bandi nils éfe eme.
Exatamente nesse horário, há uma conversa com uma tal de Rosely Sayão, uma psicóloga super conceituada que transforma os problemas mais cavernosos em coisinhas assim, super simples e fáceis de lidar. Os pais ligam para ela se descabelando e saem da conversa todos penteadinhos sabendo direitinho o que fazer.
Mãe esperta que sou de três filhos em idades completamente diferentes, sei exatamente o que deve ser feito com os filhos dos outros e, na maioria das vezes que a ouço falando e aconselhando, eu me sinto apta a trocar de lugar com essa tal de Rosely. Acho o trabalho dela super simples e as respostas muito óbvias. Por exemplo, se o filho só quiser comer doce na hora do almoço… o que fazer? Moleza, não? E quando o meu filho adolescente não larga o celular?, como limitar o horário do computador?, e se meu filho quiser sair e eu não tiver dinheiro??? Rosely, a psicóloga-cabeça, fala um blá-blá-blá lá afirmando sempre que os pais devem ser mais incisivos em casos como esses, o que traduzido para o vulgo quer dizer que essas coisas se resolvem facilmente no grito e quase nunca na conversa. Nem precisava estudar para ser uma Rosely Sayão. Tudo o que ela diz, ou melhor, dizia que deveria ser feito com essa molecada alheia é patente e eu, claro, concordava. Até que hoje…
Rosely, uma mãe aqui está desesperada porque o filhinho dela de quatro anos vai para a cama dela tooooooda noite. A mãe diz que pega o menininho, coloca de volta na cama, mas diz que ele volta! E esse procedimento acontece umas quatro ou cinco vezes até que a mãe cede e acaba dormindo mal por conta disso. O que fazer, Rosely? Perguntou Inês de Castro, a radialista. Eu, no carro, imaginando essa cena, sendo mãe de um garotinho de três anos que dorme segurando um carrinho, esbanjei sabedoria e respondi à mãe sem titubear: coloca um colchonete no quarto, senhora! Mega óbvio a resposta. Problema resolvido. Simples assim. Sem traumas e aborrecimentos. Próximo! Mas qual o quê! Rosely veio com um conselho pra lá de bizarro. Eu não a conheço pessoalmente nem sei como ela é fisicamente e nunca quis saber, mas hoje comecei a imaginar uma velha de cabelos grisalhos, longos e alvoroçados, portadora de um nariz grande com uma verruga na ponta e usando um chapéu grandão, roxo, em forma de cone falando no microfone. Inês, essa mãe tem que ser mais persistente. A criança tem que aprender que deve dormir sozinha. SO-ZI-NHA? Gritei eu no carro já suando me imaginando no lugar do menininho. Isso mesmo, Inês!, respondeu Rosely me confundindo com outra. O menininho tem que ver que não adianta ele ir para a cama dos pais e que a noite é cada um no seu quadrado, quer dizer, no seu quarto! Que absurdo! Mil vezes que absurdo. Fala sério, Rosely!
Eu, até eu!, que só fui dormir sozinha pela primeira vez quando fui a São Paulo há dois anos atrás (na verdade eu não consegui dormir, mas isso não vem ao caso), sei que todos os bichos do Universo dormem juntos. As galinhas, os macacos, os peixinhos e os passarinhos. Quando um se separa é porque acha que se garante e até onde eu saiba não é o caso nem do leão e nem do gavião! Aqui em casa, todos tem um quarto separado, mas se alguém se sentir inseguro pode vir que eu protejo. E quando meu marido viaja, eu faço questão, mesmo que eles não queiram, de protegê-los. Bóra dormir com a mamãe, galera. Se, por um acaso, eles dispensarem meu quarto eu pego um colchonete e fico de prontidão dormindo ao lado deles. Comigo é assim. Passo a maior segurança pra garotada.
Taaí. Hoje dona Rosely Sayão me decepcionou. Mandei um email para lá manifestando a minha indignação e me colocando à disposição para os ouvintes caso precisem de maiores esclarecimentos sobre o tema. Pelo que tudo indica, o email foi desprezadaço. Por isso vim pra cá, onde sou levada super a sério.

