Lula não é santo. É apenas um ser humano sem igual.

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Fui convidada para estar no palanque ontem com Lula. Não preciso dizer que não acreditei. O que eu iria fazer ali no meio de tanta gente importante? Como se tudo isso não fosse suficiente, meu nome estava na lista dos “intelectuais” que hoje estiveram no hotel com Lula. Nesta reunião fechada não pude ir porque estava com passagem comprada para Brasília.

Se há três anos alguém me falasse que isso seria possível eu gargalharia. Como assim eu, suburbana, sem berço de nada, professora, mãe solteira de três, uma mulher tão comum teria essa oportunidade e honra? Não. Definitivamente isso não é possível e assim pensei quando ligaram para mim para participar da agenda do Lula no Rio.

Por conta dessa proximidade e das fotos com o presidente que ando publicando, muitos seguidores estão questionando como assim eu estar feliz por estar ao lado de Lula? Você não sabe quem é ele? Perguntam-me.

Não vou citar aqui tudo o que ele fez pelos pobres do Brasil, mas estar ao lado de quem tirou um país destamanho do mapa da fome e diminui drasticamente a mortalidade infantil já é motivo de um deleite infinito, a despeito de saber que não existem santos neste planeta e que Lula está longe de ser um imaculado. Digo isso porque os santos fazem milagres pontuais, curam enfermos, fazem cegos enxergarem… sem dúvidas, grandes feitos. Mas Lula não é desses de ressuscitar morto ou de curar um aqui outro ali e sim de cuidar de milhões que vivem na miséria e livrá-los dela.

Mas, pasmem, Lula não é só um extraordinário homem político. Ele também é um ser humano que impressiona. Tive pouco tempo com ele. Há alguns meses fui até São Paulo me encontrar com meu presidente levando meus três filhos e Lucimar que trabalha lá em casa há vinte anos e mora com a gente. Na ocasião, todos ficamos extasiados com tanta atenção e carinho que recebemos de forma individualizada por esse que tem tanto o que fazer.

Ontem, no meio daquele tumulto de gente na UERJ, no palanque com um punhado de gente importante tipo Celso Amorim e Haddad, Lula me viu ali naquele meio enquanto alguém discursava antes dele. Deu um sorriso com todo o corpo, veio até mim, me abraçou, beijou minha testa, olhou nos meus olhos e me perguntou: como vão seus filhos? E a menina que trabalha lá? Todos bem?

Como assim, cara pálida? Como assim?! Eu por ser meio surda e meio sem acreditar fiquei olhando para ele com essa cara de quem não está crendo na vida. Ele insistiu: Elika, sua família está bem?

Respondi que sim. E ele voltou a me abraçar.

Ah gente. Eu não tenho palavras não. Posso dizer somente que sou uma pessoa privilegiada. Não por ele ter me perguntado como vão todos que amo e ter se lembrado da minha trupe, mas por ter visto o seu olhar firme e sonhador me encorajando. Sentir a força do bem é algo indescritível. E Lula emana energia boa. Tira o medo de qualquer um. Devolve a esperança com um simples bom dia.

Podem falar o que quiser. Igual Lula não haverá.

Sigo a serviço do meu presidente e orgulhosa por essa amizade.

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Sendo menina por todo lugar.

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Hoje foi dia de voltar para casa vindo de Brasília. Estou naquele período de esvaziar copo. Não, migues. Não estou entornando cachaça e sim toda hora, na verdade de três em três horas, descartando meu sangue menstrual do coletor.

Estava tudo sob controle porque sou dessas de me iludir que tenho as rédeas da vida. Havia feito tim tim com dona Celite lá casa do Pipo e a despedida dele (que durou umas duas horas) me dispersou um pouco. No aeroporto, ao invés de ir ao banheiro, fiquei vendo as fotos que havia tirado do Pipo no palco e lambendo a tela do celular já de tanta saudade.

