Teresa e Tuca

Tenho conversado com as pessoas que dormem pelas calçadas nos arredores da minha casa. Cada ser humano, até mesmo quando acaba de nascer, tem uma história e ouvi-las tem sido minha maior fonte de revolta e de aprendizado.

Hoje, por exemplo, conheci André que me foi apresentado por Catatau, homens com idade em torno de quarenta que têm feito o banco da Praça do Largo do Machado de cama nessas noites de inverno.

Lá pelas tantas, perguntei para André o que ele fazia antes de estar naquela condição.

André olhou para baixo e respondeu:

– Eu amava Teresa.

A resposta foi inesperada, sem dúvida. Mas eu, sempre desajeitada em comedir sentimentos, do meu modo, entendi André.

Segui no diálogo como um fotógrafo se aproxima de uma garça.

– E, agora, André, o que tem feito?

André riu com seu rosto voltado para o chão.

Mexeu no cabelo.

Com seus olhos que refletiam as estrelas no céu em plena manhã de quarta feira, virou-se para mim e respondeu:

– Tô amando a Tuca.

Como se fosse uma grande tempestade

Dentre tanta coisa bacana aqui em Natal (estou no aeroporto esperando meu vôo), fui entrevistada pelo SBT. Não sei se a entrevista foi ao ar porque falei tudo o que pensava. Em tempos em que o ministro da Educação bloqueia meu acesso a ele que sou professora há mais de 20 anos, o livre falar é uma raridade.

A repórter começou a me perguntar sobre representatividade na política já que vim para participar do Projeto Elas por Elas (uma iniciativa do PT que coloca a frase “ninguém solta a mão de ninguém” como uma lei universal). Neste momento, falei o que estamos carecas de saber: que há muito a ser feito ainda e, portanto, reforcei a importância de eventos como o Elas por Elas.

Depois, a jornalista viu a fila gigante que estava para comprar o meu livro e perguntou:

– Esse livro é sobre física. Nada tem de política nele, né?

Respirei como quem, sentado no restaurante com fome, vê o garçom chegando com a comida.

– Primeiramente, a política está em tudo. Quando não falamos sobre política, estamos agindo politicamente. Em segundo, esse livro é uma obra que faz crianças e adultos pensarem muito. Em tempos que a ciência é tão atacada, que o desmatamento é desconsiderado à luz de fotos de satélites, que as ciências humanas são desmerecidas por “serem inúteis”, um livro INFANTIL que é um convite para refletir sobre do que somos feitos e permeado de Filosofia é político sim. Ler e pensar no governo de Jair Bolsonaro é um ato subversivo.

Silêncio. Dois segundos de um eterno silêncio.

Mais do que nunca, não podemos nos calar. Além disso, devemos superar o medo de falar porque é isso que querem que façamos. É necessário que saibam e respeitem a nossa força.

A repórter agradeceu e a entrevista foi encerrada.

Se foi ao ar, não sei.

O principal foi feito dentro de mim: chovi feliz como se fosse uma grande tempestade.

Inútil evolução

Arte de Sérgio Ricciuto Conte

Estava olhando o mar ali aos arredores do aeroporto Santos Dumont. O Morro do Pão de Açúcar era meu horizonte. Fui de bicicleta e sem celular. Precisava não ser encontrada pelas notícias e aquele cenário já foi mais do que fotografado por mim.

Havia uma paz delicada ocupando aquele espaço com mais intensidade que o campo gravitacional. Eu praticava um relaxamento subversivo e me apoiava numa certeza risível de que já tinha visto de tudo nesta vida.

De repente, Pipo me cutucou e apontou uma ave franzina que estava boiando como um pato no mar. Mas não era só isso. A danada mergulhava. Sumia e reaparecia um pouco mais ali na frente. Ela que adejava pelas nuvens também sabia prender a respiração e se permitia molhar por inteira.

Como se tudo já não bastasse, o pássaro voltou do mergulho com algo preso em seu bico. Demorei a entender. Parecia que ele havia resgatado um amigo já que eu estava vendo um outro ser com duas asas.

Qual o quê.

A ave que mergulhava havia abocanhado um peixe que voava.

A luta não foi fácil. Os dois eram quase do mesmo tamanho. O peixe com as asas abertas não passaria fácil por aquela garganta fina do pássaro que submergia no mar.

Fiquei olhando apreensiva aquela cena. Não era apenas um bicho comendo outro – ordem natural das coisas.

Uma ave mergulha para buscar seu alimento. Um peixe voa para fugir de seus predadores comuns do mar. Neste sentido, era a fome de um contra anos de metamorfose do outro.

A fome tem suas urgências e o pássaro, depois de muito custo, conseguiu colocar a cabeça toda do peixe em sua boca e foi ajeitando seu pescoço esticando-o como um elástico para que todo o resto de uma história de adaptação entrasse.

De que adiantou desenvolver enormes barbatanas, planar como uma gaivota por onde tubarões jamais conseguem alcançar para ser capturado – enquanto dorme sossegado – por uma espécie de pato esmilinguido que mergulha?

Um ser com fome, ainda que seja um ser livre e tenha um tipo raro de sabedoria daqueles que voam, é capaz de depreciar a paz, rir de Deus e desprezar Darwin.

Um ser com fome é capaz de ignorar conceitos como densidades e empuxos para enfrentar sozinho esta gravidade.

De tão pesado, depois de ter ingerido algo do seu tamanho, o pássaro não se aventurou a voar. Acomodou-se fora da água com a tranquilidade aparente de alguém que abre um livro.

Eu, sem estar com meu celular, comecei ali mesmo a escrever – pois um texto é uma espécie de fotografia.

