Partiu usar a Bíblia em sala de aula!

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Foto: Bárbara Lopes

O ministro da educação Ricardo Vélez anunciou Iolene Lima para chefiar a Secretaria Executiva do MEC. Na prática, ela será a número dois da pasta. Ela defende que a Bíblia deve ser a base para a Educação e cita Gênesis para que a criança aprenda matemática inicialmente por ele (no 1o dia Deus fez isso, no 2o dia aquilo, um, dois, três… dias da semana… Gênesis nas cabeça).

O vídeo com Iolene explicando didaticamente com podemos usar a Bíblia em aula de geografia, biologia e matemática está em todas as redes. Não deixem de ver.

Eu gostei disso de levar Bíblia para a sala de aula. Na verdade, adorei. Já quero.

Vamos ver alguns fatos para debatermos em sala de aula? Vamos!

Comecemos no Gênesis com a adorada história de Noé. A lenda dos animais entrando na arca aos pares.

Deus condenou os seres humanos e resolveu – com exceção de uma família – afogar todos eles, incluindo as crianças, e também, por via das dúvidas, o resto dos animais, presumivelmente os inocentes, de certo…

Deus é bom? Deus é perfeito? Por que condenou crianças? Vamos fazer um problema de matemática com isso utilizando Gênesis como propõe a secretária executiva do MEC? Vamos!

Deus afogou 25 famílias com 4 crianças cada uma. Quantas crianças morreram sem ter culpa de nada?

Vamos agora para destruição de Sodoma e Gomorra. Foi Ló, sobrinho de Abraão, o escolhido para ser poupado junto com a sua família por ser especialmente correto.

Dois anjos foram enviados a Sodoma para avisar a Ló e dizer que ele saísse da cidade antes da chegada do enxofre.

Ló recebeu os anjos com hospitalidade, e então, todos os homens de Sodoma reuniram-se em torno da casa dele e exigiram que Ló entregasse os anjos para que eles pudessem sodomizá-los: “Onde estão os homens que vieram para sua casa esta noite? Traze-os para que deles abusemos”(Gênesis, 19,5).

A bravura de Ló ao recusar-se a ceder à exigência sugere que Deus deve até ter tido razão ao considerá-lo o único homem de bem de Sodoma.

Mas… a auréola de Ló fica manchada com os termos de sua recusa: “Rogo-vos, meus irmãos, que não façais mal; tenho duas filhas, virgens, e vo-las trarei; tratai-as como vos parecer, porém nada façais a estes homens, porquanto se acham sob a proteção de meu teto” (Gênesis, 19,7-8).

Por mais estranha que a história possa parecer, ela certamente nos indica alguma coisa sobre o respeito reservado às mulheres nessa cultura inteiramente religiosa.

Bom tema para discutirmos gênero em sala, o papel da mulher na história e coisa e tal. Réchi tégui fica a dica.

No final, a oferta que Ló fez da virgindade de suas filhas mostrou-se desnecessária, pois os anjos conseguiram afastar os opressores cegando-os por milagre.

Pausa para uma boa questão de matemática utilizando Gênesis:

Os anjos de Ló cegaram 27 soldados. Quantos olhos deixaram de enxergar por conta desse crime?

Voltando à Bíblia. Eles então advertiram Ló para que partisse imediatamente com a sua família e seus animais porque a cidade estava prestes a ser destruída. A família inteira escapou, com exceção da pobre mulher de Ló, que o Senhor transformou num pilar de sal por ter cometido a ofensa de olhar para trás para ver os fogos de artifício.

Vejam vocês, a curiosidade de uma mulher na Bíblia foi duramente condenada.

Bora seguir que eu adoro a Bíblia em sala de aula:

As duas filhas de Ló fazem uma breve reaparição na história. Depois da mãe delas ter sido transformada num pilar de sal, elas moram com o pai numa caverna, no alto de uma montanha. Carentes de companhia masculina, adivinha (!), elas decidem embebedar o pai e copular com ele.

Ló não percebeu quando sua filha mais velha chegou a sua cama, mas não estava bêbado demais para engravidá-la. Na noite seguinte as duas filhas combinaram que era a vez da mais nova. Novamente Ló estava bêbado e engravidou a mais nova também (Gênesis, 10, 31-36).

Vamos usar a Bíblia para nos inspirarmos em questões de biologia?

Considerando o cruzamento genético e o papel do ambiente no desencadeamento de problemas, as chances de um recessivo se manifestar é de 50%. Por que o risco é 100 vezes maior quando Ló transa com as filhas do que se elas tivessem copulado com os soldados, por exemplo?

Cá para nós, se essa família tão perturbada era a melhor que Sodoma tinha a oferecer em termos de princípios morais, dá até para entender o enxofre punitivo mandado por Deus!

A história de Ló e os sodomitas ressoa de forma assustadora no capítulo 19 do livro dos Juízes, quando um levita (padre) não identificado viajava com a concubina em Jebus.

Eles passaram a noite na casa de um velho hospitaleiro. Enquanto jantavam, os homens da cidade chegaram e bateram à porta, exigindo que o velho entregasse seu convidado “para que dele abusemos”.

Praticamente com as mesmas palavras de Ló, o velho disse: “Não, irmão meus, não façais semelhante mal; já que o homem está em minha casa, não façais tal loucura. Minha filha virgem e a concubina dele trarei para fora; humilhai-as e fazei delas o que melhor vos agrade; porém a este homem não façais semelhante loucura”(juízes 19, 23-24).

Acho o termo “humilhai-as” especialmente aterrador. É como se dissesse: Divirtam-se humilhando e estuprando a minha filha e a concubina desse padre, mas mostrem o devido respeito por meu convidado, que, afinal de contas, é homem!

A concubina não teve a mesma sorte que as filhas esquisitas de Ló. O levita a entrega à multidão que a estupra coletivamente a noite inteira: “E eles a forçaram e abusaram dela toda a noite até pela manhã; e , subindo a lava, a deixaram. Ao romper da manhã, vindo a mulher, caiu à porta da casa do homem, onde estava o seu senhor, e ali ficou até que se fez dia claro”(Juízes 19, 25-26).

De manhã o levita encontra a concubina prostrada na porta e diz: “Levanta-te e vamos”. Mas ela não se moveu.

Estava morta.

Então ele “tomou um cutelo e, pegando a concubina, a despedaçou por seus ossos em doze partes; e a enviou por todos os limites de Israel”.

Sim. Você leu certo. Pode olhar em Juizes 19, 29.

Vamos fazer um probleminha de matemática utilizando as partes do corpo da concubina para estudar fração?

Vou passar essa.

Podemos ir além nesse história bíblica que deve ser debatida em sala de aula. Havia um motivo para esse esquartejamento: provocar uma vingança.

E deu resultado, pois o incidente causou a guerra de desforra contra a tribo de Benjamim, na qual, como o capítulo 20 de Juízes ternamente registra, mais de 60 mil homens foram mortos.

Matemática? Probleminhas? Vamos fazer? Deus é o matemático mais perfeito que existe, segundo o MEC. Bora?

Depois eu faço. Continuando.

Essa história é tão parecida com a de Ló que não dá para não especular se algum fragmento do manuscrito sem querer não se misturou em algum escritório esquecido de um monastério.

Calma que isso não é nada! As aulas podem ficar ainda mais interessantes!

–  Abram a Bíblia na página tal! Hoje a aula vai ser sobre Abraão!

Todos os episódios desagradáveis citados acima não passam de pecadilhos se comparados à infame lenda do sacrifício de filho de Abraão: Isaac.

Deus determinou que Abraão transformasse seu filho querido em oferenda em forma de fogo. Abraão construiu um altar, colocou lenha sobre ele e amarrou Isaac sobre a lenha.

(Questão sobre física boa aqui. Como o atrito gera calor…)

A faca assassina já estava em suas mãos quando um anjo interveio drasticamente, com a notícia de uma mudança de planos de última hora: Deus estava apenas brincando, no fim das contas, estava apenas testando a fé de Abraão.

