O dia é 15 de Outubro. O ano é 2019. Aqui não se comemora Dia dos Professores.

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Hoje, Dia dos Professores, 15 de Outubro de 2019, ouço ecos do discurso de que o ensino deve formar um cidadão e que ao professor não lhe cabe a tarefa de educar e sim de ensinar. Entende-se por “ensinar” enfiar goela abaixo do aluno conteúdos distantes de sua realidade e domesticá-lo para servir a um sistema que insiste na ideia de que “ser alguém na vida” é um ser que tem muito dinheiro para consumir coisas supérfluas.

Discutir o pluralismo de ideias significa, para essa gente pequena, uma ameaça, pois implica preparar o educando não somente para desenvolver pensamento crítico, mas também para respeitar a diversidade, a alteridade e a divergência de opiniões que caracterizam as sociedades democráticas. Por incrível que pareça, isso é visto como algo perverso.

Hoje, há professores estimulando o debate sobre o consumismo moderno, a urbanização do mundo, a atuação das empresas multinacionais, a corrida desenvolvimentista, a sustentabilidade e a história contada por pensadores brancos entre outros assuntos marcados pela hegemonia do saber. Questionamos por quê as mulheres são tão agredidas, os negros assassinados, a indignação ainda é tão seletiva, debatemos sobre o sucesso ser baseado unicamente na ascensão econômica, enfim, falamos sobre vários temas conectados a natureza da perversidade das relações. Hoje, há professores estimulando a discussão sobre as desigualdades sociais, o feminismo, a discriminação sexual, entre outros assuntos. Isso tem feito o futuro cidadão pensar e, por isso, estamos sendo considerados inimigos da sociedade.

Querem nos fazer acreditar que será através dessa nova escola pública militarizada que estão nos impondo que vamos tirar as pessoas da pobreza. Não somos idiotas, Bolsonaro. Sabemos que foi com o advento do colonialismo juntamente com o dito “desenvolvimento” e a ideia de “ajuda” que a pobreza foi criada no mundo. Só mudaram os atores, os personagens são os mesmos e não nos enganam.

Sigo muito animada. Sei que é impossível essa profissão morrer ainda que agonize em praça pública. Verdade seja dita, nunca falamos tanto em Educação como hoje e a venda dos livros de Paulo Freire bateu recorde.

Quem odeia paulo Freire odeia professor. Se leram o mestre, viram o amor com que ele trata a nossa profissão e as reflexões profundas que ele fez sobre o educar. Não tem como não citá-lo no dia de hoje: “Seria uma atitude ingênua esperar que as classes dominantes desenvolvessem uma forma de educação que proporcionasse às classes dominadas perceber as injustiças sociais de maneira crítica”.

Ainda que me falte a danada da esperança, continuarei lutando porque não quero passar por esse mundo como alguém que foi amputado sem grito, resistência e  repúdio diante de tanta atrocidade e dor. A esperança está acabando. Mas a nossa paciência também. E bem se sabe o quanto a falta desta nos move para outros lugares.

Sou uma professora. Acho que nasci assim. Por uma necessidade ontológica do meu ser e da minha carreira que se fundem, onde estou não pode ser  um espaço de conformismo social, cultural e intelectual.  Uma Escola que não promove um livre debate não é uma Escola. Precisamos dar a esse espaço que o governo Bolsonaro quer administrar um outro nome.

Estão fazendo de tudo para acabar com a nossa profissão que em essência estimula o vôo do pensamento. Enquanto as asas de muitos professores e professoras desse país estão sendo cortadas, muitos e muitas de nós já estamos usando as leis da física-  e as que estão na Constituição – para fabricar um modelo novo de asa delta.

O dia é 15 de Outubro. O ano é 2019. Aqui não se comemora Dia dos Professores. Não há festa entre nós hoje. Com as pedras que nos tacam, estou com muitos colegas aprendendo a construir um castelo. E, teimosos que somos, usamos o dia de hoje também para trabalhar nesse projeto.

Aquele sonho de melhorar o mundo pela educação que sempre tivemos… aquele sonho nem Bolsonaro vai tirar de nós. Posso lhes garantir. Daremos o nosso jeito.

Deus me livre ser fanático pelo PT!

Preciso lhes contar uma história que aconteceu hoje.

Passei o dia com um grupo de petistas que me fazem sentir um polvo. Explico: tenho agora vários braços para além dos meus que parecem dez. Quando vocês me virem andando por aí saibam que não sou eu e sim um coletivo de nós.

Antes que vocês venham julgar, saibam que estamos longe de ser fanáticos pelo partido. Inclusive, vale observar, temos problemas sérios com quem é fanático pelo PT.

São insuportáveis.

Eles acham que o PT é o melhor partido do mundo e ficam levantando teorias.

Meu grupo não.

Tudo petista sério.

Aqui não achamos nada. Temos certezas. Não levantamos teorias. Chegamos com a prática.

Um petista sério pode ter visto o PT tirar o país do mapa da fome, criar milhares de empregos, construir Universidades e Institutos Federais e o salário mínimo aumentar, mas ele vai e diz: falhamos nisso falhamos naquilo.

É como a Gisele Bündchen passando um batom.

A gente acha que sempre pode ser melhor daquilo que vemos no espelho.

Não somos simpatizantes do PT. Nananinha. Aqui a gente faz reunião com bandeiras estendidas. Petista que é petista não desperdiça tempo com sentimentos pequenos como a simpatia. Aqui é paixão eterna para cima.

A gente se reúne toda semana para decidir o que queremos decidir na semana que vem. Tem votação sempre porque temos apego a esse conceito: o voto.

Votar para nós é um tipo de modalidade olímpica. Se não tiver nada para votar na semana, a gente inventa. É importante a prática.

Quando uma amiga saiu de uma plenária que não pude ir, ela me ligou e disse:

– Elika, quando saí da reunião algo horrível aconteceu. Levei um tombo e quebrei os dois pulsos.

Eu, petista linda e doce que sou, disse:

– Sinto muito. Me conta: o que foi decidido hoje na reunião?

Claro que isso é um exagero. Minha amiga não quebrou dois pulsos e sim um.

Petista que é petista arruma confusão com qualquer um que não consegue ter opinião. Arruma confusão também com quem pensa diferente. E gasta uma energia infinita tentando convencer até quem concorda com a gente para garantir que não vai mudar de opinião lá na frente.

O nível é esse.

Acabada a nossa reunião hoje que durou o dia inteiro com um breve intervalo para o almoço, alguns falaram que iam pedir uber.

Houve confusão.

Normal.