Nunca pensei que veria, ali parado numa pedra e com um olhar de deboche para os aviões que pousavam na pista, um pássaro digerindo anos de uma inútil evolução.

A volta do exílio

Quando criança, nunca tive vestido. Como gostava de jogar bola, subir em árvore, andar de bicicleta e coisas afins, um short me parecia muito mais seguro e agradável.

Quando criança, nunca usei brinco. Minha mãe não furou as minhas orelhas na maternidade e eu achava que incomodava por demais qualquer penduricalho no meu corpo.

Quando criança, nunca tive cabelos compridos. Cabelo curto me dava mais liberdade e praticidade. Andar de patins de cabelo curto é um tipo de liberdade que usufrui muito quando criança.

Quando criança, não usava roupa rosa. Gostava de cores mais neutras e a minha cor preferida sempre foi azul. A colcha da minha cama era azul. Meu estojo era azul. Minha mochila azul.

Quando criança, também não tive sandálias com lacinhos porque meodeos. Como correr com aquilo? Usava tênis e calçados que achava confortáveis.

Quando criança, brinquei de carrinho, trem, joguei bola, queimado e tive bonecas cujas casas eu adorava fazer com o que tivesse de sucata em casa.

Fui aprendendo a “ser feminina” conforme fiquei adulta. Adolescente, ainda usava blusas largas, tênis e calças e bermudas. Saias jamais. As unhas sempre eram roídas pela ansiedade que fez parte de mim desde quando soube o que eram as mãos e comecei a sonhar com lugares onde meus pés pisariam.

Aprendi a “ser mulher” com o tempo.

A menstruação para mim era um problema como é até hoje. Não me entendia com absorventes e em nada me sentia feminina com um bolo de algodão se encharcando de sangue entre as minhas pernas. Nunca senti nojo de mim mas repugnei as dores que tive por ter um útero. Não seria um órgão assim como minhas roupas que me definiam como mulher.

Quando comecei a dar aula, tive vergonha das minhas mãos sem cor, das roupas largas, da falta de maquiagem. Procurei seguir os padrões que me eram impostos e conheci vários tipos de prisão, algumas formas de lesão por andar de salto alto com a mente um tanto perdida e a dor da depilação senti depois dos quarenta. Estive com homens que não leram nada do que escrevi mas me elogiaram quando estava com uma porcaria de uma calcinha combinando com uma titica de sutiã.

Seguir padrões é um exílio da infância.

Dentre tantos sentimentos bonitos que me fizeram voltar a dormir com uma mesma pessoa, a gratidão está presente. Não consigo ser extremamente feliz sem ser grata.

Andava exausta. Vazia. E meu vazio era imenso porque sempre tive muita interioridade.

Obrigada, Pipo, por povoar um lugar em mim onde o silêncio fazia ecos.

Quando você está, me reconheço. Na sua presença, sempre saúdo uma liberdade que só senti quando fui criança.

Sobre caiaque e a contingência das minhocas

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Andei pela primeira vez de caiaque com o Pipo. Para quem ainda não sabe, fiquei casada quase 20 anos, separada quatro e quando não acreditava mais no amor, Pipo apareceu como se eu estivesse numa livraria buscando um livro para passar o tempo e me deparasse com O Lobo da Estepe de Hermann Hesse. Dito de outra forma, como se andasse passeando a esmo para distrair a mente e, de repente, me defrontasse com uma orquestra ensaiando ao ar livre.

Eu e Pipo, de alguma forma, estamos juntos desde que nascemos mas, fisicamente, pelas minhas contas e pelo o que entendo de tempo, há 14 bilhões de anos quando o Universo foi criado (Fiquei superlativa como os poetas depois de conhecê-lo). Quantos minutos ficaremos ainda nessa conexão foi o que a experiência de ontem no caiaque me mostrou.

O caiaque tinha dois lugares. Antes de entrar no mar, recebemos as instruções do moço bronzeado e experiente:

– O “motor” vai atrás. As remadas têm que ser sincronizadas para o barco andar melhor. Andem inicialmente contra o vento. Na volta, já cansados, o vento ajudará vocês a retornar.

O “motor” era quem ia remar com mais força e dadas minhas raízes feministas, marxistas e taxistas, que como toda mulher inteligente e preguiçosa eu as mando para o espaço quando me convém, fui logo me fazendo de meiguinha-frágil e me sentando na frente.

Nunca havia remado na vida. Não há mistério algum. Só muita dificuldade mesmo. Não no movimento físico em si, mas em entender como vim parar no meio do mar, sem celular, sem saber onde fica o norte, sem saudade do passado, sem expectativas sobre o futuro, sem culpa alguma, com sinusite e a paz dos que desistiram de entender. Sou assim. Plena de paradoxos.

Não consigo dançar por falta de ritmo e não seria com algum compasso frequente que as minhas remadas amadoras seriam dadas. A sincronia ficaria por conta do Pipo que estava atrás e ficou responsável por ser o espelho dos meus movimentos.

Se o amor tem algo a ver em reproduzir a pulsação da marcha do outro, com algum tipo de sincronia, seria no mar que ele seria colocado à prova.

Assim pensei na largada animada com a certeza de que Pipo reproduziria fácil o que eu fizesse.

Pipo lindamente correspondeu às minhas braçadas não periódicas e em questão de poucos minutos saímos do posto 3 no Aterro do Flamengo rumo ao aeroporto Santos Dumont. Chegamos até a ponte Rio-Niterói e ficamos algum tempo nos beijando longamente.

Assim imaginei que seria. Qual o quê.

