Que venham os tombos

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Não estava dando conta desse turbilhão de sentimentos que me persegue e me assusta. Acreditava que ao menos a mim mesma conhecia. Ledo engano.

Se colocados em situações distintas, ficaremos surpresos com o que conseguimos ou não fazer. É impressionante a nossa ignorância sobre o universo formado pelo nosso corpo.

Quem acredita que entende bem sobre si é aquele que vive todos os dias iguais. Aí não há mesmo como se testar e há muito para se iludir. Seja em um assalto, seja ao ter que lidar com a morte de um ente querido, com uma separação, ao conhecer um ídolo, diante de um novo amor não há como não ficarmos surpresos com a nossa força ou as nossas fraquezas.

Padeci essa semana. O corpo não deu conta de tanta adrenalina. Tive que lidar com o nascimento de um novo filho (Tenso, logo escrito), com a chegada da mesa redonda que dividi com dois gigantes da educação (Rafael Parente e Thiago Berto), fora a coordenação de física do cefet, meus estudos de novas metodologias para aplicar em minhas aulas e a responsabilidade com meus três filhos. Como se tudo isso não fosse o bastante, eu estava assustada com o que me vi prestes a fazer diante de uma grande saudade. Não estava sabendo frear os meus impulsos.

Foi muito para mim. O corpo reclamou.

A despeito de três horas de pilates que fiz essa semana mais dez quilômetros devidamente corridos, da minha excelente alimentação e as inúmeras tentativas de meditação, arrumei um torcicolo que assusta os que mexem no meu pescoço. Lateja. Virou pedra meu músculo. Não há massagem, analgésico, reza que dê conta.

Preciso parar de pensar, pensei.

Preciso parar de escrever, escrevi.

Preciso parar de inventar, criei.

Preciso parar de amar, chorei.

Dá a impressão que há, de fato, Alguém lá em cima fazendo algo mesmo sem eu pedir.

No meio da semana, recebi um convite para aprender a andar de skate. Era nada menos do que um puta profissional do ramo me estendendo a mão sem saber que eu, naquele momento, estava precisando de um guindaste para me tirar do poço.

Hoje foi minha primeira aula. Chegamos lá eu e meu pescoço com essa textura de chumbo. Em poucos minutos, Alex, o teacher, ficou sabendo de todos os meus problemas já que eu sou dessas de contar tudo que me aflige para quem quiser ouvir. Após escutar detalhes sobre minha vida com atenção e tentar me relaxar com uma massagem na qual detectou que eu era um caso grave e só um especialista na causa, começamos a aula.

Primeiro, precisava trabalhar o meu equilíbrio. Fiquei apoiada em um pé com o corpo inclinado durante muito tempo. Era só uma questão de concentração. Nada mais do que isso. Mole.

Depois de muito exercício no chão, fomos para a plataforma móvel. Sentei-me para colocar todo o equipamento de segurança.  Alex colocou o capacete para proteger minha cabeça, cotoveleira para não machucar meus cotovelos e joelheiras para poupar meus joelhos.

– Pronto. Disse ele.

– E no meu coração? Nada? E se eu me estabacar toda? O que vai me proteger? Preciso de algo, por favor. Tem nada aí para ele não? perguntei desesperada.

Alex apenas estendeu, agora literalmente, sua mão para eu me levantar.

Antes de qualquer coisa, aprendi a cair. Joguei-me no chão de propósito de formas diferentes.

– Sobe agora no skate. Lembra de tudo o que acabou de aprender. Coloque o peso no pé direito. O pé esquerdo tem que encostar todo no chão. Quando um subir, o outro vira sem que você o desencoste. Os dois pés têm que fazer 90 graus com o skate. Solte os ombros. Eles precisam se movimentar para te ajudar. Relaxe o corpo. Flexione os joelhos. A força tem que estar no seu dedão. Se for cair, aquilo que você aprendeu. Jogue o corpo para a frente. Proteja o cóccix. Levante o braço esquerdo inicialmente para te ajudar no equilíbrio. Vai. Comece assim…

Precisei me concentrar muito para não me esquecer de nada.

Incrivelmente, saí de lá depois que cansei de tanto brincar. Surpreendi positivamente o professor que não parou de me elogiar e dizer que, em breve, farei passinhos de dança no longboard.

Nunca na vida pensei que fosse me equilibrar com tanta facilidade em um skate. Sempre achei que essa brincadeira era algo que ou se aprende quando criança ou quando criança. Depois que crescemos e acumulamos traumas e medos, certas aventuras nos são vetadas. Assim acreditava.

Meu centro de massa não saiu da base em nenhum momento. Todos os comandos que eu mandava da minha cabeça, meu corpo respondia. Concentração máxima. Preciso desviar do buraco, pés, me ajudem. Olhe para a frente. Volte. Jogue o corpo para trás para fazer a curva. Isso.

Estava muito insegura, é claro, mas conseguia manter o equilíbrio ainda que bem instável. E mesmo sabendo que quanto maior a velocidade, pior seria o tombo, não resisti. Mal consegui ficar em pé no skate, só queria saber de dar mais impulsos e assim o fiz. Se caísse e quebrasse um osso, estava valendo a pena dado o prazer que estava sentindo.