Entrei no avião, coloquei os fones de ouvido, peguei meu livro e mal a moça começou a dar os procedimentos caso a aeronave caísse eu já estava toda cagada. A minha poltrona era a da janela. E ao meu lado, dois homens. Eu só sentia um quentinho molhado se esparramando pela minha calça.

Com trinta minutos de vôo, ou seja, com um terço do trajeto, parecia que o avião tinha sofrido um ataque terrorista de tanto sangue que estava vendo se espalhando. Eu que não ia me levantar dali e andar pelo corredor até o tualéte naquele estado de quem acabou de parir um útero.

Tentei cochilar porque sou dessas de manter a calma em condições adversas, mas a torneira não estava colaborando. Digamos que meu fluxo é intenso. Mega intenso.

Passei a mão entre as pernas para tentar sentir o tamanho do problema. Era grande. No desespero, levei a palma à testa. Puta merda que saudade do Pipo ainda bem que ele não está aqui já pensou, gente?

No fone, vejam vocês, eu ouvia Joyce:

🎶- Ô mãe, me explica, me ensina, me diz o que é feminina?
– Não é no cabelo, no dengo ou no olhar, é ser menina por todo lugar.
– Então me ilumina, me diz como é que termina?🎶

E eu lá toda cagada dos pés à cabeça, literalmente.

Resolvi relaxar e curtir a viagem. O que não tem remédio remediado está já dizia a minha avó. Som na caixa.

Avião em solo. Fui a última a me levantar. Peguei meus pertences, avisei a comissária que meu copo transbordou e que havia deixado uma marca vermelho-comunista na 17F.

Sem opção, fui arrastando a minha mala toda feminina que tem um lacinho vermelho e um broche de rosa na lateral até o banheiro mais próximo esbanjando para todos que partiam e voltavam o que é ser mulher. Fui de cabeça erguida porque sou dessas de abraçar o capeta no inferno.

Banheiro público sem ducha higiênica. Ok. Tudo bem. Peguei um bando de papel e umedeci na pia. Foi quando vi no espelho o estado da minha testa.

Tranquei-me naquele cubículo. Meu copo dava orgulho de ver, gente. Nunca o vi cheio daquele jeito. Razei.

Consegui dar uma tapeada e cá estou eu no táxi escrevendo porque sou dessas de compartilhar alegrias e tristezas.

Se não for para chegar no Rio assim chorando e jorrando meu sangue para tudo qué lado nem me despeço do Pipo.

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Kama surta.

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Considerando que sexo, para mim, é dividir o que há de mais íntimo dendagente com hormônios dançando tango e que nudez é mostrar-se despida de freios, venho narrar algumas posições sexuais e preliminares que fizeram meu corpo suar purpurina desde quando conheci Pipo. Isso posto, vou enumerar meu relato erótico pelos lugares nos quais eu e ele fizemos sexo selvagem.

Menores de 18, por favor, não leiam.

1 – No restaurante.

Ambos sentados. Minha perna direita está sobre a sua esquerda. Estou, como dizem, por debaixo da mesa, arreganhada. Sua mão faz carinho bem devagar no meu joelho enquanto eu lhe conto um filme inteiro. Ele me ouve com muita atenção.

2- No cinema

Fizemos essa loucura na primeira vez que fomos juntos ao cinema. Final do filme horrível. Eu não havia entendido patavinas. Gargallhei alto sem querer por me achar tão burra e Pipo teve ataque de riso imediatamente antes de começarem os créditos. Pessoas que viram essa indecência nos julgaram.

3- No aeroporto.

Pipo de pé e eu sentada. Seus dedos pressionam levemente uma rosa vermelha enquanto me aguardava.

4- No pier da Lagoa

Ambos deitados olhando as nuvens. Pipo aponta um pássaro diferente e diz o nome dele. Eu lhe digo na lata que ele está inventando já que só conheço arara, tucano, pombo e gaivota e diferente disso é tudo passarinho. Pipo demonstra toda paciência e aprendo um punhado de coisas sobre aqueles que voam e cantam.

