Arquivo do mês: setembro 2016

Medida Provisória: Cinco pontos a esclarecer sobre a Reforma do Ensino Médio.

mpro

Vivemos um momento em que o país se encontra extremamente dividido e que testemunhamos um diálogo de surdos quase todos os dias. Não importa mais o que aconteça. Sempre haverá, no mínimo, duas versões: a da esquerda e a da direita. Se não há fatos e somente narrativas, como defendem muitos filósofos, temos hoje, ao menos, duas verdades contraditórias coexistindo. Para exemplificar isso, tratarei do assunto tão em voga e urgente que é a reforma do Ensino Médio por meio de uma Medida Provisória instituída pelo Ministério da Educação (MEC). É bom observar, para quem não sabe, que a Medida Provisória é um ato do presidente da República que passa a valer imediatamente como lei. A justificativa da pressa é a relevância do tema, coisa que ninguém pode negar. O que tem dado muita margem para grandes discussões é essa urgência que, para muitos, soa como algo impositivo e pouco democrático. Vamos, então, analisá-la.

É nítida a necessidade de mudança. Os problemas que enfrentamos são gravíssimos. Vão desde um currículo extremamente superficial, em que a maioria das matérias não tem a menor utilidade para a vida prática (com escolas chegando ao número de quinze disciplinas) até a deficiência na infraestrutura, passando pela escassez de recursos, a falta de professores capacitados e as inúmeras propostas pedagógicas inadequadas. As mudanças que se vislumbram, no entanto, dependem dos interesses de quem as formula.

Temos um país com uma história marcada pelas desigualdades sociais. O projeto de escola que temos hoje é excludente em sua base e está na raiz da nossa formação como país. O Ensino Médio é uma etapa de suma importância nesse processo, pois ele é decisivo na trajetória do futuro cidadão e ditará como o jovem vai mudar ou ajudar a reproduzir os valores da sociedade na qual (sobre)vive.

A nossa realidade hoje é que, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 1,3 milhão de jovens entre 15 e 17 anos deixam a escola sem concluir os estudos, ou seja, menos de 60% dos jovens brasileiros terminam esta etapa de escolarização. Para piorar, desses que se formam, menos de 10% sabem o fundamental de Língua Portuguesa e Matemática.

Os motivos para a evasão são vários. Estamos falando de Brasil, então, de muitos jovens de baixa renda, em sua maioria negros, que trocam com frequência os estudos por um trabalho precário, ou de meninas que engravidam já na adolescência. Porém, ainda que não sejam essas as razões, grande parte afirma que a escola é desinteressante ou irrelevante para a sua vida. De fato, a baixa qualidade do ensino e um currículo, especialmente no Ensino Médio, enciclopédico e com pouca flexibilidade para escolhas não são atrativos para ninguém.

Isto posto, está claro que precisamos de mudanças e temos que concordar que é complicado mexer no ensino sem dor e  polêmica. O ponto é se as que estão indicadas na Medida Provisória vão transmutar para melhor ou para pior a escola pública, já que as particulares tendem a sobreviver e a salvar seus alunos pagantes sob condições adversas. No mais, o fato de essa medida provisória vir de um governo cuja legitimidade é colocada em xeque todos os dias nas ruas e nas redes sociais e cujas outras medidas tomadas nesses poucos meses virem de encontro à diminuição da desigualdade social não facilita a discussão, já que qualquer ideologia, por mais linda que ela seja, cega quem dela se nutre.

Vou me concentrar nos pontos mais polêmicos.

1º –  Ouvimos que matérias seriam retiradas e só seriam obrigatórios Português e Matemática. Verdade ou mentira?

