Socorro! A pesquisa no Brasil não pode morrer!

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Socorro!

A proposta orçamentária feita pelo ministro da Educação Rossieli Soares acaba com TODA a pesquisa do país. Estou exagerando? Nananinha.

Foi repassado agora à CAPES (Coordenação de aperfeiçoamento de pessoal de nível superior) um teto limitando ainda mais o seu orçamento para 2019. Há um corte ainda maior feito em relação a 2018! Quando pensamos que não dá para piorar, o chão se abre sob nossos pés.

Que fique claro: O ofício do CAPES que alerta sobre a paralisação da pós-graduação em 2019 – cujo link segue abaixo – é consequência da PEC do Teto de Gastos. Alertamos de todas as formas que essa legislação absurda inviabilizaria a educação, a saúde e a pesquisa. Tem saída? Sim. Derrubar esse teto.

Para que TODAS as bolsas de pós-graduação não sejam cortadas em agosto de 2019, a Capes precisa de R$ 300 milhões. Para se ter uma noção se há ou não dinheiro para isso, Temer gastou mais de 800 milhões em emendas parlamentares pra convencer os deputados aprovarem essa maldita PEC.

Sabe o que vai acontecer se isso não for revogado? A suspensão de TODOS os pagamentos para bolsistas de mestrado, doutorado e pós-doutorado a partir de agosto de 2019! Serão quase 100 mil discentes e pesquisadores interrompendo a pesquisa!

Acabou? Não!

Teremos a interrupção do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência (Pibid), do Programa de Residência Pedagógica e do Programa Nacional de Formação de Professores da Educação Básica (Parfor). Também será interrompido o funcionamento do Sistema Universidade Aberta do Brasil (UAB) e dos mestrados profissionais do Programa de Mestrado Profissional para Qualificação de Professores da Rede Pública de Educação Básica (ProEB)!

Pessoas lindas, foco aqui: não haverá pagamentos para os profissionais que atuam pela pesquisa em Educação no país no ano que vem! Serão fechados 750 cursos (mestrados profissionais, licenciaturas, bacharelados e especializações) pelo Brasil!

Um corte orçamentário desse tamanho acabará com a nossa soberania. Quem vai respeitar um país que não valoriza a pesquisa?

Serão “só” os profissionais que não terão mais pagamentos que serão prejudicados? Ledo engano. Todos nós seremos! Como viver sem ciência? Como sobreviver sem estudo? Como crescer fazendo um corte tão profundo na Educação? Como iremos evoluir como sociedade sem pesquisa? Como iremos curar as nossas doenças? Como iremos cuidar do nosso meio ambiente?

Todas as pessoas que valorizam a pesquisa precisam se voltar com seriedade para essa causa. Necessitamos de uma ação urgente do Ministro da Educação para continuarmos vivendo de forma digna e seguirmos tendo orgulho do que produzimos neste país.

Um país sem pesquisa é um país sem respeitabilidade, sem brios, sem excelência.

Socorro…

———

Segue o documento:

https://sei.capes.gov.br/sei/controlador_externo.php?acao=documento_conferir&codigo_verificador=0746852&codigo_crc=6755A444&hash_download=ef5e65b749e9b6a0c124c56e438345f0dbb86d4b097fccd29f4b4221365642ee971b5a5e507aea925d83d67d1d4d79f08696fa5be30b507aa19122ff68c396a9&visualizacao=1&id_orgao_acesso_externo=0

Caindo de paraquedas na Assembleia

Elika PT

Ontem, no meio do Festival Lula Livre, fui freada, literalmente e metaforicamente, por uma mulher, petista, militante que fez questão de me dizer que não apoia a minha pré-candidatura por não acreditar que eu consiga fazer algo, se for eleita, tão bem como outras pessoas que ela conhece.

– Há muita gente na militância há anos muito mais preparada do que você para o cargo, ouvi. Para ser política tem que ter experiência. Não basta ser famosa na internet e cair de paraquedas na Assembleia. Tem que ter vivência de rua. O meu apoio será para essas pessoas que lutam há anos e não para quem apareceu agora do nada.

