Ano passado eu morri, mas em 2022 eu não morro.

Último dia do ano. Gostaria, antes de qualquer coisa, de agradecer a vocês pela companhia. Tem sido um dos piores momentos da nossa história. Estamos lidando com um vírus e com um verme ao mesmo tempo.

Assim como em 2020, em 2021, eu escrevi muito pouco e li menos ainda. A ansiedade é inimiga da literatura. Neste final de ano, resolvi encarar isso. Vejam vocês, até ler virou uma forma de resistência. Consegui, agora em Dezembro, ler 5 livros que vieram para minha mão autografados e dados como presente por gente querida. Já me sinto bem mais forte porque, para além do conteúdo adquirido, venci a mim mesma. Bem se sabe o quanto os nossos monstros internos são poderosos.

Ainda assim, tem sido muito difícil. Não tem como esquecer que temos um presidente que durante três anos, em nenhum momento, seja na pandemia, seja em desastres ou tragédias humanitárias, seja em qualquer situação que signifique prestar solidariedade à vida humana tenha feito qualquer gesto. É muito difícil viver em um país cujo presidente não demonstra nenhum sentimento em relação à dor do próximo e seja contra vacinar nossas crianças.

O Sul da Bahia e outras regiões do Brasil pedem socorro. Milhares de pessoas estão sem casas, municípios desapareceram, crianças, pessoas idosas sentindo frio e fome e, sabendo disso tudo, Bolsonaro faz questão de mostrar como está curtindo suas férias em um jet-ski e brincando de carrinho em um parque de diversões. Eu não estou inventando isso. Ele próprio faz questão de mostrar isso em suas redes.

Bolsonaro não nega – verbalmente e em gestos como esses – o seu imenso desprezo às vidas das camadas populares. Por quê? Porque o seu eleitorado-raiz exige isso dele. Não são a maioria, mas são muito barulhentos e, meodeos, como irritam…

Já falei por aqui que tenho um certo ranço da palavra “resistência”. Como professora de física falo sempre na “força de resistência” e explico que ela é sempre menor ou igual à força que provoca o movimento. Sei que a conotação social é outra, mas tenho” memória desafetiva” com essa palavra. E fomos, em certa medida, durante esses três anos condenados a reagir. Quando nos atacam, seja verbalmente seja com uma pedra, usamos nossa energia para a defesa, nossas mãos para protegerem o nosso rosto e isso impossibilita qualquer possibilidade de fazer outra coisa como segurar um livro ou escrever, por exemplo.

Estivemos durante esse tempo com nossa mente e nossas mãos ocupadas defendendo professores e professoras, profissionais de saúde, mulheres, indígenas, pretos e pretas, defendendo o direito à vacina, o direito de amar quem quiser, o direito de ser quem quiser. Chegamos a exaustão de tanto falar o óbvio.

Resistir não quero mais. Existir será meu verbo. Já dizia em plena campanha de 2018…

Para tanto, ou seja, para agir, é necessário entender uma coisa: o quanto o ódio nos mobiliza (ao mesmo tempo que nos paralisa) e por que precisamos evitá-lo.

Primeiramente, saber que somos reféns e estamos somente reagindo é um começo.
Entender que estamos sendo manipulados é um caminho para sairmos dessa prisão. Bolsonaro não está brincando de carrinho no Beto Carrero enquanto milhares de pessoas estão desabrigadas porque é um perverso “apenas”. É estratégico gerar esse ódio porque enquanto falamos mal dele especificamente não atacamos seu programa econômico, seus projetos inexistentes para os reais problemas do nosso país e, principalmente, não nos organizamos internamente como deveríamos.

O modelo que propõem já foi visto na história: é o de um povo etnicamente puro. Por isso, eles apelam diariamente para o perigo de múltiplas religiões e culturas diferentes. Elas devem ser vigiadas e perseguidas para que não “contaminem” a identidade do povo puro e “cristão”.

Daí vem essa obsessão em relação a pureza nas artes, na política, nas escolas, nas casas, nas igrejas… “Pureza” aqui está sendo usado como sinônimo de homogeneidade, ou seja, exclusão efetiva da diversidade. E bem se sabe o quanto isso é impossível até mesmo entre duas pessoas, quanto mais em uma sociedade.

Para conseguir esse impossível, eles avançam nos irritando porque enquanto odiamos, não pensamos direito.

Uma democracia comporta muito bem pensamentos divergentes, religiões diversas e múltiplas culturas, desde que sejam estabelecidas diretrizes seculares para todas as pessoas. É necessário explicar isso para o maior número de pessoas: divergência de ideias e de credos não pressupõe desarmonia. É possível viver respeitando o diferente.

O que estou querendo dizer é que esse ódio que sentimos e a reprodução que fazemos das falas perversas de Bolsonaro e seus pares fazem parte do projeto deste governo que é normalizar todo esse ódio pelo tanto que o repetimos.