Depende. O que acontece é que o currículo foi flexibilizado, como ocorre, vale observar, com os países mais avançados no campo da Educação, onde podemos escolher o que queremos estudar. Ou seja, “flexibilização” é uma palavra, diria, do bem, pois permite a personalização desta etapa para o projeto de vida de cada indivíduo. No entanto, ao contrário dos países que estamos seguindo como exemplo, as escolas não terão obrigatoriedade de oferecer todas as disciplinas. Se uma escola em determinado bairro, por exemplo, achar que não deve oferecer Filosofia ou Física pela falta de procura, assim poderá fazer. E se o aluno quiser? Poderá procurar outra escola. Sabemos, no entanto, que isso não é tão simples para muitas pessoas.

É ponto pacífico entre muitos educadores o quanto o esporte traz de valores para quem o pratica e que influencia diretamente no nosso emocional nos ensinando a perder, a sermos mais empáticos, a lidar com a nossa autoestima… e que a arte aprofunda a nossa sensibilidade e nos ajuda a fazer outras leituras do mundo. Artes e Educação Física estão claramente delegadas a um segundo plano na MP. Oficialmente, não foi decretado o fim de nenhum conteúdo, ou melhor, de nenhuma disciplina. Porém, o que foi publicado destaca que Artes e Educação Física serão indispensáveis aos ensinos infantil e fundamental, sem mencionar a obrigatoriedade ao ensino médio (assim como várias outras matérias). Isso modifica a Lei de Diretrizes e Bases (LDB) da Educação, em que ambas são obrigatórias durante todas as etapas da educação.

A flexibilização do currículo pode significar, dado o texto da MP, que os sistemas de ensino se ajustem às demandas de técnicos feitas pelas corporações e empreendimentos locais, abastecendo as empresas. As desigualdades de formação poderão se intensificar, já que é possível que tenhamos uma elite continuando seu processo de formação rumo à universidade e, consequentemente, atuando no futuro em profissões que pagam melhores salários.

2º – A Medida não foi debatida e sim imposta. Verdade ou mentira?

Depende. A reforma do Ensino Médio vem sendo debatida há anos por especialistas e técnicos do Ministério da Educação – MEC na Comissão Especial de Educação do Congresso desde o Governo Dilma.  O que muitos não esperavam é que a mudança viesse a galope em forma de uma Medida Provisória em um momento que temos como protagonistas nomes como Mendonça Filho, Maria Helena Guimarães de Castro ou Rossieli Soares da Silva, considerados por muitos como administradores e não educadores em sua essência.

Esta é uma reforma muito complexa, que exigirá várias etapas extremamente cuidadosas para dar certo. Fica mesmo complicado entender como se pode melhorar a qualidade da educação por meio de uma Medida Provisória que, para muitos, revela o caráter profundamente autoritário dessa reforma, já que a formulação de políticas educacionais avança mediante aprofundamento do tema com a participação dos diversos segmentos sociais, de forma a contemplar a diversidade de ideias. As pessoas que estão liderando essa MP claramente dialogam com mais simpatia com determinados grupos que não representam um plural majoritário. A discussão poderia continuar no Congresso, já que se trata de uma proposta de alterar muitos componentes da modalidade de ensino médio e do quão complexa será essa mudança.

Então, estava acontecendo um debate. Mas este não estava ocorrendo em toda a sociedade com os representantes de várias entidades, da comunidade escolar e das universidades de todo o país. Se isso é possível, também é difícil responder. Quanto ao fato de as medidas estarem sendo impostas, temos motivos para acreditar nisso, já que houve uma espécie de atropelamento de um processo que estava acontecendo. Vários pontos já haviam sido debatidos, outros não, a prova disso é que há várias mudanças na MP que não sabemos como poderão sem (ser) implementadas pelo fato de não terem sido discutidas a ponto de se chegar a um consenso.

3º – O que se vê é mais um retrocesso em relação às conquistas democráticas. Verdade ou mentira?

