Arquivo do mês: novembro 2016

O Muro Invisível

meritocracia

Muito se fala em diferenças de classes sociais. Quando abordamos o tema pensamos sempre em quantidade de dinheiro envolvido, na casa onde mora, nos carros que possuem (ou não), nos vinhos caros degustados e por aí vai.O ponto é que não se trata só disso. A diferença de classes ultrapassa a ideia de bens materiais. Ela invade o campo do comportamento.

Há quatro anos, o CEFET está com metade de suas vagas reservadas para cotistas. Eu demorei a entender muita coisa, tipo essas que só assimilamos quando vivemos e convivemos. Há espaços como bibliotecas, salas de monitoria e coisas afins para todos os alunos mas, surpreendentemente, ela não é frequentada por aqueles de baixa renda. Comecei a pensar sobre a causa disso…

Percebam que há várias atividades gratuitas espalhadas pelo Brasil como museus, exposições, shows, bibliotecas e por aí vai. Até mesmo uma aula de Ioga pode entrar como exemplo. Muitos desses locais não são frequentados e usufruídos por pessoas pobres. Se perguntarem para eles, ouviremos, de uma forma geral, que eles não se sentem pertencedores e merecedores desses espaços ainda que não exista nada aparentemente que os proíba de usá-los.

Não é difícil entender. Eu, classe média, quando me vejo no meio de pessoas endinheiradas que conversam sobre vinhos caros e queijos mofados e fedorentos exaltando suas qualidades fico me perguntando o que estou fazendo ali. Não é o meu lugar. Não pertenço àquela cultura e acho difícil manter contato, amizade, namoro ou casamento com alguém dessa tribo.

Não estou, no entanto, na base da pirâmide. Sou dessas que tira férias. Não fui à Disney e nem passeei pela Europa, muito menos meus filhos, mas viajamos do nosso jeito pelo Brasil. Quando partimos, sentimos que merecemos o descanso. Eu por trabalhar e eles por estudar. Coisa tão simples e natural, não? Pois é. Não. A grande maioria do povo brasileiro incluindo muitos adolescentes não sabem o que é usufruir das férias.

Há uma herança invisível que é passada de pais para filhos que é um dos verdadeiros privilégios e da qual não nos damos conta que a recebemos. Na infância, meus pais sempre me estimularam a ler, levaram-me ao cinema, ao teatro, conversavam comigo, davam-me-me brinquedos que estimulavam a minha inteligência. Sem saber, eu estava a anos-luz de distância da maioria das crianças do Brasil. Os estímulos que recebemos na infância vão sendo incorporados de forma inconsciente. Se não pararmos para refletir, a impressão é que o natural seja assim e que todos nascem com isso.

Ledo engano.

O filho do pedreiro e da empregada doméstica, por exemplo, não recebeu todo esse estímulo porque sua miséria não se dá apenas pelo quanto que se carrega na carteira. Como não damos o que não temos, não se ensina aquilo que não se aprende. Ainda que na família pobre tenhamos um pai e uma mãe presentes, o que se transmite é a inadequação social (muito bem mostrado no filme “Que Horas Ela Volta?”) e uma carência de hábitos que estimulem à cognição.

Não raro, percebo alunos que me olham e me ouvem e que não estão enxergando e escutando nada porque não foram treinados para se concentrar. O pior, muitos desistem se sentindo culpados, burros e sendo causas de sua própria desfortuna. Esses são, de uma forma geral, os que vêm de famílias desestruturadas cuja renda é de um salário mínimo, se tanto. Claro que outros conseguem ascender ainda que de forma tímida e entender que não existe classe condenada. A despeito de um fracasso na socialização familiar, conseguimos ter sucesso na escolar e dar a esse aluno algo que pode ser vendido além de sua força muscular. Mas não é fácil levantar quem sempre se arrastou no limbo.

Só vendo tudo isso de perto entendi que eu não nasci educada, com capacidade de concentração, habituada a ler, preocupada em me alimentar bem e preparada para a concorrência. Tudo isso foi privilégios que recebi por ser filha de quem sou. Por isso, agora quando ouço o discurso de que o capitalismo é justo e que todos possuem chances iguais percebo que esse muro invisível que separa as classes sociais – mas que existe como todos podemos observar – é feito de algo mais resistente do que o aço. A igualdade formal existente nas leis não é suficiente para derrubar essa barreira.

