Mamãe não, gente. Mamãe não.

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Auto-retrato, Gustave Courbet.

Dona Lourdes é viúva, moradora de Madureira e cuida sozinha há anos de seus quatro filhos. Para ser politicamente correta, de três filhos e uma filha. Lourdes nasceu em 1957 e sua prole praticamente a obrigou a lidar com essa modernidade comportamental.

Julinha é toda feminista. Paulinho a chama de rádi fem. Até Dona Lourdes entender o que era isso foi um sufoco porque teve que se inteirar antes do que era “trans não binário”. Pedro Henrique diz que todos nasceram bi para desespero de Lourdes que até aceita filho gay mas não entra na cabeça esse negócio de gostar de tudo o que vê pela frente, assim ela diz. Caio é formado em sociologia daí então já viu. Dispensa comentários. Todo mundo anti-racista, pró feminista, contra Bolsonaro e a favor de gente pelada em museu para fins artísticos sim senhor. Censura nunca mais!

Dona Lourdes fica doida. Cada dia um vem com um gênero e um assunto novo.

Pior que de uns tempos para cá, ela andou pensando em sua vida toda desde que perdeu o marido. Pensou inclusive no quanto ele não fez falta e nas, digamos, fodas mal dadas com o Joaquim. Era desse jeito que ela pensava nele. Nesses termos.

Nunca mais teve ninguém por falta de tempo e sei lá também. Interesse, certamente. Mas agora já estavam todos grandes e dois deles, Pedro Henrique e Paulinho, sabiam até fazer arroz. Era hora de Dona Lourdes focar nela.

Entrou no Tinder e conheceu, gente do céu, Aparecida cuja história é mais ou menos parecida.

Cida mora no Engenho de Dentro. Perto. Ambas não gostam de sair e nem sabem como pega um Uber direito, mas fogo no rabo não lhes falta.

Começaram a frequentar a casa da outra. Diziam para as crianças que eram amigas, faziam bolo, costuravam juntas… Até que Dona Lourdes já toda satisfeita, empoderada e modernérrima resolveu contar para os filhes prafrentex que estava namorando Aparecida e que ia assumir sim o amor delas publicamente inclusive beijar de língua no Guanabara do Campinho.

Julinha, Paulinho, Pedro Henrique e Caio agora, exatamente neste momento aí que vocês acabaram de saber desse bafão, estão trancados no quarto reunides.

– Que nojo, falou Pedro Henrique derrubando uma lágrima furtiva. Mamãe não, gente. Mamãe não.

Os outros – mais Julinha – seguem em silêncio.

2 comentários em “Mamãe não, gente. Mamãe não.

  1. Olá mandame, ficou meses sem dar as caras. O que aconteceu? Fico feliz por você ter aparecido e nós brindar com seus textos bem escritos e descontraídos.

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