“Nada é de brinquedo quando alienígenas ameaçam nossas jujubas”

ricci

Desenho feito pelo artista Sergio Ricciuto especialmente para minha palestra sobre Educação

Yuki está com uma ferida no cotovelo que inflamou. Ontem fiz um curativo muito bem feito e hoje já estava com bem menos pus e vermelhidão.

Na hora que ele foi vestir o uniforme, começou a reclamar muito de dor. Quando colocou o tênis disse que estava ficando insuportável. Entendi tudo…

– Yuki, vou te fazer umas perguntas porque preciso analisar bem o que você está sentindo. Só me responda sim ou não com a cabeça. Não se preocupe com o meu julgamento. Farei de tudo para aliviar a sua dor, mas preciso entendê-la, ok?

– Ok. – respondeu ele com lágrimas nos olhos.

– A dor parece piorar conforme chega a hora de eu te levar para escola?

Sim com a cabeça.

– Ok. E dói quando você pensa em jogar videogame?

Não com a cabeça.

– Ok. Dói muito quando você abre o livro de matemática?

– Hoje não tem aula de matemática, mãe.

– Ok. Desculpa. Dói, então, quando você abre o livro de geografia?

Sim forte com a cabeça.

– Mas quando abre um gibi não dói nada, confere?

Sim concordando ausência de dor lendo Cebolinha.

– Dói quando tem que copiar algo no caderno?

– Dor insuportável, mãe.

– Mas se tiver que desenhar livremente seus bonecos malucos não dói.

– Justamente.

Enfim, dei o meu diagnóstico para aquela inflação.

– Filho, não temos como, ainda, sair desse sistema. Precisamos dele. Mas pode contar comigo. Entendo a sua dor. Vou tentar aliviá-la sempre. Se hoje você sentir que não vai aguentá-la, eu irei te buscar. Combinado?

– Tá, mãe…

No caminho, ele estava bem cabisbaixo. Comecei a puxar assunto sobre os cards do Pokemon e ele mudou a fisionomia. Coloquei o CD dos Melhores do Mundo. Ele aumentou o som na música “Nada é de brinquedo quando alienígenas ameaçam nossas jujubas”. Cantamos alto.

Ao nos despedirmos, ouvi:

– Já quase não dói mais. Obrigado, mãe.

Mais um dia curando a dor com empatia e poesia…

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Amemos

O amor que faz sofrer
o amor romantizado
que gera dependência física
e o outro enciumado
é uma invenção do ocidente.
Vejamos um outro lado
de um povo mais equilibrado
que medita e equilibra a mente.

O amor se é autêntico,
dizem os budistas,
jamais trará lágrimas ou peso
porque quem te quer bem
não está buscando apego.
O amor se é romântico
tal como no Brasil
é algo bem masoquista
neurótico, psicótico,dramático
não se expressa no silêncio
e sim na euforia
de ter enfim encontrado
dentre brinquedos mil
um motivo de alegria.

A felicidade que conhecemos
(assim, ao menos, aprendemos)
está nas relações amorosas
que nos faz dizer “eu te amo”
quando vivemos horas prazerosas.
Não importa se existe uma razão
para o outro agir de um jeito
mas deixamos de amá-lo
quando não nos damos por satisfeitos.
Percebam quando dissemos:
“gosto quando sou tratada assim”
“não curto quando age assado”…
nosso bem estar é todo auto centrado
somos de nossas sensações um grande escravo
e totalmente cegos para o parceiro.

Ampliando o referencial
indo além de uma visão egoísta e estreita
desenvolvemos mais liberdade
frente a essa prisão tão malfeita
que só gera ansiedade
e que pouco se aproveita
pois o amor tem significados
que permitem outras colheitas

O ser amado não pode estar sob nosso controle
O verdadeiro amor é incondicional
ninguém pode ser nossa fonte de felicidade
pois a transitoriedade de sentimentos
é o que nos há de mais natural!
Então, para que comprometimento
com algo conjectural?

Quando amamos de um jeito oriental
pensamos no que vamos oferecer
e em nada do que temos a ganhar
como vamos fazer a qualidade florescer
no outro e lhe ajudar a transformar?

