Perguntar não ofende

O que é mais condenável em nossa sociedade: a injustiça ou o fracasso?

Por que, do ponto de vista do poder, o extermínio da população pobre não é visto como um mal a ser combatido?

Por que os países que mais pregam a paz são os que mais armas vendem?

Antes de estimular a demanda, a publicidade produz que tipos de violência?

Quem matou mais pessoas até agora: a Segunda Guerra Mundial ou a pobreza?

Seria possível um planeta constituído só de países ricos?

Por que chamam de “mercado livre” aquilo que a maioria das pessoas só pode olhar e não pode comprar?

Se em um país que tivesse duas pessoas somente e uma delas fosse bilionária enquanto a outra vivesse para lhe servir, o PIB que seria alto teria qual significado?

Quem se beneficia com a decadência do controle público na economia?

Se as indústrias mais bem sucedidas no mundo capitalista são as mesmas que mais poluem o planeta, qual o preço que se paga por tanto desenvolvimento?

Em que medida a globalização se difere do imperialismo?

Por que os que vivem em comunhão com a natureza e consideram a terra sagrada são chamados de incivilizados?

Quais são as instituições que se dedicam em afirmar de diversas maneiras diferentes que a desigualdade social e o racismo fazem parte da harmonia do Universo?

Quando e onde aprendemos preferir a segurança do que a justiça?

Qual o nome que devemos dar quando um grupo de homens fardados derrubam governos civis?

Em que medida o medo alimenta o capitalismo?

Por que chamamos de progresso quando algumas pessoas passam fome e outras são envenenadas pela comida?

Por que nunca nos unimos contra as pessoas que lucram em cima da nossa dor?

Em que momento passamos a achar normal escolas privadas?

Temos mais medo da multidão ou da solidão?

Quem foi mais enfático em nos convencer que indígenas são selvagens porque tudo compartilham e não tem ambição de riqueza: a indústria cinematográfica de Hollywood ou as escolas?

Assusta mais uma criança sem livro ou com um celular?

O que acontece com os policiais honestos do Rio de Janeiro?

Por que quanto maior é o montante de dinheiro roubado menor é a pena?

Se as prisões significam segurança, por que os países com menos prisões são os menos violentos?

Se houver mais desempregados que empregados, como vão fazer para que a maioria obedeça?

Os responsáveis pela poluição de um rio são chamados de criminosos ou empresários?

A sociedade de consumo produz só objetos descartáveis ou, também, seres humanos que são usados e jogados fora a seguir?

Se somos livres, somos livres de quê exatamente?

Qual o nome do lugar em que pessoas que trabalham não têm medo de ficarem desempregadas?

Como se luta contra o terrorismo vendendo armas para países terroristas?

As caveiras riem de quem ainda vive?

Morre-se mais de overdose ou traficando drogas?

Contra quem as leis são aplicadas?

Se quem luta pela diminuição da desigualdade social é chamado de comunista, como devem ser chamadas as pessoas que não se preocupam com as injustiças sociais?

É direito dos empresários roubarem em grande quantidade?

Que nome damos ao sistema que há seres trabalhando em condições insalubres, sem lugar para comer, sem banheiros para usar durante o expediente, sem aposentadoria, sem direitos, sem férias e que ainda precisam agradecer por estarem trabalhando?

Se um país enriquece vendendo muitas armas, o PIB alto significa o quê exatamente?

Por que chamamos de progresso quando aplicamos uma tecnologia de ponta em indústrias que gera uma alta taxa de desemprego?

Por que em países, como o Japão, que morrem milhares de pessoas por ano por excesso de trabalho são considerados desenvolvidos?

Por que dizem que se portam mal quem defende a natureza e deseja que o salário mínimo seja maior?

As loucas da Praça de Maio são assim chamadas porque se recusam a esquecer?

Os terapeutas que percebem que grande parte de seus pacientes sofrem por excesso de trabalho lutam por um mundo mais justo?

Os cardiologistas que sabem que grande parte de seus pacientes sofrem infarto por tanta preocupação se manifestam contra o sistema que lhes adoecem?

É confiável o local cujas indústrias ecológicas movimentam uma fortuna maior do que as indústrias químicas?

A história oficial é escrita por quem preza a memória ou por quem tem interesse em apagá-la?

O quão disposta está em combater as causas das doenças a pessoa que lucra com elas?

Quem nada consome também pode ser chamado de cidadão?

O gastroenterologista que detecta que muitas gastrites são causadas por conta dos baixos salários de seus pacientes se manifestou contra a reforma trabalhista?

Países desenvolvidos são chamados assim porque se desenvolveram “a despeito” ou ‘por causa” do subdesenvolvimento alheio?

Por que quem participa da Guerra às drogas não se manifesta contra os agrotóxicos?

Por que os que matam os pobres não lutam para erradicar a pobreza?

Quando elogiamos uma flor dizendo que ela parece de plástico, precisamos de terapia ou de um professor de história?

Por que não proíbem também a propaganda de carros os que proibiram a propaganda de cigarros se ambos estragam o ar que respiramos?

Por que temos facilidade de condenar o criminoso e não o modelo de sociedade que intensifica o crime?

Qual o nome do sistema em que muitos constroem algo que jamais terão dinheiro para comprar?

Qual é a única espécie do planeta que acredita que um país vai melhorar cortando gastos com saúde e educação?

Engarrafamento também é sinal de progresso?

Por que quem se esperneava diante um triplex se cala ao ver apartamentos e mansões comprados com dinheiro vivo?

