Os pais educam. A escola também.

Quando chego para dar a minha aula de física, peço para que os meus alunos coloquem na mesa o livro que estão lendo. Tenho vários motivos para fazer isso: o primeiro é que quero, de fato, saber o que eles leem. Mas há outras razões: quando uma diversidade de livros começam a aparecer, é normal que eles olhem os livros que os colegas estão se distraindo. Animal curioso que nós somos, não raro vejo eles pedindo para dar uma olhada no livro do amigo. E temos absolutamente de tudo: Paulo Coelho, 50 tons de Cinza, Harry Potter, Stephen Hawkings, Clarice Lispector, Gregório Divivier… e cada dia que passa a quantidade de alunos que leem aumenta perceptivelmente. Se antes 30% colocavam um livro na mesa, hoje, quase 100% da turma o fizeram. E eu fotografei.

Ler é um hábito. Se os pais não leem, dificilmente o filho gostará desse passatempo. Mas se na escola ele percebe que outros da mesma idade que ele conseguem se divertir e crescer de uma certa forma pela leitura, é natural que esse desejo e a curiosidade o dominem.

O exemplo é dado não por mim, professora, e sim pelos próprios companheiros de turma.

Os pais educam. A escola também.

Pomelo e Os Opostos

Hoje de manhã, como sempre, fui levar Yuki à escola. No banco detrás, sempre há livros e revistinhas que jogo ali sem compromisso (assim como os deixo pela casa toda). Quando estacionei o carro, Yuki falou: mãe! Olha isso! Parece você falando comigo!

O livro, a princípio (só a princípio mesmo…), é para criança de 4 anos: Pomelo e Os Opostos. Conforme fui vendo com meu caçula as imagens, íamos conversando sobre os conceitos e rindo sobre “os opostos”.

Conclusão: perdemos a hora e Yuki chegou atrasado. Orientei meu filhote a falar para a tia que a causa foi nobre: estávamos vendo poesia e digerindo palavras.

Tirei foto de algumas passagens (há muito mais) para vocês terem uma ideia do quanto valeu a pena meu filho ter se atrasado. Na verdade, acho que ele se adiantou foi muito…

(Na legenda de cada foto, coloquei nossas observações…)

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– É aquilo que vc sempre diz né, mãe. Um não existe sem o outro…

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– Tanto faz né, mãe….

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– O “sem você” é “você faz falta”, Yuki. Percebe?
– Claro né, mãe…

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Fofo demais, não?

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Fofo demais [2], não?

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– Por isso, Yuki, eu escrevo. Minhas crônicas são uma tentativa de eternizar nossos momentos…

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– Por isso você não gosta de me levar em shopping né, mãe?
– Na Lagoa e na roça não é muito melhor?
– Tirou foto ou escreveu para eternizar?
– Claro que sim, né, Yuki…

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– Por isso, acho que ser vegetariano é um bom caminho…

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– Os dois estão do mesmo tamanho, percebe, Yuki, como é uma questão do quanto sabemos a respeito que entendemos o desenho? Um ET não entenderia essa diferença mesmo a gente mostrando esse desenho…
– É mesmo, mãe…

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– Yuki, o mesmo acontece com “falar e dizer”, “ouvir e escutar”,…
– Tô entendendo, mãe…

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– Ele quer falar, mas tem medo de dizer, né, mãe?
– Justamente, Yuki…

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– 3a lei de Newton, meu filho…

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– Não importa o tamanho. Todos temos dificuldades, Yuki. E muitas vezes com coisas bem simples por causa da nossa essência.

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– Às vezes, Yuki, é só uma maneira de encarar a coisa, percebe?
– Mas e se o vaso entupir?
– É só fechar, oras…
– Até parece, mãe… tem coisa que não tem jeito.
– Você está certo, Yuki…

 

Bem bacaninha esse Pomelo e Seus Opostos, não?

Coitado do Vitor…

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Nara, minha filha adolescente, ontem veio me falar que vai passar o fim de semana fora acampando com os amigos em um sítio em Xerém.

– Quem vai? – perguntei porque sou mãe e tenho que saber das budega toda.
– Marina, Pedro, Mateus, Vitor, e eu. – respondeu ela prontamente.

Pensei um pouco e falei:

– A conta não está fechando…
– Mãe, que conta?
– Três meninos e duas meninas. Alguém vai sobrar…
– Mãe, não tem conta. Vou com meus amigos. – Disse ela seriamente me olhando como se eu fosse um sei lá. Um ET.

Fiquei chocada com a ingenuidade de Nara que vai fazer 18 anos em março! Não é possível… muito lerdinha…

– Isso não existe, minha filha. – tentei explicar mantendo a calma. – Quando a gente sai para acampar com os amigos na adolescência , como diria de uma forma que você me entenda…, quando a gente acampa na adolescência com os amigos… a gente… Tipo… Coitado do Vítor. Vai sobrar…
– Mãe, eu vou ficar com a Marina.

Que bom que Nara é normal. Que susto viu…

Alunos à Prova

Este ano eu resolvi virar a mesa e as carteiras. Tudo começou quando desatei a pensar sobre o assunto. Narrei parte desses devaneios em dois textos: “Tô iluminado pra poder cegar, Tô ficando cego pra poder guiar” e Sobre a Educação e a Pobreza no Mundo. Daí, fui tomando coragem para sair da caixa. A primeira experiência foi descrita no texto Fé na Humanidade e a segunda, narro aqui hoje.

Apliquei, no CEFET/RJ onde trabalho, uma prova de física diferente (sobre Relatividade)  em que os alunos não tinham que responder nada e sim elaborar perguntas.

Eles podiam usar celular, internet, WhatsApp… Só pedi para não conversar entre eles para não atrapalhar a concentração do colega. A prova teve três folhas com um texto meu sobre o tema. Nem precisava de gúgol para obter mais informações sobre o assunto, mas se eles não gostassem do meu texto e quisessem ler outro, estava tudo liberado.

Tudo isso me ocorreu porque ando levantando a bandeira contra o sistema tradicional de ensino e lutando por uma escola que ensine os alunos a perguntar, a questionar, a pesquisar e a debater e não a responder.

“Professora, eu tenho que saber a resposta da minha pergunta?”, foi uma dúvida que surgiu na hora da prova. Preferencialmente, nem eu devo saber. Respondi.

Como disse Einstein: “a imaginação é mais importante que o conhecimento”. E não é que parece que ele está certo? Segue, para o vosso testemunho, algumas respostas (quer dizer, perguntas…) que li ontem.

Nunca me diverti tanto corrigindo prova. Vamos de Marx ao sentido do Amor Eterno passando pelo questionamento do que vem a ser a matemática e o livre-arbítrio! Li perguntas que grandes filósofos da ciência já fizeram em outros contextos. Fala sério!!!

Só orgulho dessa garotada. Só orgulho!!! E ainda ganho para isso…

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Tia Elika, qual foi a maior diferença que aconteceu depois que você começou a aplicar a Teoria da Relatividade na sua vida?x1

É necessário haver teorias que hoje nos parecem absurdas para que teorias aceitáveis surjam?x2

Quais seriam as consequências de se abstrair isso para o campo das ciências humanas? Se a realidade funciona de maneira diferente para cada observador, não haveria uma verdade só, mas diferentes verdades dependendo do observador. Como se debater política sem que se adote uma base materialista, sem que se aceite uma só realidade como sendo verdadeira?x3

…tudo não passa do nível das ideias?x4

A criação de realidades alternativas faz sentido científico?

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Sempre imaginei o tempo como sendo um rio, sempre em frente. Com base na Relatividade, posso associá-lo a quê?

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Podemos confiar nas equações matemáticas só porque elas têm lógica? Será que a matemática está mesmo presente na natureza fazendo com que os fenômenos físicos sejam equacionados ou será tudo uma lógica criada pelo homem?

Existe um limite para fatos e descobertas?x7

Se não se pode ultrapassar a velocidade da luz, o infinito temporal não existe?

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O que dilata o tempo é a luz?

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Estamos presos no passado?