5- Na cama

Os dois deitados por horas. De repente, fico sentada completamente nua. Suada por me expor tanto. Explico-lhe o que me motivou a escrever “Isaac no mundo das partículas”. Leio para Pipo o primeiro e último capítulo do meu livro com ele abraçado na minha coxa ouvindo atento cada frase.

Ainda na cama. Jamais existiu uma posição em que eu não ouvisse meu amor, como eu te amo.

 

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O pecado da procrastinação.

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Há umas duas semanas, logo depois de um feriado, Yuki acordou para ir à escola e entrou em desespero porque se lembrou de que era dia da prova de geografia e ele não havia estudado nada. Pediu para que eu deixasse ele faltar e eu prontamente atendi já que era a primeira vez que isso acontecia em nossas vidas.

A segunda chamada foi hoje. E eu tenho – desde de que ele nasceu, sem exagero – lembrado dessa segunda chamada da prova de geografia todo santo dia. Estou vendo Yuki fazer várias coisas e nada de estudar para a prova desde semana passada. Não sou dessas de obrigar ninguém a ficar sentado com o livro na frente porque não estou aqui para fazer do ato de aprender uma tortura. Vai quando estiver afim senão não funciona.

Hoje de manhã ele entrou no carro para irmos à escola com os olhos maiores do que o normal.

– Mãe, a prova é hoje e eu não estou preparado. Não estudei o suficiente. Nem deu tempo.

– Não deu tempo a partir de que momento?

– De ontem à noite, mãe. Estou desesperado. Acho que vou pegar prova final dessa matéria…

– Eu não te falei que não adiantaria adiar o problema? Não disse para você estudar todos esses dias? Mas não. Você quis ficar jogando, lendo gibi, desenhando e andando de skate. Agora vê se aprende… arque com as consequências de seus atos! A vida é assim, meu filho!

Eu poderia ter falado isso. Mas não sou dessas. No lugar desse discurso que, acho eu, nada ajuda e só faz a pessoa se sentir pior ainda falei:

– Entenda o que aconteceu ao menos. Você cometeu o pecado da procrastinação.

– Que mãe.

– Procrastinação. Quando a gente sabe que tem que fazer uma coisa e empurra com a barriga. Daí quando chega em cima da hora bate o desespero porque não dá tempo de fazer direito a parada. A gente fica ansioso, arrependido, perguntando por que fez isso com si próprio.

– Caraca. É isso.

– Há pessoas que conseguem viver sem procrastinar. Mas muitas não. E acabam sentindo isso sempre. Acredito que é algo que devamos trabalhar mas não sei ao certo como. Percebo que quando fazemos o que temos que fazer mesmo sem querer costuma ser melhor em termos de paz espiritual. Mas nem sempre eu mesma consigo.

– E o que eu faço agora? Estou nervoso! Não vou conseguir!

– Calma. Alguma coisa você sabe. Foca nisso. O que não souber inventa na hora. Você tem muita criatividade. Fale bonito. Use sua sabedoria. De repente, só raciocinando você mata a questão mesmo sem ter estudado. E se for decoreba, esquece. Se errar questão de decoreba, isso não significa nada sobre você. Se pegar prova final e quiser que eu te ajude, pode contar comigo. Mas relaxa agora. Eu acho que você se livra disso hoje.

O resto do caminho fomos ouvindo música como sempre e conversando profundezas. Yuki me mostrou que sabe a letra da Geração Coca-Cola de cor e mostrou como é a batida da bateria no painel do carro.

Pode ser que eu não esteja preparando meu filho para a vida. Pode ser que o mundo lá fora vá cobrar dele mais tarde responsabilidades e eu não estou o educando para suportá-las. Sinceramente? Basta o mundo.

E.

Se o mundo é esse mesmo que vai sufocá-lo em um breve futuro, não quero de fato que meu filho me veja como cúmplice do roubo de sua infância e de sua paz para que ele se adapte bem a esse moedor de carne e de sonhos.

