Beleza Suburbana

Morava numa casa de dois andares, numa vila localizada no Subúrbio do Rio, em Madureira. Conviviam nela pessoas de todas as idades, cores, tamanhos e até níveis sociais diferentes, bem diferentes.

Havia brigas, é claro. Certo dia, uma senhora, que morava sozinha com o pai, chegou do trabalho e deparou-se com crianças brincando de pique no local que era comum a todos os moradores e foi logo falando alto e em bom tom que lugar de criança é no parque, que aquele lugar que ficava entre as casas era somente para as pessoas entrarem e saírem, nunca para brincar!e por aí foi se exaltando no discurso em prol do silêncio. Uma mãe logo apareceu para saber o que estava acontecendo e como dizem os suburbanos, o barraco estava montado. Era um tal de vai lavar uma louça daqui…de que a outra era mal amada de lá…

E os carros? Quem tinha lutava pelo direito de colocar na vila, quem não tinha lutava pelo espaço vazio. Ter cachorro era permitido, mas peralá…levar cachorro para fazer as necessidades logo ali fora, não senhora! Ouvir rádio alto podia, mas música evangélica…pó baixá, logo gritavam de uma janela. Quanto a limpeza da vila o negócio era organizado, cada um varria a sujeira da frente de sua casa e colocava na frente da casa ao lado, pode-se dizer que se tratava de um lixo nômade, cada dia encontrava-se em frente a uma casa diferente. Mas todos varriam, neste ponto todo mundo cooperava.

Numa noite de inverno no meio da semana, quando todos estavam dentro de suas casas, um balão começou a soltar fogos. Um barulho danado. As crianças foram as primeiras a sair e dar o alarme que havia balão no céu e que estava bonito. Aos poucos foram saindo outros e logo que olhavam para o balão tocavam a campainha do vizinho para que viesse correndo ver. Olha lá! Vem, dona Albertina! Seu Geraldo, tá vendo lá longe? Papai, tô com medo…Olhaolhaolha! E o balão não decepcionava, continuava comandando o espetáculo.

Fui até a janela de meu quarto e fiquei admirando as cores dos fogos de artifício, mas logo o balão foi empurrado pelo vento e, da minha janela, por mais que eu me esticasse e me contorcesse não conseguia ver mais nada. Olhei lá para baixo e dona Jurema, ao me ver em posição desprivilegiada, gritou para eu descer rápido. Com o grito todos olharam para mim. Começaram a dar sinal, gritar para eu sair da janela e me juntar a eles, mas o balão começou a fazer novas gracinhas voltando a ser o centro das atenções, desviando, assim, todos os olhares para ele.

De cima vi, de repente, os vizinhos como nunca havia visto. Todos estavam com o pescoço curvado, olhando para o céu com um sorriso bobo estampado, cutucando uns aos outros. Os olhos de cada um refletiam as cores vistas no céu. A senhora que havia brigado com as crianças estava segurando Nicole no colo para que ela conseguisse ver melhor o balão. O cachorro andava calmamente entre todos, o lixo ali no lugar onde sempre ficava às quartas-feiras. Pude então, ao permanecer na janela, observar, de camarote, o verdadeiro espetáculo de luz e beleza.

Escrito em março de 2002

6 Comentários

Arquivado em Crônicas, Filhos, reflexões

6 Respostas para “Beleza Suburbana

  1. Com certeza, Elika!Existe sim uma beleza suburbana, mas só quem mora, vive e respira isso aqui percebe. Ou não. Tem gente que nunca se satisfaz, que só reclama e diz que bom mesmo é a zona sul. Por que lá os governantes se preocupam e bla bla bla. Mas eu tenho certeza que se essas pessoas morasse por lá tambem encontrariam defeitos. Mas como eu disse: concluiu dorothy "nao ha lugar melhor do que a nossa casa!!"

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  2. Concordo com o comentário acima.

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  3. Pra ver a banda passar…..Muito legal o texto.Bjs

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  4. Tem certos dias em que eu penso em minha gente/E sinto assim todo o meu peito se apertar/…Pelo visto, nem só Chico e Vinícius tiveram olhos para belezas suburbanas. Eles deram a célebre e linda letra à linda música de Garoto (que aliás nem sei se você conhece ou gosta, mas tudo é opinião, né?). Já você, compôs o texto que acabou servindo de post inaugural pra este blog aberto em abril de 2009. Estilo.

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  5. Eu estava bem insegura ainda, mas depois do apoio moral do meu amigo Paulo Andel resolvi colocar a cara na janela.=)Beijo

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  6. Pois é, JoãoComo disse acima, foi um ato de coragem. Totalmente influenciado por um outro escritor.Ainda bem que deu certo. Ufa!;-)Obrigada pelo comentário!

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