Jardim sem borboletas

Tenho pavor de joaninha, me arrepio quando vejo borboletas, entro em desespero se me deparo com besouros. Qualquer inseto que faça zzzzzz me faz ver a morte. Já saí de um carro em movimento por conta de um percevejo. Desse jeito.

Muitos adultos já riram de mim e jogaram bichos em minha direção para me assustar e rir depois da minha reação. Outros, de forma completamente ineficaz, tentaram colocar insetos em minha mão à força para eu ver que eles não fazem mal algum.

Sei que há insetos que só existem para as flores e são cegos para mim. Porém, se nós fôssemos racionais de verdade, não beberíamos refrigerantes, não comeríamos enlatados, não fumaríamos, não andaríamos de moto e nem votaríamos em candidato declaradamente homofóbico e racista. Ou seja, não é nada que se combata com explicação porque dolorosamente eu sei. Apenas não tenho capacidade de aplicar determinados conhecimentos em mim mesma assim como agem os alcoólatras e os apaixonados.

Tenho uma história para contar para vocês. Eu havia me esquecido dela por muito tempo. Esse fato foi resgatado quando alguém me viu brincando com uma lagartixa.

– Como assim você não tem medo dessa coisa gelada e não gosta de joaninhas?

A pergunta me pegou de surpresa porque, de fato, pensando bem, não fazia sentido algum.

– Você tem medo de aranhas?, insistiu a pessoa atenta a mim.

Não. Tenho medo de baratas e besouros. Tenho respeito pelas aranhas. Mas medo definitivamente não. Adoro as lagartixas.

Até eu achei tudo estranho olhando por aquele ângulo. Revirando o meu baú com um giga cuidado, encontrei algo que estava muito bem escondido em mim.

Passei parte de minha infância em Minas pois mamãe é de lá. Finais de semana, feriados e férias sempre íamos para alguma roça. Eu tinha oito anos quando ocorreu o que vou narrar agora.

Era comum os primos todos se juntarem para brincar. Mamãe teve quinze irmãos e por aí vocês imaginam a quantidade de primos que tenho pelo mundo hoje e que, na época, eu tinha por lá. Mais precisamente em Itajubá. Era criança que não acabava mais.

Houve um dia em que estávamos numa fazenda. Eu vestia uma blusa de lã com gola alta e uma jardineira por cima. A roupa é muito importante nessa história e adiante vocês saberão por quê.

No final da tarde, um rapaz que trabalhava nessa roça da tia disse que ia colocar as vacas para irem pastar no morro e perguntou quem queria ir com ele e com as mimosas. A criançada toda, rapidamente, levantou a mão gritando: eu eu eu! e lá fomos nós morro acima.

O rapaz ia na frente e atrás dele uma dúzia de vacas. Andávamos pela estrada estreita de terra no meio do mato um pouco alto. Eu era a primeira criança atrás da última vaca e depois de mim deviam ter uns oito primos. Era um trenzinho de gado e de gente. Um atrás do outro – mesmo porque não havia espaço para ninguém andar de mãos dadas lado a lado.

Lembro-me do quanto eu estava encantada com o movimento do rabo da vaca que parecia um pêndulo perfeito. Na posição mais alta, a extremidade do rabo se enrolava numa espiral. Depois se desenrolava e fazia o movimento no outro sentido. Espelhado, simétrico, lento, perfeito. Hipnotizador.

Eu subia o morro distraída com as badaladas de um rabo bovino que não sabia o que era pressa.

Até que o primeiro vagão daquela locomotiva passou por debaixo de uma árvore baixa cujas folhas faziam cócegas nas costas das malhadas.

Rabo vem.

Rabo vai.

Rabo vem.

Rabo vai.

Quando a “minha vaca” passou pela árvore com aquele rabo lentamente inquieto, numa balançada bem dada, ricocheteou uma casa de abelhas que caiu em cheio bem na minha frente.

De repente, o céu ficou escuro.

Comecei a gritar.

Até que a última criança entendesse que tinha que descer o morro correndo, as abelhas entraram literalmente no meu corpo. Além da minha roupa que fagocitava aqueles insetos raivosos, a cada grito de dor, entravam abelhas pela minha garganta.