A vida está aí para zuretar com as nossas expectativas. Em menos de 5 minutos, Pipo descobre algo:

– Amor, sua braçada da direita é mais forte que a da esquerda. A gente tá fazendo curva.

Pipo descobriu uma das minhas assimetrias. Meu pé direito é virado para fora, meu ouvido direito não ouve mais as frequências agudas e meu olho direito é mais míope que os outros dois olhos juntos, se é que me entendem. Do lado esquerdo, o coração, uma costela proeminente que não me deixa usar biquíni sem me sentir constrangida e um relógio no pulso. Nenhuma dessas assimetrias foi problema para nós até aquele momento.

– Mas é que sou destra. Acho que todo mundo tem esse problema, não?- perguntei como fazem os que não sabem pedir desculpas e ficam justificando os erros.

– Tenta remar mais longo do lado esquerdo para compensar. – orientou-me Pipo como os professores que têm esperança no futuro no Brasil.

Acho que consegui fazer o que ele me sugeriu por uns vinte segundos. O resto foi só tentativa. Ainda assim – e é o que importa – estava feliz movimentando o remo ora com o braço esquerdo ora com o direito com um sorriso típico de quem acaba de comprar um algodão doce.

Empolguei-me e dei mais força para aqueles torques. Senti-me uma atleta olímpica competindo. A água espirrava no meu rosto – dado a velocidade da luz do meu remo.

– Amor, você está trocando muito rápido. Respira entre uma remada e outra!, ouvi Pipo como se fosse a voz da terapeuta que nunca tive ou do Mufasa saindo das nuvens.

Empenhei-me em seguir as orientações e só sentia nossos remos bater por falta total de simultaneidade nos gestos.

– Só olhar para um foco e ir reto, amor! – pediu Pipo mais para Deus do que para mim.

Nunca na vida consegui andar em linha reta. Meu pretérito é imperfeito e meu futuro é do pretérito. Jamais fui guiada pela luz do fim do túnel. Inspiro-me na suavidade dos indelicados, a mesma que faz com que um cavalo ande bonito. Não consegui seguir sequer uma religião – mesmo precisando de perdão para meus inúmeros pecados – e Pipo me pedia foco. Justamente quando o horizonte estava lindo e tão distante meu Deus. Não seria ali que iria conseguir me livrar dessa minha ânsia de mandar as bússolas às favas…

Por outro lado, era o meu amor que não queria decepcionar.

Tensão no mar.

Aceitei humilde o que Pipo havia me falado como quem aceita um batismo. Possuo uma certa paz interna e a tirania de uma mulher que necessita ser amada – e, por não saber o que uma mulher precisa fazer, foquei em tudo o que via: no aeroporto Santos Dumont, no Dedo de Deus, na ponte Rio-Niterói, em Niterói, no Museu do Niemeyer, no forte que não sei o nome, na gaivota que era uma fragata e no Pão de Açúcar. Como não ficar alucinada com o Pão de Açúcar? Mirava e ia. O importante é sempre ir. A bicicleta só fica em pé equilibrada quando está em movimento – e minha serenidade encontra o centro de gravidade quando me aposso dessas metáforas.

O barco navegou em várias direções por algum tempo. Em um determinado instante, depois de não mais ouvir nossos remos batendo, Pipo chegou perto do meu ouvido direito e falou com sua voz grave que sempre me acalmou o semblante e fez meus hormônios entrarem em guerra com os dogmas de muitas igrejas.

– Amor, pode descansar, se quiser. Você está remando sozinha há algum tempo. Posso conduzir agora.

Não estava cansada e muito menos surpresa. Queria mesmo era ver o que Pipo faria com aquela vista toda.

Se ele andou reto, foi por pouco tempo.

– Amor! Olha aquilo amarelo! Vamos lá ver o que é!

E desatamos a remar loucamente com nossos remos batendo um no outro até um pote de margarina.

– Amor! Olha ali!

E lá fomos atrás de uma havaiana perdida.

Com remadas de ritmos bem particulares e cada hora mirando em algo pairado no mar, conseguimos encher o caiaque de lixo. Andamos em zigue-zague, em círculos, em espiral e, enfim, em linha reta e perpendicular ao vento – já que havia dado o tempo e tínhamos que retornar de onde saímos. Pescamos vários plásticos que boiavam e descobrimos que, de algum jeito, chegamos juntos remando onde queremos.

Assim como jamais gritei de alegria ao ver um filho dando os primeiros passos para que ele não se assustasse, saí do caiaque contida falando para o Pipo que precisava escrever sobre a assombro de ter visto tanto resíduos e a sensação boa de ter conseguido chegar até eles e limpado o mar.

Dizem por aí que o amor tem a ver com sincronia. Talvez alguns sim. Mas há infinitas formas de amar. Descobri, dentro de um maiô, que podemos falar em eternidade nos iludindo com a paz de um passarinho pousado em um galho ou descobrindo formas jocosas de lidar com a nossa contingência e a das minhocas.

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Isaac e Paulo no Mundo das Partículas

Ontem fizemos o lançamento do Isaac no Mundo das Partículas aqui em São Paulo. O livro foi escrito por mim e ilustrado pelo gênio Sérgio Ricciuto Conte que levou todas as ilustrações originais.

Contamos várias histórias para quem por lá conseguiu passar. Afinal, Isaac no Mundo das Partículas é uma publicação independente e vivemos várias situações inusitadas para que esse livro fosse publicado.

Eu sei o poder que um livro tem na mão de uma criança. Eu sei o que ele pode fazer com a mente da gente. Minha vida sempre foi transformada a cada leitura.

