Mãe, aconteceu uma coisa aqui…

Minha mãe estava andando na rua, tropeçou, caiu, teve que operar o pulso e está engessada. Ela passa bem. Exatamente agora acabou de dar umas boas gargalhadas com a Narinha.

O texto não é sobre a lesão dela e sim sobre por que mamãe riu tanto hoje. Precisei fazer essa introdução sobre o acidente para vocês entenderem o contexto.

Nara, minha querida filha super estudiosa que canta lindamente, que está fazendo duas faculdades, que está super isolada nesta pandemia e que adora ler, enfim, Nara, a fofa, foi dar uma força para os avós. Ela deve ficar lá até minha mãe tirar o gesso.

Fofa fofa fofa.

Hoje Nara me ligou da sala onde todos estavam assistindo Olimpíadas para me contar algo.

– Mãe, você lembra que eu fui monitora na época que estudava no Cefet e recebia um salário por isso?

– Lembro sim, minha filha querida cuti cuti da mamãe.

Eu sempre morri de orgulho dela ter sido monitora de filosofia, gente.

– Sabe o que eu fiz com meu primeiro salário?

– Não, filha linda.

Nesse momento, na nossa videochamada, fiz cara de fofa. Confiando na educação que dei a ela, esperava ouvir que ela doou, investiu, comprou livros… algo nessa linha.

– Então, eu comprei meu primeiro vibrador.

Ela disse PRIMEIRO, Brasil. E isso era 10 da manhã de hoje!

Que orgulho, meu povo.

Tive que explicar calmamente, no entanto, que nem tudo ela precisa falar comigo.

Contei a ela que, com o meu primeiro salário, comprei um anelzinho de ouro que hoje não cabe mais no meu dedo. Falei isso para mudar um pouco de assunto.

– Investiu errado, mãe. – Interrompeu Nara.- Precisa aprender comigo. Quando teve o SexFair no Rio Centro, Hideo levou a gente lá e compramos um monte de coisas legais.

– “A gente”? Hideo?

– Eu e Daniel, mãe. Na época, eu estava com ele. E Hideo que sabia dirigir.

Reforcei que ela não precisava me contar tudo o que fez nessa vida loka.

– Mas é que aconteceu uma coisa aqui hoje e queria te contar.

Ela falava assustada enquanto segurava um pescoço amarelo de uma galinha de plástico que achei que fosse o que ela queria me mostrar e o motivo da ligação.

Eu seguia atenta, mas ligeiramente tensa.

Eu desconhecia aquele com formato de cabeça de galinha. Queria olhar para a Nara, mas minha curiosidade científica estava me desconcentrando.

– Mãe, a Maru…

(Maru é a doguinha da mamãe e do papai, então, tecnicamente, Maru é minha irmã.)

– A Maru, mãe, sem eu ver, – continuou Nara – começou a fuçar minha bolsa, pegou meu vibrador e começou a correr pela casa feliz da vida com ele.

E eu olhando a galinha boquiaberta de plástico imaginando como interagir com aquilo e querendo fazer algumas perguntas técnicas para avaliar o investimento.

Nara seguia narrando o incidente canino-antierótico.

– Eu estava tomando café com meu avô. Daí, minha avó apareceu com meu vibrador na mão perguntando quem tinha comprado brinquedo novo para a Maru.

– Sua avó apareceu com essa cabeça de galinha amarela em riste?

– Não, mãe. Esse é o brinquedo velho da Maru. O meu vibrador é pequenininho e lilás.

Essa informação fez com que eu me concentrasse melhor na situação.

– E o que você disse para a sua vovó, filhota querida?

– Eu expliquei para… Mãe!  A Rebeca vai competir agora! – disse Nara super empolgada.

Desligamos rápido porque não é todo dia que vemos Rebeca Andrade divando nas Olimpíadas. Era a chance de vermos a primeira brasileira medalhista Olímpica na ginástica artística.

Enfim, como disse no início, mamãe está bem e, hoje, já riu um bocado com sua netinha linda.

Ordem e progresso nos retrocessos de uma Democracia

Hoje acordamos com um golpe agendado. Mais essa para nossa história. Aqui é Brasil 2021, mermão. Não tem mais golpe no susto não. Aqui o negócio é organizado. É ordem e progresso nos retrocessos de uma Democracia.

O ministro da defesa, o general Braga Netto, está – como os inábeis, os incapazes e os incompetentes fazem – ameaçando dizendo que “se não tiver eleição auditável, não terá eleição”.  No mesmo dia em que o fato (negado recentemente pelo general) teria ocorrido, o próprio Bolsonaro repetiu publicamente a ameaça: “Ou fazemos eleições limpas no Brasil ou não temos eleições”. 

Como os fracos e os medíocres, Bolsonaro ameaça sair com a bola quando a iminência de perder o jogo fica óbvia.

Há quem veja isso como um golpe militar e está sofrendo como padecemos todo santo dia neste desgoverno diante tanto desmonte, alucinação e incompetência.

Eu já leio essa ameaça braganettoniana de forma diferente. Acho que essa desfaçatez é mais uma consequência de um golpe militar que já está em andamento. 

“Golpe militar? Onde? Quando? Já aconteceu? Perdi alguma notícia?”

 Miga, senta que te explico.

Lembra que uma presidenta democraticamente eleita por 54 milhões de votos, sem crime de responsabilidade comprovado, teve um  processo de impeachment aberto por um réu do Supremo Tribunal Federal, em uma Câmara em que parte dos deputados era investigada por crimes que vão do trabalho escravo à corrupção?

Então, tudo começa por ali. Talvez um pouco antes.

Na ocasião, o então deputado federal Jair Bolsonaro homenageou um dos piores, perversos e mais sádicos torturadores da ditadura: “Pela memória do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, o pavor de Dilma Rousseff, pelo exército de Caxias, pelas Forças Armadas, pelo Brasil acima de tudo e por Deus acima de tudo, o meu voto é sim”. Sob o comando de Ustra, miga, centenas de pessoas foram torturadas. Ustra espancava grávidas e, certa vez, levou filhos (de 4 e 9 anos) para ver uma mãe sendo torturada. 

Testemunhamos ali, não podemos nos esquecer porque isso nos fala muito sobre nosso presente, uma das cenas públicas mais violentas da nossa história. Além de não receber punição alguma, começou ali, ao ver que as instituições não funcionavam, uma campanha (que segue até hoje e da qual nos tornamos reféns) cuja principal carta é o discurso de ódio e as ameaças.