Quando enfim consegui ver minha mãe de perto que, a princípio, achou que era brincadeira aquele bando de crianças correndo e gritando, ela me pegou rápido e  me colocou debaixo do chuveiro frio com roupa e tudo. Recordo-me bem de ela passando pente no meu cabelo com força e o chão ficando chamuscado de abelhas que ela matava pisando.

Saí dali e fui direto para o hospital. E me esqueci de todo o resto. Acho que desmaiei. Quando acordei não abri os olhos porque não conseguia. Eles estavam inchados demais. Tive febre e as dores custaram muito a passar.

Seguramente, poderia ter morrido.

O tempo passou. E havia me esquecido por completo dessa história. Só me restava o trauma que está aí no mundo para zuretar com nossas vidas. Ao ouvir ou imaginar qualquer barulho de asas de algum inseto, meu corpo trava, meus músculos se contraem e a garganta ameaça a fechar. Tenho um tipo de cognição corpórea. Minha pele faz essa associação porque possui uma história.

Ainda que não me lembrasse desse episódio, sempre que vi alguém com medo de alguma coisa (qualquer coisa), respeitei. Dentro de mim, sabia que todos têm seus motivos para não viver adequadamente. Nem perguntei nunca o motivo do assombramento da pessoa (que, para mim, não fazia o menor sentido).

Rejeitei todos os conselhos de “me tratar”. Meu medo só incomoda a quem quer que eu seja de um determinado modo. Particularmente, não me importo com a minha falta de jeito de interagir com os insetos a despeito de sofrer, desnecessariamente, em muitas ocasiões. Como disse Clarice, a gente nunca sabe qual defeito que sustenta todo esse edifício.

No meu jardim, não há joaninhas e borboletas. Ainda assim meu deus. Como eu amo a primavera.

 


Texto dedicado a Maria Eduarda, uma menininha linda que me pediu para lhe contar uma história. Após ouvir essa com todos os detalhes mais caras e bocas de dor, disse que eu merecia ganhar mil reais por ela. 🙂 Como elogio de criança é o que há, resolvi escrever. Vai que alguém me pague por isso…

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Resistir não quero mais. Existir será meu verbo.

Há tempos ando com muito medo. Nunca pensei que um dia iria participar como candidata de alguma eleição – como está prestes a acontecer.

Exposição em tempo algum foi um problema para mim. Entendi desde cedo que não importa o que você sinta. Haverá sempre meio mundo com um problema igual ao seu. Portanto, não precisamos nos envergonhar em andar nuas por aí. E, assim, com seios e cérebro à mostra, caminhei até aqui.

Já fiz algumas terapias e olhar para dentro também não é aquilo que me apavora. O que tem me desesperado é a necessidade de mudança. Não é muita coisa que preciso alterar, mas pode ser tudo. Como dizia Clarice, nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro.

Jamais fiz nada em troca de curtidas e acredito que nunca ninguém me viu pedindo para compartilhar algo que eu tenha escrito. Penso que carinho quando reivindicado perde muito de sua essência. Mendigar amor: prefiro conversar sozinha. Bendita seja a masturbação.

Estamos na fase das pré-candidaturas em que é terminantemente proibido pedir voto. Não é a melhor fase da minha vida, mas desejaria que ela durasse para sempre. A campanha vai começar em Agosto e até lá preciso vencer esse monstro que habita em mim que sequer consigo nomeá-lo. Não é vergonha, pois se tem algo do qual me orgulho é da minha filiação e da minha coragem, modéstia à parte, de participar de tudo isso e encarar toda essa gente; muito menos… sei lá meu deus muito menos o quê.

Escrevo sobretudo para mim mesma. Preenchendo uma página em branco de um editor de textos, vou me sentindo não mais esclarecida – porque isso beira o impossível – e muito menos mais segura – porque essa palavra foi inventada. Vou me sentindo como aqueles que estendem a mão e recebem o pouso de uma borboleta ou aqueles que leem ao ar livre e são surpreendidos por um cocô de passarinho no parágrafo do texto com o qual conversava.

Estou me lembrando aqui das inúmeras vezes que divaguei sobre as minhas inseguranças com vocês. Seja na maternidade seja na separação seja na escolha de um esmalte ou com a vinda de um novo amor, eu me desesperei. Sou mesmo muito desajeitada com a vida.

