PEC do Calote

Alô, Brasil. Teve episódio do House of Paranauê de madrugada! A Câmara aprovou o texto-base da PEC dos Precatórios em primeiro turno, por 312 votos a 144.

A proposta recebeu somente quatro votos a mais que os necessários (308) para aprovação de uma emenda à Constituição. Ou seja, foi uma vitória apertadíssima para eles.

Para quem não sabe o que é precatório, de forma resumida, é um documento que comprova a dívida que o Poder Público tem com uma pessoa ou uma empresa.

“Como assim?”

Vou dar um exemplo real.

Alguns Estados e municípios moveram ações contra a União por discordâncias nos repasses dos fundos educacionais.

A galera foi lá, analisou as reclamações e pá. Viram que, de fato, estavam repassando dinheiro a menos para os fundos – como o Fundef que era o Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e de Valorização do Magistério.

“Daí o que faz? Paga assim na hora?”

Não. Não é assim porque dinheiro público não é bagunça. Pelo menos, não deveria ser.

Há urgências que precisam ser analisadas e, por isso, temos o precatório que garante que a dívida será paga.

E há, obviamente, um prazo para isso.

Neste caso específico do meu exemplo real, os recursos oriundos das decisões judiciais eram para pagar a remuneração de profissionais da educação básica e despesas com manutenção e desenvolvimento da educação, como aquisição de material didático-escolar e conservação das instalações das escolas.

Daí, vocês viram que Bolsonaro acabou com o Bolsa Familia que, em sua essência, não tinha data para terminar, né?

No seu lugar, colocaram algo que ninguém entende direito como será, mas que tem data certa para terminar que é no ano que vem, ano de eleições presidenciais. Assim nasceu o Auxílio Brasil que cumpre uma função nobre de ajudar quem precisa, mas com um objetivo altamente eleitoreiro.

Como disse, o Esmola Brasil, ops, o Auxílio Brasil é um programa sem pé nem cabeça e eles começaram a dizer que não sabiam de onde iam tirar o dinheiro para o que tinham inventado.

Quando há uma situação de urgência como essa no país (neste caso, a fome), nossas leis permitem a abertura de um crédito extraordinário. Não seria a primeira e nem a última vez que isso aconteceria.

Mas o que fizeram? Uma emenda à Constituição conhecida vulgarmente como PEC dos precatórios que nada mais é do que uma PEC do calote.

Disseram que para pagar o auxílio tinham que esquecer os precatórios.

“E quem estava esperando o dinheiro, como os professores?”

Que esperassem sentados assim como outros que acreditaram que um documento neste Brasil – como a promessa de pagamento da dívida assinada pelo Poder Público – valesse alguma coisa.

“E como tanta gente votou a favor disso?”

Muitos deputados receberam várias emendas como moedas. Emendas, neste caso, quer dizer muito dinheiro. Então, para votar pelo calote, eles receberam essas emendas. Ou seja, todo mundo pensando em eleições 2022, conseguem perceber?

“Mas que emendas são essas?”

Rá. “Emendas secretas”. Foi assim mesmo, pasmem, que elas foram chamadas.

“E deputados que não estavam lá e não podiam votar de acordo com as regras?”

Muito fácil para o presidente da Câmara, Arthur Lira, resolver essa. Ele numa canetada modificou ali na hora o regimento interno e passou a ser permitido que parlamentares em missão oficial pudessem votar remotamente. Até assessor de deputado podia votar. Foi uma festa daquelas.

Depois de hoje, se tiver parlamentar no Japão, na China e na Conchinchina pode votar porque aqui, mermão, aqui é Brasil.

Eu diria que foi uma das maiores cenas de corrupção a olhos vistos – para quem não dorme neste país já que toda essa história foi pela madrugada.

Se você entendeu que tudo não passa de um calote em professor para comprar deputado, você está compreendendo bem até aqui.

“E o teto dos gastos que a direita criou que deixou a Educação e a Saúde super vulneráveis dizendo que era hiper necessário o teto para o Brasil não acabar?”

Foi furado para garantir esse auxílio até 2022.

“Mas e aquele papo de “responsabilidade fiscal”?”

Pois é. Como dissemos, e cansamos de repetir, era mentira.

Se você ainda está em dúvida se isso é bom ou ruim, vou tentar ajudar: o tal “Deus mercado” ficou muito feliz.

“Por quê?”