Bolsonaro se tornou presidente com ajuda do então juiz Sérgio Moro, que depois virou ministro do governo que ajudou a eleger ao julgar parcialmente Lula. Depois disso, temos, pasme, miga, mais de 6 mil militares atuando em cargos civis no governo Bolsonaro. 

“Sério?”

 Sério, miga.

Militares no governo ganharam milhares de cargos, privilégios na Previdência e sairão sem arranhões da reforma que se propõe a acabar com o serviço público.

Militares estão  em áreas nas quais não necessariamente contam com notório conhecimento como no Ministério da Educação, no Ministério da Saúde atuando na Anvisa; no Ministério da Agricultura ocupando o Incra; no Ministério dos Direitos Humanos, ocupando a Funai; no Ministério da Cidadania, ocupando a pasta responsável pelos Esportes; no Ministério do Desenvolvimento Regional, ocupando o departamento responsável pela defesa civil  como bem elencou o cientista político William Nozaki para o Rede Brasil Atual.

Militares estão também em postos de direção ou em conselhos de administração de algumas das maiores empresas estatais do país, como Petrobras, Eletrobras, Itaipu Binacional, Telebras, Correios e Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares.

É ou não é um governo militar, miga? Nem na ditadura tivemos tantos fardados ocupando cargos tão estratégicos.

Por outro lado, estamos vendo o desastre que está sendo estas gestões. O pior, dado a pandemia, foi o general Eduardo Pazuello. Olhando o que estão fazendo, cai por terra aquela ideia de que militares são competentes politicamente e administrativamente falando. Pelo contrário, se o que está sendo apontado na CPI for provado, minha irmã, nem te conto…

No caso do Ministério da Educação, se eu falar, eu choro de tanta dor vendo uma pasta tão importante ser comandada por um lunático.

“Mas e agora com mais essa ameaça desse general Braga Netto?”

Se for também comprovado mais esse ato covarde, novamente, as Forças Armadas serão rebaixadas na opinião pública já que estão ali para seguir e fazer valer a Constituição e não rasgá-la. Não há legitimidade constitucional para as Forças Armadas interferirem nas eleições de 2022.

Braga Neto é lambedor de saco de Bolsonaro e – como seu patrão – faz a política no grito dado por machos alucinados. Homens covardes não conhecem outra forma de governar.

Golpearam em 2016, golpearam em 2018 e estão agendando, agora, não mais um golpe para 2022, mas sim a manutenção de tudo isso que eles nos roubaram. Já temos presos políticos, gente exilada, pessoas ameaçadas de se pronunciarem publicamente contra o governo, pessoas mortas, queimas de arquivo, ataque às universidades… está tudo aí, miga.

Só agora, vemos muita gente acordando. Antes tarde do que nunca para enxergar como essa galera de extrema direita joga imundamente.

E por que agora isso? Tudo está por conta do voto impresso. 

Em maio, Bolsonaro afirmou, sem apresentar provas, que as urnas eletrônicas permitem fraude: “Se não tiver voto impresso, sinal de que não vai ter a eleição. Acho que o recado está dado” . Ministros do STF se posicionaram contra e bastou para esses homens saírem com o dedo em riste, típica atitude de quem não consegue aprofundar um diálogo e defender seus ideais de forma educada e inteligente.

O que fazer?

Olha, eu leio por desaforo. Rio por sobrevivência. Dialogo como resistência.

Ah e sim vou para as ruas dia 24 de novo porque não quero ter essa crise de consciência. Luto sem cansaço contra toda essa nojeira e poderei falar isso para meus netos e minhas netas.

Diga-me o seu CEP e eu te direi quem tu és

Sou eu que coloco endereço em cada livro que posto. É uma atividade manual que poderia ser somente de cópia, mas procuro me envolver emocionalmente no processo braçal e tirar disso alguma diversão.

De tanto colocar o destino, sei só de olhar o primeiro número do CEP para onde o livro vai. Agora estou atenta aos segundos e terceiros números do código postal e estou aprendendo sobre eles, a dizer, as sub-regiões de cada região desta bagaça chamada Brasil. Qualquer dia, você vai me falar o nome de sua rua e eu vou te dizer seu CEP assim na lata.

Começou por zero o CEP? São Paulo.
Um? Interior de São Paulo.
Dois? Ridijanêro.
Três? Minas.
Quatro, cinco e seis mando com beijo e gratidão: norte e nordeste.
Sete: Brasília.
Oito: Paraná e Santa Catarina
Nove: Rio Grande do Sul.

Endereço para Brasília é diferente dos demais do Brasil. Lá a coisa é tudo por número e quadras. As ruas não têm nomes e sim referências. Acho, sinceramente, que faz bem mais sentido do que ficar colocando nome em rua. Aliás,…

Tem muito mais rua com nome de homem do que com nome de mulher. O machismo está também escancarado no mapa do Brasil. Rua com nome de capitão e general tem aos montes, fica aqui mais essa observação.

Tem muita rua que começa com Doutor como a rua Doutor Victor Bhering em Conselheiro Lafaiete em Minas. Nunca vi rua com nome de doutora. Tem? Certamente. Mas acho que nenhum livro meu chegou até lá (já que sou eu que escrevo o endereço de quase todo mundo que adquire meus livros).

Rua com nome de governador tem em todos os Estados, assim como rua com nome de prefeito. Acho legal quando vejo rua com nome de vereador. Corro para saber quem foi e já quero saber da história daquela região toda.

Tem rua com cada nome que fico imaginando a pessoa escrever ou soletrar isso sempre. Exemplos: Rua Arthur Manuel Scheffer em Torres/RS, Rua Dragothim Tomich em Carlos Chagas/MG, Rua Friedrich Von Voith em São Paulo…tem vários endereços assim. Já sofro soletrando meu nome, imagina morando numa rua dessas… Em tempo, tem mais rua com doutor do que com professor como a rua professor Stroller em Petrópolis/RJ. Esse aqui fiquei com pena de quem mora lá tendo que escrever esse nome sempre que vai colocar o endereço: rua professor Carlos Schlottfeldt. Jesus amado… Sei nem como fala isso.

