Arquivo do mês: abril 2016

Contando sobre as Cotas…

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Há quatro anos, tivemos no CEFET/RJ nossos primeiros alunos cotistas. Para entrar lá, os jovens fazem uma prova de seleção. Naquele ano, 50% das vagas foram destinadas para alunos negros, de escolas públicas e com renda baixa.

Lembro-me que levei um susto ao entrar em sala. Havia negros e alunos extremamente diferentes na forma de se expressar. Eu simplesmente não sabia como lidar. Pensei em escrever uma carta para Dilma reclamando. Se esse governo quer colocar cotistas em sala, que ao menos nos dê uma certa infra-estrutura para recebê-los! Psicólogos, pedagogos, assistentes sociais… cadê esse time para nos ajudar? Nada? Como assim?

Da mesma forma que sempre fazia com a minha turma, eu mandava o meu aluno estudar. Dizia que se ele não fizesse a parte dele, não passaria porque bababá bububú… muitos alunos cotistas não mexiam o dedo mesmo eu repetindo o discurso: você tem que estudar! Você tem que estudar!!!

Percebi que muitos não sabiam o que era “estudar” porque, meodeos, nunca haviam estudado. Era como eu virar para qualquer outro na rua que nunca, por exemplo, estudou música e falar: você tem que treinar piano! Você tem que treinar piano! O cara ia sentar em frente ao piano e fazer o quê? Não saberia nem por onde começar! Quando percebi isso entrei em desespero porque o problema era muito maior do que pensava…

O que fazer? Desistir? Deixar que todos repetissem? Mas seriam muitos! O desespero une os seres humanos que estão sob o mesmo inferno. Nós, professores, fomos conversando e juntamente com parte da equipe pedagógica, criando subsídios para esses alunos.

A ficha caiu quando um menino de boné e cordão prata veio até mim e falou: “Professora, você fala que eu tenho que estudar. O que seria exatamente isso? Eu não quero perder essa oportunidade. Me ajuda…”

Esse menino mal sabia pegar no lápis por falta de hábito…

Tivemos que lidar também com tensões e preconceitos que existiam entre eles. Por exemplo, alguns alunos que vieram de escolas particulares com família bem estruturada não entendiam por quê o colega não fazia o trabalho direito. Inicialmente, houve, em algumas turmas, segregação. No jogo de xadrez, por exemplo, onde temos peças pretas e brancas, eles perguntavam quem seria os cotistas e os não-cotistas…

Sei que criamos aulas de atendimento… preparamos nossos monitores para atender a esse novo perfil de aluno. Ensinei a aluno segurar no lápis e organizar o raciocínio para aprender física e fazer problemas de IME e ITA como fazia em todos os outros anos e dá-lhe conversas com todos os demais privilegiados para entender que não é excluindo que incluímos ninguém. Não é fazendo o mal que faremos um bem…

O que nenhum professor do CEFET admitia era baixar o nível de nossa instituição. Eles, os alunos cotistas, teriam que alcançar os demais. Foi preciso muita dedicação, hora extra, mais avaliações para o aluno ter oportunidade de recuperar a nota – dentre outras coisas maiores como, por exemplo, amor ao próximo e empatia à causa – para que o equilíbrio, enfim, fosse alcançado.

Foi preciso muito mais trabalho…

Fizemos um forte levantamento sobre o rendimento desses alunos. Quanta emoção ver as notas deles no segundo semestre se igualando aos demais colegas que tiveram muito mais oportunidades e condições para estudar. Quanta emoção… conseguimos, gente, conseguimos… estamos conseguindo…

Percebi claramente que falta de base nada tem a ver com capacidade intelectual e me surpreendi muito quando vi minha cara se esfarelando e a poesia sambando na cara do meu preconceito ou melhor, do meu desespero – no sentido, aqui, de negar a esperança.

Este ano (como em outros nas minhas turmas do primeiro ano), minha primeira avaliação foi coletiva e não individual. Os alunos tinham que fazer um grupo, estudar entre eles e, no dia da prova, eu faria uma pergunta em que somente um deles, sorteado por mim na hora, resolveria no quadro a questão por mim colocada. A nota do aluno escolhido seria a nota de todos os demais componentes daquele grupo. Essa foi uma forma que encontrei de forçar os alunos privilegiados a me ajudarem a ajudar os menos privilegiados.