Agora estou pré-candidata a deputada estadual pelo PT_RJ. Se tudo der certo, despeço-me das salas de aula que considero o local mais sagrado que existe. Se tudo der errado, seguirei realizada em minha profissão, porém, como dizem, totalmente trabalhada na revolta por ver as escolas públicas sendo sucateadas e nada poder fazer. De qualquer forma, haverá um tombo gigantesco e já sigo em queda me apoiando no ar, relativizando o certo e o errado.

Tenho tomado um cuidado comigo mesma como se eu fosse um pudim sendo desenformado. Procuro me inspirar na suavidade dos estúpidos, a mesma que faz com que um touro ande com um certo charme. Por outro lado, sinto-me tão poderosa como um ogro que possui uma chave (de uma porta que ele não sabe qual é (e que pode ser de um castelo que há tanto havia sido demolido)). Sem nomear nada por dentro, imagino essa chave quando sinto o de-repente-tantos-sonhos. Penso assim bonito porque se eu não der grandeza e magnificência ao meu novo mundo, estarei perdida. Seja lá o que for tudo isso, tem muita força e sinto medo.

A verdade, se querem saber, é que aceitei a minha grande contingência. Não consigo, confesso, livrar-me dessa ameaça que é a minha ânsia de viver tudo em profundidades. Contenho-me da mesma forma que jamais gritei de alegria ao ver um filho dando o seu primeiro passo para que ele não se assustasse.

Não sei exatamente com o quê estou lidando. Entendo que a compreensão é feita através das palavras não ditas e não entendo a minha necessidade de viver tudo isso. Dizemos a verdade quando a negamos de forma delicada.

Sei que aceito humilde o medo e toda essa insegurança como quem aceita um batismo.

Tenho minhas dúvidas se conseguirei pedir lá na frente para que depositem em mim a esperança já que sou tão escabreada. Para isso, tenho frequentado às mulheres. Mal consigo dizer que sou pré-candidata sem sentir o chão tremer. Elas sabem o que eu sinto e já tem agido sobre mim.

Há tempos ando com muito medo. Sem ele, nunca caminhei e suspeito que ele seja o meu combustível. A despeito de tantos fantasmas, saibam que sou uma ameaça (para aqueles que temos chamado de inimigo), pois tenho a tirania dos que necessitam. Resistir não quero mais. Existir será meu verbo.

Castração não é a solução.

Não defendemos a castração química em caso de estupro porque isso não resolve nosso problema.

Desenhando para entenderem:

1- Homens castrados quimicamente estupram.

2- Estupro não se resume a ato sexual.

3- Não é só um pênis que entra em uma vagina.

Para quem não leu:

Artigo 213 do Código Penal. O estupro consiste em “constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, a ter conjunção carnal ou a praticar ou permitir que com ele se pratique outro ato libidinoso”. A pena é de seis a dez anos de prisão.

Estupro tem a ver com o subjugamento da mulher. Um beijo forçado, segundo a lei, pode ser considerado estupro. E é. A castração química pressupõe que os estupros são causados pela libido incontrolável, em vez de considerá-los crimes de poder e de controle. Um homem castrado quimicamente poderia continuar tendo atitudes violentas contra mulheres, ainda que não conseguisse consumar o ato sexual pela penetração, mas inserindo objetos e cometendo outras formas de agressão.

Estupro é sobre violência, não sobre sexo. Esse é o ponto principal.

Definitivamente, essa não é a solução. Precisamos combater a cultura do estupro e a violência contra a mulher. Isso sim seria eficaz, pois somente através desse enfrentamento conseguiríamos ensinar a população a essência das palavras “respeito” e “consentimento”.

Mas mais do que isso. A medida seria uma perfumaria pois tem um prazo de duração irrisório. Queremos mudanças efetivas e não uma maquiagem para disfarçar o problema real.

Depois que o efeito passa (e é rápido esse efeito), o criminoso pode voltar a ter ereção. E, durante o efeito, ele não está impossibilitado de estuprar porque o estupro já é cometido por muitos homens que possuem dificuldade em ter ereção, vale observar.

No mais, a medida não teria garantias, pois o resultado depende da mente de cada paciente e, como já apontaram vários especialistas de saúde, pode ser revertido com ingestão de Viagra, por exemplo.