Ufa!

Mas, como uma criança conseguiria se recuperar de tamanho trauma psicológico?

Fica a dica para aulas de Moral e Cívica. Podemos discutir que Deus foi bom pois poupou a vida de Isaac no último minuto.

Isso prova que Deus realmente é bom, mas quero ver como vai explicar a onisciência se baseando nessa história… Por que Ele não foi capaz de entrar na cabeça de Abraão e poupar a criança do trauma?!

Vai ser um excelente debate.

Em Juízes, capítulo 11, o líder militar Jefté fez uma troca com Deus combinando que, se Deus garantisse a vitória de Jefté sobre os amonistas, Jefté sacrificaria, sem falta, na fogueira, “aquele que sair primeiro da porta da minha casa e vier ao meu encontro, voltando eu.”

(Analisar a gramática e o estilo da Bíblia nas aulas de português. Não faltam frases interessantes).

Jefté tinha mesmo a intenção de derrotar os amonistas e voltou para a casa vitorioso.

Como era de se esperar, sua filha, única filha, saiu de casa para recebê-lo e, que pena, foi a primeira a sair pela porta…

Jefté rasgou suas roupas, compreensivelmente, mas não havia nada que pudesse fazer. Deus estava ansioso pela oferenda prometida, e dadas às circunstâncias, a filha, respeitosamente, concordou em ser sacrificada.

Ela só pediu permissão para ficar dois meses na montanha para lamentar a sua virgindade. Ao fim desse período ela voltou, obediente, e seu pai a cozinhou. Deus não achou por bem intervir nesse caso.

(Questões sobre geografia e biologia aqui. Pressão em montanhas, falta de oxigênio, hemácias e coisa e tal.)

Vou adorar chegar em sala com o Novo Testamento! Venha nimim, MEC!

Jesus, meu ídolo! Se Jesus não era comunista era radicalmente contra um sistema que permite que uns tenham de tudo e outros quase nada.

E mais! Jesus estaria a favor, certamente, das políticas sociais instaladas no Brasil no governo do PT pois ele foi O Cara que distribuiu pão e multiplicou os peixes e só depois é que ensinou a pescar porque sabe que “quem tem fome tem pressa”.

Jesus seria contra essas reformas todas que só prejudicam os pobres e seria Réchitégui-EleNão nas cabeças. Petralhudo, mortadelaço ou algo que o valha seriam os apelidos de Jesus.

Jesus era um típico pé rapado. Vivia descalço de vestidão, parecia que nunca viu um pente e uma tesoura para aparar aquela barba. Ele era contra o consumismo, meus alunos. Parecia um universitário de humanas.

Percebem? Não tinha vaidades, não usava terno e maletas, principalmente, não tinha preconceito algum.

Jesus não julgou ninguém. “Atire a primeira pedra aquele que…” é A Frase mais LGBTT que eu já vi nesse mundo!

“Não faça com os outros aquilo que você não quer que façam com você” resume todo o resto.

Já me vejo falando em sala de aula com a Bíblia na mão emocionada:

– Eu tenho a impressão, meus alunos e minhas alunas, de que se Jesus voltasse, a primeira coisa que ele faria era tacar uma bomba (no sentido metafórico ou quem sabe mesmo literal) em várias Igrejas que doutrinam as pessoas e as obrigam praticamente a selecionar somente um tipo de amor que lhes é permitido e ainda por cima lucram exorbitantemente falando coisas que Jesus jamais proferiu e vendendo de tudo com a Sua imagem.

E continuaria:

– Há uma passagem que eu adoro em que Jesus chega chutando literalmente o pau da barraca. Quando ele chega no Templo de Jerusalém e vê um punhado de gente vendendo vários badulaques, Jesus fica possesso e sai quebrando tudo. O que ele faria no Templo do Salomão? Ou vá lá, no Vaticano? O que ele faria vendo Malafaia oferecendo todos os dias produtos em sua rede?

– Jesus queimaria pneus no meio de estrada contra medidas que estão querendo nos impor que prejudicam a classe trabalhadora? Vamos debater esse tema, turma!

Concluiremos em sala de aula que se Jesus voltasse, ele seria crucificado de novo.

Exatamente pelas pessoas que falam diariamente em Seu nome e me obrigam a isso.

Vai ser lindo. Adorei a ideia e já penso em começar na semana que vem! Estou empolgada!

Pelas mulheres e pela liberdade de Luiz Inácio Lula da Silva

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Olá, gostaria de me apresentar. Eu sou uma mulher comum, professora, mãe de dois filhos e de uma filha, minha casa fica no subúrbio do Rio de Janeiro, mais especificamente em Madureira bem ao lado do Império Serrano, onde Lula assinou a minha ficha de filiação ao Partido dos Trabalhadores e das Trabalhadoras em agosto do ano passado.

Como isso foi acontecer, é uma história que tentarei contar para quem quiser ouvir por acreditar que ela vale a pena – principalmente em um dia especial como hoje em que celebramos conquistas sociais e políticas das mulheres no mundo inteiro.

Nunca fui uma militante típica de ir a manifestações, plenárias e coisas afins até mesmo porque, como mãe de crianças e moradora do subúrbio carioca, não é fácil o ir e vir. Porém, fui professora a vida inteira e não tem como trabalhar no Ensino Público e ficar alheia ao que acontece nas Assembleias e nas Câmaras. Já tive duas matrículas no Estado e hoje sou professora e a primeira coordenadora mulher de Física do CEFET/RJ em 100 anos. Paralelamente a isso, sou escritora. Uma escritora desconhecida como tantas outras que não têm berço e nem facilidade de fazer contatos que agilizam a publicação de um livro. No início de 2016, um agente literário se aproximou de mim. Aceitei a mão estendida. Depois de três meses analisando meus livros e minha rede, fui comunicada que poderia me transformar em uma escritora famosa, contanto que mudasse meu comportamento. Disse-me que não poderia falar mais tanto de política nas redes sociais que, na época, era meu único espaço de manifestação.

A reunião em que fui avisada sobre a necessidade de me silenciar para que as editoras me aceitassem aconteceu em uma cobertura no Leblon. Lembro-me de que chovia muito quando saí de lá, mas, ainda assim, ao lado do meu carro, sentei-me no meio fio e chorei antes de pegar o túnel Rebouças de volta para minha casa. Ali, com a água gelada correndo nas minhas costas e um filete úmido, quente e intenso escorrendo pelo meu rosto, percebi o que era todo esse sistema em que vivemos. Porém, fui além. Percebi também quem eu era, a dizer, uma mulher tão comum dessas que vemos em qualquer esquina cheia de foco e de sonhos.

Estava como ficam as pessoas que decidem a própria amputação de um membro. E com essa sensação que perderia as pernas – mas que o cérebro continuaria intacto -, chorando do início ao fim escrevi um texto que acabou viralizando na internet. O texto está aqui para quem quiser ler.

O interessante é que ele foi lido por parentes e amigos, mas ninguém identificou nele o que Lula captou com sua sensibilidade ímpar: tratava-se de uma mulher tão comum como vemos por aí que precisava ser empoderada. E ele fez algo que mudou para sempre a minha vida: Lula estendeu a sua mão, me colocou em pé e me abraçou com sua ligação inusitada. Os detalhes da ligação estão registrados em um outro texto que está neste link.

Dentre outras coisas, Lula me disse que percebeu em mim uma força e a necessidade de receber um abraço forte. Frisou que para isso ele havia me ligado. Nunca, em tempo algum, jamais pensei em um dia receber essa atenção de uma pessoa famosa. De Lula, nem se fala. Era quarta-feira de cinzas de 2017. Dona Marisa havia falecido há pouco e Lula me ligou em pleno luto. Não perdi a oportunidade. Agradeci em nome de todas as pessoas que hoje tem diploma e que, sem ele, estariam à margem da nossa sociedade. Eu sabia que estava diante do político que mais fez pelas mulheres em nosso país.