Aparentemente, porque não se importa com calote da dívida pública e sim com o mercado.

“E por que isso vai beneficiar o mercado?”

Porque esse negócio de precatório se vende fácil.

“Como assim?”

Suponha que você tenha um precatório de 30 mil que está para receber no final de 2022 e está precisando muito de dinheiro. Daí, tem gente que fica atenta a isso e já te oferece 20 mil pelo seu precatório.

E estamos falando, só de dívida com o antigo Fundef, de 16 bilhões, ok? Tá ligado no que estou dizendo?

Se você entendeu que eles falaram que queriam proteger os mais pobres e deram um calote nos precatórios, presenteando deputados com as ‘emendas secretas’ para fazer um programa mequetrefe que será aplicado somente durante o ano eleitoral, você entendeu bem até aqui.

Agora, então, você consegue me responder:

É a fome de quem que eles querem matar com isso?

“Nem terminou a marmita”

Li, há tempos, o livro “O Último Trem de Hiroshima” de Charles Pellegrino. Qualquer relato sobre a bomba atômica que conte como a população civil foi alvejada é por demais inesquecível. Neste livro, Pellegrino ouviu vários sobreviventes e registrou suas histórias. 

Há diversas imagens que jamais sairão da minha lembrança narradas por quem testemunhou ou sobreviveu a tanta dor. Uma cena, porém, volta com mais frequência tamanha é a estranheza, a intensidade e a realidade do gesto descrito.

Foi o caso de uma mãe que, sabendo da tragédia de que a bomba tinha sido lançada, correu sobrevivente, depois da explosão, em direção à escola para achar seu filho. 

Encontrou-o morto pelo caminho. 

Queimado. 

Antes de chorar, a mãe checou a lancheira de seu filho para ver se ele tinha se alimentado e, vendo-a vazia, sentiu-se consolada por milissegundos.

No mês passado, aconteceu uma história parecida, mas com outro cenário. A mãe de Gabriel Araújo, jovem negro de 19 anos morto a tiros em uma operação de combate ao tráfico de drogas da Polícia Civil no Morro do Piolho, na zona sul de São Paulo, ao ver a comida de Gabriel suja de sangue, lamentou “Nem terminou a marmita”, ao mesmo tempo que contestava a ação dos agentes no local.

A mãe de Gabriel não teve sequer o breve tempo de consolo que sentem as mães ao verem seus filhos alimentados.

São duas histórias que se cruzam na violência que deixa inúmeras mães órfãs e que nos mostram a intensidade do significado que tem, para as mães, ver um filho com fome. É algo que é capaz de aumentar o que já é por si insuportável: a perda eterna de apetite.

Pode ser cultural esse laço – e não institivo -, como dizem. Mas, uma vez feito, embrulha tudo.

E esse tudo é tanto que a morte do filho que não se alimentou tem, diante dessa unificação e de tantas tragédias, um outro sentido. Não sei se é passível de tradução, mas creio que valha saber, para quem lê este mundo, que essa dor, tão ímpar, também existe.

Volta às aulas presenciais. 2021.

Igor passou a pandemia toda assistindo aulas pelo computador em seu quarto do qual só saía para ir ao banheiro e comer alguma coisa. Ao contrário de muitos adolescentes e a despeito da carência de vitamina D, Igor estava feliz como qualquer pessoa mal informada sobre as mazelas do mundo.

Igor ficava uma semana na casa do pai, Fernando, e da mãe, Maria Lúcia, que morava também com seu namorado, Ricardo.

Em ambas as casas, Igor tinha um quarto só seu, um computador só seu, dois monitores e uma cadeira de gamers para não ter problema de coluna.

Acontece que a escola em que Igor estudava, estava voltando para o regime presencial e isso, para Igor, era um problemaço. 

Maria Lúcia estava aliviada. Afinal, a pandemia estava acabando e dentre tantas coisas, Maria Lúcia não aguentava mais ver seu filho ficando verde de tanto que ficava no quarto. 

Era a semana do pai. E Fernando estava já se irritando porque Igor estava dizendo que não ia de jeito nenhum para a escola.

Fernando fez o que os pais fazem quando têm problema. Foi decidido mandar mensagem no WhatsApp.

“Ô, Maria Lúcia, Igor não quer ir e eu não sei mais o que faço aqui”.

Maria Lúcia era antipunitivista, feminista, anti racista, anti machista, vegana, ambientalista, sindicalista, sambista, flamenguista e homofobia não era opinião para Maria Lúcia. Desse jeito. 

