O meu estado

Há quatro anos sinto uma dor em um músculo específico chamado quadrado lombar esquerdo que piorou muito na pandemia pelo fato de ficar horas e horas sentada trabalhando com o psicológico zuretado com tantas notícias horríveis.

Meu avô sempre falou que se um motorista sabe o nome das partes do carro é porque anda em um veículo ruim que precisa ser trocado ou muito bem consertado. Nunca soube, como nesses últimos quatro anos, tanto nome de general, capitão, ministros e músculos. 

Em 2021, depois de ser vacinada, fui a um ortopedista e, após exames como ressonância magnética, ultrassonografia, hemogramas e raio X, a solução dada foi injeção de corticóide e anti-inflamatório por quase um mês.

Vivi a alegria das pessoas que acordam, sentam e se levantam sem dor. Havia até me esquecido da sensação de estar em paz com o universo das cadeiras, poltronas e sofás.

Passado o efeito das drogas, tudo voltou. Na verdade, foi “a volta dos que não foram”, pois, foi tratado o sintoma e não a causa como é a praxe, infelizmente, em muitos consultórios.

Voltei ao médico e, novamente, tomei outra injeção de corticoide e me entupi de novos anti-inflamatórios.

Passado um tempo, a dor, como avisei ao doutor que aconteceria, voltou.

Com o corpo inchado de tanta prednisona, prednisolona, hidrocortisona, dexametasona, metilprednisolona e beclometasona, parti para resolver a causa assim como os climatólogos e ambientalistas fazem em reuniões com lideranças políticas.

Fiz cinco meses de fisioterapia, acupuntura, massagem e fortalecimento muscular. Pela primeira vez em 49 anos, matriculei-me na academia e como aqueles que querem se livrar de algo ruim, trabalhei sério para isso. 

Aceitei orações, pedi que acendessem velas e segui todas as orientações do plano espiritual que me deram. Não existe ateu dentro de um avião caindo ou quando entra uma barata voadora no quarto, já disse alguém muito inteligente.

A minha meta era fazer a campanha sem dor. 

Qual o quê.

Ninguém entendeu o meu corpo e, por mais que eu pagasse, me esforçasse e rezasse, não consegui consertá-lo a tempo. 

Tudo o que vocês me viram fazendo, em todos os momentos em que estive nas ruas, eu estava pensando em Lula e no meu quadrado lombar esquerdo.

Terminado o segundo turno, enfim, dormi bem. 

Acordei e procurei outro médico. 

Este último, ao contrário do primeiro que nem encostou em mim, examinou-me decentemente. Colocou-me em muitas posições para observar a origem da minha dor, testou meus reflexos, viu meus exames e avaliou bem essa carcaça. 

Diagnóstico: “você não está doente, mas precisa de alinhamento e balanceamento. A sua contratura do quadrado lombar é gigante e o lado que ela existe está todo encurtado. Uma boa série de exercícios isométricos e muito RPG darão conta. Em 3 meses você estará sem dor.”

Há um mês, sigo à risca tudo. Não há sinal de melhora ainda, embora esteja em um novo caminho e descobrindo outras coisas nessa bagaça. Como dizem, estou velejando em águas nunca dantes navegadas.

A nova fisioterapeuta (beijo, Nayara!) está mexendo em músculos que eu sequer sabia que existiam e olha que a anterior também havia me apresentado a vários.

Para que o meu quadrado lombar se descontraia, se solte e me deixe em paz, é necessário mexer, alongar e fortalecer o glúteo médio, o sartório, o pectíneo, o iliopsoas, o bíceps o femoral, o tibial anterior e mais outros que me esqueci o nome.

Tenho lembrado muito do meu avô cada vez que a Nayara me fala o nome de mais um músculo que ela descobre que está atrofiado.

Entendi que andei errado, sentei errado, pedalei errado, deitei errado e que o Brasil não ajudou, pelo contrário. 

Mente e corpo não se separam e, cá para nós: isso começou lá pelos idos de 2019. 

O fato de eu perder a concentração para a leitura – que tanto me acalma –  desde o golpe em 2016 tem a ver com o estado que ficou o meu quadrado lombar.

Compreendi que o meu abdômen e um outro governo precisavam ter sido acionados há anos.

Enfim, hoje estive em uma reunião em que debatemos a emergência climática. Fui convidada como deputada eleita.

Discutimos que, para reverter o quadro de urgência e evitar tragédias, é necessário diminuir a desigualdade social, mexer com a Educação, com a nossa alimentação, investirmos em uma outra forma de mobilidade urbana, para além de reflorestar muitas áreas e plantar um novo sistema.

Enquanto via os slides e ouvia especialistas de diversas áreas nesse Fórum, lembrava do meu quadrado lombar não somente porque doía muito, mas por entender que tudo é uma coisa só. 

Somos holísticos assim como o planeta – quiçá o Universo.

Se algo está ruim, ainda que seja do lado de fora, mais cedo ou mais tarde, seremos afetados.

Não se conserta uma parte sem mexer no todo se a maneira equivocada que o todo se articula é o que machuca muitas partes.

Olho para o estado do meu corpo torto e lembro do Estado do Rio de Janeiro. 

Tem jeito. Sabemos que tem. 

E não vou sossegar até descobrir como aliviar tanta dor.

Gerações espontâneas. Um almoço com Bia, Claudinha e Eugênia.

Eugênia é mãe de Cláudia que é mãe de Beatriz que não quer ser mãe de ninguém.

Com quase oitenta anos, Eugênia que teve uma educação religiosa rigorosíssima casou-se virgem e tentou levar Cláudia sem sucesso para esse caminho. Beatriz nasceu sem que seu pai e sua mãe fossem sequer casados para desespero e vergonha de Eugênia.