Para um jovem de 15 anos, isso beirou o absurdo das injustiças. Uma aluna veio falar comigo: “professora, eu vou ter que convencer o outro a estudar como? Eu tô chamando e ele, quando vem, nada fala!”

Com muito amor e já mais experiente e segura, expliquei a ela que estávamos lidando com uma pessoa que vinha de uma realidade completamente diferente e que a forma de incluí-la não seria fazendo um chamado comum porque esse ser já tinha sofrido na pele o diabo da exclusão social e se sentia amedrontado perante os demais. “Você vai ser o diferencial na vida dele. Dependendo da forma em que se chegue a ele, você pode despertar um artista, um sábio, um colega pensante ou minar qualquer coisa boa que possa emergir.” A menina de 15 anos me olhou assustada. Nunca talvez ninguém havia lhe dado tanta responsabilidade. Continuei: “Sim. Temos que, acima de tudo, cuidar uns dos outros sempre. Isso se aprende também na escola.”

A prova foi ontem. Sem querer, escolhi o aluno com maior dificuldade. Ele foi ao quadro e falou com certa timidez natural, mas com uma segurança que eu mesma não esperava.

Ao final da aula, a aluna veio emocionada falar comigo: “Professora, fiz o que a senhora falou. Chamei o menino de outra forma e com jeitinho fui tirando dele o que ele sabia e mostrando a ele como agir. Estudamos a tarde toda. Você viu como ele falou bem?”. Havia o orgulho e a felicidade em ter ajudado o próximo e incluir um que, em outra época, seria completamente jogado às margens da nossa sociedade sendo o que chamamos de “marginal” em sua essência.

Escrevo isso sob uma emoção ainda muito forte. Quando vejo a primeira turma de cotistas se formando com louvor sem nada mais ter do que se envergonhar em termos de conhecimento em relação aos seus colegas, eu devo agradecer por essa oportunidade que esse governo me deu de fazer com que eu fosse uma verdadeira educadora. Devo agradecer pela oportunidade de me fazer unir e dialogar com os colegas e crescermos todos como um verdadeiro centro de ensino. Devo agradecer por ter me feito um ser humano infinitamente mais sensível e melhor.

Reclama da política das cotas quem nunca sentiu na pele e testemunhou o desabrochar da dignidade de um cidadão…

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Pomelo e Os Opostos

Hoje de manhã, como sempre, fui levar Yuki à escola. No banco detrás, sempre há livros e revistinhas que jogo ali sem compromisso (assim como os deixo pela casa toda). Quando estacionei o carro, Yuki falou: mãe! Olha isso! Parece você falando comigo!

O livro, a princípio (só a princípio mesmo…), é para criança de 4 anos: Pomelo e Os Opostos. Conforme fui vendo com meu caçula as imagens, íamos conversando sobre os conceitos e rindo sobre “os opostos”.

Conclusão: perdemos a hora e Yuki chegou atrasado. Orientei meu filhote a falar para a tia que a causa foi nobre: estávamos vendo poesia e digerindo palavras.

Tirei foto de algumas passagens (há muito mais) para vocês terem uma ideia do quanto valeu a pena meu filho ter se atrasado. Na verdade, acho que ele se adiantou foi muito…

(Na legenda de cada foto, coloquei nossas observações…)

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– É aquilo que vc sempre diz né, mãe. Um não existe sem o outro…

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– Tanto faz né, mãe….

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– O “sem você” é “você faz falta”, Yuki. Percebe?
– Claro né, mãe…

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Fofo demais, não?

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Fofo demais [2], não?

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– Por isso, Yuki, eu escrevo. Minhas crônicas são uma tentativa de eternizar nossos momentos…

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– Por isso você não gosta de me levar em shopping né, mãe?
– Na Lagoa e na roça não é muito melhor?
– Tirou foto ou escreveu para eternizar?
– Claro que sim, né, Yuki…

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– Por isso, acho que ser vegetariano é um bom caminho…

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– Os dois estão do mesmo tamanho, percebe, Yuki, como é uma questão do quanto sabemos a respeito que entendemos o desenho? Um ET não entenderia essa diferença mesmo a gente mostrando esse desenho…
– É mesmo, mãe…

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– Yuki, o mesmo acontece com “falar e dizer”, “ouvir e escutar”,…
– Tô entendendo, mãe…

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– Ele quer falar, mas tem medo de dizer, né, mãe?
– Justamente, Yuki…

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– 3a lei de Newton, meu filho…

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– Não importa o tamanho. Todos temos dificuldades, Yuki. E muitas vezes com coisas bem simples por causa da nossa essência.

