Fake News: Separando o joio dos tigres.

Já que estou com tempo sobrando, resolvi pensar um pouco aqui sobre as as mazelas do capitalismo e compartilhar com quem quiser me ouvir.

Para analisar a palavrinha da moda expressa quase sempre em inglês, fake news, minha cabeça me levou para os conceitos como liberdade, escolha, verdade, história, jornalismo e ignorância. Não sei até onde terei disposição e capacidade para explanar sobre o que andei lendo e matutando. Há muita coisa me causando estranhamento. Como o significado de fake news está diretamente associado à mentira, aproveitei para lembrar das fraudes, dos embustes, dos engodos, das fantasias, das farsas e trapaças que convivem de forma harmoniosa com tanta gente.

Gostaria de começar a refletir sobre a lenda de que seres humanos pensam de forma livre.

Comecei a suspeitar de que a ‘liberdade’ é uma mentira em que acreditamos. Nós, como seres humanos, gostamos muito dessa “ideia de liberdade”. Mas será que nós somos completamente autônomos como pensamos ser? No cotidiano, temos a faculdade de realizar ações que, em tese, poderíamos não realizar caso quiséssemos. O que penso é que esta noção de liberdade é muito mais complexa quanto parece e que pode ser tão real quanto uma miragem no deserto. Será que temos realmente a faculdade plena de escolher entre esse ou aquele caminho? Estamos inteiramente livres para escolher entre fazer ou não fazer certas coisas?

Para começar, se acreditamos na ciência, que o universo é previsível e segue um conjunto determinado de regras, ou seja, que cada coisa no universo que temos observado até agora segue algumas diretrizes específicas e nada está isento da influência de forças externas, então, por que nós – os produtos do universo – estaríamos isentos de influências do ambiente? Como fundamentar o livre arbítrio, a vontade que causa algo mas não é causada, numa mente inserida num mundo físico onde nada quebra a regra da causa e efeito? Cada emoção pode ser associada a processos neurológicos que, por sua vez, podem ser reduzidos a processos bioquímicos que, em última instância, nós não temos controle.

Pesquisando aqui, li que em 2008, em um estudo publicado na Nature com o título Determinantes Inconscientes de Decisões Livres no Cérebro Humano, ficou provado que a decisão começa a ser formada no cérebro até 10 segundos antes dele tomar consciência disso. Ou seja, você se prepara inconscientemente pra fazer algo bem antes de sequer se dar conta que está fazendo isso – e bem antes de realizar o movimento de fato. Outros estudos, dessa vez focados na atividade de cada neurônio em vez do cérebro como um todo, mostraram que as células neurais ficavam ativas antes da decisão de apertar um botão, por exemplo.

Poderia divagar por horas sobre esse conceito de “liberdade”, mas quero colocar outras coisas nesse caldeirão.

O nível da nossa ignorância é assustador. Se perguntarmos para qualquer adulto que seja super escolarizado sobre, por exemplo, o funcionamento do microondas, de onde vem a comida que come ou para onde vai o esgoto e como ele é tratado, tcharã, olha aí a ignorância aparecendo em estado bruto. Para vivermos no mundo moderno, temos que acreditar em muitas histórias que nos contam e desprezar outras tantas. Para tomar um banho e assistir um programa de TV, dependemos de uma rede gigantesca de laços econômicos e políticos. E, se por um acaso, você resolver entender como tudo se dá em sua própria casa, possivelmente, o tempo livre que a quarentena nos disponibiliza não será suficiente.

Agora vamos para o mundo.

Problemas como o aquecimento global, as guerras, a injustiça, as eleições, a fome e o coronavírus, por exemplo, são complexos demais. Devemos nos apegar, caso queiramos entender ou manifestar alguma opinião, a alguma narrativa, teoria ou quiçá liderança política porque precisamos nos livrar da desconforto que sentimos ao ver o quanto não sabemos. Neste sentido, estamos todos muito vulneráveis e nem um pouco livres para fazer escolhas.

