Dia do trabalhador perceber a força que tem

Hoje é dia do trabalhador perceber a força que tem sua classe.

Golpe de 2016. O que temos de lá para cá? Temos menos direitos e menos futuro. Paulo Guedes que o diga… O ministro da economia sinalizou de forma escancarada que esse negócio de pobre querer futuro longevo lhe deixou indignado. Não pode!, disse Guedes. Na lógica liberal, pobre tem que viver menos para não sobrecarregar a previdência.

Logo depois do golpe, veio Temer e a primeira coisa que fez foi retirar direitos dos trabalhadores.

Mas… nada neste Brasil é tão ruim que não possa piorar. Passarinho na gaiola canta porque não sabe que a pessoa que lhe dá água e comida também explora e oprime. Mas seu dono faz isso como se tivesse fazendo um bem e o passarinho acredita que está sendo bem cuidado. Assim acontece com os liberais que exploram dizendo que estão fazendo o melhor para o trabalhador.

Sob termos que enganam como “empreendedorismo” e ”trabalho flexível”, retiraram direitos trabalhistas e previdenciários. Teve passarinho cantando defendendo seu dono porque não sabe o tamanho da floresta que perdeu.

Ontem foi o leilão da Cedae. Mais essa. Esse processo de privatização de empresas e dos serviços públicos está sendo feito por quem alimenta passarinhos, volto a dizer, que estão em uma gaiola. Falam em ineficiência do Estado para que o passarinho acredite que morar em árvores é pior do que em gaiolas.

Empresário só investe onde lhe dá lucro, passarinho. Percebe? Em lugares que o povo não tem dinheiro para pagar os serviços prestados, empresário nem aparece, meu bem. Essa é a realidade. Temos inúmeros exemplos para comprovar que o discurso usado para tornar privado o que é público é uma grande falácia.

Vimos o quão desastrosa foi a transferência para organizações sociais de serviços de saúde e assistência social, sob a forma de parceirização e contratualização. Falaram o que para você, passarinho? Que isso ia beneficiar toda a revoada, lembra? Que nada. Foi uma das maiores fontes de corrupção e serviços precarizados para os trabalhadores.

Enfim, hoje, é o dia do trabalhador – que anda perdendo seus direitos, vale pontuar. Mais do que nunca, é um dia para conscientizar que podemos voar.

A pior gaiola é essa: mesmo diante da porta aberta, o pássaro não acredita que consegue adejar. A pior gaiola está naquilo que nos fazem acreditar.

Pássaros do mundo, uni-vos! Hoje é dia de luta, de reflexão e, como mostrou a história, este dia existe porque no dia primeiro de Maio de 1886 houve uma bela revoada.

Primavera na minha sala

Ontem, quando fui dar aula remota, algo aconteceu.

Há muitas pessoas – como eu – dando aulas em casa e é comum ninguém abrir a câmera porque não deixa de ser uma invasão de privacidade. Há um quarto bagunçado, uma sala com pessoas da casa circulando, um irmão dormindo na cama,… daí, nessa cultura que surgiu em tempos de pandemia, o normal é a gente ensinar sem ver quem está aprendendo.

Nem preciso dizer o quão estranho é isso. Não tenho ideia do quão traumatizados sairemos dessa experiência mesmo reconhecendo que há, nelas, grandes aprendizados.

Como várias professoras deste Brasil, tenho feito o meu melhor. Acho que nunca trabalhei e me preocupei tanto com meus alunos a minhas alunas. Se está sendo difícil ensinar, para eles, não está sendo nada fácil aprender.

Tenho procurado fazer de tudo para que esse momento estranho seja producente e minimamente agradável. Esqueço minhas fragilidades e me lanço neste oceano chamado ensino remoto como quem mergulha numa água turva querendo trazer para a superfície uma pedra bonita.

Mas está tão difícil não ver o rosto deles, gente.

Ao término de cada aula, fico olhando ainda para a tela do computador como alguém que olha para o horizonte segurando um cachimbo.

Sem a comunicação corporal e facial, eu não tenho retorno imediato sobre o que estou dizendo. E, meudeus, como me sinto só em vários momentos nesta casa.

Tento me apegar à ideia de que tudo vai passar, mas, cada dia que acaba, o fim de tudo isso parece mais distante.

E, ontem, quando comecei a falar, algo diferente aconteceu.

As câmeras abriram.

