O que o beijo uniu, a distância não separa.

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Nasci feminista como todas as pessoas neste planeta. Como qualquer criança, quis entender as regras do mundo. Quando, aos onze anos, minha mãe me explicou o que significa o vestido branco da noiva, rejeitei para sempre a ideia de adentrar uma igreja para me casar.  A imagem de todos me olhando sabendo que eu ia ter uma relação sexual pela primeira vez naquela noite me enchia de constrangimento. Como pode essa exposição de uma intimidade que só diz respeito à moça e ao rapaz?

O tempo passou. Vi várias amigas casando na Igreja, sendo levadas pelos pais até o altar e entregues ao marido. Outra coisa que sempre tive horror. A conotação disso para mim sempre foi forte e aterrorizante demais. É como se elas jamais fossem livres e sempre dependessem de um homem para protegê-las. Primeiramente o pai, depois, o marido. Idem com a mudança de sobrenome. Sempre falei que nasci Elika Takimoto e não haveria macho nesta Terra que me faria morrer com outro nome. A minha identidade jamais esteve  suscetível à mudança.

Casei-me no civil e não tive sequer uma festa. Ainda que me emocionasse em todos os casamentos que fui por entender o motivo da celebração, jamais senti falta de algo semelhante porque, não importa a religião, continuamente havia uma acepção machista nas cerimônias que presenciei. Sempre tive um excesso de cuidado comigo mesma.

Por crer na existência da felicidade como os seres humanos que bebem o vinho acreditando sorver o sangue de Jesus, dei adeus àquele que me viu lendo mais de duzentos livros porque ouvi uma outra vida me chamando. Separei-me desejando – com a mesma determinação daqueles que lançam um chinelo para matar um barata – nunca mais amar. Não havia mais o menor sentido eu, com quatro décadas de existência, viver em busca de um príncipe encantado. 

Houve a confirmação de que uma separação é sim um bicho de sete cabeças. Mas, constatei também que esse monstro morre fácil até quando encostamos em sua barriga uma faca de manteiga. Houve aquele famoso encontro comigo mesma, o sentimento de plenitude mesmo se vendo sozinha no mundo. Houve o tal do empoderamento. O reconhecimento de uma força que jamais supus ter.

A matemática da vida, no entanto, não tem a mesma lógica das quatro operações. Eu, completa como um transatlântico e livre no mar, atraquei-me em um porto, depois de anos navegando sem companhia, mesmo tendo feito a âncora virar pó. Andando inteira, deparei-me com alguém que fez um quarto ser meu paraíso. Não me dividi, mas dupliquei-me e hoje, para sermos um, juntamos nossas quatro partes.

Antes de nos vermos pessoalmente pela primeira vez, vejam vocês, pedi para que ele me aceitasse como sua esposa. Havia um não-sei-quê que eu não conseguira explicar, mas que me alegrava com mesma intensidade de quando senti a temperatura do mar do nordeste. Algo estava acontecendo que não admitia racionalizações. Não tinha vontade de pertencer a ninguém no sentido capitalista e simbolizado nos rituais de união que vemos por aí. Mas, na conexão que foi feita e consolidada após o primeiro beijo, constatei uma forma de existir parecida com o que acontece quando decompomos a luz branca em um espectro de várias cores.

Continuo sem querer ver ninguém me esperando em um altar enquanto eu ando em sua direção. Sigo firme abominando a ideia de usar um vestido branco. O que me assombra é essa primordialidade de um ritual que sacramente esse reconhecimento de que há magia, ainda que os príncipes não existam. De entrar de mãos dadas com ele em vários templos. De agradecer de joelhos sabe deus para quem já que sou ateia. Mas, Senhor, preciso dizer muito obrigada por ter entendido, enfim, para que servem os fogos nas festas de reveillon.

O que me surpreende é essa necessidade de que esse encontro, em um local sagrado,  seja abençoado por uma mulher negra como a Elza Soares, por exemplo. Nesse lugar iluminado preferencialmente pelas estrelas, mas que tenha ao menos uma vela acesa, quero lhe prometer todo o meu amor que é da mesma natureza do que sente a águia quando busca as alturas.