Se levarmos em consideração o fato de que isso pode destruir o organismo do cara todo podendo comprometer fígado, rins, causar diabetes, retardo cognitivo, etc., enfim, se refletirmos sobre isso, a castração parece ainda mais controversa. Vejamos:

“Quero mais é que ele morra!” não pode ser argumento, a meu ver, porque, se assim for, temos que pular da castração para discutir a pena de morte de uma vez. A medida da castração configura um tratamento altamente desumano ou degradante que se equipara à tortura e interfere na integridade física e moral do estuprador e o mais importante: sem garantia alguma de que ele deixará de ser violento.

Não é isso definitivamente que queremos.

Não precisamos nos tornar seres iguais ou até piores que o estuprador para impedir que o estupro aconteça em nossa sociedade. Há outros caminhos que indicam ser muito mais efetivos e duradouros; por eles andaremos.

Uma questão:

Por que, de uma forma geral, as pessoas que propõem a castração química como solução são as mesmas que resistem a um debate sobre igualdade de direitos, conscientização e empoderamento das mulheres?

E mais outra para terminar:

Se as mulheres que são vítimas do estupro em sua maioria acham que castração química não resolve o problema, por que diabos que homens, que são, para nós, todos estupradores em potencial, insistem (de forma até violenta) que isso resolve?

Para não esquecer quando for pensar no assunto: em muitos casos, os estupradores são pessoas da própria família, quiçá marido e namorado, ou amigos próximos. Por isso, quando afirmamos que “Todo homem é um estuprador em potencial” queremos dizer que para nós, mulheres, os estupradores não têm “cara de estuprador”. Para nós mulheres que já sofremos assédio (e a campanha ‪#‎PrimeiroAssédio‬ mostrou que são todas nós ou algo próximo de 100%) o medo e o risco são constantes justamente por não sabermos de quem e quando podemos sofrer um abuso.

Pode ser um professor, um médico, um padre ou pastor, o chefe, o amigo ou mesmo o padrinho, o tio ou o pai… E, claro, pode ser inclusive um desconhecido que nos pega na rua. A expressão fala de como para nós, mulheres, o perigo de ser estuprada é iminente.

Então se você é um homem decente, saiba que essa expressão não é para te atacar. É sobre como nos sentimos ameaçadas até mesmo nos locais que deveriam ser nosso porto seguro.

E acho bom que (até ordem contrária) você avise a sua filha, a sua afilhada, a sua irmã e a sua mãe que todo homem é sim um estuprador em potencial. Se tivessem me avisado isso com todas as letras, talvez eu não tivesse sofrido o que sofri com um médico, um vizinho e um desconhecido na rua. Todos me pegaram, me sarraram, colocaram o pênis para fora… e, pasmem, quando eu ainda era criança. Não fui estuprada segundo muitos pensam, mas fui se seguir o texto da lei e não o senso-comum. Quando adulta já perdi as contas de quantas vezes fui assediada ou fui tratada de forma desrespeitosa.

Sendo assim, entenda: não é sobre você. É sobre como nos sentimos ameaçadas e sem saber quando e em quem confiar.

Quando falamos isso não estamos querendo ofender e muito menos atacar. Queremos apoio. Estamos pedindo socorro e reflexão profunda sobre o tema porque há mulheres sendo estupradas diariamente e a castração química não vai impedir que esses crimes continuem ocorrendo.

Viajando com Isaac

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Estou morta de cansaço, mas quero compartilhar algo ímpar que aconteceu hoje em minha vida.

Muitos já sabem que o espetáculo Isaac no mundo das partículas está novamente em cartaz. Desta vez, porém, o financiamento foi via benfeitoria, ou seja, conseguimos reestrear com a colaboração de muitas pessoas.

O que vocês não sabem é o quanto trabalhamos para alcançar a meta. Cada um de nós forneceu e produziu o que podia para ajudar nas recompensas. Por exemplo, a Joana Lebreiro, diretora do espetáculo, ofereceu aulas de teatro com ela para quem contribuísse com uma determinada quantia. Fizemos botons, CDs, chaveiros e vídeos de agradecimento. Eu, particularmente, ofereci meus livros autografados e… aí que quero chegar, palestras para escolas sobre Física de Partículas.

Nunca dei aula para crianças. Não sei dar bom dia para mais de cinco delas juntas. Tenho medo de parecer apresentadora de programa infantil. Escrevi um livro para a molecada mirim baseado nos diálogos que tive com Yuki. E só.