Por que na escola, quando explicam as cadeias alimentares, não falam das longas cadeias de subordinações sucessivas em nossa sociedade?

Por que chamam de democracia o sistema que ignora mais de cem processos de impeachment?

Quem naturalizou o fato dos animais não poderem pastar ou ciscar e terem o tempo de vida reduzido para que nos alimentemos com seus pedaços?

Nessa sociedade de consumo, a injustiça social é um erro a corrigir ou uma necessidade essencial?

O que mais assusta um empresário: um hipopótamo ou um sindicato?

Por que os que não se importam com o desmonte das estatais se mostram tão preocupados com os empregos criados pelo véio da Havan?

Quem nos ensinou a não se importar com os animais que são fervidos vivos?

Faz sentido definir a riqueza sem a pobreza?

Quando uma mulher negra será presidenta de um país?

Quem mandou matar Marielle?

Quem nunca?

Foto: Bárbara Lopes

Eu estava quieta e puríssima quando chegou a mensagem da amiga muito feliz. Vinha acompanhada de uma foto que justificava tamanha euforia.

Esse brinquedinho não tenho ainda, pensei.

Cliquei na imagem. Ampliei e tirei algumas dúvidas com a amiga que começava os áudios com “amiiiiiigaaaaa cê não tá entendendo…”

Ouvi todos na velocidade 1.5 tamanha curiosidade estava

.Pensei. Quero.

Mereço.

É disso que precisamos nesse momento: relaxar um pouco.

E que ninguém saiba jamais porque nós, as mocinhas, somos super discretas.Apaguei rápido a foto porque né. Mãe de três e toda trabalhada na crisma.

Entrei na Internet. Fui para o computador para ver melhor as fotos em vários ângulos.

É.

Dividindo em três vezes dá.

Cliquei no botão Compre Agora com gosto – não sem antes olhar para trás conferindo se não vinha alguém. No caso, um filho. Pipo está em Brasília há um mês, o que foi fundamental para minha tomada de decisão.

Coloquei o endereço e e-mail tudo certinho. Conferi várias vezes com medo da encomenda chegar em um vizinho com meu nome.

Fiz o sinal da cruz e conclui a compra. Mãe, professora, política,… se alguém sabe disso Deus me livre nem pensar. Bati três vezes na madeira porque sou dessas. Me cerquei por vários lados.

Tudo certo. Bati palminhas animada em frente ao computador como a Branca de Neve cantando para os sete anões. Nessa vibe.

Fui fazer um chá toda serelepe quando o telefone vibra.

Minha mãe mandou o print da minha primeira compra online no Sex Shop perguntando o que era aquilo que chegou no WhatsApp dela.

Levei um susto. Bem que disseram que Deus vê tudo. Jesus amado… Gelei.

Achei que Deus tinha mostrado o que fiz para todo o Brasil.

Segundos depois me dei conta. Não foi Deus que me dedurou.

Na hora de escrever o telefone, eu escrevi sem querer o número para o qual ligo todo santo dia: minha mãe.

VIxi.

“É vírus, mãe! Não abre, mãe!!! Apaga! Apaga! Joga o celular longe, mãe!”

Nem comprar um brinquedinho em paz a gente consegue neste país.

Ah gente…

Testemunhas da história

Charge do Quinho

Estava Seu Roberval atrás do balcão secando os copos no botequim ali na rua do Catete quando entra Pedrinho, garoto novo quase a completar dezoito anos que mora há tempos na comunidade Tavares Bastos e, agora, está fazendo entregas com uma mochila quadrada nas costas. Seu Roberval conhece Pedrinho desde criança. Sempre dá um suco para o garoto e deixa sempre ele almoçar no seu botequim.

Não são parentes, mas a convivência cria laços na mesma intensidade.

Outro dia, ele estava pedindo para Pedrinho tomar cuidado com o crime organizado porque lá na comunidade em que Pedrinho mora…

– Tenho medo disso não, Seu Roberval. A gente tem que ter medo é da economia mundial que é mais eficiente que o crime organizado.

Teve a outra ocasião em que Seu Roberval viu em um programa de televisão sobre matadores de aluguel. Assim que Pedrinho chegou e se sentou, lá veio Seu Roberval preocupado com o menino e tacando-lhe conselho como quem oferece pudim de sobremesa:

– Tenho medo de que me chamem para ser isso não, Seu Roberval. Evito essa gente como quero distância dos generais.

– Mas o que general tem a ver com isso, meu filho?

– Seu Roberval, matador de aluguel faz, num plano muito menor, o mesmo trabalho que cumpre os grandes generais condecorados.

Seu Roberval insistiu para que o menino se mantivesse longe das armas.

– Eu fico, Seu Roberval. Você sabe que a minha mãe me mata se eu morrer de morte com arma, disse redundantemente Pedrinho. Mas vou confessar que tá complicado porque agora os cristãos tomaram o poder. Eles tão armando todo mundo, Seu Roberval. Não é esquisito que quem mais fala de paz mais pega em armas?

Seu Roberval começou a se lastimar porque Pedrinho não teve a infância que merecia.

– Fica assim por causa de mim só não, Seu Roberval. Se o senhor pensar direitinho, nesse mundo, ninguém vive a infância direito não. Menino rico como tem aqui na Zona Sul é tratado como se fosse dinheiro para que, quando crescer, agir como se fosse o Mercado. Menino não muito rico da classe média vive olhando para o celular ou para um computador aprendendo a ser, desde meninos, prisioneiros desse sistema.

