Arquivo do mês: março 2014

Tipo Vogal e Consoante

ri

-Mãe, você que é disso… – perguntou-me Yuki, meu caçula de sete anos.
– Disso o quê?
– De responder bem as minhas perguntas.
– Ah sim… manda. Qual é a da vez?
– Por que quando eu falo qualquer sílaba que tem uma consoante antes, a consoante vai embora e a vogal que fica?
– Ãhn???
– Tipo: caaaaaaaaaaaaa liiiiiiiiiiii búúúú … por quê?
– Mas é você quem está segurando a vogal! Solte ela!
– Você não entendeu. Eu exagerei para você entender o que estou te perguntando. Mesmo falando rápido, veja: Cá! a vogal fica no ar e a consoante some.
– …
– Como elas andam juntas quando escritas se quando falo parece que o ‘a’ dá um passo bem lento enquanto o ‘ c’ dá dois três, sei lá, tipo dispara na frente que a gente nem mais consegue ver, quer dizer, ouvir???
– !!!

E assim começou o meu dia. Com um longo bate-papo sobre as coisas que sempre ficam mais tempo no ar. Tipo uma ideia (ou uma pergunta) que dá sentido para o seu dia. Quiçá para a sua vida…

Tipo a vogal é para a consoante. Uma liberta a outra e uma vez solta, ela dispara, entende? Tipo isso, Kinho.

– Eu não disse que você era disso, mãe?

Amor. Só amor. Toda amor por ele.

——————–

A figura que aparece ilustrando o texto foi feita pelo artista Sergio Ricciuto.

3 Comentários

Arquivado em Crônicas, Yuki

Olhos Fechados

universo2

Fui para o Parque correr às 7:00h. Levei um livro como companhia. Somente para não sentir solidão no carro. A verdade é que, a despeito de toda a minha disciplina, odeio correr e busco nos astros, nos signos, nos búzios, no evangelho e nos orixás alguma indicação que a corrida não fará bem para minh´alma. No entanto, o silêncio de todos eles se faz e ainda por cima (como me disse Chico Buarque) consta nos autos, nas bulas, nos dogmas, em teses, em tratados, está computado nos dados oficiais que eu tenho que correr para melhorar a minha saúde.

Ok.  Lá estava eu toda cheia de tênis.

Antes de dar o primeiro passo, porém, uma intuição. Achei que a leitura de um parágrafo me faria bem. Tirei Marcel Proust do banco de carona. Abri-o e escutei-o por uma página (era um parágrafo gigante, certo?). Depois, achei que se corresse sem terminar ao menos de ouvir a ideia iniciada, correria ansiosa. Não é algo saudável de se fazer… Então, li mais três páginas. E acabei ficando na leitura por mais de uma hora dentro do carro. Até que percebi que Proust fez um corte na história.

Droga. Estava a ponto de mandar se danarem, assim como Chico, os astros, os autos, os signos, os dogmas, os búzios, as bulas, anúncios, tratados, ciganas, projetos, profetas, sinopses, espelhos, conselhos, o evangelho e todos os orixás! Não podemos interromper Proust quando este fala senão não o entenderemos! Mas ele mesmo fez a pausa. Danei-me eu.

Ok. Relaxa, Elika. Você está pronta para uma hora de corrida. Está preparada para sentir, enquanto exercita o seu corpo, palavras circularem nas suas veias. Que lindo, isso. Vou postar isso no feicebuque. Isso, Elika, sente-se, escreva. Enviar. Enviou? Agora, levante-se. Ok. Há esperança de continuar lendo Proust enquanto você sua como uma burra de carga.

Comecei a correr.

Daí, imediatamente esqueci Proust e pensei: será que de olhos fechados o tempo passa mais rápido? E, a seguir, fechei-os. Como estava num retão por pelo menos 1,25 km cogitei de assim ficar para sempre. Dei uns dez passos e não aguentei. Abri meus olhos. Qual foi a minha surpresa ao perceber que estava indo para a direita e por muito pouco quase tropecei no meio fio. Fala sério!  Alinhei-me de novo e resolvi repetir a experiência. Dei doze passos e certifiquei-me que estava, agora, indo pra esquerda! Vixi… Agora vai. Fechei os olhos e disparei. Quatro passos e já estava correndo toda torta de novo.  Principiei a tentativa de correr sem ver a luz várias vezes e em nenhuma!!! consegui fazê-lo paralela à calçada.

