Arquivo do mês: agosto 2011

O Fim do Grande Mistério de Ricardo Cardoso

Eu estava numa festa, no meio de amigos e o tempo suficiente para que a maioria deles já estivesse sob o efeito ainda agradável do álcool. E eu não bebo. Não porque não queira, não porque acho feio e, muito menos por causa de religião. Não bebo porque não posso. Infelizmente não posso. Minha prima Elise me explicou um dia que é porque eu tenho deficiência de aldolase que é a enzima do fígado que age na segunda etapa da metabolização do álcool. A metade da população japonesa é assim. Sem aldolase.  Daí que o subproduto da primeira etapa da metabolização é tóxico e causa taquicardia e vasodilatação. Fico vermelha como um tomate e se alguém colocar a mão na minha cabeça consegue medir meu pulso. É melhor ficar só na coca-cola mesmo. 
Há tempos percebo que todos meus amigos quando bebem acabam sempre filosofando. Uns com mais, outros com menos, mas sempre com uma certa profundidade. Depois de um certo momento é fácil encontrar alguém falando olhando para o zero, para si ou para a alma de outrem.
Nessa festa não foi diferente.
Estava eu, então, indo abastecer meu copo de refrigerante quando Ricardinho do Isopor, assim conhecido entre os amigos por participar das nossas rodas de samba acreditando que o encontro de sua mão com o fundo de uma caixa de isopor produz algum som agradável, se colocou na minha frente com um sorriso no qual se via, além de todos os dentes da frente, os sisos. Um troço de doido. Animadíssimo, é claro, perguntou-me:
– Elika, qual é o grande mistério da vida?
Boa. Eu havia falado sobre isso essa semana com a Nara. Disse a ela que eu entendo a teoria da relatividade, mas não há teoria que me explique como algo tão duro como um milho se transforma em algo tão macio como a pipoca. Ao jogar os grãos na panela sinto-me fascinada. Isso não é natural. É sobrenatural, Nara!!!! Mas, não deve ser essa a resposta que Ricardinho esteja querendo ouvir…
Pensei na minha tese que está em vias de elaboração. A inércia! De onde vem essa propriedade dos corpos? Será que vem das estrelas? Enquanto pensava na pergunta contraía os músculos da testa e apertava os olhos tentando lembrar do último artigo que li sobre isso, mas ao retomar o foco para o rosto do Ricardinho do Isopor com os seus olhos esbugalhados e todos os seus dentes  ainda a amostra, percebi que ele não estava querendo ouvir sobre a inércia…
Lembrei-me, então, da Santíssima Trindade, do ilusionista que empurra moedas pelo vidro, do Hideo e da Lua que fica grandona às vezes. Não necessariamente nessa ordem. Diante da minha demora, Ricardo me fez outra pergunta na ansiedade de compartilhar o que lhe tirava o sono (ou não, como veremos). 
Seguirá na sequência um diálogo sem precedentes na minha vida:
– Você já deixou de pagar alguma conta por esquecimento, Elika? – Perguntou Ricardo para a minha alma.
– Já. – Confessei.
– Como você se sentiu, Elika? – O olhar de Ricardo atingia o meu cerebelo.
– Mal. – Respondi abaixando a cabeça.
– Você já deixou de dar um recado importante, Elika?- Lembrou-me Ricardo, sem nada saber a respeito, do fato d´eu ter quase acabado com um casamento.
– Já. Já. – Respondi com o queixo ainda escondendo meu cordão.
– Como você se sentiu, Elika? – Os sisos do Ricardo não estavam mais visíveis. 
– Mal. – Disse após um longo suspiro.
– E se lembrasse dessas coisas um pouco antes de dormir? Admite que isso poderia tirar o seu sono, Elika? – Eu já não via o Ricardo na minha frente. Ele havia se transformado no Voldemort!
– Sim!Sim! Claro que sim!
– Mesmo sabendo que não seria um caso de vida ou morte… você ainda assim !!! ficaria mal, Elika? – UUUrrúúrráááááááááá. Vi os molares de novo.
– Mal. Mal! – Avemariacheiadegraçaosenhoréconvoscobenditosoisvóis…
– O que é uma conta ou um recado diante da certeza de que nós morreremos?– Filosofou.
– …
– Como você consegue dormir sabendo que um dia tudo isso acabará??? Eis o grande mistério da vida.
 – … –   Ãããhnn?
Ricardinho mantendo o sorriso após a última pergunta, de repente levantou os braços como se tivesse acabado de ver um gol do flamengo e continuou:
– Nós somos emoção! Tudo é emoção! A vida é emoção!
Quando a porta do banheiro se abriu e ele entrou.
Glub.   
Fim  de festa. Voltamos para casa. Colocamos um filme para ver e Nelson dormiu antes que o nome do filme aparecesse na tela. Vi o filme todo. Depois peguei meu livro. Li um tanto. Já era tarde. Levantei-me para ver se as crianças estavam cobertas. Voltei a deitar. Como você consegue dormir sabendo que um dia tudo isso acabará? Como você consegue dormir sabendo que um dia tudo isso acabará?  Como você consegue dormir sabendo que um dia tudo isso acabará?Como você consegue dormir sabendo que um dia tudo isso acabará?
Foi  o fim do grande mistério da vida de Ricardo Cardoso.

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Ricardo Cardoso fala através de parábolas mesmo sóbrio. Essa é a verdade. Esse texto foi uma homenagem e a prova de que o que ele fala não é fácil de esquecer (quando conseguimos compreendê-lo). Meu amigo, espero que receba tudo isso na esportiva e que os nossos diálogos rendam outras histórias. Grande beijo procê!