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Não costumo pensar nisso todo dia não. Mas hoje, como só se falou do casamento de Harry e Meghan Markle, queria deixar registrado que há coisas grandiosas acontecendo também no Brasil.

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A cueca do Pipo

Reza a lenda que quando esquecemos algo em algum lugar é o nosso íntimo trabalhando para que voltemos para aquele local do qual não queríamos sair. Por mais que tomemos cuidado, uma mera piscada já é o suficiente para que nosso inconsciente nos pregue uma peça.

Isso posto, vamos aos fatos.

Pipo, o amor da minha vida, mora em Brasília e eu no Rio. De vez em quando, ele vai voando literalmente para minha casa e passa uns tempos comigo e vice versa. Da última vez, ele ficou uns 20 dias no meu cafofo. Foi lindo.

Meu quarto é uma suíte meia boca. Tem um micro banheiro ao lado da cama. Há outro tualéte, chamemos assim para valorizar o barraco, para todes os demais que o frequentam e moram comigo. Nara, Hideo, Sara (namorada do Hideo), Daniel (maride da Nara), Yuki, Ricciuto,…

Pipo lindo, outro dia, saiu do nosso banheiro vestido somente com uma cueca cinza fofa fofa fofa dizendo que o pai dele havia ganhado aquilo de presente, não gostou e deu para ele. Daí, meu príncipe, sem noção do perigo, virava de costas e de frente falando que aquilo não era nem cueca nem samba-canção e que, de fato, ele estava se achando estranho. Eu estava sentada na cama lendo, mas ao ver aquele Deus grego semi nu metralhei óvulos segurando a biografia do Leonardo da Vinci.

Pipo ah-droga-que-triste voltou para Brasília. No dia seguinte, fui tomar banho. Eu, a saudade encarnada, vi a cuequinha dele no meu banheiro secando na janela. Mandei mensagem dizendo que ele havia se esquecido de algo e ele ficou calado porque não é mesmo de interagir via Whatsapp. Falei que era uma cueca e Pipo mudou de assunto.

Tímido ele. Fofo fofo fofo.

Ficaríamos dias separados por uma distância de mais de mil quilômetros. Fiz o que qualquer pessoa normal faria. Dormi cheirando a cueca do meu amor. Vesti para ver se cabia. Deu certinho. Mega confortável. Nascemos um para o outro e vamos dividir até isso. Belabelabela nossa história. Coloquei a cueca cuticuti na cabeça em forma de touca enquanto lia porque sou dessas mega românticas. Levei para o trabalho na minha bolsa. Mostrei para as amigas para provar que ele havia sim senhoras esquecido algo e que, portanto, me amava e ia voltar. Ficava abraçada com ela como se fosse um ursinho de pelúcia, na verdade, como se ele estivesse ali dentro. Ele. Meu ursinho de pelúcia. Fofuréééésimo.

Daí vim para Brasília. Na mala, trouxe a cuequinha linda do Pipo para devolver. Fiquei aqui uns dias e hoje, ao me despedir dele, entreguei-a com todo carinho dizendo o quanto nos aventurados juntas. Qual foi minha surpresa ao ouvir:

– Amor, não conheço essa cueca.

Tóin tóin tóin. Mil martelos de borracha bateram na minha cabeça.

– Mas como não?! Era a cueca que seu pai te deu, amor! Aquela que não era nem barro nem tijolo!

Ele fazia que não com a cabeça. Foi até o armário dele e me mostrou as pseudos cuecas que seu Garcia havia lhe dado.

Mas gente. De quem era aquilo que cafunguei tanto e levei para os confins mais perversos de minha mente?! Será que fiquei com a cueca do Hideo como se fosse uma máscara de oxigênio nas minhas noites insones? Ou meodeos. Não me diga que inspirei o pano que cobriu o rabo do Daniel? Jesus. Que nojo.

Enquanto surtava, Pipo analisava a peça com cuidado e viu a etiqueta escrito Lovi.

– Amor. Nenhuma peça masculina tem etiqueta escrito Lovi, disse ele todo no século passado mesmo sabendo que tenho que esconder minhas saias do Daniel que adora usá-las.

