Isaac no Mundos das Partículas

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Para saber mais sobre o livro, continue a leitura:

O nascimento de um cientista, de uma escritora e de um grande espetáculo:

Olá. Meu nome é Elika Takimoto e vivo da teimosia. Não me considero uma pessoa sonhadora, pois, as pessoas sonhadoras vivem… sonhando. Entre querer fazer e fazer para mim não há diferença. E não sou dessas de desanimar diante as portas que se fecham para mim e os “nãos” que acumulei jamais me diminuíram. Pelo contrário.

Isaac no mundo das partículas foi escrito há cinco anos. Desde então, ando com ele debaixo do braço oferecendo para todas as editoras que vejo pela frente. Colecionei respostas educadas rejeitando Isaac.

Todo o processo desde a sua elaboração até a publicação rendeu, para variar, muitas histórias que me engrandeceram e que pretendo compartilhar com quem quiser ouvir. Acho que não são apenas narrativas sobre fracassos que vocês lerão aqui e sim formas de lidar com a realidade, ou melhor, como fiz para driblar todas as bolas mal jogadas para mim e,   finalmente, fazer meu gol de placa.

O texto desse livro de Física de Partículas para crianças de 6 a 106 anos em pleno Brasil escrito por uma suburbana carioca já foi selecionado dentre não sei quantos mil para receber o patrocínio do Oi Futuro. Isaac virou um mega espetáculo infantil cuja estreia foi 27 de Janeiro de 2018 no Teatro Oi Futuro em Ipanema. A peça (que foi um lindo musical infantil de extremo sucesso) recebeu indicações para vários prêmios!

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Mais essa. Ele virou peça antes de ser um livro publicado! Quanta história temos pela frente, não?

Como o livro nasceu?

Em 2010, fui selecionada por análise de currículo, para fazer o curso de Física de Partículas no CERN (Centro Europeu de Pesquisa Nuclear), o maior laboratório de física do mundo.

Fiz parte de uma atividade de um programa oficial do CERN para professores de Ensino Médio dos países membros. O Brasil, para quem não sabe, coopera com o CERN mas (ainda) não é membro. Logo, para que nós brasileiros participássemos deste evento, tivemos que entrar na cota dos portugueses que gentilmente nos abriram espaço por iniciativa do LIP – Laboratório de Instrumentação e Física Experimental de Partículas.

A organização do grupo foi coordenada pela Secretaria para Assuntos de Ensino da SBF – Sociedade Brasileira de Física. Nós, professores do Brasil, participantes deste curso de capacitação contamos com apoio financeiro do CBPF – Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas e recebemos o apoio financeiro do Departamento de Educação Básica da CAPES e do Departamento de Popularização e Difusão da Ciência e Tecnologia do Ministério de Ciência e Tecnologia.

Ou seja, foi algo sério e grandioso para a minha formação.

Mas nem tudo são flores. O CERN fica na fronteira entre Suiça e França. Eu já era mãe de três, estava casada na época e nunca havia pensado em viajar sem a minha família. Não foi fácil para mim esse processo porque a educação que tive (digo, educação como um todo, incluindo a sociedade doente da qual fazemos parte) foi tão castradora que a impressão que tinha o tempo todo era de que estava abandonando meus filhos.

– Mas eles vão ficar com quem? – perguntavam para mim quando eu dizia que ia fazer essa viagem.

Deixei-os sob cuidado do pai e dos avós e fui. Fui com medo, mas fui. Não dormi quase em todo o tempo que estive lá. Por ansiedade, por querer registrar tudo para não me esquecer de nada (para quem quiser tem toda a história no meu blog), e por viver algo tão mágico.

Voltei outra. Cheia de novidades e querendo dar palestras sobre tudo o que havia aprendido e visto com esses olhos arregalados.

Quem mais quis entender sobre o que vivi foi Yuki, meu filho caçula que na época estava super caçulete de tão pequetitito. Foi com ele que tive os melhores diálogos sobre física de partículas e graças às perguntas que ele me fazia me vi obrigada a ter que explicar para uma criança um tema tão complexo (bem sabemos que explicar para uma criança ou para uma pessoa idosa seja lá qual for o assunto nos exige manobras neurais de nível olímpico).

De que o mundo é feito? Como tudo começou? Como sabemos que tudo isso que falam é verdade se não conseguimos ver as partículas? Como é que somos feitos de partículas invisíveis se todos conseguem nos enxergar? A partir de quantas partículas invisíveis que se juntam temos um corpo com massa? O que é massa?

O interesse do Yuki foi tanto que comecei a procurar livros sobre o tema para lhe dar. Qual o quê. Quando encontrava era algo extremamente técnico e chato. Nem eu suportava.

Daí, tive a ideia de escrever um livro para Yuki mas que também fosse um registro dos diálogos que tive com ele.

A primeira vez que li Isaac no mundo das partículas para Yuki chorei de emoção. Quando era a vez do Isaac falar, Yuki o atropelava e dizia exatamente o que estava escrito. As dúvidas e as perguntas de Isaac eram as mesmas de uma criança!

Um detalhe que não é um detalhe: as questões que Yuki fez quando cheguei do CERN eram as mesmas que movem os cientistas a fazer tanta pesquisa em um laboratório gigantesco. De que o mundo é feito? Como tudo começou? Como sabemos que tudo isso que falam é verdade se não conseguimos ver as partículas? Como é que somos feitos de partículas invisíveis se todos conseguem nos enxergar? A partir de quantas partículas invisíveis que se juntam temos um corpo com massa? O que é massa?… Todas essas e muito mais aparecem no Isaac no mundo das partículas.

Não tem como fazer ciência sem filosofia, assim penso. Isaac no mundo das partículas não é somente um livro de Física de Partículas. Considero-o também um livro que estimula todas as pessoas que o lêem a fazer mais e mais perguntas, pois, paradoxalmente, entendemos mais sobre um assunto não quando conseguimos  explicá-lo em sua plenitude (porque isso é impossível) mas sim quando somos capazes de fazer perguntas cada vez mais profundas sobre o que estamos estudando. Ou seja, quando deixamos fluir a filosofia subjacente a qualquer assunto.

Assim como fazem todas as crianças.

Ilustrado por um grande artista italiano. Mais essa.

A linguagem que usei no Isaac fui aprendendo lendo outras coisas, vendo os desenhos animados atuais e os jogos de videogames. Fiquei assustada com a quantidade de informações e de ciência que passam hoje em dia para as crianças. Quem acha que um livro de Física de Partículas para o público infantil pode ser algo complexo para eles, sugiro acompanhar o que essas crianças de hoje consomem na Internet e na televisão. Não as subestimem. Vai por mim.

