Desajeitados com a felicidade.

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Sou desajeitada com a felicidade, estou chegando a essa conclusão. Vivi períodos solitários e percebo que sou mais equilibrada visualizando o fundo do poço. Meu corpo dá tilte e a mente piripaca com grandes doses de endorfina, oxitocina e serotonina, os hormônios que fazem a festa no corpo de quem está amando e se sentindo amada.

Sábado passado, dia 14 de Outubro, conheci meus sogros, passeei com Pipo, vi Mozão se apresentando, jantamos juntos abraçadinhos e, à noite, como se tudo não bastasse, compramos uns petiscos e fomos ver um filme na casa dele.

Era para estar tudo, como dizem, a mil maravilhas. Mas grudada nele de frente para a tela onde estava passando um filme fodástico, eu tive uma crise de pânico. Assim. De repente. Do nada. Acontece sempre quando estou com ele.

Abril Despedaçado era o que estávamos assistindo. Mas curiosamente comecei a ver um outro filme em minha cabecinha que estava encostada no ombro dele: “De 1° de Abril à sexta-feira 13”, escrito e dirigido por mim mesma. Foi nesse intervalo aê que conheci Pipo, ele começou a fazer parte de minha vida e mudou-me por completa. Em, meodeos, seis meses apenas lá estava eu sendo recebida pela família dele. Em Brasília…

Os flashs de tudo o que já passamos se metiam na frente de Rodrigo Santoro e eu não mais ouvia o que os personagens estavam dizendo na película. O medo foi se apossando de mim. Percebi que ia ter uma crise de choro e, muito sem graça, pedi para Pipo parar o filme.

Ele prontamente atendeu a minha solicitação com os olhos esbugalhados que parecia que tinha injetado um litro de cafeína na veia e dois de RedBull nas artérias.

– O que foi, meu amor?

Ele me saca de longe e sabia que eu não estava lá muito bem.

Na noite anterior, a sexta-feira 13, enquanto tomava banho pensava que não era possível tudo aquilo. Que em algum momento Pipo ia virar um monstro e me mostrar a que veio. Que quando saísse daquele banheiro ele estaria com uma faca em riste me esperando. Coisinhas assim de imaginar quando estamos muito bem obrigada. Não só nada disso aconteceu como fui recebida com fogos e artifício na cama depois de ter me lavado e ficado cheirosona – da mesma forma que ele sempre faz quando chego na frente dele de cirolão bege, cheia de cecê e descabelada.

Voltando para sábado à noite.

De que jeito dizer tudo o que estava sentindo sem desesperar Pipo e fazê-lo sair correndo me achando uma louca? Como me lembrar de todas as lições de empoderamento que recebi das manas? De que manêla não sair metlalhando melda a tolto dileito? Cadê que conseguia. Olha que difícil esse negócio de verbalizar o que sente viu.

Eu sei que não temos garantia de nada nessa vida. Sei que homem nenhum jamais irá pertencer a uma mulher e vice-versa, independente do papel que assine ou do tamanho do ritual que sacramenta essa união. Sei que casamento de papel passado realizado na Capela Sistina pelo Papa e nada é a mesma coisa. Não há o que assegure a eternidade do que sentimos e sei muito bem que não temos o controle de porcaria nenhuma. Não há ninguém no comando. Nem Deus – já que Ele sequer existe para mim. Sei que carinho não se pede, amor não se exige, atenção não se mendiga. Se feito a pedidos, não é sentimento genuíno, é esmola mesmo.

Maldita sabedoria.

Por Deus gente. Como ser feliz e curtir esse momento lidando com a dura realidade que posso perdê-lo a qualquer instante?

Lembrei-me de um guru indiano em uns vídeos desses que passam em redes sociais. Ele dizia com uma barba branca comprida e fedorenta, impostando uma voz calma como o cinza e vestindo uma túnica alva como o tédio: “As pessoas dizem que amam peixe. E o que fazem elas? Elas que amam peixe tiram o peixe do mar, matam o peixe e comem o peixe! Se amassem mesmo, deixaria o peixe nadando em paz. Aí sim seria amor”.

Aff. Não era essa minha definição de amor desde primeiro de Abril… O amor aconteceu aqui porque alguém me pegou, eu, laranja inteira que rolava pelo mundo. E deu-me a sensação de ter me colocado de volta à árvore. Senti-me internamente florescer, amadurecer, viva e, como dizia Aristóteles, no meu lugar natural.

Confabulava perdida desse jeito aí e olhava para o Pipo que, tenso, esperava que eu lhe explicasse o que estava me acontecendo.

Enquanto tinha mozão na minha mira, percebia que estava apavorada com a falta de garantia que a vida nos oferece. Porém, deixando de lado muita coisa tipo tudo que aprendi na vida, lembrei-me do sábio vendedor paraguaio que dizia: la garantia soy djô!

Qual o quê tirar o peixe do mar e comer, minha gente. Casamento é pouco para dizer o que almejo fazer com esse peixe. O que quero é colocar esse guelrudo em cárcere privado lá em casa.

Como dizer isso para Pipo que se encantou pela pessoinha fofa, independente e bem resolvida aqui? Como não botar tudo a perder? De que forma cessar esse looping de pensamentos sem que alguém de fora (no caso, ele) ajude?