– Mas isso é uma cueca, Pipo! Sua cueca!

– Não, amor. Não é minha e não existe cueca com etiqueta assim!

Grosso.

Era dele. Tinha que ser dele. Não havia outra explicação.

Momentos de tensão com a minha vida inteira passando pela minha mente.

Coloquei a foto da peça íntima no grupo do whats do qual participam meus filhos, Pipo, meu mano Ricciuto que já dormiu lá em casa e os demais agregades. Perguntei se alguém sabia de quem era aquilo.

Silêncio.

Mensagem entregue a todos.

Mensagem lida por todos.

Mais silêncio.

Nara digitando.

– Mãe! Minha calcinha preferida! O que você está fazendo com ela em Brasília?!

Vixi Maria que o mundo tá mesmo acabando.

Era a vaca da Nara que não sabe nem que calcinha é algo pequeno, rosinha, delicadinho e não um cirolão cinza feito com tecido de meia grossa. E que diabos a Nara estava usando meu banheiro e pendurando roupa íntima na janela com Pipo lá em casa?

Gente. Tudo errado…

Falei com detalhes para todes o que fiz com aquele pedaço de pano porque sou dessas de ir para o inferno acompanhada.

Hideo falou que vai ter que fazer dez anos de terapia para lidar com tanta informação. Daniel suspirou aliviado por não ser a cueca dele.

Nara, a desconstruidona, explicou-me calmamente que aquilo era uma calcinha-box. Coisa horrorosa, brochante, ridícula. E que tomou banho quando eu e Pipo não estávamos lá porque o outro banheiro estava ocupado e ela estava muito atrasada um dia aê. Esqueceu-se de tirar aquela bandeira feminista da janela. Só isso que essa loka fez na minha vida.

Cá estou eu voltando de Brasília com cara de paisagem refletindo sobre a vida depois que descobri que fiquei dias cheirando alucinadamente a cirola da Nara.

Ah gente. Que vida difícil essa viu. Como lidar com o fato do Pipo não ter esquecido nada lá em casa?

Come, meu filho.

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Galileu: Mãe, descobri que todo mundo cai ao mesmo tempo de uma mesma altura independente da massa!

Mãe: Você não é todo mundo, Galileu.

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Newton: Mãe, descobri que dois corpos com massa se atraem com uma força que é o inverso do quadrado da distância entre eles!

Mãe: Você não fez mais do que a sua obrigação, Isaque.

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Einstein: Mãe, descobri que o espaço é curvo e que passado, presente e futuro podem ser uma ilusão da nossa mente!

Mãe: Come, Alberto.

Feliz dia das mães imperfeitas!

O dia das mães vem me trazendo reflexões. Eu que nasci feminista – como todos nascemos por não entender a diferença de tratamento entre gêneros porque toda forma de amor é natural e todo preconceito cultural – já fui neta, filha e hoje sou mãe imersa nesse mundo que não para de girar e se transformar. Trocamos as rodas do carro com ele em movimento. Haja habilidade para não capotarmos.

Lembrei-me hoje de minha avó que se casou ainda adolescente e pariu dezesseis crianças ao longo de sua breve estadia por aqui. A vida dela foi cuidar de casa, obedecer meu avô e ser mãe de mais de uma dúzia de gente. Ela e meu avô fizeram bodas de diamante e ouvi, na época, que era um casal que deveríamos nos espelhar. Que tipo de inspiração poderia buscar vendo uma mulher que nunca teve um projeto de vida já que lhe foi imposta a única opção de nascer para criar uma família e cuidar dos filhos pois havia nascido mulher?

Com minha mãe não foi muito diferente. Era, de fato, raro ver mãe de alguém trabalhando fora há uns 40, 30, 20 anos. Sempre vi minha mãe limpando casa e na cozinha reclamando o quanto odiava fazer comida por obrigação. Daí, lembrando lembrando, lembrei que ela viu um prédio novo e disse: “Trabalho de homem é assim. A gente vê. O de mulher não. Todo dia a mesma coisa. Não se constrói nada. Não tem beleza alguma.” Eu era criança quando ouvi esse lamento e ver minha mãe com o olhar perdido me deixou aflita. Quis acalmá-la e falei que, se ela deixasse de fazer o que faz, todos iam perceber a importância de seu trabalho. Não foi bem com essas palavras, mas foi isso que quis dizer.