Nada como o tempo.

Eugênia entendeu, assim como aprendemos com os livros de forma lenta e profunda, vendo Cláudia viver. Compreendeu que hímen não define caráter. E foi até aí seu aprendizado. 

Claudia educou Beatriz para ser independente, não precisar de macho e não desejar príncipes.

– Bia, seja feliz do jeito que quiser.

Hoje, Bia tem 24 anos, faz faculdade de teatro, dá aula de canto e para um monte de gente. Tem cabelo azul e se declara bi e não binária. 

Cláudia que achava que era prafrentex porque se casou depois da maternidade está aprendendo coisas ao conviver com os sovacos cabeludos de Bia. Com quase cinquenta anos, fez a transição capilar na pandemia e hoje está grisalha. 

Cláudia descobriu um tipo de liberdade como a dos urubus que não usam maquiagem, mas tem um voo calmo e belíssimo. 

Dona Eugênia não compreende os cabelos brancos de sua filha Cláudia e sempre comenta que a filha está envelhecendo – o que é o normal que aconteça com quem vive. Quando Cláudia explica para a mãe que está com quase cinquenta anos, Eugênia diz que ela pode estar assim, mas não parecer tão velha. 

– Pinta esse cabelo, Cláudia! 

Cláudia titubeia. Olha no espelho e reflete também sobre si mesma. 

– Bia, vou pintar meu cabelo e parar com esse movimento de ser bonita naturalmente que dá muito trabalho.

– Mãe, se você pintar seu cabelo, eu vou raspar meus sovacos!

Cláudia – que tem os sovacos raspados porque as revoluções, por vezes, são muito lentas – fica em silêncio pensando que talvez seja uma boa a Bia sem aquela cabeleira saindo debaixo dos braços.

– Mãe, você está linda assim. Está grisalha e está bem! Vó, deixa ela!

– Ah não deixo não porque tá feio. Tá envelhecida. E se pintar de muito preto também pode ficar estranho. Faz como eu.

Bia e Cláudia olham para Eugênia que está com o cabelo castanho claro com um rosto ótimo de quem tem oitenta anos bem vividos.

– Mãe, você fica linda assim ao natural. – Disse Beatriz.

– Beatriz, o seu cabelo é azul, Beatriz. – Observou Dona Eugênia.

Célia, irmã mais velha de Eugênia com cabelos branquiiiinhos branquiiiiiiionhos, chegou para almoçar e observou as três comendo.

– Ninguém de vocês pinta unha não? Que coisa horrorosa três gerações que não cuidam das mãos. Vou ligar para a Marinete vir aqui fazer as unhas de vocês agora! 

Taxonomia capciosa, indústria farmacêutica e tretas no Twitter. Minha modesta contribuição.

Com respeito a todas as partes no debate recente que vimos no Twitter sobre (o que é) Ciência que começou com a jornalista Cynara Menezes respondendo a uma publicação da cientista Natália Pasternack que, por sua vez, indignou-se com a Folha que divulgou a “Constelação Familiar” não alertando que se tratava de pseudociência, enfim, sobre esse “angú de caroço”, quero dar a minha contribuição porque acho que há verdades coexistindo. Se um lado está certo, não significa que o que pensa diferente está, necessariamente, errado. Cynara Menezes cobrou de Natália Pasternak o mesmo empenho que ela usou para falar contra as terapias alternativas para a indústria farmacêutica.

Pronto. Lá veio o tribunal do Twitter.

O assunto é delicado na medida que atualmente crer na medicina, à luz de tudo o que sabemos da indústria farmacêutica, seria a suprema loucura, se não confiar nela também não fosse uma loucura maior, dado todos os avanços que conhecemos.

Sabemos que nem todos os aspectos da sociedade industrial são maléficos. O desenvolvimento industrial, indubitavelmente, trouxe melhoras na expectativa de vida para uma classe privilegiada. Porém, nos locais onde temos miséria, não percebemos os benefícios de tantos avanços científicos. E isso não é um detalhe nesse debate complexo.

A solução para os problemas de saúde está longe de vir somente pela via da medicina. Precisamos considerar os fenômenos sócio-estruturais que afetam a nossa vida: a pobreza, as péssimas condições de trabalho, o estresse do tempo que perdemos indo trabalhar e a forma como nos alimentamos, para dar somente alguns exemplos.

Quantas descobertas médicas tiveram influência sobre o número de doenças causadas pela fome, pela falta de condições sanitárias e pela miséria? Problemas de saúde estão, em grande medida, conectados com direitos humanos, com a massificação da pobreza e com problemas de cidadania.

Ninguém aqui está negando o poder de um antibiótico ou de uma vacina para a diminuição da mortalidade e doenças infecciosas. Mas também podemos afirmar que a melhoria das condições de defesa do organismo se faz através de, por exemplo, uma nutrição melhor (com menos agrotóxicos e produtos industrializados) que é pouco debatida dentro de diversos consultórios (Por qual razão?).

Sabemos que a atenção médica é fundamental. Mas sabemos também que nossa saúde não melhorou com o aumento da quantidade de farmácias e das medicações que tomamos.

Caso tenhamos alguma emergência, uma dor aguda, um acidente grave, caso necessitemos de uma cirurgia ou soframos com o efeito de uma bactéria maligna em nosso corpo, a medicina será sim imprescindível.

No entanto, pela inexistência, em muitos cursos de medicina, do despertar da sensibilidade no futuro profissional de que assim como não existe uma divisão nítida entre o psicológico e o somático, tão pouco a vemos entre saúde e bem estar social, enfim, por essa carência de debate, o alcance da medicina, muitas vezes, é extremamente limitado e sua prática, a depender do profissional, até mesmo mais prejudica o paciente do que promove sua cura.