E tem ruas que eu vou ao Google para saber do que se trata: Igarapava, Upamaroti, Piracanjuba, Cambaúba, Guaianazes, Itapiru, Upiara, Tacomaré… estou enriquecendo meu vocabulário e minha cultura descobrindo onde vocês moram.

Quando aparece uma rua com nome e sobrenome de mulher, eu paro tudo. Sou despertada pela curiosidade dado minhas bandeiras. Olha isso, gente: Rua Jardelina de Almeida Alves em Mogi das Cruzes/SP, Rua Lilia Elisa Eberte Lupo em Araraquara/SP – CEP começando com…? Um! Isso mesmo. Rua Flaminia aqui no Rio. Não parecem pessoas interessantes? Mas são poucas, como disse. Nome de homem tem aos montes ao ponto de me causar desinteresse pela história deles.

Tem poucas ruas que começam com “Dona”. Mas guardo o nome delas e fico imaginando uma mulher cuidando de todo mundo como a rua Dona Mariana (em Jacareí/SP), a rua dona Queridinha (em Itapoã CEP começando com três, portanto, Minas Gerais) e Rua dona Maria (CEP começando com dois, logo, aqui no Rio). Rua dona Avelina, rua dona Cassina, Dona Francisca, dona Catarina, dona Joana, Dona Isaura, Dona Veridiana, Rua Dona Tereza Cristina… São várias “Donas” que gostaria demais de saber quem foram.

Rua de Santo tem de todos que conheço e mais outro tanto que nunca tinha ouvido falar. São Sebastião, São Diego, Santo Antonio, Santo Expedito, São Eufredo, Santo Lenho, Santo Afonso,…

Tem ruas que fico imaginando o que se passou: rua da Gratidão (em Salvador CEP começando com quatro), rua da Represa (em São Bernardo CEP com zero), rua dos Sabiás (em Fortaleza CEP com seis), rua da Felicidade, rua da Alegria, rua dos Cavaleiros, rua das Princesas,…

E tem as ruas que sorrio quando escrevo pensando só na lindeza que é: rua das Dálias, rua das Flores, rua das Amendoeiras, rua das Laranjeiras, rua das Palmeiras, rua das Mangueiras, rua dos Ipês… Sei que posso chegar lá e ver um deserto de prédios, mas dálissença porque preciso imaginar coisas boas enquanto coloco o endereço nos envelopes.

Mais interessante do que isso são os nomes dos bairros, mas preciso voltar ao meu trabalho aqui. Caso contrário, não consigo cumprir o prometido que é mandar o livro para vocês com autógrafo ainda nesta semana. Já viram o quanto me disperso…

Por ora, parei tudo para dividir com vocês isso aqui que ando observando.

Com carinho, para todas as pessoas que compraram meu livro ❤

“Jogo on line não tem pause”

Foto antiga. Hoje Yuki está maior do que eu, mas eu sempre verei meu kikito assim.

Chamo meu filho adolescente para comer.

Ele demora. A boia esfria. A crocância nhé.

Meses isso se repete, gente.

Daí, vocês que sempre têm razão mas não têm coração vão dizer: deixa ele comer frio que ele aprende rapidinho.

Cêis não tão entendendo.

Ele não se importa em comer frio, mas eu sofro ao ver meu filho comendo uma comida gelada.

Sou mãe e as mães vêm com um chip que, se um filho sair com camisa amassada ou comer uma comida gelada, a gente sente como se fosse culpada por toda vulnerabilidade do mundo.

Desculpa estar reforçando estereótipos, mas preciso exagerar para vocês me entenderem e gerar comoção em quem me lê e tem o mesmo chip que eu. Tem mãe que vem com chip diferente? Tem.

Isso posto, vou continuar.

É difícil educar porque a medida pedagogicamente indicada para o caso em questão – em que a gente chama e o filho fala “javô” millones de veces – impõe mais sofrimento em mim, mamacita, do que nele, chiquitito de mamacita.

Como sou esperta e sei equacionar bem, passei a chamá-lo quando começo a cozinhar dizendo que tá pronto.

Ponho água no arroz e já falo que tá tudo na mesa esfriando para ele vir rápido. Desse jeito. Nesse nível de precisão.

Ele passou a chegar na hora certa.

Meus cálculos foram perfeitos.

Tudo quentinho saindo fumacinha cheirosim e suquim com gelim e menino lindo sentadim.

Palmas para a minha inteligência Plus Master com o third child.

Porém, como sou também, acima de tudo, excelente educadora faço a pêssega quando ele chega, mas preciso brigar. Então, na verdade, faço uma falsa pêssega hiper revolt.

Da outra vez foi tão intenso meu teatro de não aguento mais te chamar para comer por que minhas deusas você demora tanto vou cortar a Internet da casa cada minuto que eu chamo e você não vem é um cabelo branco que me aparece vou começar a fumar enquanto a comida tá na mesa e você não vem… essas coisas que todas as mães sabiamente falam… então, fiz um discurso tão bom de invejar qualquer mãe perdida que meu filho prometeu não me estressar mais.

Ele disse que nunca mais vai se atrasar. Eu chamo e ele pá. Vem.

Prometeu.

Tenso.

Estava tudo resolvido.

Era só ele continuar fazendo tudo errado que tava tudo certo.

Mas agora ele afirmou que ia fazer o certo para eu ficar calma.

E eu tenho para mim que ele não vai fazer mas pode ser que faça o que não precisaria mais ser feito.

Ele mexeu uma peça importante no jogo depois de eu jurar que tinha dado um xeque mate jab mother.

Ah gente.

O dia que andei muito de windsurf

Foto: Bárbara Lopes

Teve um dia que eu estava passando férias em Florianópolis na casa de uma gente muito rica cujo quintal se emendava na areia da praia em Canasvieiras.

E onde tem gente rica tem gente fazendo coisa de rico.

E eu lá no meio daquilo já cheia de filhos e boletos.

Um pouco mais ali na frente, tinha aula de windsurf e, do quintal daquela mansão, eu ficava babando vendo uma galera planando na água controlando uma vela em cima de uma prancha como quem anda de patinete.

Parecia fácil e eu quis.

Contei as moedas e vi que dava para uma aula. O valor de uma hora, para vocês terem ideia, era o equivalente, hoje, a 4 ou 5 sacos de arroz. Estava de férias, havia trabalhado pacas. Julguei no alto do meu privilégio que merecia.