Engraçado… procurei fazer com que o meu corpo fizesse exatamente a mesma coisa da mesmíssima maneira e foi só nem fechar, mas piscar os olhos e lá estava o esqueleto mudando os rumos que haviam sido traçados para que ele simplesmente, digamos, fluísse. Será assim também quando estou com os olhos abertos? Será que estou crente que sigo em uma direção e estou indo em outra completamente distinta ainda que todos os meus sentidos não percebam? Será que estou a ponto de tropeçar e preciso abrir os olhos antes que me estabaque toda? O que mais me escapa ao meu redor?

Vi uma libélula. Odeio libélulas. Odeio insetos de qualquer espécie até nas formas aracnídeas. E a criatura batia as asas ao meu lado. Acelerei. Ela acelerou. Freei. Ela freou. Parei. Ela parou. Estiquei o dedo e ela nele pousou. Bom dia, dona Libélula. A senhora sabe que eu te odeio, que tenho nojo de você e que está interrompendo a minha corrida? Bom dia, Elika! Pois é, estava achando interessante você correr de olhos fechados. Você me viu correr de olhos fechados, dona Libélula??? Sim, na verdade, percebi somente porque estava vindo em sua direção e você nem se desviou de mim espevitadamente como faz sempre. Daí fiquei te acompanhando, cheguei a gritar pensando que você fosse cair, mas você nunca me ouve! Dona Libélula, esse papo não faz sentido. Eu te ouço pra começar. Para terminar eu tenho que correr.  Coloquei-a no meu ombro e continuei falando. Eu tanto te ouço que te odeio. O seu som me arrepia. Zrzrzrzrzrz. Odeio esse barulho do bater de asas dessa sua raça. Sua classe. Sua espécie. Sei lá.  E  eu não te ouvi quando corria de olhos fechados.   Mas eu estava ao seu lado, Elika!, o tempo todo! Você não se desviou de mim e não procurou esquivar-se de minha presença porque não me viu! Entende que não há o que temer?

Meodeos… o que mais não percebemos quando estamos com o foco em outra coisa? Quais as coisas que me apavoram que não estão me assustando porque não estão detectáveis pelos meus radares? Por que tenho medo de certas coisas que  sei que não vão me ferir? O que mais volatiza sem que eu perceba? Dona Libélula, vai, me responda essas perguntas. Dona Libélula? Dona Libélula??? Para onde ela foi? Nem a senti indo embora. Que mal educada. Por isso tenho minhas reservas com esses bichos…

Passado esse fenômeno, percebi que estava quase ao final da corrida. Estranho. Com os olhos fechados, só fiz enxergar lá fora,  o meu corpo se transladando retilineamente (na intenção) no asfalto. E visualizando o lá fora, fui incapaz de guiar meus passos. Já com os olhos abertos, nada vi além da libélula e ainda assim não me desviei do caminho. Não entendi como o tempo passou depressa sem ter percebido nada em minha volta quando conversava com aquele ortóptero.

Quem sabe Proust está mesmo certo. Para tornar a realidade suportável, todos temos de cultivar certas pequenas loucuras. Quem sabe mais vale sonharmos a nossa vida do que vivê-la. Mas, vivê-la não pode ser também sonhar?

Palavras, enfim, circularam em minhas veias.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Deixe um comentário

Arquivado em Crônicas

Eu não quero ser a “sua namorada”, Vinícius.

578711_292484434169327_100002233197309_672725_57690549_n

Quem me conhece há tempos já sabe que eu detesto desde que me entendo por gente a música “Minha Namorada” de Vinícius de Moraes. Horror! Horror!!! O cara vem cantando mansinho ♫ Se vc quer ser minha namorada…, com uma melodia, esta de fato linda, mas te colocando o cabresto e te reduzindo a uma coisa colocada no mundo somente para agradar a ele, o machão lazarento:

♫Se quiser ser somente minha/ Exatamente essa coisinha/ Essa coisa toda minha/ Que ninguém mais pode ser…”

Coisa o cacete. Não quero ser coisinha de ninguém jamais!