Ficamos bem atentos e sensíveis as causas que produzem bem e mal estar
não em nós mas em quem estamos a namorar.
Carência, raiva e decepção
não encontram condições para aparição
pois o amor e o carinho pelo outro
só podem ser suscetíveis
se primeiro nos bastarmos
e formos nossos próprios combustíveis.
Alguém aqui foi criado na Índia,
Tailândia, China ou Japão?
Então esquece tudo isso
porque faz nenhum sentido não…
Amor budista é muito bonito
mas inexiste tal qual o gabarito
daquele filósofo Platão

Amor de verdade é amor católico
hiperbólico, sistólico, alcoólico
Amor Umbanda, messiânico, evangélico
anabólico, metafísico, aristotélico
que ao perder o ser amado de vista
a paz vai junto
pois somos bem mecanicistas
Dado a saudade vem o desespero
Dado a ausência choramos de joelhos
Fim do mundo
Porque auto estima não é nada metabólico
em todos nós que somos brasileiros.

Queremos nossa metade da laranja
Queremos a tampa de nossa panela
Queremos ser felizes daquele jeito
Que vemos em todas as novelas…

Portanto, me liga por favor
não me deixe nunca mais
porque você é meu novo amor
a lá Fafa de Belém e Vinicius de Moraes
intenso, enlouquecedor
E eu não vou te esquecer jamais.

 

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Quando o médico nos deixa doentes.


Não chegamos ao fundo do poço ainda. Trago mais e más notícias. E urgentes. A discussão é séria e extremamente grave. 

Peço que leiam com atenção e comentem o que pensam sobre isso. Sempre é muito pior do que imaginamos. Mas, também, sempre dá para melhorar, assim penso.

Hélio Angotti Neto, “professor de Medicina e Coordenador do Curso de Medicina do Centro Universitário do Espírito Santo. Médico formado pela UFES com residência em Oftalmologia e Doutorado em Ciências pela USP. Membro do Comitê de Ética em Pesquisa do UNESC, Diretor da Mirabilia Medicinae, revista especializada em Humanidades Médicas e criador do Seminário de Filosofia Aplicada à Medicina.” 

Enfim, Hélio membro do Comitê de ~Ética~, vale frisar, escreveu um artigo cujo título é:

A REVOLTA CONTRA O QUE POUCO IMPORTA

Nesse texto ele disserta sobre o tema de “um grupo de jovens formandos de medicina, de uma universidade do Espírito Santo que posou sem calças e divulgou a imagem. Uma brincadeira típica daquelas de adolescentes .”

Aff. “Brincadeira”, pela milionésima vez, é quando todos os lados envolvidos se divertem. Se somente um lado ri isso tem outro nome.

Mas vai piorar.  E muito. Hélio faz o artigo direcionado principalmente para os médicos que se posicionaram contra a postura dos meninos que tiraram foto com calça arriada, de jaleco, fazendo um gesto que imita uma vagina e postaram essa foto na rede social com a hashtag #pintonervoso. 

Segundo o Coordenador do Curso de Medicina do Centro Universitário do Espírito Santo, os colegas médicos não deveriam se manifestar em redes sociais porque ferem a Ética Médica. 

“O compartilhamento exagerado em redes sociais não teve nada de discrição. Se algo nos fere em termos éticos, a recomendação é que busquemos fundamentar uma denúncia que deve ser feita discretamente junto ao Conselho Regional de Medicina, não junto ao “conselho” dos grupos de mídia social, potencializando ainda mais o possível escândalo.””

Controverso esse ponto diante tantos relatos de abusos, assédios e estupros cometidos dentro de consultórios, depois que essa foto começou a circular. Podemos interpretar esse pedido como um corporativismo exagerado e covarde. Quiçá criminoso.

Médicos que vieram a público dizer que não concordam com esse tipo de postura e que iam lutar para que esse  comportamento não mais se repetisse abraçaram a nossa revolta e a nossa dor. É isso que, de fato, como pacientes, queremos e precisamos.

Hélio reconhece que houve um erro dos meninos, mas observem como ele aponta isso:

“Do ponto de vista histórico e cultural, eles erraram? Vejamos o que nossos antepassados disseram sobre o excesso nos modos:

10. Para ganhar o paciente você deve evitar adereços exagerados de cabeça e perfumes exóticos. Excesso de estranheza garantirá má reputação, embora uma pequena dose não desqualifique o bom gosto. Assim é com a dor, irrisória quando numa pequena parte, grave quando presente em todo o corpo. No entanto, não desaprovo a tentativa de agradar o paciente, algo que não desmerece a dignidade médica.

