Viajando com Isaac

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Estou morta de cansaço, mas quero compartilhar algo ímpar que aconteceu hoje em minha vida.

Muitos já sabem que o espetáculo Isaac no mundo das partículas está novamente em cartaz. Desta vez, porém, o financiamento foi via benfeitoria, ou seja, conseguimos reestrear com a colaboração de muitas pessoas.

O que vocês não sabem é o quanto trabalhamos para alcançar a meta. Cada um de nós forneceu e produziu o que podia para ajudar nas recompensas. Por exemplo, a Joana Lebreiro, diretora do espetáculo, ofereceu aulas de teatro com ela para quem contribuísse com uma determinada quantia. Fizemos botons, CDs, chaveiros e vídeos de agradecimento. Eu, particularmente, ofereci meus livros autografados e… aí que quero chegar, palestras para escolas sobre Física de Partículas.

Nunca dei aula para crianças. Não sei dar bom dia para mais de cinco delas juntas. Tenho medo de parecer apresentadora de programa infantil. Escrevi um livro para a molecada mirim baseado nos diálogos que tive com Yuki. E só.

Pois não é que contribuíram lá com um tanto no financiamento coletivo para receberem a palestra nas escolas? E agora?!

Comigo é tudo assim. Não penso. Vou fazendo, vou oferecendo coisas no calor das ideias e quando vejo tô desesperada com um desafio enorme pela frente.

Vou dizer o que aconteceu. Peguei todos os livros que tinha sobre o tema. Reli várias passagens. Refiz várias contas para aquecer os neurônios. Separei fotos do CERN, montei os slides tudo em sequência cronológica. Lindinho. Coloquei ilustrações do livro do Isaac para embelezar a palestra. Estou há umas duas semanas fazendo isso. Ontem à noite terminei. Ufa! Em tempo.

A palestra foi hoje pela manhã no CEAT em Santa Teresa.

Acordei três e meia da madrugada. E não dormi mais. Fiquei pensando nos slides, no livro, nas metodologias tradicionais que massacram a criança de informação que elas não querem saber.

E pensei no quanto a curiosidade move um cientista.

Mudei tudo.

Decidi não usar nada que levei dias preparando.

Às onze da manhã estava diante uma turma de uns 50 alunos com idade em torno de dez anos. Apavorada como ficam todos que vão fazer algo que não tem a menor ideia no que vai dar.

– Bom dia. Meu nome é Elika Takimoto. Vim aqui dar uma palestra. Mas não vou falar nada a não ser que seja perguntada. Só darei a primeira informação. Se vocês não perguntarem nada, eu muda ficarei. Meu nome é Elika, sou professora de Física e fiz um curso de Física de Partículas no maior laboratório de física do mundo.

Pronto. Me calei.

Umas oito crianças levantaram a mão.

– O que é física?
– Esse laboratório fica onde?
– O que se estuda lá?
– Física de Partículas? Tem outros tipos de física? Por que a divisão da física?

Respondi todas as questões. E a cada resposta mais crianças sinalizavam que queriam participar.

E assim, por uma hora e meia, tive várias pessoinhas me bombardeando com pontos de interrogação. Falamos sobre Big Bang, sobre a origem da massa, sobre Física Quântica, sobre a natureza da luz, sobre buracos negros, sobre a relatividade de Einstein, sobre Deus, sobre espaço e tempo e sobre o espaço-tempo, enfim, sobre Ciência sem rodeios.

Tive que interromper e sinalizar que a palestra estava terminando. Ao final, deixei claro para as crianças que todas as perguntas que elas me fizeram foram feitas pelos maiores cientistas que já passaram pela Terra e várias delas ainda estão sendo respondidas lá no CERN, o maior laboratório de física do mundo.

Provoquei dizendo que muitos dos que lá estavam hoje conversando comigo, pela profundidade das perguntas, podem ser os cientistas que irão responder às principais questões que estão hoje em aberto.

Não subestimei meu público. Não tive dedos em tocar em nenhum assunto e fiz questão de mostrar que a ciência é um conhecimento extremamente poderoso e perigoso porque pode transformar o mundo ou acabar com ele. Daí a necessidade de entendermos minimamente do que se trata e não ter medo das equações, pois elas são frases como uma outra qualquer.