Seguirei serpentinando a maternidade.

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Sobre a sexualidade feminina.

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Não importa o tema. Se a pessoa diz que é simples e fácil de entender eu já sei que estou diante um ser que não aprofundou o assunto. Somos por demais complexos para sermos explicados de uma forma imediata. Quando discutimos seja lá o que for raramente existe uma verdade cristalina e isso serve também para o feminismo e suas bandeiras.

Eu me pego confusa. Converso com mulheres de todas as idades e tenho acompanhado essa juventude nos diálogos abertos que travo com eles. Não sei o que pensar. Quando vejo as manas muito certas procuro buscar a mesma clareza. Mas cadê que a encontro? Outro dia, por exemplo, estava sendo falado que atualmente colocar roupas que exaltam o corpo feminino é sinal de empoderamento. Entendo que sob um ângulo pode ser, porém percebo que, por outro viés, podemos compreender como mais uma forma de opressão. O tal shortinho é uma afirmação da sexualidade ou a sua exploração? Eu, sinceramente, não sei.

Vejo essa mulherada linda, por exemplo, nos palcos. Tipo Beyoncé, Anita e algo que o valha. Fico me perguntando quem está derrubando, de fato, padrões de beleza e quem está criando novos. Não pode estar ocorrendo as duas coisas ao mesmo tempo? Se elas não fossem tão lindas, tão sexys, tão sexualizadas… será que estariam na mídia defendendo a causa feminista? Essas estrelas trabalham em um sistema que requer que as mulheres tenham uma determinada aparência porque se não forem lindas do jeito que são e rebolarem como fazem não serão expostas na televisão.

Entendo perfeitamente que, hoje, fazer pole dance, por exemplo, posar nua e coisa e tals pode ser um reivindicação da sexualidade. Acho bacana. De verdade. O que não percebo é uma mudança real no mundo. Olhando por um lado, vejo heroínas. Olhando por outro, marionetes. Constato que muitas manas são estrategistas bem perspicazes que sabem usar essa sexualidade e obter muito lucro. Palmas para elas. Pergunto-me, contudo, por que tanta restrição nas escolhas para as mulheres e amaldiçoo esse mundo machista de entretenimento que coloca a sexualidade feminina em uma caixa de forma que ela seja a mais chamativa possível.

Daí fico analisando tudo e não tem como deixar de falar nos filmes pornôs. Foi ali que – se não começaram pelo menos – fortaleceram os esteriótipos de corpos perfeitos, bundas enormes, seios redondos, bocas molhadas e os homens de todas as formas parecendo desentupidores de pia  lidando de um jeito, acho eu, violento com todos os orifícios femininos. Posso errar feio agora, pois falo baseada em mim mesma, mas acho que a maioria das mulheres não se sente bem quando os homens agem como nesses filmes ditos eróticos. Sei que há atualmente filmes pornôs feministas onde as mulheres são tratadas com respeito, mas não é nem de longe o que os homens têm consumido. O que o mercado vende é o roteiro que mostra que para o homem gozar é necessário uma certa degradação moral da mulher. Não é à toa que  em muitas cenas vemos, se não a agressão física propriamente dita, a verbal e as atrizes respondendo a elas fazendo cara de muito prazer.

Hoje, com a internet, consome-se pornografia cada vez mais cedo e com mais frequência. Sei que muitos jovens conseguem diferenciar o que é um filme da realidade, porém, qualquer ser humano exposto repetidamente a certos temas acabam internalizando alguma fração do que lhe é mostrado.  E isso pode afetar a nossa forma de ver o mundo.  As pessoas que consomem pornografia têm muito mais dificuldade em entender o que seja um estupro pelo fato do pornô apresentar a agressão como algo sexy e fazer da mulher um ser alheio à violência por ela sofrida.

Há muitas mulheres que descobrem, nas conversas com outras, que foram estupradas. A opressão é tão grande que as vítimas têm dificuldades de convencer a si mesmas de que houve crime.