♫ Você tem que me fazer um juramento/ De só ter um pensamento/ Ser só minha até morrer…”

Como jurar isso? Que diabo “ser só minha”? E lá alguém pertence a alguém nesse mundo??? Tipo o homem tem uma dona e a mulher um dono? Fala sério! Somos livres! Homens e mulheres mesmo dentro de um casamento de papel passado! E ficaremos ao lado da pessoa com quem casamos por livre e espontânea vontade caso queiramos nos deparar com a tal da felicidade com uma certa frequência! Não quero saber desse papo de “metade da laranja”, “Você me faz feliz”…  Fala sério! Um casal tem que ter dois inteiros caminhando lado a lado. Felizes quando sozinhos. E no paraíso quando juntos, ok?

♫E de repente me fazer muito carinho/ E chorar bem de mansinho/ Sem ninguém saber por quê…

Caramba! Sem ninguém saber por quê?!? Fala sério! Eu quero falar pra quem eu quiser porque sofro, porque choro, porque estou angustiada… o homem quer que eu prometa que vou ter que chorar calada? De mansinho? Calminha??? Eu quero poder chorar brabinha, dá licença?

E agora o pior. O filme de terror, a visão do inferno e o motivo pelo qual a música é uma Ode à Violência:

♫Porém, se mais do que minha namorada/ Você quer ser minha amada/ Minha amada, mas amada pra valer/ Aquela amada pelo amor predestinada/ Sem a qual a vida é nada/ Sem a qual se quer morrer…

Deus me livre desse tipo de doente dependente e pegajoso. Mas calma. A bomba é agora:

♫ Você tem que vir comigo em meu caminho/ E talvez o meu caminho seja triste pra você…”

Pelamordedeos! O que é isso!?? O cúmulo do egoísmo! Se isso é uma declaração de amor, minha amiga, não reclame de nada! Você é uma Amélia burra de pedra. Isso é uma declaração de posse, de machismo, de superioridade, de sei lá mais o que.

Esse é o pior tipo de violência. Aquele disfarçado em forma de poesia. As burras que me perdoem, mas inteligência é fundamental para que sejamos respeitadas.

——————-

Mais exemplos de violência disfarçada:

https://elikatakimoto.wordpress.com/2013/12/12/machista-eu/

2 Comentários

Arquivado em Opinião, reflexões

Nostalgia

Switch-on-Your-Brain-Better-Homes-and-Gardens-Tang-Yau-Hoong

Ontem antes de dormir, tipo nove horas da noite, já deitada, comecei a folhear umas revistas que tenho na cabeceira de minha cama. A única forma d´eu ir me desligando do mundo e diminuindo a frequência para poder partir calmamente para os braços de Morfeo é lendo e, por isso, tenho praticamente uma estante no meu quarto. Pois bem, acabei me deparando com um texto do Artur Xexéo na revista de Domingo do jornal O Globo. Mamãe sempre deixa a revista aqui em casa exatamente para eu ler Martha Medeiros e outros escritores que curto de montão. A crônica de Xexéo tem como título “Eu me lembro no Carnaval” e é simplesmente uma viagem no túnel do tempo. Ele se lembrou de um bocado de coisa. Da dona Zica que a gente jurava que ia morrer do coração a cada nota que a Mangueira recebia, das confusões da Wilsa Carla,  do Clóvis Bornay, da bateria do mestre André…  olha que passeio viu… Seguiu-se disso que fiquei imediatamente tentando me lembrar de algumas coisas vividas não somente na época do esquidum esquidum, mas ao longo dessa, digamos, estadia por aqui.

Quando Nelsim chegou ao quarto, cheiroso e de barba feita para o dia seguinte, eu estava olhando pro teto amarradona. Nós vivemos aqui quase sempre em muita sintonia e nem precisei falar para ele que eu estava pensando, mesmo porque estava claro que havia muita coisa passando pela minha cabeça. Ele se deitou ao meu lado e esperou em silêncio. Perguntei-lhe:
– Nelsu, do que você se lembra?

Não precisei ouvir como assim?, tipo o que?, ãhn?.

Éramos dois olhando para o teto.

