Equilátera amorosa

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Em matéria de amor e sexo, as possibilidades são infinitas e por mais que eu me ache espertinha no assunto sempre me surpreendo.

Vou colocar pseudônimos para não expor as pessoas que conheci há pouco. Isso posto, essa é a história de Joana, Fernanda e Ludmila que praticam um triângulo amoroso equilátero que jamais imaginei que existisse.

Comecei a pensar sobre um projeto interessante. Para tanto, precisava de três mulheres adultas que quisessem aprender a andar de skate. Por um caminho que não interessa mencionar aqui, marquei uma reunião em um café com Ludmila e ela levou junto Joana e Fernanda. Aqui começa uma história que nem sei se darei conta de contar. 

Como sempre, vou tentar.

Joana é a mais nova. Vamos começar por ela. É jornalista e fotógrafa de um jornal importante. Tem 34 anos e contou para mim que nunca se interessou por homens na vida. Ela é do tipo modelo-big-size mega advanced plus empoderada. Super delicada, cílios longos, alta, imponente na postura e no olhar. Fala pelos cotovelos e sabe narrar histórias que nunca vi igual.

Fernanda é a mais velha das três. Está com a minha idade, 46 anos. Já foi casada, tem dois filhos que estão na faculdade. Disse que nunca na vida tinha pensado que se apaixonaria por uma mulher, ainda mais por duas. Confessou que teve lá suas vontades de transar, quando casada ainda, com uma mulher para sentir a diferença, ver se era melhor, como muitas dizem, experimentar pelo menos, sabe como é, disse ela. Fernanda é doutora em sociologia política e professora de uma universidade particular. Tem uma retórica que meu deus…

Ludmila acabou de fazer 40 anos. A mais agitada das três. Se tivesse oportunidade de transar com uma delas, seria ela de longe a minha favorita. A conversa com elas me fez ter esse tipo de pensamento embora nenhuma das três estivesse aberta para ir para cama com mais ninguém. Que fique claro, nem eu estou procurando nada e muito menos disponível. Sigo apaixonada e vivendo um grande amor. Mas o papo foi tão louco que, preciso confessar, saí do foco por alguns segundos.

Ludmila é escritora. Trabalha com livros infantis com uma pegada progressista e alerta sobre possibilidades de abusos na infância. Discute a questão de gênero com maestria. Muitos de seus livros são usados em escolas para discutir a questão da família e de preconceitos. Sabe andar de patins, mas não anda. Sabe pedalar, mas não pedala. E queria aprender andar de skate. Ela foi o meu primeiro contato. Disse que eu caí do céu com esse projeto cujo nome é skatias (esqueitias). Skates para mulheres acima de 40 anos. Coisas que brotam da minha cabeça do nada.

Primeiro Joana se apaixonou por Fernanda. Joana foi fazer uma matéria, precisou de uma consultoria e chegou até o nome da doutora no assunto. Joana disse que não teve outra opção a não ser se apaixonar loucamente. Fernanda é inteligentíssima, tem os cabelos grisalhos mais lindos que já vi e uma força no discurso que, de fato, impressiona. 

Joana arrumou várias outras desculpas para conversar com Fernanda que sempre se mostrou muito solícita. Numa tarde, ao se despedirem na sala em que Fernanda trabalha na Universidade, Joana deu-lhe um beijo molhado que Fernanda, inicialmente assustada e cheia de freios, foi mandando toda sua formação conservadora às favas. Entregou sua boca para Joana e se permitiu ter o melhor primeiro beijo de sua vida.

Depois disso, Joana, que morava sozinha em um apartamento na Tijuca de dois quartos, convidou Fernanda para conhecê-lo. Mandou uma mensagem carinhosa dizendo que sabia cozinhar e se Fernanda estava a fim de experimentar a comida dela. Ok. Também não achei lá muito original a cantada, mas Fernanda já estava enlouquecida por Joana e, mesmo se não tivesse janta, ela iria.

Fernanda me disse que foi uma das coisas mais libertadoras que ela já viveu na vida. Joana fez com que Fernanda redescobrisse seu corpo. Numa técnica que domina, Joana fez – veja bem, meninas – Fernanda aprender o que é squirt.

Confesso aqui que fiquei super sem graça quando começaram a me contar isso porque sequer tinha ouvido falar sobre essa palavra na vida. Fernanda, percebendo meu desconcerto, veio ao meu socorro dizendo que até ir para a cama com Joana também não sabia o que era aquilo. Fernanda me acalmou dizendo que não é um super orgasmo. Trata-se “apenas” uma ejaculação feminina que nem toda mulher consegue e que não melhorou nem piorou seu prazer depois que ela vivenciou seu squirt. Porém, óbvio, o fenômeno lhe fez entender muito mais sobre o seu corpo.

Amém. Estou perdendo alguma coisa mas nada de desespero, Elika, relaxa.

Daí que Fernanda ficou louca por Joana. Ela que tinha se separado e há um ano estava morando com seus pais, arrumou sua mala e partiu morar com Joana que lhe aceitou de braços e pernas abertas. Para a família, Fernanda disse que ia morar com uma amiga e, claro, ninguém desconfiou de nada nem seus filhos superprafrentex e defensores de pautas identitárias.

E onde era a maluquinha da Ludmila?

Pois então. A filha de Fernanda está fazendo psicologia e convidou a mãe para assistir com ela uma palestra de uma escritora que tratava de um tema super delicado como a pedofilia e escrevia sobre isso para crianças.

Fernanda foi. Quando viu Ludmila quis apresentá-la para Joana fazer uma matéria no jornal sobre ela e dar luz a esse tema.

E agora a história dá uma virada e tanto, gente do céu, foco aqui agora.

Fernanda pegou os contatos passados pela própria Ludmila ao final da palestra. Mandou um e-mail inicialmente para sondar o interesse. Ludmila respondeu bonitinha e bem polida o convite. Marcaram de se encontrar no Museu da República, próximo do apartamento em que Ludmila morava no Catete.

E assim aconteceu o primeiro encontro das três. Joana começou a entrevistar Ludmila e Fernanda se pegou, de repente, olhando para as duas como se as duas fossem uma só. Emergiu dali, entre Joana e Ludmila uma terceira alma, digamos assim.