No que pese o respeito à opinião contrária e ao fato de eu sequer ter pedido o apoio dela para essa tensa e nova fase que estou vivendo, conforme a moça falava, eu me lembrava das inúmeras pessoas que apareceram na minha frente, muitas delas amigas e familiares, para me dizer de infinitos jeitos: “Não faça isso. Você não vai conseguir.”

Quando criei o meu blog “Minha Vida é um Blog Aberto” onde escrevo crônicas sobre os mais diversos assuntos e, sobretudo, falo de mim mesma, aconselharam-me a parar pelo perigo da exposição. Não só não parei como inscrevi várias crônicas do meu blog em um concurso nacional e hoje sou vencedora do Prêmio Saraiva de Literatura na categoria crônicas. Tenho um livro premiado homônimo ao meu blog: Minha Vida é um Blog Aberto e publicado por uma das maiores editoras do Brasil.

Quando fui fazer mestrado, ouvi da minha sogra na época: “tem certeza? Como vai dar conta de filhos, casa, trabalho e ainda fazer um mestrado?”. Respondi que ia diminuir minha carga horária nas escolas nas quais eu trabalhava na época. “Vai ganhar menos? O nível social de toda a sua família vai cair só porque você quer estudar? Acha isso justo?”, foram coisas que escutei.

Quando avisei ao diretor da escola particular na qual trabalhei que estava grávida da Nara, ele riu da minha cara, bateu palmas e me disse: “uma excelente maneira de acabar com uma excelente carreira é casando e tendo filhos”.

Quando fui fazer doutorado, ainda por cima mudando mais uma vez de área (sou graduada em física, mestre em história e doutora em filosofia), ouvi de colegas de trabalho e de muitos outros que me acompanhavam: “por que não fazer algo sobre Educação? Qual a necessidade de mudar de área? Você sabe que você vai concorrer com quem se graduou e fez mestrado em filosofia! Você tem esperança de passar numa prova de doutorado? Você nem sabe quem foi Platão direito!”. Hoje tenho dois livros publicados sobre Filosofia da Ciência para jovens e crianças: Como Enlouquecer seu Professor de Física e Isaac no Mundo das Partículas que virou até espetáculo infantil. Consegui fazer a conexão entre ciência, filosofia e educação na literatura.

Quando me matriculei no curso de italiano, já no meio do doutorado, com três filhos, casada e trabalhando, ouvi: para que estudar italiano se isso não vai te dar dinheiro nenhum e só vai te afastar mais ainda de seus filhos? Qual a necessidade disso? (Consegui fazer dois capítulos de minha tese que ficaram em altíssima qualidade por ter sido capaz de ler um livro que só tem em italiano e até hoje me deleito lendo literatura italiana no original).

Quando fui fazer a prova do Cefet estava terminando meu mestrado e grávida do terceiro filho. Ouvi de quem dormia comigo: “Só tem uma vaga e você não está dando conta de sua vida. Jura que vai insistir nisso?”.

Entendo perfeitamente que título não representa capacidade intelectual. O maior exemplo é Lula, mas temos outros infinitos por aí. Consigo compreender a preocupação da militante e repito aqui parte do que eu disse a ela:

– Não há regras para o sucesso. Assim como há políticos que estão aí há anos na prática e que nada fazem, é possível vermos pessoas novas entrando com muita vontade de fazer uma política diferente e isso precisa ser considerado.

Para ser uma boa representante do povo, precisamos entender sobre as pautas que estão em jogo e ter disposição para brigar por elas.

Estou pré-candidata a deputada estadual cuja principal função é propor, emendar ou alterar os projetos de lei que representem os interesses da população. Além disso, uma deputada estadual tem que fiscalizar o trabalho do governador, garantindo a boa administração do Estado, julgar anualmente as contas prestadas pelo Executivo estadual e fiscalizar outras ações administrativas. Mas o mais difícil não será isso. O desafio será enfrentar quem defende interesses contrários ao que eu irei representar. E é nesse ponto que, talvez, a moça tenha duvidado de minha capacidade.