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Mas nada disso estaria completo sem as ilustrações de Sérgio Ricciuto Conte. Acho que já falei aqui. Não considero esse livro de minha autoria somente. Isaac no mundo das partículas é um livro feito por Elika Takimoto e Sérgio Ricciuto Conte.

Ricciuto quando recebeu o texto se viu imerso em outras questões: como vou desenhar um grão falante? Como vou desenhar o CERN? Perguntas como essas mais ou menos tiraram literalmente o sono desse gênio. Ricciuto é um artista com uma sensibilidade e uma inteligência sem igual mas um ser humano acima de tudo e, como todos, receosos frente a novos desafios.

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Ótimo. Sei que o lugar de conforto é o que se morre em vida. Se ele nunca havia desenhado máquinas, que lindo será para nós dois. Assim pensei. E foi muito melhor do que eu esperava o resultado!

Ricciuto ficou tão imerso no mundo de Isaac que chegou a sonhar com uma cena. Acordou e desenhou. Mandou para mim observando que a ilustração que ele havia feito em que Isaac aparece com uma estrela pendurada no pescoço dada por Aristóteles não estava no texto e que ele só queria me mostrar a imagem que invadiu sua cabeça enquanto ele dormia. Tratei de modificar o texto incluindo esse momento maravilhoso.

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Enfim, Isaac no mundo das partículas é um livro em que mergulhei de todas as formas convidando para essa apneia uma pérola como Ricciuto que a cada ilustração fazia respirar algo onde já batia forte um coração.

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Não basta escrever. Tem que ser teimosa.

Publicar um livro nesse país é uma questão de teimosia. Você cisma com uma ideia doida em que não faltam pessoas da área dizendo que é impossível e inviável, mas você segue firme alheio ao tamanho dos muros que lhe cercam. Agora… publicar um livro infantil de física de partículas já ilustrado… aí é uma questão de sei lá meu deus. Teimosia nível advanced plus master.

Ter uma obra feita com tanta seriedade, pesquisa e amor como Isaac no mundo das partículas ser recusada por grandes editoras com o argumento de que o livro não será compreendido, não terá público para comprá-lo ou com a condição de que não se use as ilustrações já que as editoras têm seus próprios desenhistas é algo, diria, por incrível que pareça, edificador.

Cresci ouvindo os nãos dados das formas mais secas ou mais polidas para Isaac. Entendi bem mais como o capitalismo funciona e como os adultos subestimam a inteligência de nossas crianças e como são escravos do tal Deus Mercado.

Parece-me, no entanto, que Isaac tem mesmo uma força metafísica interna que vai além do livro e permeia o campo dos sonhos e das ideias. Antes de virar livro impresso, o texto de Isaac foi escolhido dentre não sei quantos mil para receber o patrocínio do Oi Futuro e virar um mega espetáculo. Isaac foi parar nas mãos de Joana Lebreiro que, acostumada com o público infantil, enxergou nele um potencial para uma grande troca e uma excelente oportunidade de divulgar ciência em forma de arte, luz e muito som.

Com o espetáculo à vista, decidi publicar Isaac de forma independente. E, segue daí, uma história de peregrinação. Escolher as pessoas que fariam a diagramação e a revisão não foi algo simples e tive que rever minhas escolhas mesmo depois de tudo pago e pronto.

Não aceitei que ninguém trabalhasse nessa obra se não tivesse por ela muito respeito e amor. Diante a menor percepção de uma falta de carinho, abortava o projeto e voltava para a estaca zero. Não foi fácil nenhum desses passos. Noites e dias de ansiedade e trocas de ideias, medos e inseguranças com meu amigo Sergio Ricciuto Conte, o ilustrador do Isaac.

Não tenho berço, sou suburbana, meu pai foi engenheiro e minha mãe sempre dona de casa. Não tenho contatos. Só me resta a opção de confiar em quem me aparece para ajudar ou se vender. E, claro, há uma coleção de decepções que não valem à pena narrar aqui. Apenas é necessário dizer que a Isaac é fruto de muitos fracassos porque foram eles que me levaram às pessoas que assinaram a obra.

Paralelamente a isso, ver o espetáculo ganhando forma é uma emoção indescritível. Entendo que a linguagem teatral não é a mesma do que a literária. A despeito de muitas modificações, Joana Lebreiro é uma pessoa que soube lidar com meu filho. Trocou sua roupa, mas não o obrigou a mudar de personalidade. A alma de Isaac seguiu, em essência, do início ao fim do espetáculo e só agregou valor a tudo que fizemos.

Enfim, como já disse Clarice. Felicidade é pouco. O que sinto tem outro nome.

Isaac no mundo das partículas nasceu por teimosia.

Monteiro Lobato, depois que fazia os livros, saía pelo Brasil para vendê-los. Por muitas vezes, colocava em chalanas, embarcações rústicas, charretes, para levá-los a aldeias distantes. Ele queria ser lido. Acreditava que a sua obra abriria a mente de crianças e não mensurava esforços para isso. Tinha prazer de oferecer o mundo que saiu de sua cabeça.

Guiada pela imagem de Monteiro Lobato, fui só de carro buscar os livros que foram impressos em São Paulo, na gráfica que achei o melhor preço e com a melhor qualidade de impressão. Pobre é uma desgraça.  A gente tem que superar os traumas no susto.

O medo foi gigantesco. Mas o foco foi maior. Imagino crianças abrindo Isaac, olhando pela lupa com ele, e observando esse mundo mágico da ciência. Vislumbro mais pessoas formulando mais perguntas sobre o tema porque acredito que, quando estudamos um assunto, se ele nos cativa, não nos satisfazemos com as respostas e acabamos sempre por ter mais dúvidas sobre o mundo. Incrivelmente, estudamos não para saber mais mas sim para sabermos o quanto não sabemos e, a despeito disso, que coisa deliciosa é a pesquisa sobre seja lá qual for o tema…

Fui só, mas voltei com muitos livros. Meu carro se transformou na nave que Isaac usa para viajar no tempo e no espaço. Dentro dela, carreguei, além de infinitas partículas, um universo de sonhos a ser compartilhado, a partir de hoje, com você.

Boa leitura e vida longa a Isaac!

“Só tem espaço para os melhores”, disse aquele que confunde Kafka com kafta.