Fernanda tentou conter seus pensamentos porque estava se julgando depravada demais depois que se juntou com Joana. Já basta o relacionamento que tem com Joana…, pensava tentando se conter. O que ela não sabia era que, enquanto conversava com Ludmila, Joana também olhou para as duas assustadas e com a mesma sensação. O papo entre as Fernanda e Ludmila fluiu demais. Joana até pensou que seria melhor gravar as duas conversando do que ela, a jornalista, entrevistar a escritora Ludmila. Estava agradável a ponto de exalar beleza.

Há flores em qualquer sintonia, sabemos disso.

E o que nem Joana nem Fernanda sabiam era que Ludmila também percebeu as duas com uma unicidade inerente. E por esse uno que transcende de muitos casais, Ludmila se encantou.

Terminada a entrevista, Joana e Fernanda se despediram de Ludmila como o mesmo sentimento daqueles que não fazem uma viagem dos sonhos por falta de dinheiro.

Joana editou a entrevista, mostrou para Fernanda que leu a matéria pensando em algo para acrescentar. A matéria estava perfeita como todas da danada de Joana. Não sem motivo, Joana anda se destacando em um dos maiores jornais do Brasil.

O texto poderia ter sido enviado por e-mail para aprovação de Ludmila. Joana, no entanto, de uma forma intuitiva como agem os apaixonados, perguntou se não era melhor fazer a revisão pessoalmente. Ludmila aceitou prontamente. Disse que daria uma palestra em uma escola ali na Tijuca tal dia. Joana pegou a deixa e perguntou se Ludmila aceitaria tomar um café na casa delas.

E daí, gente, aconteceu uma coisa muito interessante nesse mundo. Continua comigo aqui que a história ainda não terminou.

Quando Ludmila entrou, Fernanda e Joana,  que não tinham tocado no assunto-delírio-da-minha-cabeça uma com a outra por acharem que era uma bobagem dessas que todas as pessoas têm quando olham para uma pessoa linda lambendo um sorvete, Fernanda e Joana estavam olhando para Ludmila como os girassóis piscam para uma estrela.

Houve uma tensão no ar do tipo que que se dá com muitos sorrisos, passadas de mão no cabelo, olhares que vão para além do corpo, ajeitadas de brincos, gargalhadas altas… Quer ficar para janta, Ludmila? Ah não quero incomodar. Imagina, Fernanda adora cozinhar e hoje é dia de vinho.

A conversa, claro, tinha ido muito além da pauta. Ludmila se sentiu à vontade para falar sobre outros assuntos e de sua vida pessoal. Tinha sido casada por três anos, tem um filho de 12 anos que mora com o pai em São Paulo. Ela e o pai de Felipe são super amigos. Depois disso, nunca conseguiu se relacionar de forma mais séria com ninguém. Seja homem seja mulher. Ludmila escancarou sua bissexualidade como aquelas que retocam a maquiagem em local público.

Na primeira taça de vinho, Joana beijou Fernanda sabendo que Ludmila estava olhando. Quando terminou o beijo, chamou Ludmila para mais perto das duas e aconteceu o famoso beijo triplo.

Nenhuma das três jamais tinham feito um ménage e, por incrível que pareça, como já disse acima, nenhuma das três se sentia em um mènage à trois e sim à deux.

Vou tentar explicar.

A primeira transa delas se deu de um jeito que não tinha, de fato, como se sentir diferente. Digo, uma com duas. Sei lá se estou conseguindo elucidar o que elas me passaram.

A cada momento, duas tomavam a iniciativa em se dedicar a dar prazer extremo a uma delas e essa uma experimentava, para além do tesão jamais sentido, a sensação de abraçar um universo.

Apesar das horas imersas em seus fluidos, como as possibilidades são infinitas, o tempo  que tiveram naquela noite foi muito curto para tantas descobertas.

Joana, Fernanda e Ludmila, hoje, moram juntas em um apartamento em Botafogo. Cada uma tem um quarto e é muito difícil acontecer de duas delas irem para cama juntas. Afinal, cada uma se apaixonou pelo que emerge das outras duas juntas, compreende? Quando Joana está com Fernanda é muito bom, mas quando Joana vê Fernanda e Ludmila conversando parece que Joana está vendo a queima de fogos no reveillon. Quando Ludmila está com Joana é muito agradável para elas. Mas se Fernanda chega, o deleite vai para um outro patamar.

Nenhuma das três acha que encontrará isso em mais nenhum outro lugar do mundo. Joana, Fernanda e Ludmila não querem mais ninguém e nem se interessam em outras configurações porque nem chegaram perto de esgotar as possibilidades entre elas que já estão juntas há quase dois anos. O triângulo jamais se tornará outra figura geométrica. Foi o que ouvi, de uma forma diferente, de cada uma delas.

Os filhos de Fernanda e de Ludmila, por uma decisão delas, ainda não sabem os detalhes dessa história. É tudo muito bonito, mas tem coisas que precisam ter um certo preparo antes de serem apresentadas porque podem causar estranhamento. Uma pessoa que está acostumada a ouvir somente rock, por exemplo, pode achar lindo um samba de Cartola. Mas a possibilidade de haver uma rejeição inicial por uma questão de hábito tem que ser considerada. E qualquer forma de amor requer cuidado.

Eu vi as três juntas. Por algum motivo que nem sei explicar, o papo foi de skate para esse babado todo. Fiquei como ficam aqueles que olham pela primeira vez o mar. A sensação era que aquilo era lindo e grande demais.

Para variar, sempre que me deparo com algo que me assusta pela ordem de grandeza, quis apresentá-las para vocês. Joana, Ludmila e Fernanda me comprovaram, pela milionésima vez, que não há mesmo fórmula para o amor.

O amor é um tipo de estado emotivo e nada do que sentimos cabe dentro de uma equação matemática. Nem mesmo nós temos acesso à química suscitada em nossas veias. Quando percebemos, estamos sentindo algo que foge ao nosso controle. Seja fome seja qualquer outra vontade.

Para finalizar, Joana, Ludmila e Fernanda, em algum lugar extenso do passado, já tinham um ideal, para elas, do que seria o amor. O que elas têm hoje nem de longe um dia chegaram a cogitar.

Amor, acima de tudo – aprendi olhando Joana, Ludmila e Fernanda –  é algo que não combina com explicações. E o amar acontece quando deixamos fluir o nosso surpreender.

Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa

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Eu não professo nenhuma religião. No entanto, sinto dor quando leio notícias sobre casos de intolerância religiosa no Brasil. Tenho lido muita coisa sobre o assunto e hoje de manhã, no Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa, acompanhei os debates do III Seminário de Liberdade Religiosa e Direitos Humanos, promovido pelo CEAP no Centro Cultural da Justiça Federal.

Gostaria de compartilhar algumas coisas que ando aprendendo e outras que já sabia e que acho que sejam interessantes colocá-las aqui neste dia.

O Brasil é um dos países com maior diversidade religiosa no mundo. São muitas manifestações e cultos praticados no Brasil que perdemos de vista, embora o censo tenha como base apenas os grupos principais.

Não gosto de citar números, mas acho que vale mencioná-los aqui para a gente ter uma melhor noção sobre o tema. Estima-se que 60% da nossa população seja católica e 30% evangélica. Os outros 10% seriam divididos entre demais religiões e indivíduos sem religião ou sistema de crença.

Foco agora:

As religiões de matriz africana e afro-brasileiras representam menos de 1% da população, no entanto, este grupo é vítima de 59% dos crimes de intolerância religiosa, registrados no país.

Sempre bom saber o porquê do dia 21 de janeiro ter sido o escolhido como Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa. O motivo da escolha da data se deu por um grave ataque de intolerância ocorrido na Bahia em 1999 quando a Folha Universal, periódico de alcance nacional, com distribuição em massa promovida pela Igreja Universal do Reino de Deus, publicou uma matéria mentirosa com a foto de Mãe Gilda de Ogum na primeira capa com o título: “Macumbeiros charlatões lesam o bolso e a vida dos clientes”.

Mãe Gilda era Yalorixá, cargo popularmente conhecido como “Mãe de Santo” de um terreiro de candomblé na Bahia. Após a veiculação da notícia caluniosa, Mãe Gilda teve seu terreiro invadido e depredado por fundamentalistas influenciados pela matéria da Folha Universal.

O caminho judicial não foi fácil e só em 2009 a justiça condenou em definitivo a Igreja Universal a pagar indenização e publicar uma matéria de desagravo à Mãe Gilda que a esta altura não estava mais viva.

Mãe Gilda veio a falecer no dia 21 de janeiro de 2000 vítima de um infarto provocado pela série de transtornos e desgostos causados pela calúnia que sofrera.

Gosto de lembrar que foi Lula que em 2007 sancionou a Lei 11.635 que estabelece o dia 21 de janeiro como Dia Nacional de combate à intolerância religiosa.

Nos governos do PT, as políticas de combate à intolerância foram fortalecidas através da Fundação Palmares e do desenvolvimento do Plano Nacional do Desenvolvimento Sustentável dos Povos Tradicionais de Matriz Africana.

Discurso um pouco diferente dos atuais governantes, não?

Outra vitória importante dos movimentos sociais foi a criação do Disque 100 como canal de denúncia contra crimes de intolerância religiosa que, desde 2011, vem recebendo notícias de todo Brasil com relação a ataques de intolerância contra qualquer manifestação religiosa.

Os números, neste caso, não necessariamente representam a realidade dos fatos, uma vez que a sociedade é complexa. No caso dos terreiros, muitos casos não são denunciados por falta de informação sobre direitos ou mesmo por conta do silenciamento das vítimas, sobretudo quando o ataque parte de setores do tráfico.

Para se ter uma noção, em 2011, quando o serviço começou, o número de denúncias foi de apenas 15, saltando para 109 no ano seguinte e 231 em 2013. No ano passado, 2019, este número ultrapassou de 500 e sempre, em sua ampla maioria, as vítimas são as mesmas: as religiões de matriz africana.

Não basta que o Estado seja laico em aparência ou na forma da lei. O direito à liberdade religiosa está estabelecido em nossa Constituição. Mas, na prática, como temos visto, isso não tem acontecido.

A garantia da liberdade religiosa em um país tão diverso como o Brasil deveria ser um dos marcos fundamentais de política pública, pois a intolerância religiosa no Brasil tem endereço certo e está profundamente ligada ao racismo estrutural de nossa sociedade.

O Estado Brasileiro já perseguiu as religiões de matriz africanas por considerá-las inferiores, assim como a Igreja Católica em determinado momento de nossa História também o fez. Hoje os algozes são as igrejas neopentecostais fundamentalistas.

No Rio de Janeiro, especificamente, o quadro é a ainda pior. O fenômeno de igrejas neopentecostais fundamentalistas enraizadas em comunidades e os discursos de ódio promovidos em presídios na forma de assistência espiritual produziu um elemento peculiar conhecido como o “tráfico de Jesus”.

Obviamente o movimento acima citado não condiz com o comportamento da maioria de evangélicos e nem mesmo com a filosofia pregada por Jesus. A questão é que o discurso fundamentalista entre os mais pobres têm feito com que o poder paralelo se volte contra os terreiros estabelecidos nas comunidades e com isso a perseguição ganha contornos ainda mais sérios, de modo que em 2018 foi fundada no Rio a Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância Religiosa.

A Intolerância Religiosa no Brasil está longe de acabar. E, aqui, cabe uma obervação: precisamos afirmar que não queremos que as minorias religiosas, em especial as de matriz africana, sejam  somente “toleradas”.

Almejamos muito mais do que isso.

Elas têm o direito de serem respeitadas e coexistirem em harmonia com todo e qualquer sistema de crença ou não crença neste país.

Nosso primeiro diálogo

Eu e Yuki, meu caçula de 13 anos, estamos aprendendo libras juntos. A vontade de conversar na língua de sinais é muita mas o nosso vocabulário é muito limitado.

Hoje fui deixá-lo na casa do pai. 

Andando na rua, ele me cutucou, apontou uma loja e fez os sinais:

Ter tudo. Precisar não.

Achei muito bonitinho a ousadia de se comunicar sabendo meia dúzia de palavras.

Daí eu respondi: 

Mãe filho eu você andar. Carro não. Andar.

Ele morreu de rir e:

Carro sim.  Eu preguiça. 

Gargalhei porque fiquei emocionada vendo Yuki conseguindo se expressar na língua de sinais e me enchendo o saco em libras.

Abre parêntese.

Vale observar: em libras, a gramática é bem diferente do português. Além disso, não há tempos verbais. Há sinais que indicam se a ação se dá no passado ou no futuro. 