Fernando acreditava na terceira via.

Maria Lúcia estava num zoom.

“Fernando, converse com ele com amor, por favor,  estou numa reunião. Quando sair, te ligo”.

Fernando leu a mensagem. Considerou a possibilidade. Foi quando Igor saiu do quarto para beber água com o celular na mão.

– Igor, já arrumou suas coisas para a escola amanhã? Tudo certo?
– Pai, eu já disse que não vou.
– Pois se não for, esquece esse celular e seu computador! Não vou ficar pagando Internet para quem não quer estudar!
– Pai, estou estudando no remoto.
– Pois acabou! A pandemia acabou, o vírus foi dominado, as aulas vão voltar e você vai para a escola!

“Maria Lúcia, acabei de tirar o celular da mão dele e disse que se ele não for para a escola, vou cortar a Internet da casa.”

Maria Lúcia suspirou. 

Chegou em casa e foi conversar com Ricardo sobre como é difícil esse negócio do pai ser muito diferente da mãe.


– Como pode né, Ricardo? Será que só consegue educar ameaçando? Será que não tem outro jeito de educar?
– Besteira mesmo, Lucinha, bater boca com um garoto tranquilo daquele. Eu iria oferecer 20 reais para ele ir. Duvido que Igor não aceitasse.

————–

Igor foi para a escola e chegou na casa de Maria Lúcia com um cheiro forte de álcool.

Maria Lúcia chamou Igor para conversar e perguntou com todo o jeitinho de uma mãe progressista se Igor tinha bebido.

 – Mãe, de fato fiz algo errado. Saí irritado da escola e pisei forte no pedal do suporte de álcool em gel. Aquela porcaria espirrou na minha camisa.

E mostrou a camisa úmida e manchada para Maria Lúcia.

Machucada por dentro

Precisamos conversar sobre a velocidade dessas mobiletes. Eu falo mobilete porque brinquei com fofolete e vi Claudia Raia casando com Alexandre Frota.

Elas não são bicicletas porque nunca vi ninguém pedalando aquela geringonça. Também não são motos porque não tem placa e quem pilota não usa capacete. Assim entendo.

Elas andam pelas calçadas se achando gente e no asfalto se entendendo como foguetes.

Hoje, precisei ir ao centro da cidade. Decidi ir de bike Itaú. Do Largo do Machado até a Cinelândia, quinze minutos e três reais. Peguei meu capacete porque sou dessas de respeitar a quina do meio fio. Coloquei minha super máscara PFF2 porque confio na Ciência e quero conhecer meus netos e ver Lula ser presidente de novo. Vários anos de governo Lula, para ser mais exata. Portanto, cuido muito bem da minha saúde. É o que estou querendo dizer.

Parei no sinal vermelho com capacete, máscara e esperança no relatório da CPI.

Quando ficou verde, pedalei como os que estão prestes a ver o Pão de Açúcar.

Uma mobilete pilotada por um sujeito sem máscara, sem capacete, sem noção vinha naquela velocidade que estou querendo criticar e problematizar desde o início deste texto.

Comecei a prestar atenção na rapidez que elas andam quando vi, outro dia, no Aterro, uma criança sendo atingida por um adolescente que estava indo para aula de vôlei a mil por hora em plena ciclovia.

O piloto de hoje avançou o sinal como fazem os que criticam as políticas públicas que diminuem a fome neste país.

O choque foi inevitável. Caí como se tivesse sofrido um impeachment sem motivo.

Era injusto aquele tombo. Não tinha feito nada de errado.

Seria até pontual no meu compromisso se não tivesse sido atropelada.

O babaca quis me ajudar. Me pegou tão desarmada. Assustada, eu disse não.

Pedi para ele ficar distante já que estava sem máscara. Pedi também, se possível, que ele virasse gente. Que pensasse no próximo, que respeitasse os sinais de trânsito, a Constituição e a vontade do filho do superman.

Falei isso com a bicicleta em cima de mim e meu cóccix beijando o asfalto como um pé que encontra com uma bola.

Enfim.

Estou aqui colocando gelo na buzanfa vendo as vaias que Bolsonaro está recebendo na Itália.

Se tivesse um limite para a velocidade dessas mobiletes e para Arthur Lira, minha noite estaria sendo bem melhor.

Precisamos conversar sobre isso. Estamos correndo sérios riscos.