Ficamos mais frios, mais burros, mais apáticos porque fomos manipulados por esse ódio e passamos, de um jeito ou de outro, a normalizá-lo.

Para 2022, devemos, com todas as nossas forças, desde o primeiro dia, assumir com firmeza a luta contra o neofascismo, denunciando e explicando o perigo que ele nos representa sem, contudo, fazer propaganda para eles.

A luta é infinita mesmo. A História está aí para mostrar que não estou delirando. Por isso, não podemos nos dar o luxo de dizer que cansamos ou desistimos. Tudo, ao final, se resume ao que você fez com a sua vida: ajudou os mais vulneráveis ou fingiu que eles não existem?

O futuro é agora e os outros somos nós mesmos. A responsabilidade é de cada pessoa neste minuto. Para partirmos para o coletivo, precisamos ter essa consciência individualmente.

Para nos curarmos desse ódio (que, de fato, nos adoece), precisamos nos lembrar sempre de que somos maioria e só o que nos falta é um pouco de organização. Não somente nas redes. Falo, principalmente, nas que exigem a presença, o corpo, o olhar e o sorriso mesmo que seja por trás de uma máscara.

Não há nada que eles temem mais do que pessoas que se unem. Por isso, debocham sempre quando vamos para as ruas ou tentam nos colocar medo para que fiquemos em casa e não nos mobilizemos.

Antes de terminar, uma observação: de março a dezembro de 2021, nada menos que 23 decisões judiciais inocentaram o presidente Lula ou anularam processos forjados contra ele e seus familiares.

Lula trabalhou neste ano com a disposição de um presidente decente. Conversou com grandes lideranças pelo mundo e, principalmente, aqui dentro. Foi convidado para dar palestras por várias universidades, enquanto, o máximo que o Bolsonaro conseguiu foi participar do programa do Ratinho.

Eu sei que não tem comparação, mas é sempre bom lembrar que estamos prestes a ter Lula de volta e do quão gigante ele é.

Mais uma vez, muito obrigada por terem ficado por aqui e compartilhando minhas dores, minhas tímidas alegrias no meio de tanto luto e meus devaneios.

Parafraseando Belchior, ano passado eu morri, mas em 2022 eu não morro.

Desejo a vocês um presidente que se sensibilize com a fome e um congresso que nos represente.

Desejo a vocês um país melhor e saibam que estou na linha de frente desta luta. Contem comigo porque estou contando com vocês.

Que neste ano que está chegando, o Brasil volte a ser de todas as pessoas.

Feliz 2022, gente!

“Você é a Elika?”

Vim passar o Natal em Brasília com o Pipo que não vejo há um mês. Assim que entrei no avião, me ajeitei e comecei a ler, uma comissária de bordo veio falar comigo.

“Você é a Elika?”

Levei um susto. Acho estranho ser reconhecida por aí. Sempre que isso acontece me sinto a Beyoncé de Madureira. Tenho a sensação de que meus cabelos ficam esvoaçantes e me vejo nas alturas que é onde eu estava mesmo.

Disse que sim, sou eu.

Daí, ela ficou muito feliz e eu com aquele misto de sentimentos que tinham um tanto de perplexidade, felicidade e muito de reflexão vendo alguém estar tão feliz em me ver. Seja lá o que for, imediatamente a reação foi abraçar como fazemos com as grandes amigas que encontramos por aí.

Ela disse que me lê sempre. Parou um pouco e me perguntou o que eu estava lendo.

Abre parêntese:

Uma vez, fui entrevistada por uma mulher linda e mega inteligente chamada Gaia e ela me fez uma pergunta:

“Qual a pergunta que nunca te fizeram e você gostaria que tivessem feito?”

Sempre senti muita falta das pessoas perguntarem o que estou lendo. Quando estamos com um livro, sempre tem uma história para contar de como aquele livro chegou nas nossas mãos e como está sendo a nossa interação com o conteúdo.

As pessoas perguntam por que diabos não pinto mais meu cabelo, mas não estão nem aí com o que leio. Haja. Aliás, resolvi ficar mais natural possível depois que li um livro.

É como disse Einstein: “A mente que se abre a uma nova ideia jamais volta ao tamanho normal”.

Fecha parêntese.

Falei sobre o livro (queria ter falado mais, mas o avião é um lugar estranho para ter esse tipo de conversa no corredor). Depois, tiramos fotos, ela disse que sempre votou em mim, que a família toda fechou sempre comigo, que vai votar em mim de novo e que adora o que escrevo. Agradeceu por tudo que não tenho exatamente ideia do que seja.

Seguiu o voo.