Fiquei olhando todo mundo como quem observa o passado, o presente e o futuro de uma só vez. Via a minha tela como uma professora diante de sua classe.

Senti saudade. Mas senti também a ausência dela, se é que me entendem.

Desde então, estou tentando contar para vocês isso, mas daí eu choro enquanto escrevo. Leio o que redigi. Por mais que eu tente, não darei conta de mostrar a intensidade do que vivi.

Recebam esta minha tentativa. Preciso dividir com alguém a primavera que passou, ontem, pela minha sala.

Espírito de porco

Quando eu era criança, viajava sempre para Itajubá, uma cidade pequena no Sul de Minas. Mamãe nasceu lá. Vovó teve 16 filhos. Então, o que não faltava era primo para brincar e chácaras para visitar.

Era véspera de Natal aquele dia. Vovó queria assar um leitão e lá fomos nós para uma roça pegar um. Lembro-me de adultos conversando e mamãe fazendo a encomenda para o dono do local.

Um rapaz de chapéu de palha e galochas foi com a gente até o chiqueiro. Mostrou vários porquinhos. Eu, criança, fiz uma farra com os olhos vendo aquela bicharada fedorenta no meio da lama fazendo um barulho engraçado.

De repente, o moço pegou um pelo rabo e, com um facão, espetou na barriga de um dos porquinhos que gritou, berrou, se esgoelou como fazem os que pedem socorro.

Saímos todos dali depois disso. Entramos na casa para comer biscoito de polvilho feito na lenha.

No meio do café, fugi e corri para o chiqueiro. O porquinho mal respirava e já não tinha força para gritar mais. Eu estava assustada vendo uma vida terminar tão lentamente de forma tão rápida, se é que me entendem. O sentimento era confuso mesmo e há um lugar dendagente que os paradoxos conversam entre si. Enquanto o visitava, o moço abriu a porteira.

Pegou o bichinho pelas patas traseiras e levou para um tanque grande.

Curiosa que sempre fui, segui os dois: o homem e o porquinho morto pelo homem.

No tanque, ele amarrou as patas do animalzinho em uma espécie de cabo de vassoura. Com o mesmo facão, rasgou toda a barriga do porco e retirou todas as suas vísceras. Era a primeira vez que via o avesso na minha vida.

E fiz em silêncio como os que ouvem um barulho estranho no meio da noite. O olhar procurava entender o que estava acontecendo.

Voltando para a casa da vovó, ela pegou a carcaça do leitãozinho, alegre como os que veem uma pururuca. Temperou bem, me explicou como fazia e disse que, no dia seguinte, ia pedir para o Seu Paulinho da padaria assar no forno grande que tinha lá.

No final da tarde daquele 24 de dezembro, tocou a campainha. Era um outro moço com um tabuleiro grande com o porquinho marronzinho de tão assado.

Vovó enfeitou, botou até algo na boca dele como vemos em filmes e desenhos.

Pela primeira vez na vida, entendi que o que eu comia e chamava de carne, gritava e sentia alguma coisa ao morrer. Parece óbvio, mas não era para mim.

Não consegui sequer provar. Ver os olhos de quem se despediu querendo ficar gerou, em mim, um certo constrangimento.

Entendi, como os poetas, que não se assiste impunemente a nenhum adeus.

Sobre Ensino e Aprendizados

Sempre amei dar aula. Quanto mais agitada a turma, sentia-me mais desafiada. Tive e mantive amizades com alunos e alunas que eram extremamente rebeldes.

Passei anos estudando e aplicando novas metodologias em sala de aula que podemos trabalhar, para além dos conteúdos, novas competências como o prazer de atuar no coletivo. Daí veio a pandemia e com ela um ensino remoto que não é sinônimo de ensino à distância (que há todo um preparo das aulas com muita antecedência, material didático impresso voltado para isso e encontros presenciais esporádicos).

O ensino remoto é outra parada.

Aqui a gente se vira com o que tem em tempo recorde. A aula começa e as câmeras estão todas fechadas. A aula termina e continuo sem ver nenhum rosto. Não dá para obrigar ninguém a abrir a câmera porque muitos não têm câmera. Outros ficam com vergonha da casa ou tem um irmão dormindo ali atrás. Ou seja, seria uma invasão de privacidade. O jeito é ninguém ver ninguém.