Sabe Deus como saiu isso de mim. Comecei a contar para ele sobre rituais de acasalamento e juramentos no altar perante um público. Falei do guru (Pipo deu uma banana para o guru enquanto falava do peixe nadando no mar), do quanto não acredito em nada e… não estava conseguindo concluir porque não tinha nada para fechar mesmo naquele raciocínio sem pé nem cabeça ou, vá lá, com pé, cabeça, nariz, orelha e mão parecendo, porém, um quadro de Picasso com tudo mutilado e fora de lugar.

Eu só queria pedir de joelhos para Pipo ficar comigo para sempre e não me largar nem por um minuto, mas não podia fazer isso porque isso não se pede a ningu…

– Meu amor, não me apavore. Nunca mais faça isso. Quando pedir para parar o filme fale antes “Pipo, eu te amo, está tudo bem, não vou terminar nada, só quero te dizer uma coisa”. Estava já desesperado achando que você ia dizer que não era nada disso, que não queria embarcar nessa loucura e que ia embora. Vivo com medo de você me deixar, de desistir de viver essa vida maluca na qual nos metemos. Não sei mais viver sem você. Você quase me matou do coração agora.

Sou desajeitada com a felicidade, mas Pipo sequer sabe cumprimentá-la. Impressionante. Valha-me Deus. Coitado. Relaxei e fiquei super deboa alegre contente livre leve e solta depois de saber que Pipo sofre muito mais do que eu. Abracei-o com toda força do mundo cheia de sorrisão para acalmá-lo. Amor é isso.

Se for para desgraçar a cabeça de tanta insegurança que ao menos esse ato seja compartilhado. Amém.

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Bússola quebrada

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Ontem, conheci minha sogra e meu sogro. Estava completamente em paz comigo mesma e, ainda que fossem as piores pessoas do mundo, continuaria preenchida de horizontes porque quem segurava a minha mão era ele – a pessoa que parou (com um martelo)  a minha bússola que girava girava girava como um pião de menino de antigamente.

Antes de dormir, falei com Pipo que precisaria escrever uns três livros para digerir, dissecar, analisar o turbilhão de emoções daquela noite.

Pela manhã de hoje, minha sogra perguntou-me se o café estava muito forte. Disse-lhe que não. Estava do jeito que gosto e, fofa que sou, agradeci.

Um filme passava na minha cabeça e, naquele instante, fui grata não somente a ela mas também a Deus (que sequer acredito) pelo café, pelo queijo, pelo mamão, pelo acolhimento e pelas fodas bem dadas com tanto amor que ultrapassaram esse plano físico e já estão no metafísico há tempos.

Enquanto orava, retoricamente falando, olhando para Mozão que mexia um ovo na panela para eu colocar no meu pão, ouvi dela que sorria para mim com os olhos:

– Ainda não sei das coisas que você gosta mas, pelo que estou observando aqui, teremos pelo menos trinta anos pela frente para nos conhecermos melhor.

Como se tudo não fosse já suficiente…

Dentre tantas coisas bacanas que já ouvi na vida, considero essa uma das mais preciosas.

Jamais pensei que um dia eu ficaria assim como agora aqui em Brasília. Tão perdida a despeito de ver a agulha fixa apontando para o norte e eu não ter mais dúvida em qual direção seguir.

Já me enrolei em muitos momentos da minja vida. Esse, porém, tem sua singularidade. Não estou sabendo lidar com tamanha felicidade.

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Como não a mala?

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Tenho andado para baixo e para cima. Literalmente. Os aeroportos agora fazem parte de minha vida. E eu não estava preparada para isso. Ou eu viajava de férias ou ficava por aqui. Nada disso de ir num dia e voltar no outro com roupas, livros para vender e computador na bolsa para palestrar.

Precisava de uma mochila maior com rodinhas que tivesse espaço para colocar essas coisas. Não era mala. Era dessas mochilas encorpadas de gente séria-mas-nem-tanto. Que atendesse as demandas da minha nova vida.

Basta comprar.

Qual o quê, minha gente.

Rodei várias lojas de bolsas e malas. Só encontrei mochila boazona do jeito que queria muito na cor preta. Modelo bem macho executivo com foco mas sem personalidade, sabe?

Bah. Cadê os modelos femininos?! Não tinha… para mulher só mochilinha frágil que não ia aguentar metade dos livros que carrego.

Nara, minha filha feminista antenada até além da conta, vendo meu desânimo estampado veio me lembrar que não existe brinquedo de menina e de menino. É tudo brinquedo-menine.

– Então, mãe, o que seria uma mochila de menina? Lembra das nossas conversas? Essas malas servem para você muito bem, mãe. Disse ela tentando me convencer da ausência ou fluidez de gêneros nesse momento.

Eu, diante aquela mochilaiada-mala-de-um-dia(-no-máximo-dois-vá-lá-três) tudo sem graça, sem flor, sem personalidade, eu toda empoderada desconstruida sim mas não cem por centa, fofa e meiga com o pé no século passado cuja infância foi regada a desenhos de princesas delicadas, euzinha, estava na maior bad crise white woman problem de mái láife.

– O que seria mochila de menina, Nara?!!, perguntei perplexa arrancando meus cabelos e olhando para toda aquele infinito mostruário inútil. Mochila ROSA! ROOOOSAAA!