Eu estava sentada lá atrás de forma que fui uma das últimas a sair do avião. Estava doida para me despedir da comissária que me lê. Assim que passei pelo meio da aeronave, lá estava minha amiga dando tchau feliz. Não pensei duas vezes. Abracei forte e era a vez de eu devolver tanto carinho.

Falei no seu ouvido:

“Amiga, muito obrigada. Estaremos para sempre juntas. Lula vai vencer e teremos um país muito melhor. Conte comigo para o que precisar.”

Me afastei um pouco. Coloquei a mão nos seus ombros e olhando bem nos olhos dela que estavam acima de uma máscara PFF2 como a minha, falei:

“Amei voar com você!”

E taquei-lhe um outro abraço emocionada como fazem aqueles que se despendem de uma pessoa querida.

Fiz o L de Lula com a mão discreta colada no peito esquerdo e segui caminhando em direção à cabine do piloto (que é por onde a gente sai).

Lá na porta da saída quem encontro?

A comissária que veio falar comigo assim que decolamos e estava ali esperando para se despedir de mim.

De máscara, cabelo preso e uniforme não consegui identificar que a outra no meio do avião em pé dando tchau agradecendo feliz para todo mundo que saía não era a minha amiga, gente.

E, desse jeito, cheguei em Brasília.

PEC do Calote

Alô, Brasil. Teve episódio do House of Paranauê de madrugada! A Câmara aprovou o texto-base da PEC dos Precatórios em primeiro turno, por 312 votos a 144.

A proposta recebeu somente quatro votos a mais que os necessários (308) para aprovação de uma emenda à Constituição. Ou seja, foi uma vitória apertadíssima para eles.

Para quem não sabe o que é precatório, de forma resumida, é um documento que comprova a dívida que o Poder Público tem com uma pessoa ou uma empresa.

“Como assim?”

Vou dar um exemplo real.

Alguns Estados e municípios moveram ações contra a União por discordâncias nos repasses dos fundos educacionais.

A galera foi lá, analisou as reclamações e pá. Viram que, de fato, estavam repassando dinheiro a menos para os fundos – como o Fundef que era o Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e de Valorização do Magistério.

“Daí o que faz? Paga assim na hora?”

Não. Não é assim porque dinheiro público não é bagunça. Pelo menos, não deveria ser.

Há urgências que precisam ser analisadas e, por isso, temos o precatório que garante que a dívida será paga.

E há, obviamente, um prazo para isso.

Neste caso específico do meu exemplo real, os recursos oriundos das decisões judiciais eram para pagar a remuneração de profissionais da educação básica e despesas com manutenção e desenvolvimento da educação, como aquisição de material didático-escolar e conservação das instalações das escolas.

Daí, vocês viram que Bolsonaro acabou com o Bolsa Familia que, em sua essência, não tinha data para terminar, né?

No seu lugar, colocaram algo que ninguém entende direito como será, mas que tem data certa para terminar que é no ano que vem, ano de eleições presidenciais. Assim nasceu o Auxílio Brasil que cumpre uma função nobre de ajudar quem precisa, mas com um objetivo altamente eleitoreiro.

Como disse, o Esmola Brasil, ops, o Auxílio Brasil é um programa sem pé nem cabeça e eles começaram a dizer que não sabiam de onde iam tirar o dinheiro para o que tinham inventado.

Quando há uma situação de urgência como essa no país (neste caso, a fome), nossas leis permitem a abertura de um crédito extraordinário. Não seria a primeira e nem a última vez que isso aconteceria.

Mas o que fizeram? Uma emenda à Constituição conhecida vulgarmente como PEC dos precatórios que nada mais é do que uma PEC do calote.

Disseram que para pagar o auxílio tinham que esquecer os precatórios.

“E quem estava esperando o dinheiro, como os professores?”

Que esperassem sentados assim como outros que acreditaram que um documento neste Brasil – como a promessa de pagamento da dívida assinada pelo Poder Público – valesse alguma coisa.

“E como tanta gente votou a favor disso?”

Muitos deputados receberam várias emendas como moedas. Emendas, neste caso, quer dizer muito dinheiro. Então, para votar pelo calote, eles receberam essas emendas. Ou seja, todo mundo pensando em eleições 2022, conseguem perceber?

“Mas que emendas são essas?”

Rá. “Emendas secretas”. Foi assim mesmo, pasmem, que elas foram chamadas.

“E deputados que não estavam lá e não podiam votar de acordo com as regras?”

Muito fácil para o presidente da Câmara, Arthur Lira, resolver essa. Ele numa canetada modificou ali na hora o regimento interno e passou a ser permitido que parlamentares em missão oficial pudessem votar remotamente. Até assessor de deputado podia votar. Foi uma festa daquelas.

Depois de hoje, se tiver parlamentar no Japão, na China e na Conchinchina pode votar porque aqui, mermão, aqui é Brasil.