Para quem não sabe, no primeiro ano do governo Lula, a Secretaria dos Direitos da Mulher foi desvinculada do Ministério da Justiça e transformada na Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres (SPM). Hoje, o Ministério passou a ser pasta e voltou a ser subordinada ao Ministério da Justiça e da Cidadania.

Muita gente não tem conhecimento sobre isso, mas o programa que tirou o Brasil do mapa da fome também promoveu uma verdadeira revolução feminista nos confins do Brasil por meio de uma ideia simples: o dinheiro é transferido sempre para a mulher. Com a garantia do benefício, encerrou-se em muitos lares o ciclo de abusos muitas vezes alimentado pela dependência financeira do companheiro. O relato delas é impressionante e pode ser conferido no livro “Vozes do Bolsa Família”, de Walquiria Leão Rego e Alessandro Pinzani. (São Paulo: Editora Unesp, 2013). Vale lembrar que só pode receber o benefício as mulheres cujos filhos de seis a 15 anos estejam matriculados e frequentem pelo menos 85% das aulas. Menores de sete anos têm que ter a carteira de vacinação sempre em dia. Depois do golpe, pasmem, perdemos mais de 1 bilhão de investimentos nesse programa e em torno de um milhão de famílias que recebiam por volta de R$ 170,00 ficaram sem o auxílio.

Para muitas famílias, a criação do programa Minha Casa Minha Vida representou uma chance única de realizar o sonho da casa própria. O programa foi lançado em 2009, um ano antes de Lula deixar a presidência. Quase quatro milhões de famílias foram beneficiadas em seis anos. Quando Dilma assumiu o poder, o programa foi aperfeiçoado para contribuir com a autonomia feminina. Elas passaram a ter preferência na assinatura da escritura e, caso fossem separadas, não precisavam da assinatura do cônjuge, mesmo se o divórcio ainda não estivesse no papel.

E não vamos nos esquecer das companheiras rurais. Foram criados nas gestões do PT serviços especializados para atender as trabalhadoras em situação de violência e o Programa Nacional de Documentação da Trabalhadora Rural, as linhas de crédito Pronaf Mulher e o Programa de Organização Produtiva de Mulheres Rurais.

Em um país no qual todos os dias lemos notícias de mulheres que sofrem com os mais diversos tipos de violência seja em casa seja fora dela, essas políticas significam muito e eu sabia disso quando Lula me ligou. Em nome de todas as mulheres deste país, quer elas soubessem ou não do quanto Lula melhorou suas vidas, quer reconhecessem ou não, eu agradeci.

Depois dessa ligação que completou agora exatos dois anos, encontrei-me com Lula pessoalmente, pois muita gente começou a cogitar meu nome para ocupar algum cargo político – coisa que jamais havia vislumbrado na minha vida – e eu queria conversar com ele. Afinal, a minha vida havia virado um rebuliço quando souberam que Lula me ligou.

Após me receber no Instituto, Lula ouviu toda a minha história como fazem os grandes líderes políticos. Nunca havia recebido aquela atenção nem mesmo nas minhas sessões de terapia. É uma experiência que desejo a todas as pessoas, principalmente, àqueles que zombam da inteligência de um possível Prêmio Nobel da Paz.

Lula, ao contrário do que imaginei, desencorajou-me de imediato a vincular meu nome ao PT, pois, disse ele, a minha vida iria virar um inferno. “Veja o que fizeram com Marisa”, alertou-me. Expliquei ao nosso presidente que inferno é ler todos os dias nos jornais o que estão fazendo com a Educação Pública desse país e que eu fui até ele não para pedir autorização e muito menos conselho – que foi o que havia falado quando pedi a sua assessora dez minutos com ele. “Vim aqui para pedir a sua bênção, presidente. Vai ser com ela ou sem ela, mas vou me filiar ao PT”.

Ao ouvir minha teimosia, Lula sorriu e disse que sabia que não tinha errado ao me ligar.

Depois disso, nos encontramos por aí em alguns palanques. No meio de tanta gente importante, ele sempre me reconheceu e perguntou dos meus filhos e de Lucimar, a moça que trabalha aqui em casa.

Hoje, 8 de Março de 2019, o presidente que mais fez pelas mulheres neste país está preso. Tiraram-lhe a possibilidade de interação com outros seres, o que ele faz de melhor. Perdeu o povo com o seu silêncio porque suas palavras são como um bom cobertor no inverno e, dependendo de onde estamos, sentimos uma frieza danada aqui fora.

Sigo apanhando por ter aprendido de uma forma natural a amar Lula como acontece quando lemos um livro maravilhoso. Tudo o que estão fazendo com ele é demasiado injusto e já está claro que o Brasil piora muito quando não o deixam agir e fazer mais pelas minorias.

Mas, ainda que eu esteja plena de hematomas, quando vejo o olhar de quem me ataca e ouço o discurso dos que me xingam, reafirmo meu amor ao homem que diminuiu a desigualdade social neste país e mudou a vida de milhares de brasileiras.

Como lhe disse em uma carta que ele respondeu em seu cárcere, estarei lhe esperando aqui fora:

“Para que você me veja e me reconheça no meio da multidão quando sair, darei uma dica: estarei de vermelho e de braços abertos. Não vai ter erro, presidente, porque eu também virei uma ideia. Você irá reconhecê-la”.

Hoje eu, uma mulher comum cheia de impaciência com as injustiças, anseios e ideias, estarei nas ruas ao lado de outras mulheres. Pelas mulheres e pela liberdade de Luiz Inácio Lula da Silva, nosso eterno presidente.

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Eu: mera professora na era Bolsonaro

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Quando tudo isso começou a acontecer, eu fiquei com pena dos meus colegas professores de história, sociologia, filosofia… Afinal, essas disciplinas existem – em essência – para mostrar que tudo o que vemos não está dado, mas sim foi construído dentro de um contexto. E o que pode ser construído também pode ser desconstruído como, por exemplo, a escravidão.

Esta foi a minha primeira semana de aula depois que tivemos Bolsonaro eleito. Que o mundo está mudando – e, a meu ver, para pior – estamos todos percebendo. Cortes orçamentários destinados à cultura, carta verde para matar morador de comunidade principalmente de pele preta, perseguição aos LGBTIs, desmoralização dos professores, culto em plenárias, discurso de ódio sendo aplaudido,… Tudo isso está conectado e se intensificando. A gente sabe. O que para mim se mostrou como novidade foi o que eu vi em sala de aula nesse início do ano letivo.

Sou professora de física, matéria considerada – pelo senso comum – uma ciência exata dadas as comprovações, os métodos, as previsões, as equações e todo o poder que exerce no mundo. Não sou dessas que acreditam que estejamos diante de verdades incontestáveis com um livro de física aberto. Pelo contrário. Quem teve aula comigo nos últimos anos sabe o quanto eu trabalho para que o aluno duvide de tudo o que é falado e questione o máximo possível qualquer teoria. Pelas dúvidas, crescemos todos. Nas certezas, congelamos nosso raciocínio.

Logo na primeira semana, expliquei que iríamos trabalhar de um jeito inusitado com a cinemática. No lugar de exercícios, debateríamos alguns questionamentos de Galileu que foi o primeiro a equacionar um fenômeno físico, a dizer, a queda dos corpos. Em que contexto ele realizou essa façanha? O que o motivou? Galileu estava com a ideia fixa de que a Terra poderia estar em movimento. Para tanto, tinha uma missão nada fácil: convencer o mundo de que o que vemos pode não ser a Realidade. Defender um argumento desse não é nada simples e Galileu escreveu um livro enoooooorme sobre isso com excelentes questões e argumentos. As minhas aulas se baseiam nas inquietações do filósofo para que a juventude perceba a genialidade e, ao mesmo tempo, a humanidade que existe em Galileu.