Se muitos espaços públicos gratuitos não são usados por pessoas de baixa renda é porque, em certa medida, a maioria delas sofre o preconceito de ser pobre não somente economicamente falando, mas carente de cognição e, portanto, não se sentem seguros para frequentar determinados locais.

Com a política das cotas, começamos a ver vários desses espaços como universidades, por exemplo, serem frequentados por pessoas que não portavam Iphones. Não foi à toa que aqueles que sequer se davam conta que reproduziam um sistema injusto começaram a se sentir muito incomodados e falar em meritocracia como algo dado no mundo ou criado por Deus para se manifestarem contra qualquer política de inclusão social. A lei, formalmente igualitária, basta para aliviar a consciência de muitos que se acham superiores e que desprezam, ao chegarem em um determinado ambiente público a gratuito, o fato (e sua causa) de não ter crianças negras, por exemplo.

E antes que venham me acusar que estou diminuindo os títulos e o esforço que você fez para consegui-los, saiba que reconheço sua capacidade, mas não exija de mim que eu leve seu mérito  para outros limites que vão além de sua esfera pessoal. A minha grandeza não veio exclusivamente da minha eficiência ou pré-disposição. Muito devo a todo o aparato que me cerca.

Hoje compreendo que se um aluno de baixa renda não consegue tirar uma boa nota isso nada tem a ver, na maioria dos casos, com preguiça, desatenção ou falta de esforço pessoal. Não posso mais desprezar, depois de tudo o que observei sobre o muro invisível (porém sólido), a importância das demais variáveis como estrutura familiar, incentivo para aquisição de bens imateriais, encorajamento e o amor em suas mais diversas formas.

Esse é o grande mal desse sistema: a reprodução de privilégios com um ar aparente de ser justo e igualitário. E, a meu ver, esse golpe foi, dentre outras coisas, a tentativa de impedir que esse muro invisível fosse derrubado. Vide a PEC 55.

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Discussão de Gênero no Carro.

genero

Estava, como todos os dias, levando Yuki, meu caçula de dez anos, à escola. Na rádio, ouvimos a chamada da matéria:

“Estão sendo investigados casos de homofobia e transfobia em um…”

– Mãe, o que é transfobia?

– Vamos pela lógica. Se homofobia é o preconceito e o ódio por vezes trazendo consequências físicas aos homossexuais, a transfobia é o mesmo com os transexuais.

– O que é um transexual?

– É alguém que não se identifica com o gênero biológico. Por exemplo, a pessoa nasce com bilau e se sente mulher. Ou nasce com bimbinha e se sente homem.

(Sim. São esses os termos que uso. Acho-os fofos).

– Não entendi.

– Não é para entender. Não precisa. Basta respeitar. As pessoas, incrivelmente, implicam e debocham por eu ser vegetariana. Não precisa entender porque eu mesma não consigo explicar essa mudança que aconteceu comigo. Mas fico triste quando alguém insiste em me forçar algo que simplesmente não consigo mais. E estou bem assim. Por que implicam tanto com minha vida?

– Entendi isso. Mas existe homem que…?

– Meu filho, existe de tudo. Saiba disso para começo de conversa.

– Ok. Mas existe homem que é transexual, ou seja, mulher e que goste de mulher?

– Sim. E neste caso como você o qualificaria?

– Como homossexual.

– Eu também. Mas acho que neste caso está faltando uma outra palavra porque são situações diferentes.

– E se um homem se interessar por um homem transexual, ou seja, uma mulher. Eles podem ter filhos?

– Não de forma, digamos, natural. A transexual por mais mulher que seja em vários sentidos não tem útero e, portanto, não pode engravidar. Neste caso, eles partiriam para adoção, se quisessem.

E daí a conversa mudou e ficou muito mais profunda…

– Nossa. Deve ser horrível ser filho de um casal assim. Ou mesmo de dois homossexuais.

– Por que você diz isso?

– Porque na escola essa criança não teria paz. Seria zoada até a morte. Isso é muito diferente do “normal”.