O ministro da (falta de) Educação, Abraham Weintraub, defendeu na última quarta-feira que o país “só tem espaço para os melhores” ao dirigir-se a crianças e adolescentes homenageados na cerimônia Destaques na Educação.

“Tem que haver uma dinâmica para aumentar a competição e mostrar que quem vai melhor recebe mais, que quem melhora mais recebe mais. É um critério de gestão”, afirmou mostrando que não entende absolutamente nada de Educação pois a confunde com o Mercado.

Aos alunos, o ministro disse que a importância da educação de qualidade é “para que vocês sejam livres e fortes para pensar por vocês mesmos e ter uma profissão e uma renda sem depender de bolsa.”

Claro que o ministro estava se referindo ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e ao projeto Bolsa Família elogiado pela ONU, pelo Banco Mundial e reconhecido internacionalmente como o maior programa de transferência de renda do mundo que ajudou não só na redução da pobreza, mas também na melhoria de indicadores de desenvolvimento humano.

Muito a dizer, gente.

Para começar, é claro que nem todo sofrimento humano é culpa da falta de bens materiais ou causado pela má distribuição deles. Porém, há muitas dores que estão enraizadas na nossa estrutura social. Não sou eu quem as provoca nem você individualmente, mas as instituições como a escravidão, por exemplo, podem sim ser as grandes culpadas.

Vejam que curioso: a nossa cultura que não considera parasita o cidadão rico que vive de renda financeira, a nossa cultura que considera justo conceder isenção, incentivos fiscais e perdão da dívida com os bancos públicos aos grandes empresários é a mesma cultura que chama de vagabundo quem recebe o Bolsa Família.

O sistema é tão cruel que ricos fazem até mesmo com que os próprios pobres sintam vergonha de sua pobreza, pois a consideram como resultado de um fracasso pessoal (como faz o ministro da Educação) e não de um arranjo socioeconômico.

Para todos os estudantes que não receberam prêmio algum, eu gostaria de parabenizar vocês também.

Certamente, vocês são pessoas bacanas, esforçadas, cheias de potencial, empáticas, amigas e criativas. O que não quer dizer que esses que ganham prêmios não sejam serumaninhos legais, mas não foram premiados por isso.

Muitos prêmios significam que eles se adaptaram bem a um sistema de ensino que prima pela competitividade e exclusão dos que dele fazem parte e dos que não conseguem a ele se moldar.

Vale observar que se Einstein vivo fosse e estudasse em muitas escolas tradicionais (quiçá militares) que existem hoje poderia ter sido expulso dado seu comportamento rebelde com esse modelo que não estimula os alunos a perguntar, a questionar e sim a responder e obedecer regras.

Um Prêmio é legal, mas absolutamente nada diz sobre a capacidade de lidar com o próximo e sobre a felicidade que os premiados terão no futuro e até mesmo se tem alguma no presente.

O mundo é extremamente complexo e, em certa medida, pode ser muito cruel. É triste quando testemunhamos essa crueldade sendo vivenciada e estimulada nas escolas.

Possivelmente, muitos de vocês que não foram premiados estão se sentindo burros e incapacitados por não terem conseguido, por exemplo, obedecer regras de redação que se Guimarães Rosa e Mário de Andrade tivessem obedecido não teriam escrito o que escreveram.

Preciso acrescentar que eu reconheço a necessidade em certas instâncias de uma política de seleção rigorosa. Mas me recuso a chamar isso de “Educação” já que o meu conceito de Educação envolve um bem estar de uma maioria.

Rigor, competição e disciplina são muito valorizados nesse conceito de Bozo-Educação. O que eles desprezam (ou admiram) é o fato de nunca na história termos tantas crianças e jovens frustados, infelizes, doentes e egoístas.

Aos premiados, parabéns! Aos que não foram, parabéns também! Cada um tem uma história, um ritmo para aprender e uma forma de fazer o mundo um lugar mais agradável de se viver. Não desistam dos seus sonhos, jamais deixem de acreditar no potencial de vocês e cuidem de todas as pessoas. O bem que fazemos é nosso melhor alimento.

Para finalizar, vindo de quem acha que Educação é mercadoria, o discurso não surpreende. Irônico e didático, porém, foi ouvir toda essa ode à meritocracia de um ministro da Educação que confunde Kafka com kafta, já mostrou que entende pouco de matemática e escreve ‘suspenção’ e ‘paralização’.

Mãe, estamos em uma Democracia?

Não acho legal ver fotos com crianças defendendo uma bandeira política. Penso que política e religião exigem maturidade para a escolha de qual corrente seguir.

Quando Yuki tinha 8 anos, perguntou o que estava acontecendo no Brasil. Na ocasião, víamos manifestação para tirar Dilma do poder.

Ao ver crianças dando entrevistas, ele se interessou. Criança pode ir à manifestação, mãe? Pronto, lá estava eu numa saia justa. Sou contra a doutrinação de crianças. Acho que cabe a mim como mãe ensinar meus filhos, sobretudo, a pensar.

Todos, porém, que me acompanham sabem que tenho a minha posição política muito bem definida, o que, ao meu ver, não me dá o direito de decidir qual será o lado que meu filho jogará dentro da política: esquerda ou direita.

O próprio Yuki percebendo a minha hesitação ajudou-me ao perguntar justamente a diferença entre esquerda e direita, já que os próprios jornalistas toda hora mencionavam essas palavras.

Coloco aqui o nosso diálogo que deixei registrado na época para não esquecer desse momento:

– Por que não positivo ou negativo, mãe? Ou branco e preto, por exemplo?

– Bom, essa é uma boa forma de começarmos. Isso tudo começou lá na França, há pouco mais de duzentos anos. O sistema político dos franceses nessa época era composto por grupos bem definidos, sendo que um deles formado por comerciantes e artesãos, por exemplo, era o único que tinha a obrigação de pagar os impostos, além de terem inúmeras limitações, como o fato de não poderem ocupar cargos públicos, por exemplo.

– Mas pode isso?

– Pois então. Parece meio injusto, não? Por isso talvez, pelo fato dos privilégios serem dados somente a uma pequena parte da população, que se iniciou a famosa Revolução Francesa. Nessa época, a burguesia procurava, com o apoio da população mais pobre, diminuir os poderes da nobreza e do clero. Daí então, para se criar uma nova Constituição, montaram uma Assembleia Nacional Constituinte. Acho que as camadas mais ricas não gostaram da participação das mais pobres, e preferiram não se misturar, sentando separadas, do lado direito. Não sei ao certo se foi isso, mas sei que a galera que representava o povão menos favorecido ficou posicionada à esquerda. Por isso, até hoje, o lado esquerdo foi associado à luta pelos direitos dos trabalhadores, e o direito ao conservadorismo e à elite.