O mundo acabando lá fora – até mesmo dentro de muitas casas – e eu, às sete da manhã, com minha mesa digitalizadora projetando meus gráficos, minhas equações e resoluções de problemas que envolvem variáveis como velocidade, aceleração, valor da carga, massa…

Todos os dias, vem à minha cabeça a imagem dos músicos do Titanic. No meu caso, não sei tocar violino e o que me deram sequer tem cordas. Mas sigo tentando fazer algo bonito. É isso que quero dizer.

Durante o contra turno, fico à disposição para tirar dúvidas. Sempre aparece alguém para justificar alguma falta ou atraso na entrega de uma atividade assíncrona.

Tem de tudo.

Mãe que fugiu de casa, vó que foi morar com a família depois da morte do avô, morte do avô, morte do tio, morte d… e faltas. Faltas que se justificam com outras faltas como falta de Internet, falta de vontade e falta de comida.

Há muitos que conseguem se concentrar. Isso é um fato. Tenho alunos e alunas que demoravam quase 3 horas para ir e voltar do CEFET e estão aproveitando esse tempo extra que o ensino remoto dá para ler e estudar.

Uma questão preocupante é a cola. Não dá para passar nenhuma atividade ou mesmo prova à distância sem que haja transferência e troca de informações entre eles. Antes da pandemia, eu já estava modificando a minha forma de avaliar. Utilizando uma metodologia adequada, permitia que a prova fosse feita por um grupo. Quando diga feita é feita mesmo. Era um grupo que fazia as questões da prova. Elaborava cada problema. Há tempos acho que uma boa pergunta feita com conhecimento e criatividade vale mais do que uma resposta.

Mas com ensino remoto tudo fica mais difícil.

Estou tentando fazer algo com a mesma essência que fazia presencialmente: incentivo pelo trabalho coletivo, pela pesquisa e pela criatividade. Não encontrei ainda um caminho. Enquanto isso, aposto no velho e poderoso diálogo.

“No lugar de colar, formem grupos, aproveitem a oportunidade. Explique o que fez para quem não conseguiu. Lembrem-se que passaremos mais alguns meses assim e que há uma formação em curso que é a sua. Se não conseguir, venha até mim. Te darei quantas avaliações forem necessárias para que você suba sua nota. Mas quero ver o que você fez.”

Todo dia esse discurso. Hoje, uma nota sete me traz muita mais alegria do que um dez. Começou o ano letivo com todo mundo gabaritando e, agora, já tenho notas diferentes e debates sobre erros. Bem se sabe o quanto aprendemos com eles…

Por que estou dividindo isso com vocês? Pela vontade de compartilhar uma experiência que me trouxe muita dor e aprendizado nesses tempos tão difíceis. Sei que muitos que me lêem estão passando por isso e possuem diversas outras histórias para contar.

Saudade demais de entrar numa turma barulhenta, de encontrar colegas no corredor da escola e esperar a minha vez de beber água no bebedouro.

Dói quando ouço que a categoria não quer trabalhar e por isso insistimos ficar em casa. Estamos trabalhando. O conceito de escola transcende um lugar cercado de muros. A escola está acontecendo. O ponto é que não é fácil ensinar presencialmente quando temos medo de morrer. Nós, da Educação, temos um quê de Paulo Freire e ensinamos, sobretudo, o respeito pelo coleguinha, mais precisamente, pela vida do coleguinha.

Já tem pesquisa feita em lugares pelo mundo mostrando que profissionais da saúde e da educação são os que mais têm morrido em relação a outras profissões.

Sobre aulas, precisamos urgentemente melhorar a qualidade do ensino remoto dando condições para que crianças e jovens tenham boa Internet em casa e equipamento adequado para isso. E, antes de um tablet, que tenha comida dentro de casa porque com fome ninguém faz nada muito menos tarefas assíncronas.

Eu sei o quanto está sendo extremamente difícil. Para vocês, professores e professoras, eu queria deixar meu abraço. Mas um abraço daquele que só dá quem entende a dor do outro. Um abraço de troca. De conexão e de apoio.

Brincando de gangorra

Há exatos exatinhos quatro anos, esta foto foi tirada. Foi na noite em que conheci Pipo e ficamos conversando por sei lá meodeos oito, nove, dez horas e nunca mais nos largamos.