Não adianta. A dor está iminente no deleite. Não há grandes felicidades sem perigos na mesma proporção. O maior risco, concluí depois da aula de hoje, não é aquele que não posso correr e sim o que não posso deixar de correr.

Cá estou depois desse aprendizado. Animada com o medo de me machucar.

Feliz por ser tão desequilibrada.

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Mãe, pinta minhas unhas de vermelho?

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Yuki , meu caçula de dez anos, anteontem estava me rondando pela casa:

– Mãe, pinta as minhas unhas da minha mão direita de vermelho?

– Vamos lá. – disse prontamente.

Peguei meu esmalte e fiz o serviço pedido. Mas queria pintar as unhas da outra mão também por costume meu.

– Não, mãe. Só quero uma mão mesmo.

– Está se sentindo bem assim?

– Ótimo, mãe. Obrigado.

– Vai para a escola assim amanhã?

– Vou.

– Então se prepara porque o mundo é um moinho. Seus amigos e até professores podem questionar essas unhas, te chamar de viado, bichinha, essas coisas que não deveriam ser xingamento mas as pessoas insistem em tentar ofender com elas.

– Tô ligado. Pode deixar.

Ontem. Assim que peguei Yuki na escola, perguntei:

– E então. Como foi hoje você e suas unhas?

– Mãe, foi muuuuuito pior do que você falou e eu imaginei. – disse ele com o semblante assustado – As pessoas estavam querendo mesmo que eu me envergonhasse das unhas. Viado foi pouco. Os garotos me chamaram de tudo o que você possa imaginar e tentaram me ofender de todas as formas.

– Você falou o quê?

– Eu não disse nada. Não estou nem aí. Isso aqui não tem nada a ver com a minha sexualidade. Teve muita gente querendo saber se eu era gay e eu nem sabia o que responder porque não sei mesmo o que vou ser. Mas o que me deixou assustado foi a curiosidade das pessoas e a importância que elas dão para isso. Você é minha mãe! Não me perguntou uma única vez por que eu queria pintar minhas unhas de vermelho! Por que outras querem saber se sou gay ou não?!

– Mas você sabia que chamaria a atenção. Se não quisesse, não pintaria as unhas. Por isso te avisei.

– Mãe, é claro que queria. Acho super estiloso isso. Vi em um YouTuber que sou fã. O (esqueci o nome do cara) faz vídeos irados! E ele pinta uma mão só de vermelho. Foi uma homenagem a ele.

– E ele é gay?

– Até você, mãe? O que isso importa! Sei lá. Sei que é maneiro e quis fazer igual. Tô me sentindo mega estiloso como ele.

– Entendi. Perguntei só para entender por que você o admira. Explicou para seus amigos?

– Eu não! Eles viram que não me importei e
passaram a encher o saco de outro.

Meodeos. Criei um monstro.

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Todos educam. A escola também.

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Se tem uma coisa que me tira do sério é ouvir professor dizendo “A família educa. A escola ensina.”

Primeiramente (fora, Temer), o que esse professor entende por “ensinar”?

Se for o ato de passar informações para que o aluno faça aquela prova que ele aplica há anos, saiba que suas aulas, professor, estão – em bem melhor qualidade – disponíveis em vários canais do Youtube. No mais, informação por informação temos hoje o que quisermos na web. Como, professor-que-não-educa-e-só-ensina, você justifica para o seu aluno a necessidade de assistir as suas aulas? Se não fossem obrigados, quantos estariam presentes?

Mas, se “ensinar” significar, a la Paulo Freire, criar as possibilidades para a produção ou a construção de um conhecimento, então, isso é Educar. E vale dizer que todos nós nos educamos diariamente. Somos educados quando vemos uma pessoa fazendo uma caridade, quando sentimos o valor de uma abraço, quando observamos uma criança dividindo a merenda com a outra, quando vemos uma inclusão social…, enfim, mediatizados pelo mundo, somos educados e educadores sempre.

O papel do professor, o sujeito que, por essência, trabalha com Educação, não pode ser somente em transmitir conteúdos, mas também – e principalmente – de ensinar a pensar, a refletir, a questionar, de estimular a curiosidade. E isso tem a ver com modificar um ser humano. Não falo aqui de colocar ou tirar valores religiosos nos alunos, mas de fazer com que o aluno pense sobre eles. E que maravilhoso ver um aluno sempre pensando a respeito de seja lá o que for, não é verdade?

Se quiser que a escola continue ensinando os valores religiosos da família, há escolas para isso, as particulares. As escolas públicas não devem ter isso como compromisso por ser laica.

E não vou cair aqui na hipocrisia de dizer que a escola é neutra. Ser laica é uma coisa, neutra é outra. Ou se educa para o silêncio, para a submissão, para a obediência cega ou se educa para entender como funciona essa grande máquina chamada mercado de trabalho. E ambas as formas de educar são políticas. A primeira forma cidadãos-zumbis que acreditam que o mundo é assim, nada mais pode ser feito e só lhes resta ser mais uma peça substituível nesse sistema. A outra…

Então, o ponto todo é explicitar o porquê e o para quê somente “ensinar”. Vocês, professores-que-tem-aversão-ao-ato-de-educar, trabalham para quem? A favor de quem? Vocês estabelecem uma relação dialógica com o saber, buscando uma sociedade democrática ou reproduzem a lógica do sistema no interior das escolas através de exclusões, de estímulo à individualidade e à competitividade?