E por acreditar nisso, sou capaz de viajar sozinha pelo Brasil sem patrocínio nenhum para divulgar uma obra que mistura arte e ciência e é capaz de fazer um reboliço na cabeça de quem entra na nave de Isaac.

Ontem peguei estrada. Antes de vir, de última hora, um vizinho meu de Madureira estendeu a mão e se ofereceu para me ajudar. Veio comigo até Sampa e ainda ficou “de caixa” na hora do lançamento. Pedro é professor de matemática do Pedro II, trabalha a semana inteira e topou vir sábado e voltar domingo para que eu ficasse um pouco menos sobrecarregada. Suburbano é assim. Vizinho é irmão. Ele está dirigindo agora enquanto escrevo para vocês. Gratidão, Pedro.

Quero destacar porém a cereja da noite. Uma criança chegou lá ontem. Estranhei porque já vinha com o Isaac na mão. Geralmente as pessoas vão para ‘comprar’ Isaac. Paulo não. Chegou com Isaac lido mais de não sei quantas vezes. Sabia várias passagens de cor. Fez vários desenhos para ilustrar o que ele havia entendido. Era colisão de carrinhos simulando colisão entre partículas, Bóson de Higgs na presença da origem do Universo, foguetes, modelos atômicos e mais um punhado de desenhos tudo registrado em um caderno que ele fez questão de levar para me mostrar.

Paulo se emocionou vendo as ilustrações originais. Percebeu algumas diferenças que ninguém havia observado e que só eu e Ricci sabíamos porque discutimos muito entre nós – na época em que pensávamos o livro. Questionou-as e compreendeu nossa obra como os que aplaudem o pôr do Sol não por acreditar que o Astro vá ouvir mas por uma espécie de harmonia com o Criador.

Quando Paulo chegou, eu já estava sentada ali há mais de quatro horas e meia dando autógrafos e atenção para todas as pessoas que passaram por lá (obrigada, galera, por terem ido). Isso depois de seis horas na estrada… estava esgotada fisicamente. Mas Paulo fez com que todo o meu cansaço fosse sublimado e me fez chorar com toda a sua empolgação com o tema.

Paulo, você agora está dirigindo a nave de Isaac. Ele a deixou com você. Voa, querido, por esse Universo da Ciência. E, se possível, volte sempre para me contar o que descobriu.

Paulo me abraçou dizendo que não gostou de Isaac no Mundo das Partículas. A mãe dele estava errada. Foi o livro que ele mais amou na vida.

Quando publiquei Isaac eu imaginei meu menino indo para o mundo. Cada vez que alguém adquire esse livro, eu imagino a nave partindo para uma galáxia desconhecida porque cada mente, assim penso, é um Universo em si.

Jamais pensei que meu filho voltaria pelas mãos de uma criança que estava no controle total da nave.

Dormi com a imagem de Paulo e Isaac viajando pelo Mundo das Partículas.

Obrigada, mãe e pai do Paulo por terem o levado até mim.

Obrigada a todas as pessoas que, de um jeito ou de outro, apoiam essa minha empreitada e acreditam em livros como eu.

Não basta dar Feliz Dia das Mães. Abrace todas todos os dias.

 

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Hoje é dia das mães e há 26 anos eu me tornei uma nessa sociedade doente. Poderia ter sido tudo tão mais tranquilo se simplesmente ninguém soltasse a mão de ninguém. Mas a nossa realidade é que andamos com dedos na nossa cara nos julgando o tempo todo.

Engravidei com 19 anos na faculdade. Na época, perdi as contas de quantas pessoas me chamaram de puta.

Minha mãe super católica entrou em desespero porque eu não era mais virgem e nem sombras havia de um casamento.

Meu pai disse que teria que dar meu filho.

“Amigos” se afastaram de mim para sempre.

Não teve uma noite que não molhei o travesseiro de tanto chorar de desespero.

A palavra aborto era a que saía da boca de todas as pessoas. Não recebi parabéns de ninguém.

Com três para quatro meses de gravidez tive toxoplasmose. A médica disse que teria que tirar o bebê porque ele ia nascer deficiente e eu poderia ficar cega ou ter outros problemas irreversíveis de saúde.

Tinha força para encarar o que viesse mas não para me submeter a um aborto já sentindo a barriga se mexer. Minha mãe, hiper católica, conversou com um padre que disse que Deus me perdoaria se eu abortasse.

Eu já era ateia e, portanto, não tinha cometido pecado nenhum já que esse conceito não existe no meu mundo-não-religioso. Expliquei para minha mãe que não iria abortar por medo de Deus e sim porque não queria. Que era um direito da mulher abortar (ou não) e que ninguém tem o direito de julgá-la.

Nem Deus.

Minha mãe que era radicalmente contra o aborto por questões religiosas (e que também tinha me julgando mal por questões religiosas), pediu para que eu pensasse bem. Afinal, eu corria muito risco e ela estava desesperada em me ver sofrer ou me perder.

Disse que um filho “perfeito” já iria ser difícil para eu criar sozinha. Ainda mais um com deficiência. Falou que ela estaria ao meu lado sempre me ajudando mas que a cruz quem carregaria seria eu. E ela poderia ser muito pesada para mim.

Cada uma sabe a estrutura que aguenta. Minha barriga já se mexia e alguma coisa metafísica já havia sido criada. Não quero romantizar nada. Mas acho que foi o que chamam por aí de maternidade. Eu já era uma mãe.

Cuidei o máximo da saúde corporal já que a mental nunca foi lá grandes coisa e grávida com a sociedade-classe-média-cristã- década-de-90 me julgando já viu.