A moça disse que seria bom fazer ao menos umas três aulas para eu aprender direito as manobras a ponto de poder ir para mais longe. Não duvidei, mas não era questão de opinião e sim de matemática financeira.

Na hora combinada da aula, avisei para minha galera que ia me ausentar. Lá fui eu com toda minha inteligência cheia de conhecimento de física quântica e anos acumulados de sedentarismo ver qual era daquele esporte.

A moça que ensinava era uma surfista-senhora. Magra, loira e com couro cor laranja-Trump textura jacaré-vacinado. Falava portunhol. Em Santa Catarina tem muito disso: argentinos.

A primeira coisa é aprender a montar a vela. Digo, colocar aquela lona no mastro. Não curti. Para que isso? Nunca ia montar aquilo em Madureira. Tinha pressa como os que pedem comida pelo aplicativo.

Eu queria logo brincar como via, há dias, outras pessoas fazendo. Tive que perder, porém, uns 15 minutos daquela aula carééésima erguendo aquele peso. Descobri que a força que uma leve brisa tem quando bate num pedaço de plástico se equivale a fúria de um furacão.

Depois de tanta montagem e desmontagem, tira casaco coloca o casaco, grazadeus amém fomos para o mar.

EBAAAAA.

Mais instruções. Affff.

Naquela época eu sabia que tinha surdez moderada e tinha já indicação para usar próteses. Mas não falei sobre isso para a instrutora porque houve um momento na minha vida que tinha vergonha de não ser como a maioria.

Lembro-me de que estava pê da vida porque estava perdendo tempo de aula com ela tagarelando e dando nome em cada pedaço daquele brinquedo. Para quê isso, gente?

Ela falava da rosa dos ventos, ângulos, direções e tentei poupar o tempo dela dizendo que, de vetores, eu sei tanto que até dou aula.

Até que chegou o momento de eu ficar em pé naquilo.

Quem disse que conseguia.

Lembra do que te falei, ela insistia.

O pouco que consegui ouvi-la não prestei atenção como fazemos com aqueles que começam a contar uma história quando o garçon chega com o pedido.

Eu queria brincar e só tinha aquela oportunidade. Tenso. Mega tenso.

Toda hora eu caía na água.

E ela ficava insistindo em explicar.

Já estava ficando triste e irritada com tudo.

Estávamos no mar e eu só entendo o que a pessoa fala se olhar para a boca dela.

A mulher estava em um caiaque e eu na prancha a uma distância que mesmo eu olhando não entendia patavinas.

A hora passando e eu só pensava no dinheiro que tinha dado para ficar passando por aquela humilhação de não conseguir mais encontrar meu centro de massa.

Balançava como um boneco de posto sacudindo aquela vela para frente e para trás e água.

Subia na prancha e em menos de um minuto… água de novo.

E a mulher gritando orientações pelas minhas costas.

Caraca.

Não acredito que paguei para passar por aquela situação, pensava como os que compram um vidro de azeitonas bem grandes e suculentas, mas não conseguem abrir sozinhos.

Até que um milagre aconteceu.

Os ossos se ajeitaram com a vela.

O equilíbrio se fez presente e bons ventos sopraram em conjunção perfeita de Madureira com Canasvieiras.

A prancha saiu do lugar e começou a ganhar velocidade.

Quem acompanhava de longe via uma vela sendo soprada pelo vento. Se aproximasse, veria uma mulher deixando tudo para trás.

A sensação era maravilhosa.

Via um horizonte, um céu lindo, estava numa velocidade que, ouso dizer, nem os surfistas mais experientes alcançaram.

Sentia que a instrutora estava ao fundo gritando, mas se eu olhasse para trás, cairia e sabe deus nosso senhor quando iria encontrar aquele equilíbrio raro – fruto do encontro dos alísios com a minha lombar.

Eu só pararia quando o vento mudasse de ideia porque a minha era fixa: usufruir ao máximo de cada centavo como fazemos quando vamos a um rodízio de pizza.

Eu era parte de um cenário lindo e gritava urrú em pensamento. Era, enfim, uma mulher equilibrada andando em linha reta.

Até que olhei sorrindo para o céu e de uma nuvem saiu Mufasa.

Lembre-se de quem você é. Disse ele.

Quando a nuvem se fechou eu caí na água.

Subi de novo na prancha e foi então que olhei onde estava.

Possivelmente no Pacífico pelos meus cálculos.

As pessoas estavam minúsculas e bem lá longe – mas muito longe mesmo – vinha a instrutora remando rápido no caiaque.

Tentei ficar em pé, mas o vento não mais ajudava. O jeito foi ficar sentada vendo o mundo parado embaixo de mim como fazem aqueles que experimentaram um hatuna matata nível Advanced Plus Master.

Até que, depois de um bom tempo, a mulher se aproximou a ponto de eu escutá-la.

Ela estava demasiadamente irritada. Fiz sinal que não ouço direito, pedi desculpas.

Ela me deu o remo, mandou eu subir no caiaque e assumiu o windsurf.

A minha experiência não era suficiente para me fazer voltar contra o vento, disse ela quando reclamei em voltar de caiaque e ela no meu brinquedo.

Odeio caiaque. Cansa. É lento. Tem que remar. Não gosto.

Demorei muito voltando.

O suficiente para refletir sobre tudo e me conhecer melhor.

Desde então, percebo que muitas vezes que estou feliz e equilibrada, não tenho a menor noção do que esteja fazendo.

Lembrei disso porque tenho 500 livros para autografar e acabo de impulsionar mais uma postagem distribuindo autógrafos. Podem ficar tranquilos que já estou remando em direção à terra firme.

Como dialogar com as capitãs cloroquinas

Nesta semana, teremos a médica Mayra Pinheiro, a capitã cloroquina, depondo na CPI do genocídio. Ela ficou “famosa” em 2013 quando gritou nos ouvidos dos médicos cubanos, na ocasião da chegada deles ao Brasil pelo programa Mais Médicos, para que voltassem para a senzala.

Ganhou mais holofotes quando virou secretária da saúde no governo Bolsonaro e defendeu o uso de tratamento precoce que a comunidade científica já mostrou não ter eficácia comprovada.

Quero alertar que será uma médica que de burra não tem nada contra senadores e senadoras. Aposto que Mayra Pinheiro vai vir segurando papéis e falará sobre método científico e eficácia com a autoridade conferida aos profissionais da saúde. Será uma médica trazendo “dados” contra senadores. O debate será tenso e extremamente perigoso.

