Pipoca ou Piruá?

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Se tem algo que eu gosto é pipoca. Aqui em casa já faltou arroz mas nunca milho de pipoca. Dei-me conta que há anos faço pipoca e que ainda hoje fico mexendo o milho no fogo e olhando para a panela até conseguir ver os primeiros grãos estourarem. É bonito demais… Só tampo a panela por necessidade. A vontade era ver de camarote o espetáculo da transmutação. Lucimar, minha empregada, sempre corta o meu barato.

Percebo que aquele milho duro e pequeno tem conotações metafísicas e psicanalíticas para mim. Quiçá religioso. Veja você: algo que quebra os dentes se tentarmos morder, quando perto do fogo, transforma-se em um tipo de algodão crocante comestível e que não há ser no mundo que não aprecie o gosto.

Acho que o tal do banho de pipoca no Candomblé tem esse objetivo. A pessoa está, de certa maneira, dura, fechada, impossível de ser alimento para alguém. E daqui a pouco, se abre, torna-se maleável e digerível. Pode ser. Sei lá, não entendo nada de Candomblé.

Mas entendo de pipoca e aprendi demais com elas. Percebo que uma grande transformação acontece mediante calor. E que se o fogo for algo violento, o milho queima e não se abre. O fogo deve ser brando, deve aquecer sem enegrecer nenhum lado do milho. E o milho dá sinal que algo está acontecendo. Não vira pipoca de repente como acham os que não entendem dessa magia. Ele muda de cor e incha levemente. Vai se tornando mais claro. Fica amarelinho e daí pum! começa a grande metamorfose de lagarta em borboleta.

Há sempre, ao final do espetáculo, os famosos piruás, os milhos que a despeito de tanto incentivo, se recusaram a se transformar. Em Minas, piruá era nome usado também para as mulheres que não conseguiram casar, aquelas que “ficaram pra titia”. Não acho justo porque sei que em muitos casamentos, as mulheres nem sequer recebem calor. Piruá eu diria que são todos que insistem em ficar achando que está bom do jeito que está e se recusam a dar um grande salto.

Eu, pensando bem, tenho vários milhos que se transformaram em pipoca na minha vida: minhas corridas, meu Pilates, meus filhos, minha casa, meu mestrado em História, Cefet, meu doutorado em Filosofia, meu blog, meus livros e meu amor. Todos eles, aparentemente e inicialmente impossíveis de serem agradáveis, tratados devidamente, tornaram-se um verdadeiro deleite. E fizeram em mim uma grande modificação.

Olhei agora para a despensa da casa e assustei-me com a quantidade de sacos fechados de milho. Daí pensei nessa bobagem toda e, com as portas do armário abertas e olhando para os céus, ajoelhei-me no meio da cozinha e pedi retoricamente (já que sou atéia):

Deus, dê-me vida e calor suficientes para transubstanciá-los. E, ao final, que os piruás sejam sempre irrelevantes mediante as bacias cheias de pipoca.

Amém.

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Arquivado em Opinião, reflexões

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