– Acredito que ela poderia sofre bullying sim. A depender da escola. Mas, tirando o fato de isso “não ser normal”, você vê algo demais nisso?

– Nada demais. Apenas diferente.

Agradeci a Deus, mesmo sendo ateia, a oportunidade do diálogo e pedi sabedoria para este momento tão delicado.

– Ok. Você sabia que muitos de seus amigos são filhos, assim como você, de pais separados, não?

– Sim. Claro.

– E você sabia que muitos desses pais só vêem o filho de 15 em 15 dias?

– Por que tão pouco?!

(Eu e Nelson, a despeito de sermos separados, ainda saímos quase todo final de semana juntos com Yuki. E Nelson, sempre que pode, nos delicia com sua presença no meio da semana).

– Porque essa é a lei. Um final de semana sim e outro não.

– Mas por quê?! Por que tão pouco?

Daí eu expliquei ao Yuki que o que ele tem em casa é a famosa exceção à regra. Disse que a mãe precisa também de momento de lazer com o filho e bababá bububú.

– Há muitas crianças que, como você já está percebendo, sofrem demais com isso, a dizer, com a falta do pai. Então te pergunto: ter dois pais juntos e amigos seria, para você, pior para a criança do que uma situação em que o pai e a mãe sequer se falam e o pai tem contato com o filho só de 15 em 15 dias?

– Acho que não. Pelo contrário. – disse ele ainda com o semblante muito confuso.

– Não me conformo, mãe, com isso de as crianças verem tão pouco o pai…- e os olhos se encheram de lágrimas.

Yuki é desses feitos de açúcar…

– O mundo é complexo, Yuki…

– Estou percebendo. Mas e se o filho tiver duas mães? Quem vai caçar Pokemon com ele?

– Há muitas meninas caçando Pokemon e muitos pais que sequer ligam para isso. Já te disse, cada casa tem uma singularidade. O que você tem na sua não é regra e nem se aproxima do que seja considerado “normal”. Portanto, visto de perto, todos deveriam se enquadrar na categoria “potencial para sofredor de bullying”. Daí dessa coisa de zoar o amigo por ser diferente não fazer o menor sentido.

– Entendi tudo, mãe. Não há regra para ser feliz.

– Não mesmo, meu filho.

Deixei Yuki na escola. Assim que me despedi, tive uma crise de choro. Talvez por ter vivido algo tão intenso e ter a certeza de que esse diálogo será importante para o resto da vida de meu Yuki.

Ou talvez por lamentar por todos aqueles que não conseguem enxergar o quão bacana e fértil é discutir gênero com uma criança e que isso nada tem a ver com o incentivo à promiscuidade. Pelo contrário.

Nao tenho dúvidas de que meu filho hoje se tornou um ser humano muito melhor.

E eu? Resgatei a minha esperança perdida.

Seguimos na luta.

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Homem Moderno

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Tenho um amigo divorciado que desfruta da guarda compartilhada de suas crianças que são duas. Além disso, ele é professor universitário e conta com a ajuda da faxineira que vai uma vez por semana à sua casa.

Hoje, ele me mandou uma mensagem dizendo que precisava conversar. Assim que deu uma brechinha no meu dia, liguei para ele.

– Elika, olha não dormi de ontem para hoje. Júlia esteve no meu quarto umas duas vezes. Na segunda vez, deixei ela dormir na minha cama. Depois veio o Pedro. Dormi esmagado no meio dos dois, quer dizer, não dormi. Levantei super cedo e decidi colocar as roupas na máquina. A faxineira falou que não pode vir e corri para adiantar o almoço. Tenho que entregar um artigo e acabar de preparar minha apresentação para o congresso. Júlia anda muito birrenta e eu acho que não estou agindo corretamente. Tomei muito café porque a máquina de café expresso chegou ontem e eu quis aproveitar a nova aquisição. Deu azia. Acho que fiz muito forte. Salguei o feijão. É isso.

Eu não sabia o que falar. A verdade é que estava bem orgulhosa ao ver um pai tão dedicado e sei que a parte acadêmica de sua vida vai ser tirada de letra. No mais, existia a felicidade em ver um homem moderno funcionando na forma que todos deveriam. Pelo fato do discurso ainda ser raro entre eles, acabei pecando e falando:

– Migo, cê tá de TPM?

