Minha estrela

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Hoje, 14 de junho de 2017, como muitos já sabem, encontrei-me com o homem que, quer queiram ou não, será citado em todos os livros da história do Brasil. Muitos já o estão acusando de aproveitador sem sequer saber da missa a metade.

(Como assim ele o aproveitador e não eu? Nem entendi…).

Tudo aconteceu por conta dessa fama que conquistei nas redes. Não sei como justificá-la, pois não sou nada demais. Apenas há anos falo sobre o que me dá na telha.

Seja lá o que for, aconteceu. Hoje, vejam vocês, me param nas ruas para tirarem selfie. Acho mega esquisito tudo isso… mas, mais do que isso, muito mais do que isso… ando sendo convidada para palestras em todo o Brasil e para entrar para política. Para quem não sabe, faço parte de um coletivo político onde debatemos vários temas para tentar compreender essa loucura chamada Brasil e essa galera animada em fazer e acontecer tem insistido na minha candidatura. Vejam vocês o que é a vida…

Uma coisa é fazer textão em blog pessoal e postar no Facebook. Outra, completamente diferente, é atuar em algum cargo político. Há meses já venho conversando com muita gente, ouvindo opinião de quem é do meio, colhendo conselhos de quem não tem nada a ver com política, escutando meus pais… enfim, ando ponderando tudo, podem ter certeza.

Não sei se é do conhecimento de vocês, mas devido a um texto que escrevi relatando um processo de censura que sofri por conta do mercado editorial, Lula me ligou apenas, na ocasião, para me parabenizar pela minha coragem. Disse, fofamente, para eu continuar assim. Foi lindo e emocionante demais. Imagina. Eu. Toca o telefone. Lula…

Depois daquela conversa, tudo começou a mudar em minha vida em um sentido diferente. Políticos entraram em contato querendo conversar comigo e comecei a receber de onde menos sonhava orientações sobre as possibilidades de meu futuro.

Há duas semanas, já perdida com tanta informação, tive a ideia de tentar ir direto ao papa. Se for para me aconselhar com alguém, que seja por aquele que mais ganhou meus votos de confiança nessa vida: Lula.

Entrei em contato com sua assessora que havia chegado até mim e pedido meu telefone por causa daquele texto já supracitado que tocou o coração do meu presidente.

– Gabi, olha, vou parecer ridícula, mas estou vivendo um dilema em minha vida…

E contei-lhe tudo.

– Será que Lula me receberia para uma conversa? Tenho certeza de que ele pode dar uma luz sobre o que fazer com meu futuro. Estou tensa… mas sei que há muitos problemas mais urgentes, sei que o tempo dele é curto… mas vai que né?

Gabi pediu um tempo que ia perguntar a Lula se ele me receberia.

– Elika, ele disse que te recebe com prazer.

Morri.

Ok. Respira.

Marcamos uma data e cá estou eu em São Paulo de frente para o Instituto Lula escrevendo esse texto…

Pulando todas as etapas e sem aprofundar na loucura que foi eu trazer meus três filhos e Lucimar, minha empregada, junto, hoje, fui recebida por ele.

Ao ver toda a minha comitiva que lotou a sua sala, Lula bateu o olho em Lucimar e desatou a perguntar de onde ela tinha vindo (Maranhão), como era lá, como ela está aqui, se está feliz… esse tipo de coisa. Enfim, depois que Lucimar estava íntima dele, Lula se virou para me dar atenção e se prontificou a me ouvir.

Comecei assim:

– Presidente, primeira coisa gostaria de agradecer esse tempo que você me disponibilizou. Sou uma figura que se tornou conhecida nas redes sociais e quando disse que viria te ver, recebi mensagens do Brasil inteiro e recados para te dar. Mas trarei o principal antes de entrar no motivo pelo qual estou aqui. Você precisa se cuidar, estamos preocupados com sua saúde. Tem se cuidado, presidente? Está se alimentando direito?

A seguir, entrei na minha vida propriamente dita e falei um punhado de coisas terminando com a possibilidade de eu me candidatar e me filiar ao PT ou continuar seguindo em frente com a minha vida de professora somente.