Afinal, precisamos fazer nossa economia interna movimentar e não estamos aqui para dar dinheiro para empresa estrangeira, disseram uns.

Teve debate depois de sete horas reunidos debatendo.

Nós, petistas sérios, somos incansáveis.

Votei a favor do táxi-rio e tratei de pedir minha corrida com 40% de desconto que o aplicativo me dá. Para quem não sabe, o aplicativo oferece descontos nas corridas que variam de 10 a 40%. Petista não é burro e vai lá e escolhe o maior desconto que muitas das vezes fica até mais barato do que Uber.

E quem pensou que a história está no fim se enganou mais do que aqueles que acharam que tirando o PT do poder o povo melhoraria de vida.

Aqui começa a minha saga.

Mal entrei no táxi – acompanhada de Lucimar e meu amigo Paulo – o taxista começou a reclamar “do cliente que só escolhe o maior desconto e se lixa para o motorista que precisa fazer a manutenção do carro e tem família para sustentar”.

-Tem gente que paga no cartão oito reais, moça! Não dá. É muita falta de senso!

A minha corrida ia dar 28 reais com aquele desconto gostoso. Eu já havia separado 30, crente que estava arrasando no exercício da cidadania deixando o troco para o motorista.

Eu precisava me explicar.

-Mas o aplicativo dá essa opção de desconto, Miguel. Quem vai escolher um desconto menor podendo escolher o maior?

– Quem? Quem pensa no outro, moça! Por isso táxi tá acabando! Crivella que inventou esse aplicativo!

– Mas vocês não estavam gostando do Crivella? Ouvi de um colega seu dizer que…

– Moça, eu tenho muito colega burro. Não é porque é taxista que eu vou defender. – E desatou a reclamar de tudo de ruim que a categoria estava passando dizendo que em vinte anos trabalhando nunca esteve tão mal de vida. – Pior é ver gente doente balançando a bandeira do PT. – Falou Miguel.

Desse jeito, gente. O papo mudou que nem sei como.

O PT está para o Brasil tal e qual Platão para a filosofia. Você cita qualquer político, elogia a reforma de uma calçada, se queixa do preço do gás ou pede Anitta no Rock in Rio e o cidadão vai e desata a falar do PT.

– Minha filha entrou para Universidade Federal e ficou doente. Deu de balançar a bandeira do PT também. Para mim, moça, quem balança bandeira do PT é doente!

Galera, eu fatidicamente estava, pela primeira vez na vida, carregando na mochila cinco bandeiras do partido e dois bonés porque fiquei com a incumbência de lavar nosso manto sagrado e nosso capacete da alegria.

Imagina.

Só imagina.

– Eu votei no Bolsonaro, moça. Falam que ele é homofóbico porque arrumou treta com o Jean Uílis que só virou deputado porque foi bígui broder. Nem no Brasil o cara tá mais e ficam chamando Bolsonaro de homofóbico por causa desse Jean.

Não me calei. Claro. Fiz algumas perguntas.

– Miguel, na época do PT, o senhor estava ruim, economicamente falando?

-Eu tinha tudo, moça. Tinha assinatura de tudo. Sky, Net, Claro… Minha geladeira era cheia de longui néqui. Agora não tenho uma para beber quando chegar em casa. Ontem não tinha dez reais para dar para meu filho, moça. Mas é mole governar quando se tem dinheiro. Quero ver sem nada! – terminou Miguel.

-Miguel, que medidas estão sendo tomadas pelo seu presidente para que pessoas como o senhor melhorem de vida?

-Não sei, moça. Mas preciso confiar no cara né.

Não vou me estender mais. Daí para frente, é suficiente dizer que estava diante de um eleitor confesso de Bolsonaro que dizia que o Brasil não está bom porque vai levar tempo para consertar e que o PT isso o PT aquilo.

É necessário observar que tive um dia muito produtivo e havia felicidade e esperança dentro de mim.

A corrida terminou. Miguel soube que eu era petista quando estava quase chegando em casa.

Paulo ouviu tudo em silêncio e resolveu reiniciar, pasmem, no mesmo táxi, uma outra viagem até sua casa na Cruz Vermelha. Logo ali perto.

Chegando no destino, Miguel disse para meu amigo que achava que tinha me chateado e Paulo (que sabia que ele ia dizer isso) respondeu:

– Ela com certeza não ficou chateada. Ela ficou muito preocupada com você que está perdendo tudo e dando o apoio para quem está pouco se lixando para sua categoria.

Paulo estava se referindo ao estranho fenômeno do gado que aplaude quem lhe tira o pasto.

Miguel pensou por três segundos.

Talvez menos.

Apertou a mão do Paulo e foi pegar, certamente, outros petistas porque muitos de nós temos essa mania de escolher o táxi para fortalecer a economia nacional.

Terminamos o dia satisfeitos como aqueles que tiram do forno um bolo cheiroso. E não há bolo de festa sem cereja. A nossa foi esses míseros segundos que Miguel (quero acreditar nisso) cogitou que algo estava fora de lugar.

Petista fanático tem essa mania de acreditar que a Terra é redonda e que o mundo dá voltas.

Nós, petistas sérios, vamos além.

Miramos na reviravolta.

Cremos que nossa missão é infinita, a ditadura, não. E, fofos e sérios que somos, acreditamos que (juntamente com o amor) o diálogo vencerá.

Me julguem

De uns tempos para cá, tenho frequentado mais lugares na zona sul do Rio. Ter sido moradora de Madureira há 45 anos e do Flamengo há 10 meses fez com que eu observasse tudo com atenção e me movimentasse pelos lugares novos de forma cuidadosa para me socializar bonitinha.

A risada altíssima permanece seja lá em que lado estiver do túnel Rebouças, mas o que falo tem passado por um crivo do meu superego pela necessidade da sobrevivência.

Ouvi, numa reuniãozinha em Copacabana, uma mulher dizendo que ia para Miami renovar o guarda roupa porque lá tem tudo muito barato e de qualidade. Quem sou eu para julgar a economia e os valores de cada um, mas as pessoas que estavam em volta olharam de cara feia.

Observei tudo.

Eu, a atenta. A safa. Eu.

Precisava me enturmar e mandei na lata com a naturalidade daqueles que não olham preço no cardápio, enfim, falei que tenho planos de ir para o centro histórico de Bérgamo, uma cidade na Itália, ver umas roupas artesanais em uma feirinha de coisas usadas que ocorre sempre na Primavera. Detalhei porque sou dessas.

Pronto.

Me amaram.