Temos muitas razões para crer que seja verdade. A MP coloca vários pontos que dão margem para que entendamos que há um interesse em aumentar a desigualdade social no país. No mais, o fato de vivermos em uma democracia institucionalizada e de as mudanças virem através de uma MP e com essa urgência parece-nos um tanto suspeito. Ainda que na MP a flexibilidade seja contemplada e que, de fato, seja um caminho a ser seguido – já que existe na Finlândia e na Coreia e que demonstra uma intenção de melhoria no EM -, é necessário levar em consideração a nossa realidade. Por exemplo, há um contingente bem considerável de alunos  do EM no curso noturno, mais precisamente 30% do total de matriculados. Como atendê-los de forma satisfatória? Não estaríamos criando um abismo maior entre os alunos e as escolas, já que umas vão mudar o método e outras não? Como essa reforma será financiada? Os Estados falidos vão fazer essa reforma de que jeito? Somente alguns serão contemplados? E sobre o preparo do professor? Como vamos capacitá-los? Se é para seguir o exemplo da Finlândia, não deveriam levar em consideração que lá os professores são supervalorizados, bem remunerados e têm uma formação continuada?

Para que a MP fosse algo seguro em termos de oferecer as mesmas oportunidades para o pobre e para o rico, a escola pública deveria sofrer uma série de adaptações e isso implica investimentos. A parte do financiamento ficou um tanto obscura nessa MP. Mas, ainda que essa seja uma questão resolvida, precisaríamos de uma melhoria da infraestrutura não somente no sentido de instalações, mas também de  profissionais. Quem vem de família muito precária social e culturalmente não vai saber qual matéria escolher. Como a escola vai implementar esse apoio? Os educadores precisarão acompanhar e para isso tem de ter toda uma estrutura e apoio do governo. Em nenhum momento, como se dará isso (se é que se dará) foi esclarecido na MP. Se não houver uma orientação séria, como serão feitas as escolhas desses alunos?

Um dos pontos mais controversos dessa reforma diz respeito à organização curricular em áreas de conhecimento, com a primeira parte comum a todos os estudantes e a segunda específica consoante a escolha do/a estudante por uma das áreas de aprofundamento – linguagens, matemática, ciências da natureza, ciências humanas e formação técnica profissional. A justificativa para essa mudança procede. Precisamos enxugar os conteúdos de acordo com os interesses de formação de cada um. Porém, ao ler a MP, podemos entender que há margem apenas para reduzir o que será ensinado em quantidade e qualidade, já que em várias partes vemos claramente o interesse de atender ao mercado e não ao crescimento intelectual do futuro cidadão. Há uma notória preocupação – que podemos considerar como até a mais relevante na MP, dado seu destaque – com uma condução para a formação técnica. Podemos esperar que haja um ensino puramente instrumental nas escolas públicas que irá de encontro ao princípio constitucional da igualdade de condições de acesso e permanência e de alcance dos níveis mais elevados de ensino.

Quando se fala em um retorno à época da Ditadura, a despeito do exagero de qualquer discurso extremista, há motivos para tal comparação, pois, na Ditadura Militar, havia uma separação entre aqueles que seriam formados para o trabalho e outros que seguiriam uma formação mais clássica, terminando-a somente na Universidade. Na MP está explicitado que, para sabermos se estão sendo cumpridas as novas exigências do EM, devemos analisar, dentre outras coisas, a demonstração prática, a experiência de trabalho supervisionado e as atividades de educação técnica. Isso nos faz crer que o que menos está importando nessa MP é uma formação para a compreensão crítica da realidade social e para o exercício da cidadania.

Para finalizar, o fato de os protagonistas dessa mudança terem recebido e dialogado com representantes do Escola sem Partido não ajudou a recebermos essa MP sem desconfiança, já que esse projeto não deveria sequer ter espaço em uma sociedade que zela pela democracia.

4º – Essa reforma vai aumentar a desigualdade social. Verdade ou mentira?

