Eu: mera professora na era Bolsonaro

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Quando tudo isso começou a acontecer, eu fiquei com pena dos meus colegas professores de história, sociologia, filosofia… Afinal, essas disciplinas existem – em essência – para mostrar que tudo o que vemos não está dado, mas sim foi construído dentro de um contexto. E o que pode ser construído também pode ser desconstruído como, por exemplo, a escravidão.

Esta foi a minha primeira semana de aula depois que tivemos Bolsonaro eleito. Que o mundo está mudando – e, a meu ver, para pior – estamos todos percebendo. Cortes orçamentários destinados à cultura, carta verde para matar morador de comunidade principalmente de pele preta, perseguição aos LGBTIs, desmoralização dos professores, culto em plenárias, discurso de ódio sendo aplaudido,… Tudo isso está conectado e se intensificando. A gente sabe. O que para mim se mostrou como novidade foi o que eu vi em sala de aula nesse início do ano letivo.

Sou professora de física, matéria considerada – pelo senso comum – uma ciência exata dadas as comprovações, os métodos, as previsões, as equações e todo o poder que exerce no mundo. Não sou dessas que acreditam que estejamos diante de verdades incontestáveis com um livro de física aberto. Pelo contrário. Quem teve aula comigo nos últimos anos sabe o quanto eu trabalho para que o aluno duvide de tudo o que é falado e questione o máximo possível qualquer teoria. Pelas dúvidas, crescemos todos. Nas certezas, congelamos nosso raciocínio.

Logo na primeira semana, expliquei que iríamos trabalhar de um jeito inusitado com a cinemática. No lugar de exercícios, debateríamos alguns questionamentos de Galileu que foi o primeiro a equacionar um fenômeno físico, a dizer, a queda dos corpos. Em que contexto ele realizou essa façanha? O que o motivou? Galileu estava com a ideia fixa de que a Terra poderia estar em movimento. Para tanto, tinha uma missão nada fácil: convencer o mundo de que o que vemos pode não ser a Realidade. Defender um argumento desse não é nada simples e Galileu escreveu um livro enoooooorme sobre isso com excelentes questões e argumentos. As minhas aulas se baseiam nas inquietações do filósofo para que a juventude perceba a genialidade e, ao mesmo tempo, a humanidade que existe em Galileu.

Um aluno terraplanista começou a questionar tudo. Mas não de uma forma que considero saudável para o debate. Veio de forma agressiva dizendo que tudo não passa de opinião e que eu deveria respeitar a dele. Atrás deste jovem, surgiu mais uma galera.

Outro aluno, no meio da aula, puxou um papel cheio de contas feitas de forma confusa. Começou a falar de aminoácidos e lendo aquelas contas “me provou” que a teoria do Big Bang e da Evolução não fazem o menor sentido. Foi aplaudido por vários.

Veja bem. Nada contra ter ideias diferentes em sala de aula. Isso é absolutamente saudável. O que estou estranhando é a falta de vontade de ouvir e a dificuldade de entender que, no diálogo, crescemos todos. O riso no canto dos lábios de deboche enquanto falo segurando o livro de Galileu se fez presente em meninos e meninas de 14, 15 anos. Nunca havia passado por isso.

Outra coisa a observar é que eles estão muito bem informados. É fato. O que não percebem é que informação está longe de ser sinônimo de conhecimento. Por isso, até, adoro dar avaliações em que os alunos podem consultar a internet. Não adianta comer se não conseguir digerir e reter vitaminas. Estar bem informado é uma coisa. Saber pensar sobre o que ouve e lê é algo bem diferente.

Enfim, a famosa “turma da lacração” está presente nas aulas de ciências. Lacrar, vale frisar, significa fechar para sempre. Curiosamente, essa expressão foi usada para nomear pessoas que justamente chegaram tirando o lacre: gente que trouxe o debate sobre a hegemonia da cultura eurocêntrica nos livros de história, sobre o consumismo moderno, a urbanização do mundo, a atuação das empresas multinacionais, a corrida desenvolvimentista, a sustentabilidade, sobre a história contada por pensadores brancos, a violência contra as mulheres, o extermínio da juventude negra, o sucesso baseado unicamente na ascensão econômica, enfim, quem se propôs a discutir as desigualdades sociais, o feminismo, a discriminação sexual, entre outros assuntos foi considerado “lacrador”. Hoje, minha gente, eu vi o poderoso lacre. As verdadeiras vítimas de uma poderosa doutrinação que foram tolidas de ouvir seja sobre temas sociopolíticos e históricos seja sobre uma teoria científica.

Não estou desanimada. Se eu der as costas para esse muro que se agiganta, morro como educadora. Terei paciência para tentar transpôr essa barreira. Não sinto raiva de nada nem de ninguém. Apenas ando sofrendo de perplexidade e compartilhando com quem quiser me ouvir.

Da minha parte, serei o que sempre fui: uma mera professora dessas que vemos em qualquer escola pública que, a despeito de tanta pedra que sempre recebeu dos governantes e, agora, da sociedade, acorda todo dia com aquela esperança de melhorar o mundo pela educação.

Esse sonho, nem Bolsonaro vai tirar de mim.

 


A arte que ilustra esse texto foi feita pelo artista Sergio Ricciuto e está no meu livro Isaac no Mundo das Partículas.

Dona Aranha e Hermanoteu

Estive no Atacama vendo a gravação do filme Hermanoteu.

Fiquei com medo de mexer em qualquer coisa do deserto e alterar a harmonia do universo. Eu estava feliz demais, gente. Muito amor, muito orgulho, muita cumplicidade. Estava em estado superlativo.

De tanto olhar para aquele chão fabuloso, vimos algo. Acabamos trazendo uma pedra do deserto. Ela estava rachada e tinha um encaixe perfeito nos pedaços divididos.

Achei metafórico.

Tive receio da natureza separar as partes e nunca mais alguém enxergar aquela unidade.

Sem que fosse convidada para conhecer minha casa, outra coisa veio de lá também: uma aranha marrom entrou na mala e acabou picando o Pipo assim que o viu aqui no Rio.