Hora de ouvi-lo:

– Elika, primeiro. Uma “vida de professora” já é algo extremamente grandioso. Você é uma figura adorável. Não é sem motivo que muitos te amam. Eu, companheira, te digo que a sua filiação pode te trazer muita dor de cabeça. As pessoas vão passar a te odiar como muitos me odeiam. Lidar com o ódio é algo que você não merece. Eu adoraria ter você com a gente, mas penso muito nas pessoas antes de mim. E olhando para você não tem como não te alertar sobre o quanto você pode perder por se filiar ao PT que está sofrendo ataques de todos os lados.

A Ana Júlia, – continuou Lula – aquela menina linda, esteve aqui e eu disse que antes de ela pensar em filiação deveria pensar no Enem, ler mais sobre tudo, viver outras coisas.

– Lula, eu não sou mais adolescente… e já li muito… – interrompi o presidente.

– Eu sei, companheira. Mas no seu caso, eu fico olhando para o que você faz e fico pensando em você. Uma candidatura pode te trazer muita dor de cabeça que hoje você não tem. Uma coisa é as pessoas dizerem que te amam. Outra é elas votarem em você. E, se você entrar para o PT, muitos dos que te seguem vão parar de te seguir. Estou pensando em seu futuro, Elika. É claro que bom para mim seria ter você aqui com a gente. Mas e você? Você perguntou da minha saúde. E a sua?

– Lula, veja bem. Eu já sou xingada por muitos. Lidar com o ódio para mim não é problema. As pessoas me xingam, mas eu não me ofendo. Tenho pena de quem faz isso e sinto vontade de conversar com quem não consegue dar amor porque sei que lhe falta. A gente dá o que recebe.

Eu não aguento mais ver a educação pública ser sucateada. – continuei – Devo meu doutorado a você. O CEFET permitiu que eu reduzisse a minha carga para estudar. Investiu em minha formação.

Nesse momento, Lula me entrevistou. Quis saber como andava o CEFET.

– Nossos laboratórios estão super atualizados. Hoje há cotistas formados e já trabalhando. Tenho dado palestras em todo o Brasil. Em cada Instituto Federal que visito é uma surpresa pelas instalações e pela qualidade do corpo docente. Isso tudo foi pelo seu governo. Agora, estamos com a corda no pescoço. Não temos mais verbas para nada. Sou, além de professora, coordenadora de física e faço parte do conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão. As reuniões de orçamento das quais participo estão desesperadoras.

A Reforma do Ensino Médio está vindo a galope. – segui falando angustiada – A escola pública está sofrendo o maior golpe nunca dantes já visto na história do Brasil. Eu não aguento mais ver isso calada e, se houver algo que eu possa efetivamente fazer, eu quero fazer.

Acredito na bandeira do PT, Lula. Não tem partido que mais fez pelo Brasil e pelo povo que esse. Sei que houve erros crassos cometidos. Mas sei que a imagem do PT foi enlameada injustamente por essa corja que tomou o poder e que está acabando com a educação pública. O discurso de ódio aos petistas não se justifica a não ser por uma lavagem cerebral cometida pela grande mídia incentivado por uma elite que quer que o povo se exploda.

Eu sou essa fofura mesmo que você está vendo. – falei sem modéstia – E sei que precisamos renovar a política. Acredito que posso mostrar o quão injusto é esse discurso de ódio. E o que me tem feito mal é ver as escolas sendo sucateadas por essa quadrilha.

Acha mesmo que é melhor eu ficar longe, presidente? – perguntei com um nó na garganta.

– Elika, querida, você não é fácil. Não ouve os mais velhos… sempre foi assim?

Balancei a cabeça positivamente.

– Está triste mesmo tudo isso. Não é difícil fazer esse país dar certo. Basta dar o poder aos pobres, companheira. E é aí que muitos não aceitam. As pessoas me perguntam se pretendo voltar e se quero voltar. Vou te dizer, Elika. Eu queria muito voltar, não sei se vão me deixar. Queria só para mostrar que não é difícil fazer as coisas acontecerem. Me acusam de assistencialista. Mas eu acho que só há uma saída mesmo: dar poder para a classe mais sofrida. E por isso eu pretendo continuar lutando.