Dentro dessa visão, ser de esquerda presumiria lutar pelos direitos dos trabalhadores e da população mais pobre, a promoção do bem estar coletivo e da participação popular dos movimentos sociais e minorias. Já a direita representaria uma visão mais conservadora, ligada a um comportamento tradicional, que busca manter o poder da elite e promover o bem estar individual.

Mas o mundo, meu filho, é muito mais complexo do que isso. Com o tempo, as duas expressões passaram a ser usadas em outros contextos. Hoje, as palavras ‘esquerda’ e ‘direita’ parecem não dar conta da diversidade política do século 21. Os contrastes até hoje como você pode ver existem, porém, não são mais do tempo em que nasceu a distinção. De uma forma geral, uma diferença crucial seria que a esquerda busca promover a justiça social enquanto a direita trabalha pela liberdade individual. Tivemos uma época no Brasil, por exemplo, da Ditadura Militar…

– O que é Ditadura Militar, mãe?

– Bem, podemos dizer que foi um período da política brasileira em que os militares governaram o Brasil. Esta época vai de 1964 a 1985. Caracterizou-se pela supressão de direitos constitucionais, censura, perseguição política e repressão aos que eram contra o regime militar, ou seja, pela falta de democracia.

– O que é democracia?

– A palavra democracia tem sua origem na Grécia Antiga. Demo quer dizer povo, kracia, governo. Dessa forma, a democracia pode ser entendida como um regime de governo onde o povo (cidadão) é quem deve tomar as decisões políticas e de poder.

Então, meu filho, continuando: essa divisão de direita e esquerda se fortaleceu muito no período da Ditadura Militar, onde quem apoiou o golpe dos militares era considerado da direita, e quem defendia o regime socialista, de esquerda.

– O que é socialista?

– Bom, o Socialismo é um sistema político-econômico ou uma linha de pensamento criado no século 19 para confrontar o liberalismo e o capitalismo. A idéia foi desenvolvida a partir da realidade na qual o trabalhador era subordinado naquele momento, como baixos salários, enorme jornada de trabalho entre outras.

Nesse sentido, o socialismo propõe a extinção da propriedade privada dos meios de produção e a tomada do poder por parte do proletariado e controle do Estado e divisão igualitária da renda. Todos ganham o mesmo. Não há como dentro do socialismo um ter carro zero enquanto o outro não tem o que comer. Isso, porém, é um sonho. Diria que é praticamente impossível pensar nesse regime.

Mas hoje, muitas outras divisões apareceram dentro de cada uma dessas ideologias de esquerda e de direita. Atualmente, os partidos de direita abrangem conservadores, democratas-cristãos, liberais e nacionalistas, e ainda o nazismo e fascismo na chamada extrema direita. Na esquerda, temos os social-democratas, progressistas, socialistas democráticos e ambientalistas. Na extrema-esquerda temos movimentos simultaneamente igualitários e autoritários. Cada qual dos lados, em diversos momentos da história (sobretudo no século 20), empenhou-se até a barbárie para fazer valer sua visão ideológica de mundo.

– Não tem meio termo? Eu tenho que escolher em que lado quero ficar?

– Não precisa. Há a posição de “centro”, por exemplo. Esse pensamento consegue defender o capitalismo sem deixar de se preocupar com o lado social. Em teoria, a política de centro prega mais tolerância e equilíbrio na sociedade. No entanto, ela pode estar mais alinhada com a política de esquerda ou de direita dependendo de sua visão sobre a economia. Por exemplo, os de esquerda pregam uma economia mais solidária, com maior distribuição de renda. Os de direita seriam associados ao liberalismo, doutrina que na economia pode indicar os que procuram manter a livre iniciativa de mercado e os direitos à propriedade particular. Algumas interpretações defendem a total não intervenção do governo na economia, a redução de impostos sobre empresas, a extinção da regulamentação governamental, entre outros. Mas veja que confuso e difícil, isso não significa que um governo de direita não possa ter uma influência forte no Estado, como aconteceu na Ditadura.

– Liberalismo me parece um nome bonito…

– E é. Na raiz, o adjetivo liberal é associado à pessoa que tem ideias e uma atitude aberta ou tolerante, que pode incluir a defesa de liberdades civis e direitos humanos. Mas não podemos esquecer que essa “liberdade” pode ter como consequência a privatização de bens comuns e espaços públicos o que poderia gerar mais desigualdades sociais.

A coisa, no entanto, é muito complexa. Por exemplo, o pensamento conservador geralmente é associado à direita. Propostas progressistas, à esquerda. No entanto, ambos, conservadores e progressistas, não raro, associam-se com liberais. É o caso, por exemplo, de quem defende ideias progressistas, como o aborto, políticas de cotas etc., mas defende a liberdade econômica, isto é, livre mercado, livre concorrência etc.; ou, ao contrário, quem defende política antiaborto, política contra as cotas e contra programas sociais fomentados pelo Estado, mas também se ajusta, igualmente, à prática do liberalismo econômico. Do ponto de vista político e ideológico, progressistas e conservadores divergem, mas concordam, por vezes, quanto à economia. Vê-se, então, que o problema é mais complexo do que se imagina.

– Não sei se estou te entendendo…

– Se você está confuso é sinal de que está bem informado e que agi honestamente. Quando, meu filho, neste mundo você vir uma pessoa com ideias muito claras sobre política, saúde, economia, progresso… pode ter certeza de que essa pessoa está mal informada. Fiquemos por aqui e aguardemos as próximas imagens e notícias para voltarmos a discutir.

De lá para cá, continuei mantendo essa linha. Porém, divido cada vez mais com ele as notícias de jornal já que Yuki está bem mais maduro para entender.

Hoje, com quase 13 anos, Yuki segue me perguntando uma série de coisas. Dentre elas, se estamos vendo a volta da Ditadura, como alguém pode defender Moro que foi juiz e agora ministro (Yuki acha tudo muito suspeito e inadmissível), por quê Lula segue preso depois de tantos vazamentos e quem matou Marielle.

Teresa e Tuca

Tenho conversado com as pessoas que dormem pelas calçadas nos arredores da minha casa. Cada ser humano, até mesmo quando acaba de nascer, tem uma história e ouvi-las tem sido minha maior fonte de revolta e de aprendizado.

