Todo Mundo em Seu Devido Lugar

Estava escrevendo a minha tese que dentre outras coisas mostra como a visão aristotélica do funcionamento e da organização do Universo foi derrotada e peguei-me pensando sobre o meu lugar nesse budega toda…

Em breves palavras que serão suficientes para que vocês entendam Aristóteles e Elika, o filósofo grego acreditava que tudo no Universo possuía um lugar natural. Os movimentos terrestres obedeceriam a leis teleológicas, cada corpo devendo ocupar uma posição privilegiada onde ficaria em repouso. Se resolvermos tirar qualquer objeto do repouso teremos que aplicar uma “força” sobre ele e cessada a aplicação desta “força”, ele buscará novamente sua imobilidade. Fora do seu lugar natural, o corpo é “ser em potência”, dizia Aristóteles, e só é ser atual em seu lugar natural, onde fica paradim, por não haver necessidade de mover-se. Daí que veio Galileu, Descartes, Huyghens e Newton e mostrou que tudo isso não passava de um grande equívoco. Movimento pode existir sem que nenhuma força atue no corpo e essa parada de ‘lugar natural’ não se sustenta, pois o repouso e o seu contrário, o movimento, são relativos. Bah. E eu não sei onde fica o meu lugar?

Comecemos quando aprendemos a falar e a andar sozinhos. Qual foi a primeira coisa que nossos pais nos ensinaram caso nos perdêssemos ou fôssemos sequestrados e conseguíssemos fugir? Se nos perguntassem de onde somos, nós tínhamos que responder onde nascemos e onde moramos porque era pra lá que deveríamos voltar. E, de fato, mesmo que não sejamos sequestrados e traficados, basta uma viagem para sabermos que não estamos em nossa casa. O melhor da viagem, como todos os viajados mais descolados afirmam, é a volta. Porque nada se compara à sensação de abrirmos a porta do nosso lar, o nosso lugar preferido.

Na casa de meus pais, e acredito que em todas as “casas de família” sejam assim, cada um tinha o seu lugar na mesa. O meu, por exemplo, era perto da geladeira e disso me lembro muito bem porque não tinha paz na hora das nossas refeições. Pega o ketchup? Pega a manteiga? Pega a água? Pega… aff. Que saco. Mas pelo menos não ficava de costas para a porta como a minha irmã mais velha e perto da cozinha como o papai que tinha que se levantar toda hora para pegar um garfo, um prato e tudo o mais que se tem em uma cozinha. Mamãe ficava de costas para a televisão e todos gritavam para ela sair da frente de forma que o lugar dela era espremido ao lado da Tata, a que ficava de costas para a porta, ou ao meu lado, o que era bom porque quando me pediam algo era ela quem pegava. Tony sentava-se ao lado do papai e também ficava de frente para a televisão reclamando de mamãe não ser transparente. Lyli quando nasceu ocupou o lugar da Ta que foi morar em Florianópolis e quando todos estamos juntos a configuração tende a se repetir. Fato é que nunca saberemos como os nossos lugares foram definidos. Sabíamos simplesmente disso e nunca sequer nos passou pela cabeça mexer com a ordem do cosmos-copa-cozinha. O arranjo foi acontecendo naturalmente, tal como dizia Aristóteles.

Daí que vem a escola. Quando éramos pequenininhos a tia definia os nossos lugares e se fôssemos mal em nota, a primeira atitude da tia era nos mudar de lugar. Ela havia errado ao forçar uma determinada arrumação e é isso o que acontece quando tiramos uma peça do seu lugar natural no Universo. Ela sofre. Padece.