Houve um dia em que fui ajudá-la a lavar louça e ela me expulsou da cozinha. Larga isso, Elika!, ela disse, vai estudar para nunca ter que fazer isso na vida. A fala foi carregada de uma amargura que eu vi, ao longo dessa caminhada até aqui, nos olhos de muitas outras mulheres que conheci. Não era um discurso, digamos, comunista já que ela queria que eu ganhasse muitos dinheiros para poder pagar alguém que fizesse o trabalho braçal para mim, mas era uma oração de amor materno. Esse amor serviçal, escravo, mas amor também porque não são todas as relações humanas que podem ser explicadas por vias marxistas.

Cá estou eu – que passei por portas abertas por outras mulheres que me permitiram uma vida diferente de minha mãe e de minha avó -, mulher-mãe em plena metamorfose entre romantizar o dia de hoje, dizer que ser mãe é a coisa mais maravilhosa que pode acontecer com quem carrega os cromossomos XX ou fazer textão e alertar que todas as flores que estamos recebendo é trabalho de um sistema patriarcal que inventa essa beleza na maternidade pois uma mãe, vista por este ângulo, é uma mulher com muito menos tempo de incomodar e de reivindicar seus direitos na sociedade.

Nem tanto ao céu. Nem tanto à Terra. Na verdade, parei para pensar em tudo isso porque hoje é o primeiro dia das mães que passo longe dos meus filhos e de minha mãe porque estou em Brasília sendo feliz neste fim de semana ao lado de um ser humano que me devolveu a alegria de ser mulher.

Conversei com todas as pessoas que pari nesta vida. Pedi que entendessem a minha ausência, justifiquei-a dizendo que estou amando novamente e que estar aqui no segundo domingo de Maio não deveria ser motivo para que não comemorássemos a data pois estou feliz e militando pelo direito de amar sem cabresto seja de pai, de filho ou do espírito de porco.

O dia tem corrido bem. Estou tendo sucesso em exorcizar o demônio da culpa e mostrar para minha filha que não transgredimos quando andamos em direção ao que nos fortalece seja lá em que data do ano isso acontecer. Cometeria um delito se me negasse esse impulso e não abrisse a porteira para ela.

Às mães perfeitas, desejo que o dia de hoje ajude a equilibrar o peso dessa cruz que colocaram em seus ombros. A todas as outras tão imperfeitas como eu, que são criminalizadas por insistirem em escrever uma história da qual se orgulhem de cada parágrafo repleto de pecados pelos quais jamais vão pedir perdão, ergam de onde estiverem seus copos e encoste aqui no meu.

Tim tim.

Ela. A anã. Eu. A pequena.

Eu vi uma anã andando no centro da cidade. Não era uma anã comum. Era tão pequena que jamais me dei ao trabalho de imaginá-la por supor a sua inexistência. Sabia que se contasse sobre sua metragem ninguém acreditaria em mim. Sua presença, entretanto, foi tão perturbadora que não consigo deixar de falar o quanto eu vi.

Ela entrou no prédio e observei que seus olhos ficavam na altura do joelho do guarda que a cumprimentou e levou-a até o elevador. Seus pés eram minúsculos e suas mãos menores que meu dedo mindinho.

Não sonhei. Não estou exagerando. Talvez seja uma das menores anãs do mundo.

O ponto é o que ocorria em mim minutos antes de eu ver essa anã.

Estava esperando uns amigos para o almoço. Não mexia no celular com medo de ser assaltada. Olhava o cosmos sem esforço porque me avisaram que chegariam em quinze minutos. Em uma das esquinas da Almirante Barroso eu era um ser livre que observava tudo, sem peso e sem compromisso. Respirava apenas por estar viva e à toa.