Esquerda Cult tem dessas coisas. Disseram que a feirinha é ótima e enquanto eu ouvia elogios tentava adivinhar de qual região do meu cérebro eu inventei aquilo. Começaram a me dar dicas de brechós pelo mundo. Beleza.

Réchi tégui enturmada.

Lá pelas tantas, quando serviram bolinhas de mussarela de búfala com damasco, eu falei que estou planejando uma viagenzinha pela CVC há tempos e vendo quantos filhos o orçamento permite que eu leve.

Bola fora, Elika, bola fora.

Jamais falem em CVC aqui. Meu alarme bullying disparou e tive que recuar na conversa.

Para essa galera que faz festinha sem ter panelão na mesa com prato fundo descartável e que curte queijo muito mofado com taça de vinho francês, viagem em excursão e caravana para ir ao programa do Silvio Santos são coisas semelhantes em essência.

Eu que precisava avançar nas relações respirei fundo para não perder o pouco que havia construído em termos de contatos. Busquei segurança nos confins dos porões dos museus abandonados do meu Bacurau particular e disse que estava também pensando em ir fazer um Brit Movie Tours na Europa.

Dei um gole longo daquela bebida esquisita numa taça que tinha o diâmetro de uma moeda e mantive a postura.

Bingo.

Recebi várias dicas de caminhadas cults com temas de arquitetura, artes de rua, espionagem e outros motes que eu nem sonhava que existia. Me mandaram na hora roteiro pronto pelo whatsapp que farei um dia quem sabe quando tiver dinheiros e a paz de espírito necessária para passear em Paquetá.

Empolguei-me com a receptividade deste grupo específico. Verdade seja dita. Estava indo bem.

Havia a necessidade de dar um passo além para aprofundar a intimidade.

– Gente, amei visitar a exposição permanente do Pierre Choinier em Paris. – falei com a segurança daqueles que tem o mapa do mercadão de Madureira decorado na cabeça.

Paris. Nunca fui também.

Não vou dizer que é meu sonho porque sonhar a gente sonha com o resgate da autonomia do CEFET, com a diminuição da desigualdade social, com a liberdade de Lula e que o Uber tenha bala 7 belo. Paris a gente deseja com o sorriso nos olhos daqueles que vêem um sorvete ser bem servido pela moça do outro lado do balcão.

Quanto ao Pierre Choinier, para quem não sabe, é um grande artista renascentista francês inventado por mim na década de 80 em uma apresentação da escola quando o professor pediu para eu citar o nome de um pintor famoso e contar um pouco sobre ele em um trabalho oral. Não havia estudado nada mas não podia tirar zero. Mandei essa e, pasmem, ganhei um 10. Desde então, compreendi como me comportar no mundo.

Mas quase coloquei tudo a perder, gente.

Dei uma rateada e disse empolgada, super sem querer, que fui passar Lua de Mel em Cancun.

Jamais, eu disse jamais, façam isso quando estiver no meio dessa tribo específica porque eles vão achar que você também nunca experimentou palmito pupunha assado e isso pode ser fatal no julgamento de sua inteligência.

Se foi a Cancun, diga calmamente que foi para um lugar onde pode ver as antigas civilizações maias, astecas e toltecas, que esteve no Complexo de las Monjas e que a astronomia, a geometria, a matemática, a engenharia e as artes plásticas dos Maias são obras de arte.

Não satisfeita, falei que Guillermo del Toro faria a festa com aquele cenário. Não tenho a menor noção do sentido dessa frase mas isso é o que menos importa. Saber proferir expressões como está na página 1 do livro 1 do manual de sobrevivência que escrevi somente na minha cabeça.

Consegui corrigir tudo no tempo certo.

Vi orgasmos múltiplos e fui respeitada por ser burguesia-cultural-nível-hard.

Me acharam hiper cool.

Réchi tégui amigos de infância.

Se souber se comportar direitinho, você tem o mundo em suas mãos. Vai por mim.

Hoje, depois de votar no Conselho Tutelar, visitei a vila que morei em Madureira.

Encontrei meu vizinho lavando o carro na calçada e dei um berro de longe:

– Fala, corno! Teu time, hein! Vou te contar!

Ele me mostrou o dedo do meio, largou a mangueira na rua e veio me receber com um abraço. Não faço ideia para quem ele torce e do campeonato que está rolando.

Assim sigo caminhando, gente. Me julguem.

Você só pensa em Lula como presidente?

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Foto: Bárbara Lopes

–  Não. Não penso só em Lula virar presidente de novo. Você me subestima. – respondi calmamente a um amigo na mesa de um bar enquanto tomava meu suco de laranja sem canudinho diretamente no copo ajudando o mundo a ficar menos poluído.

– Ah bom. – disse ele aliviado.

– Outro dia pensei em como será lindo o dia em que ele conseguir sair dessa maldita cadeia. Depois veio à mente ele feliz fazendo campanha pelo Brasil antes de virar presidente.

– Então. Não pensa em outra coisa não?

– Claro que sim, ô. Outro dia pensei que poderia haver o Impeachment de Bolsonaro e Mourão virar presidente.

– Mourão?

– Justamente. Daí continuei pensando em como seria. A ditadura iria se instalar. Logo depois imaginei a tal Revolução acontecendo, as mulheres pretas encabeçando tudo, derrubaríamos os militares, tiraríamos Lula da cadeia e ele se tornaria presidente.

– De novo isso?

– Imagina. Outro dia estava pensando em outra coisa. Vi o discurso da Greta desesperada na ONU, daí vi as pessoas zoando uma menina de 16 anos que tem um certo grau de autismo ou algo que o valha. Não gosto muito de apontar que ela tenha algo que nós não temos para além da inteligência. Se ela não tivesse nenhuma síndrome, ainda assim, o discurso dela seria por demais fabuloso. Daí vi a quantidade de homens de meia idade falando mal dela e Eduardo Bolsonaro aparecer com uma foto-montagem na tentativa de mostrar que Greta era hipócrita. Veja bem, Eduardo Bolsonaro, o futuro embaixador. Depois ouvi o discurso de Bolsonaro na ONU. E fiquei pensando em Lula na cadeia vendo tudo isso também. Mas calma. Daí veio mais uma notícia bombástica que se somou a esta. Janot falou que ia matar Gilmar. Daí foi quando falei: para. Vou fazer a janta. Comecei a lavar o arroz, pensei no MST que é um dos maiores produtores de arroz orgânico do mundo, depois pensei nas questões ambientais e concluí que a Greta é o máximo, Bolsonaros só fazem a gente passar vergonha mentindo descaradamente, que esse processo todo tinha que ser anulado e Lula precisa virar presidente.