Depende. Se o Estado conseguir melhorar a infraestrutura que essa reforma exige, o país tende a melhorar em algum aspecto. Teremos trabalhadores mais capacitados, por exemplo (se serão reflexivos, já é outra questão). Mas serão consumidores, portanto, entrarão na estatística daqueles que subiram de classe. Se todas as escolas oferecerem todas as disciplinas, os professores forem mais valorizados, houver profissionais para atender toda a demanda que o novo sistema exigirá e Artes e Educação Física, a despeito de aparecerem como optativas, delegadas a um terceiro plano, continuarem sendo cadeiras oferecidas pelas escolas, podemos sim ter um Ensino Médio do nível de países com grande sucesso na Educação.

A MP aumenta a carga horária de 800 para 1400 horas e promete escola de tempo integral. A Escola Integral é excelente para outras realidades em que os jovens não tenham que ajudar no sustento da família. Mantê-los na escola integral será um grande desafio para o qual nem de longe temos a solução. A proposta de oferta do Ensino Médio diurno em tempo integral pode promover, portanto, a exclusão de um amplo contingente de jovens que estudam e trabalham.

As escolas integrais exigem muito mais recursos e apoio pedagógico. Precisaremos de professores com jornada completa, com salários e carreira compatíveis, novas metodologias e um novo currículo que integre ciência, tecnologia, cultura e trabalho. Sem que isso seja feito, nossos alunos serão submetidos a uma série de conteúdos dispersos.  Implantar, então, uma escola integral sem um subsídio pode criar mais distanciamentos entre as classes da sociedade. Não há dúvidas, porém, de que, se conseguirmos que as escolas funcionem em período integral, teremos um ganho, dependendo de como esse aluno será estimulado a pensar e a criar.

Vale lembrar que o presidente em exercício, disse que a introdução desse regime integral será progressiva e que o governo federal vai dar um suporte financeiro para que a implementação seja possível nos primeiros anos. Isso faz com que nos perguntemos sobre os anos que se seguirão após os primeiros. Dado tudo escrito na MP, ficamos sem respostas.

5º – Qualquer um poderá dar aula. Verdade ou mentira?

Depende. O que está sendo colocado é uma flexibilização de certificados, já que temos uma carência notória de profissionais de várias áreas do conhecimento. Então, se bem administrado, não será “qualquer um” e sim uma pessoa qualificada para o cargo. No entanto, o “notório saber” é amplo demais e facilita o ingresso de pessoas não somente sem licenciatura, mas também com apenas um “aparente saber” – que não deixa de ser notório em certa medida.

Enfim, sabendo que há uma subserviência de várias camadas produtivas do nosso país ao capital internacional e uma tendência clara às privatizações nesse governo atual, é natural que discutamos se a educação não está incluída nesse grande projeto como sempre esteve em toda a história da humanidade. Temos motivos para encará-la como uma proposta que assegura parcerias entre o setor público e privado de uma forma que não seja inclusiva.

O fato de a MP assumir que a escolha pela especialidade que o aluno fará depende de seu interesse, por exemplo, nos leva a questionar como se dará isso se os pobres nunca tiveram a mesma liberdade de escolha dos ricos e se aos primeiros serão oferecidas apenas opções como técnicos. Do ponto de vista prático, a escolha será para quem ele vai servir e não em que ele quer trabalhar.

No mais, uma mudança sempre causa desconforto. Ainda que tenhamos a certeza de que seja para melhor (o que não é o caso), o medo nos ronda em todo o processo. Diante o do cenário em que nos encontramos, pleno de notícias que nos mostram que está cada vez mais restrito o número de pessoas nas quais podemos confiar, é normal que uma MP como essa venha acompanhada não somente de resistência, mas de críticas de todas as espécies, inclusive as que procedem e as que alertam.