Pois não é que contribuíram lá com um tanto no financiamento coletivo para receberem a palestra nas escolas? E agora?!

Comigo é tudo assim. Não penso. Vou fazendo, vou oferecendo coisas no calor das ideias e quando vejo tô desesperada com um desafio enorme pela frente.

Vou dizer o que aconteceu. Peguei todos os livros que tinha sobre o tema. Reli várias passagens. Refiz várias contas para aquecer os neurônios. Separei fotos do CERN, montei os slides tudo em sequência cronológica. Lindinho. Coloquei ilustrações do livro do Isaac para embelezar a palestra. Estou há umas duas semanas fazendo isso. Ontem à noite terminei. Ufa! Em tempo.

A palestra foi hoje pela manhã no CEAT em Santa Teresa.

Acordei três e meia da madrugada. E não dormi mais. Fiquei pensando nos slides, no livro, nas metodologias tradicionais que massacram a criança de informação que elas não querem saber.

E pensei no quanto a curiosidade move um cientista.

Mudei tudo.

Decidi não usar nada que levei dias preparando.

Às onze da manhã estava diante uma turma de uns 50 alunos com idade em torno de dez anos. Apavorada como ficam todos que vão fazer algo que não tem a menor ideia no que vai dar.

– Bom dia. Meu nome é Elika Takimoto. Vim aqui dar uma palestra. Mas não vou falar nada a não ser que seja perguntada. Só darei a primeira informação. Se vocês não perguntarem nada, eu muda ficarei. Meu nome é Elika, sou professora de Física e fiz um curso de Física de Partículas no maior laboratório de física do mundo.

Pronto. Me calei.

Umas oito crianças levantaram a mão.

– O que é física?
– Esse laboratório fica onde?
– O que se estuda lá?
– Física de Partículas? Tem outros tipos de física? Por que a divisão da física?

Respondi todas as questões. E a cada resposta mais crianças sinalizavam que queriam participar.

E assim, por uma hora e meia, tive várias pessoinhas me bombardeando com pontos de interrogação. Falamos sobre Big Bang, sobre a origem da massa, sobre Física Quântica, sobre a natureza da luz, sobre buracos negros, sobre a relatividade de Einstein, sobre Deus, sobre espaço e tempo e sobre o espaço-tempo, enfim, sobre Ciência sem rodeios.

Tive que interromper e sinalizar que a palestra estava terminando. Ao final, deixei claro para as crianças que todas as perguntas que elas me fizeram foram feitas pelos maiores cientistas que já passaram pela Terra e várias delas ainda estão sendo respondidas lá no CERN, o maior laboratório de física do mundo.

Provoquei dizendo que muitos dos que lá estavam hoje conversando comigo, pela profundidade das perguntas, podem ser os cientistas que irão responder às principais questões que estão hoje em aberto.

Não subestimei meu público. Não tive dedos em tocar em nenhum assunto e fiz questão de mostrar que a ciência é um conhecimento extremamente poderoso e perigoso porque pode transformar o mundo ou acabar com ele. Daí a necessidade de entendermos minimamente do que se trata e não ter medo das equações, pois elas são frases como uma outra qualquer.

A física quântica sequer é ensinada no Ensino Médio e hoje tive uma turma de crianças alucinadas por querer saber mais sobre o assunto. Orientei como eles iam continuar pesquisando na internet e alertei sobre a quantidade de informações erradas que temos nas redes.

Era isso que queria compartilhar antes que meu dia acabasse. Estou extremamente feliz e morta de cansaço. Só não sei se sonharei mais quando dormir ou agora em que vislumbro um mundo onde todas as crianças sintam prazer em aprender e entendam que crescemos muito mais nas dúvidas do que nas certezas.

Jamais pensei quando escrevi Isaac no mundo das partículas que iria tão longe dentro da nave do meu personagem.

Gratidão eterna para Joana Lebreiro e Camila Vidal (diretora e produtora do espetáculo) que vivem reabastecendo o meu foguete.

Fio anti democrático

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Meu cabelo está horrível e cada dia pior. Ele sempre teve muito brilho, um volume que me agradava, um caimento bacana para a estrutura dele. De uns tempos para cá, comecei a ter cabelos brancos e desatei a tacar tinta nele de 15 em 15 dias. Acho linda essa mulherada que assume os fios brancos, mas aqui eu mirei na Meryl Streep no filme O Diabo veste Prada e acertei na Bruxa do 71 do Chaves.