Fake News e Pós-verdade são palavras que denotam circunstâncias nas quais fatos objetivos praticamente não importam para moldar a opinião pública e sim apelos à emoção e a crenças pessoais. Sabemos que Trump e Bolsonaro, por exemplo, foram eleitos pela força de uma narrativa mentirosa e, todo dia, somos atingidos por notícias que não têm o menor compromisso com a verdade. Dizem por aí, que estamos na era da pós-verdade, ou seja, da fake news. Não sem motivo, percebemos, tanto em Trump quanto em Bolsonaro, o ataque às universidades e aos sistemas educacionais, típico dos governos autoritários. É necessário diminuir a importância das instituições que poderiam contestar suas ideias.

O que me pergunto é: quando foi que vivemos a era da verdade?

Muitos vivem em um mundo em que, por exemplo, o Walt Disney está congelado esperando o avanço da ciência, Van Gogh arrancou a orelha em um ato de loucura, Galileu provou que a Terra gira em torno do Sol, Julio César disse “até tu, Brutus?”, coca-cola com mentos é uma combinação fatal e que a máquina da medicina trabalha unicamente para que tenhamos mais saúde.

Sinto informar, nada disso é verdade.

Walt Disney virou pó há tempos; foi Gauguin que, em plena discussão, cortou parte do lóbulo esquerdo de Van Gogh com uma espada (e não sua orelha toda); o máximo que Galileu fez, em relação ao movimento do nosso planeta, (o que foi, por si só, grandioso demais) foi mostrar que todas as provas usadas para comprovar que a Terra estava em repouso não tinham o menor fundamento; foi Shakespeare que colocou a indagação “Até tu, Brutus?” na boca de Julio Cesar; coca-cola e mentos fazem muito mal separadamente e juntos não apresentam um mal maior; e quanto à medicina, bem… podemos começar observando que saúde não é inverso de doença, que a doença está nas mãos dos médicos para a cura ou para a morte, que a gente, sempre ou quase sempre, vai ao médico esperando que eles nos receitem algum remédio, que a indústria farmacêutica é uma das que mais lucra no mundo e que nunca na história da humanidade estivemos tão doentes a despeito de termos mais de uma farmácia por quarteirão em grandes centros urbanos, ou seja, há muita informação que não se encaixa nessa narrativa linear de que quanto mais remédios no mundo, mais saudáveis estamos. É claro que não estou negando o poder da ciência e sim expondo algumas observações que considero pertinentes para pensar sobre vários tipos de informações enganosas.

Não há, também, nenhuma comprovação científica em muitas outras histórias consideradas sagradas. Mas não vou falar nada sobre outras possíveis fake news que alteram o comportamento de bilhões de pessoas por milhares de anos. Deixo esses questionamentos pessoais mais polêmicos somente para mim e vou me ater a outras narrativas sem nenhuma validação que mudaram e compõem a nossa história.

Também não pretendo aqui falar da lenda de que ficamos mais inteligentes quando frequentamos escolas ou ficamos muito tempo dentro delas. Basta olhar para o mundo em que temos pessoas que “frequentaram as melhores escolas” nos locais de poder e para nós mesmos. Possíveis conclusões perturbadoras podem aparecer.

Ao longo da história, temos inúmeros exemplos de farsas que circularam entre todas as classes sociais. Vários reis, imperadores e ditadores se beneficiaram das fake news desde o tempo do papiro. A índole de Marco Antonio, amante de Cleópatra, foi atirada no lata do lixo por Otavio, que viria a ser o imperador romano Augusto. Marco Antonio até hoje é visto como referência de um homem mulherengo, fanfarrão e sem nenhuma responsabilidade. Indo do século 4 antes de Cristo direto para as vésperas da Revolução Francesa no século 18, vimos “homens-parágrafo” que ficavam imprimindo fofocas e vendendo para editores como se fossem verdades. José Bonifácio fazia entrevista com ele mesmo, falava o que dava na telha sobre Dom Pedro I e publicava no jornal. Como podemos perceber com poucos exemplos, a frase “Se está em jornal impresso só pode ser verdade” evoluiu para “recebi no whatsapp”.

Em Mein Kampf , Hitler escreveu: “a mais brilhante técnica de propaganda não vai ter sucesso a menos que se leve sempre em consideração um princípio fundamental: ela tem de se limitar a alguns pontos e repeti-los sem parar”. E assim foi feita a lenda da supremacia branca.

Como sempre nos disse a nossa avó e Paul Joseph Goebbels, fundador e líder do Ministério do Esclarecimento e da Propaganda do nazismo: “Uma mentira repetida mil vezes torna-se realidade”.