Como haverá Estado sem servidor público?

Estou cansada de ouvir que servidor público tem que acabar. Trago então algumas perguntas que costumo fazer para quem vem com essa ladainha para o meu lado. Compartilho com você poucas das quais me lembro. Pode contribuir, se quiser, nos comentários, ok?

Se acabar com a figura que mantém um contrato de trabalho com o Estado cujos vencimentos decorrem da arrecadação de impostos e é proveniente de concurso público, o que resta para servir a sociedade?

Como se constrói um país sem espaços, instituições, ideias e bens que não sejam ao mesmo tempo de cada pessoa e da coletividade?

Como haverá Estado sem servidor público?

Pessoas físicas que exercem uma determinada função de interesse público e ao bem comum existem em um país sem Estado?

O que significa eliminar o Estado?

Em que medida privatizar setores de interesse público se diferencia da ideia de destruir serviços essenciais à imensa população que não tem condição alguma de pagar pela prestação de determinados serviços?

Há outra maneira de destruir o Estado sem se privar de recursos a área que se deseja privatizar?

Alguém respira bem enquanto está sendo asfixiado?

A quem interessa criar e incentivar uma campanha de difamação pública contra o serviço público ou associar o servidor a uma série de coisas negativas, como à corrupção, à ineficiência, ao mau atendimento?

Há serviços privados direcionados à população baratos e bons?

As filas de espera pela prestação de serviços é um problema somente do serviço público? O que dizer sobre as filas nos supermercados, bancos, e para atendimento médico mesmo com plano de saúde?

Você está satisfeito com o quanto paga por mês para sua operadora de celular e pelo serviço prestado?

Por que devo acreditar em que defende o “Estado mínimo” se são as mesmas pessoas que praticam vários tipos de monopólio e também cartéis?

Por que falam sobre a necessidade de desmontar os serviços públicos, sendo que o Brasil continua destinando quase metade do orçamento federal para o pagamento de juros e o rolamento da dívida pública federal?

Por que em um país cujo governo federal destina aos banqueiros e rentistas a soma de R$ 1,038 trilhão ou 38,27% de todo o orçamento público federal, promove uma campanha contra o servidor público?

Como seria o atendimento da população durante a pandemia da Covid-19 se não houvesse o Sistema Único de Saúde (SUS)?

Deixo aqui essas questões no dia do Servidor Público.

Em tempo, parabéns para todas as pessoas que estão por aqui e que, como eu, trabalham em serviços públicos.

Perguntar não ofende

O que é mais condenável em nossa sociedade: a injustiça ou o fracasso?

Por que, do ponto de vista do poder, o extermínio da população pobre não é visto como um mal a ser combatido?

Por que os países que mais pregam a paz são os que mais armas vendem?

Antes de estimular a demanda, a publicidade produz que tipos de violência?

Quem matou mais pessoas até agora: a Segunda Guerra Mundial ou a pobreza?

Seria possível um planeta constituído só de países ricos?

Por que chamam de “mercado livre” aquilo que a maioria das pessoas só pode olhar e não pode comprar?

Se em um país que tivesse duas pessoas somente e uma delas fosse bilionária enquanto a outra vivesse para lhe servir, o PIB que seria alto teria qual significado?

Quem se beneficia com a decadência do controle público na economia?

Se as indústrias mais bem sucedidas no mundo capitalista são as mesmas que mais poluem o planeta, qual o preço que se paga por tanto desenvolvimento?

Em que medida a globalização se difere do imperialismo?

Por que os que vivem em comunhão com a natureza e consideram a terra sagrada são chamados de incivilizados?

Quais são as instituições que se dedicam em afirmar de diversas maneiras diferentes que a desigualdade social e o racismo fazem parte da harmonia do Universo?

Quando e onde aprendemos preferir a segurança do que a justiça?

Qual o nome que devemos dar quando um grupo de homens fardados derrubam governos civis?

Em que medida o medo alimenta o capitalismo?

Por que chamamos de progresso quando algumas pessoas passam fome e outras são envenenadas pela comida?

Por que nunca nos unimos contra as pessoas que lucram em cima da nossa dor?

Em que momento passamos a achar normal escolas privadas?

Temos mais medo da multidão ou da solidão?

Quem foi mais enfático em nos convencer que indígenas são selvagens porque tudo compartilham e não tem ambição de riqueza: a indústria cinematográfica de Hollywood ou as escolas?