A física quântica sequer é ensinada no Ensino Médio e hoje tive uma turma de crianças alucinadas por querer saber mais sobre o assunto. Orientei como eles iam continuar pesquisando na internet e alertei sobre a quantidade de informações erradas que temos nas redes.

Era isso que queria compartilhar antes que meu dia acabasse. Estou extremamente feliz e morta de cansaço. Só não sei se sonharei mais quando dormir ou agora em que vislumbro um mundo onde todas as crianças sintam prazer em aprender e entendam que crescemos muito mais nas dúvidas do que nas certezas.

Jamais pensei quando escrevi Isaac no mundo das partículas que iria tão longe dentro da nave do meu personagem.

Gratidão eterna para Joana Lebreiro e Camila Vidal (diretora e produtora do espetáculo) que vivem reabastecendo o meu foguete.

Fio anti democrático

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Meu cabelo está horrível e cada dia pior. Ele sempre teve muito brilho, um volume que me agradava, um caimento bacana para a estrutura dele. De uns tempos para cá, comecei a ter cabelos brancos e desatei a tacar tinta nele de 15 em 15 dias. Acho linda essa mulherada que assume os fios brancos, mas aqui eu mirei na Meryl Streep no filme O Diabo veste Prada e acertei na Bruxa do 71 do Chaves.

A tinta fez meu cabelo parecer cabelo de boneca que tem a juba lisa. Não consigo passar um pente porque ele está muito ressecado e embaraçado. Por outro lado, ele não é um cabelo cacheado. Dá-lhe escova, chapinha e coisas afins que têm deixado ele cada vez mais fraco e sem vida. O natural dele está confuso, indeciso como, por exemplo, muitos cidadãos brasileiros a respeito da paralisação dos caminhoneiros.

Daí hoje entrei numa dessas lojas que só vende produto para cabelo. Comprei um óleo de côco baratinho porque a Nara disse que tinha acabado o dela. Nara, minha filha, anda nessa vibe vegana e usa esse azeite de fruta para qualquer coisa seja de comer, de olhar, de transar ou de pentear.

Uma atendente muito simpática veio me perguntar se eu precisava de mais alguma coisa. Mostrei minha cabeleira para ela e a moça prontamente me ofereceu uns produtos mega profissionais e bem caros mas que “super iam valer a pena porque tinham óleo de Argan e Semi di Lino”, seja lá o que isso for. Parecia – pelo seu sorriso – ser tudo aquilo que essa crina caótica estava precisando.

Vim para casa e, como toda pessoa normal que compra produtos novos para cabelo, entrei no chuveiro e comecei a tacar de uma forma nada comedida os creminhos que iam me deixar com a cara da menina da embalagem.

Deixei secar naturalmente e tcharã! Nada de novo no front. Continuo brigada com o espelho. Gritei a Nara desesperadamente. Nara veio e mostrei a ela as mercadorias recém adquiridas e o resultado horroroooooso depois daquele processo super cuidadoso e pleno de esperanças como as que eu tenho com a restauração de nossa democracia.

Conversei com ela sobre ditadura militar, emendei o assunto no livro que estava lendo sobre politicamente correto e voltei o foco para meus fios que outrora tinha a cor da asa da graúna (tal como os da Iracema de José de Alencar) e agora estão na cor-Tonalizante-Casting-Creme-Gloss-400-castanho-claro-The-Walking-Dead-da-Loreal. Nara ouviu tudo com a mó atenção e perguntou quem foi que mandou eu comprar aquilo e quem foi que disse que aquilo era bom para mim.

Respondi baixinho e de cabeça baixa que foi a vendedora.

Ouvi sermão sobre como funciona o capitalismo, sobre sustentabilidade e cronograma de hidratação capilar. Nara, essa feminista marxista empoderada que mais parece um coronel, me mandou sentar e tacou metade do pote de óleo de côco nas minhas melenas irresolutas. Cá estou eu com as ideias deslizando de tão bezuntada que tá minha caixola sem saber no que isso vai dar. Tenho que ficar com isso por três horas.