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A pessoa irá para o tempo infinito e se perderá no espaço-tempo?!!!

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A imortalidade poderia existir se pudéssemos viajar na velocidade da luz?

De acordo com Einstein, se um objeto estivesse próximo a velocidade da luz poderia desaparecer. Por que e como isso é possível?

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… temos que aceitar que diversas coisas em nosso ambiente de vivência estão em tempos diferentes…?

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Sentindo-me confusa sobre a vida.

Se as coisas no espaço-tempo formam curvaturas ao seu redor e quando um outro corpo entra nessa curvatura fica preso… a que o Universo está preso?

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É concebível a ideia de tempo negativo?

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Se a distinção entre passado, presente e futuro é uma ilusão, significa que tudo o que eu fizer “agora” já estaria pré-determinado?

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O Universo está se expandindo e acelerando só no espaço? Só no tempo? Para onde?

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Adorei essa aqui:

Tenho uma prova de física para fazer e preciso de mais tempo. Eu poderia entrar em uma avião que voa a uma velocidade bem alta se afastando da Terra e fazer a prova lá e deixar a Elika esperando na Terra, já que quanto maior a velocidade, mais devagar o tempo passa? Será que funciona?

Mas se tudo der errado e, na verdade, o meu avião estiver parado e a Terra estiver se mexendo muito rápido? Como eu vou saber? Eu posso estragar tudo e ter ainda menos tempo para fazer a prova?

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Extinguindo-s e a ideia de passado, presente e futuro e sabendo que o que vivemos agora pode não ser simultâneo em outro referencial, como entendemos o “destino” e o “livre-arbítrio”?

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Um astronauta da Nasa se atrasou para sua viagem. Mas seus superiores não brigaram nem descontaram seu salário. Por quê?

Einstein provou que o tempo absoluto não é absoluto, logo, em algum referencial o astronauta não estava atrasado. Os seus superiores não tem motivo para puni-lo.

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É possível amor eterno?

Acredito que sim. Com uma resposta simples. Leve um casal que se ama para o planeta da primeira questão, onde a gravidade tende ao infinito e o tempo tende a estar parado. Do referencial do casal o amor será eterno.

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E assim, aos pouquinhos, não vamos somente quebrando paradigmas e sim reduzindo-os a pó. Não tem essa de “aluno não quer nada”. Eles querem é sim muito mais do que lhes é oferecido.

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Saímos na Revista Galileu!

http://revistagalileu.globo.com/blogs/buzz/noticia/2015/11/professora-avalia-estudantes-pelas-questoes-que-eles-formularam-sobre-teoria-da-relatividade.html

Saímos na CONTI outra!

http://www.contioutra.com/alunos-a-prova/

Link no facebook onde tudo começou:

Arrumando a casa

Tudo em seu Devido Lugar

Hoje resolvi arrumar a casa. Coisa que nunca faço porque sempre tem algo melhor a se fazer, tipo dessarrumá-la mais ainda. Comecei pelo quarto dos meninos.  Aqui em casa, Yuki de 9 anos divide o quarto com Hideo de 22.  As baquetas de bateria do Yuki estavam em cima da guitarra do Hideo que estava na cama do Yuki repletas também de gibi da Mônica, livros do Ziraldo e CDs de bandas de rock que não consigo guardar o nome. Não sei de quem é o quê. Como dormiram hoje com tanta coisa em cima da cama? Ou depois que acordaram jogaram tudo em cima dela? Não entendo. Pela mesa, a dúvida persiste. Encontro partituras e desenhos feitos à mão do Angry Birds que não consigo identificar qual dos dois os fez. Os chinelos tanto do Super Homem quanto do Incrível Hulk virados de cabeça para baixo. Esses garotos querem me matar, pensei.

Desisto.

Vou para o quarto da Nara, minha filha linda que adolesce. Flores murchas em garrafinhas de água vazias nas janelas. Sei que não posso mexer. Ela gosta dessas coisas que mesmo depois de mortas têm uma forma própria e carregam história. Esmaltes em cima das letras de música do CD de Elis. Não entendo como ela lia enquanto mudava a cor de suas unhas. Rabiscos de química misturados com croqui de alguma coisa podendo ser qualquer coisa. Há vários gibis da Turma da Mônica Jovem na estante do quarto dela misturados aos livros lidos como os de Mishima e Rubem Fonseca. Não sei se estão em ordem cronológica de leitura. Maquiagem no meio das teclas do piano. Estaria ela solfejando um batom? Ou queria ela achar o tom das sombras?

Desisto.

Vou para meu escritório. É tempo de colocar ordem nessa budega. O livro de física segue mantido aberto por um menorzinho há meses: o Livro das Perguntas de Pablo Neruda. Poética a imagem. Ao invés de separá-los, peguei a máquina (Cadê ela? Ah ali!  Ao lado das folhas de papel ofício) e fotografei. Onde estava com a cabeça em deixar na mesma mesa Em busca do Tempo Perdido de Marcel Proust, 1984 de George Orwell e Vozes Anoitecidas de Mia Couto? O que Ítalo Calvino faz embaixo dos rascunhos? Caramba… que livro lindo esse do Calvino. Dei uma folheada e li quase metade dele. Fechei, levantei as folhas de rascunho (onde tenho algumas ideias anotadas de futuras crônicas) e coloquei Calvino na mesa. Cobri-o com meus repentes de novo. O bom de se esquecer das coisas é que posso fazer surpresas para mim no futuro. Não vejo a hora de encontrar Calvino de novo no susto. Por que Esconderijos do Tempo de Mário Quintana está junto de meus diários de classe? Que livro é esse dele que não me lembro? Nossa. Que lindo… li todo de novo. Levantei Felicidade Clandestina de Clarice Lispector na quina da mesa e vi três multas. Coloquei Lispector rápido de novo onde estava para acabar com aquela visão do inferno que me deu até taquicardia. Cartão de crédito bloqueado para desbloquear, caixa de chocolate em forma de livro que ganhei da Alice e dentro dela… nada. Comi tudo. Coloquei o cartão bloqueado dentro de onde estavam deliciosos bombons e deixei tudo como estava. Gosto de lembrar da Alice.

Desisto.

Fui para meu quarto. Lá, na minha cama, nos reunimos todos para conversar. Livro de fábulas, blusa usada com cecê  da Nara que chega se despindo e deitando ao meu lado, meia chulezenta do Hideo embaixo do meu lençol, pijaminha de hot whels do Yuki e minha camisolinha da Pepa foram todos para seu destino certo: espremidos ali no canto pórque daqui a pouco vamos usar de novo. As roupas sujas foram para o cesto onde encontrei um cinto que Hideo há tempos procurava. No banheiro, na pia, vejo meu caderno de anotações. Não entendo como foi parar ali, mas abro para conferir. Notas de reuniões do grupo de pesquisa em Filosofia com aulas de Física Quântica. No cantinho está escrito: paixão melhor nutella, se não nutella como sabella?

Desisto.

Parei de arrumar a casa e vim aqui escrever essa crônica.

Caixa de Bombons

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Ontem a noite, em plena terça-feira depois de minha aulinha bombadésima de dança de salão na Tijuca, fui pegar Nara e Hideo, meus filhos de 17 e 22 aninhos, na Freguesia onde eles estavam ensaiando para a peça que entra em cartaz no próximo final de semana “Cabaré Opus305”. Vale observar que em 2015, depois do término de um casamento de mais de vinte anos com meu primeiro namorado, passei por uma crise de depressão que me imobilizou durante quase seis meses e a dança de salão foi usada como remédio. Super funcionou. Agora tenho um novo grupo de amigos, já consegui ir ao cinema sozinha pela primeira vez na vida e tenho feito o que der na telha. Sair ou ficar em casa são coisas que atualmente faço em paz. Povoei, enfim, o meu deserto.

Pelo fato de eu ter me reerguido e voltado a viver com alegria, novidades andam acontecendo. Pessoas têm se aproximado e eu tenho permitido. Enquanto estava me sentindo extremamente só, evitei ao máximo qualquer tipo de contato, principalmente com homens. Viver a dor da solidão foi necessário e eu sabia disso. Caso contrário, ia cometer a mancada de sair por aí buscando alguém que me complete, a famosa outra metade, e acredito que para viver a dois, antes, temos que ser um inteiro.