– Eu me lembro do leite de saco CCPL. Sempre segurava o saco de forma que escorregava, até que vi um moço segurando…
– … assim com os dois dedos?
– Isso! Assim. Assim não escorregava. – Disse ele com os olhos arregalados.
– Eu me lembro daquelas sacolas de papel das Sendas com alças de plástico grampeadas. Sempre rasgavam.
– Eu me lembro do Bozo corrida, dos cavalinhos correndo, do jogo da memória, da vovó Mafalda. Eu me lembro da bisnaga sendo embrulhada com papel de pão e o padeiro dando um nó rapidim e arrebentando com um puxão o barbante. Eu me lembro do pirocóptero.
– Eu me lembro do Raul Gil tirando o chapéu. ♫ Chegou a hora da alegria vamos sorrir e cantar…
– … ♫ Da vida não se leva nada. Vamos sorrir e cantar. Lá, lá, lá, lá. Lá, lá, lá, lá. Lá, lá, lá, lá. Lá, lá, lá, lá, lá, lá. Sílvio Santos vem aí Lá, lá, lá, lá, lá lá. ♫
– Eu me lembro do nome dos jurados do programa de calouros: Pedro de Lara, Aracy de Almeida, Sérgio Mallandro, Wagner Montes, qual o nome da esposa dele que era jurada também, uma bonitona?
– Não me lembro, mas sei quem é. Eu me lembro dela. E aquele jurado chato?
– Nelson Rubens!
– Isso! Eu me lembro. Eu me lembro da mulher loira do banheiro.
– Morria de medo. Eu me lembro dos iô-iôs.
– Nunca consegui fazer aquele cachorrinho.
– Eu fazia todas as manobras. Me lembro bem que conseguia, mas hoje tenho medo.
– O iô-iô do Sprite ela lindo.
– Eu tinha o da Coca-Cola. A Tata da fanta e do Tony o Sprite, ou Guaraná. Não me lembro. Era verde. Isso eu sei. Eu me lembro dos cinemas de ruas, da filas nas calçadas, do pipoqueiro na porta…
– Madureira 1, Madureira 2. Eu me lembro de Neocid no cabelo. Cenoura e bronze na praia.
– Rayito de Sol!
– Eu me lembro da gente dando calote em ônibus. Era muito fácil porque entrava por trás e saia pela frente. E antes do trocador tinha banco a beça! Como eles eram burros antigamente…
– Eu me lembro daquele sapato, qual o nome?
– Kichute? All Star?
– Não aquele dóqui saide.
– Dóqui saide samello! Você é velhona!
– Eu me lembro da mochila company. Sempre quis ter uma. Era caríssima. Tirava-se a maior onda e meu pai nunca alimentou isso em mim. Sofri horrores por não poder humilhar geral com uma mochila…
– Eu me lembro das perucas ladies. Do grande Otello nas óticas do povo, do insetisan, mas isso tem até hoje. Eu me lembro daquele cara que fazia propaganda do tapete…
– Daquele ator que parece o César?
– Isso. Fulfo Estefaninho.
– Fulfo? Quem se chama Fulfo? Isso não é nome de gente, Nelsu!
– Fulfo! Dá um gúgol que você vai ver. Fulfo Estefaninho. Qual o nome do tapete?
– Peraí. – Pego o telefone. – Alô, mãe! Mãe, problemaço. Qual o nome do tapete que o Fulfo Estefaninho fazia propaganda?
– Sei quem é o ator, mas não me lembro o nome do tapete, Elika. Era tapete?
– É, mãe. Tapete! Tapete. Pô. Você sabe quem é Fulfo e não se lembra do nome do tapete? Fala sério, mãe! Ele falava tapete é… qual o nome do tapete?
– Ah isso não sei. – Disse minha mãe sem o menor interesse de lembrar algo tão importante.
Nelson liga para a mãe dele.
– Alô, mãe? Qual o nome do tapete que o Fulfo fazia a propaganda antigamente?
– Fulfo Estefanim? Tabacow?
– Tabacow? Será? – Responde Nelsu à minha sogra.
– Isso! Tabacow! Tapete é tabacow! – Gritei eu animada!
– Eu me lembro da música dos trapalhões anunciando o fim do final de semana… ♫ Olhe bem, preste atenção… ♫
– A música do Fantástico!
– Isso.
– Eu me lembro do Visconde de Sabugosa trabalhando em novelas sem a roupa de Visconde. Um choque para mim viu ver aquilo. Ele era o Visconde de Sabugosa! Trabalhando de ator?! Como pode? Fala sério!
– Eu me lembro do papel almaço.
– Caneta replay que borrava todo o caderno. Agente 86 que atendia o telefone que era um sapato.
– Agente 99….

Fez-se o silêncio.