Assusta mais uma criança sem livro ou com um celular?

O que acontece com os policiais honestos do Rio de Janeiro?

Por que quanto maior é o montante de dinheiro roubado menor é a pena?

Se as prisões significam segurança, por que os países com menos prisões são os menos violentos?

Se houver mais desempregados que empregados, como vão fazer para que a maioria obedeça?

Os responsáveis pela poluição de um rio são chamados de criminosos ou empresários?

A sociedade de consumo produz só objetos descartáveis ou, também, seres humanos que são usados e jogados fora a seguir?

Se somos livres, somos livres de quê exatamente?

Qual o nome do lugar em que pessoas que trabalham não têm medo de ficarem desempregadas?

Como se luta contra o terrorismo vendendo armas para países terroristas?

As caveiras riem de quem ainda vive?

Morre-se mais de overdose ou traficando drogas?

Contra quem as leis são aplicadas?

Se quem luta pela diminuição da desigualdade social é chamado de comunista, como devem ser chamadas as pessoas que não se preocupam com as injustiças sociais?

É direito dos empresários roubarem em grande quantidade?

Que nome damos ao sistema que há seres trabalhando em condições insalubres, sem lugar para comer, sem banheiros para usar durante o expediente, sem aposentadoria, sem direitos, sem férias e que ainda precisam agradecer por estarem trabalhando?

Se um país enriquece vendendo muitas armas, o PIB alto significa o quê exatamente?

Por que chamamos de progresso quando aplicamos uma tecnologia de ponta em indústrias que gera uma alta taxa de desemprego?

Por que em países, como o Japão, que morrem milhares de pessoas por ano por excesso de trabalho são considerados desenvolvidos?

Por que dizem que se portam mal quem defende a natureza e deseja que o salário mínimo seja maior?

As loucas da Praça de Maio são assim chamadas porque se recusam a esquecer?

Os terapeutas que percebem que grande parte de seus pacientes sofrem por excesso de trabalho lutam por um mundo mais justo?

Os cardiologistas que sabem que grande parte de seus pacientes sofrem infarto por tanta preocupação se manifestam contra o sistema que lhes adoecem?

É confiável o local cujas indústrias ecológicas movimentam uma fortuna maior do que as indústrias químicas?

A história oficial é escrita por quem preza a memória ou por quem tem interesse em apagá-la?

O quão disposta está em combater as causas das doenças a pessoa que lucra com elas?

Quem nada consome também pode ser chamado de cidadão?

O gastroenterologista que detecta que muitas gastrites são causadas por conta dos baixos salários de seus pacientes se manifestou contra a reforma trabalhista?

Países desenvolvidos são chamados assim porque se desenvolveram “a despeito” ou ‘por causa” do subdesenvolvimento alheio?

Por que quem participa da Guerra às drogas não se manifesta contra os agrotóxicos?

Por que os que matam os pobres não lutam para erradicar a pobreza?

Quando elogiamos uma flor dizendo que ela parece de plástico, precisamos de terapia ou de um professor de história?

Por que não proíbem também a propaganda de carros os que proibiram a propaganda de cigarros se ambos estragam o ar que respiramos?

Por que temos facilidade de condenar o criminoso e não o modelo de sociedade que intensifica o crime?

Qual o nome do sistema em que muitos constroem algo que jamais terão dinheiro para comprar?

Qual é a única espécie do planeta que acredita que um país vai melhorar cortando gastos com saúde e educação?

Engarrafamento também é sinal de progresso?

Por que quem se esperneava diante um triplex se cala ao ver apartamentos e mansões comprados com dinheiro vivo?

Por que na escola, quando explicam as cadeias alimentares, não falam das longas cadeias de subordinações sucessivas em nossa sociedade?

Por que chamam de democracia o sistema que ignora mais de cem processos de impeachment?

Quem naturalizou o fato dos animais não poderem pastar ou ciscar e terem o tempo de vida reduzido para que nos alimentemos com seus pedaços?

Nessa sociedade de consumo, a injustiça social é um erro a corrigir ou uma necessidade essencial?

O que mais assusta um empresário: um hipopótamo ou um sindicato?

Por que os que não se importam com o desmonte das estatais se mostram tão preocupados com os empregos criados pelo véio da Havan?

Quem nos ensinou a não se importar com os animais que são fervidos vivos?

Faz sentido definir a riqueza sem a pobreza?