Isso posto ainda que de forma extremamente resumida, ontem ganhei uma caixa de bombons e, voltando ao primeiro parágrafo e conectando as histórias, assim que Nara e Hideo entraram no carro, eu mostrei para eles o regalo toda feliz e contente.

– Vejam! Vejam! O crush está se chegando esbanjando fofura!

– Qual deles? – perguntou Nara que é giga antenada com tudo o que acontece comigo. – O que nasceu em 20 de janeiro ou 19 de Fevereiro?

Nara agora anda nessa de astrologia para meu total desgosto. Eu, como amante de física e ciências em geral, chegada a uma lógica e a uma coerência, abomino qualquer religião. Imagina se euzinha aqui mega inteligente vou aceitar a ideia de que meu comportamento pode ser moldado pela posição dos planetas… Aff. Mas história que segue:

– O que nasceu 20 de Janeiro às 10:40h da noite com ascendente em Aquário.- respondi.

– Você sabe que os capricornianos com esse ascendente são meio desapegados, não?

– Nara, perceba a fofurice. Ganhei bombons agora pouco e durante o dia ganhei coraçãozão no uátisápi. E todo mundo sabe que emoticon de coraçãozão é para começar a escolher a decoração da igreja.

– Mãe, precisamos conversar. Chegou a hora de termos um papo reto. Conversa séria. – disse Nara com um tom hiper assustador.

– Pode falar.

– Os homens costumam se aproximar da gente quando querem sexo. Fazem gracejos, dão bombons, flores, mas eles querem sexo, ok? Essa história de príncipe encantado não existe, certo? Isso é conto de fadas, mãe. A realidade é outra!, você está me entendendo?

– Nara, nem todos os homens são assim, minha filha. – expliquei para ela olhando para o céu estrelado pela janela do carro.

– Mãe, caraca!, me ouve. Depois você vai sofrer e vir para mim toda bagação. Ouve a sua filha que tem mais experiência que você. Sua vida, mãe, está apenas começando e eu tenho a obrigação de abrir os seus olhos!

– Mas, Nara, ele tem sido tão atencioso…

– Claro que sim, mas que fique claro o motivo! Daí, se você quiser ir aos finalmentes tudo bem. Mas não vai iludida pelamordedeos!

– Minha mãe não faz sexo, Nara! – gritou, de repente,  Hideo que estava dirigindo.- Minha mãe é uma santa! Parem com essa conversa que eu vou surtar e eu não tenho dinheiro para terapia! Minha mãe não faz essas coisas! E mudem de assunto que eu quero falar algo importante com vocês. Mudem de assunto!!!!

– Pera que ainda não terminei com ela. – interrompeu Nara cheia de atitude – Mãe, e embora eu saiba que você tenha as trompas ligadas, você tem que usar camisinha. Você vai me prometer que vai usar camisinha. Não se iluda com o perfume dele e nem se ele sair do chuveiro para cima de você com cheirinho de sabonete!

– Ai que eu vou surtar com essa conversa! Nara, minha mãe não precisa desses conselhos! Minha mãe não vai passar por isso!!! – urrava Hideo. – Né, mãe?

– Hideo, cala a boca! – salvou-me Nara. – Mãe, ouve: você não se iluda com homem cheiroso, está me entendendo? Você não sabe por onde ele andou!!! Doença sexualmente transmissível não é brincadeira.  Você para com essa mania de ficar sonhando, por favor! DST é uma realidade que temos que encarar nesse mundo que você está entrando!

– Que entrando, Nara! Só ganhei uns bombons e estou feliz. Só isso!

– Ai meodeos, mãe!, não é só isso!!! Onde foi que eu errei com você que você não consegue enxergar as coisas mesmo eu sendo clara???  Promete pelo menos para mim que vai ficar esperta?

– Ok. Prometo. Pode falar agora, Hideo.- cortei para o Hideo já que estava ficando desconcertada com aquela conversa.

– É o seguinte – começou ele animado – pintou uma oportunidade de eu transar na sexta mas eu preciso que você me empreste o carro para isso. – explicou assim o problema com a maior naturalidade.

Mas gente… antes de eu ter filhos, eu li tudo quanto é revista de psicologia para ser uma boa mãe, aprender como dialogar com eles e bababá bububú. Mas nenhuma tinha esses exemplos especificamente ou nada parecido para eu usar como um guia. Estava tontinha da Silva Takimoto.

– Pode ficar com meu carro, meu filho. – falei pensando na logística de todos nós. – Conte comigo. – disse fofa fofa fofa super mãe miga, descolada e moderninha.

Mas pequei como sempre tagarelando muito mais do que devo:

– O rapaizinho dos bombons vai me pegar em casa na sexta para passearmos.

– Ah não, mãe! Ah não! Promete que não vai ceder para eu poder sair sem crise de consciência! Promete, mãezinha. – implorou Hideo com cara de desespero.

– Mãe, se joga! – disse Nara.

Enfim, eu não sei exatamente o que ando fazendo em relação aos meus filhos. Não sei se posso chamar isso que eles andam recebendo de mim de educação. Dá a entender, quando comparo por aí com outros lares, que o bagulho aqui tem outro nome. Mas uma coisa é certa: não há calça legue que seja mais sincera que a nossa amizade e muito menos parque de diversão que se equipare com o que construí com eles aqui.

E quanto a caixa de bombons que recebi…  Que tudo seja tão surpreendente quanto ela que me fez virar os zóio a cada mordida.

*-*

Filhos que não me obedecem: uma dádiva por mim conquistada.

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A imagem do filho obedecendo os pais sempre foi, para mim, um exemplo a não ser seguido. Não sei se faço certo ou errado, mas muitas pessoas têm me perguntado como consegui essa relação de cumplicidade e amizade com meus três filhos que têm idades completamente diferente (hoje, Yuki está com 9 anos, Nara com 17 e Hideo com 22). Pelo fato da pergunta estar se repetindo, resolvi pensar na educação que dei a eles e concluí que eu jamais me importei ou precisei exigir que eles me respeitassem ou obedecessem.

O verbo obedecer significa “ato pelo qual alguém se conforma com ordens recebidas. Autoridade, mando, domínio. Sinônimo de submissão.” Deus me livre… Se o que se busca é respeito, penso eu que isso só é conseguido se o outro lado for respeitado também. Assim como faço com qualquer pessoa, respeito meus filhos e as opiniões deles em tudo. Como mãe, fico atenta às habilidades a serem exploradas, às vontades a serem aprofundadas, ao talento – seja lá para o que for – que pode aparecer a qualquer momento e precisar de um empurrãozinho para emergir.

Não quero que filho nenhum me obedeça. Não me sinto apta a comandar a minha vida quanto mais a dos meus filhos. Se eles tiverem que me obedecer é porque, de alguma forma, assim penso, eles foram podados ou castrados por mim e devem agir de acordo com os meus interesses. Eu passo ser autoridade se tiver que impor a minha vontade e fujo disso já que abomino qualquer tipo de autoritarismo. Filho meu não “tem que” me respeitar e muito menos me obedecer.

Quero que meus filhos tenham luz própria e não sejam sombras de outras pessoas muito menos de mim. Quero que eles sejam eles mesmos, reconheçam as suas vontades e tenham em mim um apoio para conseguir segui-las. As decisões são deles. “Mãe, posso…?” sempre busquei trocar por “Mãe, quero…”. Eu apenas pondero alguma coisa que acho relevante observar, mas as rédeas estão com eles. Quer matar aula, mata. Quer fumar, fuma. Quer fazer teatro, faça. Quer vender arte na praia, venda.