Pois a minha vontade, querida, – disse Lula olhando no branco dos meus olhos – é fazer um evento solene com sua chegada. É pedir para que me tragam o documento agora para você ser nossa. Qualquer político sonharia com seu apoio. Queria fazer uma festa com bumbo, surdo, samba para te receber. Mas, tenho receio por você. Tem certeza que está preparada para uma filiação e entrar para a política de alguma forma?

– Lula, estou aqui pronta. O que falta para você me estender a sua mão, presidente?

Ele a pegou, puxou, e me deu um forte abraço e boas vindas.

Depois de todos os trâmites explicados e marcada uma nova data para um novo encontro onde ele disse que faz questão de estar presente quando eu me filiar no Rio de Janeiro ao Partido dos Trabalhadores para colocar, efetivamente, de um jeito ou de outro, a mão na massa para tentar reverter esse massacre que estão fazendo com as nossas escolas públicas, aí sim, depois de tudo isso, vieram a sessão de fotos para registrar esse grande encontro e a entrega de livros que lhe levei de presente e uma belíssima tela pintada pelo artista Sergio Ricciuto.

Foi isso que aconteceu resumidamente. Em breve, oficialmente, serei uma petista. Estou bem certa desse passo. Para quem tem ódio ao PT, sinto muito, que vocês não consigam entender que entre o branco e o preto há infinitas graduações de cinza. O mundo, fiquem sabendo, não é dicotômico como mostram as novelas. Não existe somente o bem e o mal. E há, podem acreditar, os que tentam com toda a força melhorar o nosso país para os mais necessitados. Mas esses, não são super heróis. São seres humanos comuns plenos de toda a complexidade que qualquer universo possui.

Para finalizar, Yuki estava preocupado que havia perdido aula hoje para vir até São Paulo. Quando Lula foi brincar com ele um pouco ele disse:

– Estava angustiado porque perdi aula e prova hoje. Mas tive a maior aula de história da minha vida! Obrigado.

Fofo meu filho…

Enfim, estou mega feliz por esse encontro e por ter conseguido apresentar meus filhos ao homem que tirou o Brasil do mapa da fome e deu a oportunidade para muitos brasileiros – que nem sonhavam que isso seria possível – de estudar. Seguirei agora, ao seu lado e com seu apoio, lutando pela educação de qualidade para todos.

Animada com tudo o que tenho que viver pela frente.

 


Seguem algumas fotos mega divertidas desse dia:

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Lula falou para eu respirar dez vezes antes de eu entrar para o PT oficialmente por conta das pedras que eu iria receber já que, como todos sabem, há um ódio cego disseminado em nossa sociedade aos petistas e a ele, principalmente.

– Pensa bem, companheira… você tem uma vida tranquila. Lidar com o ódio diário não é nada fácil. Se for aparecer ao meu lado sua paz vai acabar. Querem me destruir de qualquer jeito.

Disse a ele que eu não me importava e não me arrependo de nada. Quero entrar e trabalhar efetivamente no que puder.

A filiação ainda não aconteceu. Vai ser no Rio, em breve, em um evento bacana com a presença do Lula que diz fazer questão de estar presente a assinar a minha entrada já que eu me mostrei decidida.

Verdade seja dita. Os ataques e xingamentos não param desde ontem, como previu Lula. Estou aqui começando a montar o meu castelo com as pedras que ando recebendo. Vai ficar enorme. Quem quiser se proteger dentro dele só chegar depois, ok?

E vai ficar lindão.

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Noite de Lua

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Aconteceu de novo. Eu e Yuki, meu caçula de dez anos, indo para a escola. Tive a ideia de fazer um vídeo com ele de uma música mega maneira que aprendi com Os Cabinha lá no nordeste. Seria assim: Yuki na bateria e eu cantando.