Entendo perfeitamente também que estou fazendo parte de um grupo de renovação política vindo de uma camada privilegiada. Percebo, porém, que para falar sobre Educação Pública ninguém melhor do que uma pessoa que tenha sido professora da rede particular, da rede estadual e da rede federal de Ensino, que tenha passado pela vida acadêmica entendendo a necessidade do fomento à pesquisa e que esteja, atualmente, movida pela força do ódio vendo o sucateamento de nossas escolas e o avanço de projetos de lei que trabalham para dificultar a chegada das camadas mais pobres às universidades.

Sei que o mal-estar do Brasil e do Estado do Rio de Janeiro não será resolvido com vídeos no Facebook e muito menos textões como esse. Mas sim com políticas públicas que mostrem resultados. Para tanto, precisamos aumentar a nossa representatividade nas Assembleias, nas Câmaras, nos Congressos.

Se serei capaz, teremos que deixar o tempo mostrar isso. Não é mentira para ninguém que nunca militei organicamente nas ruas. Mas outro fato é que sempre fiz política a meu modo e sem paixão jamais andei.

Se os novatos e as novatas como eu terão que se adaptar para lidar com as complexidades de um governo, os arcaicos terão que se reinventar para lidar com essa cara nova que está chegando cheia de disposição e sem os vícios dessa forma antiga de se fazer política.

Vamos entrar pelo resgate do que há de melhor na política: a aglutinação de ideias, o respeito às instituições e o debate franco seja nas redes sociais seja nas ruas pelas quais, agora, tenho andado.

Com apoio ou sem apoio, farei o que sempre fiz: seguir em frente.

Borboleta-se com a sua vida.

Jaqueline, vou responder a você publicamente mudando o seu nome para preservar sua identidade. Você tem 16 anos e veio me pedir conselho pois está apaixonada e vive insegura a despeito de ele viver dizendo que te ama.

Procurou-me porque sabe que estou vendo arco íris até em noite de Lua nova. Como sou mais velha, você quis ouvir o que tenho a lhe dizer.

Pensei muito em algo que te acalmasse. Gostaria de dizer: fique tranquila, Jaqueline, isso passa. Quando você estiver na frente dele, saberá as palavras certas a serem ditas e como seduzi-lo para sempre. Basta respirar fundo. A insegurança vai diminuir, Jaqueline, e você voltará a ser uma mulher segura e não ficará ansiosa quando ele não mandar mensagem durante o dia. Você terá certeza de que o conquistou.

Mas não posso mentir para você, querida.

Há coisas que a gente sente não porque é jovem e inexperiente mas porque está viva e grávida das primaveras. Não importa com quantos homens você irá se deitar, Jaqueline querida. Você se sentirá como uma virgem ao ter ao seu lado um grande amor.

E será a mais idiota das idiotas, Jaqueline, independente da quantidade de livros que tenha lido quando estiver de frente para o único ser que te fará sentir dentro de uma biblioteca. Ficará em paz por estar perto dele, Jaqueline, mas também em guerra por querer ser mais agradável do que os aplausos da plateia são para um artista.

Jaqueline, você pode ser até uma ateia com mais de 40 anos, mas você verá fantasmas independente da idade quando se apaixonar. Fantasmas do esquecimento, da distância, da saudade. Do vácuo nosso de cada dia, Jaqueline. Tudo irá te apavorar mesmo quando sua cabeça estiver repleta de cabelos brancos caso encontre quem acaricie seu rosto com o cuidado de um florista preparando um buquê e te faça sentir viva como uma margarida falante.

Ainda assim, Jaqueline, se a paixão for correspondida, toda a dor oriunda de tantos medos será recompensada pelo melhor sexo que você fará em sua vida. Porque você não estará com a metade de sua laranja. Mas com quem te pegou inteira, fruta que estava caída, e te colocou de volta na árvore fazendo com que você faça fotossínteses, metamorfoses e as mais intensas polinizações.

Borboleta-se com a sua vida, Jaqueline. É só o que posso lhe dizer nesse momento.

Você está ferrada, querida. Aproveite.

Jardim sem borboletas

Tenho pavor de joaninha, me arrepio quando vejo borboletas, entro em desespero se me deparo com besouros. Qualquer inseto que faça zzzzzz me faz ver a morte. Já saí de um carro em movimento por conta de um percevejo. Desse jeito.