A tinta fez meu cabelo parecer cabelo de boneca que tem a juba lisa. Não consigo passar um pente porque ele está muito ressecado e embaraçado. Por outro lado, ele não é um cabelo cacheado. Dá-lhe escova, chapinha e coisas afins que têm deixado ele cada vez mais fraco e sem vida. O natural dele está confuso, indeciso como, por exemplo, muitos cidadãos brasileiros a respeito da paralisação dos caminhoneiros.

Daí hoje entrei numa dessas lojas que só vende produto para cabelo. Comprei um óleo de côco baratinho porque a Nara disse que tinha acabado o dela. Nara, minha filha, anda nessa vibe vegana e usa esse azeite de fruta para qualquer coisa seja de comer, de olhar, de transar ou de pentear.

Uma atendente muito simpática veio me perguntar se eu precisava de mais alguma coisa. Mostrei minha cabeleira para ela e a moça prontamente me ofereceu uns produtos mega profissionais e bem caros mas que “super iam valer a pena porque tinham óleo de Argan e Semi di Lino”, seja lá o que isso for. Parecia – pelo seu sorriso – ser tudo aquilo que essa crina caótica estava precisando.

Vim para casa e, como toda pessoa normal que compra produtos novos para cabelo, entrei no chuveiro e comecei a tacar de uma forma nada comedida os creminhos que iam me deixar com a cara da menina da embalagem.

Deixei secar naturalmente e tcharã! Nada de novo no front. Continuo brigada com o espelho. Gritei a Nara desesperadamente. Nara veio e mostrei a ela as mercadorias recém adquiridas e o resultado horroroooooso depois daquele processo super cuidadoso e pleno de esperanças como as que eu tenho com a restauração de nossa democracia.

Conversei com ela sobre ditadura militar, emendei o assunto no livro que estava lendo sobre politicamente correto e voltei o foco para meus fios que outrora tinha a cor da asa da graúna (tal como os da Iracema de José de Alencar) e agora estão na cor-Tonalizante-Casting-Creme-Gloss-400-castanho-claro-The-Walking-Dead-da-Loreal. Nara ouviu tudo com a mó atenção e perguntou quem foi que mandou eu comprar aquilo e quem foi que disse que aquilo era bom para mim.

Respondi baixinho e de cabeça baixa que foi a vendedora.

Ouvi sermão sobre como funciona o capitalismo, sobre sustentabilidade e cronograma de hidratação capilar. Nara, essa feminista marxista empoderada que mais parece um coronel, me mandou sentar e tacou metade do pote de óleo de côco nas minhas melenas irresolutas. Cá estou eu com as ideias deslizando de tão bezuntada que tá minha caixola sem saber no que isso vai dar. Tenho que ficar com isso por três horas.

Para o tempo passar mais rápido, vim dividir com vocês a minha ansiedade sobre o fio anti democrático que anda conduzindo nosso país e sobre o alinhamento da minha juba desnorteada. A única certeza é que se tudo der certo com o último, mesmo eu virando modelo de xampu, estou sempre pronta para me descabelar pela liberdade de nossos presos políticos. Porque uma mulher em paz com seus cabelos continua em guerra com quem ataca as suas ideias.

Batuquemos.

Choque de cultura: achou que não íamos falar da paralisação dos caminhoneiros? Achou errado, otário!

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Segue aqui minha humilde sugestão para um roteiro do programa Choque de Cultura.

Rogerinho do Ingá:

Você tava achando que a gente não ia falar da parada que tá rolando com os nossos companheiros caminhoneiros? Achou errado, otário! Tá começando mais um choque de cultura, programa cultural com os maiores nomes do transporte alternativo do país, sempre debatendo cultura e hoje: caminhão.

Vamo falar da paralisação dos caminhoneiros que é quando os caminhoneiros param, fazem churrasco, comem comida feita pelo MST e bebem uma cervejinha porque quem bebe não dirige!

Primeiramente temo que definir se é guerra ou nocaute. A população tá dividida. Quem começa? Maurílio!