Comecei a cantarolar para ele aprender a belíssima canção quando estávamos na porta da escola:

– ♪♩ Um dia, noite de lua! Abri a porta e fui cagar na rua! A bosta endureceu! Passou um carro e furou o pneu! ♪♩

– Mãe, vamos precisar arrumar um metrônomo para você. – observou ele tecnicamente e frio que só.

– Ôxi, meu filho. E desde quando preciso de alguém me dando o ritmo?! – assustei-me.

– Mãe, a gente precisa andar no mesmo compasso. – explicou ele calmamente.

– Vixi. Quem te ensinou isso? Não fui eu! Com quem você tem andado?

– Com meu professor de bateria.

– Pois diga a ele que filho meu toca no ritmo do coração. Se a música empolgar e a gente resolver acelerar, a gente vai acelerar sim senhor e a música vai ficar bem mais emocionante!

– Mãe, vai ficar uma merda. – falou ele didaticamente.

– Yuki, meu filho. Prestenção na sua mãe. Metrônomo para baterista é camisa de força para passarinho! Toque no ritmo que mandar a sua emoção. Entendeu, meu filho?

– Mãe, imagina só. Só imagina: eu tocando numa banda. Daí, eu me empolgo e o resto da banda fica no mesmo ritmo. Vai ficar horrível!

– E quem disse? Você está descartando a possibilidade da banda se empolgar com você e todos acelerarem ou diminuírem o passo. Vou cantar para você ver como podemos nos empolgar no final dessa belíssima canção. Ouça, Yuki: “♪♩Levaram à prefeitura! Examinaram a bosta dura! ME LEVARAM PARA O XADREZ E SE DUVIDAR EU CAGO OUTRA VEZ! ♪♩”. Viu só?

– Mãe, você manteve o ritmo. Só cantou mais alto, percebeu? E depois eu toco no máximo a 110.

– 110 volts? Pois eu só vivo ligada a 220, meu filho.

– BPM, né mãe. É bateria.

– Tô ligada, Yuki. Mas não estou falando em acelerar somente. Podemos diminuir também. O importante é não seguir o ritmo imposto por essa sociedade opressora e fazer o que o coração ditar.

– Mãe, meodeos, mãe, me ouve pelo menos uma vez na vida! Imagina Bili dim do Michael Jackson sendo tocado sem ritmo. Qual o problema de seguir um pouco as regras? Só um pouco? Por que isso é tão difícil para você? Deixa eu colocar um metrônomo para nos ajudar a fazer um vídeo decente?

– Não sei onde eu errei na educação que te dei, Yuki. Você não querendo ser feliz, me colocando freios… unghf.

– Nem eu. Mas eu sei que não vou errar na que eu te dou. Vamos fazer do meu jeito. Hideo na guitarra. Nara no teclado te ajudando a cantar porque você está péssima e eu na bateria fazendo o back vocal.

– Ok ok… mas e se a gente se empolgar com essa música maneira da porra? Vou jogar o metrônomo longe. Tô avisando. Quero voar. Me deixa voar, Yuki! Que saco essa marcação cerrada viu…

– Mãe, me beija que já tá na hora eu eu tenho que entrar.

– Quero te contar outra coisa. Péra.

– Quando eu voltar, mãe. A inspetora tá chamando.

– Como você aguenta tudo isso de cabeça baixa? Chega atrasado uma vez e diga lá que estava aprendendo uma bela canção com sua mãe!

– Mãe, me beija. Hoje o primeiro tempo é educação física e eu não vou chegar atrasado.

– Vai sem beijo.

– Não consigo. Me beija daquele seu jeito para eu ir bem.

Enchi minha criança de beijinhos. Fiz meu ritual de sempre: amassei ele todinho. Dei uma forte mordida na ponta do nariz e apertei bem as bochechas. Depois descabelei meu filhote fazendo um cafuné alucinante a 110 hertz.

Ele sempre entra em sala de aula todo vermelho dando tchau feliz para mim.