Meu pai não falou comigo mais durante toda a gravidez. Minha mãe chorava como seu eu estivesse com uma doença incurável. Puxei 9 matérias na faculdade de Física para não atrasar na minha formação. Geralmente enlouquecemos lá fazendo quatro…

De tanto ficar sentada estudando minhas pernas incharam a ponto de eu não conseguir enfiar nem chinelo nos pés. Passei a estudar fazendo contas deitada de barriga para cima. E andava na rua com sapatos de pano tipo pantufas. Tinha coleguinha e professor na faculdade fazendo graça com isso.

Quando fui ter o nenem não sabia o sexo e nem o nome.

Ganhei o enxoval de uma colega que havia passado pelo mesmo “problema” que eu. O berço foi um carrinho emprestado. Comprei fraldas de pano com dinheiro de aula particular.

Ia sozinha para o hospital ter o nenem quando meu pai apareceu no caminho dizendo que me levaria. No carro, pediu para que se fosse menino que colocasse o nome do pai dele que morreu na guerra quando ele tinha 7 anos e que ele morria de saudade: Hideo.

Na hora eu pensei: que nome esquisito… e que diabos esse homem deixou de falar comigo a gravidez inteira e hoje vem me pedir uma coisa dessas?

Assim como não acho certo julgar ninguém, perdoei meu pai sem que ele me pedisse perdão e disse que se fosse menino, Hideo se chamaria.

Quando Hideo nasceu, relaxei como nunca havia relaxado na vida. Disse sorrindo para o médico que estava vendo estrelas e tudo girando. Era minha pressão caindo e eu tendo uma parada cardíaca.

Desmaiei por minutos. Acordei sendo massageada literalmente no coração e toda enfaixada como se fosse uma múmia para que a circulação fosse ativada. Lembro que ouvia o médico gritar meu nome pedindo que eu desse algum sinal de que estava escutando.

Não tinha força para responder que estava ouvindo ele gritar. Só sentia felicidade e uma vontade louca de mandar toda essa sociedade se fuder.

Quando tive forças, arranquei o oxigênio que estava no meu nariz e pedi meu filho.

O médico enfiou o tubo de oxigênio de novo e disse que estavam trazendo Hideo para mim. Ganhou 10 no apgar que é a nota que se dá para a saúde do bebê assim que ele nasce.

Se Hideo nascesse com algum “defeito” eu não estava nem aí porque o defeito está na sociedade. Todos nós, em alguma medida, somos defeituosos.

Me sentia preparada emocionalmente para recebê-lo do jeito que ele viesse.

Acho que cada mulher tem que decidir o que vai fazer diante a notícia de uma gravidez. Não estou contando isso para me comparar a ninguém. Mesmo porque sou uma mulher branca de classe média e meus problemas não se comparam aos que passam as mulheres pretas periféricas.

Lembrei disso agora porque é dia das mães e há 26 anos eu me tornei uma nessa sociedade que sabe vender flores neste dia mas é cega com o sentimento de tantas de nós.

Não tinha que ter sido nada tão sofrido. Estava bem, queria ter meu filho, tinha saúde para trabalhar, “estrutura familiar” e, na pior das hipóteses, a criança também tinha um pai que não foi cogitado no julgamento de ninguém.

Como disse, se simplesmente ninguém soltasse a mão de ninguém, poderia ter sido tudo mais tranquilo.

Mas a nossa realidade, até hoje no século 21, é muitas de nós ainda andam sozinhas e são julgadas por esse povo que nasceu “perfeito” mas que carece de muitos sentimentos.

Essa história não é nada diante das mulheres mães que estão encarceradas, mulheres de periferia que têm crianças especiais, mulheres que não têm comida para dar para os filhos.

Não basta dar feliz dia das mães hoje.

Abracem todas todos os dias.

O coco de Duda

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Hoje fui ler no Aterro. Precisei me desconectar de tudo. Peguei um livro e lá fui eu com uma canga equilibrar meu universo no final da tarde. O local é democrático. Vemos frequentando o parque pessoas de comunidades, desempregados, gente de carteira assinada e empresários.

Perto de mim, havia um grupo de crianças. Uma menina estava há horas tentando subir no coqueiro. Não havia responsável com eles. Do outro lado, havia um pai vestindo um terno, um celular na mão e um filho aprendendo a andar naquele brinquedo que a pessoa fica em pé em cima de uma plataforma motorizada com rodas e, no caso, algumas luzinhas.

De repente, a menina pega o jeito. Grita de felicidade e desata a subir o coqueiro com ajuda de um cinto. Os meninos embaixo em festa dando apoio moral. Ao chegar nas folhas, não se dando por satisfeita, ela começa a balançar um coco com força avisando para saírem debaixo. O coco resiste mas não é de ferro nem imune a tanto foco e vem ao chão.

Ela desce rapidamente como se estivesse executando isso pela enésima vez. A felicidade tem essa mania de fazer a gente se esquecer de que não sabe das coisas.

Ela agarra o coco como se ele fosse um filhote de cachorro dado de presente. Os garotos batem nas costas dela em alvoroço cumprimentando a menina. O garotinho rico no brinquedo assistia a tudo absorto. Estava estático em cima de rodas enquanto o pai resolvia algo importante falando alto no telefone.

–  Eu quero coco! – gritou ele para o pai.

O pai fez shhhh com o dedo pedindo para ele falar baixo.

– Eu quero coco! – insistiu.

– Eu quero coco! – perturbou.

O pai terminou de forma ríspida a ligação e foi comprar um coco logo ali na barraquinha em frente.

Há várias pelo Aterro todo.

– Eu quero aquele coco! – explicou apontando para a menina que segurava a fruta como se fosse o troféu do Oscar.