Um aluno terraplanista começou a questionar tudo. Mas não de uma forma que considero saudável para o debate. Veio de forma agressiva dizendo que tudo não passa de opinião e que eu deveria respeitar a dele. Atrás deste jovem, surgiu mais uma galera.

Outro aluno, no meio da aula, puxou um papel cheio de contas feitas de forma confusa. Começou a falar de aminoácidos e lendo aquelas contas “me provou” que a teoria do Big Bang e da Evolução não fazem o menor sentido. Foi aplaudido por vários.

Veja bem. Nada contra ter ideias diferentes em sala de aula. Isso é absolutamente saudável. O que estou estranhando é a falta de vontade de ouvir e a dificuldade de entender que, no diálogo, crescemos todos. O riso no canto dos lábios de deboche enquanto falo segurando o livro de Galileu se fez presente em meninos e meninas de 14, 15 anos. Nunca havia passado por isso.

Outra coisa a observar é que eles estão muito bem informados. É fato. O que não percebem é que informação está longe de ser sinônimo de conhecimento. Por isso, até, adoro dar avaliações em que os alunos podem consultar a internet. Não adianta comer se não conseguir digerir e reter vitaminas. Estar bem informado é uma coisa. Saber pensar sobre o que ouve e lê é algo bem diferente.

Enfim, a famosa “turma da lacração” está presente nas aulas de ciências. Lacrar, vale frisar, significa fechar para sempre. Curiosamente, essa expressão foi usada para nomear pessoas que justamente chegaram tirando o lacre: gente que trouxe o debate sobre a hegemonia da cultura eurocêntrica nos livros de história, sobre o consumismo moderno, a urbanização do mundo, a atuação das empresas multinacionais, a corrida desenvolvimentista, a sustentabilidade, sobre a história contada por pensadores brancos, a violência contra as mulheres, o extermínio da juventude negra, o sucesso baseado unicamente na ascensão econômica, enfim, quem se propôs a discutir as desigualdades sociais, o feminismo, a discriminação sexual, entre outros assuntos foi considerado “lacrador”. Hoje, minha gente, eu vi o poderoso lacre. As verdadeiras vítimas de uma poderosa doutrinação que foram tolidas de ouvir seja sobre temas sociopolíticos e históricos seja sobre uma teoria científica.

Não estou desanimada. Se eu der as costas para esse muro que se agiganta, morro como educadora. Terei paciência para tentar transpôr essa barreira. Não sinto raiva de nada nem de ninguém. Apenas ando sofrendo de perplexidade e compartilhando com quem quiser me ouvir.

Da minha parte, serei o que sempre fui: uma mera professora dessas que vemos em qualquer escola pública que, a despeito de tanta pedra que sempre recebeu dos governantes e, agora, da sociedade, acorda todo dia com aquela esperança de melhorar o mundo pela educação.

Esse sonho, nem Bolsonaro vai tirar de mim.

 


A arte que ilustra esse texto foi feita pelo artista Sergio Ricciuto e está no meu livro Isaac no Mundo das Partículas.

Dona Aranha e Hermanoteu

Estive no Atacama vendo a gravação do filme Hermanoteu.

Fiquei com medo de mexer em qualquer coisa do deserto e alterar a harmonia do universo. Eu estava feliz demais, gente. Muito amor, muito orgulho, muita cumplicidade. Estava em estado superlativo.

De tanto olhar para aquele chão fabuloso, vimos algo. Acabamos trazendo uma pedra do deserto. Ela estava rachada e tinha um encaixe perfeito nos pedaços divididos.

Achei metafórico.

Tive receio da natureza separar as partes e nunca mais alguém enxergar aquela unidade.

Sem que fosse convidada para conhecer minha casa, outra coisa veio de lá também: uma aranha marrom entrou na mala e acabou picando o Pipo assim que o viu aqui no Rio.

Pipo teve a sensibilidade de não matá-la e ainda capturá-la com cuidado. Levamos direto para Fiocruz onde ela foi muito bem recebida pelos cientistas. Afinal, uma aranha marrom viva, uma das mais venenosas do mundo, não se vê todo dia. Geralmente, as pessoas lhe dão uma chinelada.

Demos para Dona Aranha passagens gratuitas, carne para morder e asilo seguro até a Fiocruz.

A aranha passa bem.

Pipo está sob corticoides e efeito de um veneno forte. Estamos fazendo tudo o que é para ser feito. Inclusive, piada.

Jovane que também esteve no Atacama disse que é um perigo mesmo esse negócio de tirar roupa da mala. No caso dele, pegou uma calça e, dentro do bolso, achou um boleto vencido. Teve que sair correndo para pagar.

Temos música e memes também.

Brincadeiras à parte, a gente percebe quando ama de verdade quando aceitaria toda a dor do outro para vê-lo parando de sofrer. Eu, toda descrente, me peguei olhando para o céu pedindo piedade.

Observando a pedra aqui e vendo Pipo tecendo teia pela casa, garanto que harmonia não foi alterada. Afinal, o que seria da nona sinfonia sem as grandes pausas?

Seguimos fortes e unidos como uma rocha rachada ao meio.

Em breve, traremos boas notícias.

Sobre a militarização das escolas proposta pelo governo Bolsonaro:

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A última notícia agora é que o MEC apoiará uso do Exército para administrar escolas municipais. A militarização das escolas já fazia parte das promessas de Bolsonaro e já é uma realidade em vários cantos do Brasil.

Para começarmos a avaliar tudo isso e pensarmos juntos, cabe a pergunta: o que é, afinal, “militarizar as escolas públicas”? Muitas escolas em vários estados estão sob gestão dos militares e é em cima do que acontece lá hoje e da minha experiência como professora há mais de vinte anos que irei me pronunciar a respeito.

Existe nas escolas públicas já militarizadas uma cartilha militar cheia de regras como, por exemplo: os alunos e as alunas têm que vestir o uniforme militar completo e qualquer coisa errada no uniforme pode gerar advertência. Meninos usam cabelo curto e meninas cabelo preso. Ninguém pode usar esmaltes coloridos e acessórios que chamem a atenção. Falar gírias e mascar chiclete nem pensar. Continência é cumprimento em muitas dessas escolas. Uma vez por semana há também a formação geral para cantar o Hino Nacional e o Hino à Bandeira enquanto a bandeira é hasteada conforme manda o protocolo militar. Todo dia as crianças são perfiladas em formação militar, seguida da revista de um coordenador de disciplina todo santo dia.

Além das regras descritas no parágrafo anterior, repressão e normas rígidas são as principais ferramentas usadas no cotidiano das escolas que são militarizadas. O quadro de docentes passa a ser formado por policiais militares com licenciaturas específicas e alguns professores da rede pública concursados. Todo e toda estudante que tem notas altas e se sobressai também em comportamento recebe honrarias. Enfim, são adotados os princípios básicos militares de hierarquia e disciplina em cada escola que é militarizada.

Agora que todo mundo sabe o que é a militarização nas escolas (e até viu alguma semelhança com a escola em que estudou no passado), vamos pensar juntos se isso é o que vai melhorar nossa sociedade- levando em consideração que por detrás desse processo há um roteiro midiático focado em ridicularizar professores deste país e uma onda conservadora em curso.

Antes de mais nada, é preciso que se discuta o conceito de uma “boa educação” e, para tanto, temos que responder a nós mesmos a pergunta: para que educamos? Para que serve a escola? Com que propósito as escolas surgiram?

A escola tal como a conhecemos hoje, de uma forma bem geral, nasceu em um mundo que começou a ser regido por uma economia industrial, portanto, buscou obter os maiores resultados observáveis com o menor esforço e investimento possível. Nessa esteira, a escola é e foi a solução e a resposta ideal à necessidade para se preparar trabalhadores. Não foi sem motivo que foram os grandes empresários do século 19 que financiaram a escola obrigatória e que ainda hoje a escola é vista como um grande mercado.