E recebi como resposta:

– Acho que sim. Tô estressada, Elika! Tô estressada!

Morri de rir. Mas também morri de orgulho.

Ver um homem reduzindo paradigmas a pó me causa esse efeito. A despeito de ele não ter feito mais do que a obrigação, testemunhei muitos de meus amigos serem educados para fazer o papel de provedor e agir “como homem” – que significa não poder demonstrar fraquezas, não chorar, não fazer tarefas domésticas e não se descompensar em público dentre outras coisas. Com a sociedade mudando, ainda que seja raro, começamos a ver com uma frequência cada vez maior homens mais humanizados que não têm mais vergonha em se mostrar sensíveis e “agir como uma mulher”.

O bacana que isso está longe de torná-los menos másculos ou atraentes.

– Migo, cê tá livre na sexta?

 

 

 

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Essa ladainha de espectro eletromagnético…

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Acabo de explicar pro Yuki, meu caçula, que o branco é a mistura de todas as cores. Discutimos por quê vemos cores diferentes segundo as leis da Física.

– Tipo assim: a plantinha fica com toda as outras cores e devolve para gente só o verde…

– Entendi tudo, mãe.

– Ah é? Então me explica por que a banana é amarela? – sondei.

– Simples, mãe, a banana é brasileira – disse o menino sério. Por isso, ela devolve para gente somente o amarelo e engole todo o resto.

Oi?

– E o céu? – procurei entender melhor.

– Ele é calmo. Por isso, nós devolve o azul.

Como assim???

– E o arco-íris? – perguntei mega curiosa.

– Ele é feliz. Por isso…

Caramba…

Mudou tudo o que eu pensava depois disso. As cores que emitimos para os olhos de quem nos vê estão associadas, antes de tudo, com o que somos. Só depois que entra essa ladainha de espectro eletromagnético.

Nada como conversar sobre física com uma criança…

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Vã Gógui: Auto Retrato

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Tenho 1,56m, 52 quilos que variam para mais com facilidade. Poucas coisas me irritam, mas a placa “proibido virar em U” me deixa perplexa. Já comi vários bichos, dentre eles macaco, cobra e jacaré e acho que provaria cachorro se me oferecessem. Hoje além de ateia e de esquerda holics, sou vegetariana. Não posso beber nada alcoólico porque meu corpo não metaboliza a meritocracia e, por falta de aldolase, o álcool. Namorei um mesmo homem durante trinta anos e agora tomo chá de alfazema em pleno verão. Creio que quando usamos nossa autoridade estamos falhando muito em alguma coisa, por isso, corro cinco quilômetros duas vezes na semana. Medito para conseguir dormir e quando acordada, sonho. Moro ao lado de meus pais até hoje, mas sinto-me preparada para aprender a toca bateria. Não sou muito de me socializar, prefiro a solidão bem acompanhada. Com o cordão umbilical faço adereços e com meu primeiro salário comprei um anel de ouro para mim. Tenho dois livros publicados, sete escritos e vinte e dois ainda para fazer. Só possuo uma bolsa, uma manicure e eu mesma me depilo. Não acredito em Deus, embora Chico Buarque me deixe assustada e tenha como amuleto as velas que são acesas pela minha ex-empregada. Gargalho quando me vejo com lingerie e choro quando lembro de minha primeira gravidez. Tenho três filhos e não acredito em escolhas. Leio de tudo, mas não ouço Jorge Vercillo, Ana Carolina e Lenine. Durmo em todos os filmes que vejo em casa e, no cinema, só fui sozinha uma vez. Não entendo quem não vê beleza nas ocupações das escolas e na Gisele Bundchen. Quando casada, minha casa vivia cheia de amigos, agora, solteira, só os verdadeiros a frequentam. Não me considero escritora porque escrevo o que quero quando quero e o que me sustenta é a leitura. Adoro pintar minhas unhas de vermelho e os meus cabelos têm horror a cigarro. Nas paredes do meu cafofo, há quadros pintados por mim e por quem eu amo. Acredito que toda forma de amar seja natural, o cultural é o ódio por qualquer coisa. Adoro começar qualquer texto e sempre quis terminar um no meio de uma fras

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“Feministas se ofendem com elogio”

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Hoje, Janaína Paschoal, não a louca, mas a mau caráter, nos brindou com mais uma de suas pérolas: “Feministas se ofendem com elogio”. Eu, esta sim da pá virada, retruquei a frase no Twitter e não tardou para que homens começassem a entrar no tema defendendo, é claro, em sua maioria, Janaína.