Em que medida um professor que tenha opinião formada sobre os assuntos mais emergentes e que está disposto a dialogar com seus alunos, a problematizar qualquer saber pode ser acusado de um inculcador ideológico? Quando o professor nada discute com seu aluno, o que ele está lhe ensinando?

Reclamar que o mundo está ruim, que o ser humano está acabando com o planeta, se queixar de violência urbana e não mostrar, dentro de sala de aula (ou fora dela) sempre que possível, os diversos conflitos, pelo contrário, fingir que eles não existem é agir politicamente no sentido de contribuir de forma descarada para que o mecanismo de opressão continue.

Pergunto a esses que reproduzem a frase-mantra do projeto Escola sem Partido (“A família educa. A escola ensina“):

– A quem interessa você, professor, usar essa frase como guia de conduta?
– Por que não lhe encorajam a ser um verdadeiro educador?
– Você repete um modelo de aula. Por quem e para quê esse modelo foi criado?
– Quando os alunos te obedecem e assistem sua aula em silêncio, o que eles estão aprendendo com isso?
– Em que medida desobedecer é ruim?

Pensemos.

A desobediência como divergência é um ato mega transformador, pois só crescemos no embate. Ao ser capaz de dizer não às imposições do sistema, educandos, educandas e educadores reafirmam o seu eu.

Só não aceitamos as mazelas do mundo quando desenvolvemos uma consciência crítica que nos possibilita desobedecer – no sentido de poder provocar mudanças substanciais e não aceitar as injustiças apaticamente.

O que se espera de uma escola que separa os capazes dos incapazes, que não dá espaço ao mínimo questionamento e quando um estudante o faz é considerado como subversivo? Em que medida isso também não é uma atitude política?

Ou educa a favor dos privilégios ou contra eles, ou a favor das classes oprimidas ou contra elas. Ou para falar ou para ficar calado. Aquele que se diz neutro, que apenas “ensina” serve apenas aos interesses do mais forte. Não se iluda, portanto, prezado colega.

Ao professor que se recusa a ser uma marionete desse sistema e se nega a repetir frases ditadoras escritas no Projeto escola “sem partido”, cabe a tarefa árdua e instigante de criar condições para que uma educação democrática seja possível, no sentido de gerar um cidadão solidário, preocupado em superar o individualismo criado pela exploração do trabalho.

Essa tarefa de uma educação pelo coletivo não virá em forma de lei e nem precisa já que os nossos documentos oficiais nos dão total liberdade para isso. Uma escola que gera seres que sabem questionar e não apenas responder já está sendo pensada e trabalhada há anos por muitos educadores que se educam mutuamente e diariamente, vale frisar.

Não é sem motivo que surgiu o projeto “Escola com mordaça” que faz, dentre outras coisas, os professores (frutos desse sistema que não ensina a refletir sequer sobre nossa prática) repetirem a frase que faria Paulo Freire se remexer todo no túmulo: “A família educa. A escola ensina“.

Pelamor, gente.

Que tal outra: “Todos educam. A escola também.”?

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“Foi só uma piada.”

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Sou deficiente auditiva. Uso próteses há cinco anos, quer dizer, tenho próteses e uso quando é extremamente necessário. Meus alunos sabem disso e quando perguntam algo já impostam melhor a voz para que eu possa ouvir. Entrar em uma sala de aula com próteses é ter um helicóptero morando na cabeça. Quando todos falam, situação estimulada até em minhas aulas pelos debates que proponho, com meus ouvidos artificiais, entro em desespero.

Quem convive comigo já sabe que não adianta falar de costas, cochichando ou baixinho… preciso da leitura labial se estou sem as próteses. Não é necessário gritar. Aliás, quando gritam para que eu entenda, além de vergonha sinto uma tristeza profunda. Eu não tenho culpa em ter um problema degenerativo onde não há nada que se possa fazer para revertê-lo. Queria eu ter meus ouvidos naturais de volta porque as próteses passam longe de ter o mesmo efeito. Tudo fica microfonado e esquisito. E olha que as minhas são bem moderninhas.

Não é sem motivo que o deficiente auditivo é, de todos os deficientes, o que mais sofre de depressão. O convívio passa a ficar cada vez mais difícil porque ele irrita o interlocutor quando pede para repetir uma fala. Sabendo disso, ou finge que ouve ou se isola mesmo – o que é mais comum.

Piadas fazem parte do meu dia a dia. Até mesmo entre “amigos” já presenciei muita gente rindo de mim. Com esses, não convivo mais e não deve ser por outro motivo que tenho preferido ficar entre meus livros.

Pois então, ontem fui a um show de comédia. Comprei ingressos com meses de antecedência. Fã do grupo de carteirinha. Saí de Madureira para Copacabana num frio que deus me livre. Feliz por saber que ia rir e me distrair.

Mal o primeiro integrante do grupo entra no palco, piada sobre qual tema que ouço com as minhas próteses? De deficientes auditivos.