Para quem já conviveu com uma pessoa que cursa medicina, sabe que não é uma mentira que durante todo o treinamento, muitos estudantes passam a associar os sintomas e as doenças com o nome comercial de remédios. O gasto anual com o marketing dos produtos farmacêuticos que ocorre dentro das universidades e de consultórios não pode ser desconsiderado nesse debate.

Congressos científicos, auxílio em pesquisa, pagamento de passagens e estadias, brindes, assinaturas de revistas… tudo é feito para envolver profissionais de saúde em uma espécie de doutrinação.

Quem de nós sairia imune se submetidos ao bombardeio diário de propagandas feitas por pessoas de grande prestígio na área que estamos estudando? Vamos desconsiderar ou fingir que isso não acontece dentro das universidades?

Desde a graduação até a pós (que deve ser permanente para uma pessoa que trabalha ligada à ciência), a educação médica – não só no Brasil mas em outros países capitalistas – é de tal modo desvirtuada pelos fabricantes de produtos farmacêuticos e de outros instrumentos desse complexo industrial que cabem as perguntas: Como distinguir o que é pesquisa do que é publicidade? Como separar a Ciência do capital? Podemos falar em objetividade na Ciência se temos empresas envolvidas no resultado das pesquisas? Vamos negar que o mercado da Medicina é gigante e cativo? Em que medida não estamos sendo ludibriados com a falsa imagem de uma benevolência conspícua de produtos da indústria farmacêutica da mesma forma que a indústria de armamentos projeta uma falsa imagem de segurança para quem anda armado?

Apontar isso não é ser contra a Ciência. É defendê-la sem ingenuidade ou sem precisar flertar com uma linha filosófica chamada de positivismo. Posso ser contra o negacionismo sem ser uma positivista. E o problema dos debates rasos que as redes promovem é que se você não se enquadra em um conceito, por tabela, é definido por um outro que resta nessa esteira dicotômica em que digressões não são permitidas e os julgamentos são instantâneos.

Não podemos fechar os olhos que muitos enfoques dados aos problemas de saúde só beneficiam o complexo industrial de fármacos. Dito de outra forma, a estratégia desenvolvida para resolver problemas de saúde e a forma como esses são definidos constituem, em grande medida, um reflexo de como somos encarados por uma elite dominante. O profissional de saúde é, assim, um executor e não um criador dessas diretrizes como muitos acham que são.

O caminho da saúde da população não está, como diria um positivista, somente na Ciência – ainda que esta seja indispensável na discussão. Quantas tomadas de decisão sobre como, por exemplo, uma tecnologia deva ser aplicada e difundida são influenciadas por uma consciência das necessidades coletivas? Sabemos que muitas decisões são ditadas pelo critério de lucratividade. Quantas indústrias de drogas têm ambição de produzir remédios que não sejam lucrativos?

Por fim, não somos máquinas e passíveis de definição por equações matemáticas. Somos sensíveis e abertos ao que acreditamos. Por isso, a neurobiologia do efeito placebo é muito mais complexa do que imaginávamos. A nossa recepção para um placebo envolve os mesmos neurotransmissores e regiões cerebrais ativados pelos remédios. Nessa esteira, um medicamento feito à base de farinha pode sim amenizar os sintomas de uma doença grave (atenção aqui que eu disse “amenizar” e não “curar”). Por outro lado, nem só de teorias científicas é feito o saber. É perfeitamente possível que algo funcione muito bem sem que saibamos explicar por quê. Pode ser até que a simples expectativa de cura já provoque um bombardeio de reações fisiológicas reais.

Diante tudo isso e mais um tanto de coisas que não trouxe aqui, cabe sim a pergunta feita por uma jornalista para uma cientista no Twitter que foi por muitas pessoas, naquela árida rede, considerada ofensiva. Talvez, a forma e o timing da pergunta da Cynara Menezes atrapalharam um tanto. Pelo fato de conhecê-la bem, entendi como um pedido de reflexão sobre nossa sociedade e não como uma defesa da Constelação Familiar – que Cynara sequer mencionou.

Por que profissionais da saúde não gastam a mesma energia que dispensam para tratamentos sem comprovação científica para falar, também, sobre abusos de diagnósticos criados por mentalidades doutrinadas a rotular pacientes e enquadrá-los numa taxonomia muitas vezes capciosa?

A pergunta em si é um pedido de socorro.

Ao médico é atribuído, em grande medida, um caráter de infalibilidade. O poder do médico é tanto que pode levar (e leva inúmeras vezes) a abusos graves como indicações cirúrgicas sem necessidade, por exemplo, ou uma piora no estado do paciente sem que o médico seja responsabilizado por isso. Dado a nossa realidade, não sabemos se a culpa desse comportamento (que não é raro em consultórios) é dos incentivos financeiros ou de uma formação médica capitaneada pelas indústrias farmacêuticas e de equipamentos.

Não é bom refletirmos sobre isso?

Ou vamos negar o quanto o capitalismo modificou como as verdades são evocadas na nossa sociedade?

Reitero a minha admiração e respeito a todas as partes envolvidas nesse debate. Espero ter contribuído minimamente para essa discussão sabendo que as redes sociais e muito menos esse texto dão conta da complexidade do tema.

Sobre os nossos vulcões

Estava pela casa andando no modo aleatório, pegando uma roupa no chão aqui, colocando água para a minha gata, levando o lixo para fora, achando uma tarraxa de brinco no tapete sem querer, observando os livros que preciso ler, vendo uma mancha no sofá, conferindo se tem arroz para fazer o almoço e pensando no meu futuro gabinete quando, de repente, o Pipo me aparece indignado:

– Amor, você acredita que tem gente que mora perto de um vulcão mesmo sabendo que ele pode ficar ativo a qualquer momento? Imagina só, você está lá com sua família sabendo que pode morrer a qualquer momento!