Qual foi o papel do professor inicialmente? Ele era (como hoje continua sendo em muitas instituições de ensino) o encarregado de ensinar uma série de conteúdos determinada por alguns “administradores”. Percebam o que eu acabei de dizer: a Educação não foi preparada por educadores e sim por administradores.

Nós, como professores, temos várias turmas com uma média de 40 alunos por ano o que torna o nosso trabalho, de fato, puramente mecânico de uma forma geral. As exigências e as pressões terminam por desumanizar a todos seja professor, seja aluno, seja diretor, seja inspetor. Sempre fomos preparados para ser um mero funcionário que obedece a uma autoridade que dita o que temos que ensinar e de que forma devemos fazer isso. O padrão sempre foi esse e há um esforço em curso para que se mantenha assim.

Será que é uma coincidência o fato de as escolas, de uma forma geral, serem imagem e semelhança das prisões e das fábricas priorizando o cumprimento de regras e tendo um total controle comportamental e social? A escola, no formato que a conhecemos, foi feita para ser uma fábrica de cidadãos, como já dito acima, obedientes, mas mais do que isso: consumistas e eficazes para o sistema. As nossas escolas nunca se propuseram a responder às necessidades de cada ser humano. Por quê? Porque ela, inicialmente, não foi feita para educar e sim para instruir.

Nosso sistema “educativo”, de uma forma geral, sempre foi um sistema de exclusão social que seleciona o tipo de pessoa que vai para a faculdade para fazer parte de uma elite. A nossa “Educação” nas escolas nunca teve como função olhar e trabalhar cada um, ou seja, até hoje seguimos o mesmo modelo das escolas prussianas dos idos dos novecentos, onde tudo começou: ensino padronizado, aulas obrigatórias, divisão de séries por idade, currículos desvinculados da realidade, pressões por parte dos professores que por sua vez são pressionados por coordenadores e diretores, prêmios e castigos, horários rígidos e uma estrutura vertical.

Em certa medida, nossa escola tal como a maioria da população a viveu já nasceu “militarizada”. A “educação” em sua essência, surgiu para que adquiríssemos conhecimentos que naturalmente não nos interessariam (Quem aqui nunca se perguntou em um banco de escola: “para que eu quero aprender isso?”). Não aprendemos nada sobre sustentabilidade, não aprendemos sequer primeiros-socorros, não sabemos nos comunicar com pessoas com deficiência auditiva, praticamos bullying com o diferente, não temos ideia de como é produzido o nosso alimento, nos livros de ciências das escolas fundamentais os animais são apresentados pelas suas utilidades para nós, aprendemos a confiar cegamente nos médicos e nada sabemos sobre a história da indústria de fármacos e como a ciência hoje é financiada e desenvolvida. Não temos ideia de como lidar com problemas ambientais e qual é a nossa parcela de responsabilidade na degradação do meio ambiente, mas aprendemos (e já esquecemos) logaritmos e utilizar a equação de Torricelli em problemas que jamais foram ou serão nossos na realidade.

A história da Educação brasileira, insisto, mostra que as escolas sempre serviram para alimentar um sistema de produção industrial. Migramos da sabedoria para o conhecimento, do conhecimento para a informação e da informação para informação incompleta e desintegrada. A maioria esmagadora de todas as atividades que acontecem sob o título “Educação” vem de um plano muito bem específico e elaborado que se mantém o mesmo há séculos.

O que estou querendo dizer é que desde que o mundo é mundo e a escola tal qual a conhecemos sempre utilizou de métodos educacionais doutrinários. Muitos parecem não se dar conta já que nunca tiveram contato com outros métodos de ensino que incentivassem o questionamento daquilo que os detentores de poder vivem dizendo à população. Afinal, verdade seja dita, fomos submetidos a doutrinadores durante toda a vida.

O que não podemos negar é que a educação é e sempre foi um ato político. Não foram os “esquerdistas” (ou Paulo Freire) que inventaram isso. Ensinar é um ato político, a despeito de se ter ou não consciência disso. Não apenas os conteúdos que ensinamos, mas forma pela qual o fazemos.

Por exemplo, se ouvimos o aluno, mesmo quando ele discorda de nós, estamos ensinando a ele (concretamente e não apenas com palavras) um importante princípio da democracia. Por outro lado, quando reduzimos o tempo de debate dos alunos para poder ensinar mais “conteúdos objetivos” (que é o que defende Olavo de Carvalho, por exemplo, e o que propõe essa militarização), também estamos agindo politicamente e ensinando um certo modo de viver e de enxergar a vida.

Se não fomentamos o debate em sala de aula, estamos dizendo com essa atitude que o debate público é uma perda de tempo, que “o importante é se preparar para a dura vida que vem a seguir”. Estudar, adquirir conhecimentos “de verdade” para poder competir no mercado de trabalho. Ou seja, dizemos para nossos alunos – como já disseram tantas vezes para nós com todas as letras – para esquecermos os outros e nos preocuparmos somente com nós mesmos “porque a vida é dura, o que há aí fora é competição e se não estivermos preparados para competir sofreremos as consequências disso”.

Isso é uma mentira? Claro que não! Mas poderíamos repensar sobre o propósito de tudo isso que está acontecendo no mundo de, por exemplo, ao invés de competição, alimentarmos mais a ideia da empatia. Por que não? Ao invés de ficar repetindo que o mundo é assim e que se não estudar vai ser pedreiro (o que não seria vergonha nenhuma, vale observar), por que não pensarmos em formas de melhorar o mundo para o pedreiro? Esse tipo de consciência alimentada pelos movimentos identitários e pesquisas feitas com educadores tem ajudado muitas escolas a mudar a essência do que chamam de “Educação”.

A maioria de nós que estudamos em escolas tradicionais e que hoje somos os adultos da sociedade passou por uma escola que nos fez entender que a meritocracia era um conceito dado na natureza. Que o mundo era assim, que vencia sempre o mais forte, portanto, que tínhamos que estudar “para ser alguém na vida” (sinônimo de ganhar dinheiro) e fomos ensinados que o nosso coleguinha (estudante secundarista) era nosso inimigo porque iria disputar a mesma vaga em uma universidade que nós.

O que temos hoje? Temos desde os idos da virada do século, um avanço da inclusão social e um aumento no volume do grito (antes mudo) das minorias. Incrivelmente, esse movimento de pedido de aceitação e menos preconceito tem sido visto como algo de esquerda, ou “coisa do PT”. Assim, aqueles que não tem simpatia pelas ideias da esquerda, o que não há o menor problema em pensar diferente, passaram a odiar e rejeitar quase de maneira irracional os movimentos de inclusão (sejam eles de qual tipo for!) nas escolas.

Será que não pensam que eles foram as maiores vítimas de doutrinação já que nunca fomos estimulados a refletir nas nossas escolas sobre crenças políticas, nunca ou quase nunca nos deram oportunidade de aprender a usar o senso crítico e o ceticismo em temas sociopolíticos e históricos quando estivemos na escola?

Daí, ao se deparar com projetos pedagógicos que pretendem implantar métodos diferentes dos tradicionais de ensino de ciências humanas e mesmo de outras disciplinas, consideram-nos uma “doutrinação ruim”, diferente da “doutrinação boa” à qual foram submetidos por toda a vida.

O que se prega em muitas escolas hoje (longe de ser a maioria, infelizmente) é exatamente uma educação não doutrinadora. Está se colocando e propondo o debate de textos dos mais variados temas. Não é estranho quando temos um ensino que estimule o pensamento livre e autônomo ser visto como doutrinador?

Nesse jogo midiático querendo conter essa onda inclusiva, uma das bandeiras levantadas por esses políticos que avançam com o projeto de militarização das escolas públicas onde os professores têm, de fato, mais liberdade metodológica, é fortalecer o mantra para o qual a escola foi feita (como já dito, com o propósito de atender a demanda de mão de obra causada pela Revolução Industrial): “professor não é educador”. O professor, segundo dizem, foi feito para “instruir”. E assim, conforme explanado acima, ocorreu nas nossas escolas tradicionais. Em outras palavras, do ponto de vista pedagógico, a militarização das escolas públicas se apoia numa velha concepção educacional da qual estamos engatinhando para nos livrarmos dela.

