Testemunhas da história

Charge do Quinho

Estava Seu Roberval atrás do balcão secando os copos no botequim ali na rua do Catete quando entra Pedrinho, garoto novo quase a completar dezoito anos que mora há tempos na comunidade Tavares Bastos e, agora, está fazendo entregas com uma mochila quadrada nas costas. Seu Roberval conhece Pedrinho desde criança. Sempre dá um suco para o garoto e deixa sempre ele almoçar no seu botequim.

Não são parentes, mas a convivência cria laços na mesma intensidade.

Outro dia, ele estava pedindo para Pedrinho tomar cuidado com o crime organizado porque lá na comunidade em que Pedrinho mora…

– Tenho medo disso não, Seu Roberval. A gente tem que ter medo é da economia mundial que é mais eficiente que o crime organizado.

Teve a outra ocasião em que Seu Roberval viu em um programa de televisão sobre matadores de aluguel. Assim que Pedrinho chegou e se sentou, lá veio Seu Roberval preocupado com o menino e tacando-lhe conselho como quem oferece pudim de sobremesa:

– Tenho medo de que me chamem para ser isso não, Seu Roberval. Evito essa gente como quero distância dos generais.

– Mas o que general tem a ver com isso, meu filho?

– Seu Roberval, matador de aluguel faz, num plano muito menor, o mesmo trabalho que cumpre os grandes generais condecorados.

Seu Roberval insistiu para que o menino se mantivesse longe das armas.

– Eu fico, Seu Roberval. Você sabe que a minha mãe me mata se eu morrer de morte com arma, disse redundantemente Pedrinho. Mas vou confessar que tá complicado porque agora os cristãos tomaram o poder. Eles tão armando todo mundo, Seu Roberval. Não é esquisito que quem mais fala de paz mais pega em armas?

Seu Roberval começou a se lastimar porque Pedrinho não teve a infância que merecia.

– Fica assim por causa de mim só não, Seu Roberval. Se o senhor pensar direitinho, nesse mundo, ninguém vive a infância direito não. Menino rico como tem aqui na Zona Sul é tratado como se fosse dinheiro para que, quando crescer, agir como se fosse o Mercado. Menino não muito rico da classe média vive olhando para o celular ou para um computador aprendendo a ser, desde meninos, prisioneiros desse sistema.

Da última vez que Pedrinho foi lá, Seu Roberval perguntou para ele se as pessoas têm lhe tratado bem. Seu Roberval morre de medo de maltratarem um garoto tão bom.

– Precisa ter medo disso não, Seu Roberval. As pessoas me tratam muito bem. Sou o pobre que elas gostam. Me porto bem, sequer olho de cara feia quando não me dão gorjeta. Essa gente sabe que serei vendedor de alguma lojinha ou um bom empregado a preço de banana de alguma empresa que fabrica traje esportivo que eles usam quando vão viajar para Europa.

Seu Roberval é desses que têm muita idade e o hábito de tentar explicar tudo com a propriedade dos que testemunharam grande parte da história. A questão é que Pedrinho, assim como Seu Roberval, já é testemunha de muita história.