Temos Nosso Próprio Tempo

Com 15 anos cheia de sonhos   &    Com 37 anos e alguns deles realizados

Toda paranóia começou quando fomos convidados para uma festa PLOC. Para quem não sabe, nessas festas intituladas com essa marca de chicletes ouvimos músicas da década de 80 e geralmente são frequentadas por pessoas que foram adolescentes por esses idos. A questão é que as músicas nunca vem sozinhas. Ao ouvir Legião Urbana, por exemplo, a voz de Renato Russo magicamente devolve-me a emoção vivida num passado repleto de incertezas descomunais, certezas colossais e tinos e rugas inexistentes. Eu, hoje, em plena puberdade. Maravilha.

O convite poderia ter sido indolor senão fosse pelo fato d´eu ter pintado meus cabelos e ter estudado muito filosofia justamente na semana em que o recebi para tal festa. Perguntas transmundanas começaram a bombardear minha cabeça colorida artificialmente e na primeira oportunidade fui dividir minhas angústias com o Nelson que está pouco se lixando para essa festa PLOC, que vive rindo alto pela casa apesar de seu couro cabeludo estar cada vez mais visível, que só ouvia Chico Buarque enquanto eu pulava de um lado para outro na Play House ouvindo Olhar 43 e que me namora desde essa época.O ponto é que quando somos jovens imaginamos um futuro e a gente nele fazendo um monte de coisas super legais porque somos donos dos nossos destinos. E aí vem o diabo do tempo que se acelera a si mesmo perde-se em um presente impossível de se dominar e vai-se embora deixando o tônus de minha epiderme comprometido. As variáveis da equação que rege nossos caminhos começam a fugir do nosso controle e acabamos tendo que conviver bem com o resultado dessa conta que nós nem sequer sabemos como foi feita!

Estava muito angustiada. Precisava conversar…

-Nelsu, se nós nos conhecêssemos nessa festa PLOC, você se interessaria por mim? – Perguntei mexendo nos meus cabelos tonalizados.

– Claro que sim, meu amor, eu me interessaria se te visse em qualquer lugar. Você é a mulher da minha vida…

Não podia ele ter dito isso? Resolveria grande parte dos meus problemas! Eu estava esperando essa resposta para fazer charminho, chamá-lo de bobinho, sentir-me melhor e partir literalmente para o abraço. Mas não.

– Eu não iria a essa festa. – E apontou o controle para a televisão.

Isso mudou tudo. Da minha mente que já estava conturbada por causa de Descartes e do tubo Richesse da Lóreal surgiram mais 789 perguntas.

– Como não? Foi o Mazinho que te chamou? Você iria rever seus amigos! E então, se me visse lá, você iria se interessar?- Segunda tentativa. Mas Nelson estava em outra estação. Completamente fora de sintonia.

Eu não vou me estender aqui contando o diálogo nervoso sem precedentes que travei com Nelson para convencê-lo a ir a essa festa por livre e espontânea vontade caso não me conhecesse. Fato é que ele conseguiu chegar até lá sozinho e lá me viu.

A Dois Passos do Paraíso toca ao fundo. Eu estou com aquele meu vestido azul marinho e começam a soltar aquele fumacinha de gelo seco.

– E então? Gostou do que viu? Você iria falar comigo? Daí, a gente bateria um papinho num canto e você se interessaria? – Perguntei sorrindo com o coração disparado e rindo de lado.

– Claro que iria. Você é a mulher mais bonita dessa festa. Não deixaria você escapar…

Não podia ele ter dito isso? Mas não.

– E eu sou lá homem de chamar mulher para conversar? Quando você me viu fazendo isso? Sim, iria te olhar, mas não chamaria você nem ninguém para um canto para ficar de papinho. Eu hein!?! Ia ficar conversando com o Mazinho.

Meus olhos se encheram de lágrimas. Que desgraça. Eu encalhadona numa festa.

Emudeci por conta dos devaneios.

Nelson não estava entendendo nada e percebeu pelo meu silêncio que precisava entender alguma coisa. Eu precisava conversar com ele na festa PLOC. Precisava conhecê-lo neste dia para ver se eu ainda estava interessante, se estava acertando nas escolhas já feitas nessa minha vida inclusive na escolha da tinta. Havia, portanto, muitas coisas que eu queria dizer a ele nessa festa que iríamos nos conhecer ou nos rever, vá lá, mas ele nem sequer me chamou para conversar! E tinha que ser ao som das músicas que me fariam sentir jovem e sem juízo senão eu poderia travar um pouco.