Da última vez que Pedrinho foi lá, Seu Roberval perguntou para ele se as pessoas têm lhe tratado bem. Seu Roberval morre de medo de maltratarem um garoto tão bom.

– Precisa ter medo disso não, Seu Roberval. As pessoas me tratam muito bem. Sou o pobre que elas gostam. Me porto bem, sequer olho de cara feia quando não me dão gorjeta. Essa gente sabe que serei vendedor de alguma lojinha ou um bom empregado a preço de banana de alguma empresa que fabrica traje esportivo que eles usam quando vão viajar para Europa.

Seu Roberval é desses que têm muita idade e o hábito de tentar explicar tudo com a propriedade dos que testemunharam grande parte da história. A questão é que Pedrinho, assim como Seu Roberval, já é testemunha de muita história.

Explicando o que é Educação para o Ministro da Educação

O ministro da Educação mostrou nesta semana, pela milionésima vez, que de Educação não entende nada. Dentre tantas atrocidades proferidas pelo pastor como a de que “as Universidades são para poucos”, Milton Ribeiro, em uma entrevista no programa Novo Sem Censura da TV Brasil, disse que “alunos com deficiência atrapalham”.

A questão da inclusão nas escolas tem um paralelo com a inclusão na sociedade como um todo. Há uma ideia obsoleta de que a pessoa com deficiência tem uma incapacidade generalizada para aprender e conviver socialmente. Tivemos muitos debates e algumas políticas públicas no sentido de derrubar esse pré-conceito. Dentre tantas coisas, tínhamos compreendido que a principal forma de não discriminar as pessoas com deficiência é que elas tenham a opção de escolher o que é mais adequado para elas.

Existe, como já disse, uma visão estereotipada e ultrapassada, como a do pastor ministro da educação, de que todas as pessoas com deficiência têm dificuldades e trazem problemas em relação à aprendizagem e à sociabilidade. É claro que há pessoas que, em função da gravidade da deficiência, não se beneficiam do ensino comum, mas são exceções. No geral, o fracasso na aprendizagem deve-se muito mais ao sistema do que à criança com deficiência. Já tínhamos avançado neste debate e compreendido que devemos focar mais no que a criança consegue fazer no que ela não consegue por conta de sua deficiência. O especialista é importante, mas a solução para os problemas da diversidade não está somente sujeita à formação de “profissionais da deficiência”. Passa por todos nós.

O modelo de Educação do pastor-ministro ficou no século passado e no radar de quem valoriza o individualismo e despreza a aprendizagem solidária e coletiva. Já tínhamos avançado 20 casas nesse debate e estávamos caminhando para escolas que valorizam muito mais todo o processo de aprendizagem do que uma nota na avaliação, muito mais a cooperação do que a competitividade, muito mais os agrupamentos heterogêneos do que os homogêneos.

Nós que trabalhamos em sala de aula sabemos que ninguém é igual a ninguém e cada pessoa tem um velocidade de aprendizado e potenciais diferentes. O bom educador sabe que não existe tutorial de como lidar e ensinar ninguém. A metodologia por vezes usada com sucesso em uma turma pode não funcionar em outra turma da mesma escola. Por isso, estávamos priorizando muito mais os projetos educativos transformadores do que os inflexíveis. Educação, para nós que trabalhamos com ela e sobre ela debatemos diariamente na nossa prática (desconhecida pelo pastor), tem a diversidade como valor e não como algo que atrapalhe.

Houve um tempo que pessoas com deficiências eram renegadas pela própria comunidade a qual pertenciam e o fato de excluí-las era considerado como uma seleção natural da espécie. Dito de outra forma, a pessoa com deficiência enfrentou uma condição histórica de séculos de exclusão social e o ministro da Educação está nessa época. Não viveu. Não conversou. Não evoluiu.

Foi a partir de rigorosas críticas ao modelo segregacionista, seu Milton Ribeiro, que passamos a compreender a necessidade da integração social. Já temos estudos mostrando que a inclusão forma cidadãos e cidadãs mais éticos, menos resistentes ao diferente e, portanto, mais livres de preconceitos. Já tínhamos compreendido, em governos anteriores, que conviver com a diversidade traz benefícios pessoais e sociais, além de estar politicamente calcado no princípio da igualdade de direitos. Ou seja, é bom para todo mundo. A humanidade sorri quando há inclusão, pastor.

Obviamente sabemos que há muitas delicadezas a serem tratadas; a formação dos profissionais da Educação é uma delas. A experiência com alunos e alunas com deficiência nos ensinou que são pessoas com potencialidades a serem desenvolvidas. A troca dessas experiências faz parte de um processo de formação continuada dos professores pela qual tanto lutamos e o ministro, certamente, desconhece.

A deficiência física ou intelectual não é um problema para a educação e sim um desafio encarado com disposição por nós que estamos na linha de frente.

Já a deficiência de caráter é um problema grave deste governo. Não são as pessoas com deficiência que nos atrapalham e sim vocês que tem sido um obstáculo para que melhoremos como sociedade.

Estávamos caminhando bem. Havia muito ainda para ser feito, é verdade. Mas estávamos indo para frente até vocês aparecerem. Dói ter que parar o que estávamos fazendo para explicar o que é Educação para um ministro da Educação ou o que é o amor para um pastor.

Obrigada, Isaac

Ilustração do meu livro Isaac no Mundo das Partículas feita por Sergio Ricciuto.