Como disse, não sei se faço certo ou errado, eu simplesmente não consigo agir diferente por aqui. Sei que operando assim tenho, de fato, construído uma relação que muitos têm elogiado. Vale observar que aqui vira e mexe a casa cai. Discussões homéricas são comuns nesse teto, mas nada que em algumas horas tudo volte ao normal. Não é novidade que existe uma quantidade exorbitante de jovens que se drogam. Pelo que afirmam os especialistas da área, muitos desses têm algum problema de relacionamento com os pais que exigem, de uma forma ou outra, obediência. Daí que esses meninos são praticamente forçados a seguir uma determinada profissão certamente pela questão financeira, proibidos de atender aos seus instintos e compelidos a adiar seus sonhos. Seus planos vão ficar a espera de um momento ideal para colocá-los em prática quando saírem da casa dos pais. A solução para esse inferno: as drogas. Isso posto e observado, penso que mesmo que transformemos nossa casa em um ringue de luta quando brigamos – coloquemos assim –  de igual para igual,  filho meu se um dia se drogar não vai ser por minha causa. Disso eu tenho total certeza. Não estou podando a asa de ninguém, pelo contrário, aqui eu só encorajo o voo. Não quero que eles andem no trilho, quero que eles percebam sempre que podem ir para qualquer lugar – como um trem descarrilado –  com o meu apoio.

Então, eu acho que pelo fato de permitir que eles sigam as suas próprias vontades e de criar um ambiente de condições favoráveis e saudáveis para que isso ocorra, acabo conquistando o tal do respeito sem, contudo, ser autoritária e, muito menos, fazer deles seres obedientes. Penso que o dia que  meus filhos se comportarem bem por medo e não por vontade própria eu terei falhado como mãe.

Pela última vez, não sei se estou certa ou errada. Mas uma coisa é fato: não há parque de diversão que se equipare com o que construí com Yuki, Nara e Hideo.

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A Alegria de Ser Professor

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Muito se ouve sobre o sofrimento dos professores. Eu, que ando sempre na direção oposta, quero falar sobre o contrário: a alegria de ser professor. A despeito de estar batendo de frente já há algum tempo com esse sistema educacional que não passa de uma máquina absurda pela qual nossas crianças e jovens são forçados a entrar em nome da educação, eu simplesmente me deleito não somente por ensinar, mas muito mais por todos os dias deixar muitas dúvidas na cabeça de meus alunos no lugar das certezas e sair de sala de aula, também, entendendo menos por discutir tanto com eles. Explico-me.

Ando horrorizada com a maioria das escolas. Dentre tantos problemas da cultura moderna, o que mais me preocupa é a educação não somente no Brasil como no resto do mundo. No espaço onde deveria ser usado para o aprendizado, é feito um treinamento brutal com o propósito de preparar vastos números de jovens, no menor espaço e tempo possível, para se tornarem usáveis e abusáveis por um sistema econômico. Nessa esteira, as escolas do Japão para mim são as piores , pois são o modelo de fábrica de abelhas ou formigas trabalhadoras e eu me recuso a desejar isso para meus filhos. Se ao menos tivéssemos alguma evidência de que os operários do mês – desses que tem foto na parede e tudo – são felizes, vá lá. O contrário, porém, já se evidencia, a dizer, a infelicidade de quem se torna um escravo do trabalho – ainda que bem remunerado. É significativo que países que muito produzem e consomem bens materiais e cujas escolas são consideradas um exemplo de disciplina e respeito ao professor sejam hoje locais com a mais alta taxa de suicídios no mundo, inclusive o de crianças. A eficiência dessa máquina educacional, a meu ver, está não na formação e sim na deformação que ela produz.

Os melhores alunos são aqueles que tiram as melhores notas e passam nas melhores Universidades nesse modelo educacional vigente. Contudo, dentro de um curto espaço de tempo, grande parte do conhecimento que adquiriu na escola não será mais lembrado, pois, o próprio corpo não aguenta tanta gordura inútil acumulada em forma de equações e nomes que jamais serão usados ou sequer ouvidos novamente. Eu mesma, como professora de física, só uso as equações de Torricelli nas minhas aulas. Nunca precisei usá-la aqui fora. Aliás!, quando tive dúvida se ia bater ou não com meu carro no poste, se tivesse a capacidade de fazer cálculos na velocidade maior que o “takimóvel” se locomovia talvez, naquele momento, usaria a equação que serviria somente para, segundos antes de bater, saber que iria bater. Não sei até que ponto isso seria uma vantagem. Fora isso, devo confessar, nunca precisei.

Lembro-me que nunca tirei A nas redações por escrever sempre na primeira pessoa. “Penso que…”, “Acho que…”, “Percebi que…”, … todas essas expressões eram circuladas com caneta vermelha e sempre que recebia a redação corrigida os professores me avisavam que era errado eu falar no meu referencial. Como assim? Não conseguia fazer diferente! Demorei muito para ter coragem de voltar a escrever depois que saí da escola. Somente com mais de trinta anos, com muito receio, coloquei minhas ideias no papel cheias de eu para cá e eu para lá. E daí, meu irmão, foi um caminho sem volta. Criei meu blog onde publico há mais de dez anos crônicas sobre minha visão do mundo e tive um livro (que foi uma seleção de vinte e seis crônicas de mais de trezentas já escritas) premiado na categoria literatura em um concurso promovido em todo Brasil pela Editora Saraiva, uma das maiores editoras do país. Minha Vida é um Blog Aberto só tem contos e crônicas narrados em primeira pessoa. Não acho que o mundo ficou melhor com meus escritos, longe de mim querer dizer isso. Mas ‘eu’ estaria com toda certeza muito menor. Sendo mais clara: a escola quase acabou com o que é hoje um dos meus principais alicerces.

Crianças e jovens que fazem diferente do que o professor manda são castigados como eu sempre fui. O que o sistema quer é que façamos dos alunos um eco do que nós, professores, emitimos. Por outro lado, a maioria dos professores também não sabe e talvez nem queira fazer diferente. Aquele que representa teoricamente a nata intelectual da sociedade sequer se dá conta que ele também é uma marionete do sistema. E ainda que sejam alertados, muitos dão de ombro, pois o tal saber sedimentado nos poupa dos riscos e do trabalho da aventura de pensar. São esses os professores, de uma forma geral, que mais reclamam da profissão usando e abusando no discurso nostálgico dizendo que antigamente os alunos eram diferentes, mais obedientes, não existia o celular e bababá bububú. São esses professores que querem dar a mesma aula que expunham há dez anos atrás. Mas tem um detalhe: a aula hoje desse profissional do ensino se encontra facilmente na internet. Qual a solução? Obrigar a presença em sala sob a pena do aluno perder ponto caso tenha muitas faltas. E o inferno está instaurado. Não é sem motivo que vejo manchetes dizendo que nunca os professores andaram tão doentes e depressivos como agora.

Dizem por aí que quem não estuda não consegue ser alguém na vida. Pergunto-me o que é “ser alguém”? É uma pessoa bem sucedida profissionalmente e que, claro, ganha muito dinheiro, responderiam. Um médico, por exemplo. Um doutor em nossa sociedade, ainda que reclame, tem muito mais sucesso, financeiramente falando, do que, mais um exemplo, um filósofo, não? Bens materiais medem quem somos? E quando não conseguimos um saldo gordo na conta? Somos menores como seres humanos por causa disso? Somos intelectualmente inferiores que os que vestem jaleco branco e nos entopem de remédio? Oras, pelo que observo, não importa o retorno econômico que se possa obter ao fim deste processo. Permanece, a meu ver, um fato fundamental: que ele, em geral, só se realiza ao preço da morte de diversas potencialidades que um dia viveram no corpo em nós quando crianças. Não é de se estranhar, portanto, que as pessoas passem as suas vidas com a estranha sensação de que não são hoje bem aquilo que desejavam ser quando bem mais jovens. Elas foram transformadas em alguma coisa diferente dos seus sonhos. São essas várias amputações ao longo desse processo – quase criminoso – que nos condenam à infelicidade, essa tal tão íntima de tantos de nós. Vide a quantidade de adultos que consomem anti-depressivos e anti-ansiolíticos e que fazem terapia para sobreviver nesse “mundo mundo vasto mundo”. Groddeck, um dos inventores da psicanálise, afirmava que apenas o artista, o poeta e a criança conhecem o segredo da harmonia com a vida. O artista e o poeta são aqueles que foram, se não considerados rebeldes, expulsos da escola e a criança é aquela cuja curiosidade ainda não foi destruída pelo sistema.