Pipo teve a sensibilidade de não matá-la e ainda capturá-la com cuidado. Levamos direto para Fiocruz onde ela foi muito bem recebida pelos cientistas. Afinal, uma aranha marrom viva, uma das mais venenosas do mundo, não se vê todo dia. Geralmente, as pessoas lhe dão uma chinelada.

Demos para Dona Aranha passagens gratuitas, carne para morder e asilo seguro até a Fiocruz.

A aranha passa bem.

Pipo está sob corticoides e efeito de um veneno forte. Estamos fazendo tudo o que é para ser feito. Inclusive, piada.

Jovane que também esteve no Atacama disse que é um perigo mesmo esse negócio de tirar roupa da mala. No caso dele, pegou uma calça e, dentro do bolso, achou um boleto vencido. Teve que sair correndo para pagar.

Temos música e memes também.

Brincadeiras à parte, a gente percebe quando ama de verdade quando aceitaria toda a dor do outro para vê-lo parando de sofrer. Eu, toda descrente, me peguei olhando para o céu pedindo piedade.

Observando a pedra aqui e vendo Pipo tecendo teia pela casa, garanto que harmonia não foi alterada. Afinal, o que seria da nona sinfonia sem as grandes pausas?

Seguimos fortes e unidos como uma rocha rachada ao meio.

Em breve, traremos boas notícias.

Sobre a militarização das escolas proposta pelo governo Bolsonaro:

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A última notícia agora é que o MEC apoiará uso do Exército para administrar escolas municipais. A militarização das escolas já fazia parte das promessas de Bolsonaro e já é uma realidade em vários cantos do Brasil.

Para começarmos a avaliar tudo isso e pensarmos juntos, cabe a pergunta: o que é, afinal, “militarizar as escolas públicas”? Muitas escolas em vários estados estão sob gestão dos militares e é em cima do que acontece lá hoje e da minha experiência como professora há mais de vinte anos que irei me pronunciar a respeito.

Existe nas escolas públicas já militarizadas uma cartilha militar cheia de regras como, por exemplo: os alunos e as alunas têm que vestir o uniforme militar completo e qualquer coisa errada no uniforme pode gerar advertência. Meninos usam cabelo curto e meninas cabelo preso. Ninguém pode usar esmaltes coloridos e acessórios que chamem a atenção. Falar gírias e mascar chiclete nem pensar. Continência é cumprimento em muitas dessas escolas. Uma vez por semana há também a formação geral para cantar o Hino Nacional e o Hino à Bandeira enquanto a bandeira é hasteada conforme manda o protocolo militar. Todo dia as crianças são perfiladas em formação militar, seguida da revista de um coordenador de disciplina todo santo dia.

Além das regras descritas no parágrafo anterior, repressão e normas rígidas são as principais ferramentas usadas no cotidiano das escolas que são militarizadas. O quadro de docentes passa a ser formado por policiais militares com licenciaturas específicas e alguns professores da rede pública concursados. Todo e toda estudante que tem notas altas e se sobressai também em comportamento recebe honrarias. Enfim, são adotados os princípios básicos militares de hierarquia e disciplina em cada escola que é militarizada.

Agora que todo mundo sabe o que é a militarização nas escolas (e até viu alguma semelhança com a escola em que estudou no passado), vamos pensar juntos se isso é o que vai melhorar nossa sociedade- levando em consideração que por detrás desse processo há um roteiro midiático focado em ridicularizar professores deste país e uma onda conservadora em curso.

Antes de mais nada, é preciso que se discuta o conceito de uma “boa educação” e, para tanto, temos que responder a nós mesmos a pergunta: para que educamos? Para que serve a escola? Com que propósito as escolas surgiram?

A escola tal como a conhecemos hoje, de uma forma bem geral, nasceu em um mundo que começou a ser regido por uma economia industrial, portanto, buscou obter os maiores resultados observáveis com o menor esforço e investimento possível. Nessa esteira, a escola é e foi a solução e a resposta ideal à necessidade para se preparar trabalhadores. Não foi sem motivo que foram os grandes empresários do século 19 que financiaram a escola obrigatória e que ainda hoje a escola é vista como um grande mercado.

Qual foi o papel do professor inicialmente? Ele era (como hoje continua sendo em muitas instituições de ensino) o encarregado de ensinar uma série de conteúdos determinada por alguns “administradores”. Percebam o que eu acabei de dizer: a Educação não foi preparada por educadores e sim por administradores.

Nós, como professores, temos várias turmas com uma média de 40 alunos por ano o que torna o nosso trabalho, de fato, puramente mecânico de uma forma geral. As exigências e as pressões terminam por desumanizar a todos seja professor, seja aluno, seja diretor, seja inspetor. Sempre fomos preparados para ser um mero funcionário que obedece a uma autoridade que dita o que temos que ensinar e de que forma devemos fazer isso. O padrão sempre foi esse e há um esforço em curso para que se mantenha assim.

Será que é uma coincidência o fato de as escolas, de uma forma geral, serem imagem e semelhança das prisões e das fábricas priorizando o cumprimento de regras e tendo um total controle comportamental e social? A escola, no formato que a conhecemos, foi feita para ser uma fábrica de cidadãos, como já dito acima, obedientes, mas mais do que isso: consumistas e eficazes para o sistema. As nossas escolas nunca se propuseram a responder às necessidades de cada ser humano. Por quê? Porque ela, inicialmente, não foi feita para educar e sim para instruir.

Nosso sistema “educativo”, de uma forma geral, sempre foi um sistema de exclusão social que seleciona o tipo de pessoa que vai para a faculdade para fazer parte de uma elite. A nossa “Educação” nas escolas nunca teve como função olhar e trabalhar cada um, ou seja, até hoje seguimos o mesmo modelo das escolas prussianas dos idos dos novecentos, onde tudo começou: ensino padronizado, aulas obrigatórias, divisão de séries por idade, currículos desvinculados da realidade, pressões por parte dos professores que por sua vez são pressionados por coordenadores e diretores, prêmios e castigos, horários rígidos e uma estrutura vertical.