Excesso de estranheza garantirá má reputação. Desde Hipócrates já se alertava sobre a manutenção da respeitabilidade e da honra profissional, prescrevendo uma postura de moderação nos costumes.”

Hélio não sabe ou finge não saber que para “ganhar o paciente” basta o médico nos tratar com respeito, olhar nos nossos olhos, mostrar-se preocupado com o ser humano que somos. A roupa e os adereços não são os quesitos mais importantes. Aliás, para muitos, é o que menos importa.

“De tudo, o que posso concluir? Fizeram uma brincadeira típica de adolescentes que seria mal vista até mesmo em tempos antigos. Adolescentes são craques em fazer tais coisas, ou você não se lembra de ter sido um adolescente?”

De novo, o termo ‘brincadeira’. Mas agora ele insiste que os adultos que estão prestes a se formar são adolescentes. Se fossem negros que tivessem fazendo algo tão violento quanto esses formandos, será que Hélio partiria também para defendê-los ou falaria que um moleque de dezesseis anos sabe já muito bem o que está fazendo? Peguei-me perguntando sobre isso…

E ele segue o artigo criticando os médicos que se manifestaram chamando-os de histéricos:

“A histeria causada entre muitos médicos, de todas as idades, frente ao ocorrido me preocupa.”

Vejam bem, o fato de formandos fazerem apologia ao estupro passou para Hélio como uma brincadeira de adolescentes e, para ele, isso sequer era motivo de tanta revolta. Já o mal estar de outros médicos perante este caso fz soar um alarme no Diretor da revista especializada em ~Humanidades~ Médicas.

“Mas o que chama a atenção é a tendência repetida da sociedade brasileira em prestar muita atenção às coisas pequenas e menosprezar fatos e ideias de suma importância.”

Observem como ele prossegue:

“Morrem sete dezenas de milhares de pessoas de forma violenta e intencional por ano. Mais de 70.000 assassinatos! O que as mídias sociais comentam? A morte de um gorila num zoológico estrangeiro ou um bando de rapazolas de calças arriadas.”

A mídia todo dia noticia a morte de mulheres, casos de estupros, a luta das feministas em melhorar a auto estima de quem ouviu a vida toda que a mulher não pode isso não pode aquilo. Mas o professor que forma outros médicos, pareceu cego para essas manchetes ou então as considerou como “coisas pequenas”. 

Preparem o estômago para o final. 

Para chamar a atenção dos médicos que se posicionaram contra o comportamento dos meninos da foto ele, pasmem, nos conta que:

“Nas escolas ocorre uma lavagem cerebral tosca e uma censura velada à discordância ideológica, comprometendo a inteligência e a liberdade de nossas crianças e nossas famílias.”

Apoiador de Escola com Mordaça detected! 

E o que isso te a ver com a discussão? Ele diz que os médicos deveriam estar muito mais preocupados com, só faltou falar, os petistas e esquerdopatas. 

“O que atormenta nossos compatriotas? O médico bobo e desrespeitoso que fez uma brincadeira criticando o paciente que fala errado a palavra pneumonia.”, lamenta.

Aff. De novo a palavra “brincadeira”. Aquilo foi bullying da pior espécie demonstrando um preconceito horroroso de classe vindo de um médico!  E isso para ele não tem a menor importância. Não é estranho?

“Estudantes ligados ao movimento estudantil defendem posturas que atentam contra a dignidade da vida humana como eutanásia, abortamento e suicídio assistido, priorizando uma ideologia potencialmente genocida ao invés de respeitarem os valores clássicos da boa medicina.”

O que seria os “valores clássicos da boa medicina”? Ele vai nos dar uma pista:

“Qual o foco do burburinho escandalizado das frágeis e sensíveis almas que circulam nas redes sociais? Calças arriadas.”

(…)

“Numa sociedade em que a ideologia de gênero distribui material pornográfico para crianças na educação infantil, em que adolescentes no ensino médio são instrumentalizados como bucha de canhão para a revolução que atenta contra toda e qualquer forma de pudor e em que todos são expostos ao material semipornográfico de suspeitíssima qualidade veiculado pelos meios de comunicação em horário nobre, só posso concluir uma coisa: os jovens egressos do curso de medicina fizeram foi pouco!”