Para o tempo passar mais rápido, vim dividir com vocês a minha ansiedade sobre o fio anti democrático que anda conduzindo nosso país e sobre o alinhamento da minha juba desnorteada. A única certeza é que se tudo der certo com o último, mesmo eu virando modelo de xampu, estou sempre pronta para me descabelar pela liberdade de nossos presos políticos. Porque uma mulher em paz com seus cabelos continua em guerra com quem ataca as suas ideias.

Batuquemos.

Choque de cultura: achou que não íamos falar da paralisação dos caminhoneiros? Achou errado, otário!

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Segue aqui minha humilde sugestão para um roteiro do programa Choque de Cultura.

Rogerinho do Ingá:

Você tava achando que a gente não ia falar da parada que tá rolando com os nossos companheiros caminhoneiros? Achou errado, otário! Tá começando mais um choque de cultura, programa cultural com os maiores nomes do transporte alternativo do país, sempre debatendo cultura e hoje: caminhão.

Vamo falar da paralisação dos caminhoneiros que é quando os caminhoneiros param, fazem churrasco, comem comida feita pelo MST e bebem uma cervejinha porque quem bebe não dirige!

Primeiramente temo que definir se é guerra ou nocaute. A população tá dividida. Quem começa? Maurílio!

Maurílio:

A atual paralisação no transporte rodoviário brasileiro é um momento que ilustra como, no setor, os interesses de trabalhadores e da empresas podem se alinhar. No momento em que uma crise afeta simultaneamente o faturamento de transportadoras e a renda de trabalhadores autônomos, demandas como o reajuste no preço do frete e a redução nos valores dos combustíveis podem facilmente se tornar pauta comum das duas part…

Rogerinho:

Maurílio, guerra ou nocaute! Se começar a explicar muito essa galera que só vê filme de 3 minutos vai dormir como a gente dormiu em 2001 uma odisséia no espaço. Se for pra fazer pensar, a gente vai fazer programa ensinando a jogar RPG.

Renan:

Me permita interromper, Rogerinho. Eu tô muito senfibilizado com esses pilotos que me ensinaram que no cruzamento a preferência é de quem tem mais coragem. Ver meus amigos tudo parado tá mexendo comigo porque eu sei o quanto eles gostam de correr.

Julinho:

Eu tô achando que é nocaute porque não tem uma ‘Central Única dos Caminhoneiros’ e parece que a população tá até sem legume com veneno pra comer. O povo tá endoidecendo, Rogerinho, porque tá com abstinência de agrotóxico!

Renan:

Eu não sei, Rogerinho. Guerra tem gente nova nas trincheiras. Só tem velho nessa paralisação!

Maurílio:

Eu queria observar, que os caminhoneiros formam uma categoria muito diferente, que tem experiência de greves em que foram um instrumental importante das classes patronais usadas para desestruturar, por exemplo, o governo de Salvador Allende no Chile.

Julinho:

Que Chile mané Chile. A gente tá falando de Venezuela.

Rogerinho:

Perfeito, Julinho! Tá faltando produtos básicos já e só se fala em Petróleo!

Julinho:

Mas parece que vai voltar tudo, Rogerinho. O presidente em exorcismo que congelou os investimentos na saúde por vinte anos disse que está preocupado com os insumos que não chegam nos hospitais e disse que vai negociar com os caminhoneiros.

Renan:

Julinho, é paradoxo o que chama isso. Rogerinho, me parefe que as empresas querem dar um nocaute porque têm algo como 55% do controle desse transforte, muitas dessas paralisafões podem ser decisão emprefarial sim, Rogerinho. Os 45% de caminhoneiros autônomos que restam, são muito afetados. Eles já estavam ganhando muito pouco, e o preço do combustível explodiu! Enquanto isso tinha motorista de uber oferecendo chokito. Inescrupulosos, Rogerinho!

Julinho:

O dono de um pequeno caminhão, quando presta serviço para uma grande empresa, ele é, ao mesmo tempo, um pequeno proprietário de um bem de produção importante e uma espécie de ‘proletário dos transportes’. Ele oscila entre esses dois.