Nara já vendo que não iria ser fácil me apontava desesperada outras bolses, males, mochiles tude horroroze!

– Também não quero essas estampadas de borboleta que parece que vão desmontar com dois livros! Quero uma com quatro rodas e tração em todas elas! Quero uma mochila lacradora mas não nível Pablo Vittar!

Os vendedores tensos mega tensos estavam também me empurrando várias porcarias de mulher perua. Nada contra, mas não era aquilo que queria, meu povo. Vamos respeitar a travessia das pessoa que estão num processo…

– Quero uma ROSA CHÁ COM RENDA sem estampa! Ou algo que o valha! E forte como essas ridícules!

Enfim, precisava de uma mochila boa. E comprei a que me atendeu bem. Em termos de conteúdo e não de forma, vale observar e frisar.

Gastei muitos dinheiros e não tive aquela satisfação que o capitalismo costuma dar para quem gasta tanto. Voltei com a mochila-mala para casa mas não feliz com aqueles que resolvem um problema.

Hoje vou estreá-la.

Arranquei o laço e o par de brincos de minha boneca amiguinha da estrela que estava no sótão e colei com super bonder na taki mala.

Enquanto o Deus mercado não se adapta ao meu estilo Beauvoir-Cinderela, vou dando meu jeito por aqui.

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Não era sobre pedofilia. Não era sobre corrupção.

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Lembram-se de quando a gente ficava se esgoelando dizendo: “eles não estão na rua contra a corrupção”? Com o tempo, o que alertávamos se confirmou. Provas foram expostas, malas encontradas, áudios liberados e… silêncio de quem fez um fuzuê com as pedaladas que são cometidas há anos (e que logo depois do golpe foram liberadas pela corja que está no poder, vale lembrar).

A frase épica de Bertold Brecht “a cadela do fascismo sempre está no cio” explica bem tudo o que aconteceu. Era um bando de fascistas no armário que estava sem graça de vir a público. Afinal, falar que odeia pobre e que quer mais que preto, mulher, trans, gays se explodam não pegava bem.

Daí veio 2013 e a Globo aproveitando-se daquelas manifestações “apartidárias” – cujas bandeiras da CUT eram proibidas – criou o vilão e o herói. O Brasil ficou dicotômico como os personagens das novelas. Há o bandido (PT) e o Salvador da Pátria (Moro). Esse tipo de narrativa novelesca o povo assimila bem como se entre o branco e o preto não houvesse uma infinidade de tons de cinza.

E a cadela no cio passou a copular devassamente.

Foi naquele contexto que os fascistas vestiram uma camisa de heróis da nação. Teriam a nobre missão de “livrar o Brasil da corrupção”. Caíram como patos e lá foram de verde e amarelo para as ruas achando que estavam salvando a nossa pátria.

Passou, de repente, a ser questão de soberania nacional falar mal do PT e tirá-lo do poder. Achavam e diziam eles. Eles. Os mesmo que estavam completamente irritados com as políticas sociais como o programa Mais Médicos, Bolsa Família e as cotas, vale observar.

O fascismo funciona exatamente assim para quem não sabe. O inimigo tem que estar bem definido e cabe aos fascistas desmoralizá-lo. Vídeos descontextualizados das falas da Dilma eram a cereja do bolo naquela época. Queriam ridicularizá-la a qualquer preço. Pessoas a chamavam de burra e riam da retórica de uma mulher que hoje está pelo mundo dando palestras a convite de grandes universidades. Como se conseguissem ser metade da metade que Dilma é.

E eles não param. Como 2018 está logo ali e Lula segue sendo preferência da população brasileira como mostram todas as pesquisas, é necessário desmoralizar a esquerda e tudo o que ela representa.

Incrivelmente pautas humanitárias e a defesa pela liberdade de expressão saíram das atas das reuniões da direita. Haja vista o que o MBL anda fazendo.

O episódio Homem Nu foi mais um exemplo de como se comporta a hipócrita cadela do fascismo.

Avisamos: não é sobre pedofilia! E os patos lá fazendo postagens “temos que proteger nossas crianças…”. Proteger de quê, cara pálida? Quando a gente perguntava isso, ouvia como resposta: contra a pedofilia!

Qual a razão dessa resposta sem nenhum sentido? Das duas uma. Ou a pessoa é burra de pedra a ponto de conectar uma performance artística sem o menor teor sexual com pedofilia ou falta-lhe caráter mesmo, pois faz isso com o intuito de diminuir a capacidade intelectual dos artistas e dos que os apóiam.

E a prova de que eles não estavam preocupados com as crianças porcaria nenhuma veio a galope: o caso do estuprador do Piauí.

O crime foi noticiado por todos os jornais. Silêncio dos protetores das crianças do nosso Brasil. O estuprador teve autorização para ficar com uma criança dentro de sua cela porque ajudava a família do menino financeiramente.

Segundo o levantamento do projeto, ligado ao Grupo de Pesquisa em Políticas Públicas para o Acesso a Informação da USP, enquanto o caso do museu teve 550 mil compartilhamentos, o do estuprador do Piauí ficou na média de 45 mil. “Uma relação de 10 pra 1”, afirma a página.