Oi? Oi?!!! Onde há esse material pornográfico? Esse discurso eu já ouvi de quem vota em político que tem uma postura fascista quando não do próprio fascista que mentiu sobre esse conteúdo!

“Alguém já viu algumas das manifestações artísticas, políticas e culturais que abundam em nossos cursos superiores de humanas?”

Percebem onde isso vai parar? Percebem como tudo é política? Percebem tudo o que está acontecendo? Afinal, quem faz “doutrinação” são os professores, os poetas e os artistas?!

Vai piorar! 

“Repito, os rapazolas da medicina foram até muito comedidos, quase carolas.”

Difícil acreditar que estamos lendo isso de uma pessoas que leciona sobre Ética…

“O brasileiro, de regra acusa de moralista qualquer um que queira impedir que mães saiam por aí matando seus filhos em seus ventres, mas na prática são de um moralismo insuportável ao perder enorme tempo em picuinhas sobre maus costumes e pequenos desvios de conduta que pouco dano concreto fazem a qualquer um.”

Hélio despreza o que as mulheres passam. Desconsidera o feminicídio, a quantidade de mulheres que morrem em clínicas de aborto, o número de estupros,… tudo isso não é considerado por esse doutor como um dano real. Faltou ele dizer “mimimi” e “vitimismo”. Ou não. Para mim, foi de uma forma explícita, falado. 

“O mínimo que devo esperar de alguém que se revolta contra essa brincadeira imatura é uma revolta muitíssimo maior contra coisas extremamente mais urgentes e graves.”

O que para ele é urgente e grave é o projeto Escola com Mordaça, é calar as feministas, é apoiar a LGBTfobia… 

“Você quer defender a classe médica de verdade? É como um zelote dos bons costumes que você realmente pode fazer algo importante e construtivo? Será que fiscalizar brincadeiras bobas de formatura é a melhor forma de zelar pela dignidade da profissão médica?”

E termina de forma extremamente prepotente se dirigindo aos médicos:

“Quer lutar pela honra e dignidade da classe médica? Já estudou o Código de Ética Médica e já se aprofundou na cultura milenar da medicina e em como ela pode ajudar a restaurar nossa confiabilidade e nossa honra? Já estudou política e filosofia a ponto de compreender como se trabalha a imagem profissional em sociedade?”

Ou seja, se não estudaram ou leram os mesmos livros que ele, calem-se, jumentos! E obedeçam Hélio Angotti Neto! Acho que isso que ele quis dizer.

E, assim, com chave de ouro, finaliza de vez:

“Agora, que todos joguem suas pedras… No alvo certo!”

Quais seriam esse alvos? Feministas? Petistas? Pessoas que são contra políticos que fazem discursos fascistas? Professores que estimulam o debate em sala de aula? Pessoas que lutam para que todos os seres humanos sejam respeitados independente de sua classe social, cor, religião e gênero?

Triste ver uma pessoa tão influente no meio escrever tudo isso. Piorou muito o quadro do “paciente” que somos todos nós. 

Mas o lado bom é que a doença foi descoberta.  Resta-nos saber como nos livramos não somente dos sintomas mas da causa.

Um caminho é a reflexão e o debate, acredito eu.

Comecemos.

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Brincadeira é quando todos se divertem. Isso tem outro nome.


Quando eu tinha dez anos fui ao oftalmologista. Ele apagou as luzes para eu ler as letrinhas iluminadas ali na frente. Com a minha mãe no consultório, ele colocou o pênis dele para fora, me sarrou o braço e forçou a minha mão para mexer nele. Eu não sabia o que fazer. Minha mãe não percebeu nada porque estava olhando para as letrinhas iluminadas. Saí de lá. Não conseguia falar. Fiquei com medo de sabe Deus o quê.

A história se repetiu com um ginecologista que me apalpou de um jeito estranho. Era adolescente e também não soube reagir. Tive medo de novo de contar para alguém e ser criticada porque não fiz nada ou, pior, me culparem por isso.