Fecha parêntese.

Respondi com cara de mãe:

Você doente tv. Andar bom saúde.

Ele:

Saúde. Eu ter. Você ter também. Eu querer videogame agora.

Dá-lhe risada…

Logo depois, vi a vitrine de uma livraria e falei: 

Comprar comprar comprar. 

Fiz os sinais bem intensificados porque aprendi a ser superlativa em libras também. Ele caiu na gargalhada e falou:

Você casa perto pai casa perto. Eu andar. Mãe. Pai. Eu filho andar.

Eu disse:

Você filho preguiça. Livro bom quero quero quero.

Ele:

Eu andar casa pai filho mãe andar família juntos feliz.

Rimos alto e as pessoas em volta nos olhavam atentas. Certamente julgando que estávamos falando algo muito engraçado.

Havia apenas dois seres humanos lidando com muitas limitações e se deleitando em tentar superá-las.

Assim, caminhando devagar, deixei Yuki na casa do pai.

Contei isso aqui porque considerei o que aconteceu hoje o primeiro diálogo que tive com alguém em libras.

E esse tipo de felicidade ah eu acho que vale registrar.

Obrigada por dividi-la comigo.

Eu e Yuki, meu caçula de 13 anos, estamos aprendendo libras juntos. A vontade de conversar na língua de sinais é muita mas o nosso vocabulário é muito limitado. O bom é que as nossas vontades também são parcas.

Hoje fui deixá-lo na casa do pai.

Andando na rua, ele me cutucou, apontou uma loja e fez os sinais:

Ter tudo. Precisar não.

Achei muito bonitinho a ousadia de se comunicar sabendo meia dúzia de palavras.

Daí eu respondi:

Mãe filho eu você andar. Carro não. Andar.

Ele morreu de rir e:

Carro sim. Eu preguiça.

Gargalhei porque fiquei emocionada vendo Yuki conseguindo se expressar na língua de sinais e me enchendo o saco em libras.

Abre parêntese.

Vale observar: em libras, a gramática é bem diferente do português. Além disso, não há tempos verbais. Há sinais que indicam se a ação se dá no passado ou no futuro.

Fecha parêntese.

Respondi com cara de mãe:

Você doente tv. Andar bom saúde.

Ele:

Saúde. Eu ter. Você ter também. Eu querer videogame agora.

Dá-lhe risada…

Logo depois, vi a vitrine de uma livraria e falei:

Comprar comprar comprar.

Fiz os sinais bem intensificados porque aprendi a ser superlativa em libras também.

Ele caiu na gargalhada e falou:

Você casa perto pai casa perto. Eu andar. Mãe. Pai. Eu filho andar.

Eu disse:

Você filho preguiça. Livro bom quero quero quero.

Ele:

Eu andar casa pai filho mãe andar família juntos feliz.

Rimos alto e as pessoas em volta nos olhavam atentas. Certamente julgando que estávamos falando algo muito engraçado.

Havia apenas dois seres humanos lidando com muitas limitações e se deleitando em tentar superá-las.

Assim, caminhando devagar como devem fazer os que aprendem, deixei Yuki na casa do pai.

Contei isso aqui porque considerei o que aconteceu hoje o primeiro diálogo que tive com alguém em libras.

E esse tipo de felicidade ah eu acho que vale registrar.

Obrigada por me permitir dividi-la com você.

Medusa Suburbana

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Foto: Pipo

Veja se a vida tem sentido:

Em tempos de censura, um grupo super bacana de artistas teve uma música retirada de uma rede social. Eu, que já tinha ouvido a canção por compartilhamentos de terceiros, lamentei profundamente assim como me aflijo, por exemplo, com o ministro da Educação falando mal de Paulo Freire e pela quantidade de pessoas dormindo nas ruas.

Lucas Bueno, Paulo Cesar feital e Nina Wirtti fizeram um CD chamado “lágrimas” que – como poderia explicar… – não tem músicas e sim hinos de resistência basicamente. É de chorar ao sentir tanta força (dessas que vemos somente nessa coisa mágica que chamamos por aí de Arte). Pelas redes, não se ouvia mais nada deles dado nosso Estado de Exceção.

Teve um show de lançamento do CD no Teatro Rival, aqui no Rio de Janeiro. Vi o público – que lotou a casa – aplaudindo o trio de pé por minutos. Saí do teatro emocionada como aqueles que sentem na pele muitas dores como da saudade de Marielle e dos tempos que víamos a desigualdade social diminuir.

Adquiri o CD na hora.

Enfim, virei fã e dependente química de Lucas, Paulo e Nina.

E teria acabado a história aí se o mundo fosse um lugar desinteressante de viver.

Um dia desses comuns em que Bolsonaro relincha aos sete ventos, eu resolvi não compartilhar as alucinações dessa galera e sim dividir uma sabedoria milenar. Isso posto, falei de manteiga e expliquei para quem quisesse me ouvir que se você colocar um pouquinho de água filtrada na temperatura normal em cima de qualquer manteiga dura, você consegue passá-la no pão com toda facilidade. Ela fica cremosa, macia e a água não se mistura com a manteiga. Depois é só jogar a água que fica no pote fora.

E teria morrido aí também essa outra história se o mundo fosse somente um lugar divertido de viver.

Mas ele é muito mais do que isso.

Lucas Bueno comentou nessa postagem que eu havia mudado a vida dele. Disse-me que estava eternamente grato e que não sabia nem como me agradecer. Eu, que não me enxergo, respondi assim que li: faça uma música para mim e estamos quites. Falei desse jeito como aqueles que jogam na mega sena e entendem muito bem de probabilidades.

Compreendi, hoje, que somando as loucuras é que se vive fascinantemente. Já havia entendido mais ou menos, mas hoje, especificamente, enxerguei melhor essa equação.

Dias depois, veja você, recebi a música que nem título tinha:

“Te vi na trincheira
Rara flor de Madureira
E quando me olhou
Foi apogeu
Medusa Suburbana
Com ares de Havana
Seus olhos puxados
Não me tornaram pedra
Mas uma ideia

Empoderada
Professora, Aquariana
Que não crê nos astros nem em Deus
Mas crê piamente
Nos artistas, nas suas manas
Em “NarayukiHideo”

Se Paulo Freire é seu griô
E Marielle é sua Orixá
Me sinto à vontade pra cantar o amor
Ninguém vai nos censurar
Pode negar os beijos meus
Mas por favor não solte a minha mão
Eu amo andar contigo assim na contramão
Pois eu encontrei na luta seu coração.”