Quando adolescentes a coisa era bem mais democrática. Com uma semana de aula, depois de algumas variações, a turma chegava a uma disposição que durava o ano todo. Havia o pessoal nerd, ou como dizia-se no meu tempo: CDF, que sentava lá na frente babando ovo do professor. Havia o pessoal da esquerda e da direita com filosofias de vida completamente diferentes e que se misturavam quando bem interessasse a ambas as partes, tal como acontece na política. Havia a galera do fundão, helooou! euzinha aqui, que era da bandidági e sabia bem melhor o que vem a ser a tal da ‘cumplicidade’. Se, por alguma medida disciplinar, a configuração adquirida de forma natural da turma fosse alterada, alguns de nós entrávamos em depressão. Por que toda e qualquer pessoa se adapta bem a uma parametrização dentro de uma sala de aula? Freud não saberia responder, psicólogos e sociólogos tentaram, mas Aristóteles já tinha a resposta mesmo que em sua época não houvesse salas de aula.

Ainda na escola, o primeiro lugar nunca me pertenceu. Também nunca fui de ficar em último. O meu lugar era, como dizia o diretor, na mérdia, lugar esse muito interessante por sinal e do qual muito me orgulho até hoje, pois não era conhecida pelas minhas notas e sim pelo o que dizia, fazendo juz ao nome da classe em que o diretor me colocava.

Quer se sentir perdido e sem saber o que falar e o que fazer? É quando uma pessoa amiga nos pergunta o que faríamos em ‘seu’ lugar. Ao nos colocarmos realmente em um lugar que não seja o nosso, não sabemos como agir. Tudo bem que no nosso cafofo natural também temos muitas dúvidas de como devemos nos comportar, mas elas pioram, aumentam exponencialmente! quando transladamos de forma forçada por nos imaginarmos em um lugar que não seja o marcado pelo nosso nome e sobrenome.

Some-se a tudo isso quantas vezes ouvimos e falamos “vá já para o seu lugar!”, “Ponha-se no seu lugar!”. E ainda, quando vemos uma pessoa triste, deprimida… dizemos logo que ela ainda não se encontrou e se esse infeliz ser é nosso amigo, procuramos descobrir com ele o seu lugar nesse mundo.

Então, seu Newton, a sua teoria de Gravitação Universal foi muito bacana, há uma só lei para explicar os movimentos terrestres e os celestes, ok, muito bonito. Mas erraste feio quando nos deixou vagando sem destino pelo mundo ao descartar em sua totalidade a teoria do ‘lugar natural’ proposto pelo sábio Aristóteles. O filósofo grego, se pensarmos bem, pode ter errado em algumas coisas sobre o movimento dos objetos inanimados, vá lá… mas, definitivamente, todos nós temos e sabemos qual é o nosso lugar nesse imenso Universo. Ao lado da pessoa amada, no palco, numa mesa de bar, em uma sala de aula, numa biblioteca, de frente pro mar, na cozinha, no Rio de Janeiro, em Madureira,… sentimos, ainda que não saibamos explicar, quando somos cem por cento nós mesmos e não um ser simplesmente em potencial. Quando todo o nosso cosmos está em equilíbrio.

Sabemos quando estamos em casa.

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O desenho que ilustra essa postagem foi feito pelo artista Sergio Ricciuto Conte especialmente para esse texto, ainda que ele não saiba disso.
 
 
 
 

4 Comentários

Arquivado em Crônicas, reflexões

4 Respostas para “Todo Mundo em Seu Devido Lugar

  1. Muito bom, Elika. Aliás, como quase todos os teus posts.Concordo contigo: só porque o Newton tinha problemas de relacionamento, foi abandonado pela mãe, ficou sem eira nem beira, sem nunca ter tido um 'lar' para chamar de seu, não precisava ter proposto aquele princípiio de inércia que, no fundo, faz com que, livre de forças afetivas, qualquer lugar seja tão bom como qualquer outro, ou seja, nenhum seja especial.Estou mais para Aristóteles, que com seu 'lugar natural', afirma que o Cosmo todo conspira para nos levar de volta ao lugar certo. E sabemos bem como é bão esse nosso lugar certo.

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  2. Excelente comentário!!!Adorei! perfeito perfeito perfeito!Muita obrigada por ter 'chegado junto'!

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  3. Oii amei seu blogJá to seguindo , dá uma passadinha lá no meu e me segue de volta ?? Bjjs

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