O pouco que eu vi desse mundo pornográfico afetou a minha vida por completo. É necessário ter uma auto estima de aço e do tamanho de um elefante para sair imune àqueles corpos “perfeitos”. Até hoje morro de vergonha de ficar nua. Olho para meu corpo e não me sinto atraente, aliás, penso todo santo dia que se tivesse muito dinheiro ia contratar o melhor cirurgião plástico e mexer nessa bagaça toda para me sentir melhor na hora do sexo. Maldito patriarcado. O meu corpo só me incomoda quando me lembro de que ele é visto por um homem.

E voltamos para as estrelas. Muitos clipes musicais são, a meu ver, pornoficados exacerbando essa cultura da hipersexualização. Pergunto-me quando os vejo: cadê a ideia de que ser sexy pode ser algo diferente disso que estou assistindo? Cadê o ensinamento maior para as manas que o modo como elas percebem seus corpos é  mais importante que a forma como os homens as veem? Cadê a mensagem clara que o empoderamento nada tem a ver com bunda? Cadê aquela força necessária reforçando que as mulheres têm o direito de ter encontros sexuais mutuamente prazerosos? Em que medida ser sexualmente desejável é sinônimo de saber explorar seu próprio desejo?

Agora imagine todas essas informações chegando para milhares de mulheres cuja educação sexual pode ser resumida em uma única palavra: “não”. O mundo está mudando, é verdade. Mas a gente não se transforma na mesma velocidade. Traumas estão aí para serem nossa companhia até sabe deus quando. Quando criança ouvia de minha mãe que homem nenhum podia encostar em lugar algum do  meu corpo antes do casamento. Fui educada sob o mantra que se soubessem que eu havia feito relação sexual a minha reputação estaria no lixo. E dá-lhe filmes da Disney para desgraçar todo o resto da cabeça.

Grazadeus superei muita coisa e hoje tenho uma visão bem do tipo prafrentex.  Mas veja só o quanto crescemos sem contudo estarmos próximas de sermos grandes. Outro dia, por saber o prazer que um bom sexo nos dá, cheguei a rir e achar ridículas as meninas que querem em pleno século 21 se casar virgens. Peguei-me lembrando de minha própria filha, das amigas de minha filha e de minhas alunas que conversam sobre tudo comigo. Muitas consideravam a virgindade como um entrave e achavam que o fato de terem uma relação sexual iriam lhes transformar, outras a encaravam como um “presente” que deveria ser dado a quem merecesse e assim o entregaram. Houve quem visse a virgindade como um problema a ser resolvido e o quanto antes melhor. Todas, no entanto, as que querem casar virgens e as que não são mais virgens e eu nesse meio definimos o que somos, em grande medida, pelo o que acontece entre nossas pernas. Estamos, de fato, evoluindo?

Conversei com uma mãe evangélica, uma mana empoderada que me disse que estava educando a sua filha a resistir as pressões modernas e a evitar seguir os esteriótipos que não são sinônimos de liberdade. Ela conversa abertamente com a sua filha sobre sexo. A linguagem, se duvidar, é mais desenvolta que a minha com a Nara, mas o objetivo é completamente diferente. Quem está certa, afinal? Não seria muito melhor se todas nós mães conseguíssemos ensinar para nossas filhas que como elas lidam com o sexo não pode ser um fator importante para o seu valor moral?

E vamos aprofundar a questão. O que é virgindade afinal? Nessa esteira, o primeiro beijo não pode ser considerado uma forma de perder a virgindade? Outra questão: quem pode ser considerada mais experiente: uma pessoa que já fez sexo com muitos parceiros ou outra que teve somente um, ficou horas e horas beijando e semanas aprendendo sobre prazer mútuo? E mais: o que é sexo? Entendemos o último quase como uma corrida rumo a um objetivo: satisfação plena que se alcança com um orgasmo. Mas será isso? Não há a possibilidade de considerá-lo como uma maneira de explorar a intimidade e o prazer de todos os envolvidos? E o primeiro sexo oral? É sexo? E o primeiro orgasmo? O que seria tudo isso? Há necessidade de definir? Mas se não conceituarmos, como dialogar a respeito?