Quando uma mulher negra será presidenta de um país?

Quem mandou matar Marielle?

Quem nunca?

Foto: Bárbara Lopes

Eu estava quieta e puríssima quando chegou a mensagem da amiga muito feliz. Vinha acompanhada de uma foto que justificava tamanha euforia.

Esse brinquedinho não tenho ainda, pensei.

Cliquei na imagem. Ampliei e tirei algumas dúvidas com a amiga que começava os áudios com “amiiiiiigaaaaa cê não tá entendendo…”

Ouvi todos na velocidade 1.5 tamanha curiosidade estava

.Pensei. Quero.

Mereço.

É disso que precisamos nesse momento: relaxar um pouco.

E que ninguém saiba jamais porque nós, as mocinhas, somos super discretas.Apaguei rápido a foto porque né. Mãe de três e toda trabalhada na crisma.

Entrei na Internet. Fui para o computador para ver melhor as fotos em vários ângulos.

É.

Dividindo em três vezes dá.

Cliquei no botão Compre Agora com gosto – não sem antes olhar para trás conferindo se não vinha alguém. No caso, um filho. Pipo está em Brasília há um mês, o que foi fundamental para minha tomada de decisão.

Coloquei o endereço e e-mail tudo certinho. Conferi várias vezes com medo da encomenda chegar em um vizinho com meu nome.

Fiz o sinal da cruz e conclui a compra. Mãe, professora, política,… se alguém sabe disso Deus me livre nem pensar. Bati três vezes na madeira porque sou dessas. Me cerquei por vários lados.

Tudo certo. Bati palminhas animada em frente ao computador como a Branca de Neve cantando para os sete anões. Nessa vibe.

Fui fazer um chá toda serelepe quando o telefone vibra.

Minha mãe mandou o print da minha primeira compra online no Sex Shop perguntando o que era aquilo que chegou no WhatsApp dela.

Levei um susto. Bem que disseram que Deus vê tudo. Jesus amado… Gelei.

Achei que Deus tinha mostrado o que fiz para todo o Brasil.

Segundos depois me dei conta. Não foi Deus que me dedurou.

Na hora de escrever o telefone, eu escrevi sem querer o número para o qual ligo todo santo dia: minha mãe.

VIxi.

“É vírus, mãe! Não abre, mãe!!! Apaga! Apaga! Joga o celular longe, mãe!”

Nem comprar um brinquedinho em paz a gente consegue neste país.

Ah gente…

Testemunhas da história

Charge do Quinho

Estava Seu Roberval atrás do balcão secando os copos no botequim ali na rua do Catete quando entra Pedrinho, garoto novo quase a completar dezoito anos que mora há tempos na comunidade Tavares Bastos e, agora, está fazendo entregas com uma mochila quadrada nas costas. Seu Roberval conhece Pedrinho desde criança. Sempre dá um suco para o garoto e deixa sempre ele almoçar no seu botequim.

Não são parentes, mas a convivência cria laços na mesma intensidade.

Outro dia, ele estava pedindo para Pedrinho tomar cuidado com o crime organizado porque lá na comunidade em que Pedrinho mora…

– Tenho medo disso não, Seu Roberval. A gente tem que ter medo é da economia mundial que é mais eficiente que o crime organizado.

Teve a outra ocasião em que Seu Roberval viu em um programa de televisão sobre matadores de aluguel. Assim que Pedrinho chegou e se sentou, lá veio Seu Roberval preocupado com o menino e tacando-lhe conselho como quem oferece pudim de sobremesa:

– Tenho medo de que me chamem para ser isso não, Seu Roberval. Evito essa gente como quero distância dos generais.

– Mas o que general tem a ver com isso, meu filho?

– Seu Roberval, matador de aluguel faz, num plano muito menor, o mesmo trabalho que cumpre os grandes generais condecorados.

Seu Roberval insistiu para que o menino se mantivesse longe das armas.

– Eu fico, Seu Roberval. Você sabe que a minha mãe me mata se eu morrer de morte com arma, disse redundantemente Pedrinho. Mas vou confessar que tá complicado porque agora os cristãos tomaram o poder. Eles tão armando todo mundo, Seu Roberval. Não é esquisito que quem mais fala de paz mais pega em armas?

Seu Roberval começou a se lastimar porque Pedrinho não teve a infância que merecia.

