Conversa de Peso.

aviao-decolando

Há alguns meses atrás, no ano passado, andava eu por alguns desses shoppings da vida, quando alguém me chamou pelo nome:

– Elika? Caraca! Que surpresa! Quanto tempo!

Era uma mulher magra, alta, loira de cabelos lisos e escovados e devia ter a minha idade. Claro que eu não tinha a menor ideia de quem poderia ser. Queria retribuir a surpresa de eu também reencontrá-la, mas estava difícil.

– Não está me reconhecendo, né? – e com um sorriso, salvou-me daquele incômodo dizendo-me seu nome e sobrenome.

Meodeos… não era possível…

– Cadê o resto? – Perguntei sem pensar.

– Pois é, perdi cinquenta quilos. Nem eu me reconheço quando olho no espelho. – Disse minha colega dos tempos idos de escola.

– Como foi isso? – Questionei curiosa.

– Arrumei um nutricionista radical e comecei a fazer dieta associada a exercícios. Aquilo que estamos carecas de ouvir…Daí, comecei a ficar neurótica com essa parada de calorias. Qualquer coisa que eu vejo agora eu sei com precisão qual o valor calórico e quanto de exercícios eu tenho que fazer para eliminar o excesso de calorias ingeridas. A despeito de eu ter ficado obcecada, funcionou bem como você pode ver.

– E você não sente falta da outra que te acompanhava? Digo isso porque eu peso quase 55 quilos. Você era praticamente duas em uma. Era como se você me carregasse no colo pra baixo e pra cima.

– Ah, sabe que eu sinto? Os gordos têm fama de serem engraçados e bem humorados. Eu gargalhava alto com a mão na barriga. Hoje nem faço mais som quando rio, mas tenho a mania ainda de colocar a mão na barriga quando dou risada e me sinto estranha quando não sinto as banhas.

Rimos as duas com ela jogando o corpo para trás  com as mãos na barriga seca e a boca aberta tremendo sem que, de fato, saísse som. Super esquisito…

– Quando ando de ônibus,- continuou –  ainda encolho bem a barriga para passar na roleta e várias vezes penso que não vou conseguir correr para pegar a condução. Quando me lembro que agora sou magra, disparo a ponto de me sentir Usain Bolt e me surpreendo sentindo o vento nos meus cabelos com a velocidade que adquiro com os meus próprios músculos.

– Caramba… Mas você ainda está fazendo dieta?

– Ah não mais. Agora como tudo o que quero e não engordo mais. Exercício físico faz parte de minha rotina. O corpo se acostumou, eu acho. Agora ele mantém o equilíbrio por conta própria. – Disse ela acreditando que a mente é algo que se separa do corpo.

Minha amiga não tem facebook. Trocamos telefone, e-mail, WhatsApp para qualquer dia desses nos encontrarmos com mais calma. Coisas de carioca…

Aconteceu, porém, coincidentemente outro dia, algo semelhante mas bem diferente. Explico-me: eu encontrei outro amigo também da época de escola mas que estava muito acima do peso.  Não reconheci a pessoa para variar. Papo vem papo vai, lembrei-me de tudo. Não que eu tivesse questionado alguma coisa, mas meu colega sentiu necessidade de justificar porque havia engordado tanto a ponto de ficar irreconhecível. Casamento, filhos, trabalho, pós-graduação… essas coisas que todos nós sabemos muito bem do que se trata.

Não foi por mal nem nada, mas acabei contando que havia encontrado com a amiga em comum que mencionei acima. E se não falo o  nome e sobrenome de nenhum deles é para proteger a privacidade de meus simpáticos colegas. Well, como disse Proust: mais difícil que seguirmos um regime é não impôr aos outros. Não que eu estivesse seguindo alguma coisa, mas como vi uma pessoa satisfeita por ter se reduzido a metade, achei por bem repassar a experiência para quem, aparentemente, havia dobrado de tamanho e estava incomodado com isso.

– Ah sim, por favor, me passa o telefone dela para conversarmos. Muito me interessa sim! – Disse educadamente.

– Vou fazer melhor, vou ligar agora e já resolvemos isso.- Disse eu crente que estava ajudando.

E comecei a mexer no celular.

– Alô, Fulana! Eu, Elika! Você não sabe quem está na minha frente! Sicrano! Pois é! Olha, estamos aqui conversando e falando sobre você. Queríamos saber o telefone da médica que passou aquela dieta mágica para você…

– Ih, Elika…- Fulana falou. – Gordura podia ser igual virgindade, perdeu uma vez não volta mais. Mas não é assim… Se eu morrer hoje e for cremada e jogarem as minhas cinzas no mar, vão criar uma ilha! –  Gargalhou bem alto certamente com a mão na barriga. Falou mais umas coisas de peso e desligamos.

Bem feito para mim. E agora para passar com o Sicrano uma notícia que nem havia dado tempo d´eu digerir?

– E aí… o que ela disse? – Perguntou-me meu colega com o rosto ávido por notícias.

– É… bem… O ponto é que junto com os quilos perdidos de Fulana, foram também a sua felicidade, a sua simpatia, o seu amor por viver com os outros. Ela lhe aconselhou a procurar saber, antes de você pensar em emagrecer, onde está o seu alicerce, o que de fato te incomoda e verdadeiramente faz você feliz.

O rapaz ficou sério me olhando com os olhos mais brilhantes do que quando o encontrei.

– Peço desculpas por ter me precipitado e achar que iria te ajudar dando um telefone de uma nutricionista que nem conheci pessoalmente. – Disse sinceramente e muito arrependida. –  Claro que mais importante que o peso mensurável pela balança é o peso das ideias, de suas expectativas com o futuro de seus filhos, de seus sonhos… mil desculpas por ter passado por cima disso. Comecemos do início, por favor.

Meu amável colega deu outra chance para nós dois, afinal, em minha defesa, foi ele quem começou a explicar sobre seu corpo sem sequer eu ter perguntado alguma coisa. A minha ânsia de ajudar misturada com o preconceito de que a pessoa acima do peso está infeliz foi um fardo que enuviou o passado que outrora tivemos, ameaçou o futuro de nossa amizade e quase tornou o presente indigesto caso não houvesse tempo para pedir perdão e ser perdoado. Conversamos mais um tempo sobre literatura (ele se tornou professor de redação), sobre casamentos e separações (ele está começando o terceiro casamento mega animado), sobre viagens (meu amigo professor já viajou para vários lugares do mundo), sobre o futuro de nosso país (preocupação de todos nós independente do partido pelo qual nos simpatizamos) e sobre nossos atuais projetos.

E foi isso. Termino esse texto não envergonhada pelo que fiz e sim reconhecendo pela milionésima vez que o importante nesta vida não é ser magro e sim ser leve. Se der para ser os dois, ótimo. Se não, que a gravidade atuante na massa em excesso seja driblada pelo empuxo de nossos ideais. Afinal, o avião pesado adquire desenvoltura e voa não sem antes correr extremamente focado com os braços abertos para frente sabendo que há um céu para exercer a liberdade.

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Arquivado em Crônicas

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