Sou uma escritora com a maioria dos livros publicada de forma independente. Isso quer dizer que se eu não fizer a minha propaganda, se eu não responder todos os comentários e  e-mails, se eu não for aos Correios pelo menos duas vezes na semana, eu não vendo esse bando de livros que tenho aqui em casa constituindo verdadeiras torres.

Esse trabalho, porém, não é nada ruim. Leva tempo, mas tem a grande vantagem de eu saber quem exatamente lê o que escrevo. Praticamente, todas as pessoas que compraram meu livro de física quântica para crianças, por exemplo, receberam o livro com o endereço escrito pela minha própria mão. 

Como a propaganda é feita pela internet por meio das minhas redes e estamos em tempos muito difíceis com uma taxa de desemprego altíssima, tem sido recorrente ver pessoas entrando nas postagens pedindo ajuda. Esse gesto não tem acontecido somente em minhas redes, mas em outras várias que possuem um certo engajamento.

Pelo fato de trabalhar com livros e haver muita gente querendo ler sem ter condições sequer para comprar comida, recebo, também, mensagens pedindo um exemplar.

Algo, porém, muito especial aconteceu que gostaria de compartilhar com vocês.

Recebi um e-mail. Era de um ex-Piloto Comercial de Avião que me contou que tinha uma excelente condição financeira mas que teve que parar de voar por causa de uma doença grave e incapacitante: Transtorno Afetivo Bipolar tipo I. Explicou que fica a maior parte do tempo na cama e que tem uma filha de oito anos com a qual conversa muito, ambos fissurados por ciência. A despesa da casa é feita pela esposa e o salário dela mal dá para pagar as contas, contou-me o ex-piloto.

Ele ainda falou que tem um microscópio, antigo, “o binocular Leitz Wetzlar”. “Quando eu aguento levantar a gente explora o micromundo”. Também me narrou a empolgação de sua filhota pelos astros e que “a gente explora o macromundo com telescópio”. Recebi deste pai, fotos que eles tiraram deste céu e um registro do rosto de sua menina que tem sido sua grande alegria nesse momento difícil. 

Este pai me pediu um livro.

Não foi o primeiro, como já disse. Já doei mais de 50 livros somente neste ano, coisa que não falo em lugar nenhum porque pode causar a falsa impressão que isso seja algo trivial para mim ou que fico feliz fazendo caridade com o país nesta miséria sem fim.

Mas preciso confessar que fiquei feliz com essa conexão. Ele e eu nos emocionamos muito. Ser acessível a quem quer muito ler meus livros é muito menos um risco do que um grande privilégio. Conhecer – mesmo que virtualmente este ser humano – fez de minha estadia neste planeta uma experiência muito melhor. Penso que o que nos enriquece poderia ser medido pela profundidade das conexões que fazemos. Não foi algo pequeno que tive aqui com essa família nessa troca de e-mails, posso lhes garantir.

O livro será postado nesta semana que se inicia. É a primeira vez que sinto que um livro meu, antes de ser lido, já cumpriu o seu papel.

Mãe, aconteceu uma coisa aqui…

Minha mãe estava andando na rua, tropeçou, caiu, teve que operar o pulso e está engessada. Ela passa bem. Exatamente agora acabou de dar umas boas gargalhadas com a Narinha.

O texto não é sobre a lesão dela e sim sobre por que mamãe riu tanto hoje. Precisei fazer essa introdução sobre o acidente para vocês entenderem o contexto.

Nara, minha querida filha super estudiosa que canta lindamente, que está fazendo duas faculdades, que está super isolada nesta pandemia e que adora ler, enfim, Nara, a fofa, foi dar uma força para os avós. Ela deve ficar lá até minha mãe tirar o gesso.

Fofa fofa fofa.

Hoje Nara me ligou da sala onde todos estavam assistindo Olimpíadas para me contar algo.

– Mãe, você lembra que eu fui monitora na época que estudava no Cefet e recebia um salário por isso?

– Lembro sim, minha filha querida cuti cuti da mamãe.

Eu sempre morri de orgulho dela ter sido monitora de filosofia, gente.

– Sabe o que eu fiz com meu primeiro salário?

– Não, filha linda.

Nesse momento, na nossa videochamada, fiz cara de fofa. Confiando na educação que dei a ela, esperava ouvir que ela doou, investiu, comprou livros… algo nessa linha.

– Então, eu comprei meu primeiro vibrador.

Ela disse PRIMEIRO, Brasil. E isso era 10 da manhã de hoje!

Que orgulho, meu povo.

Tive que explicar calmamente, no entanto, que nem tudo ela precisa falar comigo.

Contei a ela que, com o meu primeiro salário, comprei um anelzinho de ouro que hoje não cabe mais no meu dedo. Falei isso para mudar um pouco de assunto.

– Investiu errado, mãe. – Interrompeu Nara.- Precisa aprender comigo. Quando teve o SexFair no Rio Centro, Hideo levou a gente lá e compramos um monte de coisas legais.

– “A gente”? Hideo?

– Eu e Daniel, mãe. Na época, eu estava com ele. E Hideo que sabia dirigir.

Reforcei que ela não precisava me contar tudo o que fez nessa vida loka.

– Mas é que aconteceu uma coisa aqui hoje e queria te contar.

Ela falava assustada enquanto segurava um pescoço amarelo de uma galinha de plástico que achei que fosse o que ela queria me mostrar e o motivo da ligação.

Eu seguia atenta, mas ligeiramente tensa.

Eu desconhecia aquele com formato de cabeça de galinha. Queria olhar para a Nara, mas minha curiosidade científica estava me desconcentrando.