Não pensava no Brasil. Não pensava nas injustiças. Não pensava nos boletos. Não pensava nos filhos, na minha mãe, no meu pai e no Pipo. Estava satisfeita com o ar poluído que inspirava. Desfrutava a dádiva de ignorar o mundo e todo o meu amor por ele.

Isso era novo para mim. Apenas esperava sem ansiedade, sem ler notícia, sem esperança mas também sem desespero. Liberdade parece ser algo parecido com esse estado no qual me encontrava observando sei lá meu deus. Estava em silêncio como aqueles que sentem uma flor brotando em um rim. Era finalmente feliz a despeito da fome no universo. Levitava ao desconectar-me da Terra.

Foi quando ela, minúscula, apareceu.

Ela. Que não consegue pegar ônibus, que não consegue ir a um banheiro público, que não consegue beber água nem mesmo em bebedouros feitos para anões por ser uma anã entre os seus. Que não consegue abrir nenhuma porta. Que não alcança as janelas. Ela em um mundo que não foi feito para recebê-la. Andava sorrindo dando boa tarde para o porteiro.

Eu a reverenciei com meu amor solene e meu pré-conceito julgando-a infeliz por nascer numa sociedade inadequada. Sua alegria me confundia em muitos níveis e fiquei irritada por estar refletindo sobre o conceito de perfeição vendo intensamente uma anã anã.

Eu. Com sete graus de miopia. Eu. Deficiente auditiva. Eu. Cercada de moradores de rua. Eu. Plena de limites. Eu que não vou ao cinema sozinha. Eu que vivo isolada. Eu. Ateia duvidei novamente de Deus quando vi uma anã.

Porque o tamanho do que realmente somos se mede na interação com o outro. E a pequena ali era eu. Porque sempre fui de me indignar muito. Indignar-me é meu ato principal. E os mendigos que dividiam a calçada comigo não impediram que eu sentisse a liberdade plena. Porque foi a anã que me fez tornar íntima da realidade, ela que era tão vista por ser quase invisível. Porque me achei primorosa demais por não ser percebida.

Não era uma anã andando no centro da cidade e sim um ser humano perfeito caminhando alegremente em um mundo inapropriado.

 

 

 


Não consegui descobrir quem ilustrou a figura para dar os créditos.

Carta para Lula

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Querido presidente,

Escrevo daqui do meu cafofo de Madureira, exatamente no mesmo lugar em que estava quando você me ligou pela primeira vez. Era quarta feira de cinzas. Dona Marisa havia acabado de falecer. E você, meu presidente, após ler um texto meu e ter percebido que eu estava precisando de um abraço, foi a única pessoa que me ligou para dizer: “Querida, tenha força. Os tempos estão difíceis, querem nos calar, mas seja forte, receba meu abraço e meu carinho.”

A emoção, presidente, foi demais. Se Aécio tivesse me ligado eu teria ficado feliz por ser considerada por alguém que tem uma certa importância no cenário político. Mas ter sido você, o homem que tirou o Brasil do mapa da fome, que construiu diversas escolas técnicas de excelente qualidade e mais sei lá quantas universidades federais, por ser reconhecido no mundo todo por ter diminuído a desigualdade social em um país com a extensão do Brasil… olha, eu sou a suburbana mais honrada deste planetinha.

Quando resolvi me filiar ao PT e quis entrar para a política, pedi para conversar com você pessoalmente. Fui desencorajada de cara, lembra-se? Você me disse que assim que eu vinculasse meu nome ao partido e a minha imagem a sua, eu seria apedrejada porque as pessoas aprenderam a odiar cegamente. Você quis me proteger e eu neguei essa proteção porque fui atrás de sua bênção e não de escudo. Ao perceber que eu era um soldado pronto, você sorriu para mim e me abraçou com carinho. Colocou a mão na minha cabeça e eu me senti vestida com um capacete.

Depois disso, nos encontramos por aí em alguns palanques. No meio de tanta gente importante, você sempre me reconheceu e perguntou dos meus filhos e de Lucimar, a moça que trabalha aqui em casa.