– E no Ciro? Não pensa nele não?

– Claro que sim. Ele é super culto e mega importante para a política. Imaginei para as próximas eleições ele concorrendo e vindo firme como sempre com um discurso forte contra o governo Bolsonaro, contra os erros cometidos pelo PT, falando em números, trazendo planilhas com gráficos, como só Ciro sabe fazer.

– Ufa.

– Pois é. Daí imaginei Ciro debatendo com o cabo Daciolo de novo.

– Ia ser o máximo…

– Ah ia. Depois imaginei Ciro debatendo com Lula, ficando novamente com 12% dos votos e Lula com 70% virando de novo presidente.

Davi estava na linhagem de Jesus Cristo. E amou Jonatã.

Para quem insiste na Bíblia como exemplo de conduta moral e para a definição de família como a união entre um homem e uma mulher baseados em preceitos bíblicos, trago verdades.

Saibam que na Bíblia:

1- A poligamia era a regra. Tanto que o primeiro caso aparece logo no capítulo 4 do primeiro livro: “E tomou Lameque para si duas mulheres” (Gênesis).

2- Abraão engravidou a empregada, ato falho, a escrava, depois expulsou a coitada e o filho de casa para morrerem no deserto.

3 – O caso de Jacó é interessante, ele casa com as irmãs Lea e Raquel. Leiam.

4 – Salomão, o Rei, merece destaque: foram 700 esposas. Setecentas de papel passado, já que o sábio soberano ainda mantinha 300 concubinas que eram as amantes oficiais.

5 – Há um lei clara na Bíblia: quando um homem morre e deixa uma viúva, seu irmão deve casar com ela, para garantir que o patrimônio da família não se perca.

6 – Vejamos a família de Ló considerada uma das melhores da região, segundo o Livro Sagrado. Depois da mãe delas ter sido transformada num pilar de sal, as duas filhas de Ló moram com o pai numa caverna, no alto de uma montanha. Carentes de companhia masculina, adivinha (!), elas decidem embebedar o pai e copular com ele.

Ló não percebeu quando sua filha mais velha chegou a sua cama, mas não estava bêbado demais para engravidá-la. Na noite seguinte as duas filhas combinaram que era a vez da mais nova. Novamente Ló estava bêbado e engravidou a mais nova também.

7 – Quanto às prostitutas, elas devem morrer a pedradas, segundo Levítico. A regra, como todos vocês sabem, foi fortemente contestada por Jesus, com a famosa frase que salvou Maria Madalena: “Aquele que não tem pecado atire a primeira pedra”.

Não há dúvidas. A Bíblia é um livro machista em muitas passagens onde pregam a violência contra a mulher de forma bastante cruel. Como dizem, só Jesus na causa. O Novo Testamento é uma perfeição. Jesus defende qualquer oprimido ou oprimida com unhas e dentes.

Para finalizar:

8 – Se alguém resolver tomar Davi como exemplo, pode ser homossexual e dizer que segue a Bíblia, sim senhor. Vejam: os livros Samuel I e Samuel II contam a história da amizade entre ele e Jonatã, filho do rei Saul, antecessor de Davi e candidato natural ao trono de Israel.

Davi acaba escolhido para a sucessão, mas isso não abala o relacionamento dos dois. Está escrito: “A alma de Jonatã se ligou com a alma de Davi. E Jonatã o amou, como à sua própria alma” (Samuel I). Em outra passagem, Jonatã tira todas as roupas, entrega a Davi e se deita com ele. “E inclinou-se 3 vezes, e beijaram-se um ao outro”.

A minha Bíblia está quase toda lida e grifada, pois a tenho como um bom livro de literatura. Entendo que as Escrituras não devem ser encaradas ao pé da letra. É um livro escrito por várias mãos (masculinas) situado em um tempo na história em que não existia a Lei Maria da Penha.

Se vamos utilizar as Sagradas Escrituras como exemplo, não sejamos hipócritas. Na Bíblia, há a celebração do relacionamento homoafetivo entre Davi e Jonatã.

Percebo muita gente separando algumas passagens para justificar suas atitudes. De fato, o machismo pode ser justificado pelo Velho Testamento que deixa claro que as mulheres deveriam ser funcionárias de seus maridos. Mas, se assim for, apoiem para ser coerentes, a homossexualidade porque ela também está na Bíblia.

Vale observar que Davi não é um herói menor na Bíblia. Ele é chamado de “o homem segundo o coração de Deus” (Samuel I) e é um dos mais queridos reis de Israel. Davi estava na linhagem de Jesus Cristo. E amou Jonatã.

Durmam com essa.

Uma história de dor e de luta

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Militante não descansa.

Tô com essa mania que não vem de agora de perguntar, antes de mandar fazer o serviço, se a pessoa gosta de Bolsonaro. Isso vale para médico, dentista, cabelereiro, sapateiro, eletricista, manicure e serviços gerais. Se é para cuidar de mim e pagar por isso, que seja para quem não bate palma para maluco homofóbico.

Ontem fui à depiladora. Faço isso uma vez na vida e outra na morte porque dói, não sou obrigada e é uma situação humilhante onde nos arreganhamos toda para uma pessoa que nos taca talco, depois cera, puxa com pressa e pressiona levemente a mão em cima para aliviar a dor. Tudo isso com um ventilador ligado voltado para nossas entranhas.

Já tinha me certificado de que a moça odiava Bolsonaro, inclusive, por ter um filho gay. Mas militante que é militante quer doutrinar até com um joelho no norte e outro no sul.

– Você sabe quem foi Marx? – perguntei enquanto ela avaliava a temperatura da cera.

– É o moço que alfabetiza adultos? – questionou ela olhando para mim enrolando a espátula.

– Não. Esse é Paulo Freire.

– É aquele careca que fala com muita calma? Abre mais, por favor.

– Careca? O Karnal?

– Carnal? Ele é carnal?! Jesus amado. – disse ela enquanto espalhava cera.

– Não. Pera. Calma. Ai. É Karnal com ká. Esse aqui é o Leandro Karnal. – e mostrei a foto dele no meu celular.

– Esse mesmo! Ele é muito inteligente. Benzadeus.

– Ai! Vou te mostrar ai! Marx. Que dor miserável.Esse aqui é Marx.

Enquanto mostrava para Jocilene e ela me besuntava de cera, falei:

– O da luta de classes. Sabe o que é isso?

– Do MST?

– Não!, respondi na hora que ela puxou. Quer dizer, pode ser.

Daí fui explicando entre uma puxada de cera e outra sobre classe social, meios de produção, mais-valia, produção dos bens de consumo e tudo o mais quando conseguia respirar.