Maurílio:

A atual paralisação no transporte rodoviário brasileiro é um momento que ilustra como, no setor, os interesses de trabalhadores e da empresas podem se alinhar. No momento em que uma crise afeta simultaneamente o faturamento de transportadoras e a renda de trabalhadores autônomos, demandas como o reajuste no preço do frete e a redução nos valores dos combustíveis podem facilmente se tornar pauta comum das duas part…

Rogerinho:

Maurílio, guerra ou nocaute! Se começar a explicar muito essa galera que só vê filme de 3 minutos vai dormir como a gente dormiu em 2001 uma odisséia no espaço. Se for pra fazer pensar, a gente vai fazer programa ensinando a jogar RPG.

Renan:

Me permita interromper, Rogerinho. Eu tô muito senfibilizado com esses pilotos que me ensinaram que no cruzamento a preferência é de quem tem mais coragem. Ver meus amigos tudo parado tá mexendo comigo porque eu sei o quanto eles gostam de correr.

Julinho:

Eu tô achando que é nocaute porque não tem uma ‘Central Única dos Caminhoneiros’ e parece que a população tá até sem legume com veneno pra comer. O povo tá endoidecendo, Rogerinho, porque tá com abstinência de agrotóxico!

Renan:

Eu não sei, Rogerinho. Guerra tem gente nova nas trincheiras. Só tem velho nessa paralisação!

Maurílio:

Eu queria observar, que os caminhoneiros formam uma categoria muito diferente, que tem experiência de greves em que foram um instrumental importante das classes patronais usadas para desestruturar, por exemplo, o governo de Salvador Allende no Chile.

Julinho:

Que Chile mané Chile. A gente tá falando de Venezuela.

Rogerinho:

Perfeito, Julinho! Tá faltando produtos básicos já e só se fala em Petróleo!

Julinho:

Mas parece que vai voltar tudo, Rogerinho. O presidente em exorcismo que congelou os investimentos na saúde por vinte anos disse que está preocupado com os insumos que não chegam nos hospitais e disse que vai negociar com os caminhoneiros.

Renan:

Julinho, é paradoxo o que chama isso. Rogerinho, me parefe que as empresas querem dar um nocaute porque têm algo como 55% do controle desse transforte, muitas dessas paralisafões podem ser decisão emprefarial sim, Rogerinho. Os 45% de caminhoneiros autônomos que restam, são muito afetados. Eles já estavam ganhando muito pouco, e o preço do combustível explodiu! Enquanto isso tinha motorista de uber oferecendo chokito. Inescrupulosos, Rogerinho!

Julinho:

O dono de um pequeno caminhão, quando presta serviço para uma grande empresa, ele é, ao mesmo tempo, um pequeno proprietário de um bem de produção importante e uma espécie de ‘proletário dos transportes’. Ele oscila entre esses dois.

Renan:

E se o caminhão for grande?

Rogerinho:

Não existe caminhão pequeno, rapá! Caminhão termina com ão porque é tudo grande!

Maurílio:

Estamos vendo um quadro crítico de recessão, que afeta o nosso amigo caminhoneiro e a nossa inimiga empresa. Nós estamos vivendo um processo em que há um interesse patronal e, ao mesmo tempo, uma revolta de nossos colegas de profissão caminhoneiros independentes, que não estão conseguindo se manter.

A gente não pode resumir como guerra se for coisa de trabalhador e nocaute se for de interesse de empresário. Não é tão simples assim essa situação…

Rogerinho:

Definiu muito bem, Maurílio! Se é coisa de trabalhador estamos em guerra, se não temos chance é nocaute! Vamos agora analisar os pontos fortes e pontos fracos dessa paralisação. Pontos fortes!

Renan:

Renanzinho não teve aula e eu pude ficar mais com ele.

Rogerinho:

Fez bem. Escola é um perigo. Por vezes a criança tá bem quietinha em casa, vai para a escola e volta falando coisa que a gente não entende. Ou morre no tiroteio.

Julinho! Pontos fortes da paralisação.

Julinho:

Memes.

Maurílio:

Voltei a ouvir alguns sucessos de Sula Miranda…

Rogerinho:

Para de falar de música, Maurílio! Isso aqui é um programa de cultura!

Julinho:

Ele não estava falando de música, Rogerinho.

Rogerinho:

Para terminar o programa: Pontos fracos da paralisação!