Agora você está preso. Tiraram-lhe a possibilidade de interação com outros seres, o que você faz de melhor. Perde o povo com o seu silêncio porque suas palavras são como um bom cobertor no inverno e, dependendo de onde estamos, sentimos uma frieza danada aqui fora. Você precisa saber que a temperatura caiu. Neva em alguns pontos do Brasil, presidente.

Sigo apanhando por te amar. Por achar tudo que aconteceu demasiado injusto e que o mundo piora muito quando não deixam você agir e fazer mais pelo povo. Mas, ainda que esteja plena de hematomas, quando vejo o olhar de quem me ataca e ouço o discurso dos que me xingam, reafirmo meu amor a você e, mais do que isso, ao que você representa.

Estarei te esperando aqui fora. Para que você me veja e me reconheça no meio da multidão quando sair, darei uma dica: estarei de vermelho e de braços abertos. Não vai ter erro, presidente, porque eu também virei uma ideia. Você irá reconhecê-la.

Até breve, meu presidente.

Com todo carinho e toda a saudade do mundo.

Elika Takimoto

Histórias íntimas de Filomena, Jacinta e Claudete

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Amigas mães, amigas que não são mães, amigas de todo o Brasil que estão me assistindo, bom dia, amigas! O programa de hoje vai narrar a história de Filomena, Jacinta e Claudete. Os nomes são fictícios porque elas pediram sigilo total e nós do programa respeitamos a vontade de nossas queridas telespectadoras.

As três mocinhas que entraram em contato com a produção do programa são adultas entre 30 e 50 anos. Elas têm algo em comum. Todas se separaram e enfrentam a dura jornada de encontrar um homem com a qual elas se sintam à vontade, relaxadas e satisfeitas sexualmente. Já entraram (e saíram) de sites de relacionamentos e de motéis por esse mundo mundo vasto mundo.

Filomena é mãe de dois adolescentes que moram com ela, trabalha, gosta de ler, antenada com as notícias políticas e tem um corpo normal: barriga, peitos e celulites. Linda como todas nós e com toda essa exuberância “foi para pista”. Insegura como muitas de nossas telespectadoras, Filomena estava tensa com esse negócio de depilação. Afinal, não sabia quando as agendas dos filhos, do pai das crianças, do chefe e da própria Filomena iam coincidir com a agenda do macho que se deus quiser ligaria a qualquer dia. Temos que estar pronta para a guerra sempre, pensava Filomena toda preocupada. Filomena conheceu o que vamos chamar de macho 1 para diferenciar dos machos da Jacinta e da Claudete.

Macho 1 conversava bem, estava separado e fazia mil coisas. Não era tão acessível assim. Na sexta, do nada, disse que poderia pegar Filomena no trabalho e de lá darem um rolê. Era o final de semana do pai dos filhos de Filomena, o chefe havia liberado mais cedo, a depilação estava ok e ela não estava menstruada. O vale-sexo estava em suas mãos, amigas! Mas Filomena estava angustiada, nervosa, aflita porque não estava contando com essa ligação e havia saído de casa com um cirolão branco super confortável e um sutiã preto básico que não fazia conjunto com o cirolão. Meodeos meodeos!, pensava Filomena. E agora? E agora?!, chorava Filomena. Daí, amigas, vejam o que é a sagacidade de uma mulher.

Quando o macho 1 foi encontrar com ela, Filomena estava toda sorridente. Jantaram e no restaurante o macho 1 ficou doido de tesão porque percebeu que nossa amiga estava sem calcinha!

[Breve intervalo comercial]

Jacinta nos conta que estava feliz porque estava saindo com o macho 2 que era um rapaz muito bem aparentado. A mais nova de todas as nossas três amigas também era a mais desavergonhada e mais empoderada. O macho 2 tinha a mania de se trancar com Jacinta nos cômodos que conseguia (casa de amigos, banheiro públicos, sala de reunião do seu serviço…). Lá abaixava as calças e colocava as mãos nos ombros de Jacinta daquele jeito que os machos costumam fazer. Inicialmente, Jacinta o satisfazia. Mas, logo depois, começou a cobrar reciprocidade e advinhem, telespectadoras. O macho 2, assim como o macho 1, gostava de ver uma mulher pronta para servi-lo, mas não entendia nada sobre igualdade de cuidados. Não acertava a intensidade, a frequência, o período, nada. Impressionante a falta de jeito desses machos.