O pai tinha problemas para resolver, pressa e dinheiro.

Foi até aquelas crianças.

– Quero esse coco. Quanto é? – perguntou para a menina que ficou séria na hora.

– Não estou vendendo. – ela respondeu.

O menino fez cara de choro.

– Dou dez reais – disse o pai.

– Não estou vendendo. – ela repetiu.

O pai tentou se afastar explicando para o filho a situação. O filho não entendeu e fez que ia chorar.

O pai voltou.

– Dou vinte reais – disse o pai.

Os meninos descalços e sem camisa olhavam assustados para a menina que segurava aquele coco como uma gestante acariciando a própria barriga.

– Não estou vendendo meu coco. – ela disse calmamente olhando nos olhos do homem de terno.

A cada vez que ela explicava que o coco não estava sendo vendido, parecia que aumentava a vontade do filho de ter o que não havia preço.

– Pago cinquenta reais – disse o pai impaciente.

Os meninos vociferavam, esbravejaram, estrondearam como se estivessem vendo um jogador dentro da área prestes a fazer um gol.

– Eu disse que ele não está a venda.- falou  a menina com a firmeza de uma mulher dizendo não.

Eu observava a cena como quem lê um livro.

O pai saiu irritado. Menos com a birra do filho e muito mais por ter encarado o olhar da dignidade.

Quando o pai se afastou, eu me aproximei. Descobri que a menina que aprendeu hoje a subir em um coqueiro se chama Duda. Perguntei o motivo de ela não querer vender o coco.

– Quero mostrar para meu avô. Ele veio do nordeste e diz que lá ele sempre subia em coqueiros e pegava cocos. Hoje ele tá velho, minha mãe cuida dele.

– Seu pai trabalha? – perguntei querendo entender mais sobre a Duda.

– Ele trabalha de bicicleta entregando remédio ali perto.

– E sua mãe?

– Ela só cuida do meu avô que não consegue nem mais andar e só fica deitado.- explicou para mim e para os meninos como agem os que amam.

– Vou levar esse coco para ele.- disse com o olhar de quem admira o mar antes de sair correndo para brincar dentro dele.

Takashi keiko kurama, Beth Carvalho

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Eu tenho uma história com a Beth Carvalho que me lembrei agora e gostaria de compartilhar com vocês. Não me orgulho do que irei contar mas, preciso confessar, não me arrependo de nada.

No Teatro Rival, no Centro do Rio, de 15 em 15 dias, às segundas, acontecia o Pagode do Arlindo com vários convidados. Eu, Nelson (meu marido na época) e um grupo de amigos não perdíamos um show sequer. Já tínhamos mesa cativa. Haja amor pelo samba. Chegava em Madureira para lá de meia noite para às sete da manhã no dia seguinte estar em pé dando aula…

Por conta dessa frequência, fomos até chamados para ir no batizado dos filhos do Arlindo. Vejam vocês a simpatia desses sambistas. Onde comem cinco comem duzentos e cinquenta.

Um dia a convidada da noite era Beth Carvalho. Nunca tinha visto a rainha pessoalmente. Que me perdoe a Teresa Cristina que fez um duelo com ela naquela segunda. Beth, mais baixa do que eu, dominou o palco. Fiquei assustada com tamanha energia. Nem consegui sambar. Sentei-me e fiquei boquiaberta admirando tamanha estrela.

Ao final do show, sempre íamos para o camarim dar um tchau para o Arlindo que já nos conhecia. Quando chegamos lá, vi Beth sentada no sofá.

Fiquei eufórica querendo ir até ela, tirar foto, dizer que ela é maravilhosa, tietar, abraçar, cantar um refrão alto, destilar toda o meu contentamento. Essas coisas de quem abre os braços naturalmente diante de uma beleza natural.

Nelson me freou. Disse que pegava mal esse tipo de comportamento naquele ambiente ali cheio de artistas. Os amigos concordaram que eu tinha que ficar quieta e deixá-la em paz.

Aceitei me controlar pelo bem do social.

Depois tive uma ideia.

– Vou lá falar com ela e ela vai se empolgar com o que vou dizer. Não vou fazer feio, podem ficar tranquilos. Vou conversar bonitinha e ela vai ficar super feliz com o que vou dizer.

– Mas o que você vai falar que ela? , perguntou um lá assustado com a minha firmeza.

– Observem, sussurrei para os amigos.

E dito isso, caminhei em direção ao sofá no qual a diva estava sentada. Pedi dálissença porque sou educada perguntando se podia falar dois minutos com ela.

Simpática, Beth Carvalho se mostrou disposta a me ouvir.

Abaixei-me ficando de costas para meus amigos e com os olhos escaneando aquela belezura de cabelos vermelhos.

Meus amigos viram o rosto da madrinha vibrar com o que estava falando. Testemunharam o nascimento do sorriso da Beth ao ouvir minha primeira frase.

Depois, falei mais e ela ficou mais eufórica ainda e desatou a falar a beça comigo super empolgada. Terminado o assunto, demos um abraço. Me coloquei ereta, virei-me e voltei para perto dos amigos que não estavam entendendo nada.

– Mas que diabos você falou para ela?

Antes de continuar, preciso repetir que eu não me orgulho dessa história mas que não me arrependo de nada.

Eu precisava falar que ela era maravilhosa até no Japão.

–  Beth, queria te contar uma. – falei como se fôssemos íntimas – Meus primos no Japão são loucos por você. Acredita que tive que mandar para lá vários CDs seus para eles?

– Menina, os japoneses me adoram! Eu não sei que química é essa que eu tenho com eles! –  Ela disse super feliz e com os olhos brilhando.