– Mãe, a Maru…

(Maru é a doguinha da mamãe e do papai, então, tecnicamente, Maru é minha irmã.)

– A Maru, mãe, sem eu ver, – continuou Nara – começou a fuçar minha bolsa, pegou meu vibrador e começou a correr pela casa feliz da vida com ele.

E eu olhando a galinha boquiaberta de plástico imaginando como interagir com aquilo e querendo fazer algumas perguntas técnicas para avaliar o investimento.

Nara seguia narrando o incidente canino-antierótico.

– Eu estava tomando café com meu avô. Daí, minha avó apareceu com meu vibrador na mão perguntando quem tinha comprado brinquedo novo para a Maru.

– Sua avó apareceu com essa cabeça de galinha amarela em riste?

– Não, mãe. Esse é o brinquedo velho da Maru. O meu vibrador é pequenininho e lilás.

Essa informação fez com que eu me concentrasse melhor na situação.

– E o que você disse para a sua vovó, filhota querida?

– Eu expliquei para… Mãe!  A Rebeca vai competir agora! – disse Nara super empolgada.

Desligamos rápido porque não é todo dia que vemos Rebeca Andrade divando nas Olimpíadas. Era a chance de vermos a primeira brasileira medalhista Olímpica na ginástica artística.

Enfim, como disse no início, mamãe está bem e, hoje, já riu um bocado com sua netinha linda.

Ordem e progresso nos retrocessos de uma Democracia

Hoje acordamos com um golpe agendado. Mais essa para nossa história. Aqui é Brasil 2021, mermão. Não tem mais golpe no susto não. Aqui o negócio é organizado. É ordem e progresso nos retrocessos de uma Democracia.

O ministro da defesa, o general Braga Netto, está – como os inábeis, os incapazes e os incompetentes fazem – ameaçando dizendo que “se não tiver eleição auditável, não terá eleição”.  No mesmo dia em que o fato (negado recentemente pelo general) teria ocorrido, o próprio Bolsonaro repetiu publicamente a ameaça: “Ou fazemos eleições limpas no Brasil ou não temos eleições”. 

Como os fracos e os medíocres, Bolsonaro ameaça sair com a bola quando a iminência de perder o jogo fica óbvia.

Há quem veja isso como um golpe militar e está sofrendo como padecemos todo santo dia neste desgoverno diante tanto desmonte, alucinação e incompetência.

Eu já leio essa ameaça braganettoniana de forma diferente. Acho que essa desfaçatez é mais uma consequência de um golpe militar que já está em andamento. 

“Golpe militar? Onde? Quando? Já aconteceu? Perdi alguma notícia?”

 Miga, senta que te explico.

Lembra que uma presidenta democraticamente eleita por 54 milhões de votos, sem crime de responsabilidade comprovado, teve um  processo de impeachment aberto por um réu do Supremo Tribunal Federal, em uma Câmara em que parte dos deputados era investigada por crimes que vão do trabalho escravo à corrupção?

Então, tudo começa por ali. Talvez um pouco antes.

Na ocasião, o então deputado federal Jair Bolsonaro homenageou um dos piores, perversos e mais sádicos torturadores da ditadura: “Pela memória do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, o pavor de Dilma Rousseff, pelo exército de Caxias, pelas Forças Armadas, pelo Brasil acima de tudo e por Deus acima de tudo, o meu voto é sim”. Sob o comando de Ustra, miga, centenas de pessoas foram torturadas. Ustra espancava grávidas e, certa vez, levou filhos (de 4 e 9 anos) para ver uma mãe sendo torturada. 

Testemunhamos ali, não podemos nos esquecer porque isso nos fala muito sobre nosso presente, uma das cenas públicas mais violentas da nossa história. Além de não receber punição alguma, começou ali, ao ver que as instituições não funcionavam, uma campanha (que segue até hoje e da qual nos tornamos reféns) cuja principal carta é o discurso de ódio e as ameaças.

Bolsonaro se tornou presidente com ajuda do então juiz Sérgio Moro, que depois virou ministro do governo que ajudou a eleger ao julgar parcialmente Lula. Depois disso, temos, pasme, miga, mais de 6 mil militares atuando em cargos civis no governo Bolsonaro. 

“Sério?”

 Sério, miga.

Militares no governo ganharam milhares de cargos, privilégios na Previdência e sairão sem arranhões da reforma que se propõe a acabar com o serviço público.

Militares estão  em áreas nas quais não necessariamente contam com notório conhecimento como no Ministério da Educação, no Ministério da Saúde atuando na Anvisa; no Ministério da Agricultura ocupando o Incra; no Ministério dos Direitos Humanos, ocupando a Funai; no Ministério da Cidadania, ocupando a pasta responsável pelos Esportes; no Ministério do Desenvolvimento Regional, ocupando o departamento responsável pela defesa civil  como bem elencou o cientista político William Nozaki para o Rede Brasil Atual.

Militares estão também em postos de direção ou em conselhos de administração de algumas das maiores empresas estatais do país, como Petrobras, Eletrobras, Itaipu Binacional, Telebras, Correios e Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares.

É ou não é um governo militar, miga? Nem na ditadura tivemos tantos fardados ocupando cargos tão estratégicos.

Por outro lado, estamos vendo o desastre que está sendo estas gestões. O pior, dado a pandemia, foi o general Eduardo Pazuello. Olhando o que estão fazendo, cai por terra aquela ideia de que militares são competentes politicamente e administrativamente falando. Pelo contrário, se o que está sendo apontado na CPI for provado, minha irmã, nem te conto…

No caso do Ministério da Educação, se eu falar, eu choro de tanta dor vendo uma pasta tão importante ser comandada por um lunático.