Muitos adultos já riram de mim e jogaram bichos em minha direção para me assustar e rir depois da minha reação. Outros, de forma completamente ineficaz, tentaram colocar insetos em minha mão à força para eu ver que eles não fazem mal algum.

Sei que há insetos que só existem para as flores e são cegos para mim. Porém, se nós fôssemos racionais de verdade, não beberíamos refrigerantes, não comeríamos enlatados, não fumaríamos, não andaríamos de moto e nem votaríamos em candidato declaradamente homofóbico e racista. Ou seja, não é nada que se combata com explicação porque dolorosamente eu sei. Apenas não tenho capacidade de aplicar determinados conhecimentos em mim mesma assim como agem os alcoólatras e os apaixonados.

Tenho uma história para contar para vocês. Eu havia me esquecido dela por muito tempo. Esse fato foi resgatado quando alguém me viu brincando com uma lagartixa.

– Como assim você não tem medo dessa coisa gelada e não gosta de joaninhas?

A pergunta me pegou de surpresa porque, de fato, pensando bem, não fazia sentido algum.

– Você tem medo de aranhas?, insistiu a pessoa atenta a mim.

Não. Tenho medo de baratas e besouros. Tenho respeito pelas aranhas. Mas medo definitivamente não. Adoro as lagartixas.

Até eu achei tudo estranho olhando por aquele ângulo. Revirando o meu baú com um giga cuidado, encontrei algo que estava muito bem escondido em mim.

Passei parte de minha infância em Minas pois mamãe é de lá. Finais de semana, feriados e férias sempre íamos para alguma roça. Eu tinha oito anos quando ocorreu o que vou narrar agora.

Era comum os primos todos se juntarem para brincar. Mamãe teve quinze irmãos e por aí vocês imaginam a quantidade de primos que tenho pelo mundo hoje e que, na época, eu tinha por lá. Mais precisamente em Itajubá. Era criança que não acabava mais.

Houve um dia em que estávamos numa fazenda. Eu vestia uma blusa de lã com gola alta e uma jardineira por cima. A roupa é muito importante nessa história e adiante vocês saberão por quê.

No final da tarde, um rapaz que trabalhava nessa roça da tia disse que ia colocar as vacas para irem pastar no morro e perguntou quem queria ir com ele e com as mimosas. A criançada toda, rapidamente, levantou a mão gritando: eu eu eu! e lá fomos nós morro acima.

O rapaz ia na frente e atrás dele uma dúzia de vacas. Andávamos pela estrada estreita de terra no meio do mato um pouco alto. Eu era a primeira criança atrás da última vaca e depois de mim deviam ter uns oito primos. Era um trenzinho de gado e de gente. Um atrás do outro – mesmo porque não havia espaço para ninguém andar de mãos dadas lado a lado.

Lembro-me do quanto eu estava encantada com o movimento do rabo da vaca que parecia um pêndulo perfeito. Na posição mais alta, a extremidade do rabo se enrolava numa espiral. Depois se desenrolava e fazia o movimento no outro sentido. Espelhado, simétrico, lento, perfeito. Hipnotizador.

Eu subia o morro distraída com as badaladas de um rabo bovino que não sabia o que era pressa.

Até que o primeiro vagão daquela locomotiva passou por debaixo de uma árvore baixa cujas folhas faziam cócegas nas costas das malhadas.

Rabo vem.

Rabo vai.

Rabo vem.

Rabo vai.

Quando a “minha vaca” passou pela árvore com aquele rabo lentamente inquieto, numa balançada bem dada, ricocheteou uma casa de abelhas que caiu em cheio bem na minha frente.

De repente, o céu ficou escuro.

Comecei a gritar.

Até que a última criança entendesse que tinha que descer o morro correndo, as abelhas entraram literalmente no meu corpo. Além da minha roupa que fagocitava aqueles insetos raivosos, a cada grito de dor, entravam abelhas pela minha garganta.

Quando enfim consegui ver minha mãe de perto que, a princípio, achou que era brincadeira aquele bando de crianças correndo e gritando, ela me pegou rápido e  me colocou debaixo do chuveiro frio com roupa e tudo. Recordo-me bem de ela passando pente no meu cabelo com força e o chão ficando chamuscado de abelhas que ela matava pisando.