Como dá trabalho educar essas crianças viu…

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Amando novamente

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Depois que eu me separei e de ter passado por uma crise depressiva, fiz tudo o que ensinaram os monges budistas, os psiquiatras, Simone de Beavoir e a Tati Quebra Barraco. Procurei me bastar, ser feliz sozinha…aquele papo né, não somos metade de nada. Somos inteiros. Não podemos colocar no colo do outro a responsabilidade por sermos felizes. Ok. Procurei assimilar isso.

Foi um puta aprendizado. Digo, ser mãe de três filhos, resolver problemas elétricos dentro de casa, vaso entupido, fazer compras, viajar para congressos, dar aula alucinadamente, escrever quando bate inspiração, levar filho na escola todo dia, tentar publicar meus livros custe o que custar, ler sem ter com quem conversar sobre tudo o que pensei, passar finais e finais de semana sozinha em casa produzindo, fazer exercícios físicos, enfim, aprendi com muito custo – mas aprendi – a ser a mulher maravilha.

Durante esses anos, recusei-me a ser chamada de namorada, a despeito de talvez ter sido. Não queria envolvimento com mais ninguém, dizia. Compromisso para quê? Dar nome ao que sentimos com qual objetivo? Apenas me leve para passear e me dê sua companhia. Assim seremos sempre livres, leves e felizes, dizia toda segura de mim. Você pode sair com quem quiser, não quero exclusividade. Se eu for sua prioridade, já está ótimo. Dizia enquanto sentia que havia evoluído espiritualmente e me tornado uma mulher-super-cabeça-mega-bem-resolvida.

E assim, de fato, percebia a tal da paz.

(Aquela insossa)

Mas paz.

Zzzzz.

Até que aconteceu algo inesperado. Conheci alguém que me mostrou que eu não estava evoluindo e sim morrendo. Por um motivo desses que não tem explicação, ao beijá-lo, uma descarga de serotonina, endorfina, adrenalina, e mais outros hormônios começaram a circular no meu corpo e eu sem saber o que era aquilo tudo… Perguntava-me por onde andavam os budistas e Beauvoir, e mais: por que estava vendo a explicação do que sentia nas músicas de Weslley Safadão e Fábio Junior e não mais nos livros de grandes filósofos?

Daí bateu medo, insegurança, desespero, aquela independência toda foi para o ralo antes do estalar dos dedos. Felicidade foi saber que havia simetria nessa doideira chamada (por quem já sentiu algo similar) de amor.

Parafraseando o poeta, nunca a metade foi tão inteira, numa medida que se supera. Metade era eu, a companheira. Outra metade era ele que eu era.

Não conseguia mais me definir sem falar em seu nome. Não conseguia dar nome ao que me definia. Não bastava estar perto, queria ele dentro, não bastava ele dentro, queria a transposição dos corpos. Estava superlativa, transcendendo e transbordando ao som de sinos, tóins tóins tóins de martelos de borracha na minha cabeça e música sertaneja.

Ressuscitei no terceiro beijo.

Sentia-me viva de novo.

Acordada e disposta a envergonhar Confúcio, Nietzsche, Sartre e minha mãe (mais uma vez…).

Preparada para sofrer e pular no precipício de braços abertos com um sorriso de orelha a orelha.

E assim o fiz. Surpreendentemente, caí em uma cama elástica armada por ele que me esperava nela de braços abertos.

A cama não aguentou.

Rompeu.

E estamos agora no chão quebrados em vários pedacinhos, juntando-os e misturando as peças, gargalhando com a bagunça que estamos fazendo.

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Até breve, Juazeiro do Norte

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Estou aqui no aeroporto de Juazeiro do Norte esperando meu avião para o Rio. Vim até essa terra através de um convite de uma professora para dar uma palestra no Encontro Pedagógico no Instituto Federal do Ceará. Eu imaginava que seria um momento especial como costuma ser cada viagem que faço a trabalho. Pisar em um lugar no qual nunca vimos sempre é algo ímpar a ser experimentado.

Mas não esperava que sairia daqui tão transformada.