3 Comentários

Arquivado em Crônicas, Opinião, Política

Só mais 50 minutinhos…

yukidormindo

Ontem fomos todos para um sarau e voltamos tarde. Tipo dez, onze horas da noite. Yuki, meu caçula de 9 anos, sempre junto. Já no carro a caminho de casa, ele mete essa:

– Vou ter que ir à escola amanhã?
– Ué. Claro. Por que não iria? – perguntei conhecendo meu eleitorado.
– Porque estamos chegando em casa muito tarde e eu vou acordar muito cansado.

Abre parêntese.

Yuki acorda cedo desde que nasceu. Não importa a hora que vai dormir e se vai passar o dia inteiro chato ranhetando de sono. O horário dele é sempre entre cinco e seis. Muito raro eu precisar de despertador para tirá-lo da cama. Finais de semana são sempre o ó. Eu quero dormir e ele quer fazer coisinhas tipo andar de skate no parque antes mesmo das sete.

Fecha parêntese.

– Mas se você acorda cedo de qualquer jeito, qual a diferença de ir para a escola ou ficar em casa olhando para o teto? – questionei.

– Pode ser que eu precise descansar muito. Você não está considerando isso, mãe? – rebateu ele com o tom de quem está na iminência de ser torturado.

– Sempre considero, Yuki, só que nunca acontece… Façamos o seguinte: você dorme e acorda a hora que o olho abrir. Sem pressão. Se não der para entrar no primeiro tempo, a gente entra no segundo. – falei com mó carinho e boa vontade.

– Mãe, eu nunca cheguei atrasado em nada em toda a minha vida! Você quer quebrar isso agora??? Foi você que sempre me ensinou isso! – Aff. Yuki jogando pesado. A minha sorte é que eu sou mais inteligente que ele.

– Yuki, sejamos claros, você está me enrolando. Chegar para o segundo tempo não deixa ninguém esperando e não prejudica ninguém. Deixa disso. Para que tá feio. Se você acordar a tempo de irmos para o segundo tempo, a gente vai.- expliquei cheia de paciência.

– Que horas começa o segundo tempo? – voltou ele depois de trinta segundos refletindo.

– Sei lá. Acho que oito. – chutei.

– Qual o limite que você dá para eu acordar e não ir à escola?

– Yuki, você quer saber a partir de qual hora eu não te levo mais porque não dá tempo nem de chegar para o segundo tempo? – eu já não estava acreditando…

– Isso. Justamente. – respondeu ele sério.

– Você sabe que há o terceiro tempo, não? – joguei. Os alunos só podem chegar até o segundo tempo.

– Mas aí não faz sentido a gente se mobilizar todo para eu assistir só metade das aulas. – droga. Ele estava coberto de razão.

– Ok. O limite é 7:45. Em 15 minutos dá tempo da gente tomar café e sair. Você pode descansar bastante e ainda estudar pelo resto da manhã.

– Mas e se eu não acordar? Seria muito pedir para você me deixar descansar?

– Ok. Acho que uma vez na vida não faz mal a ninguém. Mas duvido. Nunca dantes na história da humanidade você acordou depois das sete.

E mais ou menos assim foi a nossa conversa ontem antes de dormirmos.

São mais de oito horas. Acabei de ir até o quarto dele e ele está dormindo profundamente. Mas gente… Isso nunca aconteceu! Que poder tem o consciente sobre o inconsciente, não?

No próximo fim de semana, vou mentir dizendo que a escola colocou aula extra sábado e domingo. De matemática ainda por cima! E que começa às nove!!!

Mas se estiver cansado, pode ficar em casa dormindo…

Deixe um comentário

Arquivado em Crônicas, Filhos, maternidade, Yuki

Aquarius

sb
Ontem eu vi Aquarius. O filme mexeu muito comigo por um motivo muito particular. Desde que me entendo por gente e antes mesmo de me casar, eu tinha uma fobia. A de ficar viúva e numa casa sem filhos. Sozinha em um lar plena, apenas, de passados.