Saí dali e fui direto para o hospital. E me esqueci de todo o resto. Acho que desmaiei. Quando acordei não abri os olhos porque não conseguia. Eles estavam inchados demais. Tive febre e as dores custaram muito a passar.

Seguramente, poderia ter morrido.

O tempo passou. E havia me esquecido por completo dessa história. Só me restava o trauma que está aí no mundo para zuretar com nossas vidas. Ao ouvir ou imaginar qualquer barulho de asas de algum inseto, meu corpo trava, meus músculos se contraem e a garganta ameaça a fechar. Tenho um tipo de cognição corpórea. Minha pele faz essa associação porque possui uma história.

Ainda que não me lembrasse desse episódio, sempre que vi alguém com medo de alguma coisa (qualquer coisa), respeitei. Dentro de mim, sabia que todos têm seus motivos para não viver adequadamente. Nem perguntei nunca o motivo do assombramento da pessoa (que, para mim, não fazia o menor sentido).

Rejeitei todos os conselhos de “me tratar”. Meu medo só incomoda a quem quer que eu seja de um determinado modo. Particularmente, não me importo com a minha falta de jeito de interagir com os insetos a despeito de sofrer, desnecessariamente, em muitas ocasiões. Como disse Clarice, a gente nunca sabe qual defeito que sustenta todo esse edifício.

No meu jardim, não há joaninhas e borboletas. Ainda assim meu deus. Como eu amo a primavera.

 


Texto dedicado a Maria Eduarda, uma menininha linda que me pediu para lhe contar uma história. Após ouvir essa com todos os detalhes mais caras e bocas de dor, disse que eu merecia ganhar mil reais por ela. 🙂 Como elogio de criança é o que há, resolvi escrever. Vai que alguém me pague por isso…

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Resistir não quero mais. Existir será meu verbo.

Há tempos ando com muito medo. Nunca pensei que um dia iria participar como candidata de alguma eleição – como está prestes a acontecer.

Exposição em tempo algum foi um problema para mim. Entendi desde cedo que não importa o que você sinta. Haverá sempre meio mundo com um problema igual ao seu. Portanto, não precisamos nos envergonhar em andar nuas por aí. E, assim, com seios e cérebro à mostra, caminhei até aqui.

Já fiz algumas terapias e olhar para dentro também não é aquilo que me apavora. O que tem me desesperado é a necessidade de mudança. Não é muita coisa que preciso alterar, mas pode ser tudo. Como dizia Clarice, nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro.

Jamais fiz nada em troca de curtidas e acredito que nunca ninguém me viu pedindo para compartilhar algo que eu tenha escrito. Penso que carinho quando reivindicado perde muito de sua essência. Mendigar amor: prefiro conversar sozinha. Bendita seja a masturbação.

Estamos na fase das pré-candidaturas em que é terminantemente proibido pedir voto. Não é a melhor fase da minha vida, mas desejaria que ela durasse para sempre. A campanha vai começar em Agosto e até lá preciso vencer esse monstro que habita em mim que sequer consigo nomeá-lo. Não é vergonha, pois se tem algo do qual me orgulho é da minha filiação e da minha coragem, modéstia à parte, de participar de tudo isso e encarar toda essa gente; muito menos… sei lá meu deus muito menos o quê.

Escrevo sobretudo para mim mesma. Preenchendo uma página em branco de um editor de textos, vou me sentindo não mais esclarecida – porque isso beira o impossível – e muito menos mais segura – porque essa palavra foi inventada. Vou me sentindo como aqueles que estendem a mão e recebem o pouso de uma borboleta ou aqueles que leem ao ar livre e são surpreendidos por um cocô de passarinho no parágrafo do texto com o qual conversava.

Estou me lembrando aqui das inúmeras vezes que divaguei sobre as minhas inseguranças com vocês. Seja na maternidade seja na separação seja na escolha de um esmalte ou com a vinda de um novo amor, eu me desesperei. Sou mesmo muito desajeitada com a vida.