– E do que você não se lembra?
– Do que não me lembro? – Lá chegava ele sintonizado. – Eu não me lembro do nome da companhia secreta do agente 86 e da agente 99, porque diabos Marlon Brando mandou uma índia no lugar dele no dia que ele ganhou o oscar. Não me lembro dos afluentes do Rio Amazonas, porque a mulher do Collor botou a boca no trombone…
– Não foi PC Farias?
– Foi?
– Não me lembro. Não me lembro do nome da primeira professora de francês, mas me lembro do nome da explicadora: dona Juracildis.
– Não me lembro do nome do amigo do Erick Estrada…
– Erick Estrada.. Boa. Também não me lembro do nome do loirinho. Não me lembro do enredo do desenho Barbapapa…
– Barbapapa… maneiro. Eles tinham algum enredo? Não me lembro… mas me lembro da mala amarela do gato Félix…
– ♫ Felix the Cat. The wonderful, wonderful cat. ♫

Engraçado… Como observou meu amigo Márcio, quando pensamos no que não lembramos, a mente busca, justamente, o que conseguimos lembrar… e isso dá uma viagem mais interessante ainda…

Nessa altura do campeonato, Nelsim já estava virado de bruços, a cabeça já estava para o outro lado. A posição dele de dormir.

Nelson dormiu.

E eu.

Eu demorei a dormir tentando me lembrar das coisas que não me lembro. Há coisas que sabemos que foram importantes, que sabemos ter vivido, mas simplesmente não conseguimos trazer de volta para o presente! Caramba, que agonia… Acabei recordando de mais uma série de outras coisas que nem sabia que estavam na memória (Nahin, Xereta, Bati-bumbo, War, Gilliard, ♫ Rimas de vento e velas ♫…) , mas estava completamente transtornada com aquelas que fugiam, se expandiam junto com todo o Universo! E não adianta falar que não nos lembramos daquilo que não vivemos porque muita coisa passou por debaixo dos nossos olhos, nos machucou, ajudou a nos construir, foi importante e ainda assim… quais foram elas???

Acordei hoje e ainda meio sonolenta e incomodada, decidi pedir ajuda aos amigos para ver se me lembrava de mais coisas que não havia conseguido trazer de volta sozinha pela madrugada afora. Precisava reconstruir-me. O quanto perdi de mim esquecendo? Se somos o que lembramos, se o nosso passado nos forma, onde está o andaime da obra? Até quando o prédio ficará de pé se estamos derrubando a cada dia paredes por onde passam as vigas que o sustentam? O primeiro pôr do Sol, o primeiro dia de aula, o que comi na semana passada, uma canção feita por mim mesma, o que fiz no dia 6 de agosto de 2011 (todos viveram esse dia, o que fizemos nele?),  como cheguei ao térreo (“elevador, escada ou magia?”), quando precisei usar óculos, as primeiras quedas de bicicleta, a barriga de mamãe de quando ela ficou grávida de meu irmão mais novo, os nomes dos amigos de faculdade, qual foi a pergunta, a voz de um ente querido, … Em que medida precisamos saber o que esquecemos, ainda que não consigamos lembrar? Somos aquilo que lembramos ou aquilo que esquecemos como gostam de dizer os terapeutas?

Depois de tantas não-recordações, esqueci-me completamente porque comecei a pensar nisso tudo. Ah sim, o texto do Xexéo. Perturbador. Um passaporte para o espaço, mas não basta isso para embarcar.

… ♫ tem que ser selado, registrado, carimbado, avaliado, rotulado se quiser voar. ♫

Uma viagem, pelo visto, sem previsão de volta.

——————————–

PS. O nome do ator é Fúlvio Stefanini. Eu sabia. Quem ia se chamar Fulfo?!? Pensando bem Fúlvio também é brabo viu.

Agradecimentos aos amigos:

Márcio Pontes, Pierluigi Raso, Claudia Pinto, Luis Matos, Tom Lemos, Igor Carpanese, Heloisa Setta, Carla Roia, Daniel Alves, Marcella Alecrim, Lucia Pontes, Claudio Louro, Drica Voivodic, e mais outros tantos que aceitaram o meu convite para dar uma voltinha por aí.

1 comentário

Arquivado em Crônicas

Jardim

rosa

– Mãe, pra você. Disse ele, meu caçula de sete anos, com uma rosa murcha na mão presa por um talo pelado, sem folhas.

– Muito obrigada, Yuki, mas me permita uma observação: ela está murcha!

