Desajeitados com a felicidade.

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Sou desajeitada com a felicidade, estou chegando a essa conclusão. Vivi períodos solitários e percebo que sou mais equilibrada visualizando o fundo do poço. Meu corpo dá tilte e a mente piripaca com grandes doses de endorfina, oxitocina e serotonina, os hormônios que fazem a festa no corpo de quem está amando e se sentindo amada.

Sábado passado, dia 14 de Outubro, conheci meus sogros, passeei com Pipo, vi Mozão se apresentando, jantamos juntos abraçadinhos e, à noite, como se tudo não bastasse, compramos uns petiscos e fomos ver um filme na casa dele.

Era para estar tudo, como dizem, a mil maravilhas. Mas grudada nele de frente para a tela onde estava passando um filme fodástico, eu tive uma crise de pânico. Assim. De repente. Do nada. Acontece sempre quando estou com ele.

Abril Despedaçado era o que estávamos assistindo. Mas curiosamente comecei a ver um outro filme em minha cabecinha que estava encostada no ombro dele: “De 1° de Abril à sexta-feira 13”, escrito e dirigido por mim mesma. Foi nesse intervalo aê que conheci Pipo, ele começou a fazer parte de minha vida e mudou-me por completa. Em, meodeos, seis meses apenas lá estava eu sendo recebida pela família dele. Em Brasília…

Os flashs de tudo o que já passamos se metiam na frente de Rodrigo Santoro e eu não mais ouvia o que os personagens estavam dizendo na película. O medo foi se apossando de mim. Percebi que ia ter uma crise de choro e, muito sem graça, pedi para Pipo parar o filme.

Ele prontamente atendeu a minha solicitação com os olhos esbugalhados que parecia que tinha injetado um litro de cafeína na veia e dois de RedBull nas artérias.

– O que foi, meu amor?

Ele me saca de longe e sabia que eu não estava lá muito bem.

Na noite anterior, a sexta-feira 13, enquanto tomava banho pensava que não era possível tudo aquilo. Que em algum momento Pipo ia virar um monstro e me mostrar a que veio. Que quando saísse daquele banheiro ele estaria com uma faca em riste me esperando. Coisinhas assim de imaginar quando estamos muito bem obrigada. Não só nada disso aconteceu como fui recebida com fogos e artifício na cama depois de ter me lavado e ficado cheirosona – da mesma forma que ele sempre faz quando chego na frente dele de cirolão bege, cheia de cecê e descabelada.

Voltando para sábado à noite.

De que jeito dizer tudo o que estava sentindo sem desesperar Pipo e fazê-lo sair correndo me achando uma louca? Como me lembrar de todas as lições de empoderamento que recebi das manas? De que manêla não sair metlalhando melda a tolto dileito? Cadê que conseguia. Olha que difícil esse negócio de verbalizar o que sente viu.

Eu sei que não temos garantia de nada nessa vida. Sei que homem nenhum jamais irá pertencer a uma mulher e vice-versa, independente do papel que assine ou do tamanho do ritual que sacramenta essa união. Sei que casamento de papel passado realizado na Capela Sistina pelo Papa e nada é a mesma coisa. Não há o que assegure a eternidade do que sentimos e sei muito bem que não temos o controle de porcaria nenhuma. Não há ninguém no comando. Nem Deus – já que Ele sequer existe para mim. Sei que carinho não se pede, amor não se exige, atenção não se mendiga. Se feito a pedidos, não é sentimento genuíno, é esmola mesmo.

Maldita sabedoria.

Por Deus gente. Como ser feliz e curtir esse momento lidando com a dura realidade que posso perdê-lo a qualquer instante?

Lembrei-me de um guru indiano em uns vídeos desses que passam em redes sociais. Ele dizia com uma barba branca comprida e fedorenta, impostando uma voz calma como o cinza e vestindo uma túnica alva como o tédio: “As pessoas dizem que amam peixe. E o que fazem elas? Elas que amam peixe tiram o peixe do mar, matam o peixe e comem o peixe! Se amassem mesmo, deixaria o peixe nadando em paz. Aí sim seria amor”.

Aff. Não era essa minha definição de amor desde primeiro de Abril… O amor aconteceu aqui porque alguém me pegou, eu, laranja inteira que rolava pelo mundo. E deu-me a sensação de ter me colocado de volta à árvore. Senti-me internamente florescer, amadurecer, viva e, como dizia Aristóteles, no meu lugar natural.

Confabulava perdida desse jeito aí e olhava para o Pipo que, tenso, esperava que eu lhe explicasse o que estava me acontecendo.

Enquanto tinha mozão na minha mira, percebia que estava apavorada com a falta de garantia que a vida nos oferece. Porém, deixando de lado muita coisa tipo tudo que aprendi na vida, lembrei-me do sábio vendedor paraguaio que dizia: la garantia soy djô!

Qual o quê tirar o peixe do mar e comer, minha gente. Casamento é pouco para dizer o que almejo fazer com esse peixe. O que quero é colocar esse guelrudo em cárcere privado lá em casa.

Como dizer isso para Pipo que se encantou pela pessoinha fofa, independente e bem resolvida aqui? Como não botar tudo a perder? De que forma cessar esse looping de pensamentos sem que alguém de fora (no caso, ele) ajude?

Sabe Deus como saiu isso de mim. Comecei a contar para ele sobre rituais de acasalamento e juramentos no altar perante um público. Falei do guru (Pipo deu uma banana para o guru enquanto falava do peixe nadando no mar), do quanto não acredito em nada e… não estava conseguindo concluir porque não tinha nada para fechar mesmo naquele raciocínio sem pé nem cabeça ou, vá lá, com pé, cabeça, nariz, orelha e mão parecendo, porém, um quadro de Picasso com tudo mutilado e fora de lugar.

Eu só queria pedir de joelhos para Pipo ficar comigo para sempre e não me largar nem por um minuto, mas não podia fazer isso porque isso não se pede a ningu…

– Meu amor, não me apavore. Nunca mais faça isso. Quando pedir para parar o filme fale antes “Pipo, eu te amo, está tudo bem, não vou terminar nada, só quero te dizer uma coisa”. Estava já desesperado achando que você ia dizer que não era nada disso, que não queria embarcar nessa loucura e que ia embora. Vivo com medo de você me deixar, de desistir de viver essa vida maluca na qual nos metemos. Não sei mais viver sem você. Você quase me matou do coração agora.

Sou desajeitada com a felicidade, mas Pipo sequer sabe cumprimentá-la. Impressionante. Valha-me Deus. Coitado. Relaxei e fiquei super deboa alegre contente livre leve e solta depois de saber que Pipo sofre muito mais do que eu. Abracei-o com toda força do mundo cheia de sorrisão para acalmá-lo. Amor é isso.

Se for para desgraçar a cabeça de tanta insegurança que ao menos esse ato seja compartilhado. Amém.

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Arquivado em Crônicas

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