Eu diria que foi uma das maiores cenas de corrupção a olhos vistos – para quem não dorme neste país já que toda essa história foi pela madrugada.

Se você entendeu que tudo não passa de um calote em professor para comprar deputado, você está compreendendo bem até aqui.

“E o teto dos gastos que a direita criou que deixou a Educação e a Saúde super vulneráveis dizendo que era hiper necessário o teto para o Brasil não acabar?”

Foi furado para garantir esse auxílio até 2022.

“Mas e aquele papo de “responsabilidade fiscal”?”

Pois é. Como dissemos, e cansamos de repetir, era mentira.

Se você ainda está em dúvida se isso é bom ou ruim, vou tentar ajudar: o tal “Deus mercado” ficou muito feliz.

“Por quê?”

Aparentemente, porque não se importa com calote da dívida pública e sim com o mercado.

“E por que isso vai beneficiar o mercado?”

Porque esse negócio de precatório se vende fácil.

“Como assim?”

Suponha que você tenha um precatório de 30 mil que está para receber no final de 2022 e está precisando muito de dinheiro. Daí, tem gente que fica atenta a isso e já te oferece 20 mil pelo seu precatório.

E estamos falando, só de dívida com o antigo Fundef, de 16 bilhões, ok? Tá ligado no que estou dizendo?

Se você entendeu que eles falaram que queriam proteger os mais pobres e deram um calote nos precatórios, presenteando deputados com as ‘emendas secretas’ para fazer um programa mequetrefe que será aplicado somente durante o ano eleitoral, você entendeu bem até aqui.

Agora, então, você consegue me responder:

É a fome de quem que eles querem matar com isso?

“Nem terminou a marmita”

Li, há tempos, o livro “O Último Trem de Hiroshima” de Charles Pellegrino. Qualquer relato sobre a bomba atômica que conte como a população civil foi alvejada é por demais inesquecível. Neste livro, Pellegrino ouviu vários sobreviventes e registrou suas histórias. 

Há diversas imagens que jamais sairão da minha lembrança narradas por quem testemunhou ou sobreviveu a tanta dor. Uma cena, porém, volta com mais frequência tamanha é a estranheza, a intensidade e a realidade do gesto descrito.

Foi o caso de uma mãe que, sabendo da tragédia de que a bomba tinha sido lançada, correu sobrevivente, depois da explosão, em direção à escola para achar seu filho. 

Encontrou-o morto pelo caminho. 

Queimado. 

Antes de chorar, a mãe checou a lancheira de seu filho para ver se ele tinha se alimentado e, vendo-a vazia, sentiu-se consolada por milissegundos.

No mês passado, aconteceu uma história parecida, mas com outro cenário. A mãe de Gabriel Araújo, jovem negro de 19 anos morto a tiros em uma operação de combate ao tráfico de drogas da Polícia Civil no Morro do Piolho, na zona sul de São Paulo, ao ver a comida de Gabriel suja de sangue, lamentou “Nem terminou a marmita”, ao mesmo tempo que contestava a ação dos agentes no local.

A mãe de Gabriel não teve sequer o breve tempo de consolo que sentem as mães ao verem seus filhos alimentados.

São duas histórias que se cruzam na violência que deixa inúmeras mães órfãs e que nos mostram a intensidade do significado que tem, para as mães, ver um filho com fome. É algo que é capaz de aumentar o que já é por si insuportável: a perda eterna de apetite.

Pode ser cultural esse laço – e não institivo -, como dizem. Mas, uma vez feito, embrulha tudo.

E esse tudo é tanto que a morte do filho que não se alimentou tem, diante dessa unificação e de tantas tragédias, um outro sentido. Não sei se é passível de tradução, mas creio que valha saber, para quem lê este mundo, que essa dor, tão ímpar, também existe.

Volta às aulas presenciais. 2021.

Igor passou a pandemia toda assistindo aulas pelo computador em seu quarto do qual só saía para ir ao banheiro e comer alguma coisa. Ao contrário de muitos adolescentes e a despeito da carência de vitamina D, Igor estava feliz como qualquer pessoa mal informada sobre as mazelas do mundo.

Igor ficava uma semana na casa do pai, Fernando, e da mãe, Maria Lúcia, que morava também com seu namorado, Ricardo.

Em ambas as casas, Igor tinha um quarto só seu, um computador só seu, dois monitores e uma cadeira de gamers para não ter problema de coluna.

Acontece que a escola em que Igor estudava, estava voltando para o regime presencial e isso, para Igor, era um problemaço. 

Maria Lúcia estava aliviada. Afinal, a pandemia estava acabando e dentre tantas coisas, Maria Lúcia não aguentava mais ver seu filho ficando verde de tanto que ficava no quarto. 