– Pois é, Beth. Qual o nome do lugar que você se apresentou lá mesmo?

Não tinha ideia de que ela havia conhecido o Japão. Chutei. Para Beth Carvalho ter falado que tem química com os japas só pode ter sido porque deu show lá.

Assim pensei.

Bingo.

Beth falou um nome que eu, óbvio, me esqueci e que nunca tinha ouvido falar porque do Japão só conheço Tóquio, Hiroshima e Nagasaki pelas revistas e jornais. Mas foi a deixa para eu compartilhar um pouco mais dos minutos com ela.

–  Então. Era esse mesmo! Fica ao lado da comunidade Hironaka que é um local bem interessante só formado de músicos e artistas de teatro basicamente…

Abre parênteses:

Sempre tive essa mania de dizer que sei falar japonês para quem me pergunta. Daí a pessoa fala: “Então diz aí alguma coisa aê” e eu falo o nome de vários primos bem rápido. Como “em terra de cego quem tem um olho é rei”, dou a tradução que der na telha e saio como a poliglota-bilíngue-meodeos-como-ela-é-inteligente.

No caso citado com a Beth Carvalho, eu misturei Hiroshi com Tanaka e voilá a vila Hironaka localizada somente nas profundezas do meu cérebro.

Fecha parênteses.

– Mas você nem sabe, Beth. Tive que comprar CDs com uma música em especial que eles ficaram doidos!

– Sei! Coisinha do pai! Eles amam!

–  Errou. Saigon. Eles, da comunidade Hironaka são loucos por Saigon. Comprei três coletâneas suas onde aparece essa música para eles. Parece que eles vão tentar regravá-la.

–  Mas que interessante! E eles…, ela me contou vários momentos do show onde o público amarelo se deleitou.

Estava em alfa já imersa naquela  história toda. Não me lembro mais o que inventei. Sei que ela ficou feliz e surpresa com a galera Hironaka. Mandou beijo para todos de lá. Me despedi de um jeito oriental dizendo: Takashi keiko kurama, Beth. Ela me puxou e me deu um abraço forte de despedida.

Essa não foi a única vez que a vi ao vivo.

Houve mais uma.

Em Agosto de 2018, eu, em plena campanha, me encontrei de novo com ela. Eu estava em pé na plateia formada por uma multidão. Beth estava sentada, mas não em um sofá. A  dona da voz mais linda do samba estava acomodada numa cadeira de rodas, no palco com o microfone na mão e cantando.

Cantou não só com alegria e aquela energia firme dos que acreditam, mas também com esperança (esse sentimento que, hoje, nos faz levantar para trabalhar em plena Era Bozo):

“O povo quer, o povo decide, o povo diz, nós queremos Lula andando livre no país”.

Foi no festival Lula Livre. Estávamos de vermelho e tínhamos a vontade bonita que as crianças têm de abrir a porta da gaiola para passarinho realizar sua essência que é trazer para a gente a primavera.

Chorei pela emoção de vê-la cantando e por Beth Carvalho, essa gigante conhecida no mundo todo como pude confirmar, estar ao nosso lado nesse momento tão dolorido.

Pelo sua libertação ontem, acabei me lembrando dessa história e tive vontade de compartilhar com vocês.

O que nos resta é o desabafo.

 

Houve uma reportagem que andou viralizando sobre a Livraria Cultura mostrando o quanto os empregados são coagidos pelo patrão. Quem leu ficou chocado. Gostaria de dizer hoje, 28 de Abril, no Dia da Educação, que isso é a realidade de muitas empresas e que escola particular, em muitos casos, funciona como tal.

Trago histórias pessoais já que leciono há 26 anos e trabalhei por mais de uma década em uma escola particular.

Com três anos de casa, fiquei grávida. Quando fui comunicar ao diretor, ouvi dele:

“Uma excelente maneira de acabar com uma excelente carreira é casando e tendo filhos. Você está acabando com a sua vida.”

Eu era muito nova mas havia entendido já muito coisa e, por isso, chorei. Não por acreditar naquela baboseira, mas por compreender o poder opressor do capital.

O diretor ela centralizador e arrumou uma maneira de descobrir quando errávamos na correção das provas, coisa absolutamente comum entre nós, professores e professoras, que corrigimos centenas de prova mensalmente. Erramos em contagem, em critério de correção, em não ter visto a resposta que o aluno colocou bem no canto da questão e por aí vai. Entregávamos a pauta com o nome e as notas dos alunos para o diretor antes de entregarmos as provas corrigidas para a turma.

Cada vez que um aluno vinha reclamar da correção e mudávamos o conceito dado, tínhamos que preencher um documento para que a nota fosse alternada “no sistema”.

Isso gerou um acúmulo de papel na mesa do diretor.

Na hora do recreio, enquanto conversávamos e lanchávamos na sala dos professores, o diretor entrou e jogou todos aqueles papéis com alteração de nota na mesa e começou a nos xingar de incompetentes para baixo.

Quando um professor foi falar que aquilo era normal dado nossa carga de trabalho, ele ouviu que “normal é o professor ser pago para trabalhar direito” e que se ele continuasse se equivocando na correção das provas que fosse ser “normal” em outro lugar.

Nunca tinha visto aquilo na vida. Uma humilhação sem tamanho. Teve professor que deixou o lanche pela metade não porque a fome tinha passado mas porque a tristeza tem dessas coisas de fazer com que abandonemos o que nos alimenta.

Um dia eu estava passando mal.

Muito mal.

Dor de cabeça e tonta pela manhã.