As frases que eles usaram são já famosas entre nós. De uma forma geral, dizem que estamos problematizando tudo e de mimimi. Fato foi que percebi que muitos não entendem mesmo a diferença de uma paquera para um assédio. Então, vou tentar desenhar.

Vivemos um momento de transição em relação a direitos humanos, diversidade, inclusão de minorias. Mas quando a gente (minoria) fala, parte da população se sente ameaçada e nem mesmo sabe por quê. Parece que tem medo de perder coisas. E aí começa a criar uma reação em cima de mal-entendidos e, em geral, por falta de informação sobre o tema.

Janaína, por exemplo, deve ser dessas mulheres que dizem não ser feminista porque “acredita na convivência pacífica entre homens e mulheres”. Não tenho provas, mas tenho convicção. Entendam para começo de conversa: nenhuma corrente do chamado feminismo defende a anulação das diferenças entre homem e mulher. O que esses movimentos pretendem é a busca de direitos sociais iguais.

Mas é só uma brincadeira…

Brincadeira é quando dois se divertem. Se há somente um se divertindo isso tem outro nome. No caso dessa atitude, por exemplo, não temos como saber se é algo que pode ser caracterizado como “elogio” ou se seremos estupradas.

Quando andamos pelas ruas, lugares públicos, e ouvimos “gostosa”, “ô lá em casa!”, “bucetão” dentre outras coisas, muitas de nós sentimos medo. Pesquisas apontam que a grande maioria se sente apavorada. Então, neste caso, este tipo de atitude fere o nosso direito constitucional de ir e vir.

Mas elas gostam de elogio e, além disso, não ataco ninguém“.

Vale observar três coisas:

(1) que o machismo é um sistema opressor de mulheres que está diretamente ligado à violência seja ela manifestada através de atitudes ou de palavras e de gestos que menosprezam sexo feminino de alguma forma.

(2) O machismo nada tem a ver com masculinidade. Você pode ser extremamente viril e másculo sem ser um machista opressor. Acredite.

(3) Se você não ataca ninguém na rua, meus parabéns por não fazer nada mais que sua obrigação, mas, por favor, vamos aprender outra coisa bem importante: O fato de você não fazer não isenta outros milhares de homens que fazem. Portanto, um pouco de empatia vem bem sempre.

Como vamos paquerar agora?”

Entendam: Paquera e assédio são duas coisas completamente diferentes. A primeira pressupõe o engajamento de todos os envolvidos. Isto é, existe reciprocidade. O assédio, a cantada de rua, é diferente: o homem se acha no direito de importunar uma mulher que está indo para o trabalho, para academia, ou fazendo sei lá o quê. Cantadas de rua partem do princípio que o corpo da mulher não lhe pertence, ou seja, é público como o espaço em que circula.

Reciprocidade. Guardem a palavrinha. Nem mesmo na balada, local onde, segundo o senso comum as pessoas “estão na guerra”, o assédio deve acontecer.

Quando é um elogio?”

Uma forma de você diferenciar é você se perguntar: “Ela se sentirá melhor com o comentário que vou fazer?”, “Ela se sentirá segura?”.

Na rua, de uma forma geral, não há esse tipo de liberdade que temos em boates, por exemplo. Não há contato visual ou espaço para um homem falar qualquer coisa sobre uma mulher que acabou de ver. Na maioria das vezes, sequer notamos o homem antes de ouvirmos o dito “elogio”. A tal da reciprocidade é difícil de acontecer.

Mulheres foram ensinadas que receber um “elogio” como esse é algo bom, algo que fará bem para a autoestima, mas algumas já superaram isso e entenderam que a partir do momento que um desconhecido invade a sua atmosfera para “elogiar” você, ele está faltando com respeito.