Era a semana do pai. E Fernando estava já se irritando porque Igor estava dizendo que não ia de jeito nenhum para a escola.

Fernando fez o que os pais fazem quando têm problema. Foi decidido mandar mensagem no WhatsApp.

“Ô, Maria Lúcia, Igor não quer ir e eu não sei mais o que faço aqui”.

Maria Lúcia era antipunitivista, feminista, anti racista, anti machista, vegana, ambientalista, sindicalista, sambista, flamenguista e homofobia não era opinião para Maria Lúcia. Desse jeito. 

Fernando acreditava na terceira via.

Maria Lúcia estava num zoom.

“Fernando, converse com ele com amor, por favor,  estou numa reunião. Quando sair, te ligo”.

Fernando leu a mensagem. Considerou a possibilidade. Foi quando Igor saiu do quarto para beber água com o celular na mão.

– Igor, já arrumou suas coisas para a escola amanhã? Tudo certo?
– Pai, eu já disse que não vou.
– Pois se não for, esquece esse celular e seu computador! Não vou ficar pagando Internet para quem não quer estudar!
– Pai, estou estudando no remoto.
– Pois acabou! A pandemia acabou, o vírus foi dominado, as aulas vão voltar e você vai para a escola!

“Maria Lúcia, acabei de tirar o celular da mão dele e disse que se ele não for para a escola, vou cortar a Internet da casa.”

Maria Lúcia suspirou. 

Chegou em casa e foi conversar com Ricardo sobre como é difícil esse negócio do pai ser muito diferente da mãe.


– Como pode né, Ricardo? Será que só consegue educar ameaçando? Será que não tem outro jeito de educar?
– Besteira mesmo, Lucinha, bater boca com um garoto tranquilo daquele. Eu iria oferecer 20 reais para ele ir. Duvido que Igor não aceitasse.

————–

Igor foi para a escola e chegou na casa de Maria Lúcia com um cheiro forte de álcool.

Maria Lúcia chamou Igor para conversar e perguntou com todo o jeitinho de uma mãe progressista se Igor tinha bebido.

 – Mãe, de fato fiz algo errado. Saí irritado da escola e pisei forte no pedal do suporte de álcool em gel. Aquela porcaria espirrou na minha camisa.

E mostrou a camisa úmida e manchada para Maria Lúcia.

Machucada por dentro

Precisamos conversar sobre a velocidade dessas mobiletes. Eu falo mobilete porque brinquei com fofolete e vi Claudia Raia casando com Alexandre Frota.

Elas não são bicicletas porque nunca vi ninguém pedalando aquela geringonça. Também não são motos porque não tem placa e quem pilota não usa capacete. Assim entendo.

Elas andam pelas calçadas se achando gente e no asfalto se entendendo como foguetes.

Hoje, precisei ir ao centro da cidade. Decidi ir de bike Itaú. Do Largo do Machado até a Cinelândia, quinze minutos e três reais. Peguei meu capacete porque sou dessas de respeitar a quina do meio fio. Coloquei minha super máscara PFF2 porque confio na Ciência e quero conhecer meus netos e ver Lula ser presidente de novo. Vários anos de governo Lula, para ser mais exata. Portanto, cuido muito bem da minha saúde. É o que estou querendo dizer.

Parei no sinal vermelho com capacete, máscara e esperança no relatório da CPI.

Quando ficou verde, pedalei como os que estão prestes a ver o Pão de Açúcar.

Uma mobilete pilotada por um sujeito sem máscara, sem capacete, sem noção vinha naquela velocidade que estou querendo criticar e problematizar desde o início deste texto.

Comecei a prestar atenção na rapidez que elas andam quando vi, outro dia, no Aterro, uma criança sendo atingida por um adolescente que estava indo para aula de vôlei a mil por hora em plena ciclovia.

O piloto de hoje avançou o sinal como fazem os que criticam as políticas públicas que diminuem a fome neste país.

O choque foi inevitável. Caí como se tivesse sofrido um impeachment sem motivo.

Era injusto aquele tombo. Não tinha feito nada de errado.

Seria até pontual no meu compromisso se não tivesse sido atropelada.

O babaca quis me ajudar. Me pegou tão desarmada. Assustada, eu disse não.

Pedi para ele ficar distante já que estava sem máscara. Pedi também, se possível, que ele virasse gente. Que pensasse no próximo, que respeitasse os sinais de trânsito, a Constituição e a vontade do filho do superman.

Falei isso com a bicicleta em cima de mim e meu cóccix beijando o asfalto como um pé que encontra com uma bola.

Enfim.

Estou aqui colocando gelo na buzanfa vendo as vaias que Bolsonaro está recebendo na Itália.

Se tivesse um limite para a velocidade dessas mobiletes e para Arthur Lira, minha noite estaria sendo bem melhor.