A submissão do educando sempre foi um objetivo prioritário da “educação” para que ocorresse sua “socialização”. O papel da “educação” é a “socialização”, ou seja, aceitação de regras de convívio e conduta social. As instituições educacionais sempre serviram para impor regras e normas que garantem essa “coesão social”. A escola teve, ao longo de nossa história, uma função bem específica já que ao estudante coube sempre certa passividade. O fundamento de toda concepção educacional tradicional nunca foi construir a autonomia do educando, mas sim sua submissão.

Esse é o centro do debate educacional que o Brasil timidamente começou a fazer. Ao adotarmos políticas imediatistas como a proposta por Bolsonaro, definidas no calor de uma guerra ideológica, com (a falsa) garantia de resultados espetaculares para a sociedade oferecemos um tipo de escravidão para o futuro de nossos jovens.

“Educação”, insistem eles, “vem de casa e da Igreja”. Nessa esteira, os que são a favor da militarização das escolas – que é uma extensão do projeto “Escola sem Partido” – dizem que não devemos discutir política, filosofia, história, religião e sociologia, pois as crianças e os jovens (quando estimulados a ter um senso crítico) serão “doutrinados”. Para tanto, ficamos, nós professores e professoras, com a ingrata missão de formar os futuros cidadãos que serão muito bem utilizados nesse mundo poluído, sem sustentabilidade e sem respeito às diferenças.

Vale observar que a Constituição Federal, que evoluiu em certa medida com o tempo, distingue educação familiar da educação escolar, do ensino, atribuindo a este último o papel principal de preparar o educando para o exercício da cidadania. Isso significa, por exemplo, que se a família decide educar a criança para torná-la fiel a uma determinada crença, o mesmo não pode ser exigido da educação pública, laica, cujo escopo jurídico-político não se subordina a valores. Ao professor, segundo nossa Constituição, cabe a liberdade de ensinar, pesquisar e divulgar o pensamento, a arte e o saber.

Não estou dizendo que a família não tenha um papel fundamental na sociedade. Mas, os responsáveis pela criança não têm e nem devem ter direito absoluto sobre seus filhos. A educação moral não pode (e nem deve) ser exclusiva da família. Toda pessoa tem direito a se apropriar da cultura e a observar o mundo de forma crítica. A educação escolar é uma atribuição do Estado brasileiro. E o cidadão brasileiro tem o direito de aprender sobre o evolucionismo de Darwin, a origem do pensamento científico, a luta pela abolição da escravatura, a origem das desigualdades sociais e por aí vai. Oras… as pesquisas sérias em Educação e sobre novas metodologias (que já estão sendo usadas em escolas pelo mundo), mostram que na escola podemos e devemos preparar um cidadão que pense, discuta e critique e não somente um ser que obedeça de forma cega uma determinada ordem.

Se os responsáveis hoje preferem que seus filhos frequentem escolas orientadas por valores idênticos aos de suas famílias, têm a opção de matriculá-los em escolas confessionais, privadas, instituídas pela Constituição Federal exatamente para atender ao tipo de demanda prevista. Mas nas escolas públicas, mantidas com impostos pagos por todos os brasileiros, a prioridade deve ser a formação do cidadão – não do escravo obediente e acrítico – e nela devem prevalecer a tolerância e a cultura de respeito recíproco e de convivência harmoniosa entre todas as opiniões, ideologias, crenças e religiões.

Hoje, em muitas escolas, diferente de um passado remoto, debatemos sobre a cultura eurocêntrica, o consumismo moderno, a urbanização do mundo, a atuação das empresas multinacionais, a corrida desenvolvimentista, a sustentabilidade e a história contada por pensadores brancos entre outros assuntos marcados pela hegemonia do saber. Questionamos por quê as mulheres são tão agredidas, os negros assassinados, a indignação ser seletiva, debatemos sobre o sucesso ser baseado unicamente na ascensão econômica, enfim, falamos sobre vários temas conectados a natureza da perversidade das relações.

Discutir as desigualdades sociais, o feminismo, a discriminação sexual, entre outros assuntos tem feito os futuros cidadãos pensar e isso tem sido considerado como uma ameaça. Bolsonaros e seus seguidores, por outro lado, cultuam suas verdades e por isso, esse projeto de militarização busca silenciar e amordaçar professores fazendo com que escola volte a ser um espaço de conformismo social, cultural e intelectual.

Não tem como não citar Paulo Freire numa hora dessas: “Seria uma atitude ingênua esperar que as classes dominantes desenvolvessem uma forma de educação que proporcionasse às classes dominadas perceber as injustiças sociais de maneira crítica”. Por isso, a pressa desses conservadores em militarizar nossas escolas públicas. Lembrando que a resistência a isso não deve ser somente de nós, professores e professoras, e sim de todas as pessoas que não querem uma sociedade plena de amebas ambulantes e rindo quando chicoteadas.

Avançamos muito nesse debate e já é certo que a instalação do temor para o cumprimento e a aceitação de regras em detrimento do processo verdadeiramente educativo não resolve o problema da violência em nossa sociedade cuja raiz está na desigualdade social.

A militarização das escolas públicas está inserida nessa mal iniciada discussão. Convivemos com concepções completamente divergentes em nosso país em termos de concepção educacional. Temos, por um lado, as concepções tradicionais que são aquelas baseadas na formação dos educandos para corresponderem às expectativas do mercado de trabalho ou de uma conduta social considerada única e como padrão, e, do outro lado, concepções críticas que priorizam a reflexão crítica sobre o mundo em que vivemos e nossas opções, tendo a construção da autonomia como objetivo pedagógico.

A adoção de modelos empresariais, focados em avaliações e premiação de resultados em que os estudantes são treinados para fazer testes (e não para pensar ou desenvolver a inteligência) gerou o mundo em que vivemos hoje. Parece bom para você? Insistir nesse erro para quê?

Sobre Venezuela, PT, Gleisi e eu com tudo isso.

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Ser filiada ao PT não é para os fracos, pois somos cobrados não somente pelos nossos erros – inerentes a qualquer pessoa que tente acertar e faça alguma coisa – como também para dar explicação sobre tudo o que acontece nesse Brasil.

Temos que ser onipresentes nas redes e oniscientes em leis, em história, em geografia, em economia e até em genética para conversar com simpatizantes de Damares. Se deixarmos de falar sobre algo, somos acusados rapidamente de estarmos fugindo ao debate.

Não comentei a ida da Gleisi à Venezuela para a posse de Maduro de forma imediata porque simplesmente não podia me balizar para emitir opinião em cima do que a grande mídia mostra. O fato de ter sido candidata ano passado me deixou claro isso (testemunhava uma coisa acontecer na minha frente e via outra completamente diferente ser noticiada). Tampouco quando conversei com venezuelanos de forma particular me senti preparada para explanar sobre o assunto. Cada um falou uma coisa.

Imagina alguém de fora querendo entender o que ocorre com o Brasil entrevistando duas pessoas: uma que apoia Bolsonaro e outra, como eu, radicalmente contra tudo o que ele tem feito. Cada pessoa diria uma coisa. Ambas vivendo no mesmo país, vendo as mesmas medidas sendo tomadas e, ainda assim, contariam uma história completamente divergente. Dessa forma aconteceu comigo quando conversei com quem mora na Venezuela.

Daí, a gente faz como? No meu caso, saí catando artigos e livros que se complementassem de uma certa forma. Isso levou um certo tempo.

Tentei resumir o máximo que entendi. Não coloquei números para não deixar o texto muito pesado, mas eles são de fácil acesso. Ao final, vou colocar o que penso sobre a ida da Gleisi à posse de Maduro em cima da minha vivência no partido.