“Mas e agora com mais essa ameaça desse general Braga Netto?”

Se for também comprovado mais esse ato covarde, novamente, as Forças Armadas serão rebaixadas na opinião pública já que estão ali para seguir e fazer valer a Constituição e não rasgá-la. Não há legitimidade constitucional para as Forças Armadas interferirem nas eleições de 2022.

Braga Neto é lambedor de saco de Bolsonaro e – como seu patrão – faz a política no grito dado por machos alucinados. Homens covardes não conhecem outra forma de governar.

Golpearam em 2016, golpearam em 2018 e estão agendando, agora, não mais um golpe para 2022, mas sim a manutenção de tudo isso que eles nos roubaram. Já temos presos políticos, gente exilada, pessoas ameaçadas de se pronunciarem publicamente contra o governo, pessoas mortas, queimas de arquivo, ataque às universidades… está tudo aí, miga.

Só agora, vemos muita gente acordando. Antes tarde do que nunca para enxergar como essa galera de extrema direita joga imundamente.

E por que agora isso? Tudo está por conta do voto impresso. 

Em maio, Bolsonaro afirmou, sem apresentar provas, que as urnas eletrônicas permitem fraude: “Se não tiver voto impresso, sinal de que não vai ter a eleição. Acho que o recado está dado” . Ministros do STF se posicionaram contra e bastou para esses homens saírem com o dedo em riste, típica atitude de quem não consegue aprofundar um diálogo e defender seus ideais de forma educada e inteligente.

O que fazer?

Olha, eu leio por desaforo. Rio por sobrevivência. Dialogo como resistência.

Ah e sim vou para as ruas dia 24 de novo porque não quero ter essa crise de consciência. Luto sem cansaço contra toda essa nojeira e poderei falar isso para meus netos e minhas netas.

Diga-me o seu CEP e eu te direi quem tu és

Sou eu que coloco endereço em cada livro que posto. É uma atividade manual que poderia ser somente de cópia, mas procuro me envolver emocionalmente no processo braçal e tirar disso alguma diversão.

De tanto colocar o destino, sei só de olhar o primeiro número do CEP para onde o livro vai. Agora estou atenta aos segundos e terceiros números do código postal e estou aprendendo sobre eles, a dizer, as sub-regiões de cada região desta bagaça chamada Brasil. Qualquer dia, você vai me falar o nome de sua rua e eu vou te dizer seu CEP assim na lata.

Começou por zero o CEP? São Paulo.
Um? Interior de São Paulo.
Dois? Ridijanêro.
Três? Minas.
Quatro, cinco e seis mando com beijo e gratidão: norte e nordeste.
Sete: Brasília.
Oito: Paraná e Santa Catarina
Nove: Rio Grande do Sul.

Endereço para Brasília é diferente dos demais do Brasil. Lá a coisa é tudo por número e quadras. As ruas não têm nomes e sim referências. Acho, sinceramente, que faz bem mais sentido do que ficar colocando nome em rua. Aliás,…

Tem muito mais rua com nome de homem do que com nome de mulher. O machismo está também escancarado no mapa do Brasil. Rua com nome de capitão e general tem aos montes, fica aqui mais essa observação.

Tem muita rua que começa com Doutor como a rua Doutor Victor Bhering em Conselheiro Lafaiete em Minas. Nunca vi rua com nome de doutora. Tem? Certamente. Mas acho que nenhum livro meu chegou até lá (já que sou eu que escrevo o endereço de quase todo mundo que adquire meus livros).

Rua com nome de governador tem em todos os Estados, assim como rua com nome de prefeito. Acho legal quando vejo rua com nome de vereador. Corro para saber quem foi e já quero saber da história daquela região toda.

Tem rua com cada nome que fico imaginando a pessoa escrever ou soletrar isso sempre. Exemplos: Rua Arthur Manuel Scheffer em Torres/RS, Rua Dragothim Tomich em Carlos Chagas/MG, Rua Friedrich Von Voith em São Paulo…tem vários endereços assim. Já sofro soletrando meu nome, imagina morando numa rua dessas… Em tempo, tem mais rua com doutor do que com professor como a rua professor Stroller em Petrópolis/RJ. Esse aqui fiquei com pena de quem mora lá tendo que escrever esse nome sempre que vai colocar o endereço: rua professor Carlos Schlottfeldt. Jesus amado… Sei nem como fala isso.

E tem ruas que eu vou ao Google para saber do que se trata: Igarapava, Upamaroti, Piracanjuba, Cambaúba, Guaianazes, Itapiru, Upiara, Tacomaré… estou enriquecendo meu vocabulário e minha cultura descobrindo onde vocês moram.

Quando aparece uma rua com nome e sobrenome de mulher, eu paro tudo. Sou despertada pela curiosidade dado minhas bandeiras. Olha isso, gente: Rua Jardelina de Almeida Alves em Mogi das Cruzes/SP, Rua Lilia Elisa Eberte Lupo em Araraquara/SP – CEP começando com…? Um! Isso mesmo. Rua Flaminia aqui no Rio. Não parecem pessoas interessantes? Mas são poucas, como disse. Nome de homem tem aos montes ao ponto de me causar desinteresse pela história deles.