O assunto é muito delicado, profundo e controverso e alerto que Mayra Pinheiro pode deixar quem anda defendendo a ciência de uma forma ingênua no chão.

Sem querer fazer propaganda – mas já fazendo – é sobre isso (e mais outras coisas) que trato no meu novo livro Como dialogar com um negacionista publicado pela editora Livraria da Física.

A polarização “Eles negacionistas são burros” versus “Nós defensores da Ciência somos inteligentes” não se sustenta e, infelizmente, teremos mais um caso nesta semana mostrando os riscos de seguir por este caminho. Muitas vezes, estou sendo motivo de piada nos comentários de minhas postagens em redes sociais pelas pessoas que me seguem quando aponto a necessidade de refletirmos melhor sobre o assunto e sobre a necessidade do diálogo. Gostaria, sinceramente, de estar errada em insistir nisso. Porém, percebo todo santo dia que desprezá-lo é contribuir para o aumento do caos e do número de mortes.

Há como defender o uso e o não uso de um medicamento, como estamos vendo neste país. Porém, como o debate nunca se aprofunda, a população paga, muitas vezes com a própria vida, por ficar no meio desse tiroteio de argumentos.

Como uma pesquisadora, defensora da ciência e atenta ao mal em potencial que o capitalismo dissemina em qualquer esfera, sou uma das primeiras a duvidar e a defender a dúvida em relação às “verdades científicas”. Sei muito bem que há pesquisas financiadas por empresas e que um cientista não é um robô e sim uma pessoa, portanto, está sempre sendo atraído por coisas que despertem seus interesses e vão ao encontro de seus valores. Dito de outra forma, defendo a ciência sem perder a capacidade de prestar muita atenção ao modo de fazer científico e, sendo o caso, criticar e apontar eventuais erros. Isso é bom, honesto e saudável.

O ponto é que com o avanço da extrema direita, o que era bom, honesto e saudável virou arma na mão dessa gente mal intencionada. Uma coisa é fazer uma crítica construtiva, ser agente de uma mudança e lutar para que os benefícios da ciência sejam democratizados. Outra, bem diferente, e extremamente perigosa é promover a falsa simetria dos argumentos desqualificando como um todo o trabalho de especialistas baseado nas controvérsias internas e naturais que ocorrem no curso da ciência fazendo afirmações sem sentido e totalmente levianas, como por exemplo, que dentro das instituições de pesquisa só tem comunista ou que o tratamento precoce tem eficácia comprovada.

Por isso, insisti no meu novo livro sobre a importância de não sermos ingênuos quando entramos nessa discussão. Para quem acha que com um negacionista é burro e que a coisa se resolve com um taco de beisebol, como leio em inúmeros comentários todas as vezes que compartilho o lançamento do “Como dialogar com um negacionista”, penso que essa pessoa seria facilmente esmagada com as palavras e a articulação da capitã cloroquina.

Ainda que ela pague pelos crimes que cometeu e responda pelas mortes que poderiam ter sido evitadas, se deixá-la falar (e é necessário que ela fale numa CPI), as falas serão recortadas e transmitidas em grupos de whatsapp com manchetes sensacionalistas em capslock comemorando “a vitória da doutora contra Renan Calheiros”, algo nessa vibe: VEJA MAYRA PINHEIRO JANTANDO RENAN CALHEIROS. Aff.

O grande público que não terá tempo nem disposição para acompanhar toda a história e a CPI possuirá, mais uma vez na mão, um material tão fácil de ser transmitido como um vírus.

Tempos complicados eram aqueles que o povo ia para a rua “por 20 centavos”. Os tempos, hoje, estão complicadíssimos.

Bolsonaro quis ter o controle da Anvisa, do Inpe e do Ibama achando que concentrar em si a autoridade dessas instituições resolveria a questão da desconfiança – que volto a dizer, é saudável no meio acadêmico e científico porque nos deixa alertas quanto aos erros possíveis de serem cometidos. Estar atento ao jogo é importante, querer ganhar mudando as regras é ausência de caráter. Percebem a diferença?

Penso que estamos nesta lama – e temos ainda como nos enterrarmos mais – porque estamos fazendo uma defesa da ciência que não se sustenta. A capitã cloroquina tem capacidade de derrubar com menos de dez minutos de fala o discurso de quem começa a discussão defendendo a ciência pelo método científico que é um tema de extrema complexidade. Temos uma ampla bibliografia sobre os conceitos de verdade, de ciência e, portanto, do método científico. São necessárias leituras e disposição para esse diálogo.

Minimizar ou ridicularizar as afirmações de Bolsonaro e de seus pares é desconsiderar algo super importante: as narrativas mentirosas não são frutos de uma mente alucinada e sim de uma estratégia política que muitas pessoas, por reduzir o negacionismo a uma questão cognitiva, acaba mordendo a isca.

A falsa simetria precisa ser escancarada nesse debate. A balança não está equilibrada de forma alguma, ou seja, não é somente “uma questão de opinião” ou de liberdade para profissionais de saúde prescreverem o que acham melhor para o paciente. Ou, como disse Bolsonaro na live de 16 de Julho “Se não tem alternativa, por que proibir? ‘Ah, não tem comprovação científica que seja eficaz.’ Mas também não tem comprovação científica que não tem comprovação eficaz. Nem que não tem, nem que tem.” Não se trata disso. Muitas vezes, o melhor é, em caso de dúvida, não fazer. O “tanto faz” é falso neste caso.

Debater argumentos científicos sobre eficácia da cloroquina na CPI é tenso. Acredito que seja possível somente se as instituições forem devidamente valorizadas.

Como eu acredito que as instituições andam juntas com a questão da saúde pública, há tempos recolho algumas informações sobre o tema. Faço uso delas para fazer um bom debate com quem vem falar sobre tratamento precoce. Divido com vocês parte da minha munição. Acho que vamos precisar, mais do que nunca, usá-las nesta semana.

1 – A Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) não recomenda tratamento precoce para Covid-19 com qualquer medicamento (cloroquina, hidroxicloroquina, ivermectina, azitromicina, nitazoxanida, corticoide, zinco, vitaminas, anticoagulante, ozônio por via retal, dióxido de cloro), porque os estudos existentes até o momento não mostraram benefício e, além disso, alguns destes medicamentos podem causar efeitos colaterais.