Falando em orgasmo…

Não sei se os homens sabem, mas as mulheres, de uma forma geral, têm muita dificuldade nesse quesito. Muitas mas muitas mesmo fingem que têm orgasmo para deixar o homem feliz ou para que ele simplesmente pare o que está fazendo. É comum ouvirmos que os parceiros não têm paciência e demonstram isso de várias maneiras diferentes. Não raro, as manas dizem que sentem vergonha de falar o que as fazem gozar e infinitas não sabem mesmo como chegar a isso. Conheço um tanto que desistiram de chegar ao clímax com seus companheiros e se resolvem sozinhas. Como superar isso? Conversando? Como colocar essa mulherada traumatizada para profanar sobre sua intimidade com homens?

E põe nesse balaio uma quantidade considerável de mulheres que dizem que a identidade delas não pode ser construída em um relacionamento e sim fora dele. Ou seja, uma confusão dos diabos. Em que medida se ocupar profissionalmente exclui a possibilidade de um romance? E que medo é esse de se frustrar? De onde vem? Por que não considerar um encontro – mesmo que seja ruim – como uma possibilidade de melhor conhecer a si mesma?

Conversamos muitas entre nós. Haja discurso bacana sobre sexualidade, gênero, feminismo e tudo o mais. Até que daqui a pouco tudo descamba e estamos ensinando umas para as outras como se faz um bom sexo oral, como masturbar bem o companheiro, como… ô patriarcado maldito. O foco sempre sai de nós… Não é fácil. Revisamos e reformulamos a definição de “puta” mas por que não a descartamos de uma vez?

Enfim, sigo sem concluir patavinas. De qualquer forma, a única coisa que me pareceu clara é que se quisermos entender mais sobre o assunto, não devemos perguntar aos mais velhos e sim aos adolescentes. Não que eles saibam mais. Nada disso. Estamos todos perdidos. Mas eles têm me parecido muito mais sábios e abertos para debater o tema que é inesgotável dada a complexidade do universo de cada um.

Esse texto foi apenas um desabafo. Não entender sobre muita coisa e, principalmente, sobre mim mesma me deixa angustiada. Escrever alivia um pouco esse sentimento. Compartilhar as minhas nuvens, um tanto mais.

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É imprudente viver sem a arte

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Há tempos ando brigando com o sistema tradicional de ensino, falando mal dessa Reforma do Ensino Médio e colecionando inimigos por onde passo por afirmar que as escolas são fábricas de zumbis. Somos produtos dessa sociedade e basta olharmos para nós e para os lados para constatar que eu não estou delirando.

Para começar, mal conhecemos a nós mesmos e somos demasiado atrapalhados para lidar com o pouco da gente que vem à tona. Não importa  o saldo de sua conta bancária. Dá-lhe remedinhos para dormir, para ansiedade, para pressão, terapias para lidar com o medo, frustrações e inseguranças. Estivemos grande parte de nossas vidas em uma sala de aula aprendendo coisas que jamais usamos em nosso dia a dia quando poderíamos simplesmente ter aprendido a aprender. Hoje? Cadê a motivação de muitos para sequer abrir um livro? Quem são esses que não veem a serventia de uma poesia?

Lembro-me de quando entrei para aula de latim e, logo depois, para o curso de italiano. Muitos me perguntavam para quê estava aprendendo algo que não tinha utilidade nenhuma já que “latim é uma língua morta” e  a “língua universal é o inglês”. Nem preciso dizer que não foi diferente quando fui fazer meu doutorado em filosofia e estudar sobre a metafísica presente na mecânica do século 17. Simplesmente fui considerada um ET por uma infinidade de gente por estudar o que gosto sem a menor pretensão de um retorno financeiro.