Daí, vejo essa foto. Futuros médicos fazendo apologia ao estupro da Universidade Vila Velha, ES, com  calça arriada fazendo sinal obsceno com as mãos. Um deles, disseram, postou a foto no perfil com a hashtag #pintonervoso.

E quando afirmamos que todo homem é um estuprador em potencial porque não sabemos de onde pode vir o ataque somos criticadas por generalizar. Entendam: não é sobre você. É sobre como nos sentimos ameaçadas e sem saber quando e em quem confiar até mesmo nos locais que deveriam ser nosso porto seguro, como um consultório em que vamos procurando cuidados.

Que esses “futuros médicos”  jamais sejam médicos. Que a Universidade expulse todos e a sociedade entenda que não mais aceitaremos esse tipo de apologia ao estupro e “brincadeiras” com esse tipo de coisa.

Mais uma vez, brincadeira é quando todos se divertem. Se um lado sente medo, isso tem outro nome. Vê se aprendem de vez.

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O dia em que defendi uma fascista

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Pensei muito se deveria falar sobre isso já que tenho evitado escrever nomes e dar ibope para fascistas. Mas, neste caso, resolvi fazê-lo. E, pior, sair em defesa de uma.

Para quem não sabe, ontem, no Troféu Imprensa, Silvio Santos repreendeu, ainda que em tom de “brincadeira”, Rachel Sheherazade por seus comentários e críticas a políticos em seus programas televisivos. A mocinha em questão é a musa do fascismo midiático.

Sheherazade representa a voz reacionária, conservadora e fundamentalista desse país. Ficou conhecida por usar a bancada no telejornal “SBT Brasil” para reforçar estereótipos e atacar princípios constitucionais como a laicidade do estado e flertar de forma escancarada com o fascismo. A mulher é tão indigesta que até o Sindicato de Jornalistas do Rio de Janeiro já divulgou uma nota de repúdio contra o “jornalismo” que ela pratica.

Enfim, jamais pensei que faria isso, hoje venho defender Sheherazade, pois meu (até ontem) queridíssimo Silvio Santos chamou a atenção dela na entrega do troféu que ela ganhou de melhor jornalista (oh senhor como pode isso!?).

“Você não consegue falar uma frase sem se meter em política? Vai se candidatar a algum cargo? E por que se mete?”, disse Silvio Santos complementando e frisando que o canal dele era de entretenimento.

Fiquei pensando se para falar sobre política tem que ser candidato a alguma coisa. No mais, política é algo tão conectado com tudo que não falar sobre ela é uma forte postura política. Mas continuemos…

Se não fosse pelo tom de chefe ameaçador feito a Sheherazade, vibraria por ele mandar que ela calasse a boca, não emitisse mais opinião alguma e somente desse a notícia. Isso seria um serviço para a humanidade. Mas a minha filosofia de vida não me permitiu uma dose de felicidade ao ver Sheherazade sendo humilhada pelo patrão. Pelo contrário. Luto para que ninguém passe por isso, que nenhum trabalhador seja tratado dessa forma e que todos os seres humanos sejam respeitados. Ontem, Sheherazade e Silvio Santos representaram bem a relação operário-empresário.

Pasmem. O pior não foi isso. Silvio Santos depois de ouvir Sheherazade sem graça dizendo “Mas quando você me chamou foi para dar a minha opinião”, ele respondeu: “Não. Eu te chamei para você continuar com a sua beleza, com a sua voz. Foi para ler as notícias, e não dar a sua opinião. Se quiser dar sua opinião compre uma estação de TV e faça por sua própria conta”.

Sheherazade que dentre tantas coisas absurdas também é contra o feminismo sofreu o que nós, feministas, lutamos para que nenhuma mulher sofra: o eco do patriarcado e o assédio moral. Ouvir que só foi chamada para o cargo por causa de sua beleza e ser proibida de dar a sua opinião é o inferno em que milhões de mulheres no mundo todo vivem.

Doeu. Doeu bem fundo. Porque esse “mexeu com uma, mexeu com todas” é todas mesmo. Até quem faz apologia à violência e fere diariamente os direitos humanos.

Não podemos aceitar esse tipo de discurso mais. Venha de quem for, direcionado para quem quer que seja.