– Fica assim por causa de mim só não, Seu Roberval. Se o senhor pensar direitinho, nesse mundo, ninguém vive a infância direito não. Menino rico como tem aqui na Zona Sul é tratado como se fosse dinheiro para que, quando crescer, agir como se fosse o Mercado. Menino não muito rico da classe média vive olhando para o celular ou para um computador aprendendo a ser, desde meninos, prisioneiros desse sistema.

Da última vez que Pedrinho foi lá, Seu Roberval perguntou para ele se as pessoas têm lhe tratado bem. Seu Roberval morre de medo de maltratarem um garoto tão bom.

– Precisa ter medo disso não, Seu Roberval. As pessoas me tratam muito bem. Sou o pobre que elas gostam. Me porto bem, sequer olho de cara feia quando não me dão gorjeta. Essa gente sabe que serei vendedor de alguma lojinha ou um bom empregado a preço de banana de alguma empresa que fabrica traje esportivo que eles usam quando vão viajar para Europa.

Seu Roberval é desses que têm muita idade e o hábito de tentar explicar tudo com a propriedade dos que testemunharam grande parte da história. A questão é que Pedrinho, assim como Seu Roberval, já é testemunha de muita história.

Explicando o que é Educação para o Ministro da Educação

O ministro da Educação mostrou nesta semana, pela milionésima vez, que de Educação não entende nada. Dentre tantas atrocidades proferidas pelo pastor como a de que “as Universidades são para poucos”, Milton Ribeiro, em uma entrevista no programa Novo Sem Censura da TV Brasil, disse que “alunos com deficiência atrapalham”.

A questão da inclusão nas escolas tem um paralelo com a inclusão na sociedade como um todo. Há uma ideia obsoleta de que a pessoa com deficiência tem uma incapacidade generalizada para aprender e conviver socialmente. Tivemos muitos debates e algumas políticas públicas no sentido de derrubar esse pré-conceito. Dentre tantas coisas, tínhamos compreendido que a principal forma de não discriminar as pessoas com deficiência é que elas tenham a opção de escolher o que é mais adequado para elas.

Existe, como já disse, uma visão estereotipada e ultrapassada, como a do pastor ministro da educação, de que todas as pessoas com deficiência têm dificuldades e trazem problemas em relação à aprendizagem e à sociabilidade. É claro que há pessoas que, em função da gravidade da deficiência, não se beneficiam do ensino comum, mas são exceções. No geral, o fracasso na aprendizagem deve-se muito mais ao sistema do que à criança com deficiência. Já tínhamos avançado neste debate e compreendido que devemos focar mais no que a criança consegue fazer no que ela não consegue por conta de sua deficiência. O especialista é importante, mas a solução para os problemas da diversidade não está somente sujeita à formação de “profissionais da deficiência”. Passa por todos nós.

O modelo de Educação do pastor-ministro ficou no século passado e no radar de quem valoriza o individualismo e despreza a aprendizagem solidária e coletiva. Já tínhamos avançado 20 casas nesse debate e estávamos caminhando para escolas que valorizam muito mais todo o processo de aprendizagem do que uma nota na avaliação, muito mais a cooperação do que a competitividade, muito mais os agrupamentos heterogêneos do que os homogêneos.

Nós que trabalhamos em sala de aula sabemos que ninguém é igual a ninguém e cada pessoa tem um velocidade de aprendizado e potenciais diferentes. O bom educador sabe que não existe tutorial de como lidar e ensinar ninguém. A metodologia por vezes usada com sucesso em uma turma pode não funcionar em outra turma da mesma escola. Por isso, estávamos priorizando muito mais os projetos educativos transformadores do que os inflexíveis. Educação, para nós que trabalhamos com ela e sobre ela debatemos diariamente na nossa prática (desconhecida pelo pastor), tem a diversidade como valor e não como algo que atrapalhe.

Houve um tempo que pessoas com deficiências eram renegadas pela própria comunidade a qual pertenciam e o fato de excluí-las era considerado como uma seleção natural da espécie. Dito de outra forma, a pessoa com deficiência enfrentou uma condição histórica de séculos de exclusão social e o ministro da Educação está nessa época. Não viveu. Não conversou. Não evoluiu.