Hoje, por exemplo, conheci André que me foi apresentado por Catatau, homens com idade em torno de quarenta que têm feito o banco da Praça do Largo do Machado de cama nessas noites de inverno.

Lá pelas tantas, perguntei para André o que ele fazia antes de estar naquela condição.

André olhou para baixo e respondeu:

– Eu amava Teresa.

A resposta foi inesperada, sem dúvida. Mas eu, sempre desajeitada em comedir sentimentos, do meu modo, entendi André.

Segui no diálogo como um fotógrafo se aproxima de uma garça.

– E, agora, André, o que tem feito?

André riu com seu rosto voltado para o chão.

Mexeu no cabelo.

Com seus olhos que refletiam as estrelas no céu em plena manhã de quarta feira, virou-se para mim e respondeu:

– Tô amando a Tuca.

Como se fosse uma grande tempestade

Dentre tanta coisa bacana aqui em Natal (estou no aeroporto esperando meu vôo), fui entrevistada pelo SBT. Não sei se a entrevista foi ao ar porque falei tudo o que pensava. Em tempos em que o ministro da Educação bloqueia meu acesso a ele que sou professora há mais de 20 anos, o livre falar é uma raridade.

A repórter começou a me perguntar sobre representatividade na política já que vim para participar do Projeto Elas por Elas (uma iniciativa do PT que coloca a frase “ninguém solta a mão de ninguém” como uma lei universal). Neste momento, falei o que estamos carecas de saber: que há muito a ser feito ainda e, portanto, reforcei a importância de eventos como o Elas por Elas.

Depois, a jornalista viu a fila gigante que estava para comprar o meu livro e perguntou:

– Esse livro é sobre física. Nada tem de política nele, né?

Respirei como quem, sentado no restaurante com fome, vê o garçom chegando com a comida.

– Primeiramente, a política está em tudo. Quando não falamos sobre política, estamos agindo politicamente. Em segundo, esse livro é uma obra que faz crianças e adultos pensarem muito. Em tempos que a ciência é tão atacada, que o desmatamento é desconsiderado à luz de fotos de satélites, que as ciências humanas são desmerecidas por “serem inúteis”, um livro INFANTIL que é um convite para refletir sobre do que somos feitos e permeado de Filosofia é político sim. Ler e pensar no governo de Jair Bolsonaro é um ato subversivo.

Silêncio. Dois segundos de um eterno silêncio.

Mais do que nunca, não podemos nos calar. Além disso, devemos superar o medo de falar porque é isso que querem que façamos. É necessário que saibam e respeitem a nossa força.

A repórter agradeceu e a entrevista foi encerrada.

Se foi ao ar, não sei.

O principal foi feito dentro de mim: chovi feliz como se fosse uma grande tempestade.

Inútil evolução

Arte de Sérgio Ricciuto Conte

Estava olhando o mar ali aos arredores do aeroporto Santos Dumont. O Morro do Pão de Açúcar era meu horizonte. Fui de bicicleta e sem celular. Precisava não ser encontrada pelas notícias e aquele cenário já foi mais do que fotografado por mim.

Havia uma paz delicada ocupando aquele espaço com mais intensidade que o campo gravitacional. Eu praticava um relaxamento subversivo e me apoiava numa certeza risível de que já tinha visto de tudo nesta vida.

De repente, Pipo me cutucou e apontou uma ave franzina que estava boiando como um pato no mar. Mas não era só isso. A danada mergulhava. Sumia e reaparecia um pouco mais ali na frente. Ela que adejava pelas nuvens também sabia prender a respiração e se permitia molhar por inteira.

Como se tudo já não bastasse, o pássaro voltou do mergulho com algo preso em seu bico. Demorei a entender. Parecia que ele havia resgatado um amigo já que eu estava vendo um outro ser com duas asas.

Qual o quê.

A ave que mergulhava havia abocanhado um peixe que voava.

A luta não foi fácil. Os dois eram quase do mesmo tamanho. O peixe com as asas abertas não passaria fácil por aquela garganta fina do pássaro que submergia no mar.

Fiquei olhando apreensiva aquela cena. Não era apenas um bicho comendo outro – ordem natural das coisas.

Uma ave mergulha para buscar seu alimento. Um peixe voa para fugir de seus predadores comuns do mar. Neste sentido, era a fome de um contra anos de metamorfose do outro.

A fome tem suas urgências e o pássaro, depois de muito custo, conseguiu colocar a cabeça toda do peixe em sua boca e foi ajeitando seu pescoço esticando-o como um elástico para que todo o resto de uma história de adaptação entrasse.

De que adiantou desenvolver enormes barbatanas, planar como uma gaivota por onde tubarões jamais conseguem alcançar para ser capturado – enquanto dorme sossegado – por uma espécie de pato esmilinguido que mergulha?

Um ser com fome, ainda que seja um ser livre e tenha um tipo raro de sabedoria daqueles que voam, é capaz de depreciar a paz, rir de Deus e desprezar Darwin.

Um ser com fome é capaz de ignorar conceitos como densidades e empuxos para enfrentar sozinho esta gravidade.

De tão pesado, depois de ter ingerido algo do seu tamanho, o pássaro não se aventurou a voar. Acomodou-se fora da água com a tranquilidade aparente de alguém que abre um livro.

Eu, sem estar com meu celular, comecei ali mesmo a escrever – pois um texto é uma espécie de fotografia.

Nunca pensei que veria, ali parado numa pedra e com um olhar de deboche para os aviões que pousavam na pista, um pássaro digerindo anos de uma inútil evolução.

A volta do exílio

Quando criança, nunca tive vestido. Como gostava de jogar bola, subir em árvore, andar de bicicleta e coisas afins, um short me parecia muito mais seguro e agradável.

Quando criança, nunca usei brinco. Minha mãe não furou as minhas orelhas na maternidade e eu achava que incomodava por demais qualquer penduricalho no meu corpo.

Quando criança, nunca tive cabelos compridos. Cabelo curto me dava mais liberdade e praticidade. Andar de patins de cabelo curto é um tipo de liberdade que usufrui muito quando criança.

Quando criança, não usava roupa rosa. Gostava de cores mais neutras e a minha cor preferida sempre foi azul. A colcha da minha cama era azul. Meu estojo era azul. Minha mochila azul.

Quando criança, também não tive sandálias com lacinhos porque meodeos. Como correr com aquilo? Usava tênis e calçados que achava confortáveis.