A plateia toda se esbaldou de dar risada. Eu olhava para os lados, para trás, para a frente sem acreditar que estavam rindo de algo que é o meu inferno e que causa a depressão e o isolamento de N pessoas. E não pensem que são somente os idosos. A deficiência auditiva é muito comum entre jovens também. Poucos são os que assumem por vergonha. Raros os que usam próteses porque é caro essa meleca.

Daí, pensei em escrever. Mas escrever o quê? Pedir para não fazerem mais piadas com deficientes só porque eu fui a única que fiquei arrasada naquela plateia lotada e quis sair correndo dali?

Fiquei, para variar, a refletir.

Piadas preconceituosas contra negros, mulheres, gays são engraçadas? Eu já ri de muitas delas. Hoje, não consigo. Me ofendo. Reclamo. Sou a chata integrante da patrulha do politicamente correto.

O que é ser engraçado e o que é ser um humorista, afinal? Por que piadas que diminuem o outro provocam o riso? Quem ri é cúmplice? O humorista apenas expressa os valores presentes na sociedade? O comediante deve dialogar necessariamente com o preconceito? Há formas de fazer isso chamando a plateia para refletir sobre o quanto o preconceito é nocivo e não reforçando estereótipos? E, se já sabendo de antemão que preconceitos e estereótipos estão presentes no perfil da plateia, falar o que a maioria quer ouvir isenta o humorista de responsabilidade social já que a graça está na cabeça de quem ri?

Não se trata de proibir nenhum tema. A questão é a forma que assume o discurso. O comediante não é neutro, ele precisa saber de que lado está. As piadas podem, inclusive, levar a pensar sobre as minorias, o racismo, o sexismo, as nossas deficiências… Ou não?

O humor pode ser usado para resgatar uma pessoa da dor ou da repressão ou só funciona se ofender?

Seria eu a patrulha e estou me esquecendo que há liberdade de expressão? Mas liberdade de expressão não significa eu poder reclamar de uma piada que considerei ofensiva? Ou liberdade de expressão significa ofender quem quiser e não poder ser criticado por isso?

Sou contra qualquer lei que regule o discurso e o pensamento. Mas entendo que liberdade de expressão dá a cada cidadão o direito de falar o que quiser, mas também o dever de responder por suas atitudes. E grazadeus que essa tal liberdade existe porque é através dela que identifico os verdadeiros idiotas em nossa sociedade.

Longe de ser o caso do grupo de comédia que fui ver ontem. Ao longo do espetáculo, outras piadas surgiram. Nada que se assemelhasse a malfadada sobre deficientes auditivos. Amém. Piadas muito mais criativas e inteligentes que em nada remetiam a nenhum tipo de preconceito, diga-se de passagem, foram o forte da noite. O saldo foi positivo.

Fico só me perguntando se pelo fato de eu ter sido a única a ter ficado arrasada quando ouvi a tal “piada” logo de início, tudo isso que falei pode ser enquadrado no famoso mimimi e devo aceitar o velho argumento: “foi só uma brincadeira”.

(Mas brincadeira não é quando todos se divertem? Se um se sente ofendido ainda assim é brincadeira? Não teria outro nome nesse caso?)

Ou… se eu falando o quanto sofri e o quanto são nocivas para mim essas piadas, isso pode ajudar a outras pessoas a refletirem sobre a graça de proposições que zombam de uma deficiência e, quem sabe, entender que falar em inclusão perpassa toda essa discussão.

Sei lá. Apenas pensando aqui…

 

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Vai dar tudo errado e mesmo assim você vai ser feliz.

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​Hoje eu dei uma palestra no Instituto Federal de Volta Redonda. Sem palavras para descrever o carinho que recebi ao final. Muita gente querendo me abraçar, tirar foto, compartilhar ideias e experiências. Eternamente grata pela oportunidade de troca, pela cumplicidade e por tanta atenção.

Mas a última pessoinha que veio falar comigo mexeu com algo aqui dentro porque me fez ficar mega zen após me fazer pensar em tudo que deu errado na minha vida.

Explico.

Depois de eu ter falado durante mais de uma hora sobre o que ando aprontando em sala de aula e penso de todo o nosso sistema tradicional de ensino e ter contado a minha trajetória acadêmica que acabou me dando esse currículo doido com graduação em física, mestrado em História e Doutorado em Filosofia mais a minha carreira de escritora, enfim, depois de muito tagarelar e atender a todos, apareceu a serumaninha no apagar das luzes.

– Elika, você sofre de ansiedade? O que faz para lidar com ela?

Por um momento, cheguei a pensar que fosse Mufasa-hatuna-matata em forma de uma menina entrando em contato comigo e me alertando sobre os perigos dessa vida loka.

Olhei no fundo do olho dela e confessei (como fazemos diante de um padre pedindo perdão por ter feito tudo torto nessa vida e não ter conseguido cumprir nada que havíamos prometido).