As professoras que me receberam, Joquedebe e Roberta se tornaram bem íntimas na primeira noite. Não estou falando em terem sido simpáticas. Não. Já fui recebida com muita educação e sorrisos agradáveis em outros lugares.

Fora isso, sou amiga virtual há um ano de George Macêdo, um rapaz que me chamou a atenção pela sua inteligência e sensibilidade. Publicitário esperto e antenado, vale observar, assim que soube que eu viria a Juazeiro se prontificou a fazer as honras da casa. Fofo.

Inicialmente, eu, anti social e desconfiada, agradeci a todos eles que se ofereceram a me apresentar a região do Cariri. Combinei um café com eles separadamente e me programei para fazer tudo sozinha (como sempre prefiro) no meu dia de folga que foi ontem, no sábado.

No primeiro café, já estávamos (sabe-Deus-como-isso-aconteceu) todos juntos conversando sobre alegrias e angústias. George se integrou rápido no grupo das professoras e formamos um time que saiu na sexta à noite e que, no dia seguinte, passaria horas passeando, chorando, gargalhando e almoçando pelos melhores pontos turísticos daqui.

Tudo foi tão intenso e impossível de ser contado que é mega passível de ser considerado uma “fanfic” ainda que seja narrado de forma resumida. Mas vamos tentar.

George, completamente ateu, ajudou Roberta – que está naquela fase de sofrência – a receber a graça do Padre Cícero depois de ter dado a ideia de ela levar seu coração como oferenda no santuário do padroeiro. Roberta, que ouve atenta qualquer um que lhe aconselha, entendeu tudo ao pé da letra e, ao visitarmos um local de esculturas, foi direto ao artesão pedir para que ele esculpisse um coração (Oi? Como assim?!, pensei). Quando o objeto estava quase terminado, Roberta recebeu o telefonema esperado por meses do seu amor e desatou a chorar emocionada com o milagre.

Eu que também estou amando e sem saber o dia de amanhã e que também sou ateia, mas de burra não tenho nada, fiquei boba com aquela graça alcançada com tanta rapidez.

Ao chegar no horto do Padre Cícero e me deparar com a estátua gigantesca, dei três voltas na bengala do Padre fazendo três pedidos conforme os seus devotos agem quando querem algo com urgência.

O primeiro pedido eu pensei no meu amor. O segundo dei uma reforçada no primeiro. E o terceiro pedido foi para que o segundo fosse levado super a sério. Tudo isso sendo testemunhado por George que me conhece bem das redes sociais e estava com o queixo no pé sem acreditar que me via tonta de tanto girar na estátua do padinciço feliz da vida porque iria passar o resto dos meus dias com mozão.

Depois, Roberta falou para eu amarrar uma fitinha na grade de padinciço e fazer um pedido quando desse o nó para dar aquela garantida.

Comprei dez.

Amarrei vinte porque Roberta está na torcida por mim e me deu o resto. Amiga de infância está aí para essas coisas. Joquebede que está super bem no amor e não acredita em nada daquilo tentava sem sucesso frear todas as nossas tentativas de amarrar nosso mozão para a eternidade e fazer com que eles rastejassem aos nossos pés. Bobinha a Joquebede.

Visitei as urnas de pedidos por escrito para Padre Cícero. Já estava completamente tomada pela energia mágica do local. Registrei com vontade no papel: “Amor para o mundo. Meu amor para mim.” Coloquei o bilhetinho com carinho na caixinha. Não segura desse grande passo e para deixar tudo bem claro fiz outro: “Favor dar um jeito. Foco no segundo pedido que é mais fácil de ser atendido”. Pronto.

Virei-me para Meca e fiz o sinal de cruz.

No local das graças alcançadas, regozijei-me com um vestidinho longo e branquinho. Desejei também.

À noite, fomos até à Igreja de Santo Antônio. Falaram para eu colocar a mão no pau do santo casamenteiro pensando em mozão. Enorme o pau do santo. Aponta para as estrelas de tão grande. Comecei timidamente alisando aquela maravilha e, minutos depois, para garantir, fiz meu pole dance à la Madureira no pau do santo.