Fonte: https://infectologia.org.br/2021/02/25/repudio-ao-tratamento-precoce/

2 -Não existe comprovação científica de que esses medicamentos sejam eficazes contra a Covid-19. A orientação da SBI está alinhada com as recomendações de sociedades médicas científicas e outros organismos sanitários nacionais e internacionais, como a Sociedade de Infectologia dos EUA (IDSA) e a da Europa (ESCMID), Centros Norte-Americanos de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), Organização Mundial da Saúde (OMS) e Agência Nacional de Vigilância do Ministério da Saúde do Brasil (ANVISA).

Fontes:

https://www.cdc.gov/coronavirus/2019-ncov/hcp/therapeutic-options.html

https://www.idsociety.org/covid-19-real-time-learning-network/therapeutics-and-interventions/hydroxychloroquine/

https://www.ipea.gov.br/cts/pt/central-de-conteudo/noticias/noticias/208-fda-veta-uso-de-cloroquina-e-hidroxicloroquina-contra-a-covid-19-nos-estados-unidos

https://eacademy.escmid.org/escmid/2020/covid-19/293257/n.petrosillo.e.presterl.j.p.stahl.m.sanguin

https://www.bbc.com/portuguese/internacional-53370870

3- A agência regulatória norte-americana, o FDA, elenca uma lista de medicamentos que não têm eficácia comprovada contra a Covid-19. Entre eles: fosfato de cloroquina, sulfato de hidroxicloroquina e ivermectina.

Fonte:
https://www.bbc.com/portuguese/internacional-53058069

https://www.cnnbrasil.com.br/saude/2020/06/15/eua-suspendem-uso-emergencial-da-hidroxicloroquina-contra-covid-19

4- O kit-covid além de não ajudar, está causando problemas sérios e levando pacientes a óbito. “O médico intensivista Ederlon Rezende, coordenador da UTI do Hospital do Servidor Público do Estado, em São Paulo, destaca que entre 80% e 85% das pessoas não vão desenvolver forma grave de covid-19. Para esses pacientes, usar o “kit covid” não vai ajudar em nada. Também pode não prejudicar, SE a pessoa não tomar doses excessivas nem tiver doenças que possam se agravar com esses medicamentos.”

Fonte:

https://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2021/03/paciente-entre-na-fila-do-transplante-de-figado-por-usar-drogas-do-tratamento-precoce-contra-covid.shtml

https://www.bbc.com/portuguese/brasil-56457562

https://www.correiobraziliense.com.br/ciencia-e-saude/2021/03/4913536-coronavirus-chefes-de-utis-ligam—-kit-covid—-a-maior-risco-de-morte-no-brasil.html

https://saude.estadao.com.br/noticias/geral,apos-uso-de-kit-covid-pacientes-vao-para-fila-de-transplante-ao-menos-3-morrem,70003656961

5 – Segundo chefes de Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) de hospitais de referência no Brasil, isso tem contribuído de diferentes maneiras para aumentar as mortes no país, por exemplo, retardando a procura de atendimento pela população, absorvendo dinheiro público que poderia ir para a compra de medicamentos para intubação, e dominando a mensagem de combate à pandemia, enquanto protocolos nacionais de atendimento sequer foram adotados,como mostrou a BBC News Brasil.

Fonte:
https://www.bbc.com/portuguese/brasil-56457562

https://brasil.elpais.com/brasil/2021-02-26/estudo-sugere-que-pessoas-em-tratamento-precoce-tiveram-taxas-mais-altas-de-infeccao-por-covid-19-em-manaus.html

6- Os números da pandemia em todo mundo mostram que a maior parte das pessoas que contrai covid-19 se recupera. Por isso, segundo especialistas, remédios apresentados como “cura” acabam “roubando o crédito” do que foi apenas uma melhora natural.

Fonte:
https://www.bbc.com/portuguese/geral-53896553

7- Temos que tomar cuidado com as fakenews e apurar com detalhes as notícias verificando as fontes. As notícias que afirmaram que o tratamento precoce zerou internações por tratamento precoce são todas falsas.

https://www.aosfatos.org/noticias/e-falso-que-tratamento-precoce-zerou-internacoes-por-covid-19-em-15-cidades/

8- O uso da Ivermectina é desencorajado por entidades médicas e farmacêuticas, pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e pela própria fabricante do medicamento. Já há casos de hepatite medicamentosa por conta do uso excessivo do medicamento.

De acordo com o NIH (National Institutes of Health ou Instituto Nacional de Saúde dos Estados Unidos), ainda não há dados suficientes sobre a eficácia da ivermectina. No dia 5 de março, o FDA (Food and Drug Administration, agência reguladora de medicamentos e alimentos dos EUA) publicou um alerta pedindo que a população dos Estados Unidos não tomasse o vermífugo para tratar a Covid-19.

Fonte:
https://www.medicina.ufmg.br/kit-covid-o-que-diz-a-ciencia/

https://www.aosfatos.org/noticias/e-falso-que-novo-estudo-comprova-eficacia-da-ivermectina-contra-covid-19/

https://www.covid19treatmentguidelines.nih.gov/antiviral-therapy/ivermectin/

https://www.fda.gov/consumers/consumer-updates/why-you-should-not-use-ivermectin-treat-or-prevent-covid-19


O que fazer? Sigamos os que dizem os maiores especialistas. O Brasil, como estamos vendo, não é exemplo para nada na luta contra esse vírus.

A recomendação é: usar máscaras boas como PFF2 e N95 (as de pano já não estão dando conta mais) e manter o distanciamento social enquanto a vacina não chega.

Fonte:

https://www.em.com.br/app/noticia/gerais/2021/03/30/interna_gerais,1252267/conselho-de-saude-culpa-aglomeracoes-e-falta-do-uso-da-mascara-por-colapso.shtml


Enfim, torço para que os senadores e as senadoras preparem-se muito bem e que as pessoas responsáveis pelas mortes que poderiam ter sido evitadas paguem por cada uma delas. Creio que Mayra Pinheiro terá o que merece em um breve fututo. Temo, porém, que, antes, ela faça mais estragos.

Sigo na esperança de que diálogos aconteçam. Mas, para tanto, é necessário descer do salto alto e parar de subestimar a capacidade intelectual do adversário político. Somente assim, conseguimos nos preparar corretamente para eles sem nos igualarmos, em atitude, ao nosso inimigo.