– Cara. Te falá. Minha vida é um inferno. Há noites não consigo dormir mais de 4 horas. Faço de tudo para combater a ansiedade. Corro que nem uma maluca para cansar bem meu corpo. Faço três horas de pilates por semana.Tento meditar sempre. Encho o rabo de chá de camomila. Tomo suco puro de maracujá antes de dormir. Leio poesias. Nada adianta. Estou lutando com todas as minhas forças para não entrar com remédio. Preciso encontrar meu equilíbrio sozinha sem veneno. Morro de medo de me meter com ervinhas e chás de cogumelos e isso afetar a minha criatividade. Prezo muito por tudo aquilo que penso. Gosto de meu jeito de articular as informações e criar em cima do que leio. Enfim, sofro muito de ansiedade. Estou longe de ser a perfeição e esse poço de felicidade que as pessoas imaginam.

Dito isso, respirei.

– Eu tomo remédio. – ela disse – Mas o que me faz ficar ansiosa é a escola. Isso aqui me cobra demais e eu não consigo responder a tudo. Me sinto péssima sempre. Não consigo ter foco, estudar, decidir o que quero ser, tirar notas boas…

E desatou a chorar.

Fiquei tensa. Não estava preparada para aquilo. Mas não foi por isso que o chão me escapuliu. Não rolou a empatia na hora e nem a preocupação com ela de imediato. As palavras dela me afetaram como uma epifania. Tive visões tais como aqueles que chegam ao nirvana.

Me dei conta que eu também não tenho foco e muito menos ideia do que quero ser. Aliás, nunca tive. Meodeos, o que fiz em todo esse tempo?!

– Ôxi. E você sabe que eu nunca soube o que queria da vida e até hoje não sei? Pensando aqui, sou o que sou porque nada deu certo para mim.

– Você não planejou o que é hoje? – perguntou ela surpresa.

– Não.  E acho que não importa o que você planejar. Vai dar errado. Concluo eu aqui agora me tomando como exemplo. Não planejei ser professora de física. Queria ser bacharel. Daí engravidei do Hideo no meio da faculdade de um namorado que nem amava. Corri para licenciatura para conseguir emprego rápido. Mestrado de história foi um convite que recebi. Queria fazer em Ensino. Depois até que me empolguei muito e quis fazer doutorado na mesma área e a orientadora disse que não. Que eu era muito inquieta e devia ir para filosofia. Eu não queria de jeito nenhum. Mal sabia quem era Platão. Casamento acabou. Planejei ficar casada eternamente. Me fu. Tô apaixonada por um homem que mora longe e pouco me dá atenção por conta de nossas agendas e porque talvez não queira mesmo me dar atenção. Fiquei grávida nos momentos mais conturbados de minha vida.

A menina olhava estranho para mim. Eu também olhava assustada para dentro de mim mesma e só via trevas. Uma confusão dos diabos nessa bagaça.

Até que veio uma luz.

– Então, não fique tensa se você não sabe o que você quer. Eu não sei até hoje. A vida continua me levando. Olha eu aqui em Volta Redonda. Olha eu entrando talvez para política. Você acha que um dia eu planejei dar palestras? Relaxa, querida, porque vai dar tudo errado na sua vida e você vai ser feliz assim mesmo.

– Mas e a ansiedade?

– A primeira que descobrir como se livra dela conta para outra, ok? Vamos combinar assim? Eu sou ansiosa que só. Deito e fico pensando em histórias, em roteiros de vídeos, em aulas que preparei e ainda não testei, em contas que esqueci de pagar, em mozão que demora a me responder, nas viagens que quero fazer e nunca tenho dinheiro, nos livros que não consigo vender… Não tem a ver com ter casa própria, com ter emprego fixo, com ser valorizada e querida… eu tenho tudo isso aê e tô na merda que nem tu.

Após essa aula de anti psicologia e de como acabar com a esperança de alguém em dois minutos, demos um forte abraço. Ela incrivelmente pareceu grata pela conversa e eu mais ainda por ter percebido que não tem ninguém no controle e, se tiver, só pode estar de brincadeira com a nossa cara.

– Querida, não se cobre. Nada é sua culpa. Cada um tem um jeito de ser e uma forma de lidar com os problemas que vão aparecendo. Não se compare. Você é única. E seja o que for que acontecer, o valor de tudo que você conseguir ou não fazer vai estar no fato de a sua história ser ímpar.

Tive que me despedir correndo porque o motorista estava com horário. Na primeira curva, fiz algo que não fazia há tempos. Dormi pesado e cheguei a sonhar. Só acordei quando vi minha casa.

Queria ter feito para ela o bem que ela me fez.

Boa noite para vocês.

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Farei a festa no inferno


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Eu sou ateia e leio de tudo. E se tem algo que gosto de ler, por cultura e pelas histórias bizarras que deixam no chinelo livro censurado pelo MEC é a Bíblia. Mas o que eu gosto mesmo nas Sagradas Escrituras é o Novo Testamento. Sei praticamente de cor as falas de Jesus.

Daí que eu fico vendo esses pastores evangélicos que estão no congresso falando e percebo o quão safados esses caras são. É “faça o que eu digo e não o que eu faço” nível hard. Diria você para eu deixá-los em paz. Poderia… se eles não tivessem na liderança desse House of Paranauê chamado Brasil e se metendo nas leis que me regem também e estão longe de ser divinas.