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– Às vezes, Yuki, é só uma maneira de encarar a coisa, percebe?
– Mas e se o vaso entupir?
– É só fechar, oras…
– Até parece, mãe… tem coisa que não tem jeito.
– Você está certo, Yuki…

 

Bem bacaninha esse Pomelo e Seus Opostos, não?

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A Travessia

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Há mais de um ano me separei. Estive casada por vinte anos e namorei meu ex-marido por uns cinco anos antes de morarmos juntos. Fiz bodas de prata em relacionamento. As dificuldades que enfrento vão muito além das financeiras (eu me recuso que estas tirem as minhas noites de sono). O meu maior inimigo é o reencontro comigo mesma. Tenho procurado andar sem cair, a despeito dos tropeços. Mas quando freio a queda, percebo-me apoiando no ar. Se caio, como uma mulher que cai sozinha no meio de um campo, não sei a quem dar ou dedicar a minha queda. A impressão é que carrego dentro de mim o espaço vazio e absoluto de um cego sendo obrigada a seguir em frente.

Ainda não me habituei à música estranha que se ouve ao longo do dia feita de tantas possibilidades e cujas pausas são brandas como um delicado corte de uma espada afiada. Tenho tomado um cuidado comigo mesma como se eu fosse um embrulho pesado. Não me aceito ser guiada pela luz do fim do túnel. Acho-a estúpida e pálida. Há quem pense que somente na escuridão faz-se um grande silêncio. Ledo engano. Já estive debaixo do Sol e a sua mudez é tão clara que desnorteia.

Recuperei com muito custo um pouco do meu orgulho e, como uma pessoa que jamais reflete sobre alguma coisa, senti-me auto-suficiente. Inspirei-me na suavidade dos indelicados, a mesma que faz com que um cavalo ande bonito. Parei por muito tempo, recebendo a eternidade de um passarinho pousado em um galho, embaraçada pela necessidade de ser compreendida, da qual eu já estou livre. A verdade, pensei, é diferente se for contada por palavras equivocadas. Talvez Deus tenha feito as coisas somente para enxergá-las. Como Ele não via a montanha, Ele a fez. Assim foi com o leão e o ornitorrinco. Eu estava – imitando Deus – fazendo uma verdade para poder vê-la. Como conhecer-me jamais?

Vivi um inferno, mas o que me surpreendeu foi a paz que senti dentro dele. Os meus passos estavam me ocupando. A única coisa que havia unicamente inteira em mim, reconhecível por qualquer um, era o limite final que qualquer corpo tem. Uma espécie de barreira, vale observar. Meu tempo se ocupava em calcular a distância entre mim mesma e as coisas que via.

Em um dado momento, senti-me tão poderosa como um homem que porta uma chave (de uma porta que ele não sabe qual é (e que pode ser de um castelo que há tanto havia sido demolido)). Sem nomear nada por dentro, chamava de chave aquilo que sentia. Cheguei-me a ficar tonta de tanto que soubera. Brinquei como os gigantes que jamais se livram do seu lado infantil e abobalhado. Meu rosto havia se tornado um semblante de quem fez da desistência um insulto para os outros. O que estava claro para uns, para mim nada enxergava. Tal como a nudez de um cego…

O que é que fez com que eu, não fazendo nada por maldade, tenha me transformado em uma pessoa ruim? E ele, não fazendo nada que se aproxime de uma bondade, seja o Bom? Ah o mistério das coisas de serem como nós sabemos que elas são… como isso me deixou absorta… Com um olhar resignado, eu segurava a chave gritando de dentro de meu castelo. Pensava assim bonito porque se eu não desse grandeza e magnificência ao meu novo mundo, estaria perdida. Tornei, então, célebre tudo o que sabia ainda que se confundisse com ignorância, dado o seu vasto tamanho. Seja lá o que for tudo isso, tem muita força.