Tem poucas ruas que começam com “Dona”. Mas guardo o nome delas e fico imaginando uma mulher cuidando de todo mundo como a rua Dona Mariana (em Jacareí/SP), a rua dona Queridinha (em Itapoã CEP começando com três, portanto, Minas Gerais) e Rua dona Maria (CEP começando com dois, logo, aqui no Rio). Rua dona Avelina, rua dona Cassina, Dona Francisca, dona Catarina, dona Joana, Dona Isaura, Dona Veridiana, Rua Dona Tereza Cristina… São várias “Donas” que gostaria demais de saber quem foram.

Rua de Santo tem de todos que conheço e mais outro tanto que nunca tinha ouvido falar. São Sebastião, São Diego, Santo Antonio, Santo Expedito, São Eufredo, Santo Lenho, Santo Afonso,…

Tem ruas que fico imaginando o que se passou: rua da Gratidão (em Salvador CEP começando com quatro), rua da Represa (em São Bernardo CEP com zero), rua dos Sabiás (em Fortaleza CEP com seis), rua da Felicidade, rua da Alegria, rua dos Cavaleiros, rua das Princesas,…

E tem as ruas que sorrio quando escrevo pensando só na lindeza que é: rua das Dálias, rua das Flores, rua das Amendoeiras, rua das Laranjeiras, rua das Palmeiras, rua das Mangueiras, rua dos Ipês… Sei que posso chegar lá e ver um deserto de prédios, mas dálissença porque preciso imaginar coisas boas enquanto coloco o endereço nos envelopes.

Mais interessante do que isso são os nomes dos bairros, mas preciso voltar ao meu trabalho aqui. Caso contrário, não consigo cumprir o prometido que é mandar o livro para vocês com autógrafo ainda nesta semana. Já viram o quanto me disperso…

Por ora, parei tudo para dividir com vocês isso aqui que ando observando.

Com carinho, para todas as pessoas que compraram meu livro ❤

“Jogo on line não tem pause”

Foto antiga. Hoje Yuki está maior do que eu, mas eu sempre verei meu kikito assim.

Chamo meu filho adolescente para comer.

Ele demora. A boia esfria. A crocância nhé.

Meses isso se repete, gente.

Daí, vocês que sempre têm razão mas não têm coração vão dizer: deixa ele comer frio que ele aprende rapidinho.

Cêis não tão entendendo.

Ele não se importa em comer frio, mas eu sofro ao ver meu filho comendo uma comida gelada.

Sou mãe e as mães vêm com um chip que, se um filho sair com camisa amassada ou comer uma comida gelada, a gente sente como se fosse culpada por toda vulnerabilidade do mundo.

Desculpa estar reforçando estereótipos, mas preciso exagerar para vocês me entenderem e gerar comoção em quem me lê e tem o mesmo chip que eu. Tem mãe que vem com chip diferente? Tem.

Isso posto, vou continuar.

É difícil educar porque a medida pedagogicamente indicada para o caso em questão – em que a gente chama e o filho fala “javô” millones de veces – impõe mais sofrimento em mim, mamacita, do que nele, chiquitito de mamacita.

Como sou esperta e sei equacionar bem, passei a chamá-lo quando começo a cozinhar dizendo que tá pronto.

Ponho água no arroz e já falo que tá tudo na mesa esfriando para ele vir rápido. Desse jeito. Nesse nível de precisão.

Ele passou a chegar na hora certa.

Meus cálculos foram perfeitos.

Tudo quentinho saindo fumacinha cheirosim e suquim com gelim e menino lindo sentadim.

Palmas para a minha inteligência Plus Master com o third child.

Porém, como sou também, acima de tudo, excelente educadora faço a pêssega quando ele chega, mas preciso brigar. Então, na verdade, faço uma falsa pêssega hiper revolt.

Da outra vez foi tão intenso meu teatro de não aguento mais te chamar para comer por que minhas deusas você demora tanto vou cortar a Internet da casa cada minuto que eu chamo e você não vem é um cabelo branco que me aparece vou começar a fumar enquanto a comida tá na mesa e você não vem… essas coisas que todas as mães sabiamente falam… então, fiz um discurso tão bom de invejar qualquer mãe perdida que meu filho prometeu não me estressar mais.

Ele disse que nunca mais vai se atrasar. Eu chamo e ele pá. Vem.

Prometeu.

Tenso.

Estava tudo resolvido.

Era só ele continuar fazendo tudo errado que tava tudo certo.

Mas agora ele afirmou que ia fazer o certo para eu ficar calma.

E eu tenho para mim que ele não vai fazer mas pode ser que faça o que não precisaria mais ser feito.

Ele mexeu uma peça importante no jogo depois de eu jurar que tinha dado um xeque mate jab mother.

Ah gente.

O dia que andei muito de windsurf

Foto: Bárbara Lopes

Teve um dia que eu estava passando férias em Florianópolis na casa de uma gente muito rica cujo quintal se emendava na areia da praia em Canasvieiras.

E onde tem gente rica tem gente fazendo coisa de rico.

E eu lá no meio daquilo já cheia de filhos e boletos.

Um pouco mais ali na frente, tinha aula de windsurf e, do quintal daquela mansão, eu ficava babando vendo uma galera planando na água controlando uma vela em cima de uma prancha como quem anda de patinete.

Parecia fácil e eu quis.

Contei as moedas e vi que dava para uma aula. O valor de uma hora, para vocês terem ideia, era o equivalente, hoje, a 4 ou 5 sacos de arroz. Estava de férias, havia trabalhado pacas. Julguei no alto do meu privilégio que merecia.

A moça disse que seria bom fazer ao menos umas três aulas para eu aprender direito as manobras a ponto de poder ir para mais longe. Não duvidei, mas não era questão de opinião e sim de matemática financeira.