Quando criança, brinquei de carrinho, trem, joguei bola, queimado e tive bonecas cujas casas eu adorava fazer com o que tivesse de sucata em casa.

Fui aprendendo a “ser feminina” conforme fiquei adulta. Adolescente, ainda usava blusas largas, tênis e calças e bermudas. Saias jamais. As unhas sempre eram roídas pela ansiedade que fez parte de mim desde quando soube o que eram as mãos e comecei a sonhar com lugares onde meus pés pisariam.

Aprendi a “ser mulher” com o tempo.

A menstruação para mim era um problema como é até hoje. Não me entendia com absorventes e em nada me sentia feminina com um bolo de algodão se encharcando de sangue entre as minhas pernas. Nunca senti nojo de mim mas repugnei as dores que tive por ter um útero. Não seria um órgão assim como minhas roupas que me definiam como mulher.

Quando comecei a dar aula, tive vergonha das minhas mãos sem cor, das roupas largas, da falta de maquiagem. Procurei seguir os padrões que me eram impostos e conheci vários tipos de prisão, algumas formas de lesão por andar de salto alto com a mente um tanto perdida e a dor da depilação senti depois dos quarenta. Estive com homens que não leram nada do que escrevi mas me elogiaram quando estava com uma porcaria de uma calcinha combinando com uma titica de sutiã.

Seguir padrões é um exílio da infância.

Dentre tantos sentimentos bonitos que me fizeram voltar a dormir com uma mesma pessoa, a gratidão está presente. Não consigo ser extremamente feliz sem ser grata.

Andava exausta. Vazia. E meu vazio era imenso porque sempre tive muita interioridade.

Obrigada, Pipo, por povoar um lugar em mim onde o silêncio fazia ecos.

Quando você está, me reconheço. Na sua presença, sempre saúdo uma liberdade que só senti quando fui criança.

Sobre caiaque e a contingência das minhocas

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Andei pela primeira vez de caiaque com o Pipo. Para quem ainda não sabe, fiquei casada quase 20 anos, separada quatro e quando não acreditava mais no amor, Pipo apareceu como se eu estivesse numa livraria buscando um livro para passar o tempo e me deparasse com O Lobo da Estepe de Hermann Hesse. Dito de outra forma, como se andasse passeando a esmo para distrair a mente e, de repente, me defrontasse com uma orquestra ensaiando ao ar livre.

Eu e Pipo, de alguma forma, estamos juntos desde que nascemos mas, fisicamente, pelas minhas contas e pelo o que entendo de tempo, há 14 bilhões de anos quando o Universo foi criado (Fiquei superlativa como os poetas depois de conhecê-lo). Quantos minutos ficaremos ainda nessa conexão foi o que a experiência de ontem no caiaque me mostrou.

O caiaque tinha dois lugares. Antes de entrar no mar, recebemos as instruções do moço bronzeado e experiente:

– O “motor” vai atrás. As remadas têm que ser sincronizadas para o barco andar melhor. Andem inicialmente contra o vento. Na volta, já cansados, o vento ajudará vocês a retornar.

O “motor” era quem ia remar com mais força e dadas minhas raízes feministas, marxistas e taxistas, que como toda mulher inteligente e preguiçosa eu as mando para o espaço quando me convém, fui logo me fazendo de meiguinha-frágil e me sentando na frente.

Nunca havia remado na vida. Não há mistério algum. Só muita dificuldade mesmo. Não no movimento físico em si, mas em entender como vim parar no meio do mar, sem celular, sem saber onde fica o norte, sem saudade do passado, sem expectativas sobre o futuro, sem culpa alguma, com sinusite e a paz dos que desistiram de entender. Sou assim. Plena de paradoxos.

Não consigo dançar por falta de ritmo e não seria com algum compasso frequente que as minhas remadas amadoras seriam dadas. A sincronia ficaria por conta do Pipo que estava atrás e ficou responsável por ser o espelho dos meus movimentos.

Se o amor tem algo a ver em reproduzir a pulsação da marcha do outro, com algum tipo de sincronia, seria no mar que ele seria colocado à prova.

Assim pensei na largada animada com a certeza de que Pipo reproduziria fácil o que eu fizesse.

Pipo lindamente correspondeu às minhas braçadas não periódicas e em questão de poucos minutos saímos do posto 3 no Aterro do Flamengo rumo ao aeroporto Santos Dumont. Chegamos até a ponte Rio-Niterói e ficamos algum tempo nos beijando longamente.

Assim imaginei que seria. Qual o quê.

A vida está aí para zuretar com as nossas expectativas. Em menos de 5 minutos, Pipo descobre algo:

– Amor, sua braçada da direita é mais forte que a da esquerda. A gente tá fazendo curva.

Pipo descobriu uma das minhas assimetrias. Meu pé direito é virado para fora, meu ouvido direito não ouve mais as frequências agudas e meu olho direito é mais míope que os outros dois olhos juntos, se é que me entendem. Do lado esquerdo, o coração, uma costela proeminente que não me deixa usar biquíni sem me sentir constrangida e um relógio no pulso. Nenhuma dessas assimetrias foi problema para nós até aquele momento.

– Mas é que sou destra. Acho que todo mundo tem esse problema, não?- perguntei como fazem os que não sabem pedir desculpas e ficam justificando os erros.

– Tenta remar mais longo do lado esquerdo para compensar. – orientou-me Pipo como os professores que têm esperança no futuro no Brasil.

Acho que consegui fazer o que ele me sugeriu por uns vinte segundos. O resto foi só tentativa. Ainda assim – e é o que importa – estava feliz movimentando o remo ora com o braço esquerdo ora com o direito com um sorriso típico de quem acaba de comprar um algodão doce.

Empolguei-me e dei mais força para aqueles torques. Senti-me uma atleta olímpica competindo. A água espirrava no meu rosto – dado a velocidade da luz do meu remo.

– Amor, você está trocando muito rápido. Respira entre uma remada e outra!, ouvi Pipo como se fosse a voz da terapeuta que nunca tive ou do Mufasa saindo das nuvens.

Empenhei-me em seguir as orientações e só sentia nossos remos bater por falta total de simultaneidade nos gestos.

– Só olhar para um foco e ir reto, amor! – pediu Pipo mais para Deus do que para mim.