Precisamos conversar sobre isso. Estamos correndo sérios riscos.

Como haverá Estado sem servidor público?

Estou cansada de ouvir que servidor público tem que acabar. Trago então algumas perguntas que costumo fazer para quem vem com essa ladainha para o meu lado. Compartilho com você poucas das quais me lembro. Pode contribuir, se quiser, nos comentários, ok?

Se acabar com a figura que mantém um contrato de trabalho com o Estado cujos vencimentos decorrem da arrecadação de impostos e é proveniente de concurso público, o que resta para servir a sociedade?

Como se constrói um país sem espaços, instituições, ideias e bens que não sejam ao mesmo tempo de cada pessoa e da coletividade?

Como haverá Estado sem servidor público?

Pessoas físicas que exercem uma determinada função de interesse público e ao bem comum existem em um país sem Estado?

O que significa eliminar o Estado?

Em que medida privatizar setores de interesse público se diferencia da ideia de destruir serviços essenciais à imensa população que não tem condição alguma de pagar pela prestação de determinados serviços?

Há outra maneira de destruir o Estado sem se privar de recursos a área que se deseja privatizar?

Alguém respira bem enquanto está sendo asfixiado?

A quem interessa criar e incentivar uma campanha de difamação pública contra o serviço público ou associar o servidor a uma série de coisas negativas, como à corrupção, à ineficiência, ao mau atendimento?

Há serviços privados direcionados à população baratos e bons?

As filas de espera pela prestação de serviços é um problema somente do serviço público? O que dizer sobre as filas nos supermercados, bancos, e para atendimento médico mesmo com plano de saúde?

Você está satisfeito com o quanto paga por mês para sua operadora de celular e pelo serviço prestado?

Por que devo acreditar em que defende o “Estado mínimo” se são as mesmas pessoas que praticam vários tipos de monopólio e também cartéis?

Por que falam sobre a necessidade de desmontar os serviços públicos, sendo que o Brasil continua destinando quase metade do orçamento federal para o pagamento de juros e o rolamento da dívida pública federal?

Por que em um país cujo governo federal destina aos banqueiros e rentistas a soma de R$ 1,038 trilhão ou 38,27% de todo o orçamento público federal, promove uma campanha contra o servidor público?

Como seria o atendimento da população durante a pandemia da Covid-19 se não houvesse o Sistema Único de Saúde (SUS)?

Deixo aqui essas questões no dia do Servidor Público.

Em tempo, parabéns para todas as pessoas que estão por aqui e que, como eu, trabalham em serviços públicos.

Perguntar não ofende

O que é mais condenável em nossa sociedade: a injustiça ou o fracasso?

Por que, do ponto de vista do poder, o extermínio da população pobre não é visto como um mal a ser combatido?

Por que os países que mais pregam a paz são os que mais armas vendem?

Antes de estimular a demanda, a publicidade produz que tipos de violência?

Quem matou mais pessoas até agora: a Segunda Guerra Mundial ou a pobreza?

Seria possível um planeta constituído só de países ricos?

Por que chamam de “mercado livre” aquilo que a maioria das pessoas só pode olhar e não pode comprar?

Se em um país que tivesse duas pessoas somente e uma delas fosse bilionária enquanto a outra vivesse para lhe servir, o PIB que seria alto teria qual significado?

Quem se beneficia com a decadência do controle público na economia?

Se as indústrias mais bem sucedidas no mundo capitalista são as mesmas que mais poluem o planeta, qual o preço que se paga por tanto desenvolvimento?

Em que medida a globalização se difere do imperialismo?

Por que os que vivem em comunhão com a natureza e consideram a terra sagrada são chamados de incivilizados?

Quais são as instituições que se dedicam em afirmar de diversas maneiras diferentes que a desigualdade social e o racismo fazem parte da harmonia do Universo?

Quando e onde aprendemos preferir a segurança do que a justiça?

Qual o nome que devemos dar quando um grupo de homens fardados derrubam governos civis?

Em que medida o medo alimenta o capitalismo?

Por que chamamos de progresso quando algumas pessoas passam fome e outras são envenenadas pela comida?

Por que nunca nos unimos contra as pessoas que lucram em cima da nossa dor?

Em que momento passamos a achar normal escolas privadas?

Temos mais medo da multidão ou da solidão?

Quem foi mais enfático em nos convencer que indígenas são selvagens porque tudo compartilham e não tem ambição de riqueza: a indústria cinematográfica de Hollywood ou as escolas?

Assusta mais uma criança sem livro ou com um celular?

O que acontece com os policiais honestos do Rio de Janeiro?

Por que quanto maior é o montante de dinheiro roubado menor é a pena?

Se as prisões significam segurança, por que os países com menos prisões são os menos violentos?

Se houver mais desempregados que empregados, como vão fazer para que a maioria obedeça?