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Sobre a Pobreza e a Democracia

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O ano é 2017. Estamos vendo um novo governo impondo ao povo medidas que claramente vão contribuir para um aumento da desigualdade social. As reformas estão, por exemplo, privatizando bens públicos, mudando as escolas do Ensino Médio de todo o país, alterando Leis Trabalhistas em benefício dos grandes empresários e nos obrigando a trabalhar até a morte. Todas essas mudanças contribuirão para um aumento da pobreza que estava diminuindo em nosso país ainda que de forma bem tímida.

Há quem fale, e eu sou uma delas, que a nossa democracia está sob ameaça. Entendemos quando afirmamos isso que ela é uma forma de resolução das contendas entre os diferentes grupos sociais. Quando se governa para um grupo que está longe de representar a maioria da população por interesses extremamente particulares entendemos que isso não é típico de um regime democrático, pois, a democracia, assim acreditamos, deve se fundamentar na ideia de excluir a humilhação de várias naturezas.

O mundo em que vivemos onde o Mercado manda mais do que Deus que, de fato, parece ter desistido da humanidade dado tudo o que estamos testemunhando, neste mundo a pobreza é considerada como uma falha moral das pessoas. Os (ditos) ricos são ainda capazes de culpar um indivíduo  pela sua situação, chamando-o de preguiçoso, incompetente, vagabundo e mais outras coisas piores. Portanto, dizem que nada mais justo do que deixar os pobres onde estão.

No Brasil especificamente, todos vimos as consequências das políticas sociais implementadas por Lula e continuadas por Dilma. Pessoas, que nunca souberam o que era uma renda mensal, passaram a desfrutar do benefício do Bolsa Família em lugares onde crianças brincavam peladas por falta de roupa e dormiam com fome e morriam de diarreia por falta de dignidade. Negros e negras passaram a entrar nas faculdades não mais para pegar na vassoura ou vestir um avental, mas para segurar um lápis e entrajar jalecos. Os aeroportos, shoppings e outros lugares onde eram frequentados somente por uma elite que usava perfume importado passaram a ser pisados por havaianas.

Houve quem se incomodasse muito com a ascensão de várias classes sociais e estava somente esperando uma desculpa (que veio  com as manifestações de 2013) para colocar todo o ódio para fora. Daí, passamos a testemunhar a força dos esteriótipos nos mais variados ambientes sociais. Os pobres (abaixo vou definir melhor o que vem a ser “pobre”) foram acusados de “mamar nas tetas do governo” e não querer trabalhar, foram acusados de fazer filhos só para ganhar mais dinheiro do Estado e foram acusados de usar dinheiro para comprar roupas de marca (imagina pobre com roupa de marca!, diziam) e cachaça, dentre outras acusações que seguem a mesma linha.

Dialogar com essas pessoas é o que gosto de fazer para tentar entender quem pensa tão diferente de mim. O que observei foi que uma grande maioria não dispunha de informações sobre a “pobreza” dessas pessoas (abaixo essa proposição ficará mais clara) e sobre os programas como o Bolsa Família (por exemplo, valores que são muito abaixo de qualquer salário, que as famílias podiam receber no máximo ajuda para três filhos e que o benefício era dado somente para as mulheres implicando em um aumento da auto-estima sem precedentes em várias regiões do país).

Quando questionei o porquê de tanto preconceito sem fundamento contra uma classe menos beneficiada ouvi que cada um é responsável pela sua posição econômica e que quem quer consegue (vide alguns indivíduos que até aparecem nos jornais, assim me orientaram). Percebi que ao dizerem coisas dessa natureza desconsideravam o fato de que a maioria das pessoas que são ricas já veio de famílias que fazem parte de uma elite e, portanto, não são responsáveis por tudo o que têm. Não é à toa que ao verem uma notícia que quebra a regra como a de um ser que veio da extrema pobreza e consegue “subir na vida” sem ajuda do Estado  eles se regozijam porque reforça o discurso falacioso de que somos aquilo que merecemos ser: ricos ou pobres. Não é também sem motivo ou razão que os programas públicos realizados no Governo Lula que visaram erradicar a pobreza  foram chamados de paternalistas. Por que tanta resistência em apoiar esses programas que, como vimos e noticiados no mundo todo, contribuíram para  diminuir a desigualdade social? De onde vem essa falta de empatia?