Estávamos cheios de planos antes da pandemia. Em 2020, o filme Hermanoteu seria lançado e iríamos participar de várias estreias pelo país. Eu como a primeira dama da Warner. Vejam vocês. Saindo de Madureira e entrando com convite vip nas sessões honrosas nas grandes salas de cinema. Também teríamos livros meus sendo lançados porque sou dessas de falar pelos cotovelos e escrever com os indicadores. E, claro, uma campanha na qual me imaginei correndo a cidade do Rio de Janeiro do Oiapoque ao Chuí.

Pandemia.

Desde março de 2020, estou trancada em um apartamento com ele que sofre diariamente pelas mortes que poderiam ser evitadas e por abstinência de palco. Pipo é do teatro e como integrante do grupo de comédia Os Melhores do Mundo já fez milhões de pessoas caírem na gargalhada por todo esse país.

Tinha espetáculo todo santo final de semana. Eu, que sempre dei aula e palestras em várias universidades e Institutos quase não sossegava em casa. A gente parecia aquele filme Feitiço de Áquila. Quando eu virava águia, ele virava o Pipo. Quando ele virava lobo, eu ia dar aula. Algo assim para vocês entenderem onde quero chegar. Agora somos o Feitiço do Átila.

Ontem caí na gargalhada no meio de uma frase. Eu tinha feito uma comidinha diferente e ele elogiou. Fiquei super feliz porque em 2021 a gente fica feliz por coisas que jamais iríamos imaginar. Tentei externar tamanho sentimento. “Ah, meu amor, eu cozinho pensando em voc…”. Quem disse que era capaz. Parecia a minha avó falando. Achei graça de lembrar da minha avó, mas mais do que isso. Ri como os que percebem o mundo girando e o quanto precisamos nos equilibrar em cima dele. Gargalhei como quem entende o que estamos fazendo por aqui. Abracei Pipo como os que agradecem.

Está difícil escrever para contar sobre outras gargalhadas esquisitas que ocorrem aqui entre nós. História não tem faltado. Mas quatro mil mortos por dia com cada vez mais pessoas pelas calçadas pedindo comida requer foco e tenho medo de ser um agente que dispersa nessa luta urgente. Queria, porém, dizer para vocês que dentre tantas coisas, temia por esse relacionamento que tanto me fez bem desde o primeiro dia. A gente nunca sabe como iremos reagir quando nos trancam dentro de casa e tem um vírus mortal lá fora.

Há muita miragem no deserto e eu sempre soube, como professora de física, explicá-la. Mas há os oásis também e tento usar a minha sobrevivência nesta pandemia para compreendê-los.

Pipo tem sido como aqueles que brincavam com a gente na gangorra do parquinho. Quando estávamos lá embaixo, somente com a ajuda do outro conseguíamos subir sorrindo. E quando estávamos lá em cima, era nossa vez de fazer o outro subir.

Permanecemos aqui trancados cuidando um do outro. Limpando a casa e testando os produtos de limpeza como ele acabou de me mostrar agora a embalagem de uma cera que prometeu fazer nosso chão de espelho e cadê.

Seguimos fazendo abdominais, pilates, comida e amor como aqueles que entendem a profundidade de um encontro que aconteceu a exatos exatinhos quatro anos atrás.

Casal moderno

Um casal moderno é composto por um homem grisalho e por uma mulher que se recusa a pintar o cabelo.

Um casal moderno é composto por um homem que não vê pornografia-raiz porque entende o quanto aquilo contribui para uma cultura do estupro e por uma mulher que faz doutorado.

Um casal moderno é composto por um homem que quer ter filho e por uma mulher que quer ter uma doula.

Um casal moderno é composto por pessoas não-binárias que fazem chá de revelação do sexo do nenem.

Um casal moderno é composto por uma pessoa que votou nulo e outra, no Haddad.

Um casal moderno é composto por uma pessoa que chorou quando Lula ficou novamente elegível e por outra que diz que não é nem de esquerda nem de direita e compartilha video do Ciro.

Um casal moderno toma vitamina D em comprimido.

Um casal moderno é composto por uma pessoa que faz live pelo zoom e a outra, somente, pelo streamyard.

Um casal moderno é composto por uma pessoa que faz pão em casa e a outra, abdominal.

Um casal moderno é composto por dois homens.

Um casal moderno é composto por duas pessoas que criticam a monogamia.

Um casal moderno é composto por três mulheres.