A separação me fez viver uma espécie de luto. Não mais convivo com o Nelson e isso para mim foi um dos meus maiores medos que tive que enfrentar muito antes do que esperava. Percebi que consigo resolver muita coisa sem ele. Ainda tenho como vício lhe contar trivialidades e querer conversar. Até o convidei para ir comigo ver o filme, agora vejam… Ele disse não e fui mesmo assim. Dá para viver. E sem muito sofrimento. Fui como aqueles dispostos a povoarem um deserto.

Quanto aos filhos casarem ou simplesmente saírem de casa, parece que também  já superei bem essa angústia. Não que eu aceite o discurso que criamos o filho para  o mundo. Nananinha. Crio para que tenhamos uma ligação que não se rompa seja lá para aonde eles forem. Aqui a gente faz cordão umbilical de adereço. Depois que isso ficou bem claro pela própria postura deles, os pesadelos recorrentes cessaram. Durmo como aqueles que têm certeza de que todas as portas foram trancadas.

Sonia Braga está no papel do que era meu pânico encarnado. Viúva. Com três filhos. Mas muito bem resolvida morando sozinha em uma casa cuja sala é repleta de livros e ainda por cima tem uma rede. Adoro. Ela, a personagem Clara, empoderadérrima. Observei tudo como quem observa um futuro.

Havia uma poltrona nessa sala. Mais essa para lidar. Minha maior aspiração material. Ter uma cadeira bem aconchegante de leitura em frente a uma estante onde eu possa cochilar abraçada com um livro sob o olhar de vários… Não acreditei quando a cena apareceu. Chorei disfarçadamente como aqueles que, depois de muita suspeita, deparam-se com uma prova esperada.

Não vi o que chamamos de senhorinha e sim uma mulher mais experiente que de velha nada tinha, sobretudo, no olhar. É possível continuar a ser feliz mesmo repleta de pretéritos perfeitos. Os olhos de Clara me mostraram isso.

Enfim. Ontem eu vi Aquarius mas foi muito mais do que um filme pois saí feliz como aqueles que comem uma pizza e namoram em plena sexta. Andando pelo Largo do Machado, ao invés de pesadelos, sonhos. Senti algo em minha mão.

Era alguém a segurando?

6 Comentários

Arquivado em Crônicas

Mãe, tá orgulhosa de mim?

hideo13

Tenho três filhos. Um adulto de 9 anos, Yuki, Nara de 18 e uma criança de 23 que se chama Hideo. Para completar, sou solteira e ontem foi Domingo, dia de Manifestação. Yuki estava com o pai, voltaria meio dia. Nara está possessa com o Temer e estava saindo com mais de vinte cartazes debaixo do braço para protestar. Hideo estava super preocupado com a Nara e resolveu acompanhá-la caso desse algum xabú como tem dado – já que a Polícia Militar serve a um determinado tipo de gente. E eu estava em casa gerenciando tudo isso. Até que Hideo, que não está tão envolvido quanto deveria com o que anda acontecendo, politicamente falando, pediu-me para ir também e lhe fazer companhia. Nara engrossou esse coro dizendo que é nas ruas que vamos resolver isso. Ok ok… liguei para a minha mãe (que mora ao meu lado) e pedi para ela receber o Yuki para mim porque eu ia acompanhar Hideo que ia acompanhar Nara que quer mudar o mundo..

Poderia, nesta crônica, focar na Nara que deu literalmente um show ontem cantando Roda Viva à capela em pleno (antigo) canecão fazendo o presidente do PCdoB chorar vendo algo tão genuíno e depois ir até ela agradecer por aquilo. Ou poderia me estender com Yuki que estudou sobre relevos e chegou em casa querendo montar uma maquete da Chapada Diamantina com argila depois de ter pesquisado no gúgol como ela foi formada e está desde então com essa ideia fixa. Mas não. Quero lhes contar sobre Hideo.