“No caso do MAM, as matérias muito compartilhadas estavam dispersas em várias publicações do Jornalivre, Veja, Folha, Instituto Liberal e Ceticismo Político, entre outros; no caso do estuprador do Piauí praticamente foram compartilhadas apenas matérias da Folha de São Paulo e do UOL”, disse a pesquisa.

Além disso, enquanto o caso do MAM motivou manifestações do Movimento Brasil Livre (MBL), da família Bolsonaro e de partidos conservadores, o caso do Piauí “não teve nenhum grande compartilhador” e não chegou a ser mencionado por aqueles que foram contrários à exposição.

E se alguém aqui achar que estou exagerando, deixo aqui as frases de um cartaz que está fixado no museu do Holocausto em Washington que tem como objetivo alertar as pessoas sobre os perigos do fascismo e como identificar seus primeiros sinais. Qualquer semelhança não é mera coincidência.

1. Empoderamento nacionalista contínuo.
2. Desdém por direitos humanos.
3. Identificação do inimigo como causa unificadora.
4. Supremacia militar.
5. Sexismo desenfreado.
6. Controle de mídias de massa.
7. Obsessão com segurança nacional.
8. Governo e religião interligados.
9. Poder/direitos corporativistas protegidos.
10. Poder/direitos de trabalhadores suprimidos.
11. Desdém pelos intelectuais e pelas artes.
12. Obsessão por crime e punição.
13. Corrupção e nepotismo desenfreado.
14. Eleições fraudulentas.

Não era sobre a corrupção e não era sobre pedofilia. É sobre extermínio de raças e de classes.

Acreditam agora ou precisam ainda de mais exemplos?

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Lá. Eles. Aqui. Nós.

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O Brasil é enorme e bem poderia ser dividido ao meio. De um lado, mortadelas. Do outro, os coxinhas. A divisão já existe, só iria ser física, ou seja, além do campo das ideias. Aí, quem sabe, teríamos mais paz.

Veja bem. Quem apoiou o golpe, quem até hoje não enxerga o golpe, quem votou no Aécio ficaria de um lado. Quem denunciou desde o início o ataque à democracia, do outro.

Cada lado teria seu próprio presidente.

A galera que odeia PT ficaria com as escolas dominadas pelos projeto “Escola sem Partido”. Nessas escolas, os professores só passariam os conteúdos que sempre foram doutrinados a passar. Não promoveriam debates e nem incitariam os alunos a se revoltarem contra as mazelas do mundo porque se assim fizerem serão denunciados pelos próprios alunos. Os professores ou nada comentariam sobre o tema ou falariam que o mundo é assim, sempre foi assim e cabe ao aluno estudar muito para sobreviver a esse sistema.

Do outro lado, teríamos escolas em que debateríamos sobre desigualdade social, as diversidades do ser humano, quem quisesse ir de saia poderia ir de saia fosse homem fosse mulher fosse sem definição, primaríamos por um ensino coletivo e não individualista, prepararíamos o cidadão não somente para o “mercado de trabalho” mas, principalmente, para conviver com o próximo e consigo mesmo trabalhando sua auto estima o máximo que conseguiríamos. Jamais falaríamos para um jovem que ele tem que estudar para “ser alguém na vida” porque todos nós já somos um universo de potencialidades independente da idade, da classe social e do credo. Ensinaríamos que se deve estudar porque só o conhecimento transforma a si mesmo e o mundo.

Do lado de lá, as pessoas que nunca foram a museus não precisariam se preocupar porque lá não teria museus. Os prefeitos que fecharam os locais das exposições continuaria a fechar outros e ninguém se importaria. Pelo contrário. Ficariam felizes porque os artistas não estariam “mamando na Lei Rouanet”. Toda essa galera lá.

Daqui teríamos a arte como sempre muito incentivada em suas infinitas formas. Continuaríamos torcendo o nariz para muitas obras mas jamais proibiríamos o artista expressar o que pensa.

E já que estamos falando de artistas, aqui teríamos Chico Buarque, Fernanda Montenegro, Wagner Moura, Duvivier, Xico Sá, Raduan Nassar. Lá, Lobão, Roger, Luana Piovani, Zezé e Luciano.

Lá. Bem longe daqui.

Aqui Paulo Freire. Pedagogia do Oprimido na veia. Lá Alexandre Frota ditando o que deveria ser ensinado para os jovens daquela metade do Brasil.

Do outro lado, capitalismo capitalismo capitalismo por todos os lados. Eles que falam que o socialismo não deu certo em nenhum lugar do mundo e desconsideram que só no continente africano 236 milhões de pessoas passam fome – de acordo com dados da ONU – e o número de suicídios em países considerados grandes potências na economia, eles continuariam tentando dar certo. Lembrando que aquele lado estaria pleno de pobres. Os pobres de direita.

Eles ficariam com esse sistema que pode ser definido, de forma resumida, como o sistema econômico baseado na propriedade privada dos meios de produção, na livre iniciativa e, sobretudo, na busca incessante por lucro. Como vivendo nesse sistema eles acabariam com a desigualdade social que é a liga que mantém o capitalismo um sistema sólido seria um problema só deles. Lá a concorrência continuaria sendo desigual pela natureza do capitalismo que privilegia aquele que já possui capital em detrimento daquele que nada tem. A elite lá ficaria bem consolidada e, claro, cada vez mais ávida por mais lucro.