Em certa medida, nossa escola tal como a maioria da população a viveu já nasceu “militarizada”. A “educação” em sua essência, surgiu para que adquiríssemos conhecimentos que naturalmente não nos interessariam (Quem aqui nunca se perguntou em um banco de escola: “para que eu quero aprender isso?”). Não aprendemos nada sobre sustentabilidade, não aprendemos sequer primeiros-socorros, não sabemos nos comunicar com pessoas com deficiência auditiva, praticamos bullying com o diferente, não temos ideia de como é produzido o nosso alimento, nos livros de ciências das escolas fundamentais os animais são apresentados pelas suas utilidades para nós, aprendemos a confiar cegamente nos médicos e nada sabemos sobre a história da indústria de fármacos e como a ciência hoje é financiada e desenvolvida. Não temos ideia de como lidar com problemas ambientais e qual é a nossa parcela de responsabilidade na degradação do meio ambiente, mas aprendemos (e já esquecemos) logaritmos e utilizar a equação de Torricelli em problemas que jamais foram ou serão nossos na realidade.

A história da Educação brasileira, insisto, mostra que as escolas sempre serviram para alimentar um sistema de produção industrial. Migramos da sabedoria para o conhecimento, do conhecimento para a informação e da informação para informação incompleta e desintegrada. A maioria esmagadora de todas as atividades que acontecem sob o título “Educação” vem de um plano muito bem específico e elaborado que se mantém o mesmo há séculos.

O que estou querendo dizer é que desde que o mundo é mundo e a escola tal qual a conhecemos sempre utilizou de métodos educacionais doutrinários. Muitos parecem não se dar conta já que nunca tiveram contato com outros métodos de ensino que incentivassem o questionamento daquilo que os detentores de poder vivem dizendo à população. Afinal, verdade seja dita, fomos submetidos a doutrinadores durante toda a vida.

O que não podemos negar é que a educação é e sempre foi um ato político. Não foram os “esquerdistas” (ou Paulo Freire) que inventaram isso. Ensinar é um ato político, a despeito de se ter ou não consciência disso. Não apenas os conteúdos que ensinamos, mas forma pela qual o fazemos.

Por exemplo, se ouvimos o aluno, mesmo quando ele discorda de nós, estamos ensinando a ele (concretamente e não apenas com palavras) um importante princípio da democracia. Por outro lado, quando reduzimos o tempo de debate dos alunos para poder ensinar mais “conteúdos objetivos” (que é o que defende Olavo de Carvalho, por exemplo, e o que propõe essa militarização), também estamos agindo politicamente e ensinando um certo modo de viver e de enxergar a vida.

Se não fomentamos o debate em sala de aula, estamos dizendo com essa atitude que o debate público é uma perda de tempo, que “o importante é se preparar para a dura vida que vem a seguir”. Estudar, adquirir conhecimentos “de verdade” para poder competir no mercado de trabalho. Ou seja, dizemos para nossos alunos – como já disseram tantas vezes para nós com todas as letras – para esquecermos os outros e nos preocuparmos somente com nós mesmos “porque a vida é dura, o que há aí fora é competição e se não estivermos preparados para competir sofreremos as consequências disso”.

Isso é uma mentira? Claro que não! Mas poderíamos repensar sobre o propósito de tudo isso que está acontecendo no mundo de, por exemplo, ao invés de competição, alimentarmos mais a ideia da empatia. Por que não? Ao invés de ficar repetindo que o mundo é assim e que se não estudar vai ser pedreiro (o que não seria vergonha nenhuma, vale observar), por que não pensarmos em formas de melhorar o mundo para o pedreiro? Esse tipo de consciência alimentada pelos movimentos identitários e pesquisas feitas com educadores tem ajudado muitas escolas a mudar a essência do que chamam de “Educação”.

A maioria de nós que estudamos em escolas tradicionais e que hoje somos os adultos da sociedade passou por uma escola que nos fez entender que a meritocracia era um conceito dado na natureza. Que o mundo era assim, que vencia sempre o mais forte, portanto, que tínhamos que estudar “para ser alguém na vida” (sinônimo de ganhar dinheiro) e fomos ensinados que o nosso coleguinha (estudante secundarista) era nosso inimigo porque iria disputar a mesma vaga em uma universidade que nós.

O que temos hoje? Temos desde os idos da virada do século, um avanço da inclusão social e um aumento no volume do grito (antes mudo) das minorias. Incrivelmente, esse movimento de pedido de aceitação e menos preconceito tem sido visto como algo de esquerda, ou “coisa do PT”. Assim, aqueles que não tem simpatia pelas ideias da esquerda, o que não há o menor problema em pensar diferente, passaram a odiar e rejeitar quase de maneira irracional os movimentos de inclusão (sejam eles de qual tipo for!) nas escolas.

Será que não pensam que eles foram as maiores vítimas de doutrinação já que nunca fomos estimulados a refletir nas nossas escolas sobre crenças políticas, nunca ou quase nunca nos deram oportunidade de aprender a usar o senso crítico e o ceticismo em temas sociopolíticos e históricos quando estivemos na escola?

Daí, ao se deparar com projetos pedagógicos que pretendem implantar métodos diferentes dos tradicionais de ensino de ciências humanas e mesmo de outras disciplinas, consideram-nos uma “doutrinação ruim”, diferente da “doutrinação boa” à qual foram submetidos por toda a vida.

O que se prega em muitas escolas hoje (longe de ser a maioria, infelizmente) é exatamente uma educação não doutrinadora. Está se colocando e propondo o debate de textos dos mais variados temas. Não é estranho quando temos um ensino que estimule o pensamento livre e autônomo ser visto como doutrinador?

Nesse jogo midiático querendo conter essa onda inclusiva, uma das bandeiras levantadas por esses políticos que avançam com o projeto de militarização das escolas públicas onde os professores têm, de fato, mais liberdade metodológica, é fortalecer o mantra para o qual a escola foi feita (como já dito, com o propósito de atender a demanda de mão de obra causada pela Revolução Industrial): “professor não é educador”. O professor, segundo dizem, foi feito para “instruir”. E assim, conforme explanado acima, ocorreu nas nossas escolas tradicionais. Em outras palavras, do ponto de vista pedagógico, a militarização das escolas públicas se apoia numa velha concepção educacional da qual estamos engatinhando para nos livrarmos dela.