Os responsáveis pela poluição de um rio são chamados de criminosos ou empresários?

A sociedade de consumo produz só objetos descartáveis ou, também, seres humanos que são usados e jogados fora a seguir?

Se somos livres, somos livres de quê exatamente?

Qual o nome do lugar em que pessoas que trabalham não têm medo de ficarem desempregadas?

Como se luta contra o terrorismo vendendo armas para países terroristas?

As caveiras riem de quem ainda vive?

Morre-se mais de overdose ou traficando drogas?

Contra quem as leis são aplicadas?

Se quem luta pela diminuição da desigualdade social é chamado de comunista, como devem ser chamadas as pessoas que não se preocupam com as injustiças sociais?

É direito dos empresários roubarem em grande quantidade?

Que nome damos ao sistema que há seres trabalhando em condições insalubres, sem lugar para comer, sem banheiros para usar durante o expediente, sem aposentadoria, sem direitos, sem férias e que ainda precisam agradecer por estarem trabalhando?

Se um país enriquece vendendo muitas armas, o PIB alto significa o quê exatamente?

Por que chamamos de progresso quando aplicamos uma tecnologia de ponta em indústrias que gera uma alta taxa de desemprego?

Por que em países, como o Japão, que morrem milhares de pessoas por ano por excesso de trabalho são considerados desenvolvidos?

Por que dizem que se portam mal quem defende a natureza e deseja que o salário mínimo seja maior?

As loucas da Praça de Maio são assim chamadas porque se recusam a esquecer?

Os terapeutas que percebem que grande parte de seus pacientes sofrem por excesso de trabalho lutam por um mundo mais justo?

Os cardiologistas que sabem que grande parte de seus pacientes sofrem infarto por tanta preocupação se manifestam contra o sistema que lhes adoecem?

É confiável o local cujas indústrias ecológicas movimentam uma fortuna maior do que as indústrias químicas?

A história oficial é escrita por quem preza a memória ou por quem tem interesse em apagá-la?

O quão disposta está em combater as causas das doenças a pessoa que lucra com elas?

Quem nada consome também pode ser chamado de cidadão?

O gastroenterologista que detecta que muitas gastrites são causadas por conta dos baixos salários de seus pacientes se manifestou contra a reforma trabalhista?

Países desenvolvidos são chamados assim porque se desenvolveram “a despeito” ou ‘por causa” do subdesenvolvimento alheio?

Por que quem participa da Guerra às drogas não se manifesta contra os agrotóxicos?

Por que os que matam os pobres não lutam para erradicar a pobreza?

Quando elogiamos uma flor dizendo que ela parece de plástico, precisamos de terapia ou de um professor de história?

Por que não proíbem também a propaganda de carros os que proibiram a propaganda de cigarros se ambos estragam o ar que respiramos?

Por que temos facilidade de condenar o criminoso e não o modelo de sociedade que intensifica o crime?

Qual o nome do sistema em que muitos constroem algo que jamais terão dinheiro para comprar?

Qual é a única espécie do planeta que acredita que um país vai melhorar cortando gastos com saúde e educação?

Engarrafamento também é sinal de progresso?

Por que quem se esperneava diante um triplex se cala ao ver apartamentos e mansões comprados com dinheiro vivo?

Por que na escola, quando explicam as cadeias alimentares, não falam das longas cadeias de subordinações sucessivas em nossa sociedade?

Por que chamam de democracia o sistema que ignora mais de cem processos de impeachment?

Quem naturalizou o fato dos animais não poderem pastar ou ciscar e terem o tempo de vida reduzido para que nos alimentemos com seus pedaços?

Nessa sociedade de consumo, a injustiça social é um erro a corrigir ou uma necessidade essencial?

O que mais assusta um empresário: um hipopótamo ou um sindicato?

Por que os que não se importam com o desmonte das estatais se mostram tão preocupados com os empregos criados pelo véio da Havan?

Quem nos ensinou a não se importar com os animais que são fervidos vivos?

Faz sentido definir a riqueza sem a pobreza?

Quando uma mulher negra será presidenta de um país?

Quem mandou matar Marielle?

Quem nunca?

Foto: Bárbara Lopes

Eu estava quieta e puríssima quando chegou a mensagem da amiga muito feliz. Vinha acompanhada de uma foto que justificava tamanha euforia.

Esse brinquedinho não tenho ainda, pensei.

Cliquei na imagem. Ampliei e tirei algumas dúvidas com a amiga que começava os áudios com “amiiiiiigaaaaa cê não tá entendendo…”

Ouvi todos na velocidade 1.5 tamanha curiosidade estava

.Pensei. Quero.

Mereço.

É disso que precisamos nesse momento: relaxar um pouco.