Aqui deste lado não. Estaríamos buscando um novo sistema partindo do pressuposto de que toda a desigualdade social pode ser evitada por meio de atuação estatal e políticas públicas acertadas. Seria um sistema que não giraria em torno do Capital e do lucro pois entendemos que algo assim pode não trabalhar em favor dos princípios democráticos.

O comunismo seria um sonho que nos movimentaria de alguma forma, pois é o sistema que surgiu com o propósito de eliminar a desigualdade – e as próprias classes sociais – através da coletivização dos meios de produção.

Ah sim. A bancada evangélica ficaria lá. Claro. Aqui teríamos a convivência pacífica de todas as religiões já que a tolerância seria muito debatida em nossas escolas. Mas os valores morais de cada religião jamais transpassaria os muros das Igreja, muito menos chegaria ao nosso congresso e jamais em nossas escolas.

Lá a diminuição da maioridade penal já teria passado. O garoto de 16 anos pego assaltando seria preso e colocado nas celas com bandidos profissionais. Seria estuprado, aliciado para o crime, levaria muita porrada e em menos de dez anos, como previsto na lei, voltaria para a sociedade. Certamente, um ser renovado e pronto para cometer crimes muito piores. Direitos humanos continuariam sendo motivo de piada ainda assim para aquele lado do Brasil. Vai entendê-los…

Aqui investiríamos tudo o que tivéssemos em educação, arte e esporte. Somente por essa via o ser humano se transforma em um cidadão mais sensível e conseguiríamos mudar a sua essência. Bandido bom é bandido reabilitado. Esse seria nosso lema.

Lá. Ana Paula do vôlei. Aqui. Joanna Maranhão.

Lá. Malafaia. Aqui. Leonardo Boff.

Lá. Marta Suplicy. Aqui. Marcia Tiburi.

Lá. Constantino. Aqui. Sakamoto.

Lá. Janaína Paschoal. Aqui. Qualquer uma de nós em seu lugar.

Lá. Bolsonaro.

Aqui ficaríamos com aquele que é reconhecido no mundo inteiro por ter diminuído a mortalidade infantil e a desigualdade social. Ele. No meio do povo sempre conversando olhando nos nossos olhos como só ele sabe fazer.

Aqui. Lula.

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Precisamos conversar sobre tudo.

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A tática fascista é tentar desmoralizar o inimigo. Portanto, não raro vejo uma gama de comentários me atacando com o intuito de mostrar que falta a mim inteligência por defender o que acredito. É possível que estejam certos.

Então, fiz aqui uma seleção de alguns tópicos que considero importante discutirmos já que a violência tem aumentado em todo Brasil. Coloquei tudo o mais detalhado que consegui para que os que estão enxergando coisas que a minha mente limitada não consegue observar, mostre-me onde estou errando.

Não citarei a fonte porque entendo que não é nada pessoal e o discurso se repete apenas de formas diferentes. Vou dividir os assuntos da postagem para que eu mesma não me perca.

1 – Sobre a desmilitarização da polícia:

“Se for assaltado……em hipótese alguma deve chamar a PM !!!! A PM deveria estar sem armas…desmilitarizada………ligue para LIGHT….e peça uma iluminação melhor no local do delito……isso vai reduzir a criminalidade no seu bairro !!!!!!!

Há um equívoco sério nesse discurso. Para começar, desmilitarizar a polícia nem de longe significa a extinção de policiamento e sim de uma transferência desse “serviço” para uma polícia sem arquitetura militar.

Temos hoje duas polícias: a civil e a militar. A primeira tem como obrigação cuidar da investigação e apuração de infrações penais. A segunda, o policiamento ostensivo e “preservação da ordem pública”. Uma função que é importante ressaltar é a do combate ao tráfico de drogas. Até aí não há problema algum. Quer dizer, há. Mas o que está em jogo é o treinamento nos moldes das Forças Armadas que a polícia militar recebe. Militares são treinados e preparados para defender o país contra inimigos e o povo não pode ser considerado inimigo. Isso só faz sentido se estivermos em um Ditadura.

Quem defende a desmilitarização da PM percebe que o modelo de segurança pública que temos, do qual a PM é uma parte primordial, está basicamente falido. Basta olhar em torno, andar pela cidade e você vai perceber que há algo inseguro no ar.

Há um atrito entre a Polícia Civil e Militar bem conhecido. Criando-se uma instituição única não haverá motivo de rixa entre elas. Mas o principal ponto é que o projeto visa diminuir a própria fonte da violência da PM: a hierarquia que existe ali dentro.

A falta de critérios para utilização de armas “não letais”, a truculência, a gratuidade da violência, a atitude de colocar a tropa de choque, reintegrações de posse se tornarem espetáculos de carnificina, bombas de gás e balas de borracha ao lado de manifestantes já mostram o seu caráter repressor e violento desnecessário nesses momentos.

Unificar ou transformar não são coisas que se consigam de uma hora para outra. Por isso, é necessário que comecemos a discutir o tema de forma séria.

Então, desmilitarizar a polícia significa desmantelar a estrutura militar da PM, tanto no que se refere à subordinação ao exército, como à sua estrutura interna. A PEC nº 51 que trata disso prevê a unificação das polícias civil e militar e criação de uma única força de segurança pública. Esse é o modelo mais comum no mundo, vale observar.