A submissão do educando sempre foi um objetivo prioritário da “educação” para que ocorresse sua “socialização”. O papel da “educação” é a “socialização”, ou seja, aceitação de regras de convívio e conduta social. As instituições educacionais sempre serviram para impor regras e normas que garantem essa “coesão social”. A escola teve, ao longo de nossa história, uma função bem específica já que ao estudante coube sempre certa passividade. O fundamento de toda concepção educacional tradicional nunca foi construir a autonomia do educando, mas sim sua submissão.

Esse é o centro do debate educacional que o Brasil timidamente começou a fazer. Ao adotarmos políticas imediatistas como a proposta por Bolsonaro, definidas no calor de uma guerra ideológica, com (a falsa) garantia de resultados espetaculares para a sociedade oferecemos um tipo de escravidão para o futuro de nossos jovens.

“Educação”, insistem eles, “vem de casa e da Igreja”. Nessa esteira, os que são a favor da militarização das escolas – que é uma extensão do projeto “Escola sem Partido” – dizem que não devemos discutir política, filosofia, história, religião e sociologia, pois as crianças e os jovens (quando estimulados a ter um senso crítico) serão “doutrinados”. Para tanto, ficamos, nós professores e professoras, com a ingrata missão de formar os futuros cidadãos que serão muito bem utilizados nesse mundo poluído, sem sustentabilidade e sem respeito às diferenças.

Vale observar que a Constituição Federal, que evoluiu em certa medida com o tempo, distingue educação familiar da educação escolar, do ensino, atribuindo a este último o papel principal de preparar o educando para o exercício da cidadania. Isso significa, por exemplo, que se a família decide educar a criança para torná-la fiel a uma determinada crença, o mesmo não pode ser exigido da educação pública, laica, cujo escopo jurídico-político não se subordina a valores. Ao professor, segundo nossa Constituição, cabe a liberdade de ensinar, pesquisar e divulgar o pensamento, a arte e o saber.

Não estou dizendo que a família não tenha um papel fundamental na sociedade. Mas, os responsáveis pela criança não têm e nem devem ter direito absoluto sobre seus filhos. A educação moral não pode (e nem deve) ser exclusiva da família. Toda pessoa tem direito a se apropriar da cultura e a observar o mundo de forma crítica. A educação escolar é uma atribuição do Estado brasileiro. E o cidadão brasileiro tem o direito de aprender sobre o evolucionismo de Darwin, a origem do pensamento científico, a luta pela abolição da escravatura, a origem das desigualdades sociais e por aí vai. Oras… as pesquisas sérias em Educação e sobre novas metodologias (que já estão sendo usadas em escolas pelo mundo), mostram que na escola podemos e devemos preparar um cidadão que pense, discuta e critique e não somente um ser que obedeça de forma cega uma determinada ordem.

Se os responsáveis hoje preferem que seus filhos frequentem escolas orientadas por valores idênticos aos de suas famílias, têm a opção de matriculá-los em escolas confessionais, privadas, instituídas pela Constituição Federal exatamente para atender ao tipo de demanda prevista. Mas nas escolas públicas, mantidas com impostos pagos por todos os brasileiros, a prioridade deve ser a formação do cidadão – não do escravo obediente e acrítico – e nela devem prevalecer a tolerância e a cultura de respeito recíproco e de convivência harmoniosa entre todas as opiniões, ideologias, crenças e religiões.

Hoje, em muitas escolas, diferente de um passado remoto, debatemos sobre a cultura eurocêntrica, o consumismo moderno, a urbanização do mundo, a atuação das empresas multinacionais, a corrida desenvolvimentista, a sustentabilidade e a história contada por pensadores brancos entre outros assuntos marcados pela hegemonia do saber. Questionamos por quê as mulheres são tão agredidas, os negros assassinados, a indignação ser seletiva, debatemos sobre o sucesso ser baseado unicamente na ascensão econômica, enfim, falamos sobre vários temas conectados a natureza da perversidade das relações.

Discutir as desigualdades sociais, o feminismo, a discriminação sexual, entre outros assuntos tem feito os futuros cidadãos pensar e isso tem sido considerado como uma ameaça. Bolsonaros e seus seguidores, por outro lado, cultuam suas verdades e por isso, esse projeto de militarização busca silenciar e amordaçar professores fazendo com que escola volte a ser um espaço de conformismo social, cultural e intelectual.

Não tem como não citar Paulo Freire numa hora dessas: “Seria uma atitude ingênua esperar que as classes dominantes desenvolvessem uma forma de educação que proporcionasse às classes dominadas perceber as injustiças sociais de maneira crítica”. Por isso, a pressa desses conservadores em militarizar nossas escolas públicas. Lembrando que a resistência a isso não deve ser somente de nós, professores e professoras, e sim de todas as pessoas que não querem uma sociedade plena de amebas ambulantes e rindo quando chicoteadas.

Avançamos muito nesse debate e já é certo que a instalação do temor para o cumprimento e a aceitação de regras em detrimento do processo verdadeiramente educativo não resolve o problema da violência em nossa sociedade cuja raiz está na desigualdade social.

A militarização das escolas públicas está inserida nessa mal iniciada discussão. Convivemos com concepções completamente divergentes em nosso país em termos de concepção educacional. Temos, por um lado, as concepções tradicionais que são aquelas baseadas na formação dos educandos para corresponderem às expectativas do mercado de trabalho ou de uma conduta social considerada única e como padrão, e, do outro lado, concepções críticas que priorizam a reflexão crítica sobre o mundo em que vivemos e nossas opções, tendo a construção da autonomia como objetivo pedagógico.

A adoção de modelos empresariais, focados em avaliações e premiação de resultados em que os estudantes são treinados para fazer testes (e não para pensar ou desenvolver a inteligência) gerou o mundo em que vivemos hoje. Parece bom para você? Insistir nesse erro para quê?

Sobre Venezuela, PT, Gleisi e eu com tudo isso.

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Ser filiada ao PT não é para os fracos, pois somos cobrados não somente pelos nossos erros – inerentes a qualquer pessoa que tente acertar e faça alguma coisa – como também para dar explicação sobre tudo o que acontece nesse Brasil.

Temos que ser onipresentes nas redes e oniscientes em leis, em história, em geografia, em economia e até em genética para conversar com simpatizantes de Damares. Se deixarmos de falar sobre algo, somos acusados rapidamente de estarmos fugindo ao debate.