Para começar, precisamos todos ter consciência de que:

– a Venezuela está sentada na maior reserva provada de petróleo do mundo;

– os EUA são os maiores consumidores de óleo do planeta e

– a distância entre EUA e Venezuela é bem menor do que entre EUA e o Oriente Médio. Medida em tempo, a diferença dessa distância é em torno de 30 dias de navio.

A exploração não começou agora e sim desde o início do século passado, quando a exportação de petróleo se dava principalmente para o mercado norte-americano. EUA e Venezuela viviam como um casal recém-casado com o marido se metendo na vida da esposa e controlando cada passo.

A Venezuela chegou a ser a maior exportadora de petróleo do mundo. Mas como ‘crescimento econômico’ e ‘diminuição de desigualdade social’ não são sinônimos, a pobreza crescia a olhos vistos e o controle do maridão seguia firme e forte com a esposa cada vez mais dependente do macho opressor. Sequer ela podia conversar com outros países sobre políticas econômicas.

Como todo controlador precisa manter as rédeas e garantir seu poder, articulado pelo próprio EUA, foi criado o Pacto de Punto Fijo, pelo qual os partidos tradicionais e conservadores alternavam-se no poder impedindo a entrada de novos partidos. Isso foi em meados do século passado.

Saía um partido conservador e entrava outro nessa “democracia”. O voto era facultativo e era como se tivéssemos zonas eleitorais somente no sul e sudeste do Brasil. Grande parte da população pobre não votava e prefeitos e governadores eram nomeados pelo presidente. Temos registros de vários jornalistas que se manifestaram contra tudo isso que foram presos nessa época.

O casamento, com todo esse controle, seguia estável com outras medidas sendo tomadas para garantir essa firmeza (leiam sobre a Doutrina Betancourt). Lembrem-se que “casamento estável” não é sinônimo de um “casal feliz”. Neste caso, a esposa seguia cada vez mais isolada diplomaticamente sem poder conversar com outros partidos e até mesmo com seus vizinhos (que na época viviam sob uma ditadura) como o Brasil.

Lá no final do século passado, havia muito petróleo a tal ponto de mexer com o preço dessa commodity diminuindo-o consideravelmente no mercado internacional. Outros fatores como crises e pobreza interna fizeram com que a Venezuela buscasse saídas e fosse timidamente conversar com outros países. Lentamente, a Venezuela começou a inserida em outros cenários e relações.

Pobreza é forma de falar bem genérica. Parecia que o negócio lá era muita miséria mesmo. Um pouco menos da metade vivia na pobreza extrema mesmo com a Venezuela tendo a maior reserva de óleo do mundo. Um a cada cinco venezuelanos passava fome. Saúde e educação iam na mesma esteira. Os números são horrorosos. A mortalidade infantil era quase o dobro da brasileira de hoje.

No final do século passado, com o país nesse caos e nessa miséria, começaram as manifestações populares duramente reprimidas pela força local. Gente a beça morreu e universidades foram fechadas. Gente pobre vale observar. Mil. Dois mil. Três mil.

Uma coisa estava clara. O casamento EUA-Venezuela havia chegado no limite e o divórcio era iminente. Nesse contexto, surgiu Hugo Chávez como um salvador. Ele mandou às favas a política de relação única com os EUA, modificou várias estruturas e conseguiu melhorar os índices de pobreza. A quantidade de gente que passou a comer melhor foi alarmante. Chávez implementou várias políticas sociais que beneficiaram o povo mais pobre e os idosos. Além disso, conseguiu diminuir a mortalidade infantil e aumentar o número de hospitais. As universidades estavam cheias de gente estudando e a Venezuela chegou a ser o quinto país com maior proporção de estudantes universitários no mundo. Para se ter uma ideia, a Venezuela, nessa época, teve o maior programa de habitação popular da América Latina.

O país do petróleo entrou para a Mercosul e rompeu com aquela vida de esposa dependente passando a investir em outras relações bilaterais como a que teve com o Brasil, na qual saímos, economicamente falando, beneficiados (pois ela comprava muita coisa nossa e facilitava para que também comprássemos dela).

Uma nova fase, literalmente, havia chegado.

A Venezuela se aproximou de vários países e ainda se colocou de forma categórica contra políticas impostas pelos EUA. Começou a vender petróleo pelo preço que quisesse para quem ela quisesse, digamos assim. Teve muito pobre deixando de ser pobre nesse contexto. Muita gente que era invisível foi empoderada e mobilizada politicamente naquela conjuntura.

O macho aceitou? Claro que não. Voltou para matar a ex-esposa que não queria mais ser exclusivamente dele. Chávez quase foi executado no início deste século, como alguns devem lembrar. Os conservadores jamais aceitam perder. Foi um quiprocó dos diabos. Golpe e mais golpe de todos os lados. Teve até estatal de petróleo parando de funcionar, o que fez com que a inflação disparasse, o desemprego aumentasse e faltou até gasolina no país com a maior reserva de petróleo do mundo.

Macho embuste quando perde poder prefere ter a mulher toda quebrada e cheia de hematomas ao lado dele do que ver a ex de salto alto desfilando por aí.

Ainda assim, no meio dessa confusão, tinha eleições e a imprensa era livre, vale observar.

Chávez morreu em 2013. Isso deu esperança para a oposição que, óbvio, queria voltar ao poder. O que aconteceu? Maduro venceu as eleições quase na mesma emoção que vimos com Dilma e Aécio. Disputa acirradíssima.

A oposição não aceitou a derrota e foi para as ruas de forma violenta. Era fogo aqui, fogo lá. Bomba pra cá, bomba acolá…

Vou fazer uma pergunta: quem tinha interesse em noticiar essa bagunça nas ruas para dar a narrativa que lhes favorecesse e contar para o mundo inteiro sua versão? Dou um bombom para quem acertar.

Parabéns. É seu.

Quase cinquenta pessoas morreram, a maioria chavistas ou pessoas sem afiliação política, e equipamentos públicos foram destruídos. Temos indícios fortes para acreditar que há uma conexão entre a extrema direita da Venezuela com grupos de extermínio de outros países que apostam sistematicamente na violência como arma política preferencial.

Chávez foi perfeito? Claro que não. Muito menos santo. Isso é fato. Ele não conseguiu fazer, por exemplo, com que a economia venezuelana se livrasse da dependência das exportações do petróleo e melhorar de forma eficiente a agricultura e indústria da Venezuela. Assim, o gasto público dependia principalmente da renda petroleira. Com a grande queda dos preços, de novo, dessa commodity a partir de 2012, a economia da Venezuela passou a enfrentar grandes dificuldades.

Pior do que tudo isso é haver uma guerra econômica contra a Venezuela que se utiliza do desabastecimento programado de bens essenciais, produzido pela especulação cambial e pelo boicote político. Não é simples explicar a falta de alimentos e remédios baseados em números. Precisamos conectar mais dados e correr atrás de informações.

Veja bem, os números mostram que de 2004 para 2014 houve um aumento de mais de 200% na importação de alimentos e de mais de 300% na importação de remédios. Um dos motivos da escassez de alimentos é que muitos são contrabandeados para o exterior, principalmente para a Colômbia, onde são vendidos com muito lucro. Outra parte é vendida no mercado interno, mas a preços excessivos, gerando inflação. Outro fato a considerar é que os depósitos em dólares de empresas venezuelanas no exterior cresceram quase 250% em apenas cinco anos. Ou seja, dinheiro para a importação há. O ponto é porque não estava sendo usado ali dentro e sim sendo desviado, pelo que tudo indica.

Além disso, o acesso ao crédito no mercado internacional está restrito e podemos dizer que a Venezuela sofre, desde 2013, com uma espécie de bloqueio financeiro não oficial.