Foi um papo muito rápido. Ufa. Terminou.

– Entendeu, Jocilene?

– Entendi não sei se entendi. Mas olha aqui no espelho – disse ela toda sorridente. – Confere o meu serviço e veja sua transformação de Marx para Karnal.

Rimos muito ainda mais depois de eu ter observado que Karnal estava todo vermelho.

Daqui a algumas semanas, chego lá toda Paulo Freire e saio Suplicy.

É isso, gente. Lula livre.

Réchi tégui depilada.

Isaac no Mundos das Partículas

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Para saber mais sobre o livro, continue a leitura:

O nascimento de um cientista, de uma escritora e de um grande espetáculo:

Olá. Meu nome é Elika Takimoto e vivo da teimosia. Não me considero uma pessoa sonhadora, pois, as pessoas sonhadoras vivem… sonhando. Entre querer fazer e fazer para mim não há diferença. E não sou dessas de desanimar diante as portas que se fecham para mim e os “nãos” que acumulei jamais me diminuíram. Pelo contrário.

Isaac no mundo das partículas foi escrito há cinco anos. Desde então, ando com ele debaixo do braço oferecendo para todas as editoras que vejo pela frente. Colecionei respostas educadas rejeitando Isaac.

Todo o processo desde a sua elaboração até a publicação rendeu, para variar, muitas histórias que me engrandeceram e que pretendo compartilhar com quem quiser ouvir. Acho que não são apenas narrativas sobre fracassos que vocês lerão aqui e sim formas de lidar com a realidade, ou melhor, como fiz para driblar todas as bolas mal jogadas para mim e,   finalmente, fazer meu gol de placa.

O texto desse livro de Física de Partículas para crianças de 6 a 106 anos em pleno Brasil escrito por uma suburbana carioca já foi selecionado dentre não sei quantos mil para receber o patrocínio do Oi Futuro. Isaac virou um mega espetáculo infantil cuja estreia foi 27 de Janeiro de 2018 no Teatro Oi Futuro em Ipanema. A peça (que foi um lindo musical infantil de extremo sucesso) recebeu indicações para vários prêmios!

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Mais essa. Ele virou peça antes de ser um livro publicado! Quanta história temos pela frente, não?

Como o livro nasceu?

Em 2010, fui selecionada por análise de currículo, para fazer o curso de Física de Partículas no CERN (Centro Europeu de Pesquisa Nuclear), o maior laboratório de física do mundo.

Fiz parte de uma atividade de um programa oficial do CERN para professores de Ensino Médio dos países membros. O Brasil, para quem não sabe, coopera com o CERN mas (ainda) não é membro. Logo, para que nós brasileiros participássemos deste evento, tivemos que entrar na cota dos portugueses que gentilmente nos abriram espaço por iniciativa do LIP – Laboratório de Instrumentação e Física Experimental de Partículas.

A organização do grupo foi coordenada pela Secretaria para Assuntos de Ensino da SBF – Sociedade Brasileira de Física. Nós, professores do Brasil, participantes deste curso de capacitação contamos com apoio financeiro do CBPF – Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas e recebemos o apoio financeiro do Departamento de Educação Básica da CAPES e do Departamento de Popularização e Difusão da Ciência e Tecnologia do Ministério de Ciência e Tecnologia.

Ou seja, foi algo sério e grandioso para a minha formação.

Mas nem tudo são flores. O CERN fica na fronteira entre Suiça e França. Eu já era mãe de três, estava casada na época e nunca havia pensado em viajar sem a minha família. Não foi fácil para mim esse processo porque a educação que tive (digo, educação como um todo, incluindo a sociedade doente da qual fazemos parte) foi tão castradora que a impressão que tinha o tempo todo era de que estava abandonando meus filhos.

– Mas eles vão ficar com quem? – perguntavam para mim quando eu dizia que ia fazer essa viagem.

Deixei-os sob cuidado do pai e dos avós e fui. Fui com medo, mas fui. Não dormi quase em todo o tempo que estive lá. Por ansiedade, por querer registrar tudo para não me esquecer de nada (para quem quiser tem toda a história no meu blog), e por viver algo tão mágico.

Voltei outra. Cheia de novidades e querendo dar palestras sobre tudo o que havia aprendido e visto com esses olhos arregalados.

Quem mais quis entender sobre o que vivi foi Yuki, meu filho caçula que na época estava super caçulete de tão pequetitito. Foi com ele que tive os melhores diálogos sobre física de partículas e graças às perguntas que ele me fazia me vi obrigada a ter que explicar para uma criança um tema tão complexo (bem sabemos que explicar para uma criança ou para uma pessoa idosa seja lá qual for o assunto nos exige manobras neurais de nível olímpico).

De que o mundo é feito? Como tudo começou? Como sabemos que tudo isso que falam é verdade se não conseguimos ver as partículas? Como é que somos feitos de partículas invisíveis se todos conseguem nos enxergar? A partir de quantas partículas invisíveis que se juntam temos um corpo com massa? O que é massa?

O interesse do Yuki foi tanto que comecei a procurar livros sobre o tema para lhe dar. Qual o quê. Quando encontrava era algo extremamente técnico e chato. Nem eu suportava.

Daí, tive a ideia de escrever um livro para Yuki mas que também fosse um registro dos diálogos que tive com ele.

A primeira vez que li Isaac no mundo das partículas para Yuki chorei de emoção. Quando era a vez do Isaac falar, Yuki o atropelava e dizia exatamente o que estava escrito. As dúvidas e as perguntas de Isaac eram as mesmas de uma criança!

Um detalhe que não é um detalhe: as questões que Yuki fez quando cheguei do CERN eram as mesmas que movem os cientistas a fazer tanta pesquisa em um laboratório gigantesco. De que o mundo é feito? Como tudo começou? Como sabemos que tudo isso que falam é verdade se não conseguimos ver as partículas? Como é que somos feitos de partículas invisíveis se todos conseguem nos enxergar? A partir de quantas partículas invisíveis que se juntam temos um corpo com massa? O que é massa?… Todas essas e muito mais aparecem no Isaac no mundo das partículas.

Não tem como fazer ciência sem filosofia, assim penso. Isaac no mundo das partículas não é somente um livro de Física de Partículas. Considero-o também um livro que estimula todas as pessoas que o lêem a fazer mais e mais perguntas, pois, paradoxalmente, entendemos mais sobre um assunto não quando conseguimos  explicá-lo em sua plenitude (porque isso é impossível) mas sim quando somos capazes de fazer perguntas cada vez mais profundas sobre o que estamos estudando. Ou seja, quando deixamos fluir a filosofia subjacente a qualquer assunto.