Um casal moderno é composto por uma pessoa que adotou um vira-lata e por um vira-lata.

Um casal moderno é composto por um que é vegano e outro que é flexitariano.

Um casal moderno é composto por alguém que ouve podcast no Spotify e por outra que só lê no Kindle.

Um casal moderno é composto por uma pessoa que odeia coach e por um coach.

Um casal moderno é composto por dois negacionistas e um WiFi.

Um casal moderno é composto por um que parou de fumar e outro que parou de feder.

Um casal moderno é composto por uma pessoa que adora os stories no Instagram e outra que vive dizendo que o Facebook acabou.

Um casal moderno é composto de uma pessoa que não consegue mais se concentrar e outra que vê Netflix.

Um casal moderno é composto por um que é contra a cultura do cancelamento e um cancelado.

Um casal moderno é composto por uma pessoa que tem PIX e outra que só compra com QRCode.

Um casal moderno é composto por uma pessoa que segue um monte de gente e outra que quer seguidores.

Um casal moderno é composto por uma pessoa que se alimenta de comida orgânica e outra, de likes.

Um casal moderno é composto por uma pessoa que faz atividades síncronas e a outra, as assíncronas.

Um casal moderno é composto por uma pessoa que já teve a mãe vacinada e a outra não teve a mesma sorte.

Um casal moderno é composto por uma pessoa que está se reinventando e outra que fica falando vai passar.

Um casal moderno é composto por duas pessoas que são a favor do lockdown e assistiram juntos os jogos do Brasileirão.

Um casal moderno é composto por duas pessoas se desconstruindo e um mundo acabando.

Um casal moderno é composto por um artista com abstinência de palco e uma escritora que não consegue mais escrever.

“Este ano, está combinado: nós vamos brincar separados…”

“Este não ano vai ser igual aquele que passou. Eu não brinquei. Você também não brincou…”

Era para estarmos pelas ruas, com glitter, fantasia e muita alegria.

Não é nem nunca foi alienação. Quem fala isso não entende o que se passa em um Carnaval. Se é verdade que muitas pessoas que vão para as ruas fantasiadas não estão nem aí para o sofrimento alheio, também é fato que muitas outras vão para expressar a revolta em diversas outras linguagens.

Ainda que só seja diversão, falar mal da purpurina é um tipo de morte que precisa ser evitada porque experimentá-la grudada em nosso corpo é um ritual que nos purifica e nos fortalece. Quem fala mal da alegria do Carnaval é porque há tempos já não é procurado por ele.

A magia é tão boa que melhor metáfora não há.

“Eu queria que essa fantasia fosse eterna. Quem sabe um dia a paz vença a guerra e viver será só festejar…”

Graciliano falou que a única coisa que o ser humano tem certeza é a morte e a única certeza do brasileiro é o carnaval no próximo ano.

Rio de Janeiro, 13 de fevereiro de 2021. Sábado.

Neste ano da triste era da ignorância, do negacionismo, da obscuridade política e sanitária, aqui, Graciliano, não há carnaval. De fato, está difícil conviver com mais essa dor, pois tínhamos certeza de que poderíamos contar com essa válvula de escape.

“Aquela fantasia que eu comprei ficou guardada e a sua também, ficou pendurada.”

E estamos perdidos porque o ano sempre começou, para nós, depois do carnaval. Antes dele, apenas esquentávamos nossos tamborins.

“Mas chegou o Carnaval, e ela não desfilou…”

Agora, estamos desnorteados sabendo que não ficaremos tensos pela madrugada ao ver um carro alegórico quebrar e uma escola atrasar. Como será nossa quarta-feira sem ficar sem entender a diferença das notas “9 ponto 7” e “9 ponto 8” dadas pelos julgadores das escolas de samba? É o tipo de coisa que ninguém nunca soube responder mas que faz parte da tradição de fevereiro perguntar.

Não sabemos como fazer para reiniciar com essas máscaras sem paetês.

As imagens de outros carnavais afloram nossa memória e estão sendo compartilhadas aos montes nas redes sociais.

“Tá fazendo um ano, foi no carnaval que passou. Eu sou aquele Pierrô que te abraçou e te beijou, meu amor.”

Uns passavam quatro dias de pijama, outros, com fantasia e havia quem passasse quatro dias sem roupa em alguma praia ou cachoeira deserta. Era liberado beber antes do meio-dia. Era perdoável sorrir.