Não comentei a ida da Gleisi à Venezuela para a posse de Maduro de forma imediata porque simplesmente não podia me balizar para emitir opinião em cima do que a grande mídia mostra. O fato de ter sido candidata ano passado me deixou claro isso (testemunhava uma coisa acontecer na minha frente e via outra completamente diferente ser noticiada). Tampouco quando conversei com venezuelanos de forma particular me senti preparada para explanar sobre o assunto. Cada um falou uma coisa.

Imagina alguém de fora querendo entender o que ocorre com o Brasil entrevistando duas pessoas: uma que apoia Bolsonaro e outra, como eu, radicalmente contra tudo o que ele tem feito. Cada pessoa diria uma coisa. Ambas vivendo no mesmo país, vendo as mesmas medidas sendo tomadas e, ainda assim, contariam uma história completamente divergente. Dessa forma aconteceu comigo quando conversei com quem mora na Venezuela.

Daí, a gente faz como? No meu caso, saí catando artigos e livros que se complementassem de uma certa forma. Isso levou um certo tempo.

Tentei resumir o máximo que entendi. Não coloquei números para não deixar o texto muito pesado, mas eles são de fácil acesso. Ao final, vou colocar o que penso sobre a ida da Gleisi à posse de Maduro em cima da minha vivência no partido.

Para começar, precisamos todos ter consciência de que:

– a Venezuela está sentada na maior reserva provada de petróleo do mundo;

– os EUA são os maiores consumidores de óleo do planeta e

– a distância entre EUA e Venezuela é bem menor do que entre EUA e o Oriente Médio. Medida em tempo, a diferença dessa distância é em torno de 30 dias de navio.

A exploração não começou agora e sim desde o início do século passado, quando a exportação de petróleo se dava principalmente para o mercado norte-americano. EUA e Venezuela viviam como um casal recém-casado com o marido se metendo na vida da esposa e controlando cada passo.

A Venezuela chegou a ser a maior exportadora de petróleo do mundo. Mas como ‘crescimento econômico’ e ‘diminuição de desigualdade social’ não são sinônimos, a pobreza crescia a olhos vistos e o controle do maridão seguia firme e forte com a esposa cada vez mais dependente do macho opressor. Sequer ela podia conversar com outros países sobre políticas econômicas.

Como todo controlador precisa manter as rédeas e garantir seu poder, articulado pelo próprio EUA, foi criado o Pacto de Punto Fijo, pelo qual os partidos tradicionais e conservadores alternavam-se no poder impedindo a entrada de novos partidos. Isso foi em meados do século passado.

Saía um partido conservador e entrava outro nessa “democracia”. O voto era facultativo e era como se tivéssemos zonas eleitorais somente no sul e sudeste do Brasil. Grande parte da população pobre não votava e prefeitos e governadores eram nomeados pelo presidente. Temos registros de vários jornalistas que se manifestaram contra tudo isso que foram presos nessa época.

O casamento, com todo esse controle, seguia estável com outras medidas sendo tomadas para garantir essa firmeza (leiam sobre a Doutrina Betancourt). Lembrem-se que “casamento estável” não é sinônimo de um “casal feliz”. Neste caso, a esposa seguia cada vez mais isolada diplomaticamente sem poder conversar com outros partidos e até mesmo com seus vizinhos (que na época viviam sob uma ditadura) como o Brasil.

Lá no final do século passado, havia muito petróleo a tal ponto de mexer com o preço dessa commodity diminuindo-o consideravelmente no mercado internacional. Outros fatores como crises e pobreza interna fizeram com que a Venezuela buscasse saídas e fosse timidamente conversar com outros países. Lentamente, a Venezuela começou a inserida em outros cenários e relações.

Pobreza é forma de falar bem genérica. Parecia que o negócio lá era muita miséria mesmo. Um pouco menos da metade vivia na pobreza extrema mesmo com a Venezuela tendo a maior reserva de óleo do mundo. Um a cada cinco venezuelanos passava fome. Saúde e educação iam na mesma esteira. Os números são horrorosos. A mortalidade infantil era quase o dobro da brasileira de hoje.

No final do século passado, com o país nesse caos e nessa miséria, começaram as manifestações populares duramente reprimidas pela força local. Gente a beça morreu e universidades foram fechadas. Gente pobre vale observar. Mil. Dois mil. Três mil.

Uma coisa estava clara. O casamento EUA-Venezuela havia chegado no limite e o divórcio era iminente. Nesse contexto, surgiu Hugo Chávez como um salvador. Ele mandou às favas a política de relação única com os EUA, modificou várias estruturas e conseguiu melhorar os índices de pobreza. A quantidade de gente que passou a comer melhor foi alarmante. Chávez implementou várias políticas sociais que beneficiaram o povo mais pobre e os idosos. Além disso, conseguiu diminuir a mortalidade infantil e aumentar o número de hospitais. As universidades estavam cheias de gente estudando e a Venezuela chegou a ser o quinto país com maior proporção de estudantes universitários no mundo. Para se ter uma ideia, a Venezuela, nessa época, teve o maior programa de habitação popular da América Latina.

O país do petróleo entrou para a Mercosul e rompeu com aquela vida de esposa dependente passando a investir em outras relações bilaterais como a que teve com o Brasil, na qual saímos, economicamente falando, beneficiados (pois ela comprava muita coisa nossa e facilitava para que também comprássemos dela).

Uma nova fase, literalmente, havia chegado.

A Venezuela se aproximou de vários países e ainda se colocou de forma categórica contra políticas impostas pelos EUA. Começou a vender petróleo pelo preço que quisesse para quem ela quisesse, digamos assim. Teve muito pobre deixando de ser pobre nesse contexto. Muita gente que era invisível foi empoderada e mobilizada politicamente naquela conjuntura.

O macho aceitou? Claro que não. Voltou para matar a ex-esposa que não queria mais ser exclusivamente dele. Chávez quase foi executado no início deste século, como alguns devem lembrar. Os conservadores jamais aceitam perder. Foi um quiprocó dos diabos. Golpe e mais golpe de todos os lados. Teve até estatal de petróleo parando de funcionar, o que fez com que a inflação disparasse, o desemprego aumentasse e faltou até gasolina no país com a maior reserva de petróleo do mundo.