Jacinta comprou um brinquedo desses que vibram e, na frente do macho 2, o usava enquanto ele olhava com cara de tarado para ela que conquistava solitariamente o seu orgasmo. Jacinta descobriu que podia usar seu brinquedinho sem ter que colocar a boca mais em lugar nenhum de macho que pensa que, no sexo, somos como um cavalo onde eles sobem em cima para galopar, seguram a crina e nos batem para que atinjamos a velocidade que eles desejam.

Nananinha, falou nossa amiga.

Jacinta segue feliz e satisfeita. Melhor dizendo, muito satisfeita porque o brinquedo faz coisas, diz Jacinta, incríveis e tem proporcionado prazeres que nunca teve com nenhum outro macho. Não está fechada para relacionamentos, mas muito menos aberta como antes.

[Breve intervalo comercial]

Neste nosso último bloco, para finalizar nosso programa de hoje, amigas que ainda estão me assistindo, temos a história da nossa amiga guerreira, professora de português, Claudete. Mulher de 43 anos, separada há dois. Claudete era super romântica mas sabia que essa história de príncipe não está mais com nada. Aliás, nunca esteve né migas. Claudete resolveu seguir os conselhos dos amigos e fazer sexo sem amor. O que não faltou a Claudete foi macho a querendo. Não por ela ser bonita, mas por ter uma ampla rede de amigos de todas as idades e aquilo que ela podia chamar de pê-á. Acabou que ela, descolou um desses pê-ás para sair. Escolheu um cabra bom. 27 anos. Marombado. Daqueles que tiram selfie em academia e postam no Instagram. Vou relaxar, eu mereço, pensou nossa amiga Claudete.

E lá foi ela para os braços fortes do macho 3.

Assim que chegaram no motel, o macho 3 arrancou a roupa de Claudete e ela se viu como uma personagem de filme pornô. Foi tacada na parede enquanto o macho 3 metia freneticamente em Claudete. Depois, o macho 3 a jogou na cama. Pegou as duas pernas e girou Claudete com força a colocando de quatro. Bateu em suas pernas e em sua bunda. Ficou em pé depois e colocou a mão nos ombros de Claudete como o macho 1 fez com Filomena. Claudete não sabia o que fazer. Tentava empurrar mas não tinha força. Falar não conseguia. Procurava avisar com gestos que não estava gostando mas o macho 3 não era nada sensível, assim como o macho 1 e 2, às sinalizações.

No dia seguinte, Claudete que sempre tomava banho com suas crianças, teve que esconder seu corpo todo cheio de hematomas para que elas não se assustassem. O macho 3 mandou mensagem fofa perguntando se poderiam repetir o programa. Claudete lhe contou sobre as marcas que ele havia deixado e ele perguntou se ela não havia gostado.

Bem, é  isso por hoje, amigas. O programa  está chegando ao fim. Gostaria  de perguntar a vocês, antes de me despedir, o quanto de Filomena, de Jacinta e de Claudete temos dentro de nós e como temos alimentado cada uma delas. Aproveito para deixar o questionamento sobre quanto tempo mais precisaremos viver para que esses machos entendam que não adianta bancar uma de bacana, a favor do feminismo, gentilzão se a quatro paredes nos tratam como um mero objetos cheio de orifícios.

Fazer com que fiquemos tensas antes de um encontro simplesmente por  não estarmos com uma lingerie sexy, depilada e menstruada não é coisa que sintamos perto de um homem decente. Fica a reflexão, amigas, se masculinidade não tem muito mais a ver com habilidades cognitivas e sensitivas do que  ser ou não um bom macho.

No nosso próximo programa, contaremos mais histórias sobre como as mulheres têm trucidado esse monstro de sete cabeças que é o medo de ficar só.

Beijo e até a próxima!

 


A ilustração deste texto é da artista Fotini Hamidieli Martou.  A fonte foi: http://artodyssey1.blogspot.com.br/