Nunca na vida consegui andar em linha reta. Meu pretérito é imperfeito e meu futuro é do pretérito. Jamais fui guiada pela luz do fim do túnel. Inspiro-me na suavidade dos indelicados, a mesma que faz com que um cavalo ande bonito. Não consegui seguir sequer uma religião – mesmo precisando de perdão para meus inúmeros pecados – e Pipo me pedia foco. Justamente quando o horizonte estava lindo e tão distante meu Deus. Não seria ali que iria conseguir me livrar dessa minha ânsia de mandar as bússolas às favas…

Por outro lado, era o meu amor que não queria decepcionar.

Tensão no mar.

Aceitei humilde o que Pipo havia me falado como quem aceita um batismo. Possuo uma certa paz interna e a tirania de uma mulher que necessita ser amada – e, por não saber o que uma mulher precisa fazer, foquei em tudo o que via: no aeroporto Santos Dumont, no Dedo de Deus, na ponte Rio-Niterói, em Niterói, no Museu do Niemeyer, no forte que não sei o nome, na gaivota que era uma fragata e no Pão de Açúcar. Como não ficar alucinada com o Pão de Açúcar? Mirava e ia. O importante é sempre ir. A bicicleta só fica em pé equilibrada quando está em movimento – e minha serenidade encontra o centro de gravidade quando me aposso dessas metáforas.

O barco navegou em várias direções por algum tempo. Em um determinado instante, depois de não mais ouvir nossos remos batendo, Pipo chegou perto do meu ouvido direito e falou com sua voz grave que sempre me acalmou o semblante e fez meus hormônios entrarem em guerra com os dogmas de muitas igrejas.

– Amor, pode descansar, se quiser. Você está remando sozinha há algum tempo. Posso conduzir agora.

Não estava cansada e muito menos surpresa. Queria mesmo era ver o que Pipo faria com aquela vista toda.

Se ele andou reto, foi por pouco tempo.

– Amor! Olha aquilo amarelo! Vamos lá ver o que é!

E desatamos a remar loucamente com nossos remos batendo um no outro até um pote de margarina.

– Amor! Olha ali!

E lá fomos atrás de uma havaiana perdida.

Com remadas de ritmos bem particulares e cada hora mirando em algo pairado no mar, conseguimos encher o caiaque de lixo. Andamos em zigue-zague, em círculos, em espiral e, enfim, em linha reta e perpendicular ao vento – já que havia dado o tempo e tínhamos que retornar de onde saímos. Pescamos vários plásticos que boiavam e descobrimos que, de algum jeito, chegamos juntos remando onde queremos.

Assim como jamais gritei de alegria ao ver um filho dando os primeiros passos para que ele não se assustasse, saí do caiaque contida falando para o Pipo que precisava escrever sobre a assombro de ter visto tanto resíduos e a sensação boa de ter conseguido chegar até eles e limpado o mar.

Dizem por aí que o amor tem a ver com sincronia. Talvez alguns sim. Mas há infinitas formas de amar. Descobri, dentro de um maiô, que podemos falar em eternidade nos iludindo com a paz de um passarinho pousado em um galho ou descobrindo formas jocosas de lidar com a nossa contingência e a das minhocas.

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Isaac e Paulo no Mundo das Partículas

Ontem fizemos o lançamento do Isaac no Mundo das Partículas aqui em São Paulo. O livro foi escrito por mim e ilustrado pelo gênio Sérgio Ricciuto Conte que levou todas as ilustrações originais.

Contamos várias histórias para quem por lá conseguiu passar. Afinal, Isaac no Mundo das Partículas é uma publicação independente e vivemos várias situações inusitadas para que esse livro fosse publicado.

Eu sei o poder que um livro tem na mão de uma criança. Eu sei o que ele pode fazer com a mente da gente. Minha vida sempre foi transformada a cada leitura.

E por acreditar nisso, sou capaz de viajar sozinha pelo Brasil sem patrocínio nenhum para divulgar uma obra que mistura arte e ciência e é capaz de fazer um reboliço na cabeça de quem entra na nave de Isaac.

Ontem peguei estrada. Antes de vir, de última hora, um vizinho meu de Madureira estendeu a mão e se ofereceu para me ajudar. Veio comigo até Sampa e ainda ficou “de caixa” na hora do lançamento. Pedro é professor de matemática do Pedro II, trabalha a semana inteira e topou vir sábado e voltar domingo para que eu ficasse um pouco menos sobrecarregada. Suburbano é assim. Vizinho é irmão. Ele está dirigindo agora enquanto escrevo para vocês. Gratidão, Pedro.

Quero destacar porém a cereja da noite. Uma criança chegou lá ontem. Estranhei porque já vinha com o Isaac na mão. Geralmente as pessoas vão para ‘comprar’ Isaac. Paulo não. Chegou com Isaac lido mais de não sei quantas vezes. Sabia várias passagens de cor. Fez vários desenhos para ilustrar o que ele havia entendido. Era colisão de carrinhos simulando colisão entre partículas, Bóson de Higgs na presença da origem do Universo, foguetes, modelos atômicos e mais um punhado de desenhos tudo registrado em um caderno que ele fez questão de levar para me mostrar.

Paulo se emocionou vendo as ilustrações originais. Percebeu algumas diferenças que ninguém havia observado e que só eu e Ricci sabíamos porque discutimos muito entre nós – na época em que pensávamos o livro. Questionou-as e compreendeu nossa obra como os que aplaudem o pôr do Sol não por acreditar que o Astro vá ouvir mas por uma espécie de harmonia com o Criador.

Quando Paulo chegou, eu já estava sentada ali há mais de quatro horas e meia dando autógrafos e atenção para todas as pessoas que passaram por lá (obrigada, galera, por terem ido). Isso depois de seis horas na estrada… estava esgotada fisicamente. Mas Paulo fez com que todo o meu cansaço fosse sublimado e me fez chorar com toda a sua empolgação com o tema.

Paulo, você agora está dirigindo a nave de Isaac. Ele a deixou com você. Voa, querido, por esse Universo da Ciência. E, se possível, volte sempre para me contar o que descobriu.

Paulo me abraçou dizendo que não gostou de Isaac no Mundo das Partículas. A mãe dele estava errada. Foi o livro que ele mais amou na vida.

Quando publiquei Isaac eu imaginei meu menino indo para o mundo. Cada vez que alguém adquire esse livro, eu imagino a nave partindo para uma galáxia desconhecida porque cada mente, assim penso, é um Universo em si.

Jamais pensei que meu filho voltaria pelas mãos de uma criança que estava no controle total da nave.

Dormi com a imagem de Paulo e Isaac viajando pelo Mundo das Partículas.