Agora você vê. Provocar o outro é a única salvação individual que conheço: não estaremos jamais perdidos se jogarmos sementes e recebermos água em troca.

Eu ensinei o cara a passar manteiga no pão e ele vai e muda a configuração do universo para me agradecer. Concluo que Lucas Bueno é a pessoa que mais gosta de pão com manteiga no mundo. Não há outra explicação.

A responsabilidade do título dessa obra linda ficou por minha conta. Batizei de Medusa Suburbana porque… bem… ela já nasceu batizada.

A gravação foi feita hoje em um dos melhores estúdios aqui no Rio. Mas a história ainda não acabou porque a história, pelo fato do mundo ser tão provocativo, a história não acaba nunca, meu deus.

Sou ateia, como está na letra feita por Lucas. Mas tenho amado acima de todas as coisas e apesar de tantas coisas. Tenho visto o infinito conforme permito que devaneios entrem pelas minhas frestas e não sinta vergonha de fazê-los sair em forma de ideias vacilantes.

Ao ver tamanha beleza, pedi permissão para fazer um clipe e, em breve, teremos essa lindeza cantada até mesmo para as pessoas surdas de todo Brasil. Tenho estudado libras diariamente e tenho a pretensão de, no fim da vida, dizer que fiz desse mundo tão árido o melhor lugar para a gente ensaiar um grande espetáculo.

Meu tempo é sempre escasso porque aprender me consome muito e compartilhar tudo o que vejo foi a maneira mais emocionante que encontrei de existir.

Obrigada, Lucas e todos vocês, por aceitarem o pão (com manteiga) que ofereço.

Era uma vez no meu banheiro…

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Ontem, último dia de 2019, eu e Pipo passamos a tarde e parte da noite vendo filmes. O último tinha sido Era uma vez em… Hollywood de Quentin Tarantino. O filme é tão bom que ainda vou fazer um texto sobre ele e contar para vocês algumas observações que me ocorreram. A cena do Brad Pitt e Leonardo di Caprio fazendo uma chacina num grupo de hippies foi antológica. Há um momento em que Di Caprio usa um lança chamas para acabar de matar uma pessoa que estava na piscina toda ferida que é algo memorável que mexe com coisas dentro da gente.

Mas aconteceu algo aqui que tomei como prioridade e não tem nada a ver com o filme.

Lá pelas tantas da noite, deu vontade de fazer parte do mundo e resolvemos sair para ver os fogos ali no Aterro.

– Vou tomar banho, falei como falam todos quando vão tomar banho e tem mais gente em casa.

Fui.

Feliz que estava, abri o chuveiro cantando, ensaboei-me rebolando o popozão, saí do box como a Beyoncé entrando no palco, peguei a toalha e me enrolei nela como a Pablo Vittar num vestido longo.

Mal saí pela porta do banheiro, senti algo estranho incomodado e me espetando.

Levantei parte da toalha, passei a mão e peguei… argh! uma barata.

Abre parênteses

Eu tenho pavor de qualquer inseto, mas besouros e baratas causam muito mais do que pânico em mim. Perco o controle e sou sim capaz de sair correndo pelada pelos corredores de um prédio ou, como já aconteceu sem maiores prejuízos físicos, de um carro em movimento.

Pipo já viu o quanto eu padeço com eles.

Fecha parênteses

Pipo estava ainda sentado no sofá, mas ao ouvir minha gritaria veio rápido, como se estivesse galopando em um cavalo de um filme de western, ver o que estava acontecendo.

Eu gritava pelada e apontava a nojenta, asquerosa, nauseante, porca, bolsominian barata que estava já na parede enquanto pisoteava a toalha arremessada no chão.

Na tela,  em plano fechado, há uma mulher gritando. O vídeo não tem som. Só vemos a expressão de terror da coitada aos berros em slow motion puxando os cabelos que estão começando a ficar grisalhos.

A nossa gata que deveria ter vindo imediatamente se escondeu debaixo da poltrona assustada com a gritaria, o escarcéu, a inferneira e a grulhada que tomou conta de um lar que, outrora, seguia super em paz.

Pipo aparece em cena. Pediu para eu tomar distância com um sinal feito com a boca e o queixo somente.

Pipo pegou rápido um tapete no chão, jogou na nojosa, capturou o bicho ascoso, correu para outro banheiro e jogou a barata no vaso. 

Eu corri para o chuveiro de novo.

Vi, de repente, um clarão entrar pela porta.

Pensei que fossem fogos.

Vi outro.

– Pipo?

Na tela agora, Pipo está no banheiro dos fundos. A câmera está em linha reta com a nuca dele de forma que vemos o mocinho olhando a barata que está meio tonta se afogando porque ele tinha acabado de dar um jab, um cruzado e um direto nela por cima do pano.

A câmera agora está de novo em um plano fechado.

Pipo está puto porque sua amada estava feliz e não merecia esse trauma.

Plano fechadíssimo nos olhos do Pipo que se contraem de ódio e visualiza uma ideia.

Pipo toma uma decisão.

Sai correndo se apoiando pelas paredes de casa e derrapando nas curvas.

Eu estou me lavando com esponja de aço e veja limpeza pesada tentando arrancar meu coro debaixo do chuveiro.

Movimentos bruscos da minha mão direita esfregando meu braço esquerdo em plano detalhe na tela.

Corta para o Pipo de novo.

Ele pega um isqueiro e um spray multiuso wd40 que usamos para tirar ferrugem de nossas bicicletas e que é altamente inflamável.

Pipo volta na velocidade da luz para o vaso onde está a hedionda imergindo naquela água com as pernas para cima.

Pipo acende o isqueiro e lança o spray do wd40 em direção à imunda passando pela flama do pequeno acendedor de fogo.

Gente do céu que Pipo fez um maçarico.

Primeiro clarão.

Eu paro o que estou fazendo e olho para o teto tentando entender.

Segundo clarão.

Não entendo e fico assustada. Não ouço barulho de fogos e sim algo que parece um furacão dançando como um boneco de posto.

Vuuushshsvvuuuuuuoooooooo

Terceiro clarão.

– Pipo?