Como sou uma mulher que gosta do que precisa, apaixonei-me tantas outras vezes em tão pouco tempo… Simplesmente por ter encontrado um homem pelo caminho por quem nunca me apaixonara. Nada me preencheu como a primeira paixão que não se deve mais contar. Encontrei neles um passado que se não era meu, servia-me? Então é assim. Pensei com resignação: essa é a gravidade que temia a vida inteira e que tanto esperei, concluí com alegria de um preso que foi solto e não tem uma família para acolhê-lo. Procurei viver cada minuto para poder destruí-lo tão rápido pudesse pela necessidade de preservar a minha essência. Irresoluta e abismada, soube que a necessidade de destruir um amor era ela própria o amor. Entendi que o amor é a luta para aniquilá-lo. Era o amor assim. Tanto que se ele aparecia com o violão, acontecia de lá estar ele. Mas era um amor particular de tão bonito. Eu estava feliz. Não mais senti necessidade de reciprocidade quando o via. Queria que ele se danasse, para ser sincera. A felicidade tem dessas coisas de vingança e de egoísmo. Se ele não sente o que eu sinto…coitado… ele não sabe o que perde…

(Se isso é ser livre, então eu estava livre.)

(Mas… e essa ideia de não querer ser a forma mais desesperada de querer?)

Passei a contar o meu tempo de vida não mais em anos ou estações e sim em curvas que de tão longas mais pareciam retas. Há algo muito lento se passando de forma quase imperceptível tal como a Terra ser redonda para nós, terráqueos. Os finais de semana todos, mesmo os de inverno, passaram a ser tão longos que se tornaram uma ameaça, assim como o infinito. Meus planos eram todos vagos, se é que havia planos. Quando um aparecia com algum formato, eu me ofendia por andar tão suscetível a ele.

Eu queria ser livre como prometem a todos que nascem. Por outro lado, se em um instante nascemos e em um lapso morremos, um instante deve bastar para uma vida inteira. Ainda assim, a pergunta me perseguia: de que adianta tanto ar se não se pode inspirá-lo todo? se é aos poucos que respiramos e vivemos? Estava sufocada, vejam vocês, por tanto ar fora de mim… Ainda assim, “não poder” mas “poder se pudesse” é um tipo de felicidade.

É na impossibilidade que mora a beleza, mas é necessário que se perceba esses momentos que não se narram, tipo ao descobrirmos o nosso tamanho ao imergirmos na imensidão de um deserto. Há quem, por não saber expressar a alegria, construa pontes, poesias e vá conhecer lugares românticos. A mim, só fazia sentir algo inútil por ter emergido. Porém, quando alguma coisa parece dizer qualquer coisa é quando há um encontro com o sentido de tudo isso. Se há reencarnação depois da morte e a consciência de ter vivido não pode existir, quando o passado vai ficar desapercebido para mim? Se assim fiz foi porque tendo feito, de muito eu precisava, e de muito mais do que sempre fui. Havia um futuro se esboçando que só se conhece os detalhes a medida em que ele vai sendo criado.

Eu era, pela primeira vez, de mim mesma.

E, assim como jamais gritei de alegria ao ver um filho dando o seu primeiro passo para que ele não se assustasse, eu não demonstrei a menor alegria dentro do inferno que é a escuridão. Sim. Porque os passos dados para a frente são sempre às cegas como é o progresso dos que querem muito.

Tornei-me uma mulher com uma dúvida colossal: o que é que uma mulher faz? Antes de ir em frente, precisava saber se era inocente ou culpada. Queria saber se Jesus fosse vivo também me amaria sem me entender e se me daria a mão sem hesitar. Eu estava me julgando e é muito difícil fazer o curativo em si próprio sem nenhuma anestesia. Mesmo porquê, as minhas verdades não suportavam muito tempo de atenção sem que se transformassem em outras verdades. Imutável eram apenas as imagens dos porta-retratos. Quero apenas me reconstruir. Mas dar essa ordem a mim mesma é como dizer: toque a nona sinfonia de Beethoven no piano sem que eu nunca tenha ouvido e nem tocado outra música em nenhum instrumento. De que adianta ser livre se nunca soube andar por minha própria conta? Eu tenho que ter muita paciência comigo mesma, pois sou lenta e há algo dentro de mim que quer sempre ser confundido com o que já fui. Mas, enfim, fui convocada. E resolvi experimentar a liberdade que tem um passarinho ao sair da gaiola com as asas cortadas.