E continuou a falar sobre lavas, fumaça tóxica, nuvens de fuligem, dióxido de enxofre, fluxo piroclástico (o que destruiu a cidade romana de Pompeia no ano 79 d.C.) e outras formas de morrer por estar perto de um vulcão.

Pipo estava de cara com essa (Teimosia? Obstinação? Insistência? Pertinácia? Intransigência? Excentricidade? Relutância? Ignorância?…) ignorância. Isso, ignorância. Gosto dessa palavra para esta situação porque vem do sentido de ignorar uma informação. Ignorar não necessariamente é falta de conhecimento. Ignorar pode ser sinônimo de muita sabedoria como a que vi em Riobaldo, do qual falarei adiante.

Enfim, Pipo estava passado com a ignorância de quem vive perto de um vulcão.

Ouvi meu amor atenta como os que refletem mirando um horizonte.

Daí, lembrei-me de uma criança olhando para o céu e perguntando para a mãe o que era aquilo passando pelas nuvens. A mãe explicou que se tratava de um meio de transporte super rápido que viaja pelo ar e que pode nos levar a vários locais do planeta em um curto intervalo de tempo.

A criança ficou curiosa. Queria saber como era possível esse voo, quantas pessoas cabiam, como algo pesado era sustentado pelo ar, como pousava, enfim, fez muitas perguntas como certamente muitos de nós também já fizemos, mesmo já adultos, diante de uma aeronave parada no pátio de um aeroporto.

A mãe falou sobre hidrodinâmica, equilíbrio de força, pressão e bababá bububú. A criança ficou reflexiva.

Até que ela perguntou:

– E não cai?

E a mãe respondeu:

– Bem, cair cai, mas é raro e…

– E morre todo mundo?

– É… Bem… quando cai… mas é raro cair…

A partir daí a pequena mudou o objeto da sua perplexidade.

– Por que cargas d’água uma pessoa podendo ficar em segurança no chão entra em um negócio daquele tamanho sabendo que pode cair e morrer?

O avião era para a criança algo como um vulcão é para o Pipo.

Creio que muita gente aqui faz um punhado de coisas que gera incompreensão em outras. Eu, por exemplo, tenho a política como um vulcão. Um galerão já veio me perguntar por que eu, que podia estar calma no meu canto lendo, escrevendo e dando aulas, desejei e sigo muito animada para estar na Alerj.

Por que as pessoas escalam o Monte Everest? Como tem gente que tem coragem de jogar futebol sob o constante risco de receber uma canelada no joelho? Por que damos saltos mortais e isso virou modalidade olímpica? De onde vem a tranquilidade para usar uma panela de pressão? Por que pagam para pular de paraquedas? Como conseguem beber refrigerante, consumir tanto açúcar refinado, andar de moto, mergulhar em cavernas, colocar piercing no nariz, fazer lipoaspiração, andar pelas ruas do Rio de Janeiro, dirigir em estrada, tirar cutículas ou amar alguém? Por que nos arriscamos tanto?

Impossível não me lembrar de Riobaldo, narrador-personagem do romance “Grande sertão: veredas”, de Guimarães Rosa. Riobaldo vira e mexe falava:

“Viver é muito perigoso”.

Eu, amante da Ciência, das técnicas, dos números, dos cálculos e das previsões que nos dão tempo para nos proteger de alguma ameaça, já pensei muito – quando resolvia equações envolvendo probabilidades – sobre o quanto somos reféns do imprevisível.

Ao ler Guimarães Rosa, compreendi na literatura – e não na matemática – que “o mais difí­cil não é um ser bom e proceder honesto, dificultoso mesmo, é um saber definido o que quer, e ter o poder de ir até o rabo da palavra”, como falou Riobaldo com seu maravilhoso dialeto.

Ou seja, o perigo não é se perder no meio dos próprios objetivos, ignorar os riscos e não enxergar a morte iminente.

Morar perto de um vulcão e andar de avião pode dar, de fato, a chance para fatalidade.

Mas…

Estar perdido é a própria condição de viver. Nosso querer não tem explicação e há um tanto de beleza nessas incompreensões.

Há como viver e não estar em perigo? Há uma melhor oportunidade de se chegar aonde não se espera do que fazer algo novo?

Fazemos boas especulações de como surgiu o Universo, mas por que ninguém ainda descobriu a origem desse ímpeto que vem de formas diferentes em cada pessoa? Estar em uma zona de conforto não é um tipo de morte em vida?

É isso. Estou aqui com uma tarraxa de brinco na mão pensando sobre os nossos vulcões.

—–

Em tempo, no mundo inteiro, 550 milhões de seres humanos moram perto de vulcões ativos, muitos desses com excelente qualidade de vida.

Pra frente, Brasil? – Sobre a Copa 2022.

Estou aqui pensando na Copa que se aproxima. Antigamente, tudo era menos confuso. Enfeitar as ruas, usar a camisa da seleção e pendurar o bandeirão do Brasil na janela mostravam apenas uma conexão com uma festa mundial. 

O serviço público tinha problemas, nas escolas faltava estrutura, havia desemprego, havia corrupção em muitos lugares deste país mas… era a Copa. O Brasil ia jogar, era dia de festa e ninguém queria discutir quem era o culpado das mazelas desta bagaça.

Agora não. Agora tá tenso. 

Hoje a gente está discutindo –  a menos de um mês do início da Copa – sobre os sentimentos que devemos ter quando o Brasil estiver em campo.