Corrijam-me se falo alguma grande besteira: Criar é voar. Voar com o pensamento é sonhar. A criatividade é o trabalho que faz viver em nós aquilo que não existe. E, pergunto-vos, quem somos nós sem sonhos que, por definição, é aquilo que não faz parte da realidade? É o poder de criar e, portanto, o sonhar que nos torna humanos, acho eu. Somos mais do que ossos cobertos de carne, somos metafísicos, extrapolamos a matéria. Somos o que não existe: sonhos. Por isto que, diferente dos médicos, que apalpam, olham, examinam e medem os sintomas físicos do corpo, os artistas, os poetas e as crianças são sensíveis ao que transcende em nós. Pois é nesse impalpável onde se localiza os pensamentos que nos fazem voar.

O nosso corpo é um espaço onde cabem infinitos universos. Percebo que quanto mais semeados forem estes universos maior será a nossa capacidade de criar, de compreender e de amar. E de brincar. Muitos adultos não sabem (mais) e grande parte dos professores não percebeu ainda que a vida não é para ser levada tão a sério. É para ser brincada. Se não for divertido, nada vale à pena. E tudo o que ensinamos nas escolas, geografia, história, física, química, biologia, matemática, se não forem objetos de prazer, joguem no lixo, por favor. Quando brincamos, acredito eu, temos uma amostra do paraíso e, em verdade vos digo, a minha sala de aula é o Meu Paraíso.

Dizem que o trabalho enobrece. Mas não é que vemos por aí. Temos uma sociedade plena de adultos cansados, com preguiça de ler e de pensar e incapazes de criar. Que lindo seria se a única finalidade do saber adulto fosse permitir que a criança que mora em nós continue a se divertir, não? Pois então, não tenho absolutamente nada a reclamar de minha profissão e de meus alunos. Tenho me divertido um tanto dentro de sala de aula e quebrado, grazadeus, muitos paradigmas. A criatividade é muito estimulada em meus alunos e com eles sinto-me dentro de um parque de diversão.

Então, quando enuncio uma teoria, por exemplo, mostrando o quão criativo foi o trabalho do cientista ou do filósofo natural que a elaborou, geralmente, um aluno sempre me pergunta: Mas isso é verdade? É assim mesmo que acontece? E eu lá que vou saber?, respondo sempre. Está lhe parecendo razoável tudo isso?, provoco. Nesta hora, o aluno tem dúvidas e mais perguntas. Que bom. O aluno está pensando, refletindo.

Por fim, sou atéia, mas sugiro que inspiremo-nos em Jesus e parafraseemo-lo: Ame o seu aluno como a si mesmo e não faça com ele o que você não gostaria que fizessem com você.  Assim seguindo, concluo que não estou mais aqui para ensinar a tarefa sem brilho e sem graça de repetir respostas e sim para estimulá-los a perguntar. De uma certa forma, mostrar que, em geral, a ciência é construída pela ousadia dos que sonham. O conhecimento, para mim, tem que ser um mergulho pelo mar do desconhecido e não uma marcha em solos firmes. E são nas perguntas e nas dúvidas que se começa essa maravilhosa apnéia.

Feliz dia dos professores para todos que, como eu, são felizes todos os dias diante de seus alunos.

Sobre a Educação e a Pobreza no Mundo

4 T

Há tempos ando percebendo que estou sendo uma marionete de um sistema. Tudo começou quando fiz meu mestrado em História das Ciências e logo depois o doutorado em Filosofia. Sou formada em física e leciono no ensino médio há quase vinte anos. Somente há cinco ficou claro que o conceito de ciência que eu formava em meus alunos em minhas aulas de física – e que eu havia recebido tanto na Escola quanto na Universidade – estava tremendamente equivocado. Por que fizeram isso comigo? Mais ainda: por que me forçaram a fazer o mesmo com outras pessoas?

Estudando os documentos oficiais tanto brasileiros quanto de outros países no que diz respeito ao que deve ser ensinado nas escolas, ficou claro que há conceitos que devemos discutir e “ciência” é apenas um deles que, hoje, vou deixar de lado. Gostaria de propor com esse texto uma reflexão sobre algo maior:  a “Educação”. O que vocês lerão aqui é um breve ensaio de um estudo aprofundado sobre o tema. Não estou inventando a roda ou, melhor, desinventando. Apenas coloquei aqui o resultado dessa minha recente pesquisa com as minhas próprias palavras. Há tanto o que dizer e revelar que pretendo escrever um livro, mas a vontade e a necessidade de compartilhar é tamanha que me arrisquei a fazer esse breve texto economizando maiores detalhes. E afirmo, qualquer um que esteja preocupado com justiça social deve primeiramente refletir sobre a “Educação”.

É comum não pensarmos a respeito de conceitos que usamos no nosso dia a dia. “Sabemos” do que tratam certos vocábulos até o momento em que passamos a refletir sobre eles. Educação. Quase não se fala sobre isso, mas a Educação Pública e Obrigatória foi inventada em um determinado momento da nossa história. Na Antiguidade, havia espaços para a conversação e a reflexão. A instrução obrigatória por muito tempo era coisa somente para escravos. No mundo ocidental, a “Educação” esteve nas mãos, por um bom período, da Igreja católica e não possuía ainda as características que a definem atualmente. Somente no final do século 18 que se criou o conceito de Educação pública, gratuita e obrigatória. A Escola, tal como a conhecemos hoje, começou na Prússia com o objetivo de evitar as revoluções que se sucediam na França. As escolas prussianas se baseavam na forte divisão de classes e, tal como o regime espartano, pregava a obediência e o autoritarismo. Os monarcas até incluíram alguns princípios do Iluminismo certamente para satisfazer o povo, mas mantinham o regime absolutista. E o que buscavam os déspotas esclarecidos? Um povo dócil, disciplinado e que se pudesse preparar para as guerras que aconteciam na época entre várias nações que estavam nascendo. Diderot, uma figura famosa dentre os iluministas, ajudou a elaborar como seria a formação desses cidadãos obedientes e súditos do Estado.

O mundo gira, a Lusitana roda e, em poucos anos, a América e outras nações da Europa visitaram a Prússia para se capacitarem. “Educação para Todos” já era uma frase que se usava assim como a bandeira da igualdade quando justamente a essência do sistema educacional provinha do despotismo buscando perpetuar os modelos elitistas e a divisão de classes. Napoleão importou essa “educação” para também formar seu corpo docente e poder dirigir a opinião dos franceses.

A escola nasce em um mundo que começa a ser regido por uma economia industrial, portanto, busca obter os maiores resultados observáveis com o menor esforço e investimento possível aplicando, em muitos casos, fórmulas científicas e leis gerais. Nessa esteira, a escola era a solução e a resposta ideal à necessidade para se preparar  trabalhadores. Não foi sem motivo que foram os grandes empresários do século 19 que financiaram a escola obrigatória e não é difícil perceber que o modelo de formação industrial como uma linha de montagem era perfeito para ser usado nas escolas. A educação foi comparada à manufatura de produtos e por isso a importância e necessidade de uma série de passos determinados.

E hoje? Se olharmos de cima, bem do alto, percebemos que atualmente a educação também funciona como a melhor ferramenta para formar trabalhadores úteis a um determinado tipo de sistema e também para fazer a cultura permanecer a mesma – o que significa conservar a estrutura da sociedade.

Qual o papel do professor? Ele era (como hoje continua sendo) o encarregado de ensinar uma série de conteúdos determinada por alguns administradores. Percebam o que eu acabei de dizer: a Educação não foi preparada por educadores e sim por administradores. Na “linha de produção” uma pessoa estaria a cargo de uma pequena parte do processo que é propositadamente insuficiente tanto para conhecer o mecanismo em sua totalidade e as pessoas em profundidade. Nós, como professores, temos várias turmas com uma média de 40 alunos por ano o que torna o nosso trabalho, de fato, puramente mecânico de uma forma geral. As exigências e as pressões terminam por desumanizar a todos seja professor, seja aluno, seja diretor, seja inspetor.  Somos um mero funcionário que obedece a uma autoridade que dita o que temos que ensinar e de que forma devemos fazer isso.