Já, ao menos, compreendi que não há esse papo de não ter nada a perder. O que há é um alguém que arrisca tudo, pois por detrás desse nada estamos nós que não podemos perder. Mantenho a calma com o corpo todo se tremendo. Agora que alcancei a minha própria grandeza, agora que preenchi todo o meu deserto tal como fazemos quando nascemos, ficarei afobada na primeira grande luta comigo mesma? Se eu quero chegar em outros lugares, preciso destruir totalmente o que já fui um dia: um ser altamente dependente de seu grande amor. Há ainda eu mesma, lembro-me sempre, e eu sou uma tentação constante tal como um mosquito pousado na parede esperando somente uma chinelada.

Nossa… como me atrapalho toda… é que eu estou muito desamparada e sinto a necessidade de me doar, que é a minha forma desajeitada de pedir um abraço. Tanta ambição sem apoio algum… se eu for dar importância ao que me importa destruirei a minha vida… Mas também já sei – sem conseguir, contudo, como me expressar – que é morrendo que se renasce. Meu Deus, como estou confusa… e os dias estão tão bonitos que aumentam toda essa minha desgraça…

Mas… será necessário entender o que se acontece? Será mesmo importante saber o que se está fazendo? Se reconheço no meu lento caminhar a minha nova formação, por que devo traduzir em palavras que me limitam e comprometem retirando a liberdade conquistada? A verdade, se querem saber, é que aceitei a minha grande contingência. A mesma que todos nós recebemos. Cada instante pode ser uma vida inteira se estivermos livres o suficiente para atendermos a esse instante. Sei disso porque em um instante aceitei a dor, no outro, não tive medo de crescer e, em um último, aceitei o papel de ser mulher que é jamais entender se há uma finalidade planejada ou uma necessidade ainda que confusa, que é jamais saber até que ponto se é tão determinada. Será mesmo verdade que é do que se desiste, se vive?

A travessia parece tão longa que passei a me distrair com as pedrinhas e com as bolhas que formam nos meus pés sempre descalços. Livre. Pela primeira vez desde que me entendo por mulher: livre. O que faço? Faço o que as presas fazem: amo quem me devora. Marquei um encontro comigo mesma e me atrasei olhando as crateras da estrada. Foi assim que me perdi. Tinha um amor dentro de mim que não ia embora porque quando nascemos, amamos. Mas não via nesse amor a menor necessidade de ser vítima dele, de sua piedade, de precisar castigá-lo. Se não tomasse cuidado, quando o pensamento ia por essa esteira, poderia desistir de ir adiante. Estava tendo prazer em pensar sobre mim mesma. Mais feliz, como se vê, não poderia jamais estar…

Essa ideia de ser independente sempre me apavorou. Como assim me imaginar um ser que não precisa de nada? Se isso é melhorar como pessoa, não quero progredir espiritualmente. Que eu me reencarne um milhão de vezes e todas elas desejando porque o que é uma alma livre senão um mal-estar dos dias presos no meio das florestas?

A tentativa de me inocentar me levava a uma objetividade de um quadrúpede, aquele que pensa sem palavras. E eu sou uma mulher de palavras. Entender, no entanto, pode significar fazer um pacto com a solidão. Tente, por exemplo, responder por qual motivo urubus voando aumentam em profundidade e perspectiva a nossa visão sobre nós mesmos. Por isso desistia de me compreender. Se é impossível entender os outros, por que perco meu tempo em decifrar-me?

E assim como todos, virei muito mais aquilo que silencio do que verbalizo. E, muitas vezes, quando dizia “veja isso aqui!”, aliviava-me porque sabia que estava declarando meu amor. Quisera algo maior?, então, que agora aprenda a me expressar em outras línguas. Algumas vezes, dava a impressão que alguém estava me castigando, mas vinha junto com uma outra de um avanço, pois o sonho é maior sempre do que a realidade. Passara a sonhar. E em vários momentos de erros de raciocínio que me são muito comuns, eu me pergunto se valera a pena tantos sonhos inusitados. Como assim uma pessoa investe  a sua vida em outra pessoa? A descoberta de tanta ignorância que cabe em mim, fez-me um ser satisfeito tomando uma sopinha sem sal se convalescendo. Antes plena de ignorância do que de esperança. Sem nenhuma desilusão, o futuro me espera.