E que ninguém saiba jamais porque nós, as mocinhas, somos super discretas.Apaguei rápido a foto porque né. Mãe de três e toda trabalhada na crisma.

Entrei na Internet. Fui para o computador para ver melhor as fotos em vários ângulos.

É.

Dividindo em três vezes dá.

Cliquei no botão Compre Agora com gosto – não sem antes olhar para trás conferindo se não vinha alguém. No caso, um filho. Pipo está em Brasília há um mês, o que foi fundamental para minha tomada de decisão.

Coloquei o endereço e e-mail tudo certinho. Conferi várias vezes com medo da encomenda chegar em um vizinho com meu nome.

Fiz o sinal da cruz e conclui a compra. Mãe, professora, política,… se alguém sabe disso Deus me livre nem pensar. Bati três vezes na madeira porque sou dessas. Me cerquei por vários lados.

Tudo certo. Bati palminhas animada em frente ao computador como a Branca de Neve cantando para os sete anões. Nessa vibe.

Fui fazer um chá toda serelepe quando o telefone vibra.

Minha mãe mandou o print da minha primeira compra online no Sex Shop perguntando o que era aquilo que chegou no WhatsApp dela.

Levei um susto. Bem que disseram que Deus vê tudo. Jesus amado… Gelei.

Achei que Deus tinha mostrado o que fiz para todo o Brasil.

Segundos depois me dei conta. Não foi Deus que me dedurou.

Na hora de escrever o telefone, eu escrevi sem querer o número para o qual ligo todo santo dia: minha mãe.

VIxi.

“É vírus, mãe! Não abre, mãe!!! Apaga! Apaga! Joga o celular longe, mãe!”

Nem comprar um brinquedinho em paz a gente consegue neste país.

Ah gente…

Testemunhas da história

Charge do Quinho

Estava Seu Roberval atrás do balcão secando os copos no botequim ali na rua do Catete quando entra Pedrinho, garoto novo quase a completar dezoito anos que mora há tempos na comunidade Tavares Bastos e, agora, está fazendo entregas com uma mochila quadrada nas costas. Seu Roberval conhece Pedrinho desde criança. Sempre dá um suco para o garoto e deixa sempre ele almoçar no seu botequim.

Não são parentes, mas a convivência cria laços na mesma intensidade.

Outro dia, ele estava pedindo para Pedrinho tomar cuidado com o crime organizado porque lá na comunidade em que Pedrinho mora…

– Tenho medo disso não, Seu Roberval. A gente tem que ter medo é da economia mundial que é mais eficiente que o crime organizado.

Teve a outra ocasião em que Seu Roberval viu em um programa de televisão sobre matadores de aluguel. Assim que Pedrinho chegou e se sentou, lá veio Seu Roberval preocupado com o menino e tacando-lhe conselho como quem oferece pudim de sobremesa:

– Tenho medo de que me chamem para ser isso não, Seu Roberval. Evito essa gente como quero distância dos generais.

– Mas o que general tem a ver com isso, meu filho?

– Seu Roberval, matador de aluguel faz, num plano muito menor, o mesmo trabalho que cumpre os grandes generais condecorados.

Seu Roberval insistiu para que o menino se mantivesse longe das armas.

– Eu fico, Seu Roberval. Você sabe que a minha mãe me mata se eu morrer de morte com arma, disse redundantemente Pedrinho. Mas vou confessar que tá complicado porque agora os cristãos tomaram o poder. Eles tão armando todo mundo, Seu Roberval. Não é esquisito que quem mais fala de paz mais pega em armas?

Seu Roberval começou a se lastimar porque Pedrinho não teve a infância que merecia.

– Fica assim por causa de mim só não, Seu Roberval. Se o senhor pensar direitinho, nesse mundo, ninguém vive a infância direito não. Menino rico como tem aqui na Zona Sul é tratado como se fosse dinheiro para que, quando crescer, agir como se fosse o Mercado. Menino não muito rico da classe média vive olhando para o celular ou para um computador aprendendo a ser, desde meninos, prisioneiros desse sistema.

Da última vez que Pedrinho foi lá, Seu Roberval perguntou para ele se as pessoas têm lhe tratado bem. Seu Roberval morre de medo de maltratarem um garoto tão bom.

– Precisa ter medo disso não, Seu Roberval. As pessoas me tratam muito bem. Sou o pobre que elas gostam. Me porto bem, sequer olho de cara feia quando não me dão gorjeta. Essa gente sabe que serei vendedor de alguma lojinha ou um bom empregado a preço de banana de alguma empresa que fabrica traje esportivo que eles usam quando vão viajar para Europa.

Seu Roberval é desses que têm muita idade e o hábito de tentar explicar tudo com a propriedade dos que testemunharam grande parte da história. A questão é que Pedrinho, assim como Seu Roberval, já é testemunha de muita história.