Agora estou pré-candidata a deputada estadual pelo PT_RJ. Se tudo der certo, despeço-me das salas de aula que considero o local mais sagrado que existe. Se tudo der errado, seguirei realizada em minha profissão, porém, como dizem, totalmente trabalhada na revolta por ver as escolas públicas sendo sucateadas e nada poder fazer. De qualquer forma, haverá um tombo gigantesco e já sigo em queda me apoiando no ar, relativizando o certo e o errado.

Tenho tomado um cuidado comigo mesma como se eu fosse um pudim sendo desenformado. Procuro me inspirar na suavidade dos estúpidos, a mesma que faz com que um touro ande com um certo charme. Por outro lado, sinto-me tão poderosa como um ogro que possui uma chave (de uma porta que ele não sabe qual é (e que pode ser de um castelo que há tanto havia sido demolido)). Sem nomear nada por dentro, imagino essa chave quando sinto o de-repente-tantos-sonhos. Penso assim bonito porque se eu não der grandeza e magnificência ao meu novo mundo, estarei perdida. Seja lá o que for tudo isso, tem muita força e sinto medo.

A verdade, se querem saber, é que aceitei a minha grande contingência. Não consigo, confesso, livrar-me dessa ameaça que é a minha ânsia de viver tudo em profundidades. Contenho-me da mesma forma que jamais gritei de alegria ao ver um filho dando o seu primeiro passo para que ele não se assustasse.

Não sei exatamente com o quê estou lidando. Entendo que a compreensão é feita através das palavras não ditas e não entendo a minha necessidade de viver tudo isso. Dizemos a verdade quando a negamos de forma delicada.

Sei que aceito humilde o medo e toda essa insegurança como quem aceita um batismo.

Tenho minhas dúvidas se conseguirei pedir lá na frente para que depositem em mim a esperança já que sou tão escabreada. Para isso, tenho frequentado às mulheres. Mal consigo dizer que sou pré-candidata sem sentir o chão tremer. Elas sabem o que eu sinto e já tem agido sobre mim.

Há tempos ando com muito medo. Sem ele, nunca caminhei e suspeito que ele seja o meu combustível. A despeito de tantos fantasmas, saibam que sou uma ameaça (para aqueles que temos chamado de inimigo), pois tenho a tirania dos que necessitam. Resistir não quero mais. Existir será meu verbo.

Castração não é a solução.

Não defendemos a castração química em caso de estupro porque isso não resolve nosso problema.

Desenhando para entenderem:

1- Homens castrados quimicamente estupram.

2- Estupro não se resume a ato sexual.

3- Não é só um pênis que entra em uma vagina.

Para quem não leu:

Artigo 213 do Código Penal. O estupro consiste em “constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, a ter conjunção carnal ou a praticar ou permitir que com ele se pratique outro ato libidinoso”. A pena é de seis a dez anos de prisão.

Estupro tem a ver com o subjugamento da mulher. Um beijo forçado, segundo a lei, pode ser considerado estupro. E é. A castração química pressupõe que os estupros são causados pela libido incontrolável, em vez de considerá-los crimes de poder e de controle. Um homem castrado quimicamente poderia continuar tendo atitudes violentas contra mulheres, ainda que não conseguisse consumar o ato sexual pela penetração, mas inserindo objetos e cometendo outras formas de agressão.

Estupro é sobre violência, não sobre sexo. Esse é o ponto principal.

Definitivamente, essa não é a solução. Precisamos combater a cultura do estupro e a violência contra a mulher. Isso sim seria eficaz, pois somente através desse enfrentamento conseguiríamos ensinar a população a essência das palavras “respeito” e “consentimento”.

Mas mais do que isso. A medida seria uma perfumaria pois tem um prazo de duração irrisório. Queremos mudanças efetivas e não uma maquiagem para disfarçar o problema real.

Depois que o efeito passa (e é rápido esse efeito), o criminoso pode voltar a ter ereção. E, durante o efeito, ele não está impossibilitado de estuprar porque o estupro já é cometido por muitos homens que possuem dificuldade em ter ereção, vale observar.

No mais, a medida não teria garantias, pois o resultado depende da mente de cada paciente e, como já apontaram vários especialistas de saúde, pode ser revertido com ingestão de Viagra, por exemplo.