Tanto para quem é da direita quanto da esquerda há uma dúvida sobre como proceder. 

Deste lado (que considero o correto da história), não sei como vamos nos comportar quando sair, por exemplo, um gol do Neymar. Nem sei se vamos conseguir torcer para que ele faça um gol. A felicidade de quem está ao lado dos que praticam violência política nos coloca num estado confuso ainda que essa pessoa faça um gol para o Brasil.

Vestir verde e amarelo é outra questão que tem sido discutida. Há quem diga que será o momento perfeito para resgatar a nossa bandeira. Um querido amigo que ama futebol comprou animado uma camisa verde e amarela no dia seguinte que Lula foi eleito. Gritou alegre: “essa bandeira é noossaaa!”. Falei com ele ontem perguntando sobre a sensação de vestir novamente a camisa com as cores da bandeira. A empolgação não mais se fez presente. Ele me disse que está com medo de ser confundido com quem canta hino para pneu, se pendura na frente de um caminhão ou um nazista. Minha tia que comprou também a camisa na empolgação disse que ficou a cara da Cássia Kis. “Criei ranço da blusa”, disse me oferecendo.

Do lado de lá, também não está fácil. 

Se o Brasil ganhar, vai ser um clima de festa que vai estragar, segundo disseram, o foco da “luta contra o comunismo”. Se por um acaso Neymar se machucar e o Brasil ganhar mesmo assim, Alexandre de Moraes será xingado como tem ocorrido até quando chove. Se o Brasil perder, vai ser derrota sobre derrota e não vão poder chamar as forças armadas para verificar se o jogo valeu. 

Fico pensando em todo mundo de qualquer espectro político se vestindo verde e amarelo e saindo pelas ruas exalando felicidade em dia de jogo. Como iam conseguir identificar quem é o cidadão de bem e quem é o cidadão de boa? Da minha parte, acho que podemos andar sim com o verde amarelo. Mas sugiro que seja em grupos e marchando para gerar memes. 

Enfim, bons tempos aqueles que a gente soprava uma vuvuzela verde e amarela e cantava emocionado o hino com a camisa da seleção antes que vários homens começassem a correr atrás de uma bola. Era um tipo de delírio que o esporte,  assim como o samba, nos permite: algo que nos anestesia pela alegria e não pela estupidez.

Falta menos de um mês para a Copa e ainda há gente que não aceitou o resultado das urnas. O comportamento de quem veste verde oliva também não tem ajudado.

Fica aí minha dúvida. Como todos juntos vamos pra frente, Brasil?

Expulsar é manter no mundo. Educar é transformar esse mundo. Uma breve reflexão nesses tempos difíceis.

Em tempos de tanto ódio, estamos também testemunhando comportamentos bastante violentos nas escolas. Grupos de jovens se unem para destilar preconceito, seja no pátio da escola, seja em um grupo de WhatsApp ou em uma live feita em alguma rede. Certamente, já deve ter chegado para você algum vídeo denunciando essas violências.

O vídeo mais recente que eu vi mostrava uma live no TikTok, feita por estudantes de uma das escolas mais conceituadas da capital gaúcha.

Reproduzindo o que, suponho, ouvem em casa, adolescentes proferiram sorrindo frases gordofóbicas, frases xenofóbicas contra nordestinos, ofensas contra professores e professoras de escolas públicas, pessoas pobres e pessoas que votaram no Lula de forma geral. Até o auxílio emergencial entrou na pauta desse vídeo.

Uma das adolescentes disse – rindo e de forma debochada – que o benefício de R$ 600, criado pelo governo federal para garantir renda mínima aos brasileiros em situação de vulnerabilidade durante a pandemia de Covid-19, daria para ela comprar um sorvete de uma marca específica citada e um papel higiênico folha dupla.

Não tem como não se indignar perante um discurso desses vindo de jovens em formação.

O fato de existir escola particular é uma razão forte (ainda que não seja a única) para que surjam falas preconceituosas como essa em alguns adolescentes. Há uma visão deturpada, somente por estar ali em um lugar de muito privilégio, de que o rico é necessariamente mais inteligente ou uma pessoa melhor. Fica nítido que há uma diferença gritante de classe. Se essa injustiça não for discutida do portão da escola para dentro, essa estrutura social vai parecer algo natural, porque assim está sendo tratada.

Assim como é um erro a existência de hospitais particulares, a existência da escola particular é um grande equívoco da nossa sociedade, ainda que haja exceções. No sistema educacional que temos, a escola particular não representa apenas uma opção para uma educação específica para certas comunidades (étnicas ou religiosas, por exemplo), por qualquer motivo que seja, mas na maioria dos casos representa privilégio e desigualdade de acesso. Por que uma pessoa merece ser melhor atendida do que outra? Poder pagar para um serviço é uma justificativa decente para a pergunta anterior?

Se estudantes que frequentam escolas particulares não forem estimulados a refletir sobre essa estrutura, o que estão aprendendo, afinal, para além do conteúdo “que cai no Enem”? E não me venha falar que educação vem de casa. Educação vem de muitos lugares, inclusive da escola.

Tem mais uma coisa que quero colocar aqui.

Brutos que nos tornamos quando estamos cheios de ódio, exigimos prontamente, como vemos nos comentários das notícias envolvendo esse vídeo, a imediata expulsão da escola de quem protagonizou o ataque e as ofensas.

Entendo o ódio direcionado a quem odeia, no caso, esses adolescentes. Mas, supondo que tanto preconceito seja aprendido no ambiente familiar, fico me perguntando onde (meudeus onde?) estudantes que foram expulsos de uma escola por se comportarem de forma odiosa irão enxergar a gravidade do erro que cometeram? Seria em casa – local onde ele encontra os seus espelhos? Seria em outra escola – possivelmente com a mesma estrutura que a escola que os expulsou?