Maurílio:

As pessoas estão falando muito em trem e em melhoria do transporte ferroviário. Elas têm que manter o foco nas kombis e nas vans. E nada de explorar os animais porque isso não se faz.

Julinho:

O movimento sindical.

Renan:

Constituifão de 88. Eu tô querendo matar quem fala em intervenção militar, Rogerinho. Mas muitas vezes quem mata nesse país é tido como culpado!

Rogerinho:

Considerações finais. Quem quer fazer hoje as considerações finais?

Julinho:

Eu, Rogerinho. Queria dizer que esses radares têm multado demais a gente e que não há mais como burlar porque eles tiram foto! E esse guardas quando a gente fica puto e vem com pedaço de pau eles mostram logo a arma deles. Guarda tem essa mania de ficar multando quem usa celular e não tem a sensibilidade de entender que as vezes a gente precisa conversar quando dirige, eles acham perigoso mas não falam nada do cara que anda de moto com um motor que pode explodir entre as pernas…

Doutrinação marxista (?)

 

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Agora a moda é dizer que as escolas estão doutrinando alunos porque ensinam Marx. Reinaldo Azevedo, famoso colunista da Veja, disse que “o Brasil precisa de menos sociólogos e filósofos e de mais engenheiros que se expressem com clareza” condenando, como fica claro, a inserção dessas disciplinas no Ensino Médio.

Não foi sem propósito que havia – e há ainda – em muitas escolas muito mais tempos de aula de física, química, matemática do que história, geografia e agora filosofia e sociologia. O papel da ciência na formação dos jovens brasileiros para quem fez esse currículo – que muito serviu à ditadura – deveria ser somente o de possibilitar o domínio de técnicas para a melhoria do processo de trabalho, e não o domínio de técnicas de pesquisa para a investigação da realidade social brasileira. A sociologia e a filosofia sempre foram vistas como um dos melhores instrumentos para a formação de indivíduos com capacidade de questionar, investigar e compreender a realidade social. Não foi sem propósito que foi banida na época da ditadura e que agora sua inserção está sendo criticada por filósofos de direita como Olavo de Carvalho e colunistas da Veja.

Ensinar sociologia sem mencionar Marx é como ensinar física sem mencionar Newton e Biologia sem falar em Darwin. Se apresentar as ideias de um grande pensador é errado, prendam-me, por favor. Estou dando ferramentas para meu aluno pensar!

Mas sim, concordo que exercitar o início de um pensamento crítico e/ou reflexivo que leve o jovem a perceber em alguns antes desimportantes detalhes, fatos ou frases, as contradições, as desigualdades, a realidade a sua volta e que assim esse aluno possa se perceber em seu grupo, como parte deste grupo, se individuar, se compreender e compreender as diferenças, enfim, concordo que fazer o adolescente pensar em conceitos como ‘desenvolvimento social’, ‘ progresso’, ‘liberdade’ e tudo o mais pode ser extremamente arriscado para essa direita que usufruía bastante do antigo currículo sem filosofia e sociologia quando muitas escolas apenas adestravam os alunos para fazer provinhas de vestibular.

No mais, tudo que escreve é em defesa da continuidade da sociedade capitalista e sua desigualdade. Mas, nesse sentido, para esses colunistas da Veja isso não é uma “doutrinação”. A verdade é que somos CON-formados a aceitar nossa sociedade desigual desde a hora que nascemos. Isso posto, penso que ensinar Karl Marx é ensinar a ir além da aparência dessa desigualdade, é olhar para a história da formação do capitalismo e ver a necessidade de desnaturalizá-la, no sentido de entender que é construção histórica e, portanto, pode ser modificada.

Olavo de Carvalho e seus pares têm mesmo muito para se incomodar…

Para finalizar, segue a publicidade veiculada no jornal “O Globo” do programa “Fábrica de Escolas do Amanhã” da Prefeitura da cidade do Rio de Janeiro feita há pouco anos.

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Cabeças baixas, padronização e esteira de produção criam o forte significado de serialidade. Certamente, a analogia com o vídeo “Another Brick in The Wall” é imediata, pela serialidade da padronização dos estudantes como tijolos que formam o muro do sistema. A esteira está descendo o plano da foto, outra observação. Não há elevação de espírito com esse sistema literalmente cinza.

Entre isso e o que chamam de “doutrinação marxista”, o que é preferível para a mente de nossas crianças?