Em verdade vos digo: Esses pastores nada entendem de Jesus. Eu que não acredito naquela história toda sem pé nem cabeça mas que acho linda e extremamente simbólica afirmo que se eles seguissem Jesus estariam agindo da forma contrária a que estamos vendo.

E se quiserem mesmo sair proibindo livros e só deixar a Bíblia para educarmos nossos jovens a la Escola Sem Partido, melhor dizendo, Escola com Mordaça, em verdade vos digo, farei a festa no inferno.

Mire veja.

Há uma passagem clássica quando um jovem rico quer ser amigo de Jesus. O “Filho de Deus” disse que, para isso, o cara tinha que doar tudo para os pobres. E, então, proferiu a célebre frase: “É mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no reino dos céus”.

Ora ora… Não há líder dessa comunidade evangélica dentro da política que eu conheça pobre. Aliás, o discurso que tenho acompanhado de Malafaias, Bolsonaros, Felicianos e coisas afins é que se os fiéis acreditarem e fizerem o que eles mandam, os pobres terão o que os ricos têm porque “Deus dá em dobro”.

Dízimo com quem andas e eu te direi quem tu és.

(Se houver algum que não seja rico, por favor, me falem. Não quero ser injusta.)

Se formos mesmo usar a Bíblia nas escolas como estão querendo, vocês do Escola com Mordaça, defensores da Família Tradicional Brasileira e a favor das propostas de Alexandre Frota, deveriam ter muito mais medo de Jesus do que de Marx e Engels.

Jesus se não era comunista era radicalmente contra um sistema que permite que uns tenham de tudo e outros quase nada. E mais! Jesus estaria a favor, certamente, das políticas sociais instaladas no Brasil. Pois ele foi O Cara que distribuiu pão e multiplicou os peixes e só depois é que ensinou a pescar porque sabe que quem tem fome tem pressa.

Jesus seria contra essas reformas todas que só prejudicam os pobres e seria #foraTemer nas cabeças. Petralhudo, mortadelaço ou algo que o valha.

Jesus era um típico pé rapado. Vivia descalço de vestidão, parecia que nunca viu um pente e uma tesoura para aparar aquela barba. Ele era contra o consumismo, meus alunos. Percebem? Não tinha vaidades, não usava terno e maletas, principalmente, não tinha preconceito algum.

Jesus não julgou ninguém. “Atire a primeira pedra aquele que…” é A Frase mais LGBTT que eu já vi nesse mundo. “Não faça com os outros aquilo que você não quer que façam com você” resume todo o resto. Se cada um seguisse esse mantra, ah que mundo melhor não teríamos… sem pastores safados como estamos vendo sobretudo liderando nosso país.

Eu tenho a impressão, meus alunos, de que se Jesus voltasse, a primeira coisa que ele faria era tacar uma bomba (no sentido metafórico ou quem sabe mesmo literal) em várias Igrejas que doutrinam as pessoas e as obrigam praticamente a selecionar somente um tipo de amor que lhes é permitido e ainda por cima lucram exorbitantemente falando coisas que Jesus jamais proferiu e vendendo de tudo com a Sua imagem.

Há uma passagem que eu adoro em que Jesus chega chutando literalmente o pau da barraca. Quando ele chega no Templo de Jerusalém e vê um punhado de gente vendendo vários badulaques, Jesus fica possesso e sai quebrando tudo. O que ele faria no Templo do Salomão? Ou vá lá, no Vaticano? O que ele faria vendo Malafaia oferecendo todos os dias produtos em sua rede? Jesus queimaria pneus no meio de estrada contra medidas que estão querendo nos impor que prejudicam a classe trabalhadora? Vamos debater esse tema, turma.

A verdade, meus alunos (já me vejo dando aula) é que se Jesus voltasse, ele seria crucificado de novo. Exatamente pelas pessoas que falam diariamente em Seu nome e me obrigam a isso.

Dissertem sobre.

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Minha estrela

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Hoje, 14 de junho de 2017, como muitos já sabem, encontrei-me com o homem que, quer queiram ou não, será citado em todos os livros da história do Brasil. Muitos já o estão acusando de aproveitador sem sequer saber da missa a metade.

(Como assim ele o aproveitador e não eu? Nem entendi…).

Tudo aconteceu por conta dessa fama que conquistei nas redes. Não sei como justificá-la, pois não sou nada demais. Apenas há anos falo sobre o que me dá na telha.

Seja lá o que for, aconteceu. Hoje, vejam vocês, me param nas ruas para tirarem selfie. Acho mega esquisito tudo isso… mas, mais do que isso, muito mais do que isso… ando sendo convidada para palestras em todo o Brasil e para entrar para política. Para quem não sabe, faço parte de um coletivo político onde debatemos vários temas para tentar compreender essa loucura chamada Brasil e essa galera animada em fazer e acontecer tem insistido na minha candidatura. Vejam vocês o que é a vida…

Uma coisa é fazer textão em blog pessoal e postar no Facebook. Outra, completamente diferente, é atuar em algum cargo político. Há meses já venho conversando com muita gente, ouvindo opinião de quem é do meio, colhendo conselhos de quem não tem nada a ver com política, escutando meus pais… enfim, ando ponderando tudo, podem ter certeza.