Renan:

E se o caminhão for grande?

Rogerinho:

Não existe caminhão pequeno, rapá! Caminhão termina com ão porque é tudo grande!

Maurílio:

Estamos vendo um quadro crítico de recessão, que afeta o nosso amigo caminhoneiro e a nossa inimiga empresa. Nós estamos vivendo um processo em que há um interesse patronal e, ao mesmo tempo, uma revolta de nossos colegas de profissão caminhoneiros independentes, que não estão conseguindo se manter.

A gente não pode resumir como guerra se for coisa de trabalhador e nocaute se for de interesse de empresário. Não é tão simples assim essa situação…

Rogerinho:

Definiu muito bem, Maurílio! Se é coisa de trabalhador estamos em guerra, se não temos chance é nocaute! Vamos agora analisar os pontos fortes e pontos fracos dessa paralisação. Pontos fortes!

Renan:

Renanzinho não teve aula e eu pude ficar mais com ele.

Rogerinho:

Fez bem. Escola é um perigo. Por vezes a criança tá bem quietinha em casa, vai para a escola e volta falando coisa que a gente não entende. Ou morre no tiroteio.

Julinho! Pontos fortes da paralisação.

Julinho:

Memes.

Maurílio:

Voltei a ouvir alguns sucessos de Sula Miranda…

Rogerinho:

Para de falar de música, Maurílio! Isso aqui é um programa de cultura!

Julinho:

Ele não estava falando de música, Rogerinho.

Rogerinho:

Para terminar o programa: Pontos fracos da paralisação!

Maurílio:

As pessoas estão falando muito em trem e em melhoria do transporte ferroviário. Elas têm que manter o foco nas kombis e nas vans. E nada de explorar os animais porque isso não se faz.

Julinho:

O movimento sindical.

Renan:

Constituifão de 88. Eu tô querendo matar quem fala em intervenção militar, Rogerinho. Mas muitas vezes quem mata nesse país é tido como culpado!

Rogerinho:

Considerações finais. Quem quer fazer hoje as considerações finais?

Julinho:

Eu, Rogerinho. Queria dizer que esses radares têm multado demais a gente e que não há mais como burlar porque eles tiram foto! E esse guardas quando a gente fica puto e vem com pedaço de pau eles mostram logo a arma deles. Guarda tem essa mania de ficar multando quem usa celular e não tem a sensibilidade de entender que as vezes a gente precisa conversar quando dirige, eles acham perigoso mas não falam nada do cara que anda de moto com um motor que pode explodir entre as pernas…

Doutrinação marxista (?)

 

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Agora a moda é dizer que as escolas estão doutrinando alunos porque ensinam Marx. Reinaldo Azevedo, famoso colunista da Veja, disse que “o Brasil precisa de menos sociólogos e filósofos e de mais engenheiros que se expressem com clareza” condenando, como fica claro, a inserção dessas disciplinas no Ensino Médio.

Não foi sem propósito que havia – e há ainda – em muitas escolas muito mais tempos de aula de física, química, matemática do que história, geografia e agora filosofia e sociologia. O papel da ciência na formação dos jovens brasileiros para quem fez esse currículo – que muito serviu à ditadura – deveria ser somente o de possibilitar o domínio de técnicas para a melhoria do processo de trabalho, e não o domínio de técnicas de pesquisa para a investigação da realidade social brasileira. A sociologia e a filosofia sempre foram vistas como um dos melhores instrumentos para a formação de indivíduos com capacidade de questionar, investigar e compreender a realidade social. Não foi sem propósito que foi banida na época da ditadura e que agora sua inserção está sendo criticada por filósofos de direita como Olavo de Carvalho e colunistas da Veja.

Ensinar sociologia sem mencionar Marx é como ensinar física sem mencionar Newton e Biologia sem falar em Darwin. Se apresentar as ideias de um grande pensador é errado, prendam-me, por favor. Estou dando ferramentas para meu aluno pensar!