2 – Sobre a legalização da maconha:

Se vc pegar seu filho FUMANDO MACONHA…….não o repreenda….e compre mais 100 gr para ele se divertir !!!!

Vale observar que o álcool e o cigarro matam muito mais gente e destroem milhares de famílias e são legalizados. O ponto que a pessoa quis atacar foi que eu defendo a legalização da maconha. Tenho meus motivos , um deles é saber que a maconha causa muito menos dependência do que álcool ou tabaco.

No mais, o uso do cigarro, como todos podemos perceber, diminuiu drasticamente sem que fosse proibido, apenas usando campanhas de conscientização. Se for legalizada, a sociedade vai ter que aprender a conviver com mais essa droga, tal e como tem feito com o álcool e o cigarro. Se há efeito negativo em seu uso, o processo de aprendizagem social será extremamente valioso para poder diminuir esses efeitos como vimos com o cigarro.

Dizem que a legalização pode restringir melhor o acesso a menores do que proibição. Há quem acredite no contrário. Eu não sei o que pensar, mas há muitos lugares no mundo em que a legalização não significou, de fato, um aumento, a longo prazo, no número de usuários.

Não legalizar é apenas dizer que tudo continua como está, ou seja, com um lucro exagerado do negócio do narcotráfico. A legalização certamente reduziria de forma considerável o preço das drogas, pois acabaria com os altíssimos custos de produção e intermediação que a proibição implica.

É sabido e muito denunciado que existe uma ligação entre o narcotráfico e o poder político. A legalização acabaria com esta aliança. E mais, poderia significar o fim de uma relevante fonte de corrupção. Como disse, não é nenhuma novidade nem segredo que uma parte crucial dos políticos tem sido extorquida por narcotraficantes.

Outra possível consequência da legalização das drogas seria a economia de um bom montante da ordem de grandeza de milhões de reais que é usado em seu combate. Esse dinheiro poderia ser destinado para outra coisa como o combate a outros tipos de crime.

Enfim, se eu pegar meu filho fumando maconha quando ela estiver legalizada, é possível que eu aja da mesma forma quando o vejo tomando uma cerveja. Junto-me a ele sem medo de ser feliz conversando (sempre) sobre o perigo do excesso de seja lá o que for.

3. Sobre Direitos Humanos:

Se alguém da sua família for assassinado……não fique revoltado com o bandido……ele não passa de um coitado, oprimido pela sociedade, faz isso pq não teve aulas de filosofia na escola….e tiraram a educação física que o tiraria da vida do crime pra ser jogador de futebol !!!!

Achar que os defensores de Direitos Humanos são insensíveis às ações dos ditos “bandidos” e “vagabundos”, e que bastaria estar cara a cara com um revólver ou ver um filho ou parente ser morto para mudarem de opinião mostra o quanto não entendeu o assunto.

Para começar, não há possibilidade de prisão perpétua no ordenamento jurídico brasileiro. Ninguém, eu disse ninguém, segundo o que determina a lei, fica mais de 30 anos em cumprimento de pena. O que isso quer dizer? O cara pode ter cometido o crime que for, ele vai voltar para a sociedade.

O ponto é que não se constrói um prédio começando pela cobertura. Cabe uma pergunta: em que medida preferir ou incentivar medidas paliativas como as polícias (militares!) que invadem as favelas e as comunidades pobres pegarem infratores e jogarem em instituições carcerárias utilizadas como o depósito do “lixo humano” resolve os nossos problemas?

A grande maioria das pessoas tem capacidade de mudar. Seja através da religião seja da educação seja pelo trabalho. E muitas se tornam mais humanas e sensíveis quando lidam diretamente de forma séria com artes e esportes.

Deve-se, então, oferecer, intensivamente, o estímulo à reabilitação e a promoção de uma reintegração eficaz. É nesse momento que somos taxados de sonhadores. Sim. Sonhamos! Mas saibam que o fazemos em cima do texto da Constituição, dos Códigos, da Declaração Universal dos Direitos Humanos que já existe! Apenas não é colocado em prática. Então, de forma clara, só queremos o que está na nossa constituição e nunca foi aplicado de forma efetiva.

Ninguém defende bandido. Aqui se defende o ser humano e uma sociedade melhor. Se você tem uma dor de cabeça devido a um problema de pressão, por exemplo, não adianta ficar tomando analgésico e sim trabalhar no que está causando essa dor.

Por isso, é muito mais coerente brigar para que o Estado, como um ente que garante os Direitos individuais e coletivos, trabalhe no sentido de oferecer as mesmas condições de desenvolvimento a todos em qualquer etapa da vida e não tire das escolas disciplinas que são essenciais na formação de um ser humano mais empático.

4- Sobre a redução da maioridade penal:

Se sua filha chegar em casa desesperada dizendo que foi estuprada………não dê ouvidos……procure o menor que fez isso…..o acolha….pague um psicólogo para ele……pq ele não tinha discernimento suficiente pra saber o que estava fazendo !!!!!