Assim como fazem todas as crianças.

Ilustrado por um grande artista italiano. Mais essa.

A linguagem que usei no Isaac fui aprendendo lendo outras coisas, vendo os desenhos animados atuais e os jogos de videogames. Fiquei assustada com a quantidade de informações e de ciência que passam hoje em dia para as crianças. Quem acha que um livro de Física de Partículas para o público infantil pode ser algo complexo para eles, sugiro acompanhar o que essas crianças de hoje consomem na Internet e na televisão. Não as subestimem. Vai por mim.

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Mas nada disso estaria completo sem as ilustrações de Sérgio Ricciuto Conte. Acho que já falei aqui. Não considero esse livro de minha autoria somente. Isaac no mundo das partículas é um livro feito por Elika Takimoto e Sérgio Ricciuto Conte.

Ricciuto quando recebeu o texto se viu imerso em outras questões: como vou desenhar um grão falante? Como vou desenhar o CERN? Perguntas como essas mais ou menos tiraram literalmente o sono desse gênio. Ricciuto é um artista com uma sensibilidade e uma inteligência sem igual mas um ser humano acima de tudo e, como todos, receosos frente a novos desafios.

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Ótimo. Sei que o lugar de conforto é o que se morre em vida. Se ele nunca havia desenhado máquinas, que lindo será para nós dois. Assim pensei. E foi muito melhor do que eu esperava o resultado!

Ricciuto ficou tão imerso no mundo de Isaac que chegou a sonhar com uma cena. Acordou e desenhou. Mandou para mim observando que a ilustração que ele havia feito em que Isaac aparece com uma estrela pendurada no pescoço dada por Aristóteles não estava no texto e que ele só queria me mostrar a imagem que invadiu sua cabeça enquanto ele dormia. Tratei de modificar o texto incluindo esse momento maravilhoso.

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Enfim, Isaac no mundo das partículas é um livro em que mergulhei de todas as formas convidando para essa apneia uma pérola como Ricciuto que a cada ilustração fazia respirar algo onde já batia forte um coração.

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Não basta escrever. Tem que ser teimosa.

Publicar um livro nesse país é uma questão de teimosia. Você cisma com uma ideia doida em que não faltam pessoas da área dizendo que é impossível e inviável, mas você segue firme alheio ao tamanho dos muros que lhe cercam. Agora… publicar um livro infantil de física de partículas já ilustrado… aí é uma questão de sei lá meu deus. Teimosia nível advanced plus master.

Ter uma obra feita com tanta seriedade, pesquisa e amor como Isaac no mundo das partículas ser recusada por grandes editoras com o argumento de que o livro não será compreendido, não terá público para comprá-lo ou com a condição de que não se use as ilustrações já que as editoras têm seus próprios desenhistas é algo, diria, por incrível que pareça, edificador.

Cresci ouvindo os nãos dados das formas mais secas ou mais polidas para Isaac. Entendi bem mais como o capitalismo funciona e como os adultos subestimam a inteligência de nossas crianças e como são escravos do tal Deus Mercado.

Parece-me, no entanto, que Isaac tem mesmo uma força metafísica interna que vai além do livro e permeia o campo dos sonhos e das ideias. Antes de virar livro impresso, o texto de Isaac foi escolhido dentre não sei quantos mil para receber o patrocínio do Oi Futuro e virar um mega espetáculo. Isaac foi parar nas mãos de Joana Lebreiro que, acostumada com o público infantil, enxergou nele um potencial para uma grande troca e uma excelente oportunidade de divulgar ciência em forma de arte, luz e muito som.

Com o espetáculo à vista, decidi publicar Isaac de forma independente. E, segue daí, uma história de peregrinação. Escolher as pessoas que fariam a diagramação e a revisão não foi algo simples e tive que rever minhas escolhas mesmo depois de tudo pago e pronto.

Não aceitei que ninguém trabalhasse nessa obra se não tivesse por ela muito respeito e amor. Diante a menor percepção de uma falta de carinho, abortava o projeto e voltava para a estaca zero. Não foi fácil nenhum desses passos. Noites e dias de ansiedade e trocas de ideias, medos e inseguranças com meu amigo Sergio Ricciuto Conte, o ilustrador do Isaac.

Não tenho berço, sou suburbana, meu pai foi engenheiro e minha mãe sempre dona de casa. Não tenho contatos. Só me resta a opção de confiar em quem me aparece para ajudar ou se vender. E, claro, há uma coleção de decepções que não valem à pena narrar aqui. Apenas é necessário dizer que a Isaac é fruto de muitos fracassos porque foram eles que me levaram às pessoas que assinaram a obra.

Paralelamente a isso, ver o espetáculo ganhando forma é uma emoção indescritível. Entendo que a linguagem teatral não é a mesma do que a literária. A despeito de muitas modificações, Joana Lebreiro é uma pessoa que soube lidar com meu filho. Trocou sua roupa, mas não o obrigou a mudar de personalidade. A alma de Isaac seguiu, em essência, do início ao fim do espetáculo e só agregou valor a tudo que fizemos.

Enfim, como já disse Clarice. Felicidade é pouco. O que sinto tem outro nome.

Isaac no mundo das partículas nasceu por teimosia.

Monteiro Lobato, depois que fazia os livros, saía pelo Brasil para vendê-los. Por muitas vezes, colocava em chalanas, embarcações rústicas, charretes, para levá-los a aldeias distantes. Ele queria ser lido. Acreditava que a sua obra abriria a mente de crianças e não mensurava esforços para isso. Tinha prazer de oferecer o mundo que saiu de sua cabeça.

Guiada pela imagem de Monteiro Lobato, fui só de carro buscar os livros que foram impressos em São Paulo, na gráfica que achei o melhor preço e com a melhor qualidade de impressão. Pobre é uma desgraça.  A gente tem que superar os traumas no susto.

O medo foi gigantesco. Mas o foco foi maior. Imagino crianças abrindo Isaac, olhando pela lupa com ele, e observando esse mundo mágico da ciência. Vislumbro mais pessoas formulando mais perguntas sobre o tema porque acredito que, quando estudamos um assunto, se ele nos cativa, não nos satisfazemos com as respostas e acabamos sempre por ter mais dúvidas sobre o mundo. Incrivelmente, estudamos não para saber mais mas sim para sabermos o quanto não sabemos e, a despeito disso, que coisa deliciosa é a pesquisa sobre seja lá qual for o tema…

Fui só, mas voltei com muitos livros. Meu carro se transformou na nave que Isaac usa para viajar no tempo e no espaço. Dentro dela, carreguei, além de infinitas partículas, um universo de sonhos a ser compartilhado, a partir de hoje, com você.