Certamente, seguindo os conselhos de Hitler e Goebbels mesmo sem saber, a Rede Globo, por exemplo, fez a conexão por anos a fio sobre um partido político e a corrupção no Brasil fazendo com que pelo menos metade do país acreditasse que o mundo é dicotômico como uma novela: existe o mal (PT) e existe o bem (Sérgio Moro). Da mesma forma, a revista Veja, Isto É, a Folha dentre outros veículos ditos jornalísticos usaram de uma narrativa nitidamente partidária e controversa para fazer as suas matérias com o inegável intuito de mudar o plano político do país.

Daí, fico me lembrando do massacre midiático que tivemos e me perguntando: aquilo também não era fake news?

Podemos também mudar o olhar e ir para o campo das propagandas com as quais somos bombardeados diariamente. Nenhum comercial de cerveja faz a correlação entre violência doméstica e acidentes de trânsito com o consumo de álcool. Num outro sentido, fazem com que acreditemos que uma festa sem muita cerveja não é possível e que o álcool é um caminho para a felicidade assim como já aconteceu com o cigarro um dia. Nutella, por exemplo, que contém em sua composição mais de 20 gramas de açúcar e 11 gramas de gordura por porção foi anunciada como “um elemento saudável para o café da manhã das crianças, além de conter vários benefícios nutricionais”. Activia fez várias campanhas usando as palavras “clinicamente” e ” cientificamente” para comprovar os benefícios do iogurte sendo que nunca houve comprovação científica acerca do benefício do produto. Red Bull não te dá asas, Volkswagen não tem “diesel limpo” e a foto do perfil em sites de relacionamento não corresponde ao que vemos pessoalmente.

Uma fake news (tomada aqui no sentido de que dados objetivos não são levados em consideração para avaliar um fato) muito interessante com a qual muitas pessoas convivem super deboa com ela é a de que quanto maior o número de presídios, mais segurança e menos violência teremos. A verdade é que pessoas envolvidas com drogas são mandadas para um local onde se vende drogas, sofrem muita violência e, após um tempo, são reinseridas na sociedade.

Ainda assim, há quem acredite que esse sistema é o mais eficaz para nos trazer segurança a despeito de todas as provas que apontam o contrário. Mais do que isso: a ideia de que “se está preso é porque coisa boa não é” também é uma mentira que é repetida muitas vezes. É sabido que há muita gente que nem sequer foi julgada está encarcerada. Não faltam exemplos de inocentes que foram soltos depois de terem sido presos durante muito tempo injustamente. A chance de uma pessoa ser solta logo depois de ter sido presa como “traficante de drogas” é quase nula mesmo com os livros de direito repletos de princípios como a presunção da inocência. Qual a consequência disso? No Brasil, em alguns lugares, a quantidade de presos provisórios chega a ultrapassar a dos condenados. E pessoas que portaram uma pequena quantidade de maconha, não raro, ficam confinadas na mesma cela que assassinos.

Por que, então, há uma infinidade de pessoas que acredita que quanto mais se prende, menos violento se torna o mundo mesmo que a realidade nos mostre que isso não é verdade? Nessa esteira, outra mentira que muita gente gosta de ouvir é sobre o “sucesso” de uma operação policial no combate as drogas. Não importa se a violência só tenha aumentado desde que certas drogas foram consideradas ilícitas por pura arbitrariedade de um grupo. O sucesso é medido pela quantidade de droga apreendida desconsiderando por total a quantidade que ingressa no mercado. E assim segue o mundo desde que alguns produtos tiveram a venda proibida.

Aliás… Se mudarmos o ângulo que vemos o problema da guerra às drogas e, no lugar de perguntar por que não liberamos o uso, tentar descobrir por qual motivo o uso de uma planta (considerada medicinal em muitas culturas) foi proibido, chegaremos a um dos maiores exemplos de fake news da história. Temos de tudo nessa trágica novela: interesses políticos, mentiras científicas e vários outros ingredientes que não podem faltar para que uma grande mentira se torne verdade. Essa novela tem início lá pelos idos dos novecentos e grandes protagonistas como Estados Unidos e China. A proibição criou uma ilusão de que há um comércio saudável e outro que nos adoece. Quem decidiu isso e colocou açúcar, por exemplo, como um produto saudável?