Moramos em Madureira e ir e voltar de Copacabana onde o povo-Fora-Temer estava reunido foi uma viagem em todos os sentidos. Deixamos o carro no Shopping Nova América onde tem metrô e de lá partimos para lutar pela Democracia. Acabado o protesto, Nara decidiu ficar com o pai que mora no Leme e eu e Hideo tivemos que voltar sozinhos. O povo começou a dispersar lá pelas 13h quando nos despedimos da revoltada (não sem razão) da Nara e eu cheguei em casa com Hideo às 19h da noite. Durante este tempo, nós ficamos voltando para a casa. Paramos na casa de um amigo, Hideo capturou um monte de Pokemon, depois almoçamos um peixe em um restaurante que tem um aquário cheio de peixinhos iguais ao Nemo e a Dory, pegamos skate, cipó, metrô e chegamos ao Shopping onde estava estacionado o Takimóvel.

Foi aí que o motivo da crônica começa. Hideo, na ida, foi dirigindo o meu carro e, quando estávamos nos aproximando do caixa para pagar o estacionamento, ele me disse:

– Passa o ticket aê.

– Que ticket mané ticket. Você que veio dirigindo o Pafúncio (Pafúncio é o nome do Takimóvel), você que guardou a budega.

– Eu joguei na sua bolsa.

Aff. Abri a bolsa. Tirei lenço umedecido, cuequinha do Yuki, guarda-chuva, toco de lápis, caneta sem tampa, bolsinha com absorvente, necessé com maquiagem, capa de óculos do Hideo, caneta Pilot de escrever em cartaz, garrafa d´água vazia, a chave de casa, papel de bombom, bombom (que comi), mas…

– Hideo, o ticket não tá aqui!

– Eu coloquei aí caralho!

Hideo é desses que usam palavrão como ponto de exclamação.

– Mas não tinha nada que ter enfiado na minha bolsa, cacete! Você é o motorista! E se eu não tivesse vindo? Por que quando estou por perto vocês enfiam tudo na minha bolsa? Não tá aqui! E agora? vai ter que pagar uma multa de trezentos reais! Ai jesus, Hideo! Puta merda, meu filho!

Eu estava desesperada.

– Mãe, se acalma. Você é igual a mim. Quando tem um problema entra em desespero.

– Que igual a você mané igual a você onde? O mundo está acabando, vou ficar pobre com o mês mal começando e você está calmíssimo! Cadê a semelhança?

– Estou calmo porque não há problema algum aqui.

– Como não há, Hideo! Cadê a porra do ticket cacete!

– Mãe, entra no carro. Liga o rádio. Ouve o CD que está lá. Relaxa que eu vou resolver isso sem gastar o que já iríamos gastar. Nem um real a mais. Relaxa.

Eu já perdi o ticket de estacionamento uma vez e tive que vender o carro para pagar a multa. Duvido Hideo resolver isso. No mais, o documento do carro estava na minha bolsa também. Como ele ia dar um jeito sem sequer ter levado a comprovação da placa do Pafúncio e bababá bububú? Duvido…

Enquanto pensava, ele sumiu e voltou meia hora (!!!!) depois. Entrou no carro com um sorriso de orelha a orelha e me mandou na lata:

– Não disse que eu ia resolver tudo? Não disse que não tínhamos problema algum? Não disse que era para você ficar calma?

E deu de balançar um ticket novo e pago no meu nariz.

– Pagou quanto por isso jesus?

–  Nada a mais do que pagaríamos. Fui ali, falei com o cara da administração, dei a placa do carro, ele fez um novo ticket e pronto. Mãe, você está falando com Hideo. Parece que não me conhece. Sabe quantas vezes eu já perdi o cartão de estacionamento na vida? Você me subestimou, mãe. Viu só? Mãe, você está orgulhosa de mim agora?