Nelson, preocupado, resolveu evoluir no nosso parlatório e convenceu-me de que daria um jeito de se aproximar de mim, mas jamais me chamando para um lero. Ele perguntaria ao Maza quem era a menina de vestido azul. Ótimo. Maza me conhece e faria a ponte.

Retomei animada de onde havia parado.

– Então, Nelso, daí, se começássemos a conversar e você me perguntasse o que eu faço e eu te dissesse que estudo filosofia, que fico horas discutindo sobre a rebimboca da parafuseta, ou melhor, sobre a metarrebimboca da parafuseta do século XVIII, que dou aula de física, que escrevo bobagens … você se interessaria ainda mais? – Indaguei tendo em mente o seguinte esquema: se ele responder “não”, eu vou perguntar isso e aquilo e se responder “sim” eu vou fazer aquilo.

– Ah sim, muito mais. Ia te achar super interessante, mega inteligente além de bonita. Você se tornaria irresistível para mim.

Não podia ele ter dito isso? Mas não.

– E eu lá quero saber o que você faz? Você acha que eu perderia meu tempo perguntando sobre o que você faz?- Pronto. Regrediu de novo. Nelson respondia com perguntas me olhando como se eu fosse a metarrebimboca.

E ao me olhar entendeu tudo. Considero-me uma pessoa muito feliz, mas todas as vezes que o confronto entre o protótipo e o espelho se faz eu perco um pouco o equilíbrio e posso vir ao chão. Nelson com sua extraordinária paciência e simplicidade fez-me perceber que diante da possibilidade de ouvir as músicas de um passado remoto eu tive um surto psicótico não porque o resultado da equação escrita quando as rugas não eram residentes no meu rosto foi diferente do esperado (o que de fato foi), mas sim pela percepção da impossibilidade que todos nós temos de acesso aos cálculos. Portanto, não faz sentido sermos medidos pelo que fazemos hoje e sim pelo que sentimos desde sempre. Assim, são as incertezas descomunais, as certezas colossais e os tinos inexistentes que apenas mudaram de tema, mas que nunca deixaram de existir que poderão indicar o quão interessante nos tornamos dando alguma pista de quem somos nós. E isso não tem nada a ver com trabalho e muito menos com a cor dos meus cabelos.

– Mas você leria meu blog? – Perguntei ainda desnorteada com aquele tombo.

– Claro que sim e iria comentar todos os textos!- Respondeu, enfim, reerguendo-me.

Apertei finalmente o play e nos abraçamos ao som do Cazuza.

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5 Comentários

Arquivado em Crônicas, reflexões

5 Respostas para “Temos Nosso Próprio Tempo

  1. queria fazer um comentário masculino, não machista (imagino). no fundo o que o Nelsu respondeu era pra terminar ou interromper a conversa, em função do programa 'velozes e furiosos n. 32' , do qual ele mal conseguia tirar os olhos, digo assim para não gerar mais perplexidades. mas bem que ele poderia dizer o seguinte: você é o meu vinho bom (primeira classe) e como ele, quanto mais o tempo passam ele fica melhor. o que além de verdade, cessaria o papo; porém assim, não existiria a crônica , tampouco o comentário. decida (risos) ! beijos.

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  2. FenomenalAdorei, mas neste tempo ainda não conheceria a Luciana e não ia te apresentar de mão beijada para o Nelsinho, sem antes fazer uma tentativa eu mesmo. rs rs rsMas tudo se resolve com o tempo o Nelson encontrou a mulher da vida dele e eu a minha.Adorei ser personagem coadjuvante do texto.Mais uma vez parabéns pela criatividade.beijosMazinho

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  3. Dajbal,O interessante de conviver com alguém é essa falta de sintonia. As vzs a gente custa um pouco para entender que o outro está falando sério e está no chão. Eu tb peco muito com isso. A minha sorte é que quem convive comigo não escreve e se escreve nao fala (mal) de mim.:-)Eu fico com a crônica. Adoro feridas expostas.Beijos

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  4. Fala, maza!!!Arrebentaremos no Sábado!Seria criatividade se eu inventasse. Não inventei nada, fotografei e trouxe aqui para vc ver. :-)beijos e até a festa PLOC!

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  5. O único silêncio que perturba,é aquele que fala. E fala alto. É quando ninguém bate à nossa porta,não há emails na caixa de entrada, não há comentários e, mesmo assim, você entende a mensagem.

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