Saio do chuveiro sem pegar toalha nenhuma porque estou traumatizada.

Encontro-me nua, molhada e arranhada de bucha com Pipo cheio de fuligem preta no rosto limpando o suor da testa no meio do corredor.

– Essa não volta mais. Te garanto, meu amor.

Rimos muito. Nos abraçamos e tive que tomar mais um banho.

Em plano americano, está nós dois de branco e de costas olhando a queima de fogos na praia. A tela vai se fechando e abaixando. Perto de nosso pés descalços, uma maria farinha, uma espécie de caranguejo branco de areia, se aproxima de meus pés sem que percebamos.

Barulho de fogos com a tela toda escura.

 

Aprendemos na aula de hoje que…

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Hoje fui andar de skate com o Pipo no Aterro do Flamengo. Estamos, a despeito de morarmos juntos há um ano, naquela fase (que eu espero que dure para sempre) que a gente está se conhecendo.

Hoje, particularmente, nesta linda tarde de Sol, levei um susto com o fato de Pipo ter se mostrado um pessoa completamente ignorante, irresponsável e sem noção. Guardei para mim toda essa impressão porque sou dessas de carregar as dores em silêncio.

Estávamos parados no sinal de uma avenida super movimentada. Tinha gente andando pelas calçadas e muita criança animada com os pais em nossa volta. De repente, passou bem na nossa frente um homem andando de patinete na rua praticamente no meio dos carros carregando um bebê num tipo de bolsa canguru.

Meu instinto materno veio com tudo em forma de julgamento e indignação.

– Que perigo! Onde já se viu expor a criança assim! Ela pode se machucar feio! Que gente irresponsável! Tinha que ter prova para saber se podia ser pai nesse mundo! Onde já se viu! Coitada da criança! Que perigo!

Pipo imediatamente discordou de tudo.

– Amor, isso foi feito para carregar criança, não tem como se machucar…

– Se o adulto cair, vai cair por cima da criança que está na frente, Pipo! E apontei para o cara que já tinha sumido.

Pipo nem me olhava. Ele estava ansioso para atravessar a rua como se vidas de bebês não importassem. O sinal abriu e ele foi atravessando puxando a minha mão.

– Não tem como cair, amor. O brinquedo é estável. Deixa disso. A criança está segura. Vai por mim. Vamos. Abriu.

Engoli a seco. Não vou discutir com maluco que não vê perigo num bebê andando de patinete no colo do pai no meio de uma avenida, gente. Queria relaxar nessa tarde de Domingo, fazer exercício, tomar água de coco sem estresse, sem notícias, sem celular…

Andamos de skate, tirei foto dele, vimos árvores bonitas, as nuvens avermelhadas ao fundo e sentimos a brisa de fim de tarde.

Mas a coisa ruim estava ali. Guardada nos porões de onde produzimos de forma natural um tipo de tabaco para nossos pulmões.

Uma pena esse homem lindo ter essa indiferença sem tamanho com todos os bebês deste planeta, pensava como aquelas pessoas gripadas que comem um doce sem sentir o gosto.

Agorinha, veja, vocês, já com a Lua e Vênus no céu, a gente estava sentado na grama tomando uma água de coco. Pipo me apontou um bebê sentadinho em um triciclo que estava sendo empurrado por uma alça (que faz parte do brinquedo) pelo adulto que o estava acompanhando.

– Ali, amor, observe. O brinquedo é todo protegido. Tem uma frente grande. É estável. Não tem como a criança cair ali não. – explicou ele todo cheio de calma.

– Ali não tem né. Mas e em um patinete no colo do pai andando junto com os carros na rua? – perguntei balançando a cabeça como um sino e com o queixo mole pendurado.

– Onde cê viu isso, amor? Que absurdo! disse Pipo assustado.

Pois então, gente…

Por achar que todo mundo enxerga com os meus olhos, quase fiz um estrago num diamante aqui. Um professor de história um dia me disse que grandes guerras acontecem sempre por falta de diálogo.

Aprendi hoje que as grandes guerras são também aquelas que travamos dentro da gente.

A história que queria lhes contar

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Nem sei como começar a contar essa história porque não sabemos quando as histórias nascem e, caso procuremos uma cadeia causal vendo a vida (que é algo tão difuso, complexo e cíclico) como linear, teremos que começar pelo Gênesis.

Ainda assim, vou tentar.

E vou fazer mais, vou ser precisa.

Tudo começou no dia 19 de Abril de 2019.

A história é tão louca que vou dividir em capítulos para ver se consigo mostrar o quão imprevisível é esse negócio chamado encontro e quão poderoso é esse outro negócio chamado reencontro.

Capítulo 1: Seu Carlos e Michelle

Mudei-me há um ano para o Largo do Machado e, por aqui, como em muitos lugares do Brasil, vemos muitas pessoas fazendo a calçada de cama. Pelo fato de andar mais pelas ruas e ajudar no que consigo essa população vulnerável, já conheço pelo nome muitas pessoas que não têm onde morar e algumas de suas histórias.

Na noite do dia 19 de Abril deste ano, ao voltar para casa, depois de ter levado meu irmão até a porta do metrô, vi Seu Carlos e, como sempre, falei com ele. Mas esta noite especificamente, eu e ele estávamos a fim de conversa e ficamos mais de uma hora numa prosa sem fim.

Seu Carlos sempre me chamou a atenção pelo seu talento. É um artesão de mão cheia. Usa folhas velhas de jornais e revistas para fazer bandejas, pratos, cachepôs, … tudo com um cuidado danado como aqueles que não têm pressa.

Naquela noite, soube de uma grande parte da história dele. A nossa troca me sensibilizou muito e fiz o que faço quando fico emocionada: escrevo e compartilho com quem quiser me ouvir.

O texto foi postado no Facebook e dizia assim:

Esse é seu Carlos. Ele tem dormido na rua como tantas pessoas que temos visto. Seu Carlos já foi pescador. Hoje está com a perna quebrada (sem gesso e atrofiando porque não consegue usá-la) e cheio de artrite. Mas diz que não consegue ficar parado porque “cabeça vazia moradia do cão”, como ele disse.

Seu Carlos é um artesão. Faz coisas lindas usando revista velha. Todas as vezes que passo ali perto da Praça do Largo do Machado, lá está ele tricotando papel. Passa um dentro do outro e vai tecendo cachepôs, caixas, baús e muitos pensamentos. Tudo isso com o braço meio torto e sem uma posição boa para sentar.