Não sei se é do conhecimento de vocês, mas devido a um texto que escrevi relatando um processo de censura que sofri por conta do mercado editorial, Lula me ligou apenas, na ocasião, para me parabenizar pela minha coragem. Disse, fofamente, para eu continuar assim. Foi lindo e emocionante demais. Imagina. Eu. Toca o telefone. Lula…

Depois daquela conversa, tudo começou a mudar em minha vida em um sentido diferente. Políticos entraram em contato querendo conversar comigo e comecei a receber de onde menos sonhava orientações sobre as possibilidades de meu futuro.

Há duas semanas, já perdida com tanta informação, tive a ideia de tentar ir direto ao papa. Se for para me aconselhar com alguém, que seja por aquele que mais ganhou meus votos de confiança nessa vida: Lula.

Entrei em contato com sua assessora que havia chegado até mim e pedido meu telefone por causa daquele texto já supracitado que tocou o coração do meu presidente.

– Gabi, olha, vou parecer ridícula, mas estou vivendo um dilema em minha vida…

E contei-lhe tudo.

– Será que Lula me receberia para uma conversa? Tenho certeza de que ele pode dar uma luz sobre o que fazer com meu futuro. Estou tensa… mas sei que há muitos problemas mais urgentes, sei que o tempo dele é curto… mas vai que né?

Gabi pediu um tempo que ia perguntar a Lula se ele me receberia.

– Elika, ele disse que te recebe com prazer.

Morri.

Ok. Respira.

Marcamos uma data e cá estou eu em São Paulo de frente para o Instituto Lula escrevendo esse texto…

Pulando todas as etapas e sem aprofundar na loucura que foi eu trazer meus três filhos e Lucimar, minha empregada, junto, hoje, fui recebida por ele.

Ao ver toda a minha comitiva que lotou a sua sala, Lula bateu o olho em Lucimar e desatou a perguntar de onde ela tinha vindo (Maranhão), como era lá, como ela está aqui, se está feliz… esse tipo de coisa. Enfim, depois que Lucimar estava íntima dele, Lula se virou para me dar atenção e se prontificou a me ouvir.

Comecei assim:

– Presidente, primeira coisa gostaria de agradecer esse tempo que você me disponibilizou. Sou uma figura que se tornou conhecida nas redes sociais e quando disse que viria te ver, recebi mensagens do Brasil inteiro e recados para te dar. Mas trarei o principal antes de entrar no motivo pelo qual estou aqui. Você precisa se cuidar, estamos preocupados com sua saúde. Tem se cuidado, presidente? Está se alimentando direito?

A seguir, entrei na minha vida propriamente dita e falei um punhado de coisas terminando com a possibilidade de eu me candidatar e me filiar ao PT ou continuar seguindo em frente com a minha vida de professora somente.

Hora de ouvi-lo:

– Elika, primeiro. Uma “vida de professora” já é algo extremamente grandioso. Você é uma figura adorável. Não é sem motivo que muitos te amam. Eu, companheira, te digo que a sua filiação pode te trazer muita dor de cabeça. As pessoas vão passar a te odiar como muitos me odeiam. Lidar com o ódio é algo que você não merece. Eu adoraria ter você com a gente, mas penso muito nas pessoas antes de mim. E olhando para você não tem como não te alertar sobre o quanto você pode perder por se filiar ao PT que está sofrendo ataques de todos os lados.

A Ana Júlia, – continuou Lula – aquela menina linda, esteve aqui e eu disse que antes de ela pensar em filiação deveria pensar no Enem, ler mais sobre tudo, viver outras coisas.

– Lula, eu não sou mais adolescente… e já li muito… – interrompi o presidente.

– Eu sei, companheira. Mas no seu caso, eu fico olhando para o que você faz e fico pensando em você. Uma candidatura pode te trazer muita dor de cabeça que hoje você não tem. Uma coisa é as pessoas dizerem que te amam. Outra é elas votarem em você. E, se você entrar para o PT, muitos dos que te seguem vão parar de te seguir. Estou pensando em seu futuro, Elika. É claro que bom para mim seria ter você aqui com a gente. Mas e você? Você perguntou da minha saúde. E a sua?

– Lula, veja bem. Eu já sou xingada por muitos. Lidar com o ódio para mim não é problema. As pessoas me xingam, mas eu não me ofendo. Tenho pena de quem faz isso e sinto vontade de conversar com quem não consegue dar amor porque sei que lhe falta. A gente dá o que recebe.

Eu não aguento mais ver a educação pública ser sucateada. – continuei – Devo meu doutorado a você. O CEFET permitiu que eu reduzisse a minha carga para estudar. Investiu em minha formação.

Nesse momento, Lula me entrevistou. Quis saber como andava o CEFET.

– Nossos laboratórios estão super atualizados. Hoje há cotistas formados e já trabalhando. Tenho dado palestras em todo o Brasil. Em cada Instituto Federal que visito é uma surpresa pelas instalações e pela qualidade do corpo docente. Isso tudo foi pelo seu governo. Agora, estamos com a corda no pescoço. Não temos mais verbas para nada. Sou, além de professora, coordenadora de física e faço parte do conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão. As reuniões de orçamento das quais participo estão desesperadoras.