Dia do trabalhador perceber a força que tem

Hoje é dia do trabalhador perceber a força que tem sua classe.

Golpe de 2016. O que temos de lá para cá? Temos menos direitos e menos futuro. Paulo Guedes que o diga… O ministro da economia sinalizou de forma escancarada que esse negócio de pobre querer futuro longevo lhe deixou indignado. Não pode!, disse Guedes. Na lógica liberal, pobre tem que viver menos para não sobrecarregar a previdência.

Logo depois do golpe, veio Temer e a primeira coisa que fez foi retirar direitos dos trabalhadores.

Mas… nada neste Brasil é tão ruim que não possa piorar. Passarinho na gaiola canta porque não sabe que a pessoa que lhe dá água e comida também explora e oprime. Mas seu dono faz isso como se tivesse fazendo um bem e o passarinho acredita que está sendo bem cuidado. Assim acontece com os liberais que exploram dizendo que estão fazendo o melhor para o trabalhador.

Sob termos que enganam como “empreendedorismo” e ”trabalho flexível”, retiraram direitos trabalhistas e previdenciários. Teve passarinho cantando defendendo seu dono porque não sabe o tamanho da floresta que perdeu.

Ontem foi o leilão da Cedae. Mais essa. Esse processo de privatização de empresas e dos serviços públicos está sendo feito por quem alimenta passarinhos, volto a dizer, que estão em uma gaiola. Falam em ineficiência do Estado para que o passarinho acredite que morar em árvores é pior do que em gaiolas.

Empresário só investe onde lhe dá lucro, passarinho. Percebe? Em lugares que o povo não tem dinheiro para pagar os serviços prestados, empresário nem aparece, meu bem. Essa é a realidade. Temos inúmeros exemplos para comprovar que o discurso usado para tornar privado o que é público é uma grande falácia.

Vimos o quão desastrosa foi a transferência para organizações sociais de serviços de saúde e assistência social, sob a forma de parceirização e contratualização. Falaram o que para você, passarinho? Que isso ia beneficiar toda a revoada, lembra? Que nada. Foi uma das maiores fontes de corrupção e serviços precarizados para os trabalhadores.

Enfim, hoje, é o dia do trabalhador – que anda perdendo seus direitos, vale pontuar. Mais do que nunca, é um dia para conscientizar que podemos voar.

A pior gaiola é essa: mesmo diante da porta aberta, o pássaro não acredita que consegue adejar. A pior gaiola está naquilo que nos fazem acreditar.

Pássaros do mundo, uni-vos! Hoje é dia de luta, de reflexão e, como mostrou a história, este dia existe porque no dia primeiro de Maio de 1886 houve uma bela revoada.

Primavera na minha sala

Ontem, quando fui dar aula remota, algo aconteceu.

Há muitas pessoas – como eu – dando aulas em casa e é comum ninguém abrir a câmera porque não deixa de ser uma invasão de privacidade. Há um quarto bagunçado, uma sala com pessoas da casa circulando, um irmão dormindo na cama,… daí, nessa cultura que surgiu em tempos de pandemia, o normal é a gente ensinar sem ver quem está aprendendo.

Nem preciso dizer o quão estranho é isso. Não tenho ideia do quão traumatizados sairemos dessa experiência mesmo reconhecendo que há, nelas, grandes aprendizados.

Como várias professoras deste Brasil, tenho feito o meu melhor. Acho que nunca trabalhei e me preocupei tanto com meus alunos a minhas alunas. Se está sendo difícil ensinar, para eles, não está sendo nada fácil aprender.

Tenho procurado fazer de tudo para que esse momento estranho seja producente e minimamente agradável. Esqueço minhas fragilidades e me lanço neste oceano chamado ensino remoto como quem mergulha numa água turva querendo trazer para a superfície uma pedra bonita.

Mas está tão difícil não ver o rosto deles, gente.

Ao término de cada aula, fico olhando ainda para a tela do computador como alguém que olha para o horizonte segurando um cachimbo.

Sem a comunicação corporal e facial, eu não tenho retorno imediato sobre o que estou dizendo. E, meudeus, como me sinto só em vários momentos nesta casa.

Tento me apegar à ideia de que tudo vai passar, mas, cada dia que acaba, o fim de tudo isso parece mais distante.

E, ontem, quando comecei a falar, algo diferente aconteceu.

As câmeras abriram.

Fiquei olhando todo mundo como quem observa o passado, o presente e o futuro de uma só vez. Via a minha tela como uma professora diante de sua classe.

Senti saudade. Mas senti também a ausência dela, se é que me entendem.

Desde então, estou tentando contar para vocês isso, mas daí eu choro enquanto escrevo. Leio o que redigi. Por mais que eu tente, não darei conta de mostrar a intensidade do que vivi.

Recebam esta minha tentativa. Preciso dividir com alguém a primavera que passou, ontem, pela minha sala.

Espírito de porco

Quando eu era criança, viajava sempre para Itajubá, uma cidade pequena no Sul de Minas. Mamãe nasceu lá. Vovó teve 16 filhos. Então, o que não faltava era primo para brincar e chácaras para visitar.

Era véspera de Natal aquele dia. Vovó queria assar um leitão e lá fomos nós para uma roça pegar um. Lembro-me de adultos conversando e mamãe fazendo a encomenda para o dono do local.

Um rapaz de chapéu de palha e galochas foi com a gente até o chiqueiro. Mostrou vários porquinhos. Eu, criança, fiz uma farra com os olhos vendo aquela bicharada fedorenta no meio da lama fazendo um barulho engraçado.

De repente, o moço pegou um pelo rabo e, com um facão, espetou na barriga de um dos porquinhos que gritou, berrou, se esgoelou como fazem os que pedem socorro.

Saímos todos dali depois disso. Entramos na casa para comer biscoito de polvilho feito na lenha.

No meio do café, fugi e corri para o chiqueiro. O porquinho mal respirava e já não tinha força para gritar mais. Eu estava assustada vendo uma vida terminar tão lentamente de forma tão rápida, se é que me entendem. O sentimento era confuso mesmo e há um lugar dendagente que os paradoxos conversam entre si. Enquanto o visitava, o moço abriu a porteira.

Pegou o bichinho pelas patas traseiras e levou para um tanque grande.