Eu quis ajudar. Perguntei a seu Carlos o que ele queria muito no momento. Ele disse que era uma perna nova. Rimos os dois por fora como aqueles que ganham um presente indesejado.

Daí ele disse que se comprassem o que ele fazia já ajudava bem. Comprei algumas coisas e deixo aqui umas fotos do trabalho dele. Quem quiser, ele está por ali nos arredores da Praça perto da Igreja.

Seu Carlos mandou avisar a todos vocês que, se alguém quiser, ele ensina de graça e com prazer.

Está hoje por ali no Largo do Machado porque foi expulso das ruas do Leblon. A polícia pegou todo o material do seu Carlos e disse para ele sumir para sempre.

Não sei quanto tempo ele ficará onde está e muito menos como vou conseguir dormir depois de ter ficado tanto tempo olhando no fundo dos olhos deste Brasil.

 A seguir, postei essa foto:

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E milhares de seguidores e seguidoras curtiram e comentaram. Mas uma, em especial, por um motivo que me escapa, resolveu mudar a vida de Seu Carlos. Essa era a intenção.

Michelle acabou mudando a vida de mais de 40 pessoas.

Menos a do Seu Carlos.

Capítulo 2: Juramento de Hipócrates

Michelle assim que viu a postagem, recém operada, tomou uma decisão. Toda trabalhada no juramento de Hipócrates, saiu de Copacabana para ver a perna do seu Carlos. Queria porque queria internar seu Carlos num hospital, tirar seu Carlos da rua, arrumar um lar para seu Carlos, ajeitar os documentos dele, colocá-lo cadastrado em uma feirinha de artesanato e mais um tanto de coisa que não dei conta nem de ler.

Michelle, no dia seguinte, me mandou uma mensagem pedindo para que eu me encontrasse com ela ali “no Seu Carlos” para a gente se conhecer e ver o que faríamos por ele. “Leva um Isaac”, me pediu se referindo ao meu livro Isaac no Mundo das Partículas.

Na minha cabeça e no meu universo que tem o tamanho de uma uva passa, tudo o que eu poderia fazer pelo seu Carlos havia feito e fiquei meio assustada com a animação da moça que sequer conhecia.

Mas não sou de negar chamado de gente animada.

Desci com Isaac para ver Michelle de perto com a curiosidade daqueles que vão conhecer um templo.

Michelle estava com a filha, com disposição e com esparadrapo no nariz e com pontos na região dos seios. Com um lenço, secava a coriza vermelha que saía das narinas. Falava sem parar. Tinha planos para seu Carlos e me contou como faríamos para tocá-los adiante. Eu a olhava e a ouvia como fazem aqueles que chegam atrasados na aula de cálculo.

Com a delicadeza de quem arranca uma flor, expliquei para a danada da Michelle que não poderia pedir dinheiro para vaquinha já que me tornei uma “pessoa pública” e recebo inúmeras mensagens de pessoas me pedindo algum tipo de ajuda por dia. Disse que não entendo nada de hospital, nem de perna, nem de documento e que não saberia como ajudar mais do que havia feito. Estava sendo sincera. Sou limitada e extremamente perdida.

Michelle não me ouviu assim como fazem meus filhos. Juntou mais uma advogada que comentou na minha postagem e criou um grupo no whatsapp chamado “Grupo do Cláudio” e começou a falar lá um monte de coisas que a gente tinha que fazer.

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As duas foram tocando o barco. Conseguiram, enfim, tirar seu Carlos daquela calçada,. Ela estava super feliz até que…

Capítulo 3: Oi, Elika. Não trago boas notícias.

No dia 14 de Maio acordei e fiz que fazemos até mesmo antes de abrirmos os dois olhos. Verifiquei as mensagens no celular. Qual foi minha surpresa, Michelle estava cuspindo marimbondos e só não chamava seu Carlos de bonito.

Começou assim:

Oi, Elika. Não trago boas notícias.

Michelle estava com raiva e desanimada com o mundo.

Seu Carlos que foi para uma “hospedaria administrada por chilenos que o receberam com todo carinho teve uma discussão com uma hóspede e mesmo sem ter sido convidado a se retirar em momento algum, porque estavam honrando o acertado comigo, saiu e sem dar satisfação alguma não mais voltou para a hospedaria. Regressou às ruas, ao mesmo local e a Renata ao encontrá-lo gravou o áudio que segue na sequência com ele repetindo que não gosta “dessa raça” de japoneses e chilenos.”

No áudio, seu Carlos xingava todo mundo. Mandava todo mundo enfiar tudo no famoso orifício. Falava de um pão que não quiseram dar a ele, mandava o chileno enfiar o pão na busanfa, reclamava que não pediu nada a ninguém, mandava enfiar o material que Michelle arrumou para ele fazer os artesanatos no buraco da Renata…

olha… que áudio, minha gente, que aúdio…

Michelle devolveu o dinheiro que havia arrecadado da vaquinha para as pessoas e estava indignada como ficamos diante de uma ingratidão.

Ela era um misto de raiva, abatimento, desalento, desesperança e prostração assim como ficam aqueles que acabaram de sofrer um assalto.

Eu, que até aquele momento havia me colocado como observadora, resolvi escrever algo no grupo.

Calma, Michelle.

Capítulo 4: Calma, Michelle.

Vou reproduzir aqui parte do que falei para ela:

As pessoas são muito complexas. A pobreza não se resume a não ter dinheiro mas também a uma carência de troca de experiências e amor.

Não o julgue. Não fique chateada. Seu Carlos não fez porque é ruim e até mesmo o preconceito (neste caso, em relação aos chilenos e japoneses) é carência de outros estímulos.

As histórias de cada pessoa que carrega sofrimentos são muito diferentes de quem sempre teve família, casa e recebeu amor.

Quem não tem sequer família certa não pode ser comparado com quem teve muita coisa nessa vida. Cada ser humano é um universo limitado pelos nossos pretéritos imperfeitos.

[…]

Como disse, Michelle, o ser humano é muito complexo. Não sabemos os gatilhos que nos fazem melhorar. Mas entendi – com o que já testemunhei por aí – que dinheiro nem sempre resolve a situação.