Disseram para escrever o nome do meu amor naquela tora abençoada de Santantônho que não teria erro daqui para a frente com mozão. “Santo Antônio é porreta”, ouvi por ali. Não tinha caneta. Que desgraça… Ôxi!, disse uma encalhada que estava por perto e já havia rabiscado no tronco ereto. Pois tome a minha! Fofurésima.

Escrevi no pau inteiro. Arranquei uma lasca e vou dar uma água batizada para mozão assim que nos encontrarmos de novo.

Trouxe a foto dele e fizeram um boneco idêntico ao meu amor. Depois, me explicaram a arte do vodu. Nada como cercar por todos os lados. Amei essa terra, gente.

Na volta, Roberta fez questão de me tirar do hotel e me fazer dormir na casa dela. Como já éramos amiga de infância, eu, toda reservada, não tive como dizer não.

Tomamos café todos juntos hoje de novo. Conversamos sobre os problemas graves na Educação do Brasil. Combinamos de fazer um documentário já que temos material humano (publicitário foda, professoras engajadas e pedagoga marxista) para tocar esse projeto de cunho social para a frente denunciando o sucateamento das escolas públicas e mostrando, como disse Darcy Ribeiro, que a falência da educação pública é um projeto e não um acidente.

Almoçamos bolo de chocolate.

A despedida doeu. Queria ficar. Quero voltar. Amigos não se medem pelo tempo que os conhecemos e muito menos pelas horas que passamos juntos. A amizade é boa quando o amigo nos mostra um lado que nem sabíamos que existia dendagente e que nos surpreende pela transformação que nos causou para todo e o sempre.

Volto para o Rio melhor. Outro ser. Visivelmente bem satisfeita pelos rituais que experimentei. Mas, verdade seja dita, muito mais segura pelas trocas que vivi. O laço de amizade – dado com carinho nesses dias que aqui passei – é muito mais forte que todos os nós que dei naquelas fitas do Padre Cícero. E olha que não tem intempérie que desfaça aquilo…

As melhores viagens que fazemos são realizadas não pelos locais que passeamos, mas sim pelas pessoas com as quais interagimos.

Juazeiro do Norte, obrigada por sua gente.

Até breve.

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Sobre cachorros e outros animais

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Eu hoje, como sempre, estava levando Yuki, meu caçula de dez anos, à escola. Paramos em um sinal e ele observou:

– Mãe, olha aquele cachorro ali na calçada! Olha que bonitinho!

Era um vira lata que estava sentado olhando para sabe Deus o quê.

– Mega lindo. – concordei.

Silêncio no carro.

Yuki de novo:

– Estava pensando… você sabe se aquele bicho era macho ou fêmea, mãe?

– Não. Olhando não dá para saber.

– E você gostou dele assim mesmo, né?

– Sim.

– E sem saber se ele gosta de cachorro ou cadela. Sem saber se ele já é pai ou é mãe. Sem saber se ele já cruzou e com quem na vida.

– … – assustei-me.

– E geralmente assim somos com todos os bichos. Por que o ser humano não age assim com outro ser humano, mãe? Por que se importam tanto com a sexualidade do outro ser antes de amar?

Meodeos. Fui discutir esses dias gênero com meu filho e deu nisso.

Criei um monstro.

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Tenso, logo escrito.

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Então, queridos amigos, é com muita emoção que compartilho o nascimento de meu novo livro “Tenso, logo escrito” que começa hoje a ser vendido pela Amazon para todo o Brasil e em outros países, na versão e-book e impressa. Farei o lançamento aqui no Rio e por onde mais conseguir. Em breve, quando souber, divulgo a data.

Segue o texto da contra capa:

Desde meus catorze anos, praticamente só tive um namorado, com quem fui casada por quase duas décadas. Separar-me dele obrigou-me a ter que reaprender a andar sem segurar em nada. A despeito de muitos textos incluídos neste livro terem sido feitos depois que meu casamento terminou, “Tenso, logo escrito” não é um livro que fala sobre separação, mas sim sobre descobertas. Percebi que não sabia quem eu era e peguei-me surpresa várias vezes com o que conseguia ou não fazer sozinha.