Leio muito e sou viciada em literatura. Em termos materiais, nunca tive um só retorno por passar tanto tempo diante dos clássicos pelo simples prazer de viajar com os personagens animada somente pelo desejo de, através deles, analisar a mim mesma.

Para vivenciarmos uma verdadeira metamorfose no – digamos por falta de uma palavrinha melhor – espírito, acredito que precisamos nos deparar com um conhecimento verdadeiro que só é adquirido através de nós mesmos e porque o queremos. E isso se deu comigo ao encontrar escritos das mais diversas naturezas. Sinto necessidade de estudar sobre assuntos variados como preciso das funções vitais para viver. A necessidade de criar e imaginar em cima do que assimilo, para mim, é tão fundamental quanto respirar. E isso não aprendi na escola. Pelo contrário. Se dependesse dela, estudaria “para ser alguém na vida”- subtende-se que “ser alguém na vida” é um ser que tenha o poder de consumir muito em nossa sociedade. Foi isso que ensinaram e que recusei a introjetar.

Nas escola, sequer aprendemos coisas que podemos utilizar para fins técnicos. O que praticamos é estudar para “fazer prova” e, logo depois que a fazemos, esquecemos tudo o que foi lá depositado. Que lindo seria se ao invés disso pudéssemos lidar com conhecimentos e atividades que conduzissem a nós mesmos…

Não sou louca em colocar em dúvida a importância da preparação profissional como um objetivo das escolas. Pergunto-me somente se o foco da educação não poderia se estender para além da formação de médicos, engenheiros ou advogados. Temos mania de equiparar a pessoa com a sua profissão desconsiderando que em todo ser há algo de muito valioso e essencial que vai muito além do que lhe rende dinheiro. E é exatamente esse algo que é muito pouco trabalhado nas escolas e, dada a Reforma do Ensino Médio, se reduzirá a nada. Falo de uma formação cultural mais ampla que encoraja os alunos e as alunas a mergulharem em si mesmos (as).

Nesses dias em que estamos vivendo onde os nervos estão expostos pela falta de dinheiro e o país em crise, essa ideia de que devemos focar em estudar “coisas úteis” para a vida fica mais ainda exacerbada. E, por tabela, percebo mais pessoas depressivas, perdidas, sem saber o que fazer com seu destino. Essas não foram incentivadas a refletir que  as atividades que não servem aparentemente para nada são aquelas que nos ajudam a fugir dessa prisão, a transformar a vida não em algo superficial ou o seu corpo em uma máquina e sim fazem de nós seres humanos mais humanos. Se não estou sendo clara, falo  da arte no sentido mais amplo que a sua mente conseguir alcançar.

Com essa onda conservadora crescendo e a censura toda hora nos rondando, é comum vermos os artistas sendo chamados de vagabundos e exposições, shows, peças teatrais e livros serem ridicularizados pela sua “falta de utilidade”. Mal sabem esses que não se combate uma crise como a nossa cortando fundos destinados à cultura e destratando quem a produz. Pelo contrário. É preciso duplicar o investimento naquilo que nos torna mais sábios para que não caiamos de vez no abismo da ignorância.

Tenho falado por onde ando que só a arte, a coisa mais inútil que existe – segundo o mercado -, vai dar jeito nesse mundo porque através dela conseguimos lidar com (sem, contudo, compreender) a essência do que somos. Vale observar, não vejo muita diferença entre arte e ciência (não essa que é ensinada nas escolas, mas aquela de Galileu, Newton e Einstein, por exemplo, que não tem nos livros didáticos). A ciência também pode ser estudada e vista como uma forma de expressão do espírito humano. Grande parte dela ao ser criada não tinha como objetivo outro a não ser trazer uma grande satisfação pessoal pelo espanto que ela é capaz de provocar por aqueles que lidam com a soma: criatividade + vontade de conhecer a natureza.

