O Grito

Houve um pesadelo. Acordada, ainda em prantos, senti mais medo do que nunca, pois experimentei na pele uma dor que julgava há tempos ser insuportável. Já estava amanhecendo e aos poucos tive que me levantar. Reerguer-me para acordar as crianças.

Houve desespero a ponto de fazer-me tentar rezar. Inutilmente. Cancelei a consulta com o analista não por covardia. Pelo contrário. Já que a morfina da oração não funcionaria, que o sofrimento viesse à tona sem interferências. A sós. Como o próprio pesadelo. Precisava buscar o refúgio e o calor em nenhum outro lugar senão nas minhas próprias reflexões e enfim, organizar-me dentro de mim. Se houvesse aqui em casa uma janela com alguma paisagem bonita não enxergaria a quantidade de coisas que ouviria de mim mesma ao apoiar meus cotovelos no parapeito e sustentar meu rosto com as mãos. Talvez ajudasse, no entanto, a ouvir-me mais. De repente é melhor que esta janela não exista.

Houve a cena de um filme dois dias após o pesadelo. Robert de Niro fazia o papel de um viúvo e pai de quatro filhos que moravam em lugares diferentes neste mundo. O filme era o pai solitário buscando um reencontro com a família que lhe restara. Aparentemente a realização dessa simples e agigantada vontade escapulia do futuro como um peixe vivo nos escapa das mãos. Inquietei-me parecendo um asmático em crise. Não sabia que ainda estava perdida, pois não sentia nada que se assemelhasse a infelicidade. Longe disso. Veio, porém, o choro descontrolado bem no meio do filme por viver plenamente feliz. Por sentir-me no vértice de um triângulo isósceles e simplesmente saber que a base existe. A base do triângulo é o meu pesadelo.

Houve, quatro dias após, o deslumbre da foto de meu sogro que eu jamais conheci . Algumas lágrimas retidas a toda força por meu marido durante todos os anos que engoliu a ausência cruel de seu pai escaparam pelos meus olhos. Tanta coisa tive vontade de falar para um retrato. Eu parecia estar a ponto de rever uma grande amiga que mora longe. Queria mostrar meus filhos, dizer que estou tentando emagrecer, apresentar meu pai, falar que sou o vértice do triângulo isósceles…que fossem apenas dois minutos de convivência! Eu precisava conseguir rezar… a dor estava se tornando insuportável.

Houve, como se não bastasse, os contos da Clarice Lispector, a voz de Renato Russo, Leibniz e a queda de temperatura típica nos meses de junho. Parecia que nada me fazia desviar daquela torrente.

Houve a consulta ao analista onde tudo foi contado sem peso. A força da gravidade nas palavras foi propositalmente enfraquecida. Camuflei-me para o profissional, pois já era hora de distrair-me. Com urgência.

Houve, enfim, a despedida com o meu inconsciente e o reencontro, já em tempo, com a minha miopia. Zélia Gattai, Lie to Me, Friends, Maurício de Sousa, abertura da Copa, reforma no banheiro e galeto na brasa com muita farofa. Visita de sobrinha e irmã que moram longe, aniversários de amigos, dia dos namorados, muito trabalho, cinco taças de vinho e a volta a atividade física. Fui apresentada ao Ítalo Calvino nas aulas de italiano, dancei sozinha La Gatta de Gino Paoli e vi um assalto. Vi também Julia & Julie, continuei sem falar nada nas aulas de filosofia e esbocei alguns desenhos (nas aulas de filosofia). Visitei os bichos no jardim zoológico. Descobri o sabor de morango com Nutella e mostrei para Nara, para o Yuki, para o Hideo e para o Nelson o que era aquilo. Minha irmã pulou de parapente.

Houve, talvez, a oração. Numa queda vertical olha eu aqui vivinha. Talvez eu deva ser mais sincera na terapia, talvez eu deva procurar uma janela com uma bela paisagem, talvez. Tenho dúvidas, porém, se é válida uma outra tentativa de encontro. Quem sabe seja uma atitude inteligente não querer e muito menos tentar compreender muita coisa? Por enquanto, não me permito fechar mais os olhos e a porta da minha consciência a ponto de deixar que imagens sem lógica reapareçam. Forte, respirando como se inspirasse ar puro. Cantando o mais alto que consigo quando estou em pleno engarrafamento. Cá estou eu. Feliz como uma convalescente tomando uma canja gostosinha.