Macho embuste quando perde poder prefere ter a mulher toda quebrada e cheia de hematomas ao lado dele do que ver a ex de salto alto desfilando por aí.

Ainda assim, no meio dessa confusão, tinha eleições e a imprensa era livre, vale observar.

Chávez morreu em 2013. Isso deu esperança para a oposição que, óbvio, queria voltar ao poder. O que aconteceu? Maduro venceu as eleições quase na mesma emoção que vimos com Dilma e Aécio. Disputa acirradíssima.

A oposição não aceitou a derrota e foi para as ruas de forma violenta. Era fogo aqui, fogo lá. Bomba pra cá, bomba acolá…

Vou fazer uma pergunta: quem tinha interesse em noticiar essa bagunça nas ruas para dar a narrativa que lhes favorecesse e contar para o mundo inteiro sua versão? Dou um bombom para quem acertar.

Parabéns. É seu.

Quase cinquenta pessoas morreram, a maioria chavistas ou pessoas sem afiliação política, e equipamentos públicos foram destruídos. Temos indícios fortes para acreditar que há uma conexão entre a extrema direita da Venezuela com grupos de extermínio de outros países que apostam sistematicamente na violência como arma política preferencial.

Chávez foi perfeito? Claro que não. Muito menos santo. Isso é fato. Ele não conseguiu fazer, por exemplo, com que a economia venezuelana se livrasse da dependência das exportações do petróleo e melhorar de forma eficiente a agricultura e indústria da Venezuela. Assim, o gasto público dependia principalmente da renda petroleira. Com a grande queda dos preços, de novo, dessa commodity a partir de 2012, a economia da Venezuela passou a enfrentar grandes dificuldades.

Pior do que tudo isso é haver uma guerra econômica contra a Venezuela que se utiliza do desabastecimento programado de bens essenciais, produzido pela especulação cambial e pelo boicote político. Não é simples explicar a falta de alimentos e remédios baseados em números. Precisamos conectar mais dados e correr atrás de informações.

Veja bem, os números mostram que de 2004 para 2014 houve um aumento de mais de 200% na importação de alimentos e de mais de 300% na importação de remédios. Um dos motivos da escassez de alimentos é que muitos são contrabandeados para o exterior, principalmente para a Colômbia, onde são vendidos com muito lucro. Outra parte é vendida no mercado interno, mas a preços excessivos, gerando inflação. Outro fato a considerar é que os depósitos em dólares de empresas venezuelanas no exterior cresceram quase 250% em apenas cinco anos. Ou seja, dinheiro para a importação há. O ponto é porque não estava sendo usado ali dentro e sim sendo desviado, pelo que tudo indica.

Além disso, o acesso ao crédito no mercado internacional está restrito e podemos dizer que a Venezuela sofre, desde 2013, com uma espécie de bloqueio financeiro não oficial.

Essa guerra econômica vem ajudando a radicalizar ainda mais o processo político na Venezuela. A violência se generalizou para ambos os lados e teve até gente que foi queimada viva.

Não há mais diálogo entre o Poder Executivo e a Asamblea Nacional. Assim sendo, a Venezuela agora está com uma guerra civil iminente. Por isso foi lançada a alternativa de uma Assembleia Constituinte há pouco, que criou uma oportunidade para que se estabelecesse um diálogo que superasse o atual impasse político e institucional.

A oportunidade não foi aproveitada pela “oposição democrática”, que a boicotou.

Sabemos o quanto se fala em Venezuela aqui no Brasil. Temer, por exemplo, fez da suspensão da Venezuela do Mercosul a sua diretriz principal em política externa, atuando como braço auxiliar dos EUA no subcontinente. Isso todos testemunhamos. O empenho do Brasil contra a Venezuela por Temer foi de tal ordem que a suspendeu duas vezes do Mercosul. Esse esforço do governo Temer para a desestabilização da Venezuela ganhou corpo, agora, com o governo Bolsonaro que quer se somar a um acirramento do bloqueio econômico contra a Venezuela e, possivelmente, a uma intervenção militar naquele país.

As dificuldades que o povo da Venezuela passa foram, segundo minhas leituras, agravadas pelas sanções e bloqueios econômicos impostos pelos EUA e seus aliados. A Venezuela é muito dependente de importações e há países como a Colômbia se recusando a vender até remédio. Como o povo vai parar de sofrer?

Qual a primeira coisa que foi pensada pela oposição depois que Maduro foi reeleito? Negar o reconhecimento de sua vitória, mesmo sabendo que ela foi acompanhada por centenas de observadores internacionais, que não a contestaram. Bolsonaro, sob essa ótica que lhes aponto, tem sido um facilitador para que os EUA invadam a Venezuela “para salvar os venezuelanos de Maduro”.

Quem sofre? Quem perde? Sempre ele: o povo mais pobre.

Isso posto, agora posso opinar. O que dona Gleisi foi fazer lá no meio dessa confusão dos diabos?

Antes de tudo, Gleisi foi ser coerente com os princípios do partido e com essa narrativa que lhes apresentei balizada por outras fontes que não incluem somente a mídia tradicional.

Vimos que há um movimento coordenado de intervenção sobre a Venezuela, patrocinado pelo governo dos Estados Unidos e por governos de direita na América Latina. Sabemos que nosso presidente bate continência, literalmente, para a bandeira americana.

O voto na Venezuela continua ser facultativo e Maduro foi eleito com quase 70% dos votos, numa eleição que teve três candidatos de oposição concorrendo e, como já dito, assistida e considerada legal internacionalmente.

Preciso de novo retomar o que já disse no início e, se possível, peço para que olhem no mapa a distância entre a Venezuela, detentora das maiores reservas de petróleo do planeta, e os EUA e entre os EUA e o Oriente Médio.

Será que há algum interesse de Bolsonaro, que até agora não apresentou uma proposta para diminuir a desigualdade social no nosso país, em ajudar o povo venezuelano?! Ou será que Bolsonaro está apoiando os Estados Unidos e quer avançar sobre essa reserva estratégica?  O governo de Maduro desestabilizado iria beneficiar a quem?