Há duas maneiras de vivermos. A primeira é olhar para esse inferno que nos rodeia, aceitá-lo e tornar-se parte dele. Essa é fácil e é o que aprendemos a fazer nas escolas e nas universidades: sermos passivos ao aprendizado, acreditar que o mundo sempre foi assim e temos que nos adaptar a ele. A segunda é mais complicada e requer uma coragem e uma disposição eternas: saber que esse inferno não foi feito por Deus e sim pelo homem, portanto, é bastante suscetível de ser implodido.

O quão diferente seria a sua vida se a educação que lhe deram focasse nas oportunidades (de olhar para dentro e de ganhar força) e não nas obrigações (impostas de fora e que lhe enfraquecem)?

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Sobre a representatividade das mulheres na política.

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Todos sabem que a representatividade das mulheres na política no mundo é baixa. Com a projeção que ganhei nas redes sociais e a exposição de minhas opiniões sobre diversos assuntos, acabei recebendo o telefonema de Lula, conhecendo-o pessoalmente e me filiando de forma consciente ao Partido que mais fez pelos pobres no Brasil.

Depois disso, surgiram convites para participar de forma mais orgânica da política que vai desde participação de plenárias até a ideia de eu me candidatar para algum cargo em 2018. Amei tudo isso.

Porém.

Moro em Madureira, subúrbio do Rio. Tenho dois filhos e uma filha que vivem e contam comigo. Sou provedora desta casa. Faço tudo sozinha. Conserto bomba de caixa d’água, troco resistência de chuveiro, resolvo vaso entupido, vou ao supermercado, levo um à aula de bateria, outra na aula de piano, participo da vida deles o máximo que posso, além de trabalhar. Conto com a ajuda de meus pais que moram ao meu lado e por esse apoio, dentre outros motivos, não saio daqui. Sem eles, nem sei o que seria de mim.

Tenho um carro velho que vive na oficina e o caminho de casa até o centro da cidade onde tudo acontece – inclusive onde trabalho – fica em torno de uma hora.

Se saio de casa à noite para uma reunião do partido ou de algum movimento social isso significa ter que deixar meu caçula sob os cuidados da empregada. Os mais velhos estão sempre fazendo curso, faculdade ou em ensaios. Meu pequeno sempre me pergunta que horas eu volto e se vou almoçar ou jantar em casa com ele. Abro mão do que consigo para ele não se sentir muito só em casa.

Fora isso, saio e retorno sempre sozinha de quase todos os lugares e, para vocês terem uma ideia, aqui não se renova mais seguro de carro e nem entregam nada comprado na internet por ser considerado área de muito risco.

Sempre tive o sonho de me mudar para mais perto de onde trabalho, no Maracanã. Quando meu casamento acabou, meu ex marido foi morar no Leme em um apartamento de um quarto praticamente em frente a praia. No que pese o reconhecimento pela atenção que ele jamais deixou de dar a nossa prole, a carga máxima ficou nas minhas costas e entendi bem o que é ser homem e ser mulher em nossa sociedade.

Um apartamento minúsculo de três quartos mais próximo ao centro é quase o dobro do preço da casa onde eu moro que tem quatro quartos. Não tenho como arcar com essa despesa e não cogito a hipótese de morar sem meus filhos e minha filha.

Não ganho mal, mas não sobra nada porque invisto tudo nos cursos da molecada. Paguei a faculdade do mais velho sozinha que não é filho biológico do meu ex-marido e pretendo investir agora em sua pós graduação. Sou, financeiramente, a única pessoa com a qual ele pode contar.

Tudo isso para dizer que é extremamente difícil eu conseguir atuar de forma mais eficiente na política e aumentar a representatividade das mulheres por eu ser, exatamente, uma mulher típica de nossa sociedade. Mãe que prioriza o futuro da cria acima de tudo. Pessoa que sofre com o deslocamento em uma cidade grande e abandonada como o Rio. Mulher que sabe que é alvo fácil de bandido. Gente que quer fazer sem ter como.

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