Fato é que estamos no meio de uma pandemia e sem luz no fim do túnel. São quase 250 mil mortos e há quem já se acostumou com a notícia de mais de mil pessoas morrendo por dia – por negligência de um governo genocida e por pessoas que sequer usam máscaras e respeitam o distanciamento quando podiam muito bem fazê-lo.

Mais do que nunca, precisávamos deste Carnaval.

Parafraseando mestre Chico, a gente que está levando pedras feito penitentes sequer temos neste ano direito a uma alegria fugaz e a uma outra e ofegante epidemia chamada carnaval.

Vai passar…

Mas não será fácil nos próximos meses. Ainda mais, depois de viver um fevereiro com surdos e tamborins em silêncio profundo. Temos pela frente quatro dias sem passistas, sem adereços. No Rio, ficaremos sem o Cordão do Boitatá e do Bola Preta, sem Amigos da Onça, Agytoê, Carmelitas, sem confraternizar no Comuna que Pariu dentre outros blocos. Vamos ficar também sem ver a águia da Portela, o canto afro do Ilê Aiyê, o maracatu, o batuque do Olodum, o frevo, sem ver Recife, Olinda e Salvador.

A garantia de termos próximos carnavais é entender que hoje, página infeliz da nossa História, não há festas em meio a tantas mortes e que não podemos causar mais milhares delas. É necessário sermos a diferença que queremos ver no mundo.

Dói, mas “este ano, está combinado: nós vamos brincar separados…”

🎭

Entre o céu e a terra plana.

É bem interessante esse processo de ver como somos naturalmente. Eu disse interessante. Não, indolor.

O processo de transição é lento e, dentro dele, cabem dezenas de TPMs. Não sinto vontade de pintar essa juba grisalha. Vivo um tipo de liberdade. Mas, confesso, preciso focar no presente quando me olho no espelho e parar de lamentar por não viver mais em um pretérito que, verdade seja dita, também foi imperfeito.

Pareço que estou feliz sorrindo nesta foto mas estou só respirando um pouco de gerânio.

Dar aula remota é como ir à praia e não poder sequer molhar os pés no mar. Há uma imensidão de sensações na sua frente, tão perto, mas você não pode se mover. Algo invisível te segura. Tipo um vírus.

Esse tipo de coisa não tem ajudado. Entre o céu e a terra plana, há um ar contaminado.

Ficar muito tempo em casa me confundiu. Usei muito pijama e pouco o pente. Não sabia o que era tristeza pelo Brasil, descuido comigo, saudade do Lula, ansiedade por vacina ou herança de uma cultura opressora. Muita dor para lidar desnorteia a gente mesmo.

Quando mostro para o Pipo os meus cabelos brancos rebeldes, ele não entende o que estou falando.

Não sei se isso deveria importar tanto, mas Pipo me olha como se me visse. Ele sorri sempre como fazem os que se encontram.

A transição não é só nos cabelos. Aceitar-se é algo que estou aprendendo. Dói um tanto. Mas meu Deus como as metamorfoses são interessantes.

Melhorando a imunidade e humanidade

Por que todo mundo precisa se vacinar? Não bastaria vacinar só quem aceita a imunização e deixar quem não quer de fora? Há necessidade de ser obrigatória a vacina? E a minha liberdade de escolha, onde fica?

Gostaria de falar um pouco sobre essas questões.

A primeira coisa a pontuar é que o fato de ser obrigatório não quer dizer que você – que não queira tomar a vacina – vai sair de casa amarrado para um posto de vacinação ou será preso, caso insista em não ser vacinado.

A vacinação já é obrigatória, para quem não sabe. Muitas crianças só são matriculadas em creches e muitos adultos só conseguem benefícios sociais do governo, por exemplo, se estiverem com a carteira de vacinação em dia. Então, caso alguém resolva não se vacinar pode ser que tenha alguma restrição civil.

“E a minha liberdade individual?”

Quando vivemos em sociedade, há coisas que não adianta muita gente obedecer e poucas pessoas não.

“Ah mas são poucas! Não vai fazer diferença”. 

Vai fazer sim. Por exemplo, você não pode dirigir bêbado se quiser mesmo sendo o único a desobedecer uma regra porque isso pode ferir ou matar alguém. Não é uma escolha sua pois a sua irresponsabilidade afeta outras pessoas.