Mas sim, concordo que exercitar o início de um pensamento crítico e/ou reflexivo que leve o jovem a perceber em alguns antes desimportantes detalhes, fatos ou frases, as contradições, as desigualdades, a realidade a sua volta e que assim esse aluno possa se perceber em seu grupo, como parte deste grupo, se individuar, se compreender e compreender as diferenças, enfim, concordo que fazer o adolescente pensar em conceitos como ‘desenvolvimento social’, ‘ progresso’, ‘liberdade’ e tudo o mais pode ser extremamente arriscado para essa direita que usufruía bastante do antigo currículo sem filosofia e sociologia quando muitas escolas apenas adestravam os alunos para fazer provinhas de vestibular.

No mais, tudo que escreve é em defesa da continuidade da sociedade capitalista e sua desigualdade. Mas, nesse sentido, para esses colunistas da Veja isso não é uma “doutrinação”. A verdade é que somos CON-formados a aceitar nossa sociedade desigual desde a hora que nascemos. Isso posto, penso que ensinar Karl Marx é ensinar a ir além da aparência dessa desigualdade, é olhar para a história da formação do capitalismo e ver a necessidade de desnaturalizá-la, no sentido de entender que é construção histórica e, portanto, pode ser modificada.

Olavo de Carvalho e seus pares têm mesmo muito para se incomodar…

Para finalizar, segue a publicidade veiculada no jornal “O Globo” do programa “Fábrica de Escolas do Amanhã” da Prefeitura da cidade do Rio de Janeiro feita há pouco anos.

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Cabeças baixas, padronização e esteira de produção criam o forte significado de serialidade. Certamente, a analogia com o vídeo “Another Brick in The Wall” é imediata, pela serialidade da padronização dos estudantes como tijolos que formam o muro do sistema. A esteira está descendo o plano da foto, outra observação. Não há elevação de espírito com esse sistema literalmente cinza.

Entre isso e o que chamam de “doutrinação marxista”, o que é preferível para a mente de nossas crianças?

E agora, Mané?

E agora, mané?
A gasolina acabou,
a pobreza aumentou,
o gás subiu,
o patrão se irritou,
e agora, mané?
e agora, você?
você que não passou fome
que zombou dos pobres,
você que é perverso
que trama, “protesta”
e agora, mané?

Não respeita mulher,
Não respeita o discurso,
Não respeita carinho,
já não pode receber,
já não pode gastar,
divertir já não pode,
a noite esfriou,
o uber não veio,
o táxi não veio,
o motorista não veio
não veio a empatia
A democracia acabou
A democracia sumiu
A democracia mofou,
e agora, mané?

E agora, mané?
Sua estúpida palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
seu raciocínio furreca,
sua palavra de agouro,
seu neurônio de vidro,
sua incoerência,
seu ódio – e agora?

Com o celular na mão
se faz de morta,
não há quem lhe suporta;
quer correr para conversar,
mas a paciência acabou;
quer ir para Miami,
Vôos não há mais!
Mané, e agora?

Se você pensasse,
se você algo lesse,
se você lembrasse
das aulas pertinentes,
se você ouvisse,
se você raciocinasse,
se você estudasse…
Mas você não acorda,
você é burro, mané!

Com o exército na rua
qual capitão do mato,
sem democracia,
sem algo que usufrua
para ostentar,
sem cavalo preto
Para fugir a galope,
você pasta, mané!
Mané, até quando?

(Revisitando Carlos Drummond – E agora, José?)

Coisa de petista

 

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Você sabe por que a gasolina está aumentando, empresas de ônibus trabalhando com metade da frota, caminhoneiros parados e aviões sem decolar por falta de combustível? Antes de responder essa, outra pergunta: por que você bateu panela quando a gasolina era menos da metade do que está agora e hoje, diante esse caos, você está mudo? Vou tentar enfrentar essas indagações baseada em tudo o que ando observando.