Boa leitura e vida longa a Isaac!

“Só tem espaço para os melhores”, disse aquele que confunde Kafka com kafta.

O ministro da (falta de) Educação, Abraham Weintraub, defendeu na última quarta-feira que o país “só tem espaço para os melhores” ao dirigir-se a crianças e adolescentes homenageados na cerimônia Destaques na Educação.

“Tem que haver uma dinâmica para aumentar a competição e mostrar que quem vai melhor recebe mais, que quem melhora mais recebe mais. É um critério de gestão”, afirmou mostrando que não entende absolutamente nada de Educação pois a confunde com o Mercado.

Aos alunos, o ministro disse que a importância da educação de qualidade é “para que vocês sejam livres e fortes para pensar por vocês mesmos e ter uma profissão e uma renda sem depender de bolsa.”

Claro que o ministro estava se referindo ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e ao projeto Bolsa Família elogiado pela ONU, pelo Banco Mundial e reconhecido internacionalmente como o maior programa de transferência de renda do mundo que ajudou não só na redução da pobreza, mas também na melhoria de indicadores de desenvolvimento humano.

Muito a dizer, gente.

Para começar, é claro que nem todo sofrimento humano é culpa da falta de bens materiais ou causado pela má distribuição deles. Porém, há muitas dores que estão enraizadas na nossa estrutura social. Não sou eu quem as provoca nem você individualmente, mas as instituições como a escravidão, por exemplo, podem sim ser as grandes culpadas.

Vejam que curioso: a nossa cultura que não considera parasita o cidadão rico que vive de renda financeira, a nossa cultura que considera justo conceder isenção, incentivos fiscais e perdão da dívida com os bancos públicos aos grandes empresários é a mesma cultura que chama de vagabundo quem recebe o Bolsa Família.

O sistema é tão cruel que ricos fazem até mesmo com que os próprios pobres sintam vergonha de sua pobreza, pois a consideram como resultado de um fracasso pessoal (como faz o ministro da Educação) e não de um arranjo socioeconômico.

Para todos os estudantes que não receberam prêmio algum, eu gostaria de parabenizar vocês também.

Certamente, vocês são pessoas bacanas, esforçadas, cheias de potencial, empáticas, amigas e criativas. O que não quer dizer que esses que ganham prêmios não sejam serumaninhos legais, mas não foram premiados por isso.

Muitos prêmios significam que eles se adaptaram bem a um sistema de ensino que prima pela competitividade e exclusão dos que dele fazem parte e dos que não conseguem a ele se moldar.

Vale observar que se Einstein vivo fosse e estudasse em muitas escolas tradicionais (quiçá militares) que existem hoje poderia ter sido expulso dado seu comportamento rebelde com esse modelo que não estimula os alunos a perguntar, a questionar e sim a responder e obedecer regras.

Um Prêmio é legal, mas absolutamente nada diz sobre a capacidade de lidar com o próximo e sobre a felicidade que os premiados terão no futuro e até mesmo se tem alguma no presente.

O mundo é extremamente complexo e, em certa medida, pode ser muito cruel. É triste quando testemunhamos essa crueldade sendo vivenciada e estimulada nas escolas.

Possivelmente, muitos de vocês que não foram premiados estão se sentindo burros e incapacitados por não terem conseguido, por exemplo, obedecer regras de redação que se Guimarães Rosa e Mário de Andrade tivessem obedecido não teriam escrito o que escreveram.

Preciso acrescentar que eu reconheço a necessidade em certas instâncias de uma política de seleção rigorosa. Mas me recuso a chamar isso de “Educação” já que o meu conceito de Educação envolve um bem estar de uma maioria.

Rigor, competição e disciplina são muito valorizados nesse conceito de Bozo-Educação. O que eles desprezam (ou admiram) é o fato de nunca na história termos tantas crianças e jovens frustados, infelizes, doentes e egoístas.

Aos premiados, parabéns! Aos que não foram, parabéns também! Cada um tem uma história, um ritmo para aprender e uma forma de fazer o mundo um lugar mais agradável de se viver. Não desistam dos seus sonhos, jamais deixem de acreditar no potencial de vocês e cuidem de todas as pessoas. O bem que fazemos é nosso melhor alimento.

Para finalizar, vindo de quem acha que Educação é mercadoria, o discurso não surpreende. Irônico e didático, porém, foi ouvir toda essa ode à meritocracia de um ministro da Educação que confunde Kafka com kafta, já mostrou que entende pouco de matemática e escreve ‘suspenção’ e ‘paralização’.

Mãe, estamos em uma Democracia?

Não acho legal ver fotos com crianças defendendo uma bandeira política. Penso que política e religião exigem maturidade para a escolha de qual corrente seguir.

Quando Yuki tinha 8 anos, perguntou o que estava acontecendo no Brasil. Na ocasião, víamos manifestação para tirar Dilma do poder.

Ao ver crianças dando entrevistas, ele se interessou. Criança pode ir à manifestação, mãe? Pronto, lá estava eu numa saia justa. Sou contra a doutrinação de crianças. Acho que cabe a mim como mãe ensinar meus filhos, sobretudo, a pensar.

Todos, porém, que me acompanham sabem que tenho a minha posição política muito bem definida, o que, ao meu ver, não me dá o direito de decidir qual será o lado que meu filho jogará dentro da política: esquerda ou direita.

O próprio Yuki percebendo a minha hesitação ajudou-me ao perguntar justamente a diferença entre esquerda e direita, já que os próprios jornalistas toda hora mencionavam essas palavras.

Coloco aqui o nosso diálogo que deixei registrado na época para não esquecer desse momento:

– Por que não positivo ou negativo, mãe? Ou branco e preto, por exemplo?

– Bom, essa é uma boa forma de começarmos. Isso tudo começou lá na França, há pouco mais de duzentos anos. O sistema político dos franceses nessa época era composto por grupos bem definidos, sendo que um deles formado por comerciantes e artesãos, por exemplo, era o único que tinha a obrigação de pagar os impostos, além de terem inúmeras limitações, como o fato de não poderem ocupar cargos públicos, por exemplo.

– Mas pode isso?