12 Comentários

Arquivado em Crônicas, reflexões

12 Respostas para “O Grito

  1. ELIKA,QUE TEXTO DE FÔLEGO E ABSOLUTAMENTE, ENVOLVENTE.SEM CANSAR, FUI ATÉ O FINAL.ESTÁ DE PARABÉNS!NÃO CONHECIA O SEU BLOG.ACHEI REALMENTE, MUITO INTERESSANTE E TENHA A CERTEZA DE QUE VOLTAREI SEMPRE AQUI.TAMBÉM, APROVEITO PARA CONVIDAR VOCÊ A CONHECER O MEU BLOG:“HUMOR EM TEXTO”.A CRÔNICA DESTA SEMANA NOS ALERTA SOBRE OS RELACIONAMENTOS HUMANOS DISSIMULADOS E ENGANOSOS.SE PUDER, CONFIRA E SE QUISER COMENTE, POIS LÁ O MAIS IMPORTANTE É O SEU COMENTÁRIO.UM ABRAÇÃO CARIOCA!

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  2. Paulo,Seja bem vindo! Obrigada pelo comentário.Fui lá, já conferi sua arte![]s

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  3. Meu amor,Você está escrevendo como gente grande, e quando eu digo grande, não quero dizer que você está escrevendo bem, e sim como os melhores.Estou muito orgulhoso.Acho que você faria algo sensacional se perdesse o medo e escrevesse um conto. Aí depois viria outro e depois outros, até surgir um grande romance; pois tenho a certeza de que você tem a capacidade, o talento e a disciplina necessária para tal.Beijos

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  4. Oi Nelsu!Você é suspeito para falar… :-)Vou pensar nessa história de conto. Não é medo, é que não tenho ideia mesmo já que eu só escrevo sobre mim mesma. Mas vou me concentrar, pódexá.Beijos

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  5. "Corajoso é não cabra que não tem medo, não. Corajoso é aquele que, na hora do vamuvê, quase mijando de horror, transforma a urina num grito, cerra os dentes e parte pra cima do Bicho-mais-feio-que-pode-haver." A humanidade me dá um orgulho danado, quando penso nisso. Desde sempre perdendo tanto, e sempre (ou quase)andamdo em frente. Muitos tropeçando, meio perdidos. Outros com dentes cerrados, gritando pro Mundo…E uns poucos, bem poucos, de forma sublime…Transformando aspereza em mel.Obrigado Elika, como sempre.Assis Dutra

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  6. Obrigada você, Assis.Mas não transformei aspereza em mel não. Apenas coloquei cada um no seu devido lugar.[]s

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  7. Eu imaginava que a íamos à cigana para saber o significado do pesadelo com a Esfinge na noite anterior, e que nos assolava. O que ele prenunciava? Qual seria o nosso destino? O que nos aconteceria? E o meu pesadelo teve uma peculiaridade, a esfinge se despregou do solo e avançou com suas asas de pedra sobre mim, que não conseguia sair do lugar.Ao contar para ela, fui eu que aprendi. Não saberia nada do meu futuro com ela. O pesadelo não prenuncia nada,ele é apenas o reflexo dentro de nós, de algo que vimos, sentimos ou passamos, sem perceber imediatamente a sua importância. Ah…então tá!Fiquei sem entender nada, atônito. Foi quando ouvi: tenha calma. Pense. Nem sempre estaremos de bom humor. Nem sempre queremos ser apenas felizes. (!!) Eita cigana brava. E que texto bom. Sério e bem humorado, com o talento de sempre. Peço desculpas, pela invenção nonsense. Beijo.

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  8. Pedir desculpas??? Fala sério, Djabal!!!É…eu sei que ele, o pesadelo (com seus monges budistas, freiras esquisitas, espadas de samurai, com direito a apenas uma ligação e o retorno só – por ter sido a única sobrevivente de uma chacina – à casa sem som e empoeirada) vai voltar.Enquanto isso, cá estou eu, leve de novo.Rindo à toa.beijosss

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  9. dessa vez é sem palavras.Li

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  10. Deise!!!eu te amo também!!!!!!!!

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  11. Oi , sou uma garota que já passou por muito, e parece que tambem cada dia perco a pessoa/as que mais amo…Escrevi muitos poemas sentidos pela dor a falar , mas um dia decidi escrever este texto : O amor por vezes é como fosse uma "guerra" …Num dia tanto estamos bem,como no outro só sentimos dor.Amar devia ser um sentimento agradável,mas rapidamente se torna numa angustia , num pensamento, numa marca ou num fim.Se AMAR é sofrer porque amar ?Se AMAR e escolher porque tentar?O amor faz-nos sentir bem,faz-nos pensar,faz-nos ter uma direção.Mas quando isto tudo acaba a palavra e o sentimento de amar não passa de uma frustação sem comparação !

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  12. Caso gostem agradecia que fizessem um comentário 🙂

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