Com a redução da maioridade penal, vamos precisar de uma nova estrutura, que vai demandar: número maior de policiais, de escreventes judiciais, de juízes, criação de novas Varas Criminais e Varas cumulativas, ampliação do espaço físico de delegacias, tanto para acomodar inquéritos como maior carceragem, ampliação do espaço físico em fóruns, criação e ampliação de presídios, contratação de carcereiros, faxineiros, serviços de manutenção, de fornecimento de alimentação, etc.

Complicado. Presos mais antigos serão liberados, certamente. E que tudo isso aconteça da melhor forma possível. O jovem entra com 16 anos na prisão. Que fique 10 anos preso nesse sistema falido. Sairá com 26 anos… bom? Reabilitado?

Quem defende a redução se esquece que daqui a 5, 6 ou 10 anos (dependendo do crime) eles estarão na rua novamente. E muito piores pois a prisão no Brasil não ressocializa ninguém como todos estamos vendo.

No mais, a redução da maioridade penal pode até piorar a violência no Brasil. O sistema prisional no brasileiro está degradante. Todos sabemos. O que resultaria unir jovens de 16 a 18 anos aos criminosos adultos? Respondo: eles, certamente, assim creio, seriam qualificados para mais crimes.

A ideia do Estatuto da Criança e do Adolescente e suas medidas socioeducativas buscam a recuperação desses jovens para o retorno a sociedade, pois eles também sofrem pena de internação. Por que não lutar para a melhoria desse setor? Qual a origem da dificuldade de olhar para o Estatuto com mais carinho?

5- Sobre discussão de gêneros:

Se o seu filho chegar em casa dizendo que gosta do amiguinho……não se assuste……incentive-o………pois na verdade ele não tem sexo…..e pode escolher seguir o caminho que quiser…

Isso não é pauta de esquerda, vale observar. Isso é questão de ser apenas um ser humano que aceita o outro do jeito que ele é.

Se meu filho chegar dizendo que gosta do amiguinho, por que deveria me assustar? Me surpreenderia e me entristeceria se ele chegasse dizendo que odeia o amiguinho.

Acho que me estendi demais, mas achei importante esclarecer porque não se trata de ficar brigando. Penso que devemos discutir mesmo cada ponto porque o barco é um só.

Que venham outros comentários como esses para que possamos mesmo debater esses temas que são urgentes em nossa sociedade e correr para a solução que não seja ficar enxugando gelo.

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Mesa redonda com gente quadrada

 

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Essa foto mostra o momento em que Nagib apresenta o caderno que deve ser usado pelos alunos onde na contracapa está os “deveres do professor”. Na verdade, melhor seria “as proibições do professores”. O professor não pode isso, o professor não pode aquilo…

Eu gostaria de narrar o que aconteceu ontem no debate promovido pela escola De A a Z no Teatro Oi Casagrande, onde estiveram presentes na mesa Miguel Nagib, autor do projeto “Escola Sem Partido”, Fernando Penna, coordenador do Movimento Educação Democrática (doutor em Educação), Josy Fischberg: editora assistente de Sociedade do jornal O Globo (doutora em Educação), Talita Monteiro: estudante de Ciências Biológicas da UNIRIO e eu.

Estar de frente com a pessoa que está encabeçando o projeto de lei que, a meu ver, acaba com a a essência das escolas não foi uma tarefa simples. Desde o dia em que fui convidada, acreditei que não tivesse emocional para tanto e, de cara, recusei considerando que quanto mais Fernando Penna falasse mais o mundo ganharia já que Penna está liderando o Movimento Educação Democrática pelo Brasil, um movimento de resistência a todos esses retrocessos que estão nos impondo no campo da Educação pública. Eu,na mesa, tiraria o tempo de fala de Penna.

Mas a equipe que estava organizando o evento explicou-me que o debate seria sobre Educação como um todo e eu, pelas minhas andanças e militâncias, poderia ajudar sim senhor a compor a mesa e contribuir para a discussão.

Aceitei e fui de peito aberto pedindo a Deus paz e sabedoria somente porque se, além disso, Ele me desse força eu poderia dar uma voadora no Nagib. Procurei respirar fundo e respeitar a pessoa que carrega dentro de si ideias contrárias a tudo que eu acredito que seja bom para a Educação no Brasil.

O evento era um cine debate. Inicialmente, foram passados trechos de filmes sendo que um deles foi feito pela equipe do Nagib e passado a pedido do próprio.

O filme de Nagib mostrava alguns professores – cujas posturas, no que pese minha total compreensão ao emocional desses colegas, eu particularmente também não concordo – dando aula falando horrores do governo Temer e de Bolsonaro. Qual foi minha surpresa, a última imagem do vídeo era euzinha que vos escrevo. Nagib deu “print” em uma postagem minha feita no meu perfil aqui no Facebook e me colocou naquele saco sensacionalista dos “professores que fazem doutrinação marxista” nas escolas (!).

Que a Nagib falta inteligência, isso eu já desconfiava depois de tê-lo ouvido falar que Paulo Freire, reconhecido internacionalmente como um dos maiores educadores do mundo pela UNESCO, era pedagogo do PT. Mas eu esperava um mínimo de educação e elegância.

Sabendo que eu comporia a mesa, expôs-me de uma forma que mostrou o tamanho de seu caráter e o nível de seus argumentos para tentar me desmoralizar perante o público. O perfil é meu e eles querem se meter até no que a gente fala nas redes sociais, vejam vocês.