Se estivessem mesmo preocupados com mortes, com direitos humanos desrespeitados e com o povo sofrendo, por que não se importam com outros países também e só com a Venezuela? Qual o motivo de tanto foco?

O mesmo Bolsonaro que diz se preocupar com o povo da Venezuela a ponto de justificar uma invasão para “salvá-la” é o que acaba de assinar um decreto que permite a posse de armas como solução para diminuir a violência no Brasil. Quem acredita nesse discurso à luz dos lucros gigantescos das indústrias armamentistas?

Bem lembrado pela própria Gleisi, quando o ex-presidente George W. Bush quis comprometer o Brasil na guerra contra o Iraque, o ex-presidente Lula reagiu com altivez: “Nossa guerra é contra a fome”.

Não é preciso estar de acordo com Nicolás Maduro e com os processos institucionais venezuelanos para entender a necessidade da presidenta do maior partido de esquerda da América Latina ter estado presente nessa posse que, vale lembrar, contou com o prestígio de delegações de 94 países e organizações internacionais, enquanto Bolsonaro reuniu apenas 46 delegações estrangeiras em sua posse.

No mais, o PT sempre esteve presente em vários países em que os direitos do povo foram ameaçados, por interesses das elites e dos interesses econômicos externos. Pela sua essência, o partido que escolhi me filiar sempre foi solidário aos que mais precisam de apoio, e os governos liderados pelo PT sempre foram protagonistas de mediações para buscar soluções pacíficas. O partido sempre se pautou pelo respeito à autonomia e à soberania de todas as nações.

A não presença do PT na posse de Maduro significaria, sem dar margem para qualquer outra explicação, que nós também concordamos com a política intervencionista incentivada pelos Estados Unidos e com a adesão do atual governo brasileiro e outros governos reacionários.

Para além disso, Gleisi não foi representando o Brasil e sim o PT, mostrando para o mundo que o governo Bolsonaro contra a Venezuela tem forte oposição no Brasil.

No que pese a complexidade do assunto e o reconhecimento de que há infinitas formas de interpretar o mesmo fato, fica aqui minha modesta colaboração sobre esse histórico episódio e reafirmo o orgulho de fazer parte desse partido que tanto luta pelo povo.


Referências:

A Venezuela que se inventa: poder, petróleo e intriga nos tempos de Chávez, Gilberto Maringoni

Hugo Chávez sem uniforme: uma história pessoal, Alberto Barrera Tyszka e Cristina Marcano

Ensaios sobre a Venezuela: subdesenvolvimento com abundância de divisas, Celso Furtado

https://www.viomundo.com.br/politica/marcelo-zero-para-entender-a-venezuela-e-preciso-saber-como-era-antes-da-revolucao-bolivariana.html

Dragon in the Tropics: Hugo Chávez and the political economy of revolution in Venezuela, Javier Corrales e Michael Penfold

O Poder e o Delírio, Enrique Krauze

Foi assim. Desse jeito.

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Foi aos poucos. Uma coisa assim não acontece de uma hora para outra.

Eu andava de salto alto e roupa justa. Juro. Sempre passei um lápis pelo menos no olho para sair de casa. Unhas pintadas de segunda a segunda. Era dessas.

Até que um dia eu resolvi sair de tênis. Ficou bonitinho com um vestidinho florido e consegui dar passadas largas e saltitar quando ficava feliz na rua. Gostei da experiência.

Daí resolvi colocar uma calça jeans (no lugar da saia) e tênis. Não ficou, a la dialeto da Damares, muito feminino. Mas vá lá. A blusinha apertadinha e com um decote suave dava uma equilibrada.

Aí vi umas calças estampadas vendendo numa feirinha com um tecido leve como a consciência de quem votou em Bolsonaro e ainda não entendeu o que tá conteseno. Coisa da índia feita em Madureira. Maravilha, gente. Nem sinto que estou vestida. Com tênis largo então ficou ó. Maravilha.

Daí que o sutiã começou a incomodar também. Passei a usar esses tops de ginástica com um tamanho acima do meu. Perfeito perfeito perfeito. Amei as muchiba balançando.

A M E I.

Mas marcava as brusinha justa.

O jeito foi usar camisas largas também.

Volto a dizer que esse processo levou anos. Portanto, não sejam rápidos no julgamento.

Até que chegou o dia em que parece que passei um pouco do limite de andar pelas ruas confortável e não avisei aos responsáveis para preparar as crianças do Brasil para essa fase que alcancei.

(Tênis para quê se temos chinelos?)

Hoje, na fila do embarque aqui voltando de São Luís do Maranhão para o Rio, uma menininha de uns seis aninhos apontou para mim e falou gritando para a mãe e mais para quem quisesse ver:

– Mãe! Olha a moça de pijama!

Ah gente…

Sororidade que chama.

sororidade

Eu e Pipo fomos à farmácia e tudo aconteceu em questão de segundos.

Pedi o remédio para a farmacêutica no balcão. Um pouco atrás dela havia uma outra moça e um rapaz que estavam conversando.

A farmacêutica pediu para eu preencher a receita com meus dados.

Foi quando estava colocando minha identidade concentrada que ouvi sem querer a moça falando para o rapaz:

-Se tá morando com a namorada é como se estivesse casado sim! Não tem diferença!

Juro que não estava prestando atenção. Juro. Além de ser deficiente auditiva estava concentrada para não errar os números, mas a frase invadiu meus tímpanos. Frase forte e verdadeira, vale observar.

-Ouviu né, Pipo? Ouviu bem o que ela disse?, cutuquei a peça.

Pipo imediatamente com a fofura e a meiguice que lhe é peculiar respondeu:

– Eu não sou de ficar pescoçando a conversa dos outros não, tá entendendo? Ouvi nada!

Continuei preenchendo o papel concentrada.

-Posso falar uma coisa para a senhora?, perguntou a farmacêutica e já emendou sem que eu respondesse:

-Ele ouviu sim!, e olhou para mim forte.

-Mas o quêêêê. Eeeeeuuuu? Euuuu ouvi?! Mas de que lado você está?, disse Pipo com a mão no peito como se estivesse no palco interpretando Hamlet.

-Da mulher sempre!, gritou a outra lá de trás.