Obrigada, mãe e pai do Paulo por terem o levado até mim.

Obrigada a todas as pessoas que, de um jeito ou de outro, apoiam essa minha empreitada e acreditam em livros como eu.

Não basta dar Feliz Dia das Mães. Abrace todas todos os dias.

 

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Hoje é dia das mães e há 26 anos eu me tornei uma nessa sociedade doente. Poderia ter sido tudo tão mais tranquilo se simplesmente ninguém soltasse a mão de ninguém. Mas a nossa realidade é que andamos com dedos na nossa cara nos julgando o tempo todo.

Engravidei com 19 anos na faculdade. Na época, perdi as contas de quantas pessoas me chamaram de puta.

Minha mãe super católica entrou em desespero porque eu não era mais virgem e nem sombras havia de um casamento.

Meu pai disse que teria que dar meu filho.

“Amigos” se afastaram de mim para sempre.

Não teve uma noite que não molhei o travesseiro de tanto chorar de desespero.

A palavra aborto era a que saía da boca de todas as pessoas. Não recebi parabéns de ninguém.

Com três para quatro meses de gravidez tive toxoplasmose. A médica disse que teria que tirar o bebê porque ele ia nascer deficiente e eu poderia ficar cega ou ter outros problemas irreversíveis de saúde.

Tinha força para encarar o que viesse mas não para me submeter a um aborto já sentindo a barriga se mexer. Minha mãe, hiper católica, conversou com um padre que disse que Deus me perdoaria se eu abortasse.

Eu já era ateia e, portanto, não tinha cometido pecado nenhum já que esse conceito não existe no meu mundo-não-religioso. Expliquei para minha mãe que não iria abortar por medo de Deus e sim porque não queria. Que era um direito da mulher abortar (ou não) e que ninguém tem o direito de julgá-la.

Nem Deus.

Minha mãe que era radicalmente contra o aborto por questões religiosas (e que também tinha me julgando mal por questões religiosas), pediu para que eu pensasse bem. Afinal, eu corria muito risco e ela estava desesperada em me ver sofrer ou me perder.

Disse que um filho “perfeito” já iria ser difícil para eu criar sozinha. Ainda mais um com deficiência. Falou que ela estaria ao meu lado sempre me ajudando mas que a cruz quem carregaria seria eu. E ela poderia ser muito pesada para mim.

Cada uma sabe a estrutura que aguenta. Minha barriga já se mexia e alguma coisa metafísica já havia sido criada. Não quero romantizar nada. Mas acho que foi o que chamam por aí de maternidade. Eu já era uma mãe.

Cuidei o máximo da saúde corporal já que a mental nunca foi lá grandes coisa e grávida com a sociedade-classe-média-cristã- década-de-90 me julgando já viu.

Meu pai não falou comigo mais durante toda a gravidez. Minha mãe chorava como seu eu estivesse com uma doença incurável. Puxei 9 matérias na faculdade de Física para não atrasar na minha formação. Geralmente enlouquecemos lá fazendo quatro…

De tanto ficar sentada estudando minhas pernas incharam a ponto de eu não conseguir enfiar nem chinelo nos pés. Passei a estudar fazendo contas deitada de barriga para cima. E andava na rua com sapatos de pano tipo pantufas. Tinha coleguinha e professor na faculdade fazendo graça com isso.

Quando fui ter o nenem não sabia o sexo e nem o nome.

Ganhei o enxoval de uma colega que havia passado pelo mesmo “problema” que eu. O berço foi um carrinho emprestado. Comprei fraldas de pano com dinheiro de aula particular.

Ia sozinha para o hospital ter o nenem quando meu pai apareceu no caminho dizendo que me levaria. No carro, pediu para que se fosse menino que colocasse o nome do pai dele que morreu na guerra quando ele tinha 7 anos e que ele morria de saudade: Hideo.

Na hora eu pensei: que nome esquisito… e que diabos esse homem deixou de falar comigo a gravidez inteira e hoje vem me pedir uma coisa dessas?

Assim como não acho certo julgar ninguém, perdoei meu pai sem que ele me pedisse perdão e disse que se fosse menino, Hideo se chamaria.

Quando Hideo nasceu, relaxei como nunca havia relaxado na vida. Disse sorrindo para o médico que estava vendo estrelas e tudo girando. Era minha pressão caindo e eu tendo uma parada cardíaca.

Desmaiei por minutos. Acordei sendo massageada literalmente no coração e toda enfaixada como se fosse uma múmia para que a circulação fosse ativada. Lembro que ouvia o médico gritar meu nome pedindo que eu desse algum sinal de que estava escutando.

Não tinha força para responder que estava ouvindo ele gritar. Só sentia felicidade e uma vontade louca de mandar toda essa sociedade se fuder.

Quando tive forças, arranquei o oxigênio que estava no meu nariz e pedi meu filho.

O médico enfiou o tubo de oxigênio de novo e disse que estavam trazendo Hideo para mim. Ganhou 10 no apgar que é a nota que se dá para a saúde do bebê assim que ele nasce.

Se Hideo nascesse com algum “defeito” eu não estava nem aí porque o defeito está na sociedade. Todos nós, em alguma medida, somos defeituosos.

Me sentia preparada emocionalmente para recebê-lo do jeito que ele viesse.

Acho que cada mulher tem que decidir o que vai fazer diante a notícia de uma gravidez. Não estou contando isso para me comparar a ninguém. Mesmo porque sou uma mulher branca de classe média e meus problemas não se comparam aos que passam as mulheres pretas periféricas.

Lembrei disso agora porque é dia das mães e há 26 anos eu me tornei uma nessa sociedade que sabe vender flores neste dia mas é cega com o sentimento de tantas de nós.

Não tinha que ter sido nada tão sofrido. Estava bem, queria ter meu filho, tinha saúde para trabalhar, “estrutura familiar” e, na pior das hipóteses, a criança também tinha um pai que não foi cogitado no julgamento de ninguém.

Como disse, se simplesmente ninguém soltasse a mão de ninguém, poderia ter sido tudo mais tranquilo.

Mas a nossa realidade, até hoje no século 21, é muitas de nós ainda andam sozinhas e são julgadas por esse povo que nasceu “perfeito” mas que carece de muitos sentimentos.

Essa história não é nada diante das mulheres mães que estão encarceradas, mulheres de periferia que têm crianças especiais, mulheres que não têm comida para dar para os filhos.

Não basta dar feliz dia das mães hoje.

Abracem todas todos os dias.