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Se esse texto agradou,  quem sabe você não goste desses também?

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Para Nara.

Eu gostaria de explicar para Nara, que anda angustiada no auge de seus treze anos com a falta de tempo, que não podemos fazer tudo o que queremos e, principalmente, na forma que queremos, tendo o dia um número de instantes pré-determinado.  Pensei em dar exemplos pessoais, mas percebi que através deles não mostraria a dimensão dessa proposição. Ela poderia acabar pensando que possivelmente isso seria uma limitação somente minha, continuar acreditando que possui super poderes e ter, por fim, a ansiedade centuplicada. Como fazer com que a Nara entenda que há felicidade num lugar onde faltam tantas coisas importantes? E mais, como mostrar que essa é uma lei universal contra a qual qualquer luta será em vão?
Compartilho, hoje, uma tentativa:
Minha querida Nara,
Tudo o que não é verão é comedido
e o que não é outono não se renova
… se não for inverno pode ser levado a sério?
Como se sentem os fotógrafos
Quando não estamos na Primavera?
É isso. Espero que ela me entenda…

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Sistema Nãovounicano

Uma das situações mais incômodas no que tange à convivência social é quando alguém nos convida para algum evento cujo qual não temos o menor interesse em participar. Nessas horas surgem as famosas desculpas esfarrapadas que nem sempre surtem um bom efeito. Às vezes elas não convencem e acabamos por magoar quem nos considerou a ponto de nos convidar seja lá para o que for.
Lendo o livro O Homem e o Universo de Arthur Koestler, agora vejam, descobri uma carta escrita por Copérnico, aquele que disse que o centro do sistema solar não era a Terra e sim o Sol. O criador do sistema heliocêntrico, lá pelos idos de 1500 e tal, recusou dezesseis vezes o convite de um bispo chamado Dantisco para visitá-lo em seu Castelo de Loebau. Em todas as ocasiões nas quais a resposta foi negativa, Copérnico discorreu de forma que o anfitrião, apesar de suas recusas, não se sentisse mal. Ao ler algumas dessas cartas, cheguei à conclusão de que Copérnico não foi mestre só no quesito astronomia. Não acredito que tenha havido na história outro ser que dissesse “não” com tanta elegância e enrolação.
Segue uma  das cartas para a vossa apreciação e vosso aprendizado:
Recebi a carta de Vossa Reverendíssima e bem compreendo o favor e a boa vontade de V.Senhoria, que teve a condescendência de estender não somente a mim, senão também a outros varões de grande excelência. Creio que não deve certamente ser atribuído aos meus méritos, mas à  conhecida bondade de Vossa Reverendíssima. Praza a Deus ser-me possível, um dia, merecer essas coisas. Rejubilo-me, indiscutivelmente, mais do que se pode dizer, de haver encontrado tal senhor e patrono. Contudo, no que tange ao convite de Vossa Reverendíssima Senhoria para que eu a visite em 20 deste mês (o que faria da melhor boa vontade, tendo motivos inúmeros para visitar tão grande amigo e protetor), a má sorte mo impede, pois em tal ocasião vários negócios e necessárias circunstâncias obrigam a mim a permanecer neste lugar. Por conseguinte, solicito de Vossa Reverendíssima Senhoria não tome a mal a minha ausência naquela oportunidade. Suplico seja a minha ausência tomada por bem e que Vossa Reverendíssima Senhoria reserve a velha opinião a meu respeito, embora eu esteja ausente, pois a união de almas é superior à união de corpo. Noutros respeitos, prontifico-me, como me cabe, a satisfazer Vossa Reverendíssima Senhoria, uma vez que o dever me obriga a fazer outras inúmeras coisas, na maneira pela qual Vossa Reverendíssima Senhoria houver por bem indicar-me, noutra ocasião, o que deseja. Confesso que não estou obrigado a satisfazer-lhe as solicitações, senão obedecer-lhe as ordens.”
Grande mestre…
Aos meus queridos leitores, em toda a felicidade, recomendo os meus humildes deveres e desejo-vos perpétua boa saúde.

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Aprendendo a sorrir.

Resumindo. Fui lá na dermatologista como sempre para renovar a receita do ácido retinóico. Reclamei com ela que quanto mais eu gasto com remédios dermatológicos com mais rugas eu fico. Ela me ouviu, conversou bastante, me explicou um punhado de coisas, mas percebeu que eu rio de qualquer coisa e com os olhos quase fechados. Pegou uma lupa, falou algo e eu morri de rir enquanto ela me olhava através da lente de aumento.
– Não pode. Você não pode rir assim senão vai marcar muito o seu rosto.
– Eu não estou brincando. Você tem que aprender a rir de forma mais comedida.
– Assim?
– Não! Você não pode fechar os olhos! É isso que está marcando seu rosto!
– Ai senhor! Tenha dó! Como vou fazer isso? Assim, então?
– Isso! Veja só. As suas linhas de expressão nem aparecem! Quanto mais você esticá-las melhor! Aprenda a rir assim que elas vão dar uma minimizada.
Fazer o que, né? Vim para casa chateada com o tamanho da minha desgraça, mas decidida a ficar com a pele esticada. É só uma questão de costume.Mal meu marido chega em casa, me conta um troço e depois quase morre de susto. Me deu uma bronca danada…

 – Eu só posso rir assim agora, pô! Foi a dermato que disse!Difícil vai ser se acostumar…

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