Falando em coisa saudável, ou seja, em saúde, e aproveitando que já falamos um pouco de publicidade, pergunto: como a propaganda industrial deforma a mente dos médicos que são submetidos diariamente ao bombardeio dos propagandistas dos laboratórios farmacêuticos? Podemos considerar a possibilidade de quando um médico prescreve um remédio, este ato ser, com uma certa frequência, baseado em forças não relacionadas às propriedades químicas da droga?

Se já está nítido que a indústria de fármacos não tem a ambição de produzir remédios que não sejam lucrativos e não investiga remédios para doenças cujo número de vítimas seja pequeno, em que medida podemos acreditar que os remédios como tranquilizantes estão nos curando?

Para finalizar essa breve reflexão sobre fake news, lembro aqui de uma última que contribuiu para que muitos colegas professores entrassem em depressão. O movimento Escola Sem Partido nascido em 2004 buscou denunciar uma suposta “doutrinação política e ideológica de esquerda por parte dos professores”. O grupo inspirou mais de 60 projetos de lei em câmaras municipais e assembleias legislativas pelo país. No ano passado, o ministro da Educação, Abraham Weintraub, lançou um projeto “Escola para Todos” com explícitas influências do Escola sem Partido. No lançamento desta campanha, Weintraub enviou ofícios para todas as secretarias municipais e estaduais de ensino do país, determinando que as instituições de ensino adotem o “pluralismo de ideais e concepções pedagógicas, evitando o que a equipe classifica como propagandas-político-partidárias”. Soma-se a isso, mais uma infinidade de mentiras contadas até mesmo pelo presidente sobre Universidades.

Por óbvio, entendo que há diferenças das “fake news” em todos os exemplos aqui citados. Entendo que há informações falsas que não causam danos nenhum, pelo contrário. O mundo pode ficar mais bonito, interessante e agradável quando propagamos algumas mentiras. Pode ser também que pessoas morram, reis sejam depostos, uma presidenta golpeada e a desigualdades sociais sejam mantidas por anos porque fomos e continuamos sendo ingênuos demais.

Uso isso tudo para refletir o que mudou desde o início do mundo até agora. A ânsia do poder parece ser uma constante na história da humanidade. Se a desinformação sempre foi usada como estratégia política e/ou para aumentar os lucros, o que mudou hoje foi a inserção da tecnologia. Agora temos, para além de pessoas sem nenhum caráter, instrumentos tecnológicos capazes de potencializar o alcance de mensagens enganosas. E nós, deste lado, seres que são bombardeados por uma número excessivo de informação, e cada vez menos capazes de distinguir entre o que é fato, o que é versão e o que é uma mentira criminosa.

Penso que um dos novos papéis que a escola deve desempenhar é buscar, criar e desenvolver ferramentas, juntamente com o corpo docente e discente, sobre como podemos reconhecer discursos e conteúdos falaciosos. Não basta saber ler, é necessário mais do nunca, desenvolver uma leitura crítica. E, ainda que eu entenda que a realidade é complexa demais para ser resumida em um texto, acredito que devemos valorizar e fortalecer os veículos profissionais de comunicação que têm comprometimento com a verdade.

Se tudo vai ser visto como “antes e depois dessa pandemia”, espero que tenhamos pela frente – após tanto isolamento, mortes e dor -, maneiras, instrumentos, metodologias, uma maior capacidade e muito mais paciência para separar o joio dos tigres.

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Referências bibliográficas:

EKMAN, Paul, Telling Lies: Clues to deceit in the Marketplace, politcs and marriage, Norton & Company, 2009

HARARI, Noah Yuval, 21 lições para o século 21, Companhia das Letras, 2018

LANDMANN, Jayme, Medicina não é Saúde, editora Nova Fronteira, 1983

LEBRUN, Gérard, A Filosofia e sua História, Cosacnaify, 2006

POSETTI, Julie e MATTHEWS, Alice, A Short Guide to the History of ‘Fake News’ and Disinformation,  International Center for Journalists (ICFJ), 2018.

VALOIS, Luís Carlos, O Direito Penal da Guerra às Drogas, Editora D´Plácido, 2019.

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A figura que ilustra esse texto foi feita pelo artista Sergio Ricciuto Conte. Essa é uma das várias que ele fez para as minhas palestras.

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