Como educadora, sofro ao ver que a escola não conseguiu, em um caso como esse, ser um espaço de aprendizado efetivo e que tenha que recorrer à expulsão ou a uma punição que não ensina, pelo contrário: existem, como acompanhamos em inúmeros casos, grandes chances da punição aumentar o ódio no adolescente.

Insisto: se não for na escola, onde se dará esse aprendizado?

Penso que um lugar onde exista uma concentração de profissionais da Educação deva ser o local ideal para pensar em estratégias para que estudantes reflitam sobre o quão perverso foi o que fizeram.

Expulsar ainda é manter no mundo. Educar é transformar esse mundo.

Não é fácil. Eu sei.

Educar requer tempo. Compreender que há ritmos de crescimento e que não basta falar para ser ouvido.

Para que queiram nos escutar, temos que ter calma, criatividade, paciência e sabedoria perante esse grande desafio. E é necessário também ter muita sensibilidade, já que estamos, por vezes, fazendo jovens refletirem sobre valores equivocados que recebem, muitas vezes, da própria família. É normal esse conflito e, por isso, é saudável que crianças e jovens convivam em um espaço que permita e que estimule, nas mais diversas formas, o diálogo.

Educar movido pelo ódio é punir, e punir nem sempre (ou quase nunca) educa. Quando não vemos efeito imediato na educação movida pelo amor não foi porque erramos, e sim porque não tivemos tempo suficiente para acertar ou para ver a semente brotada.

Assim como o lixo colocado para fora de casa continua dentro do planeta, um cruel adolescente pleno de preconceitos com uma visão deturpada da realidade e expulso… enfim, esse adolescente expulso de uma escola seguirá dentro da sociedade. Continuando com a metáfora, é necessário não produzir tanto lixo e reciclar o que estiver ao nosso alcance, porque se livrar de algo simplesmente “jogando fora” não é possível, como bem sabemos.

Muita gente já me disse que não devemos ser tolerantes com intolerantes. Concordo com Popper, o filósofo que trouxe essa reflexão. Mas o que coloco aqui é anterior a isso: como fazer com que a pessoa entenda que está sendo intolerante? Como não produzir ou reduzir o surgimento da intolerância?

Para finalizar, antes que me julguem, sei da dificuldade e do quanto poderia ser cruel fazer com que a pessoa ofendida fosse obrigada a conviver com o opressor. Jamais sugeri isso, e tampouco sugiro isso com esse texto, porque creio que há inúmeras outras saídas para situações como essa, que não incluem maltratar ainda mais a vítima. Mas, para encontrar essas outras saídas, precisamos nos propor essa difícil reflexão.

A família educa e a escola também. Se ambas falham, qual a chance do real aprendizado acontecer?

Apenas refletindo aqui sobre tudo isso e compartilhando com vocês.

(Elika Takimoto – Professora do CEFET/RJ e deputada estadual PT-RJ)

Conte até 13

Ontem, em Copacabana, uma senhora muito maquiada e de cabelo feito amassou meu panfleto que lhe ofereci com carinho dizendo:

– Sou professora e candidata a deputada estadual. Interessa pensar no meu nome?.

Ela pegou, viu o Lula e disse:

– Interessa para fazer isso.

E amassou.

Contei até 13. Olhei bem para ela e disse:

– A senhora não deve se lembrar de mim porque mal cumprimenta o porteiro. Moramos no mesmo prédio. Eu sempre achei a senhora linda. Comentei com a vizinha do 202 que você devia ser modelo.

A senhora me olhou atenta mas ainda com ódio.

Continuei:

– De uns tempos para cá, comentei com seu Geraldo, nosso porteiro, que estava achando que a senhora estava doente. Perdeu o brilho na pele e seus cabelos estão sem vida. Agora entendo. Senhora, esse ódio está lhe fazendo muito mal. Não precisava ter amassado meu panfletinho.

Ela ficou em silêncio, aproveitei:

– Deus deve castigar certas pessoas tirando o colágeno mais rápido. Pode ser isso. Era só ter dito “não” para o meu panfletinho. Eu te ofereci. Nem te entreguei. A senhora pegou porque quis e porque é má.

Mas siga em paz.

Dei as costas e voltei a oferecer meus panfletos para outras pessoas ali em frente ao metrô da Arcoverde.

Olhei de rabo de olho.

Ela foi embora lentamente. Não mais com a pressa que andava.

Nunca a vi antes e não tenho ideia onde aquela senhora mora

E segui no amor. Estou com um pouco de crise de consciência. Mas foi o que saiu na hora. Não sou perfeita e posso ser cruel a ponto de fazer refletir quem amassa meus panfletinhos entregues com tanto carinho.

Sobre ser candidata em 2022

Aprendi muita coisa nos livros, mas a leitura nem sempre acontece somente quando se tem palavras as escritas.

Tenho panfletado nas ruas todo santo dia. Converso com pessoas que nunca vi na vida sobre quem eu sou e a importância de termos representantes-raiz da Educação em locais de poder.

Em 2018, fui candidata em um momento que o antipetismo tinha virado modalidade olímpica. De lá para cá, tivemos um governo perverso que armou o povo. Hoje, a população civil tem mais armas que a Polícia Militar e, vale observar, há muitas escolas públicas sem bibliotecas. Viramos o país da bala e não dos livros, conforme prometido.

Ainda que andar com blusa do Lula, atualmente, seja possível porque o clima esteja mais favorável para nós com o Lula livre, inocente e animado, o fascismo (que se sustenta pela vontade de trucidar o antagônico) avançou muito.