Se levarmos em consideração o fato de que isso pode destruir o organismo do cara todo podendo comprometer fígado, rins, causar diabetes, retardo cognitivo, etc., enfim, se refletirmos sobre isso, a castração parece ainda mais controversa. Vejamos:

“Quero mais é que ele morra!” não pode ser argumento, a meu ver, porque, se assim for, temos que pular da castração para discutir a pena de morte de uma vez. A medida da castração configura um tratamento altamente desumano ou degradante que se equipara à tortura e interfere na integridade física e moral do estuprador e o mais importante: sem garantia alguma de que ele deixará de ser violento.

Não é isso definitivamente que queremos.

Não precisamos nos tornar seres iguais ou até piores que o estuprador para impedir que o estupro aconteça em nossa sociedade. Há outros caminhos que indicam ser muito mais efetivos e duradouros; por eles andaremos.

Uma questão:

Por que, de uma forma geral, as pessoas que propõem a castração química como solução são as mesmas que resistem a um debate sobre igualdade de direitos, conscientização e empoderamento das mulheres?

E mais outra para terminar:

Se as mulheres que são vítimas do estupro em sua maioria acham que castração química não resolve o problema, por que diabos que homens, que são, para nós, todos estupradores em potencial, insistem (de forma até violenta) que isso resolve?

Para não esquecer quando for pensar no assunto: em muitos casos, os estupradores são pessoas da própria família, quiçá marido e namorado, ou amigos próximos. Por isso, quando afirmamos que “Todo homem é um estuprador em potencial” queremos dizer que para nós, mulheres, os estupradores não têm “cara de estuprador”. Para nós mulheres que já sofremos assédio (e a campanha ‪#‎PrimeiroAssédio‬ mostrou que são todas nós ou algo próximo de 100%) o medo e o risco são constantes justamente por não sabermos de quem e quando podemos sofrer um abuso.

Pode ser um professor, um médico, um padre ou pastor, o chefe, o amigo ou mesmo o padrinho, o tio ou o pai… E, claro, pode ser inclusive um desconhecido que nos pega na rua. A expressão fala de como para nós, mulheres, o perigo de ser estuprada é iminente.

Então se você é um homem decente, saiba que essa expressão não é para te atacar. É sobre como nos sentimos ameaçadas até mesmo nos locais que deveriam ser nosso porto seguro.

E acho bom que (até ordem contrária) você avise a sua filha, a sua afilhada, a sua irmã e a sua mãe que todo homem é sim um estuprador em potencial. Se tivessem me avisado isso com todas as letras, talvez eu não tivesse sofrido o que sofri com um médico, um vizinho e um desconhecido na rua. Todos me pegaram, me sarraram, colocaram o pênis para fora… e, pasmem, quando eu ainda era criança. Não fui estuprada segundo muitos pensam, mas fui se seguir o texto da lei e não o senso-comum. Quando adulta já perdi as contas de quantas vezes fui assediada ou fui tratada de forma desrespeitosa.

Sendo assim, entenda: não é sobre você. É sobre como nos sentimos ameaçadas e sem saber quando e em quem confiar.

Quando falamos isso não estamos querendo ofender e muito menos atacar. Queremos apoio. Estamos pedindo socorro e reflexão profunda sobre o tema porque há mulheres sendo estupradas diariamente e a castração química não vai impedir que esses crimes continuem ocorrendo.

Viajando com Isaac

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Estou morta de cansaço, mas quero compartilhar algo ímpar que aconteceu hoje em minha vida.

Muitos já sabem que o espetáculo Isaac no mundo das partículas está novamente em cartaz. Desta vez, porém, o financiamento foi via benfeitoria, ou seja, conseguimos reestrear com a colaboração de muitas pessoas.

O que vocês não sabem é o quanto trabalhamos para alcançar a meta. Cada um de nós forneceu e produziu o que podia para ajudar nas recompensas. Por exemplo, a Joana Lebreiro, diretora do espetáculo, ofereceu aulas de teatro com ela para quem contribuísse com uma determinada quantia. Fizemos botons, CDs, chaveiros e vídeos de agradecimento. Eu, particularmente, ofereci meus livros autografados e… aí que quero chegar, palestras para escolas sobre Física de Partículas.