Esse esquema de “linha de montagem” foi aplicado na indústria, no exército e em grande parte das escolas no mundo, principalmente, as do ocidente. Será que é uma coincidência o fato de as escolas serem imagem e semelhança das prisões e das fábricas priorizando o cumprimento de regras e tendo um total controle comportamental e social? Pelo muito que li e estudei posso garantir: não. A escola, no formato que a conhecemos, foi feita para ser uma fábrica de cidadãos, como já dito acima, obedientes, mas mais do que isso: consumistas e eficazes para o sistema.

Outra pergunta interessante a se fazer é: por que todos têm que saber o mesmo? Quem disse e escreveu isso? Se somos tão diferentes, se cada um de nós constitui senão um universo uma galáxia talvez, por que todos temos que aprender do mesmo jeito e ao mesmo tempo? As nossas escolas não têm capacidade e muito menos se propõem a responder às necessidades de cada um. Por quê? Porque ela não foi feita para educar  e sim para instruir.

Nosso sistema “educativo” é um sistema de exclusão social que seleciona o tipo de pessoa que vai para a faculdade para fazer parte de uma elite. A nossa “Educação” nas escolas não tem como função olhar e trabalhar cada um, ou seja, até hoje seguimos o mesmo modelo das escolas prussianas dos idos dos novecentos: ensino padronizado, aulas obrigatórias, divisão de séries por idade, currículos desvinculados da realidade, pressões por parte dos professores que por sua vez são pressionados por coordenadores e diretores, prêmios e castigos, horários rígidos e uma estrutura vertical.

O que a escola tem a ver com “Educação”? Nada. Absolutamente nada dependendo de como você compreenda o que seja educar e, por tabela, o que é considerado como uma boa educação. Somos, por um acaso, bem educados para você se conseguirmos adquirir conhecimentos que naturalmente não nos interessariam e superarmos barreiras que outros nos impõem? Ou seríamos bem educados quando somos encorajados e estimulados a alcançar uma boa qualidade de vida que não tem absolutamente nada a ver com nosso conforto material?

Vou propor a você um experimento de pensamento. Esqueça, por um momento, tudo o que disseram que deveríamos aprender na vida. Feche os olhos por alguns minutos e tente ver cada coisa como se nunca tivéssemos visto. Avalie, ao seu modo, cada ação, cada costume. Saia da caixa e veja de fora dela. Se pudéssemos escolher como deveríamos ser educados, a forma que temos hoje está lhe parecendo uma boa maneira de fazê-lo? Quem formamos nesse sistema de ensino? Respondo me colocando como fruto desse sistema tanto como aluna que já fui como professora que sou há duas décadas: formamos pessoas que sabem logarítmos e diferenciar briófitas de pteridófitas, mas não sabem como se relacionar com outras pessoas e com o meio ambiente.

O sistema sempre exige muito mais do que o ser humano – seja ele criança, seja ele adolescente – pode dar. Veja que as médias das turmas jamais são “dez”. Isso gera uma criança estressada, um adolescente com a auto-estima baixa e sem vontade de aprender, pois “aprender” se tornou um processo tedioso e difícil. São raras as crianças que aos doze anos, por exemplo, peguem um livro para ler por livre e espontânea vontade e curiosidade. Quem fez isso com ela?

Informação é definitivamente diferente de compreensão. A última é uma ferramenta em constante crescimento com características únicas que variam para cada indivíduo. Compreensão implica estabelecer relações entre conceitos e critérios e resolver problemas e construir novos conhecimentos. A primeira é o que é passado na maioria das escolas. Nossos alunos viram depósitos de informações e são bem recompensados por isso quando têm sucesso nessa empreitada. A informação que a escola deve passar para seus alunos é o que constitui o currículo. Mais uma vez cabe a pergunta: Quem fez o currículo aplicado nas escolas e com qual objetivo?

A aprendizagem profunda é aquela que se dá baseada no interesse, na vontade e na curiosidade. É muito mais do que estar bem informado. Porém, tanto a escola como a sociedade em que vivemos levam a assumir motivadores externos para alcançarmos nosso objetivo; dito de outra forma, a meta que nos forçaram a ter se resume a “ser alguém na vida” que por sua vez se traduz como “ser alguém bem sucedido” que todos aprendemos como sinônimo de poder ter riquezas materiais. Se buscarmos a origem da palavra “educação” veremos que ela vem do latim educare, por sua vez ligado a educere, verbo composto do prefixo ex (fora) + ducere (conduzir, levar), e significa literalmente ‘conduzir para fora’. Não para dentro. Significa, por essa esteira, motivar. E percebam com clareza uma coisa: uma pessoa pobre, sem dinheiro, não é, na sociedade, vista como uma pessoa bem sucedida. Aquele que estuda por prazer e não gera dinheiro com seu conhecimento é visto como louco ou burro por grande parte das pessoas que o rodeiam. Temos de uma forma geral, a ideia de “educação” como uma única via de ascensão sócio-econômica.

A tarefa do professor deveria ser mostrar mistérios, mostrar situações na natureza mesmo que já estejam descritas pela ciência de modo que o educando se surpreenda. E já que falamos sobre ciência, vale lembrar que ela se apresenta na sua história como composta de muitos mais erros do que acertos. Thomas Edison, o inventor da lâmpada elétrica, fez mais de mil tentativas antes de conseguir o modelo final. Quando um jornalista perguntou como ele se sentia depois de ter fracassado mil vezes, ele respondeu: “Não fracassei mil vezes, a lâmpada é uma invenção que requer mil passos”. E são raríssimos (nem sei se existem) os livros de ciência do Ensino Fundamental e Médio que apontam os erros dos cientistas.

Voltemos à nossa reflexão maior sobre “educação”. Outro ponto a entender: por que os alunos são agrupados por idades? Para que haja uma maior homogeinização: se uma criança fala pouco, ela tem que falar mais. Se uma criança fala muito, ela tem que falar menos. Há um protótipo que deve ser buscado. Porém, para quem tem mais de um filho como eu ou tem irmãos ou primos, fica muito claro que cada um tem um ritmo e uma maneira de aprender diferentes, motivações distintas assim como são também as formas de se relacionar. Mas as nossas escolas desprezam isso e a educação sem liberdade e sem esse respeito ao tempo de cada um gera uma vida que não pode ser vivida em sua plenitude.

Já imagino você me perguntando, como pai ou professor, se a falta de um discurso autoritário e de uma ordem não geraria uma indisciplina geral e um caos. Em outras palavras: há outra forma de se educar? Primeiramente temos que definir bem o que você está chamando de “disciplina”. Seria ela, por um acaso, uma forma de impôr um determinado tipo de comportamento? De onde surgiu essa ideia que educação deve ser repressiva? E você como pai, mãe ou professor, ou seja, como “educador”… como as suas emoções são controladas? O que sentem quando estão educando? Sentem-se em paz ou em conflito? Se não somos felizes educando, estamos de fato educando?

O discurso na maioria das casas é algo parecido com isso: educamos para que nossos filhos saibam se adaptar à sociedade que eles vão viver e que sabemos que vai ser dura. Proponho pensar em encarar a educação, tanto em casa como na escola, como algo que sirva para o educando como um meio de ele perceber criticamente o que gosta ou não, como uma ferramenta para ele pensar como pode melhorar a sociedade e viver em paz consigo, com o seu entorno e o meio ambiente.

É muito difícil, concordo, pensar em tudo isso porque implica mudança. E toda mudança gera um medo danado na gente porque significa questionar o que acreditamos. Não podemos mudar mantendo as crenças e devemos abandoná-las. Por isso, em certa medida, mudar é morrer. Entretanto, “morrer em vida” pode ser sinônimo também de renascer. Por outro lado, a “morte em vida” pode ser sinônimo de se manter sempre na zona de conforto. Tudo é uma questão de coragem e precisamos tê-la se queremos ser educadores, pois, a aprendizagem não deixa de ser uma transformação. Se não aprendemos e se não enfrentamos a nossa própria mudança, como pretendemos mudar alguém?