Ledo engano… Eu quero estar à altura de amores célebres e não há como tirar do meu coração esse peso que é amar. Mas… quando estou diante de um homem e me sinto uma mulher… isso também não é uma forma de amor? O sexo… o que ele pode ser para mim agora? Seria quando ambos tomassem para si o que não era seu sem que isso significasse furtar nada? O que seria essa vontade de presentear-me que é maior do que tenho a presentear? Quero entregar a alguém todo esse vazio no qual estou plenamente. No querer me dar mais do que dar, há comunhão? Em mim, está o mundo inteiro a esperar de você a esperança. Não consigo, confesso, livrar-me dessa ameaça que é a minha ânsia de viver profundidades.

Mas veja que confusão: de pensamento em pensamento (a maioria deles sempre me escapando), percebi que falhei na criação de um futuro, tal como Deus, se existir e for O Criador de todos nós. Ao menos, tenho um passado bem criado. Algo na mão eu tenho… e isso me faz ter a sensação de estar poluindo algo sagrado conforme sigo em frente. Como me tornei infeliz, penso eu com a serenidade de quem olha o horizonte. Isso que estou sentindo é felicidade. Mas como se parece com a infelicidade meu deus… Desisti de usar os recursos da compreensão quando percebi que estava plena daquilo que não sabia que nome dar e chamo de “amor”. Enxergo com meus olhos. De repente, tantos olhos… E se esse risco iminente de tudo poder acontecer seja a felicidade? De repente, tantos sonhos…

Meu Deus, se você existir, eu te perdôo por tudo isso que tem me feito passar. Digo isso porque só sei amar os que me fazem sofrer. Essa vontade de arder no inferno que todos (os confessos) sentem e muitos se lixam para esse grande chamado que colocou em mim, Deus… essa vontade… não percebo nela a força da maldade. Ser capeta é muito mais difícil do que ser santa. Agora cá estou com esse sentimento quente que ninguém pode usufruir por entender que foi considerado pecado mais por ser bom do que ruim porque se trata de um sentimento verdadeiro e a verdade é uma ousadia.

O que me leva preferir um ambiente de ratos mortos, de dor explícita, de trabalho árduo aos cantos dos passarinhos e às tagarelices e alegrias das flores? Uma coisa é certa: “até que a morte nos separe” não procede em mim, tenho horror às pombas brancas que me são enviadas como mensageiras da paz e o que é sólido é o que pode se quebrar.

Eu não sei exatamente com o quê estou lidando. Entendo que a compreensão é feita através das palavras não ditas e não entendo a minha necessidade de escrever. Dizemos a verdade quando a negamos de forma delicada. Sei que aceito humilde o medo e toda essa insegurança como quem aceita um batismo. A minha coragem é a de viver apavorada sustentando uma certa paz interna. Estou tendo muito mais do que pedi, pois o amor é tudo isso. Considero-me uma ameaça para outros, pois tenho a tirania dos que necessitam.

Diante a paisagem ao longe, seguro o meu ventre com as mãos, pois, o futuro que espero é um parto difícil e me dá cólicas só em pensar. Vejo beleza em tudo e essa é a minha maneira de entender. Aprendi que, as coisas quando olhadas de perto perdem a forma e, de longe, não são vistas.

No escuro, reconheço tanta coisa tal como um cego conhece os objetos apalpando. Na claridade, porém, os olhos não reconhecem aquilo que minhas mãos sabem. Não é raro, portanto, diante de um dia bonito, minhas pálpebras ficarem fechadas. Estou procurando entender o que sou diante do que fui. Ao que me parece, sou aquilo que o impossível criou em mim.

Da solidão, muitos fogem porque é no deserto que se compreende o que dizem quando falam sobre o inferno, e tudo aquilo que uma mulher não acredita quando está acompanhada, sozinha ela observa. Admirei o vôo de uma Fênix planando em cima do Pacífico. Com surpresa, conheci-me profundamente.

Apenas superficialmente, agora eu me escapo…

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