Encontrei o diretor no corredor e disse a ele que não estava bem. Pedi para ser liberada das aulas da tarde porque não estava conseguindo ficar em pé direito. Ele me disse que eu havia avisado em cima da hora e que não teria ninguém para me substituir. Ofereceu o sofá em sua sala com ar condicionado para eu deitar um pouco numa “janelinha” que tinha no final da manhã. Mesmo tímida, eu aceitei.

Apaguei no sofá.

A secretária veio me acordar às 13h para eu dar aula. Trabalhei a tarde toda. Cheguei em casa, minha mãe estava com meus filhos. Olhou para mim e se assustou.

Eu estava com 39,5 de febre.

Mas o pior não foi isso. Lembro-me que fomos convocados para uma reunião. Todos nós tínhamos carteira assinada e a reunião era para nos oferecer uma proposta: que déssemos baixa na nossa carteira e que a quantia paga de encargos trabalhistas seria acrescentada no nosso salário. Tudo bem que não teríamos mais o décimo terceiro, o diretor explicou. Mas se juntarmos o que ganharíamos de “aumento”, daria até mais no final. Havia professores que tinham um plano de carreira ali dentro. Os mais antigos ganhavam mais por isso.

Ele disse que essa “vantagem” seria mantida.

Muitos acreditaram e a festa do caixa dois aconteceu de comum acordo entre vários colegas e a direção. Era “opcional”, mas a pressão foi tanta que dava para contar nos dedos de uma mão quantos resistiram.

Conclusão: com o tempo, vários professores foram demitidos e outros tiveram o salário reduzido já que ganhamos em cima de tempo de aula dado e as turmas a nós oferecidas foram sendo dadas para professores mais novos “sem plano de carreira”. Na época, eu não tinha nem 30 anos mas havia professor que tinha quase isso de casa e foi substituído por um outro “mais barato”.

Quando resolvi fazer mestrado, fui avisar ao diretor que precisava reduzir a minha carga para estudar. Ele riu. Disse que eu não ganharia mais nada por isso na escola dele e que a hora que eu abrisse mão das minhas turmas teria uma fila de professores para pegar o meu lugar. E que, no dia que eu quisesse voltar, ele não poderia me garantir que eu teria as minhas turmas de volta.

Eu disse ok.

E ele ficou puto comigo e me xingou de burra. Perguntou como eu sendo professora de Física não sabia fazer conta. Era a época da crise. Lula estava na televisão dizendo que o Brasil não iria ser atingido. Lembro desse fato porque ele o citou:

“Você acredita no que esse presidente está falando? O desemprego vai chegar aqui sim e você abrindo mão de dinheiro?! Pensa bem, dona Elika!”.

Pensei.

E resolvi estudar.

No meio do mestrado, engravidei do Yuki, meu terceiro filho. Fui lá avisar ao diretor (havia 8 anos que ele havia me falado que a minha carreira iria acabar porque eu estava grávida).

Eu já era outra pessoa. Cheguei avisando e perguntando se ele ainda achava que isso significava meu fim. Ele não se lembrava de nada. Expliquei a ele que o cavalo que dá o coice não sente dor nenhuma mesmo.

Ao final do mestrado, abriu concurso para o CEFET. Fiz. Passei. Uma vaga só. Era minha, pensei. Eu quero ser professora de uma escola pública federal. Estava focada. Já tinha duas matrículas no Estado mas não estava feliz com as condições de trabalho também na rede estadual. Eu quero ter liberdade de lecionar. Quero ser tratada com dignidade e respeitada pelo que aprendi e ainda quero aprender na troca com meus alunos feita da maneira que eu achar mais bacana.

No dia em que fui pedir demissão, eu me arrumei. Mas não para sair de casa. Me arrumei como se fosse receber o Oscar. Não fui com roupa de gala.

Eu era a gala.

Fui de cara limpa. Sem maquiagem alguma como nesta foto e ainda assim estava reluzente como aqueles que não carregam saudade.

A fartura de alegria em forma de educadora deste país entrou sorrindo naquela sala em que tantas vezes fui humilhada.

“Estou com três filhos, sou mestre e, agora, professora do CEFET. Ganharei muito mais que ganho aqui e terei tempo livre para estudar e preparar as aulas que tanto sonhei. Pretendo escrever vários livros e já tenho um projeto delineado para meu doutorado”.

Assim foi feito.

Hoje sou doutora, tenho 12 livros escritos. Sete publicados e um deles foi vencedor do Prêmio Saraiva Literatura.

O diretor faleceu já tem algum tempo. Assumiu a direção outra pessoa muito pior. Conversei com colegas de lá outro dia (ficaram naquela bosta até hoje). Estão procurando bicos para complementar o salário e me contaram mais outros casos horríveis de humilhação. Eles têm que trabalhar de jaleco e as salas de aula todas têm câmeras. Não há cadeira para o professor sentar.

Há escolas particulares boas? Sim. Há. Mas são raríssimas e para poucos.

Hoje, com a experiência que tive e dos relatos que ouço, afirmo com convicção que a educação pela qual devemos lutar é a pública. Educação jamais pode ser fonte de lucro para ninguém. Não faz sentido, em essência.

Quem acredita em bondade do empregador deveria ser abraçado com muito carinho pois trata-se de uma criança num corpo de adulto. A ingenuidade faz com que muitas crianças indo atrás de uma bala caiam na mão de estupradores.

Sei que existem mais milhões de histórias parecidas com essas que contei seja de outros colegas professores ou de engenheiros, psicólogos, vendedores…

Se quiserem, podem compartilhar nos comentários.

O que nos resta é o desabafo. Obrigada por ler até aqui.