É muito comum os pais perguntarem para os filhos: “como foi a escola hoje?”. A resposta é sempre muito superficial e geralmente assim: “boa”, “foi bom”, “normal”… o que não quer dizer rigorosamente nada. Experimente perguntar (ou imagine que perguntassem para você nos tempos de escola): “como você se sentiu na escola hoje?”.

Olhemos para trás e nos encontremos como quem fomos na infância e na adolescência. Muito pouco do que aprendemos na escola nos foi verdadeiramente importante a nível de currículo que, vale observar, é quase o mesmo no mundo inteiro e serve para treinar pessoas para o emprego e uma cultura acrítica de consumo. O que carregamos até hoje não foi escrito nos cadernos. Pode ter sido um exemplo de um professor, uma briga com um amigo, uma aula que tenha nos tenha deixado perplexos (uma dentre tantas)…. A escola não nos ensina a ser livres, muito pelo contrário. A escola não nos ensina a nos encontrarmos com nós mesmos, ao invés disso, dificulta esse encontro. Falamos muito de um mundo melhor e esse mundo não é ensinado e discutido nas salas de aula.

O que nos ensinam para vivermos “bem” quando adultos é estar longe um dos outros e a competir por coisas que não tem valor (moral) sem que esse possa ser descrito por algo diferente de um número. Pais e professores não prestaram atenção às nossas demandas assim como não temos escutado hoje nossos filhos e alunos. Pais e professores não nos perguntaram sobre nossa opinião, assim como não perguntamos a opinião de nossos filhos e alunos. Pais e professores não tinham ideia de como nos sentíamos assim como não temos ideia de como se sentem nossos filhos e alunos. Se tivéssemos a opção ontem e se dermos como opção para nossas crianças escolher entre ir ou não à escola diariamente, quantos de nós iríamos? Por que não nos deram e não damos a liberdade de podermos ser livres para escolher o que aprender e como aprender?

Estamos todos como mortos porque não mudamos. Cada vez que negamos escutar nossos jovens é como uma pá de cal sendo colocada a mais na nossa sepultura. Cada vez que escolhemos a meta no lugar do trajeto nos mumificamos. Cada vez que deixamos de criar algo novo, uma parte de nosso corpo apodrece.

Vamos olhar para outras formas de educação no mundo diferente da nossa tradicional. Se fizermos um breve estudo, veremos que as primeiras sempre promoveram sustentabilidade. Não quero dizer que sejam formas perfeitas de educar, mas sim ressalvar que outros tipos de educação promovem um conhecimento maior do solo, do clima, da água… e fazem os educandos seres responsáveis pela própria vida e pelo outro geração pós geração. Voltemos ao nosso sistema educacional. Não aprendemos nada sobre sustentabilidade, não aprendemos sequer primeiros-socorros, não sabemos nos comunicar com pessoas com deficiência auditiva, praticamos bullying com o diferente, não temos ideia de como é produzido o nosso alimento, nos livros de ciências das escolas fundamentais os animais são apresentados pelas suas utilidades para nós, aprendemos a confiar cegamente nos médicos e nada sabemos sobre a história da indústria de fármacos e como a ciência hoje é financiada e desenvolvida. Não temos ideia de como lidar com problemas ambientais e qual é a nossa parcela de responsabilidade na degradação do meio ambiente, mas sabemos logarítmos e utilizar a equação de Torricelli em problemas que jamais serão nossos na realidade.

A Educação que temos não passa de uma doutrinação para uma forma de saber, de aprender e, pior, de ser. E temos consciência de que diferentes formas de saber, de aprender e de ser criam diferentes culturas e indivíduos. A nossa Educação como temos hoje – que, vale sempre lembrar, segue o mesmo modelo de quando foi criada na Prússia – serve para alimentar um sistema de produção industrial. Migramos da sabedoria para o conhecimento, do conhecimento para a informação e da informação para informação incompleta e desintegrada. A maioria esmagadora de todas as atividades que acontecem sob o título “Educação” vem de um plano muito bem específico e elaborado que se mantém o mesmo há séculos. Em 1960, Walt Roston em “The Stages of Economic growth” afirmou que “a maioria da população deve estar preparada para aceitar o treinamento para um sistema econômico […] que cada vez mais confina o indivíduo em grandes e disciplinadas organizações que designam tarefas limitadas e especializadas”. Anterior a isso, em 1898, Ellwood P.Cubberly, da Universidade de Educação em Standford havia dito que “as especificações para a produção vêm da demanda da civilização do século 20 e é o dever da escola construir seus alunos de acordo com essas especificações dadas”.

Vejamos agora o projeto “Educação para Todos” sancionado por inúmeros países do mundo. Trata-se de um programa apoiado pelo Banco Mundial e pela ONU que tem financiamento de grandes corporações. O plano é colocar todas as crianças na escola. A alegação é que indo à escola as comunidades serão capazes de se desenvolver e de fazer parte de uma sociedade maior que, para mim está claro, significa tornar-se parte de uma economia global. Não é raro presidentes, ministros e até educadores confirmarem essa informação ao dizer que temos que educar para crescer como sociedade. O que eles querem dizer com isso?

A missão anunciada é “combater a pobreza global” pela educação. “É uma condição absolutamente necessária para a redução da pobreza”, afirmou Julian Schweitzer, diretor de desenvolvimento humano do Banco Mundial. Quais são os interesses que o banco serve? Ele mesmo, o próprio Schweitzer responde: “A demanda da educação está vindo de homens de negócios que estão descobrindo que eles não conseguem desenvolver suas fábricas porque há uma escassez de trabalhadores qualificados”. A questão que me faço lendo tudo isso é: quem se beneficia quando todas as crianças são educadas de uma mesma forma? Mais um pouco de Schweitzer: “Temos que ter cuidado para não sermos muito paternalistas com as chamadas culturas locais ou tradicionais [ele se referia às comunidades indígenas ou isoladas dos grandes centros]. Podemos não destruir essas culturas mas, por outro lado, ao tentar preservar essas culturas há um tipo de “congelamento” e para evitar isso, nós devemos ajudar educando as crianças”. Pergunto-me ao me deparar com isso: O que esses administradores de educação pensam sobre o “progresso”? Pesquisem vocês e vejam quantidade de crianças e adolescentes no mundo que sofrem de algum transtorno psicológico como a depressão, por exemplo. Vejam quantas tomam remédios psiquiátricos e quantos tentam o suicídio em nosso planeta.

Definitivamente, vivemos sob uma grande crença de que é através dessa educação que conhecemos que vamos tirar as pessoas da pobreza. Se prestarmos atenção, veremos que foi com o advento do colonialismo juntamente com o dito “desenvolvimento” e a ideia de “ajuda” que a pobreza foi criada no mundo. Nos outros sistemas de economia pré-modernas ou pré-desenvolvimento não encontramos o tipo de pobreza que se tem nas favelas. Futuro bom, para nós, é sinônimo de consumirmos muito e, vejam vocês, há pessoas estão se endividando para dar essa “boa educação” para seus filhos sob a grande esperança de que eles sejam futuros engenheiros ou médicos e “alguém na vida”. Quantos conseguem ter esse almejado “sucesso”? A grande maioria? Não. Pasmem. Menos de 10%.

Quando viajamos e visitamos culturas que não têm o nosso sistema educacional, deparamo-nos com uma economia sustentável, achamos pessoas extremamente desestressadas e vivendo em harmonia com o meio ambiente. Encontramos seres que interagem bem entre si e que se respeitam mutuamente. E acredita que ainda há quem defenda que devemos melhorar a vida dessas pessoas com escolarização? Tirar as crianças do contato com a natureza e colocá-las imersas em prisões de concreto, sem verde algum e darmos a elas livros que falam sobre a natureza da forma que falam? Para que faríamos isso? Com que propósito fazemos isso? Não é à toa que o grande mestre Albert Einstein disse ser “nada menos que um milagre que os métodos modernos de instrução ainda não estrangularam por completo a sagrada curiosidade da pesquisa”.