A Reforma do Ensino Médio está vindo a galope. – segui falando angustiada – A escola pública está sofrendo o maior golpe nunca dantes já visto na história do Brasil. Eu não aguento mais ver isso calada e, se houver algo que eu possa efetivamente fazer, eu quero fazer.

Acredito na bandeira do PT, Lula. Não tem partido que mais fez pelo Brasil e pelo povo que esse. Sei que houve erros crassos cometidos. Mas sei que a imagem do PT foi enlameada injustamente por essa corja que tomou o poder e que está acabando com a educação pública. O discurso de ódio aos petistas não se justifica a não ser por uma lavagem cerebral cometida pela grande mídia incentivado por uma elite que quer que o povo se exploda.

Eu sou essa fofura mesmo que você está vendo. – falei sem modéstia – E sei que precisamos renovar a política. Acredito que posso mostrar o quão injusto é esse discurso de ódio. E o que me tem feito mal é ver as escolas sendo sucateadas por essa quadrilha.

Acha mesmo que é melhor eu ficar longe, presidente? – perguntei com um nó na garganta.

– Elika, querida, você não é fácil. Não ouve os mais velhos… sempre foi assim?

Balancei a cabeça positivamente.

– Está triste mesmo tudo isso. Não é difícil fazer esse país dar certo. Basta dar o poder aos pobres, companheira. E é aí que muitos não aceitam. As pessoas me perguntam se pretendo voltar e se quero voltar. Vou te dizer, Elika. Eu queria muito voltar, não sei se vão me deixar. Queria só para mostrar que não é difícil fazer as coisas acontecerem. Me acusam de assistencialista. Mas eu acho que só há uma saída mesmo: dar poder para a classe mais sofrida. E por isso eu pretendo continuar lutando.

Pois a minha vontade, querida, – disse Lula olhando no branco dos meus olhos – é fazer um evento solene com sua chegada. É pedir para que me tragam o documento agora para você ser nossa. Qualquer político sonharia com seu apoio. Queria fazer uma festa com bumbo, surdo, samba para te receber. Mas, tenho receio por você. Tem certeza que está preparada para uma filiação e entrar para a política de alguma forma?

– Lula, estou aqui pronta. O que falta para você me estender a sua mão, presidente?

Ele a pegou, puxou, e me deu um forte abraço e boas vindas.

Depois de todos os trâmites explicados e marcada uma nova data para um novo encontro onde ele disse que faz questão de estar presente quando eu me filiar no Rio de Janeiro ao Partido dos Trabalhadores para colocar, efetivamente, de um jeito ou de outro, a mão na massa para tentar reverter esse massacre que estão fazendo com as nossas escolas públicas, aí sim, depois de tudo isso, vieram a sessão de fotos para registrar esse grande encontro e a entrega de livros que lhe levei de presente e uma belíssima tela pintada pelo artista Sergio Ricciuto.

Foi isso que aconteceu resumidamente. Em breve, oficialmente, serei uma petista. Estou bem certa desse passo. Para quem tem ódio ao PT, sinto muito, que vocês não consigam entender que entre o branco e o preto há infinitas graduações de cinza. O mundo, fiquem sabendo, não é dicotômico como mostram as novelas. Não existe somente o bem e o mal. E há, podem acreditar, os que tentam com toda a força melhorar o nosso país para os mais necessitados. Mas esses, não são super heróis. São seres humanos comuns plenos de toda a complexidade que qualquer universo possui.

Para finalizar, Yuki estava preocupado que havia perdido aula hoje para vir até São Paulo. Quando Lula foi brincar com ele um pouco ele disse:

– Estava angustiado porque perdi aula e prova hoje. Mas tive a maior aula de história da minha vida! Obrigado.

Fofo meu filho…

Enfim, estou mega feliz por esse encontro e por ter conseguido apresentar meus filhos ao homem que tirou o Brasil do mapa da fome e deu a oportunidade para muitos brasileiros – que nem sonhavam que isso seria possível – de estudar. Seguirei agora, ao seu lado e com seu apoio, lutando pela educação de qualidade para todos.

Animada com tudo o que tenho que viver pela frente.

 


Seguem algumas fotos mega divertidas desse dia:

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Lula falou para eu respirar dez vezes antes de eu entrar para o PT oficialmente por conta das pedras que eu iria receber já que, como todos sabem, há um ódio cego disseminado em nossa sociedade aos petistas e a ele, principalmente.

– Pensa bem, companheira… você tem uma vida tranquila. Lidar com o ódio diário não é nada fácil. Se for aparecer ao meu lado sua paz vai acabar. Querem me destruir de qualquer jeito.

Disse a ele que eu não me importava e não me arrependo de nada. Quero entrar e trabalhar efetivamente no que puder.

A filiação ainda não aconteceu. Vai ser no Rio, em breve, em um evento bacana com a presença do Lula que diz fazer questão de estar presente a assinar a minha entrada já que eu me mostrei decidida.

Verdade seja dita. Os ataques e xingamentos não param desde ontem, como previu Lula. Estou aqui começando a montar o meu castelo com as pedras que ando recebendo. Vai ficar enorme. Quem quiser se proteger dentro dele só chegar depois, ok?

E vai ficar lindão.

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