Lá pelas tantas, Nagib, ao saber que sou ateia, me ofereceu uma pergunta. Digo “oferecer” porque Yuki, meu filho caçula, sempre que vai me fazer uma pergunta, que ele sabe que eu vou gostar de responder, ele diz “mãe, eu vou te oferecer uma pergunta”.

Nagib me perguntou como eu me sentiria, sendo ateia, se meu filho fosse exposto a um ensino religioso na escola.

– Agradeço por ter me oferecido essa pergunta, Nagib. Na verdade, vou ampliar a ideia da pergunta para discutirmos de uma forma mais geral..

Disse isso porque, prestem atenção, ele me questionou em um contexto sobre partidarismo. Ou seja, Nagib queria fazer o paralelo com a situação em que a família, por exemplo, é de direita e seu filho vai para uma escola que promove uma aula que defende ideias de esquerda.

– Quero que responda a essa pergunta! – disse ele num tom incisivo como seu eu estivesse me esquivando de respondê-la.

“Pois não. Entendi muito bem a sua pergunta (e a repeti), mas ainda assim vou ampliar o ângulo dela. Se minha filha, que está nessa plateia, quiser ter contato com qualquer religião ela terá todo o meu apoio. Por um acaso (havia me esquecido completamente que Nara estudou em uma escola católica), nenhum filho teve ensino religioso nas escolas, mas ainda assim, quando quiseram ir a uma Igreja não encontraram em mim o mínimo de resistência.

Acredito que crescemos quando somos confrontados. Enquanto estivermos na zona de conforto, esse local que se morre em vida, não pensamos sobre nada. É ao ter nossas crenças e ideias desafiadas que passamos a refletir sobre elas. Portanto, quero mais é que meus filhos frequentem lugares que lhe permitam sair da zona de conforto.

Vou dar um exemplo de como podemos crescer todos quando nos deparamos com uma visão de mundo que não é a nossa. Minha filha teve aula de sociologia com uma professora vegana que fez uma “doutrinação” na cabeça dela que Nara passou a ser vegetariana com uma semana de aula.

Quando minha filha chegou em casa com esse papo, dei-lhe logo um corte e disse-lhe que ela poderia comer o que quisesse, mas que me deixasse em paz, que eu sou carnívora desde que nasci e morrerei comendo carne porque sabe deus nosso senhor como amo uma picanha mal passada.

Nara aceitou. Pediu-me somente que conversasse com ela sobre o tema e que eu lesse algumas coisas. Jamais negaria isso a um filho e o diálogo se deu.

Hoje, sou vegetariana.

Esse foi um exemplo de como crescemos quando somos apresentados a novas ideias. Ainda que eu não me tornasse vegetariana, o meu comportamento em relação a causa seria muito mais empático.

Aproveitando a deixa, gostaria de dizer que não tenho absolutamente nada contra o ensino religioso nas escolas desde que as Igrejas abram também as portas para que professores promovam debates sobre ciência e outros temas.”

Foi mais ou menos assim a minha fala.

Eu gostaria mesmo que todo o Brasil tivesse ouvido não eu falar ou mesmo o Penna, mas o próprio Nagib.

Desde que a educação surgiu no Brasil quem estabelece as regras nas escolas não são educadores e sim administradores, pessoas como Nagib cujo discurso ontem, a despeito de tanta abertura e educação da plateia, recebeu vaias com vontade em alguns momentos de tão ditadoras e retrógradas que se apresentavam.

O papel do professor, o sujeito que, por essência, trabalha com Educação, não pode ser somente em transmitir conteúdos, mas também – e principalmente – de ensinar a pensar, a refletir, a questionar, de estimular a curiosidade. E isso tem a ver com modificar um ser humano. Não falo aqui de colocar ou tirar valores partidários ou religiosos nos alunos, mas de fazer com que o aluno pense sobre eles. E que maravilhoso ver um aluno sempre pensando a respeito de seja lá o que for, não é verdade?

Por fim, não vou cair aqui na hipocrisia de dizer que a escola é neutra. Ser laica é uma coisa, neutra é outra. Ou se educa para o silêncio, para a submissão, para a obediência cega (como todos nós fomos educados) ou se educa para entender como funciona essa grande máquina chamada mercado de trabalho. E ambas as formas de educar são políticas.

A primeira forma cidadãos-zumbis que acreditam que o mundo é assim, nada mais pode ser feito e só lhes resta ser mais uma peça substituível nesse sistema. A outra…

Lamento em estar discutindo isso podendo debater e refletir sobre metodologias revolucionárias como as que estão sendo usadas na Finlândia, por exemplo, e em alguns lugares do Brasil como nas salas de aula do CEFET. A gente quer avançar e tem que voltar dez casas por causa dessa galera que de Educação não entende absolutamente nada como ontem, para mim, ficou claro como a água.

Queria dividir essa experiência com vocês e dizer que se semana passada estava perdendo as forças pensando em sair correndo desse mundo, depois de ontem, estou me sentindo a Mulher Maravilha.

É difícil, é cansativo demais… mas os aplausos, de fato, têm um efeito mágico dendagente.

Obrigada a todos que contribuíram para eu renascer das cinzas.

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