Para tanto, alguns outros questionamentos:

Por que você disse que não aguentava mais a corrupção e colocou no poder os maiores corruptos? Por que você não enxergou naquele episódio triste do julgamento do impeachment (Pela minha família, por Deus, pela minha cachorrinha eu voto sim!”) que aquilo era um circo de horrores e ficou feliz com cada voto a favor do afastamento da Dilma mesmo vendo o nível daqueles discursos? Por que você desprezou o áudio de Jucá? Por que você, à luz de tudo o que está acontecendo, não acredita até agora que seja golpe e ainda hoje fala que “o importante é que não viramos uma Venezuela”? Por que fica feliz com a prisão de Lula mesmo sabendo que grandes juristas do mundo apontaram falhas gravíssimas nesta sentença e que há políticos comprovadamente corruptos soltos e contra esses você não manifesta ódio algum? O que o PT fez de mal para você?

Considere a possibilidade de você ter sofrido (como aconteceu em outras épocas da história) um tipo de lavagem cerebral a ponto de fazer com que você bata palmas quando direitos trabalhistas a duras penas conquistados lhe são retirados e que esteja vendo um único inimigo na sua frente: o “comunista” ou o “esquerdopata”.

É claro que o governo no PT não foi perfeito. Vide o nosso congresso. Foi com isso que Lula e Dilma tiveram que lidar. Justifica, porém, tamanho ódio? Como isso foi alimentado em você?

O golpe foi dado para acontecer exatamente o que estamos vendo. Há uma pauta que não beneficia o povo e que jamais seria aprovada pelo voto. Daí a necessidade de se tomar o poder pela força e de sucatear nossas escolas e universidades públicas.

Indo ao ponto da gasolina. Depois do golpe – e para isso também ele foi efetivado – iniciou-se em 2016 o processo de privatização da Petrobrás.

Surfando na onda do desgaste de imagem provocado pelos escândalos revelados pela Operação Lava Jato, o governo mudou – utilizando de um discurso de Salvador da Pátria – a política de preços praticados pela empresa. Na época, muitos escreveram sobre o quão prejudicial isso seria para o povo. A classe média deu de ombros porque “têm que acabar mesmo com o controle do Estado”.

Essa medida tomada por Temer fez com as variações de preço do petróleo no mercado internacional influenciassem diretamente o preço de nossa gasolina. Ou seja, mudanças lá fora ditaram o que era para ser feito aqui dentro. Felicidade para os neoliberais porque o governo ficou sujeito às regras do mercado, onde o principal interesse é a rentabilidade especulativa. Que se dane a contribuição da empresa para o desenvolvimento econômico e social de nosso país, assim pensam eles.

Ao mudar a política de preços, Temer sabia que os baixos preços do barril do petróleo seriam modificados em algum momento futuro. Se Temer não tivesse alterado a política do reajuste, as regras de como se dá o preço do barril, a gasolina não estaria custando hoje 5 reais o litro.

Então, você que tem medo do comunismo e se diz a favor do livre mercado, saiba que é isso que acontece quando o governo perde a autonomia de regular o preço das coisas produzidas aqui dentro. Investidor quer lucro. Estado deve visar o bem social acima de qualquer coisa.

Mas isso de Estado controlador é “coisa de comunista”. Então, se vocês odeiam o controle do Estado e é a favor de empresários governando no lugar de políticos que buscam diminuir a desigualdade social não pode mesmo bater panela porque tudo o que está acontecendo é o que você quer e, por isso, você está mudo.

Há tempo de acordar ainda. Acreditar que a gasolina está aumentando semanalmente porque estão tentando salvar a Petrobrás e resolver os problemas causados pelo PT é de uma ingenuidade sem tamanho.

Há possibilidade do preço do litro da gasolina diminuir? Acreditar nisso é acreditar em conto de fadas. Há um cartel dominando os postos de gasolina e o governo não tem mais como segurar esse valor pelas novas regras criadas depois do golpe.

Estado interventor e combater cartéis são coisas típicas de petista. Não sem razão, orgulho-me de ser pré candidata a deputada estadual por esse partido.

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O que o beijo uniu, a distância não separa.