Curiosa que sempre fui, segui os dois: o homem e o porquinho morto pelo homem.

No tanque, ele amarrou as patas do animalzinho em uma espécie de cabo de vassoura. Com o mesmo facão, rasgou toda a barriga do porco e retirou todas as suas vísceras. Era a primeira vez que via o avesso na minha vida.

E fiz em silêncio como os que ouvem um barulho estranho no meio da noite. O olhar procurava entender o que estava acontecendo.

Voltando para a casa da vovó, ela pegou a carcaça do leitãozinho, alegre como os que veem uma pururuca. Temperou bem, me explicou como fazia e disse que, no dia seguinte, ia pedir para o Seu Paulinho da padaria assar no forno grande que tinha lá.

No final da tarde daquele 24 de dezembro, tocou a campainha. Era um outro moço com um tabuleiro grande com o porquinho marronzinho de tão assado.

Vovó enfeitou, botou até algo na boca dele como vemos em filmes e desenhos.

Pela primeira vez na vida, entendi que o que eu comia e chamava de carne, gritava e sentia alguma coisa ao morrer. Parece óbvio, mas não era para mim.

Não consegui sequer provar. Ver os olhos de quem se despediu querendo ficar gerou, em mim, um certo constrangimento.

Entendi, como os poetas, que não se assiste impunemente a nenhum adeus.

Sobre Ensino e Aprendizados

Sempre amei dar aula. Quanto mais agitada a turma, sentia-me mais desafiada. Tive e mantive amizades com alunos e alunas que eram extremamente rebeldes.

Passei anos estudando e aplicando novas metodologias em sala de aula que podemos trabalhar, para além dos conteúdos, novas competências como o prazer de atuar no coletivo. Daí veio a pandemia e com ela um ensino remoto que não é sinônimo de ensino à distância (que há todo um preparo das aulas com muita antecedência, material didático impresso voltado para isso e encontros presenciais esporádicos).

O ensino remoto é outra parada.

Aqui a gente se vira com o que tem em tempo recorde. A aula começa e as câmeras estão todas fechadas. A aula termina e continuo sem ver nenhum rosto. Não dá para obrigar ninguém a abrir a câmera porque muitos não têm câmera. Outros ficam com vergonha da casa ou tem um irmão dormindo ali atrás. Ou seja, seria uma invasão de privacidade. O jeito é ninguém ver ninguém.

O mundo acabando lá fora – até mesmo dentro de muitas casas – e eu, às sete da manhã, com minha mesa digitalizadora projetando meus gráficos, minhas equações e resoluções de problemas que envolvem variáveis como velocidade, aceleração, valor da carga, massa…

Todos os dias, vem à minha cabeça a imagem dos músicos do Titanic. No meu caso, não sei tocar violino e o que me deram sequer tem cordas. Mas sigo tentando fazer algo bonito. É isso que quero dizer.

Durante o contra turno, fico à disposição para tirar dúvidas. Sempre aparece alguém para justificar alguma falta ou atraso na entrega de uma atividade assíncrona.

Tem de tudo.

Mãe que fugiu de casa, vó que foi morar com a família depois da morte do avô, morte do avô, morte do tio, morte d… e faltas. Faltas que se justificam com outras faltas como falta de Internet, falta de vontade e falta de comida.

Há muitos que conseguem se concentrar. Isso é um fato. Tenho alunos e alunas que demoravam quase 3 horas para ir e voltar do CEFET e estão aproveitando esse tempo extra que o ensino remoto dá para ler e estudar.

Uma questão preocupante é a cola. Não dá para passar nenhuma atividade ou mesmo prova à distância sem que haja transferência e troca de informações entre eles. Antes da pandemia, eu já estava modificando a minha forma de avaliar. Utilizando uma metodologia adequada, permitia que a prova fosse feita por um grupo. Quando diga feita é feita mesmo. Era um grupo que fazia as questões da prova. Elaborava cada problema. Há tempos acho que uma boa pergunta feita com conhecimento e criatividade vale mais do que uma resposta.

Mas com ensino remoto tudo fica mais difícil.

Estou tentando fazer algo com a mesma essência que fazia presencialmente: incentivo pelo trabalho coletivo, pela pesquisa e pela criatividade. Não encontrei ainda um caminho. Enquanto isso, aposto no velho e poderoso diálogo.

“No lugar de colar, formem grupos, aproveitem a oportunidade. Explique o que fez para quem não conseguiu. Lembrem-se que passaremos mais alguns meses assim e que há uma formação em curso que é a sua. Se não conseguir, venha até mim. Te darei quantas avaliações forem necessárias para que você suba sua nota. Mas quero ver o que você fez.”

Todo dia esse discurso. Hoje, uma nota sete me traz muita mais alegria do que um dez. Começou o ano letivo com todo mundo gabaritando e, agora, já tenho notas diferentes e debates sobre erros. Bem se sabe o quanto aprendemos com eles…

Por que estou dividindo isso com vocês? Pela vontade de compartilhar uma experiência que me trouxe muita dor e aprendizado nesses tempos tão difíceis. Sei que muitos que me lêem estão passando por isso e possuem diversas outras histórias para contar.

Saudade demais de entrar numa turma barulhenta, de encontrar colegas no corredor da escola e esperar a minha vez de beber água no bebedouro.

Dói quando ouço que a categoria não quer trabalhar e por isso insistimos ficar em casa. Estamos trabalhando. O conceito de escola transcende um lugar cercado de muros. A escola está acontecendo. O ponto é que não é fácil ensinar presencialmente quando temos medo de morrer. Nós, da Educação, temos um quê de Paulo Freire e ensinamos, sobretudo, o respeito pelo coleguinha, mais precisamente, pela vida do coleguinha.

Já tem pesquisa feita em lugares pelo mundo mostrando que profissionais da saúde e da educação são os que mais têm morrido em relação a outras profissões.

Sobre aulas, precisamos urgentemente melhorar a qualidade do ensino remoto dando condições para que crianças e jovens tenham boa Internet em casa e equipamento adequado para isso. E, antes de um tablet, que tenha comida dentro de casa porque com fome ninguém faz nada muito menos tarefas assíncronas.

Eu sei o quanto está sendo extremamente difícil. Para vocês, professores e professoras, eu queria deixar meu abraço. Mas um abraço daquele que só dá quem entende a dor do outro. Um abraço de troca. De conexão e de apoio.