O direito individual acaba quando a sua escolha abala a segurança coletiva.

“Por que todo mundo precisa se vacinar?”

A vacina só funciona se a sociedade se comprometer com a imunização. Cada pessoa vacinada impede que outras se contaminem. E há sempre muita gente que, por uma questão de recomendação médica ou pelo fato de ser um bebê, por exemplo, não pode receber uma determinada vacina.

A vacina não é só auto proteção. Se ela deixasse vulnerável só quem não quer ser vacinado, eu, sinceramente, não me daria ao trabalho de escrever esse texto. As vacinas protegem quem toma e quem NÃO PODE ser imunizado.

Vacinar-se é um ato de cuidado com o próximo, com o todo. Um ato de soberania. Não adianta uns tomarem e outros não porque o vírus pode sofrer mutação. Esse vírus responsável pela covid-19 já está sofrendo mutações.

Então, devemos ser solidários para proteger os mais frágeis. Por isso a vacinação é uma estratégia de saúde pública e de economia.

“Economia?”

Sim. Economia. Pessoas saudáveis não ficam ocupando leitos em hospitais, não precisam de tanta medicação e podem trabalhar.

“Mas o vírus não pode ser comparado a um bêbado dirigindo…”

Sim. O que quero dizer é que se houver uma brecha, o vírus volta a circular.  Se em alguns lugares for permitido dirigir bêbado e houver menos fiscalização e o perdão das multas, pessoas podem morrer atingidas por carros conduzidos por gente alcoolizada.

Assim como o verme busca um furo no sistema, o vírus também.

E, no caso do vírus, pode haver mutação, ou seja, mesmo as pessoas que estiverem vacinadas podem não mais estar protegidas diante uma nova cepa do vírus.

Um pouco antes da pandemia, vimos o sarampo voltar a ser um problema de saúde pública. Ficamos vários anos sem registrar nenhum caso de sarampo e em 2018  já tínhamos centenas de pessoas com sarampo.

“Por que havia sido erradicado e como voltou?”

A vacina contra o sarampo está disponível em várias unidades de saúde e a população estava bem informada e consciente sobre a necessidade de se prevenir. Por isso tinha sido erradicado.

Com a onda anti-vacina, o modelo desabou.

Quando erradicamos uma doença não acabamos com ela. Erradicar quer dizer manter o controle e, por isso, continuamos a ser vacinados contra doenças que praticamente não existem mais. O vírus existe e continua circulando, mas só encontra barreiras em uma população imunizada.

Para o vírus não encontrar espaço, a maioria das pessoas precisa ser vacinada. Simples assim.

Para finalizar:

O que não precisamos nesse exato momento é politizar a vacina. Transformar esse debate em uma questão político-partidária é desconsiderar todo o sucesso que os planos de vacinação tanto no Brasil quanto no resto do mundo tiveram. Ou seja, é ignorância – no sentido de ignorar os dados, a verdade, a história.

É compreensível que muitas pessoas estejam se sentindo inseguras, já que as informações são as mais variadas possíveis e tudo está acontecendo muito rápido. A impressão é que estamos sempre perdendo algo importante.

Se uma grande parte da população entender as etapas e os critérios rigorosos de liberação de vacinas que garantem que sejam seguras, vão perder o medo. A hora é de buscar fontes confiáveis de informação.

O vírus da imbecilidade também pode ser fatal. Precisamos nos unir para combatê-lo.

Espero, de alguma forma, ter contribuído nessa árdua tarefa.

Retrospectiva 2020

Todo ano faço minha retrospectiva. Sempre fico assustada com a quantidade de coisas que consegui realizar em 365 dias. Disposição nunca me faltou. Fui conferir pela estatística do meu blog e nunca escrevi tão pouco na minha vida. Se escrevi três textos por mês durante 2020, foi muito. E, ainda por cima, de qualidade bem reduzida em relação aos anos anteriores em que cheguei a publicar umas 10 crônicas por mês.

A verdade é que tenho andado sem tempo e sem muita cabeça para escrever. 2020 dispensa maiores explicações. Passei por muitas fases diferentes por aqui e em todas elas tive que fazer almoço. Sempre tive, como uma mulher de classe média e privilegiada que sou, uma pessoa que me ajudasse com a cozinha, com a faxina e com as roupas. Mas dada a pandemia, não conto mais com o suporte profissional da Lucimar e tenho que fazer almoço todo dia. Pipo faz almoço? Faz quando está no Rio e acorda antes da hora do almoço. Uma combinação difícil de ser feita já que Pipo funciona bem melhor de madrugada. Yuki ainda não sabe cozinhar e Nara cozinha muito mal. Aliás, Pipo também. Hideo não mora mais comigo mas almoçamos juntos toda quinta e em alguns finais de semana.