O rapaz era o caixa. Pegou meu dinheiro com cara de assustado com o que aconteceu ali.

Menos de um minuto, galera. Em menos de um minuto elas deram um jab, um direto e um cruzado. Impressionante, manas.

Eu não as conhecia. Elas não me conheciam. Sequer imaginavam que estou feliz ao lado do ser humano mais fantástico que já conheci. Sei que foram rápidas e atentas.

Sororidade que chama.

A revolução feminista é uma realidade até mesmo dentro das farmácias do Brasil.

Amém.

15 anos do Bolsa Família. Justiça acima de tudo. Deus ao lado de todos.

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Hoje temos uma efeméride: 15 anos do Bolsa Família. O que é o benefício e que ele tirou o Brasil do mapa da fome já é sabido. Gostaria de trazer algumas reflexões do porquê tanta gente falar mal de algo que é elogiado pela ONU e pelo Banco Mundial: o maior programa de transferência de renda do mundo que ajudou não só na redução da pobreza, mas também na melhoria de indicadores de desenvolvimento humano.

Há uma certa aceitação sobre a importância no impacto positivo do Bolsa Família especialmente na saúde e na educação, pois temos dados que o comprovam. Mas, infelizmente, há uma parcela da sociedade e projetos políticos que conflitam com essa perspectiva e tem disseminado preconceito, ódio e criminalizam as famílias beneficiárias do Bolsa Família. É sobre esse sentimento que gostaria de me estender.

É regra na história da humanidade que grupos dominantes impõem sua concepção de mundo e aniquila o sofrimento dos pobres de forma a desumanizar sua dor. Interessante o fato de quase nenhum rico se sentir culpado pelo sofrimento dos menos abastados. Pior do que isso, há muitas pessoas que têm o que comer, carro do ano para dirigir, casa própria e outras preciosidades que responsabilizam o pobre pela sua condição. Esses seres, não raro, consideram os pobres burros, preguiçosos, promíscuos, pois – dizem os ricos que os pobres – não sabem usar o dinheiro e gastam o pouco que tem não para investir e sim “para comprar cachaça”, usam o tempo livre para “fazer filho” e que pobre tem “sexualidade precoce”.

Quando um rico aponta comportamentos como os ditos no parágrafo anterior, ele aponta uma irracionalidade no pobre e a condena como uma coisa natural. A sua própria irracionalidade não é questionada nesse processo.

Valioso observar que o fenômeno de pobreza é gerado pela falta de reflexão e humanidade da classe dominante que sempre acha que o seu comportamento é o correto. Até mesmo uma orgia regada a drogas numa cobertura de Ipanema pode ser considerada algo aceitável e quiçá um exemplo a ser seguido. Certamente termos como “liberdade” ou “experiências alternativas” aparecerão para justificar o evento.

Leis econômicas são consideradas naturais da mesma forma que o sofrimento social. Tudo se passa como se o ser humano não fosse responsável pela sua história ou como se a história existisse mesmo sem ter quem a narre, escreva ou dirija.

É claro que nem todo sofrimento humano é culpa da falta de bens materiais ou causado pela má distribuição deles. Porém, há muitas dores que estão enraizadas na nossa estrutura social. Não sou eu quem as provoca nem você individualmente, mas as instituições como a escravidão, por exemplo, podem sim ser as grandes culpadas.

Tudo é uma construção cultural. Isso que é difícil enxergar já que vemos o mundo com os óculos impostos a nós pela sociedade em que vivemos. A ideia, por exemplo, de trabalho estar associado à moral, que precisamos trabalhar muito para ter direito ao lazer, esse medo de ser improdutivo e a vergonha de ser “inútil para a sociedade”, enfim, tudo isso não foi dado no mundo e sim construído no século 19.

Vejam que curioso: a nossa cultura que não considera parasita o cidadão rico que vive de renda financeira, a nossa cultura que considera justo conceder isenção, incentivos fiscais e perdão da dívida com os bancos públicos aos grandes empresários é a mesma cultura que chama de vagabundo quem recebe o Bolsa Família.

O sistema é tão cruel que ricos fazem até mesmo com que os próprios pobres sintam vergonha de sua pobreza, pois a consideram como resultado de um fracasso pessoal e não de um arranjo socioeconômico.

Tenho usado aqui o termo “pobre”, mas é necessário que se esclareça que a pobreza tratada no texto não se refere somente a privação de dinheiro mas também privação de capacidades e o não desenvolvimento de diversos tipos de competências – o que faz do pobre (no sentido comum) um ser pobre também no nível imaterial.

Nessa esteira, pior do que o homem pobre é a mulher pobre que foi ensinada a ser muda, pois a sujeição feminina é muito mais cruel e complexa do que a sujeição de classes.

É dever das instituições próprias de nossa sociedade e de cada um de nós vetar a discriminação, a opressão e a exploração e criar condições para que todas as pessoas participem em pé de igualdade da educação e da cultura.

Em um lugar onde a democracia funcionasse, seria também obrigação de todo ser humano apoiar qualquer medida e política pública que contribuísse para a diminuição da desigualdade e reparasse injustiças históricas.

Nesse sentido, por tudo que já vi acontecendo nesse país, não houve medida mais eficaz e que representasse com mais propriedade essa reparação histórica do que o Bolsa Família.

Para finalizar, gostaria de dizer que lá pelos idos de 1950 os índices de crescimento econômico do Brasil estiveram entre os maiores do mundo. No entanto, nessa mesma época, vimos um aumento gigantesco da desigualdade social e da exploração. Em outras palavras, um país crescer economicamente não quer dizer um aumento generalizado nos padrões de vida.

Jamais evoluiremos como sociedade se um programa público que visa diminuir a pobreza – como o Bolsa Família – for considerado como paternalista.

A falta de capacidade de se colocar no lugar do outro nos trouxe a essa tirania ética na qual pessoas se recusam a apoiar políticas de justiça distributiva e de transferência de renda que deveriam ser consideradas por todos como uma política de urgência moral.

Foram 15 anos do Bolsa Família. Milhões de famílias beneficiadas e uma queda considerável na mortalidade infantil.

Seu futuro a nós pertence.

Justiça acima de tudo. Deus ao lado de todos.