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Nem Tanto ao Céu, Nem Tanto à Terra

Entrei numa loja de roupas íntimas e rapidamente aproximou-se uma vendedora perguntando se eu queria ver algo especial. Respondi com um sorriso debochado, pois, havia entrado numa loja que só vende um tipo de produto. Estou procurando calcinhas e sutiãs. Falei por falar, por impaciência, por TPM, por querer ficar logo sozinha de novo escolhendo mas, em seguida, ouvi:- Sei. Mas a senhora quer ver coisas de esposa ou de amante?

E lá vamos nós.

Quando os filósofos debatem um determinado assunto, antes que a discussão se inicie é um hábito senão uma necessidade definir algumas palavras que serão mencionadas a fim de evitar maiores confusões. A pergunta me paralisou por alguns segundos, pois, na minha definição de esposa a palavra amante é indispensável.

Lembrei-me, no momento da pergunta inesperada da vendedora, de um texto que havia preparado para dar de presente para a minha filha quando ela se casasse se é que isso vai acontecer um dia. O texto versava principalmente sobre casamento, mas também mencionava o que é ser, na minha opinião, uma esposa. Não vou reproduzi-lo na íntegra aqui porque ele é enorme. Citarei apenas uma parte.

Nara, não há segredos para o casamento dar certo. Há muitas mentiras que acabam por nos enlouquecer caso acreditemos nelas. Falam, por exemplo, que casamento é um deus-nos-acuda, um deus-me-livre e até, agora veja, coisa de Deus. Ouve-se por aí ainda hoje que o amor é de família nobre e tradicional, enquanto o sexo vem da periferia e é chegado numa promiscuidade. Não é nada disso, querida. Nem tanto ao céu, nem tanto à terra.

Comecemos por entender que homem nenhum jamais irá pertencer a uma mulher e vice-versa, independente do papel que assine ou do tamanho do ritual que sacramentará essa união. Somos livres, Nara. Mesmo dentro de um casamento. E ficaremos ao lado da pessoa com quem casamos por livre e espontânea vontade caso queiramos nos deparar com a tal da felicidade com uma certa frequência.

Se você foi escolhida para compartilhar a intimidade com alguém é porque você foi a pessoa que conseguiu conhecê-lo com maior facilidade e que, portanto, será a primeira a ser requisitada para ajudá-lo, caso ele precise. Você será amiga, contudo, também será amante. E para que isso não signifique que você tenha dupla personalidade deverá ser romântica ao desempenhar esses dois papéis. Mesmo nos momentos do sexo despudorado, minha filha.

Casamento tem que ter um quê de brincadeira de criança embora seja imprescindível que haja maturidade. As características que marcam um relacionamento maduro são infinitas porque os casais sempre estão se reinventando, mas vou citar algumas para que você entenda o que quero dizer: o silêncio feminino na hora do jogo, o olhar carinhoso dele ao te ver dormir com uma camisa que ele adora, dançar só para ele (mesmo que ele caia na gargalhada toda vez que você tentar excitá-lo com isso), ganhar (e dar) a primeira colherada do sorvete, abrir uma cerveja num final de tarde de domingo mesmo sem ter os amigos em casa, ele tentar te fotografar enquanto você anda a cavalo, lingeries novas, …coisinhas assim que juntas e misturadas como se fossem uma coisa só são de suma importância. Fique atenta a elas. Muita gente as menospreza ou não lhes dão o devido valor.

(…)
Olhei para a vendedora e mesmo com pouco conhecimento ao seu respeito tive uma opinião formada. Para me fazer essa pergunta tratava-se de uma pessoa completamente diferente e distante de mim. Diria até que vivia em outro mundo. Estava com pressa e evitei discussão:

– As de amante, é claro.

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Poderia ter terminado por aqui e deixado que todos acreditassem (como eu acreditei por alguns segundos) que, de alguma forma, eu tivesse algo a mais que a vendedora. Sabedoria, sensibilidade, paz no coração, sei lá. Porém, quando ouviu minha resposta ela rebateu imediatamente:

– É o que todas respondem. Por isso tenho orgulho de ser mulher.

Entre o preconceito e a ironia da vida, mais uma vez: ponto para o segundo.

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E para aqueles que querem saber se comprei algo muito ousado … nem tanto ao céu, nem tanto à terra. Afinal, entrei na loja à procura de um presente para a minha mãe.

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