Na hora combinada da aula, avisei para minha galera que ia me ausentar. Lá fui eu com toda minha inteligência cheia de conhecimento de física quântica e anos acumulados de sedentarismo ver qual era daquele esporte.

A moça que ensinava era uma surfista-senhora. Magra, loira e com couro cor laranja-Trump textura jacaré-vacinado. Falava portunhol. Em Santa Catarina tem muito disso: argentinos.

A primeira coisa é aprender a montar a vela. Digo, colocar aquela lona no mastro. Não curti. Para que isso? Nunca ia montar aquilo em Madureira. Tinha pressa como os que pedem comida pelo aplicativo.

Eu queria logo brincar como via, há dias, outras pessoas fazendo. Tive que perder, porém, uns 15 minutos daquela aula carééésima erguendo aquele peso. Descobri que a força que uma leve brisa tem quando bate num pedaço de plástico se equivale a fúria de um furacão.

Depois de tanta montagem e desmontagem, tira casaco coloca o casaco, grazadeus amém fomos para o mar.

EBAAAAA.

Mais instruções. Affff.

Naquela época eu sabia que tinha surdez moderada e tinha já indicação para usar próteses. Mas não falei sobre isso para a instrutora porque houve um momento na minha vida que tinha vergonha de não ser como a maioria.

Lembro-me de que estava pê da vida porque estava perdendo tempo de aula com ela tagarelando e dando nome em cada pedaço daquele brinquedo. Para quê isso, gente?

Ela falava da rosa dos ventos, ângulos, direções e tentei poupar o tempo dela dizendo que, de vetores, eu sei tanto que até dou aula.

Até que chegou o momento de eu ficar em pé naquilo.

Quem disse que conseguia.

Lembra do que te falei, ela insistia.

O pouco que consegui ouvi-la não prestei atenção como fazemos com aqueles que começam a contar uma história quando o garçon chega com o pedido.

Eu queria brincar e só tinha aquela oportunidade. Tenso. Mega tenso.

Toda hora eu caía na água.

E ela ficava insistindo em explicar.

Já estava ficando triste e irritada com tudo.

Estávamos no mar e eu só entendo o que a pessoa fala se olhar para a boca dela.

A mulher estava em um caiaque e eu na prancha a uma distância que mesmo eu olhando não entendia patavinas.

A hora passando e eu só pensava no dinheiro que tinha dado para ficar passando por aquela humilhação de não conseguir mais encontrar meu centro de massa.

Balançava como um boneco de posto sacudindo aquela vela para frente e para trás e água.

Subia na prancha e em menos de um minuto… água de novo.

E a mulher gritando orientações pelas minhas costas.

Caraca.

Não acredito que paguei para passar por aquela situação, pensava como os que compram um vidro de azeitonas bem grandes e suculentas, mas não conseguem abrir sozinhos.

Até que um milagre aconteceu.

Os ossos se ajeitaram com a vela.

O equilíbrio se fez presente e bons ventos sopraram em conjunção perfeita de Madureira com Canasvieiras.

A prancha saiu do lugar e começou a ganhar velocidade.

Quem acompanhava de longe via uma vela sendo soprada pelo vento. Se aproximasse, veria uma mulher deixando tudo para trás.

A sensação era maravilhosa.

Via um horizonte, um céu lindo, estava numa velocidade que, ouso dizer, nem os surfistas mais experientes alcançaram.

Sentia que a instrutora estava ao fundo gritando, mas se eu olhasse para trás, cairia e sabe deus nosso senhor quando iria encontrar aquele equilíbrio raro – fruto do encontro dos alísios com a minha lombar.

Eu só pararia quando o vento mudasse de ideia porque a minha era fixa: usufruir ao máximo de cada centavo como fazemos quando vamos a um rodízio de pizza.

Eu era parte de um cenário lindo e gritava urrú em pensamento. Era, enfim, uma mulher equilibrada andando em linha reta.

Até que olhei sorrindo para o céu e de uma nuvem saiu Mufasa.

Lembre-se de quem você é. Disse ele.

Quando a nuvem se fechou eu caí na água.

Subi de novo na prancha e foi então que olhei onde estava.

Possivelmente no Pacífico pelos meus cálculos.

As pessoas estavam minúsculas e bem lá longe – mas muito longe mesmo – vinha a instrutora remando rápido no caiaque.

Tentei ficar em pé, mas o vento não mais ajudava. O jeito foi ficar sentada vendo o mundo parado embaixo de mim como fazem aqueles que experimentaram um hatuna matata nível Advanced Plus Master.

Até que, depois de um bom tempo, a mulher se aproximou a ponto de eu escutá-la.

Ela estava demasiadamente irritada. Fiz sinal que não ouço direito, pedi desculpas.

Ela me deu o remo, mandou eu subir no caiaque e assumiu o windsurf.

A minha experiência não era suficiente para me fazer voltar contra o vento, disse ela quando reclamei em voltar de caiaque e ela no meu brinquedo.

Odeio caiaque. Cansa. É lento. Tem que remar. Não gosto.

Demorei muito voltando.

O suficiente para refletir sobre tudo e me conhecer melhor.

Desde então, percebo que muitas vezes que estou feliz e equilibrada, não tenho a menor noção do que esteja fazendo.

Lembrei disso porque tenho 500 livros para autografar e acabo de impulsionar mais uma postagem distribuindo autógrafos. Podem ficar tranquilos que já estou remando em direção à terra firme.