– Pois então. Parece meio injusto, não? Por isso talvez, pelo fato dos privilégios serem dados somente a uma pequena parte da população, que se iniciou a famosa Revolução Francesa. Nessa época, a burguesia procurava, com o apoio da população mais pobre, diminuir os poderes da nobreza e do clero. Daí então, para se criar uma nova Constituição, montaram uma Assembleia Nacional Constituinte. Acho que as camadas mais ricas não gostaram da participação das mais pobres, e preferiram não se misturar, sentando separadas, do lado direito. Não sei ao certo se foi isso, mas sei que a galera que representava o povão menos favorecido ficou posicionada à esquerda. Por isso, até hoje, o lado esquerdo foi associado à luta pelos direitos dos trabalhadores, e o direito ao conservadorismo e à elite.

Dentro dessa visão, ser de esquerda presumiria lutar pelos direitos dos trabalhadores e da população mais pobre, a promoção do bem estar coletivo e da participação popular dos movimentos sociais e minorias. Já a direita representaria uma visão mais conservadora, ligada a um comportamento tradicional, que busca manter o poder da elite e promover o bem estar individual.

Mas o mundo, meu filho, é muito mais complexo do que isso. Com o tempo, as duas expressões passaram a ser usadas em outros contextos. Hoje, as palavras ‘esquerda’ e ‘direita’ parecem não dar conta da diversidade política do século 21. Os contrastes até hoje como você pode ver existem, porém, não são mais do tempo em que nasceu a distinção. De uma forma geral, uma diferença crucial seria que a esquerda busca promover a justiça social enquanto a direita trabalha pela liberdade individual. Tivemos uma época no Brasil, por exemplo, da Ditadura Militar…

– O que é Ditadura Militar, mãe?

– Bem, podemos dizer que foi um período da política brasileira em que os militares governaram o Brasil. Esta época vai de 1964 a 1985. Caracterizou-se pela supressão de direitos constitucionais, censura, perseguição política e repressão aos que eram contra o regime militar, ou seja, pela falta de democracia.

– O que é democracia?

– A palavra democracia tem sua origem na Grécia Antiga. Demo quer dizer povo, kracia, governo. Dessa forma, a democracia pode ser entendida como um regime de governo onde o povo (cidadão) é quem deve tomar as decisões políticas e de poder.

Então, meu filho, continuando: essa divisão de direita e esquerda se fortaleceu muito no período da Ditadura Militar, onde quem apoiou o golpe dos militares era considerado da direita, e quem defendia o regime socialista, de esquerda.

– O que é socialista?

– Bom, o Socialismo é um sistema político-econômico ou uma linha de pensamento criado no século 19 para confrontar o liberalismo e o capitalismo. A idéia foi desenvolvida a partir da realidade na qual o trabalhador era subordinado naquele momento, como baixos salários, enorme jornada de trabalho entre outras.

Nesse sentido, o socialismo propõe a extinção da propriedade privada dos meios de produção e a tomada do poder por parte do proletariado e controle do Estado e divisão igualitária da renda. Todos ganham o mesmo. Não há como dentro do socialismo um ter carro zero enquanto o outro não tem o que comer. Isso, porém, é um sonho. Diria que é praticamente impossível pensar nesse regime.

Mas hoje, muitas outras divisões apareceram dentro de cada uma dessas ideologias de esquerda e de direita. Atualmente, os partidos de direita abrangem conservadores, democratas-cristãos, liberais e nacionalistas, e ainda o nazismo e fascismo na chamada extrema direita. Na esquerda, temos os social-democratas, progressistas, socialistas democráticos e ambientalistas. Na extrema-esquerda temos movimentos simultaneamente igualitários e autoritários. Cada qual dos lados, em diversos momentos da história (sobretudo no século 20), empenhou-se até a barbárie para fazer valer sua visão ideológica de mundo.

– Não tem meio termo? Eu tenho que escolher em que lado quero ficar?

– Não precisa. Há a posição de “centro”, por exemplo. Esse pensamento consegue defender o capitalismo sem deixar de se preocupar com o lado social. Em teoria, a política de centro prega mais tolerância e equilíbrio na sociedade. No entanto, ela pode estar mais alinhada com a política de esquerda ou de direita dependendo de sua visão sobre a economia. Por exemplo, os de esquerda pregam uma economia mais solidária, com maior distribuição de renda. Os de direita seriam associados ao liberalismo, doutrina que na economia pode indicar os que procuram manter a livre iniciativa de mercado e os direitos à propriedade particular. Algumas interpretações defendem a total não intervenção do governo na economia, a redução de impostos sobre empresas, a extinção da regulamentação governamental, entre outros. Mas veja que confuso e difícil, isso não significa que um governo de direita não possa ter uma influência forte no Estado, como aconteceu na Ditadura.

– Liberalismo me parece um nome bonito…

– E é. Na raiz, o adjetivo liberal é associado à pessoa que tem ideias e uma atitude aberta ou tolerante, que pode incluir a defesa de liberdades civis e direitos humanos. Mas não podemos esquecer que essa “liberdade” pode ter como consequência a privatização de bens comuns e espaços públicos o que poderia gerar mais desigualdades sociais.

A coisa, no entanto, é muito complexa. Por exemplo, o pensamento conservador geralmente é associado à direita. Propostas progressistas, à esquerda. No entanto, ambos, conservadores e progressistas, não raro, associam-se com liberais. É o caso, por exemplo, de quem defende ideias progressistas, como o aborto, políticas de cotas etc., mas defende a liberdade econômica, isto é, livre mercado, livre concorrência etc.; ou, ao contrário, quem defende política antiaborto, política contra as cotas e contra programas sociais fomentados pelo Estado, mas também se ajusta, igualmente, à prática do liberalismo econômico. Do ponto de vista político e ideológico, progressistas e conservadores divergem, mas concordam, por vezes, quanto à economia. Vê-se, então, que o problema é mais complexo do que se imagina.

– Não sei se estou te entendendo…

– Se você está confuso é sinal de que está bem informado e que agi honestamente. Quando, meu filho, neste mundo você vir uma pessoa com ideias muito claras sobre política, saúde, economia, progresso… pode ter certeza de que essa pessoa está mal informada. Fiquemos por aqui e aguardemos as próximas imagens e notícias para voltarmos a discutir.

De lá para cá, continuei mantendo essa linha. Porém, divido cada vez mais com ele as notícias de jornal já que Yuki está bem mais maduro para entender.

Hoje, com quase 13 anos, Yuki segue me perguntando uma série de coisas. Dentre elas, se estamos vendo a volta da Ditadura, como alguém pode defender Moro que foi juiz e agora ministro (Yuki acha tudo muito suspeito e inadmissível), por quê Lula segue preso depois de tantos vazamentos e quem matou Marielle.