O nosso sistema educacional está classificando milhões e milhões de crianças e  jovens como fracassados. Pessoas extremamente talentosas e sensíveis se tornam os “rebeldes”, “problemáticos” e “repetentes”. O mais preocupante de tudo isso para mim é perceber que as pessoas que estão lutando pela justiça social não conseguem ver o gigantesco tipo de hierarquia e desigualdade que a nossa “Educação” gera. Vamos ligar alguns pontos: por que temos que aprender inglês? E se não tivéssemos aprendido? O que não estaríamos consumindo?

Todos os nossos índices de desenvolvimento não dizem nada sobre qualidade de vida. Ouvimos que “a renda per capita dobrou”. O que isso quer dizer? Devemos mesmo comemorar? Isso pode significar que algum agricultor saiu de uma economia agrária não-monetária para entrar em uma fábrica que explora seus empregados, não? A nossa qualidade de vida melhora, de fato, quando a nossa renda melhora?

Não quero, porém, desprezar tudo o que temos e sim propor um olhar mais crítico, pois quando analisamos a maneira que estamos ganhando o nosso dinheiro percebemos que ela é baseada em um paradigma econômico que segundo qualquer definição científica está mudando a bioquímica do planeta. O “sucesso” que a educação tradicional e a mídia nos fazem sonhar deteriora a olhos vistos o nosso meio ambiente e a nós mesmos como indivíduos. E pior, nosso “sucesso” implica o “fracasso” de outros. A riqueza material não existe sem seu oposto: a pobreza.

Pensemos com carinho e seriedade sobre o assunto.

Principal fonte da pesquisa: https://www.youtube.com/watch?v=gVSW652HrUg

Eu, Jesus e o Magistério

jesus

É comum na minha profissão – que é ser professora – encontrar colegas desanimados. O pior dessa apatia é a (ilusória) nostalgia. Ficam lamentando dos alunos que não temos mais e vivem dizendo: “no meu tempo…” Aff.  O próprio professor se deprime apoiado em uma nebulosa memória do aluno perfeito que foi no passado. Tratemos do que temos na nossa frente e entendamos e aceitemos essa nova realidade de braços abertos. Se ele não sabe as operações básicas da matemática, reclamar disso não vai fazer com que ele aprenda. Se ele acha que ao ler Cinquenta Tons de Cinza, Paulo Coelho e similares está se aproximando do mundo da literatura cabe a você alfabetizá-lo. Se ficar no terreno do imaginação sonhando com o perfeito e apegado ao passado não vai produzir nada.

O desânimo reina e o discurso de que os alunos estão cada vez piores prevalece. Mas pensemos em um figura conhecida por todos: Jesus. Quer você seja cristão, ateu, budista, hare chrishna, não importa. Se mora no Brasil, sabe de quem estou falando e um pouco de sua história (ou lenda). Recordemos.

Jesus, dizem, teve 12 alunos que foram todos escolhidos por ele. Nós temos, em cada turma, em torno de 40 cujo fato de estarem sentados na sua frente nada tem a ver com a nossa vontade e o nosso conhecimento em relação a eles.

Os 12 alunos de Jesus tinham aula dia e noite. Foi tempo integral se não me engano por três anos. Os nossos alunos nos veem duas vezes na semana ou nem isso.

Os 12 alunos de Jesus largaram tudo para segui-lo. Os nossos sequer largam do celular e não querem acompanhar nem por cinco minutos nossos pensamentos.

Jesus fazia milagres. Diriam alguns colegas, nós também. Concordo, mas Jesus falava levanta-te e anda para um paraplégico que saía correndo pelas ruas de Israel ou algo que o valha. Ou seja, o que estou querendo dizer é que Jesus não dava somente aulas teóricas, mostrava na prática o que a sua ciência era capaz. Melhor ainda: as aulas eram ao ar livre. No mais, Jesus andou sobre as águas enquanto nós temos que tomar cuidado para não tropeçar no tablado. Ele transformava água em vinho. Nossos alunos sequer frequentam laboratórios ou têm aulas práticas e quando as têm é manca, pois carece de uma certa magia.

Ainda assim, após 3 anos o que aconteceu justamente na última prova do quarto bimestre? Os seus três melhores alunos caíram no sono enquanto Jesus chorava sangue. O tesoureiro do grêmio delatou o mestre ao diretor por trinta pontos na média final. Pedro, o líder da turma, negou que Jesus havia lhe dado aula três vezes diante do coordenador da disciplina. E os outros nove? Fugiram. E sequer deram as caras no dia que Jesus estava sendo crucificado pelos pais dos alunos e por toda a sociedade.

Ah sim. Tem João. Ele foi até lá mas o que fez ele para impedir o linchamento? Pois é. Nada. Ainda que consideremos João como o aluno que deu certo teremos um sucesso de menos de 10% dessa empreitada, considerada baixíssima, diga-se de passagem, pelos padrões do MEC.

Jesus estava morto. Mas o carinha entregou os pontos, chutou o balde ou desanimou? Não. Acreditem. Apesar de toda essa história, ele voltou três dias depois para dar aula de recuperação nas férias. Reuniu todos que não tiveram média para passar de ano e disse: eu em verdade vos digo que vos darei mais uma chance. Jesus, como sabem, gostava usar a segunda pessoa do plural.

Qual foi a surpresa de Jesus quando Pedro, considerado um de seus melhores alunos, presidente do grêmio perguntou: “Senhor, é agora que vais restaurar o reino de Israel?” . Mas gente…  Um de seus alunos mais inteligentes não havia aprendido patavinas!

Rendimento de todo o esforço de Jesus ao final: 0%. Jesus padeceu? Não. Dá-lhe novos milagres, exercícios, aulas práticas explicadas com muitas parábolas para os alunos entenderem, vinho, pão, trilhas ao ar livre… nada. Ao final, Jesus sobe aos céus no meio do clarão das nuvens, um espetáculo que se compara aos fogos de Copacabana na virada do ano, e babau. Nunca mais voltou mas, bem ou mal, todos se lembram do que ele disse (até mesmo quem nunca teve aula com ele diretamente) quando a porca torce o rabo porque os que o ouviram perceberam que Ele acreditava no que dizia e tinha amor verdadeiro pelo o que fazia.

Então, meu caro colega de trabalho, se com Jesus que foi Jesus assim contam que aconteceu, por que tem se descabelado? Primeiro de tudo lembremos de como a auto estima e a confiança de Jesus era enorme: o cara simplesmente dizia que era o Filho de Deus e mandava ver. Nós estamos enriquecendo psicólogos, psiquiatras e a indústria de fármacos. Qual professor já não teve o pesadelo de perder o controle total de uma sala, especialmente na noite mal dormida que antecede o primeiro dia de aula? Segundo: como melhorar? Oras, eu não sei ao certo, mas tenho alguma ideia inspirada nessa lenda (assim considero) de Jesus.

A história conta que o Mestre disse: Neste mundo vocês terão aflições; contudo, tenham ânimo! Eu venci o mundo. Quem quiser ser líder deve ser servidor. Se você quiser liderar, deve servir. Então, meu amigo, pergunte-se qual o motivo de ensinar tal coisa, qual a relevância, qual a utilidade de tal leitura. O professor é o primeiro que deve saber como tal conhecimento transformou a sua vida. Você acha que já está formado e preparado para esses novos alunos dando a mesma aula que lhe deram há 20 anos atrás? Que tal vencer a si mesmo para começar?

Os artistas de hoje foram aqueles que foram rebeldes na época de escola ou os que tinham o nome entre os dez primeiros melhores alunos em nota? Será que a sua irritação com a turma indisciplinada não é uma espécie de raiva por saber que eles estão querendo aprender algo que lhes seja de fato útil?

Enfim, inspiremo-nos em Jesus e parafraseemo-lo: Ame o seu aluno como a si mesmo e não faça com ele o que você não quer que façam com você.