Hoje, tenho uma certeza com a qual lido de forma infantil: desconheço-me por completa. O desequilíbrio me persegue, mas quando escrevo a balança tende a ficar na horizontal, ainda que de forma bem instável. A sensação, logo depois do feito, é de ter jogado uma garrafa ao mar com meus pensamentos dentro. Será que alguém irá encontrá-la? Se abriu esse livro, está agora com você. Quebre o casco, porque ela está muito bem vedada.

Segue o link para adquiri-lo:

 

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A professora e o ator

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A princípio, ela se viu conversando com ele e tendo que disfarçar o maravilhamento de poder falar sobre qualquer coisa que lhe importava. Mal conseguia a professora disfarçar a urgência de pôr em dia tudo o que nunca havia proferido. E meu deus como ela gostava de ouvi-lo mesmo sem saber que papel aquele ator estava desempenhando em sua vida.

Ele passou a chamá-la de garota. E, após um abraço, achou-a por demais ergonômica. Ela, necessário. Andaram por aí e suas pegadas eram escritas por uma caligrafia surpreendentemente perfeita.  Eles passaram a se procurar sem entender a curvatura do espaço-tempo, o inverso do quadrado da distância e a ausência de gravidade em algo tão denso.

Os paradoxos se faziam presentes e sequer eram percebidos.

Não compactuaram, pois tinham medo de que a palavra falada os traísse. Eles não tomavam cuidado já que a confusão era natural assim como a impossibilidade de elucidação. Ela, que vivia de explicar, desistiu de ser didática quando recebeu seu beijo.

Apesar da conexão entre eles se tornar cada vez mais intensa e darem-se as mãos – mesmo ele estando no palco e ela na plateia -, eles não podiam evitar a separação.

Se, na boca de outros, chamá-los de amantes era um julgamento, entre ambos, era uma incompreensão e uma desgraça irremediável ainda que plena de coerência.

Não conseguiram deixar de se procurar porque, embora a distância em breve se fizesse entre eles (dado a realidade de cada um), mesmo que futuramente e devidamente afastados, eles sabiam que não se perdoariam se economizassem o que seria alimento para o monstro da saudade: não foram mesquinhos com o que chamam por aí de felicidade.

Passaram por cima do fato de terem muita facilidade para sofrer como se o que realmente importasse fosse somente o pretérito perfeito e o presente. Possuíam apenas uma consciência vaga de que havia algo de perverso no mundo tão cheio de quilômetros, estradas e Estados.

O fato é que se encontraram numa espécie de nave que os levou para uma parte secreta deles mesmos. O destino foi alcançado por um acaso quando ele, ator, ensinou a ela, professora, ser indisciplinada até mesmo ao sorrir e ao sentar.

Falharam em todos os encontros porque a meta era desiludirem-se. A lição de dormir juntos em uma casa teria que vir simultaneamente com o aprendizado de se livrar de uma carência que emergia quando justamente faziam amor. Ah os malditos paradoxos.

Havia uma salvação. Não serem encontrados por poetas. Por um descuido, foram achados por caramujos, aranhas e guinchos, o que deu no mesmo.

Aprofundaram tudo como se tivessem todo o tempo do mundo, como se não existisse algo que não pudesse ser supérfluo.

Havia uma dúvida tosca, uma espécie de não entendimento ao mesmo tempo em que se sentiam sábios chineses por terem alcançado a essência das músicas sertanejas.

Ela tinha renascido como mulher de um homem. Mas, mal assumira a possibilidade e a alegria de ser definida com pronomes possessivos, mal assumira a alegria de ouvir que é amada, veio o medo de ter esperança, esse sentimento que imobiliza e dá rugas a quem espera.

Paciência.

Tarde demais.

Nunca, nunca aconteceu alguma coisa que enfim apontasse uma cegueira e os tornasse prontos para o destino que despudoradamente os esperava e os obrigasse, enfim, dizer adeus.

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