Seja lá qual for a origem da falta de capacidade de se colocar no lugar do outro ela vem junto com a ideia de que certos valores devem ser adotados por todos como os únicos possíveis. Mistura tudo isso apontado e temos a tirania ética (tão fácil de verificar nas redes sociais e nas ruas) na qual as pessoas que vivem sob um determinado modelo desprezam, desrespeitam, matam quem pensa diferente. E esse tipo de conduta não tem nada de democrático, pois flerta com o fascismo.

A pobreza tem muitas definições e não me refiro aqui somente aquela que se mede pelos bens materiais que cada indivíduo tem. É algo muito mais profundo, que estrutura o, digamos, espírito. Dentro desse contexto, além de não terem dinheiro, esse pobres são incapazes de enxergar que são vítimas de um arranjo social injusto e por isso se mostram extremamente passivos (quiçá sorridentes elogiando o patrão que lhe explora) e não lutam pelos seus direitos e quando o fazem é por uma causa específica como a morte de uma criança da comunidade ou a privatização da água, mas jamais por mudanças sociais mais gerais que alterariam a estrutura social na qual eles estão inseridos.

Se fossem mais incentivados por quem lhes paga o salário a pensar sobre o assunto, tudo seria diferente. Mas não. A participação deles na política é desencorajada de forma indireta pela elite que faz os pobres acreditarem que eles são dignos de pena, que não sabem pensar, que são fracos. Temos daí, um looping infinito já que a exclusão dos pobres gera um sentimento de baixa auto estima e autoexclusão.

Percebam que há várias atividades gratuitas espalhadas pelo Brasil como museus, exposições, shows, bibliotecas e por aí vai. Até mesmo uma aula de Ioga pode entrar como exemplo. Muitos desses locais não são frequentados e usufruídos por pessoas pobres. Se perguntarem para eles, ouviremos, de uma forma geral, que eles não se sentem pertencedores e merecedores desses espaços ainda que não exista nada aparentemente que os proíba de usá-los. É comum ouvir deles “isso é coisa de rico”, “eu sei qual o meu lugar”.

Há uma herança invisível que é passada de pais para filhos que é um dos verdadeiros privilégios e da qual não nos damos conta que a recebemos. Na infância, meus pais sempre me estimularam a ler, levaram-me ao cinema, ao teatro, conversavam comigo, davam-me brinquedos que estimulavam a minha inteligência. Sem saber, eu estava a anos-luz de distância da maioria das crianças do Brasil. Os estímulos que recebemos na infância vão sendo incorporados de forma inconsciente. Se não pararmos para refletir, a impressão é que o natural seja assim e que todos nascem com isso.

Ledo engano.

O filho do pedreiro e da empregada doméstica, por exemplo, não recebeu todo esse estímulo porque sua miséria não se dá apenas pelo quanto que se carrega na carteira. Como não damos o que não temos, não se ensina aquilo que não se aprende. Ainda que na família pobre tenhamos um pai e uma mãe presentes, o que se transmite é a inadequação social (muito bem mostrado no filme “Que Horas Ela Volta?”) e uma carência de hábitos que estimulem à cognição.

Se muitos espaços públicos gratuitos não são usados por pessoas de baixa renda é porque, em certa medida, a maioria delas sofre o preconceito de ser pobre não somente economicamente falando, mas carente de cognição e, portanto, não se sentem seguros para frequentar determinados locais. Ou seja,  a competição social não começa em uma prova de seleção para uma empresa ou universidade, pois o resultado já está pré-definido por culturas de classe heterogêneas.

E é bom que continue assim, diriam muitos que apoiaram o impeachment de Dilma e que são cegos para o sofrimento alheio. Aliás, esses tentam minimizar ao máximo o sofrimento dos pobres – como vimos no episódio da foto de dois manifestantes vestindo a blusa da CBF com a mulher levando o cachorro sendo acompanhados pela babá de branco que empurrava um carrinho com uma criança. Não faltou gente que vibrou de alegria quando a babá disse que estava feliz com seu emprego.