– Ah sim, eu sei, ele disse. Mas foi a maior que encontrei. As que estavam vivas eram bem menores e eu não arranquei para elas crescerem como essa. E perceba mais, mãe. Eu tirei todos os espinhos para você não se machucar, você viu?

Na verdade, eu havia reparado somente a ausência de folhas e o fato da rosa estar sem o viço de uma flor viva. Pensei até que ele estivesse brincando inicialmente, mas percebi que ele estava animado ao me dar o presente. Depois da explicação, de repente, passei a  ver um jardim nessa  flor desbotada e, desde então, a me sentir tal como uma rainha, mãe de um príncipe real.

Tapa na cara do preconceito. Ponto para a poesia.

Deixe um comentário

Arquivado em Crônicas, Yuki

Dia Internacional da Mulher

moesio

Amanhã é o dia internacional da mulher e veremos várias pessoas lembrando o quanto sofremos seja por discriminação, seja por violência física, seja por tanto trabalho que temos em conciliar o lado dona de casa com o profissional ou bababá bububú. Quero, a despeito de não estarmos ainda nada confortáveis, fugir de todo esse chororô.

Que somos importantes para os homens, para os filhos e quiçá para o país também já está mais do que claro. Tenho uma nova proposta. Aproveitemos então o oito de março para olharmos umas para as outras e dizer o quanto somos indispensáveis não para eles, homens, filhos, Brasil, universo, bah, mas para nós mesmos, mulheres.

Precisamos ter cromossomos XX a nossa volta. Nada como amigas, mães, avós, filhas, netas, primas e tias por perto. Sempre temos uma dica mega útil para passar adiante e ponham nesse saco xampu, receita de bolo, doce diet, loja barateira, feirinha bombada, macumba, segredo de maquiagem, creme de pentear, psicólogos, cinta emagrecedora,… Fúteis? Nem tanto, também passamos prazamigas dicas de filmes imperdíveis, livros transformadores, viagens inesquecíveis e sigilos sexuais cavernosíssimos que os maridos agradecem por não terem sido tão sigilosos assim. Competitivas? Talvez, mas a disputa desaparece quando vemos na outra o mesmo medo, a mesma aflição com o filho doente, a mesma agonia quando o diabo da criança não come, a luta para emagrecer, a mesma angústia com a falta de uma boa empregada, o mesmo desespero com a unha quebrada, o desânimo com o cabelo rebelde, o sofrimento na TPM… E curtimos honestamente quando uma que digamos, já nos incomodou, fica feliz com uma nota boa do filho, sente alívio com o caber certinho do vestido, acerta em preparar um jantar diferente, posta foto no feicebuque fazendo carinho na mãe ou na avó,…

Somos difíceis de entender, vá lá, mas somos fáceis de lidar. Basta observar como agimos umas com as outras. Sabemos, como só nós sabemos!, compartilhar virtudes e pecados e praticar o perdão ao nosso modo leoa de ser. Observamos os sapatos das outras, mas também apontamos o sagrado em pequeníssimas coisas que de tão miúdas passam desapercebidas por tantos. Mas não para nós.

Tagarelas? Certamente que sim. Mas sobre o que falamos tanto? Sexy sem ser vulgar, meiga sem se fazer de retardada, gostosa sem parecer puta, feminina sem lembrar uma barbie, forte sem ser macho, inteligente sem ser metida, frágil sem ser boba, engraçada sem se assemelhar a uma idiota… Tudo isso ensinamos e aprendemos umas com as outras. Podemos ser super diferentes entre nós mas, ainda assim, sempre temos muito o que compartilhar.

Para finalizar, duas mulheres bebendo não são como dois homens com copos nas mãos. Eles provavelmente falam de trivialidades. Elas? Com certeza! Mas daí para uma expressar uma dor muito profunda e esta ser amenizada para sempre com as palavras femininas certeiras da outra não custa, as vezes, nem uma garrafa. E olha que a outra nem precisa ser amiga de longa data não! Ajudamos e somos salvas porque somos acima de tudo, mulheres e é isso, de fato, o que quero brindar amanhã. O fato de cuidarmos tão bem umas das outras. A nossa natureza. A nós!

Os homens podem ter mais músculos e serem até maiores, mas protegida mesmo ficamos quando estamos perto de mais mulheres. Muito obrigada a todas vocês por zelarem tão bem por mim!

Tim tim!

Deixe um comentário

Arquivado em Crônicas