Homem Moderno

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Tenho um amigo divorciado que desfruta da guarda compartilhada de suas crianças que são duas. Além disso, ele é professor universitário e conta com a ajuda da faxineira que vai uma vez por semana à sua casa.

Hoje, ele me mandou uma mensagem dizendo que precisava conversar. Assim que deu uma brechinha no meu dia, liguei para ele.

– Elika, olha não dormi de ontem para hoje. Júlia esteve no meu quarto umas duas vezes. Na segunda vez, deixei ela dormir na minha cama. Depois veio o Pedro. Dormi esmagado no meio dos dois, quer dizer, não dormi. Levantei super cedo e decidi colocar as roupas na máquina. A faxineira falou que não pode vir e corri para adiantar o almoço. Tenho que entregar um artigo e acabar de preparar minha apresentação para o congresso. Júlia anda muito birrenta e eu acho que não estou agindo corretamente. Tomei muito café porque a máquina de café expresso chegou ontem e eu quis aproveitar a nova aquisição. Deu azia. Acho que fiz muito forte. Salguei o feijão. É isso.

Eu não sabia o que falar. A verdade é que estava bem orgulhosa ao ver um pai tão dedicado e sei que a parte acadêmica de sua vida vai ser tirada de letra. No mais, existia a felicidade em ver um homem moderno funcionando na forma que todos deveriam. Pelo fato do discurso ainda ser raro entre eles, acabei pecando e falando:

– Migo, cê tá de TPM?

E recebi como resposta:

– Acho que sim. Tô estressada, Elika! Tô estressada!

Morri de rir. Mas também morri de orgulho.

Ver um homem reduzindo paradigmas a pó me causa esse efeito. A despeito de ele não ter feito mais do que a obrigação, testemunhei muitos de meus amigos serem educados para fazer o papel de provedor e agir “como homem” – que significa não poder demonstrar fraquezas, não chorar, não fazer tarefas domésticas e não se descompensar em público dentre outras coisas. Com a sociedade mudando, ainda que seja raro, começamos a ver com uma frequência cada vez maior homens mais humanizados que não têm mais vergonha em se mostrar sensíveis e “agir como uma mulher”.

O bacana que isso está longe de torná-los menos másculos ou atraentes.

– Migo, cê tá livre na sexta?

 

 

 

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Arquivado em Crônicas

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