Foi a partir de rigorosas críticas ao modelo segregacionista, seu Milton Ribeiro, que passamos a compreender a necessidade da integração social. Já temos estudos mostrando que a inclusão forma cidadãos e cidadãs mais éticos, menos resistentes ao diferente e, portanto, mais livres de preconceitos. Já tínhamos compreendido, em governos anteriores, que conviver com a diversidade traz benefícios pessoais e sociais, além de estar politicamente calcado no princípio da igualdade de direitos. Ou seja, é bom para todo mundo. A humanidade sorri quando há inclusão, pastor.

Obviamente sabemos que há muitas delicadezas a serem tratadas; a formação dos profissionais da Educação é uma delas. A experiência com alunos e alunas com deficiência nos ensinou que são pessoas com potencialidades a serem desenvolvidas. A troca dessas experiências faz parte de um processo de formação continuada dos professores pela qual tanto lutamos e o ministro, certamente, desconhece.

A deficiência física ou intelectual não é um problema para a educação e sim um desafio encarado com disposição por nós que estamos na linha de frente.

Já a deficiência de caráter é um problema grave deste governo. Não são as pessoas com deficiência que nos atrapalham e sim vocês que tem sido um obstáculo para que melhoremos como sociedade.

Estávamos caminhando bem. Havia muito ainda para ser feito, é verdade. Mas estávamos indo para frente até vocês aparecerem. Dói ter que parar o que estávamos fazendo para explicar o que é Educação para um ministro da Educação ou o que é o amor para um pastor.

Obrigada, Isaac

Ilustração do meu livro Isaac no Mundo das Partículas feita por Sergio Ricciuto.

Sou uma escritora com a maioria dos livros publicada de forma independente. Isso quer dizer que se eu não fizer a minha propaganda, se eu não responder todos os comentários e  e-mails, se eu não for aos Correios pelo menos duas vezes na semana, eu não vendo esse bando de livros que tenho aqui em casa constituindo verdadeiras torres.

Esse trabalho, porém, não é nada ruim. Leva tempo, mas tem a grande vantagem de eu saber quem exatamente lê o que escrevo. Praticamente, todas as pessoas que compraram meu livro de física quântica para crianças, por exemplo, receberam o livro com o endereço escrito pela minha própria mão. 

Como a propaganda é feita pela internet por meio das minhas redes e estamos em tempos muito difíceis com uma taxa de desemprego altíssima, tem sido recorrente ver pessoas entrando nas postagens pedindo ajuda. Esse gesto não tem acontecido somente em minhas redes, mas em outras várias que possuem um certo engajamento.

Pelo fato de trabalhar com livros e haver muita gente querendo ler sem ter condições sequer para comprar comida, recebo, também, mensagens pedindo um exemplar.

Algo, porém, muito especial aconteceu que gostaria de compartilhar com vocês.

Recebi um e-mail. Era de um ex-Piloto Comercial de Avião que me contou que tinha uma excelente condição financeira mas que teve que parar de voar por causa de uma doença grave e incapacitante: Transtorno Afetivo Bipolar tipo I. Explicou que fica a maior parte do tempo na cama e que tem uma filha de oito anos com a qual conversa muito, ambos fissurados por ciência. A despesa da casa é feita pela esposa e o salário dela mal dá para pagar as contas, contou-me o ex-piloto.

Ele ainda falou que tem um microscópio, antigo, “o binocular Leitz Wetzlar”. “Quando eu aguento levantar a gente explora o micromundo”. Também me narrou a empolgação de sua filhota pelos astros e que “a gente explora o macromundo com telescópio”. Recebi deste pai, fotos que eles tiraram deste céu e um registro do rosto de sua menina que tem sido sua grande alegria nesse momento difícil. 

Este pai me pediu um livro.

Não foi o primeiro, como já disse. Já doei mais de 50 livros somente neste ano, coisa que não falo em lugar nenhum porque pode causar a falsa impressão que isso seja algo trivial para mim ou que fico feliz fazendo caridade com o país nesta miséria sem fim.

Mas preciso confessar que fiquei feliz com essa conexão. Ele e eu nos emocionamos muito. Ser acessível a quem quer muito ler meus livros é muito menos um risco do que um grande privilégio. Conhecer – mesmo que virtualmente este ser humano – fez de minha estadia neste planeta uma experiência muito melhor. Penso que o que nos enriquece poderia ser medido pela profundidade das conexões que fazemos. Não foi algo pequeno que tive aqui com essa família nessa troca de e-mails, posso lhes garantir.

O livro será postado nesta semana que se inicia. É a primeira vez que sinto que um livro meu, antes de ser lido, já cumpriu o seu papel.