Sinto-me bem mais à vontade nas ruas hoje com o acolhimento que recebo. Mas o risco é muito maior em 2022 do que em 2018.

Aumento do feminicídio, das violências políticas, companheiros sendo mortos por não gostarem de Bolsonaro… Enfim, quando entrego meu panfleto com um sorriso, pode ser que esteja diante de uma pessoa extremamente violenta e que foi incentivada pelo atual presidente a ser agressiva.

E daí, cabe a leitura que hoje faço sem os livros por uma questão de ter medo mas, também, de ter a certeza de que esse sentimento não pode me imobilizar:

Se duas pessoas se aproximam e uma é mulher e a outra, homem, a minha preferência é entregar meu panfleto “Vote na Professora” para a mulher.

Se entre as duas, tiver uma pessoa nitidamente LGBTQIA+, vou sempre nela.

Entre duas mulheres, vou na que tem uma aparência mais humilde.

Se entre duas pessoas, uma dessas segura um livro, é para ela que ofereço o meu panfleto.

Entre uma mãe carregando um nenem e uma pessoa qualquer, vou na mãe.

Entre uma mulher asiática, uma branca ou uma preta, escolho quem esteja sem fone de ouvidos.

Entre uma pessoa com alguma deficiência visível e uma outra qualquer, busco me aproximar de quem passe por mais dificuldades nessa sociedade nada inclusiva.

É difícil eu errar, mas não é nada fácil acertar também. Há, obviamente, homens altos e marombados muito educados comigo, gente que tira o fone para me ouvir atentamente, pessoas que leem muito, mas somente o Olavo de Carvalho e senhorinhas fofas que pegam meu panfleto e amassam na minha cara.

Gosto quando erro porque revejo meus pré-conceitos. Como professora, admiro essa didática bruta que só a realidade domina.

Sei que nem sempre acordamos trabalhados na simpatia e com uma vontade danada de pegar panfleto de uma candidata que não conhece.

O ponto delicado é a impossibilidade de conseguir diferenciar – com esse tipo de leitura dinâmica – uma pessoa cheia de consciência de classe que acorda virada na Jiraya de um fascista feliz e sorridente porque, por exemplo, negou comida para uma pessoa com a blusa do Lula.

Escrevo tudo isso para dizer a vocês que não tem sido fácil me apresentar como professora e candidata tendo o Lula no meu peito. As fotos que tenho postado demonstram alegria e, de fato, há muito sentimento bom e trocas inesquecíveis nas ruas.

Mas tenho, em todo o tempo, a consciência do risco que corro dada a exposição que escolhi fazer. Andar sob um constante estado de alerta dá um tipo de cansaço bem específico. Falta uma palavra em português para definir esse sentimento.

A cada companheiro que se vai por acreditar no mesmo que eu, faço um esforço para não embrutecer.

Quando dizemos que o amor há de vencer, ele não ganhará fácil porque o maior obstáculo está dentro da gente.

Escrevo esse texto na estrada. Estou indo panfletar em mais um reduto bolsonarista. Semente de Marielle que sou, hei de florescer em terras áridas.

Peço com todo carinho que reguem quem está pronta para a chegada da próxima primavera.

Em tempo, sou Elika Takimoto, candidata a deputada estadual pelo PT/RJ e meu número é 13021.

Lembram disso?

Estou aqui no quinto dia de isolamento observando o trabalho que o coronavírus está tendo dentro deste corpo com três doses de vacina. Tosses, cansaço e dor de cabeça somados a um calafrio aqui e um intestino estranho ali. Nada demais. Tenho vencido do meu jeito e no meu tempo. A mente, se deixar solta, me carrega para hospitais e cemitérios. Fico pensando em 2020 e na quantidade de pessoas que não conseguiram respirar e nas outras que faleceram sem nenhum familiar ao lado. 

Daí, fico triste demais, começo a chorar nesse sofá cheio de pelo da minha gata.

Para me distrair, vou ler as notícias do dia. 

Não ajudam, como vocês bem sabem.

E fico em casa olhando para o teto tentando me amparar. Há um mundo sendo destruído lá fora e eu estou aqui com covid. Se cada vez que eu tossisse, o preço do combustível baixasse um centavo, já estaríamos em 2024.

Resolvi me proteger de pensamentos ruins lembrando de coisas boas como sempre fui aconselhada pela minha avó.

Peguei-me tentando discar rápido naquele telefone cinza de disco para falar com o Bozo. Tinha uma brincadeira do jogo da memória e o Bozo virava todos os números (era do 1 ao 20 – com 10 pares de desenhos) que ficavam na parede durante uns cinco segundos. Depois desse brevíssimo tempo, o Bozo desvirava. 

Se a gente acertasse tudo, ganhava uma bicicleta Caloi ou Monark, não me lembro qual das duas, mas só podia ser uma delas porque eram as únicas que existiam na época.

Eu tinha um irmão mais novo e uma irmã mais velha no tempo do Bozo. Muito tempo depois, veio a Lyli, a rapa do tacho da minha mãe, como ela, carinhosamente, sempre diz. Mas a Lyli já era Xuxa para cá. Estou no Bozo. Lyli não era nem zigoto. Então… 

Assim que o Bozo virava as figuras para a gente memorizar, nós, eu e meus irmãos, que juntos tínhamos seis mãos e seis pés, ficávamos com o rosto colado no vidro da televisão e colocava as palmas da mão e os pés em cada par de figuras que Bozo mostrava. Assim, com muita vantagem e astúcia, tínhamos rápido o gabarito do jogo de memória. Era só ligar e o Bozo atender.