Nunca dei aula para crianças. Não sei dar bom dia para mais de cinco delas juntas. Tenho medo de parecer apresentadora de programa infantil. Escrevi um livro para a molecada mirim baseado nos diálogos que tive com Yuki. E só.

Pois não é que contribuíram lá com um tanto no financiamento coletivo para receberem a palestra nas escolas? E agora?!

Comigo é tudo assim. Não penso. Vou fazendo, vou oferecendo coisas no calor das ideias e quando vejo tô desesperada com um desafio enorme pela frente.

Vou dizer o que aconteceu. Peguei todos os livros que tinha sobre o tema. Reli várias passagens. Refiz várias contas para aquecer os neurônios. Separei fotos do CERN, montei os slides tudo em sequência cronológica. Lindinho. Coloquei ilustrações do livro do Isaac para embelezar a palestra. Estou há umas duas semanas fazendo isso. Ontem à noite terminei. Ufa! Em tempo.

A palestra foi hoje pela manhã no CEAT em Santa Teresa.

Acordei três e meia da madrugada. E não dormi mais. Fiquei pensando nos slides, no livro, nas metodologias tradicionais que massacram a criança de informação que elas não querem saber.

E pensei no quanto a curiosidade move um cientista.

Mudei tudo.

Decidi não usar nada que levei dias preparando.

Às onze da manhã estava diante uma turma de uns 50 alunos com idade em torno de dez anos. Apavorada como ficam todos que vão fazer algo que não tem a menor ideia no que vai dar.

– Bom dia. Meu nome é Elika Takimoto. Vim aqui dar uma palestra. Mas não vou falar nada a não ser que seja perguntada. Só darei a primeira informação. Se vocês não perguntarem nada, eu muda ficarei. Meu nome é Elika, sou professora de Física e fiz um curso de Física de Partículas no maior laboratório de física do mundo.

Pronto. Me calei.

Umas oito crianças levantaram a mão.

– O que é física?
– Esse laboratório fica onde?
– O que se estuda lá?
– Física de Partículas? Tem outros tipos de física? Por que a divisão da física?

Respondi todas as questões. E a cada resposta mais crianças sinalizavam que queriam participar.

E assim, por uma hora e meia, tive várias pessoinhas me bombardeando com pontos de interrogação. Falamos sobre Big Bang, sobre a origem da massa, sobre Física Quântica, sobre a natureza da luz, sobre buracos negros, sobre a relatividade de Einstein, sobre Deus, sobre espaço e tempo e sobre o espaço-tempo, enfim, sobre Ciência sem rodeios.

Tive que interromper e sinalizar que a palestra estava terminando. Ao final, deixei claro para as crianças que todas as perguntas que elas me fizeram foram feitas pelos maiores cientistas que já passaram pela Terra e várias delas ainda estão sendo respondidas lá no CERN, o maior laboratório de física do mundo.

Provoquei dizendo que muitos dos que lá estavam hoje conversando comigo, pela profundidade das perguntas, podem ser os cientistas que irão responder às principais questões que estão hoje em aberto.

Não subestimei meu público. Não tive dedos em tocar em nenhum assunto e fiz questão de mostrar que a ciência é um conhecimento extremamente poderoso e perigoso porque pode transformar o mundo ou acabar com ele. Daí a necessidade de entendermos minimamente do que se trata e não ter medo das equações, pois elas são frases como uma outra qualquer.

A física quântica sequer é ensinada no Ensino Médio e hoje tive uma turma de crianças alucinadas por querer saber mais sobre o assunto. Orientei como eles iam continuar pesquisando na internet e alertei sobre a quantidade de informações erradas que temos nas redes.

Era isso que queria compartilhar antes que meu dia acabasse. Estou extremamente feliz e morta de cansaço. Só não sei se sonharei mais quando dormir ou agora em que vislumbro um mundo onde todas as crianças sintam prazer em aprender e entendam que crescemos muito mais nas dúvidas do que nas certezas.

Jamais pensei quando escrevi Isaac no mundo das partículas que iria tão longe dentro da nave do meu personagem.

Gratidão eterna para Joana Lebreiro e Camila Vidal (diretora e produtora do espetáculo) que vivem reabastecendo o meu foguete.