Isso posto. Aqui está a minha restrospectiva:

Fiz campanha fazendo almoço todo dia e estou dando aula remota fazendo almoço. Faço almoço quando acordo e antes de dormir. Antes do banho e depois de ler as péssimas notícias do dia, eu faço almoço. Durante o banho, eu penso no almoço do dia seguinte. Há dias em que acordo animada, daí faço um almoço melhor. Durante a TPM, faço almoço pensando o sentido da vida. Quando estou com enxaqueca, faço almoço também. Tive que dar aula remota e fazer almoço na segunda-feira logo depois das eleições. Enquanto faço umectação no cabelo, faço almoço. Vi várias entrevistas boas em 2020 enquanto fazia almoço. Coloquei o almoço para assar no forno antes de começar as diversas lives. Todo domingo, preparo aulas e o almoço . Durante a semana, só o almoço.

Já fazia almoço antes? Não. Minha vida de princesa de Madureira me permitiu ter a paz de não pensar em almoço por muitos anos. Sabia cozinhar antes da pandemia? Sou mãe de três, então, sabia fazer miojo e bolo porque sei fazer uma criança feliz. Almoço igual estou fazendo com ingredientes comprados já com o destino certo, preciso confessar, não sabia.

Peguei-me, já em março deste ano horroroso, falando e ouvindo coisas que jamais pensei que fossem sair da minha boca e entrar pelos meus ouvidos com próteses auditivas. “Na minha cozinha, não pode faltar isso…”, “Mãe, estou com saudade da sua comida”, “Amor, que comida boa você fez!”, “Mãe, arrasou nesse pastel”, “Adoro cozinhar nessa panela…”, “Mãe, que feijão bom esse que você fez!”,… coisinhas assim que estavam longe de meu universo-intelectuala-de-esquerda onde ficava mais de dez horas seguidas escrevendo ou lendo e, quando podia, pedalando.

Bem da verdade que teve um momento que percebi que deveria sentir prazer nisso e procurei fazer de um fogão, uma página do word em branco e, da minha comida, o lançamento de um livro. Comecei a sentir felicidade em servir. Aprendi a fazer várias combinações, a fazer comida árabe e japonesa, a pechinchar na feira, a conservar verduras por muito tempo, a congelar alimentos, a usar os temperos certos, a deixar os grãos de molho, a cozinhar feijão de uma forma que não dá gases, a ficar perguntando para todo mundo se funcionou,… Enfim, se fosse escrever um livro sobre esse ano fatídico, seria um livro de receitas vegetarianas. 

Pois é. Sou uma militante-combo: mulher, feminista, petista, marxista, comunista, ambientalista, anti-racista, anti-capacitista, pela laicidade do Estado, a favor das escolas públicas, defensora do SUS e da liberdade religiosa, mãe de três artistas, mergulhada de cabeça nas pautas LGBTQIA+, filha de Oxum e… vegetariana. Um extremista de direita, por exemplo, que votou nesse incapaz que está na presidência vê em mim uma espécie de livro com pouca figura e com mais de vinte páginas: olha e sai correndo.

Neste ano, pensei em fazer muitas coisas: escrever a continuação de Isaac no Mundo das Partículas, manter a média de ler uns 30 livros por ano, viajar com o Pipo comemorando os 25 anos do Os Melhores do Mundo (companhia de comédia da qual ele faz parte), ver o lançamento de Hermanoteu nos cinemas me sentindo a primeira dama do cinemark, aprender libras, fortalecer alguns músculos, pedalar, ver baleia, participar de tudo que é manifestação contra esse governo, aplicar novas metodologias em sala de aula, publicar mais um livro de crônicas, dar palestras novas sobre Educação por esse Brasil e ser vereadora dessa cidade abandonada. 

Nada disso deu certo. 

Em 2020, gente, em 2020 eu fiz almoço. 

Fiz muito almoço.

Para o ano que vem, estou planejando fazer uma revolução e algumas sobremesas.