Não é para ficar triste e nem desanimada. Já vi pessoas carentes roubando quem lhes ajudava. Não guardei ódio. Não sei que ser humano seria se eu (não) tivesse recebido o mesmo.

Você deu o melhor de você e é isso que sempre importa. Se ele não correspondeu, paciência.  Não raro, acontece isso com uma amizade e  com um companheiro. A gente faz e não tem o feed back.

Porque não é assim mesmo que funciona a vida. A simetria de sentimentos não é a regra. Expectativas e realidades são coisas muito distintas.

Volto a dizer, a pobreza é super complexa. Quem dera fosse só dar oportunidade, dinheiro e casa… Quem dera. Quem dera a miséria se resolvesse com dinheiro. Somos, em vários sentidos, Michelle, também miseráveis.

Com esse episódio, temos só motivos para ficar felizes. Foi uma oportunidade de crescermos, nos conhecermos e fazermos o bem à nossa maneira, do jeito que sabemos. Se ele não se sentiu bem, ele carrega lá suas histórias.

Não é culpa dele.

Nem nossa.

Nem de ninguém.

Perdoem, seu Carlos. Não estou dizendo para ajudá-lo de novo, mas para não guardar mágoa.

A gente não está na pele dele e não conseguiremos jamais entender o que ele sentiu com a nossa intervenção.

Saber o que cada um precisa e como melhorar o mundo para as pessoas é o grande desafio de cada dia.

Só para terminar, vou dar dois exemplos que me vieram à cabeça agora:

Havia uma comunidade. Alto índice de criminalidade. Pessoas brigavam por tudo ali. Energia péssima. Um grupo de artistas que anda por aí resolveu “pintar” a região. Com o tempo, as pessoas começaram a ver cores e se voluntariar para pintar também. A comunidade ficou toda colorida e o índice de criminalidade diminuiu drasticamente ali. Quem poderia adivinhar que o efeito seria esse?! Como assim era só pintar? Pois é.

Outra: uma escola em outra comunidade. Crianças brigavam muito. Ninguém prestava atenção em aula alguma. Professores em surto. Daí chegou um cara que sabia meditar. Resolveu colocar todo mundo para meditar vinte minutos assim que chegasse. A escola mudou da água para o vinho.

O que leva as pessoas a enxergarem o amor? Tinta? Respiração? Jamais sabemos…

Temos que fazer a nossa parte. E só. Sem esperar jamais nada em troca. Seja do seu Carlos, do marido e dos filhos.

Você é ótima. Estou muito feliz por ter te conhecido. Parabéns por tudo!

Bola para frente.

Escrevi tudo isso assim que acordei. Nunca mais teve nenhuma interação no grupo.

Agora começa a história que queria lhes contar.

Capítulo 5: A história que queria lhes contar

Michelle, eu soube muito depois, mais precisamente no dia 19 de dezembro, se emocionou com o que eu havia escrito. Não quero aqui dizer que fui eu quem “mudei” Michelle. Longe disso. Desde o início, quis deixar claro que havia uma pessoa animada em ajudar outras pessoas. A minha postagem mostrando Seu Carlos foi um estímulo mas se não fosse ela, seria outra coisa. Quando queremos mudar o mundo e a nós mesmos, qualquer folha caindo pode ser o estopim dentro da gente para uma grande metamorfose, ou seja, quando queremos transmutar é porque já estamos transformados.

Michelle não desistiu do mundo. Amém. Entendeu que ser grato não é obrigação e sim um privilégio.

Pasmem, com o texto que escrevi, Michelle pegou algumas frases e fez as primeiras camisas de um projeto grandioso não somente pelo número de pessoas assistidas mas por ele ter nascido.

O mais difícil de tudo é sempre começar. Por isso, há muita coisa que já nasce gigante mesmo vindo de uma semente pequenina.

Michelle iniciou as vendas das camisas e, com o dinheiro arrecadado mais as histórias que tem ouvido das pessoas que estão dormindo nas ruas, Michelle já conseguiu que 42 pessoas voltassem para o seu lar. Muitas pessoas que vemos pelas ruas vieram de outras cidades, de outros Estados, estão por aqui porque não têm dinheiro para voltar.

Michelle conseguiu fazer vários reencontros com os familiares.

Hoje, há um site que tem tudo organizado:

http://www.devoltaaolar.com.br

Mais as páginas nas redes onde são compartilhadas alegrias:

https://www.facebook.com/devoltaaolarprojetosocial/

https://www.instagram.com/devoltaaolarprojetosocial/

Todos o recurso que se arrecada é revertido imediatamente para a causa. Aqui se faz todo o trabalho de pesquisa da vida do acolhido, contato com familiares, custeiam a viagem e fazem o acompanhamento da chegada. Tudo isso é sempre narrado para quem quiser acompanhar.

Essa é a história que queria contar para vocês.

Há várias dentro dela, percebem?

Não dá para ficar feliz com tudo o que foi narrado porque caridade não traz felicidade e muito menos conforto. Pelo contrário, traz angústias porque encaramos de frente a inapetência do poder público e a injustiça. Porém, essa inquietude no peito é um tipo de motor.

Não lhes contei tudo isso por vaidade, ou vá lá, talvez um pouco. Fiquei feliz em ter conseguido ter calma e escrito o texto para Michelle no dia em que ela estava desanimada. Não gosto de ver energia boa dizimada por aí.

A necessidade de compartilhar essa história também não é pela surpresa que tive ao ter reencontrado Michelle, de ter ganhado uma camisa e ela ter me dito: é de sua autoria essa frase!

–  Ôxi  jura, Michelle?

– Você nem sabe o quanto de histórias tenho para lhe contar, Elika.

A ânsia de deixar tudo isso registrado nos detalhes vem da vontade de apresentar esse projeto tão bacana e ter constatado mais uma vez que a beleza não é coisa que se vê e sim que se semeia sem fantasias.

Já dizia o poeta: A vida é a arte do encontro embora haja tantos desencontros nessa vida.

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Em tempo, seu Carlos segue no mesmo lugar e continua conversando muito animado com quem por ali freia para ouvi-lo e queira conhecer seu artesanato. Fica feliz quando compramos algo dele.

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Repetindo:

http://www.devoltaaolar.com.br

https://www.facebook.com/devoltaaolarprojetosocial/

https://www.instagram.com/devoltaaolarprojetosocial/