Essa guerra econômica vem ajudando a radicalizar ainda mais o processo político na Venezuela. A violência se generalizou para ambos os lados e teve até gente que foi queimada viva.

Não há mais diálogo entre o Poder Executivo e a Asamblea Nacional. Assim sendo, a Venezuela agora está com uma guerra civil iminente. Por isso foi lançada a alternativa de uma Assembleia Constituinte há pouco, que criou uma oportunidade para que se estabelecesse um diálogo que superasse o atual impasse político e institucional.

A oportunidade não foi aproveitada pela “oposição democrática”, que a boicotou.

Sabemos o quanto se fala em Venezuela aqui no Brasil. Temer, por exemplo, fez da suspensão da Venezuela do Mercosul a sua diretriz principal em política externa, atuando como braço auxiliar dos EUA no subcontinente. Isso todos testemunhamos. O empenho do Brasil contra a Venezuela por Temer foi de tal ordem que a suspendeu duas vezes do Mercosul. Esse esforço do governo Temer para a desestabilização da Venezuela ganhou corpo, agora, com o governo Bolsonaro que quer se somar a um acirramento do bloqueio econômico contra a Venezuela e, possivelmente, a uma intervenção militar naquele país.

As dificuldades que o povo da Venezuela passa foram, segundo minhas leituras, agravadas pelas sanções e bloqueios econômicos impostos pelos EUA e seus aliados. A Venezuela é muito dependente de importações e há países como a Colômbia se recusando a vender até remédio. Como o povo vai parar de sofrer?

Qual a primeira coisa que foi pensada pela oposição depois que Maduro foi reeleito? Negar o reconhecimento de sua vitória, mesmo sabendo que ela foi acompanhada por centenas de observadores internacionais, que não a contestaram. Bolsonaro, sob essa ótica que lhes aponto, tem sido um facilitador para que os EUA invadam a Venezuela “para salvar os venezuelanos de Maduro”.

Quem sofre? Quem perde? Sempre ele: o povo mais pobre.

Isso posto, agora posso opinar. O que dona Gleisi foi fazer lá no meio dessa confusão dos diabos?

Antes de tudo, Gleisi foi ser coerente com os princípios do partido e com essa narrativa que lhes apresentei balizada por outras fontes que não incluem somente a mídia tradicional.

Vimos que há um movimento coordenado de intervenção sobre a Venezuela, patrocinado pelo governo dos Estados Unidos e por governos de direita na América Latina. Sabemos que nosso presidente bate continência, literalmente, para a bandeira americana.

O voto na Venezuela continua ser facultativo e Maduro foi eleito com quase 70% dos votos, numa eleição que teve três candidatos de oposição concorrendo e, como já dito, assistida e considerada legal internacionalmente.

Preciso de novo retomar o que já disse no início e, se possível, peço para que olhem no mapa a distância entre a Venezuela, detentora das maiores reservas de petróleo do planeta, e os EUA e entre os EUA e o Oriente Médio.

Será que há algum interesse de Bolsonaro, que até agora não apresentou uma proposta para diminuir a desigualdade social no nosso país, em ajudar o povo venezuelano?! Ou será que Bolsonaro está apoiando os Estados Unidos e quer avançar sobre essa reserva estratégica?  O governo de Maduro desestabilizado iria beneficiar a quem?

Se estivessem mesmo preocupados com mortes, com direitos humanos desrespeitados e com o povo sofrendo, por que não se importam com outros países também e só com a Venezuela? Qual o motivo de tanto foco?

O mesmo Bolsonaro que diz se preocupar com o povo da Venezuela a ponto de justificar uma invasão para “salvá-la” é o que acaba de assinar um decreto que permite a posse de armas como solução para diminuir a violência no Brasil. Quem acredita nesse discurso à luz dos lucros gigantescos das indústrias armamentistas?

Bem lembrado pela própria Gleisi, quando o ex-presidente George W. Bush quis comprometer o Brasil na guerra contra o Iraque, o ex-presidente Lula reagiu com altivez: “Nossa guerra é contra a fome”.

Não é preciso estar de acordo com Nicolás Maduro e com os processos institucionais venezuelanos para entender a necessidade da presidenta do maior partido de esquerda da América Latina ter estado presente nessa posse que, vale lembrar, contou com o prestígio de delegações de 94 países e organizações internacionais, enquanto Bolsonaro reuniu apenas 46 delegações estrangeiras em sua posse.

No mais, o PT sempre esteve presente em vários países em que os direitos do povo foram ameaçados, por interesses das elites e dos interesses econômicos externos. Pela sua essência, o partido que escolhi me filiar sempre foi solidário aos que mais precisam de apoio, e os governos liderados pelo PT sempre foram protagonistas de mediações para buscar soluções pacíficas. O partido sempre se pautou pelo respeito à autonomia e à soberania de todas as nações.

A não presença do PT na posse de Maduro significaria, sem dar margem para qualquer outra explicação, que nós também concordamos com a política intervencionista incentivada pelos Estados Unidos e com a adesão do atual governo brasileiro e outros governos reacionários.

Para além disso, Gleisi não foi representando o Brasil e sim o PT, mostrando para o mundo que o governo Bolsonaro contra a Venezuela tem forte oposição no Brasil.

No que pese a complexidade do assunto e o reconhecimento de que há infinitas formas de interpretar o mesmo fato, fica aqui minha modesta colaboração sobre esse histórico episódio e reafirmo o orgulho de fazer parte desse partido que tanto luta pelo povo.


Referências:

A Venezuela que se inventa: poder, petróleo e intriga nos tempos de Chávez, Gilberto Maringoni

Hugo Chávez sem uniforme: uma história pessoal, Alberto Barrera Tyszka e Cristina Marcano

Ensaios sobre a Venezuela: subdesenvolvimento com abundância de divisas, Celso Furtado

https://www.viomundo.com.br/politica/marcelo-zero-para-entender-a-venezuela-e-preciso-saber-como-era-antes-da-revolucao-bolivariana.html

Dragon in the Tropics: Hugo Chávez and the political economy of revolution in Venezuela, Javier Corrales e Michael Penfold

O Poder e o Delírio, Enrique Krauze

Foi assim. Desse jeito.

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Foi aos poucos. Uma coisa assim não acontece de uma hora para outra.

Eu andava de salto alto e roupa justa. Juro. Sempre passei um lápis pelo menos no olho para sair de casa. Unhas pintadas de segunda a segunda. Era dessas.

Até que um dia eu resolvi sair de tênis. Ficou bonitinho com um vestidinho florido e consegui dar passadas largas e saltitar quando ficava feliz na rua. Gostei da experiência.

Daí resolvi colocar uma calça jeans (no lugar da saia) e tênis. Não ficou, a la dialeto da Damares, muito feminino. Mas vá lá. A blusinha apertadinha e com um decote suave dava uma equilibrada.

Aí vi umas calças estampadas vendendo numa feirinha com um tecido leve como a consciência de quem votou em Bolsonaro e ainda não entendeu o que tá conteseno. Coisa da índia feita em Madureira. Maravilha, gente. Nem sinto que estou vestida. Com tênis largo então ficou ó. Maravilha.

Daí que o sutiã começou a incomodar também. Passei a usar esses tops de ginástica com um tamanho acima do meu. Perfeito perfeito perfeito. Amei as muchiba balançando.

A M E I.

Mas marcava as brusinha justa.

O jeito foi usar camisas largas também.

Volto a dizer que esse processo levou anos. Portanto, não sejam rápidos no julgamento.

Até que chegou o dia em que parece que passei um pouco do limite de andar pelas ruas confortável e não avisei aos responsáveis para preparar as crianças do Brasil para essa fase que alcancei.

(Tênis para quê se temos chinelos?)

Hoje, na fila do embarque aqui voltando de São Luís do Maranhão para o Rio, uma menininha de uns seis aninhos apontou para mim e falou gritando para a mãe e mais para quem quisesse ver:

– Mãe! Olha a moça de pijama!

Ah gente…