Quando uma senhora com uma saia curta, muitas vezes me peguei pensando: “nossa, que sem noção”. Mas daí comecei a me perguntar: “por qual motivo estou pensando isso?”. O corpo é dela, a saia é dela e se é curta ou não só diz respeito a ela. No fundo, a nossa reação diz muito mais a respeito de nós, do nosso moralismo do quem de quem estamos julgando.

Ah mas tem mulher que gosta…

Primeiro temos que parar de recriminar as mulheres que já são frutos desta sociedade machista. Eu perguntaria para essas que se sentem bem recebendo uma cantada de onde elas acham que vêm essa sensação. Temos que dar espaço para elas fazerem o próprio caminho, terem o seu próprio processo, mas não perder jamais a chance de dialogar e fazê-la pensar sobre a cultura do machismo. Gostaria sempre de poder levar questões que vão apontar se elas estão contribuindo para algo não muito legal como um todo.

Mimimi…

Acho que o pior de tudo nem é que esses sujeitos se sintam no direito de nos assediarem, de patrulharem com quem escolhemos andar, mas o fato constituído historicamente de não podermos reclamar. Sou assediada, abaixo  cabeça, mudo de calçada, acelero meu passo. Mais adiante, o processo se repete. No dia seguinte, idem. Com as minhas irmãs, idem. Com a minha filha, idem. Com as minhas vizinhas idem. Mas se falamos em feminismo, reclamam.

Porém, sermos passivas diante do assédio sistemático significa aceitarmos que os homens possuem algum direito sob nossos corpos, o que não é verdade! Por isso, entendam, Janaínas da vida e homens, nós mulheres gostamos de elogios, mas “cantadas” não aguentaremos mais caladas porque precisamos verbalizar nosso empoderamento.

Finalizo com uma frase bacana que ouvi: “Uau! Que cantada erótica! Vou até dar mole para ele assim do nada!” – sabe quem disse isso? Pois é: NINGUÉM.

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Genesis Revisitado

genesis

No princípio, era o impeachment.

E a coisa era aparentemente sem forma e vazia; e havia trevas sobre a face do abismo.

E disseram: Solta o áudio de Jucá.

E vimos que o áudio era bom e uma luz, pois incriminava Romero Jucá, Aécio Neves e o próprio Michel Temer deixando muito claro o envolvimento do judiciário e da mídia.

E fez-se separação entre a luz e as trevas.

E daí chamamos o impeachment de golpe; e a democracia chamamos de passado. E foi a tarde e a manhã, o dia primeiro.

E disseram os golpistas: que venha a PEC 241 que congela gastos públicos por 20 anos, o que deve provocar o sucateamento da saúde, da educação e da Previdência Social. Haja uma expansão no meio das águas, e haja separação entre águas e águas.

E fizeram os alunos a Ocupação, e assim a separação entre as águas que estavam debaixo da expansão e as águas que estavam sobre a expansão; e assim foi.

E chamaram eles a ocupação de crime, e foi a tarde e a manhã, o dia segundo.

E disse Temer: Vamos privatizar tudo.

E foi a tarde e a manhã, o dia terceiro.

E disseram eles: Proíbam as greves.

E foi a tarde e a manhã, o dia quarto.

E disseram eles: desocupem as escolas ou levarão bala.

E foi a tarde e a manhã, o dia quinto.

E disseram eles: proíbam os professores de debaterem com seus alunos em sala de aula.

E fez o governo Temer as feras da terra conforme a sua espécie, e o gado conforme a sua vontade, e todo o réptil da terra conforme a sua necessidade; e viram eles que era bom e fácil.

E disseram os deputados e senadores: Façamos o certo à nossa imagem, conforme a nossa semelhança: homem, macho, branco e hétero. E dominemos sobre os negros das favelas, e sobre as mulheres em casa, e sobre o gado, e sobre toda a terra, e sobre todo o analfabeto sem instrução que se move sobre a terra.

E que a discussão de gênero seja proibida e que não se fale sobre
a denúncia da Odebrecht contra José Serra, na qual o ministro das Relações Exteriores foi acusado de receber R$ 23 milhões via caixa 2 por meio de uma conta na Suíça.

E viram eles tudo quanto tinha feito, e eis que dar um golpe era muito fácil; e foi a tarde e a manhã, o dia sexto.

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