Eu poderia ter feito um escândalo nessa hora. Ter dado uma lição de moral dizendo que estaria mais feliz se ele não tivesse perdido um papel valoroso tantas vezes, poderia ter falado que fiquei quase meia hora no carro (tudo bem que fiquei ouvindo Jimi Hendrix que é o CD que Hideo havia colocado para eu degustar e que desconhecia e fiquei encantada…), mas pensei. Se ele não tivesse perdido o ticket, eu não teria vivido tamanha experiência de encontro com meu filho. Se Hideo não fosse desses indicados a tomar Ritalina desde os oito anos por ser extremamente desligado e se eu permitisse que ele ingerisse essa droga, ele se lembraria de guardar tudo que é dito ser importante, teríamos entrado no carro e voltado sem maiores percalços para a casa, é verdade; mas também, é válido observar, sem que eu tivesse recebido tanto carinho e o sorriso de satisfação dele por ter conseguido dar um jeito na situação sem se estressar um tiquinho de nada e me ensinado a fazer um verão quando nos são oferecidos muita chuva e ventos giga frios.

– Razô, meu filho. Só deu tu hoje.

– Ouviu Jimi Hendrix? Gostou? Conhece a história dele?

E voltamos com Hideo me contando sobre a vida desse ídolo do Rock na paz do senhor. Ele falando e eu ouvindo. Plena de orgulho do meu filho.

 

3 Comentários

Arquivado em Crônicas, Educação, Filhos, Hideo, Manifestação, maternidade, Opinião

Dez anos de CEFET

cefet4

Há exatamente dez anos, assinei meu termo de posse. Na ocasião, o diretor fez um discurso do qual jamais esquecerei. Ele disse para os novos professores que não veríamos um colega sequer reclamar da instituição. Oras, quando ouvi aquilo, ri. Desacreditei. Professor sem reclamar? Como assim? Eu tinha duas matrículas no Estado e trabalhava em uma escola particular. A sala dos professores de ambas instituições era um verdadeiro martírio. Eu SÓ ouvia reclamação. Ou falavam mal dos alunos ou dos colegas ou do patrão. No Estado, falavam, óbvio, muito mal do salário também.

uComo assim não vou ouvir professor reclamando do trabalho no CEFET?

Pois então, com o tempo vi que ninguém havia me enganado. Por ser dedicação exclusiva, pedi demissão de todos os lugares. Em dez anos, terminei o meu mestrado, fiz meu doutorado (com redução de carga e não de salário), participei de vários congressos (com tudo pago) e ainda vi meus colegas crescendo academicamente e tendo o cérebro bem oxigenado de tanto que somos incentivados a pesquisar.

Hoje, além de professora, sou coordenadora de Física do CEFET. A minha equipe é formada de professores que ou tem doutorado ou estão caminhando para ter o título. As exceções estão desenvolvendo algum tipo de atividade bacana. Jamais os professores só dão aula ali dentro e ainda temos liberdade para ministrá-las do jeito que acharmos melhor. Não é á toa que CEFET é uma referência em Ensino. Os professores ousam e os alunos ganham muito com isso.

Na maioria das salas, temos projetores e aparelhos de ar condicionado. Os nossos laboratórios estão todos bem equipados. Nossos alunos são os melhores para se trabalhar. São alunos interessados, concursados e que em sua grande maioria respeitam o professor e sentem orgulho da instituição. É a receita perfeita para a felicidade e o sucesso. Ainda que tenhamos muito a melhorar, estamos, sem dúvida, no topo da cadeia alimentar.

Estou, pasmem, muito satisfeita com meu salário.

Enfim, foram dez anos muito felizes. Com o andar da carruagem e com os cortes que já estamos sentindo, temo que os próximos dez anos não serão com toda essa satisfação.

Ainda assim, seguirei trabalhando e aproveitando da liberdade e das instalações até onde o Deus de Janaína permitir.

Obrigada, CEFET, por tanta alegria que me deu nesses anos. Orgulho de pertencer a este lugar.

1 comentário

Arquivado em Crônicas