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Nasci feminista como todas as pessoas neste planeta. Como qualquer criança, quis entender as regras do mundo. Quando, aos onze anos, minha mãe me explicou o que significa o vestido branco da noiva, rejeitei para sempre a ideia de adentrar uma igreja para me casar.  A imagem de todos me olhando sabendo que eu ia ter uma relação sexual pela primeira vez naquela noite me enchia de constrangimento. Como pode essa exposição de uma intimidade que só diz respeito à moça e ao rapaz?

O tempo passou. Vi várias amigas casando na Igreja, sendo levadas pelos pais até o altar e entregues ao marido. Outra coisa que sempre tive horror. A conotação disso para mim sempre foi forte e aterrorizante demais. É como se elas jamais fossem livres e sempre dependessem de um homem para protegê-las. Primeiramente o pai, depois, o marido. Idem com a mudança de sobrenome. Sempre falei que nasci Elika Takimoto e não haveria macho nesta Terra que me faria morrer com outro nome. A minha identidade jamais esteve  suscetível à mudança.

Casei-me no civil e não tive sequer uma festa. Ainda que me emocionasse em todos os casamentos que fui por entender o motivo da celebração, jamais senti falta de algo semelhante porque, não importa a religião, continuamente havia uma acepção machista nas cerimônias que presenciei. Sempre tive um excesso de cuidado comigo mesma.

Por crer na existência da felicidade como os seres humanos que bebem o vinho acreditando sorver o sangue de Jesus, dei adeus àquele que me viu lendo mais de duzentos livros porque ouvi uma outra vida me chamando. Separei-me desejando – com a mesma determinação daqueles que lançam um chinelo para matar um barata – nunca mais amar. Não havia mais o menor sentido eu, com quatro décadas de existência, viver em busca de um príncipe encantado. 

Houve a confirmação de que uma separação é sim um bicho de sete cabeças. Mas, constatei também que esse monstro morre fácil até quando encostamos em sua barriga uma faca de manteiga. Houve aquele famoso encontro comigo mesma, o sentimento de plenitude mesmo se vendo sozinha no mundo. Houve o tal do empoderamento. O reconhecimento de uma força que jamais supus ter.

A matemática da vida, no entanto, não tem a mesma lógica das quatro operações. Eu, completa como um transatlântico e livre no mar, atraquei-me em um porto, depois de anos navegando sem companhia, mesmo tendo feito a âncora virar pó. Andando inteira, deparei-me com alguém que fez um quarto ser meu paraíso. Não me dividi, mas dupliquei-me e hoje, para sermos um, juntamos nossas quatro partes.

Antes de nos vermos pessoalmente pela primeira vez, vejam vocês, pedi para que ele me aceitasse como sua esposa. Havia um não-sei-quê que eu não conseguira explicar, mas que me alegrava com mesma intensidade de quando senti a temperatura do mar do nordeste. Algo estava acontecendo que não admitia racionalizações. Não tinha vontade de pertencer a ninguém no sentido capitalista e simbolizado nos rituais de união que vemos por aí. Mas, na conexão que foi feita e consolidada após o primeiro beijo, constatei uma forma de existir parecida com o que acontece quando decompomos a luz branca em um espectro de várias cores.

Continuo sem querer ver ninguém me esperando em um altar enquanto eu ando em sua direção. Sigo firme abominando a ideia de usar um vestido branco. O que me assombra é essa primordialidade de um ritual que sacramente esse reconhecimento de que há magia, ainda que os príncipes não existam. De entrar de mãos dadas com ele em vários templos. De agradecer de joelhos sabe deus para quem já que sou ateia. Mas, Senhor, preciso dizer muito obrigada por ter entendido, enfim, para que servem os fogos nas festas de reveillon.

O que me surpreende é essa necessidade de que esse encontro, em um local sagrado,  seja abençoado por uma mulher negra como a Elza Soares, por exemplo. Nesse lugar iluminado preferencialmente pelas estrelas, mas que tenha ao menos uma vela acesa, quero lhe prometer todo o meu amor que é da mesma natureza do que sente a águia quando busca as alturas.

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Não costumo pensar nisso todo dia não. Mas hoje, como só se falou do casamento de Harry e Meghan Markle, queria deixar registrado que há coisas grandiosas acontecendo também no Brasil.

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