O sentimento de satisfação ao ver um empregado elogiar o patrão está diretamente conectado ao preconceito de que pobre não sabe usar o dinheiro e o corpo já que bebe e faz filho precocemente. Atribuem ao pobre um baixo valor moral e racional, mas não enxergam que a imoralidade e a irracionalidade das elites que contribuem para o aumento ou, na melhor das hipóteses, para a manutenção da pobreza e do sofrimento dos menos abastados são considerados um padrão ético de qualidade. Explico-me: se há uma festa em uma cobertura em Ipanema cujos participantes fazem sexo entre eles, estamos dentro da famosa libertação sexual. É bonito. É bacana, diriam. Se os convidados consumirem drogas, não há nada de alarmante e feio nisso assim como se, entre eles, houver quem pratique a sonegação fiscal não será considerado um criminoso. Mas tenhamos isso em uma laje na Rocinha e todo o julgamento será bem diferente.

As pessoas não percebem que os valores que carregam não são absolutos e sim fruto de uma história e de uma educação. O pobre que recebe uma bolsa seja ela para estudar seja para comer é considerado um parasita, um preguiçoso. Mas o rico que desfruta dos rendimentos financeiros não é julgado da mesma forma, pelo contrário. A este são concedidos mais isenções e incentivos fiscais, perdões de dívidas e anistia para sonegadores, citando poucos exemplos.

A pobreza carrega também, em grande parte, a dificuldade de argumentação e persuasão. Fruto da dominação e exploração as quais são submetidas é esse impedimento de uma habilidade retórica que é fundamental para exercer plenamente a cidadania. Os pobres são, de forma consciente e inconsciente, emudecidos. O que estou querendo dizer é que a pobreza não é só privação de bens materiais, mas também de voz pois essa é ouvida por aqueles que têm capacidade para se expressar. A pobreza faz as pessoas mais pobres.

Esse sistema econômico tão elogiado por muitos que dele se beneficiam pois é fundamentado na ideia de liberdade e autonomia do indivíduo produz, vejam que interessante, justamente o oposto: a perda de liberdade para uma grande parte da população. Considero essa “perda” de ricos e pobres porque muito dinheiro implica grandes responsabilidades que, por sua vez, implica um certo tipo de escravidão que se não for bem administrada gera depressão, ansiedade, alcoolismo e outras doenças comuns que atingem todos independente de quanto se tenha no banco.

Diante tudo isso, digo que em 2017 há uma clara ameaça à Democracia porque existe na atualidade um explícito incentivo ao aumento da pobreza por parte de quem está no comando. Democrático seria um governo que criasse condições para que a população pudesse participar de forma justa e igualitária de seja lá o que for. A realização desse tipo de sociedade cabe às instituições políticas, em primeira instância. Ao indivíduo, a cada cidadão que se diz defensor da democracia, cabe, por obrigação, apoiar medidas que venham contribuir de forma eficaz para tal finalidade.

Lembrando que a pobreza é diminuída não somente em termos de bens materiais mas, principalmente, quando houver espaços públicos frequentados por pessoas de todos os gêneros, de todos os credos e de todas as cores sem medo de estar em um lugar do qual elas não fazem parte.

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Babá de branco. Argh!

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Comentei que acho um absurdo levar a babá vestida de branco no shopping e em outros lugares como na praia, por exemplo, e recebi uma crítica daquelas.

– Médico também se veste de branco, há vários outros empregados que usam uniforme…

– Jura que você acha a mesma coisa? Penso que funcionários de empresas utilizam uniformes como forma de identificação e para promover a empresa. Babás usam uniforme para mostrar quem é a serviçal e dar status para a mandame. Me lembra muito aquelas mucamas. Ainda mais que em grande parte as babás são negras e a patroinha é branca… mas posso estar delirando…

– Ah está sim. É um emprego como qualquer outro.

– Jura que você acha isso? Não vejo ninguém sonhando em ser empregada doméstica… Não acho que não seja digno, acho que é muito resquício de escravidão isso sim. No Japão, por exemplo, esse “trabalho digno” quase não existe.

– Vejo muitas babás bem felizes e até elogiando o tratamento que os patrões lhes dão.

– Ah sim. Normal isso. Mas vale observar que o passarinho canta e agradece a quem lhe dá comida na gaiola porque não conhece a mata… Muitas pessoas de baixa renda sequer entendem as condições em que vivem. Acham que é natural ser pobre e ser explorado e que a vida é assim mesmo.

– Mas não é assim mesmo?

– Não. Pode ser tudo diferente. Mas posso estar delirando…

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