Daí era o desespero de girar aquele disco do telefone bem rápido. Sempre dava ocupado. Lembro que o futuro estava chegando com o telefone de botão em muitas casas e a gente ficava pedindo pelo amor de deus para papai comprar um aparelho mais moderno porque estávamos sendo prejudicados em relação às demais crianças do Brasil.

Quando era o jogo de apostar em qual cavalinho ganhava a corrida, cada um escolhia um: preto, branco ou malhado. Era uma gritaria para ver qual cavalinho de um brinquedo tosco chegaria primeiro.

Pensando em coisinhas assim como a infância e a ingenuidade, resolvi escrever sobre essas lembranças já que a escrita sempre me aliviou desses apertos que a gente sente no peito de vez em quando. É sempre bom revisitar o pretérito mais que perfeito.

Já estou tossindo menos e me sentindo bem melhor. O olfato se foi hoje, mas disseram que ele volta rápido e sou dessas de acreditar quando me dizem que ele vai voltar em outubro.

Sorrindo para nosso futuro – como fiz há pouco com o meu passado – coloco esse ponto final.

Está tudo bem ser desse jeito

Ilustração de Ryan Garcia

Tenho surdez e uso próteses auditivas desde 2013 quando decidi adquiri-las para enfrentar a defesa no doutorado. Fiquei com medo de ser prejudicada por não conseguir ouvir direito a pergunta ou as críticas da banca.

No dia que experimentei as próteses pela primeira vez, chorei de soluçar. A fonoaudióloga tentou me acalmar. Disse que eu me acostumaria. Sou míope e sempre usei óculos. Pensei, antes de colocá-las, que ouviria com as próteses como vejo com as lentes.

Ledo engano.

Ouvir com aparelhos auditivos não é o mesmo que enxergar com óculos. O som parece todo microfonado como se saísse de um radinho de pilhas.

Mais uma coisa que você não sabe: um ouvido bom escuta em infinitas frequências. Quando apresentamos surdez moderada, não perdemos em todas elas de forma igual. Por mais modernos que sejam os aparelhos, eles não conseguem amplificar somente o que nos foi subtraído por doença, genética ou acidente. Resultado? Ouvimos com as próteses alguns sons muito altos e distorcidos.

Não são poucos os casos de pessoas que desistem de usar aparelhos e muito menos é pequeno o número de seres humanos que perdem a audição cedo. Então, é muito comum pessoas como eu se isolarem.

A surdez moderada é uma deficiência que incomoda muitas pessoas com as quais conversamos. Pedimos para repetir a frase. Percebemos que falar a mesma coisa duas vezes está longe de ser algo prazeroso. Irritamos muita gente por não ouvirmos bem e meu deus como é triste alguém se sentir importunado por algo que não é a nossa culpa. Além disso, viramos motivos de piada quando compreendemos algo atravessado.

Com os aparelhos, entendemos melhor. É, porém, extremamente cansativo ouvir de forma amplificada ruídos irritantes. Se estou com as próteses na rua e, por exemplo, passa um carro de bombeiro ao meu lado com a sirene ligada, sinto aflição e angústia como aqueles que se deparam com um rato correndo ao seu encontro.

Encontrei com uma conhecida que também colocou próteses recentemente e ela me narrou o quanto o barulho do chinelo arrastando no chão está deixando ela descompensada.

Tenho terminado o meu dia exausta por ter que lidar com tantos sons perturbadores por conta das próteses auditivas. A única vantagem é que posso tirá-las. Ler no silêncio tem suas vantagens. Dormir, muito mais.

Não vou à praia e nem à piscina há anos porque meus aparelhos não são à prova d’água. Quando chove e estou na rua, tiro minhas próteses para protegê-las e entendo muito menos qualquer frase que seja dirigida a mim. E se estou com elas em um lugar fechado e seguro quando lá fora cai uma tempestade, o ruído da chuva de fundo ganhou outra conotação que não tem nada de agradável.

Tenho surdez, mas escuto. Há quem tenha surdez severa, quem nunca tenha ouvido um som, quem já ouviu e perdeu toda a audição em algum acidente, quem não ouve de um ouvido, enfim, há de tudo e sei que não somos poucos na sociedade.

Falar “eu sou surda” não é uma coisa simples em terra de ouvidos perfeitos e pessoas impacientes que se acham perfeitas. Há muito mais gente com surdez do que vocês possam imaginar. O preconceito faz com que elas omitam a dificuldade de ouvir.

No mais, as próteses são caríssimas e, mesmo sendo fornecidas pelo SUS, a fila é longa. Para ter aparelhos mais discretos e modernos, é necessário pagar muito por eles.

Sigo me adaptando como fazem as pessoas inteligentes (Beijo,Piaget).

Estar nas ruas, nas salas de aula, em manifestações, no palanque ou em plenárias é um desafio que tenho enfrentado, modéstia à parte, com certa bravura.

Por que estou contando tudo isso? Porque outro dia a minha caixa de aparelhos caiu no metrô quando fui pegar algo na minha bolsa. Eu não estava com eles porque o barulho do metrô é chato e não estava conversando com ninguém. Uma pessoa catou tudo que tinha se espalhado no chão e me devolveu.

Morri de vergonha na hora.

Chegando em casa, refleti sobre o que passei. Não posso me permitir me sentir mal por ser como sou.

Contar para todo mundo o que aconteceu e como tenho lidado com essa deficiência é uma forma que encontrei de me perdoar por ter desejado me esconder por um momento. Prometi a mim mesma, desde o primeiro dia que coloquei esse troço nos ouvidos, que não ficaria constrangida por ouvir com ajuda.

Sou surda, uso aparelhos auditivos e está tudo bem ser desse jeito.