Reciclando Lixos

homens de gelo

Leidedái é conhecida no subúrbio carioca. É uma mulher negra, forte do tipo gorda e que puxa algo que se assemelha a uma carroça onde carrega lixo reciclável como garrafas pets e muito papelão. Todo dia que o caminhão de lixo passa, antes dele, vem Leidedái acompanhada de um, dois, três, quatro… cinco, seis? sete? filhos. Sempre os seguindo, vemos uma vira lata abanando o rabo correndo de um lado para outro. As crianças ajudam no serviço. Todos remexem os sacos de lixo a procura do que pode ser colocada na carroça de Leidedái. A despeito da pobreza, eles estão sempre rindo, brincando e afofando a cachorrinha. Quando Leidedái anda, os menores sobem no veículo tracionado pela força e disposição de uma mulher.

Mas houve um dia em que Leidedái estava diferente. Ela, que sempre dava bom dia e batarde para todos, queria assunto. Uma senhora que estava varrendo a calçada foi a primeira a ser interrompida em seu dia a dia.

– A senhora sabe que mataram meu filho? – perguntou a negra.
– Foi? Nem percebi. Você tem tantos…
– Pois é. Mas mataram Zéduardo. Menino bom toda vida. Me ajudava que só.
– Ah mas a senhora tem muitos! Não vai faltar quem te ajude. – e dito isso a matrona voltou a varrer aquela sujeira preta da rua.

Leidedái olhou para o movimento da vassoura por um tempo. Quieta. Calada. Muda. E resolveu, então, continuar seu caminho.

Mais a frente, encontrou um senhor. Enquanto seus outros filhos remexiam o lixo da rua, Leidedái puxou assunto com o homem que estava voltando da padaria.

– O senhor sabe que mataram meu filho? – perguntou a negra novamente.
– Não. Não estão todos aí?
– Infelizmente meu Zéduardo não. Era um menino danado e lindo de doer. Mataram meu Zéduardo.
– Isso acontece todo dia… é a vida… a senhora vai superar. – e dito isso voltou a andar em direção a sua casa.

Leidedái olhou para aquele alimento branco que nada nutria carregado por aquele corpo murcho. Oco. Vazio.

No final da rua, Leidedái viu uma moça que estava chegando do supermercado e tirando as compras da mala do táxi. Resolveu aproveitar o momento.

– A senhora sabe que mataram meu filho? – tentou pela terceira vez.
– Foi? Como? – perguntou a jovem enquanto continuava a tirar as sacolas de dentro do carro com a ajuda do motorista.
– O menino estava soltando pipa quando…
– Obrigada, moço. Toma. Está certo. Bom trabalho para o senhor!- disse simpaticamente para o taxista.
– Daí, o menino estava soltando pipa, quando…
– Qual deles?
– O Zéduardo. Bonito que só a senhora vendo. Lembra dele não? Ele sempre vinha com o uniforme da escola que daqui ia direto estudar. Estudioso que só meu Zéduardo…

A moça escutava mas olhando para os lados com medo dos meninos fuçarem as suas compras pensando que fossem lixo e quisessem ainda por cima levar alguma coisa. Quiçá roubá-la. Logo ela, que trabalhava tanto para ganhar seu suado dinheirinho.

– A senhora vai me desculpar, mas preciso entrar.
– Mataram Zéduardo… – lamentou-se Leidedái.
– Esse mundo não está fácil. Acontece. Vá cuidar dos seus meninos. – e dito isso, tratou de trancar o portão, deixando Leidedái do lado de fora. De sua casa. De sua vida.

Leidedái olhou fixamente para o movimento da chave que girava girava girava como tantas outras que rotacionamos todos os dias nas fechaduras das mais diversas portas que travamos…

De noite, com as crianças já todas dormindo, Leidedái sentou-se à porta de seu barraco e ficou olhando, de cima, a cidade. Observava, a despeito da distância e de muitas luzes acesas, a infinidade de cômodos apagados nos prédios, nas casas e nos olhos dos transeuntes.

O coração de Leidedái não lhe permitia sentir sono. Havia um bolo enorme na garganta e uma saudade de doer os ossos e cada pedaço daquela mãe representava uma incompreensão a respeito do sentido de tudo isso e da interrupção violenta da vida de um menino tão filho de Leidedái tão bom ah meu deus como Zéduardo era bom para Leidedái…

– Socorro… como vou viver sem meu Zéduardo, Senhor. O que fiz para merecer essa dor? Como viver sem meu filho, Senhor? Meu Deus, pela amor de deus, devolva meu Zéduardo…

A vira lata estranhando a sua dona não ter se deitado, foi lhe fazer companhia. Sentou-se ao seu lado em silêncio.

– Xuxa, mataram Zéduardo…

Xuxa olhou para Leidedái com ar de tristeza e de um tipo raro de sabedoria que possuem aqueles que sabem ouvir.

– Mataram, Xuxa.
– …
– Ele estava soltando pipa quando perguntaram para ele se ele havia visto a Jucileide. Zéduardo falou que viu ela andando para lá com Pé de Cabra. Mal sabia ele que Jucileide estava aprontando e traindo o Maico da Serrinha. Pé de Cabra não perdoou quando soube quem havia dedurado. Veio e deu um tiro no nosso Zéduardo que estava olhando para cima, para o céu, para sua pipa que foi embora para as estrelas depois que ele caiu morto.
– …

Xuxa colocou sua cabeça na coxa de Leidedái que se debruçou em cima dela com uma saudade que não cabe nesse mundo. E, enfim, a mulher conseguiu o mínimo que precisava: Leidedái chorou em um ombro amigo.

No dia seguinte, Leidedái continuaria a carregar seus lixos recicláveis aos olhos dessa doente sociedade. Papelão, plásticos e mais Zémauro, Jãomauríço, Tuninho, Maria Vitória, Lorena e Cleitim.

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Arquivado em Crônicas

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