Seu Paulo e Ana

Ando esquisita ultimamente. E “esquisita” aqui corresponde a algo fora do meu padrão e não tem juízo de valor. Mesmo porque sempre gostei de coisas esquisitas e amo conversar com gente esquisita.

O fato é que não sei dizer se o que está acontecendo comigo é bom ou ruim. Creio que ninguém, nem mesmo minha terapeuta e minha mãe, sejam capazes de dar a resposta correta já que só vivemos no rascunho.

Estou enjoando de tudo.

Da minha casa (que moro menos de três anos), da minha sala (que tenho há 20 anos), do meu cabelo (que cortei há três meses), das minhas roupas, das panelas, das toalhas,… tudo me incomoda.

Pode ser um sinal de desapego já que sempre tive muito medo de mudança e tenho superado isso não sem muita dor. Tudo que comprava e toda a estrutura e relações que ia construindo na vida achava que era para sempre.

Sofria quando era subtraída.

Pode ser que essa irritabilidade tenha a ver com a menopausa que se aproxima. Ou talvez mercúrio retrógrado tenha lá de fato alguma influência neste meu universo tão apegado às verdades científicas.

Pode ser que o excesso de dor muscular que tenho sentido por permanecer por dois anos sentada dando aula e fazendo lives, zooms, meets e palestras tenham mexido com minha paciência em relação a aparência de tudo que me rodeia e que é refletido no meu espelho.

É também possível que seja um sinal de necessidade de renovação, de crescimento ou de limpeza espiritual. Bem se sabe que o externo que nos habita reflete muito do nosso interior que habita nesse externo.

Fato que chamei um marceneiro para arrumar algumas coisas em casa, algo como fazer mais estantes para dar conta dos novos livros (os velhos jamais me enjoam) e uma sala nova com direito a um sofá que acomodasse melhor minha lombar.

Seu Paulo olhou meus móveis.

Como disse anteriormente, tinha mania de comprar coisas que duram para sempre. Tanto a estante quanto o sofá da sala são feitos de madeira maciça, o que quer dizer que custa os olhos da cara, ou seja, um rim.

Expliquei a ele que queria me desfazer de tudo aquilo e substituir por algo mais moderno e mais clarinho. Queria mudar de cor. Sofá lilás, estante branca, algo assim.

Gente boa que é, sincero como são os roqueiros da velha guarda, honesto como os que tatuam o corpo todo, seu Paulo me disse que não veio a esse mundo para bater palma para maluco.

Se eu quisesse me desfazer de algo tão precioso, seu Paulo disse que não faria parte dessa desventura. Aceitou fazer outras coisas que eu estava precisando, mas se recusou mexer no que mais me incomodava por enxergar algo diferente de mim e em mim. Por perceber que era um ser em desequilíbrio, assustado disse não.

Semana passada estive na Ana, quem me recebe em sua própria casa no Cosme Velho para cortar meu cabelo já que, como eu, tem pavor de salão de beleza.

Para mim, sempre foi um sacrifício ter que ir ao salão. Levo livros, provas para corrigir enquanto o cabelo se hidrata e textos para redigir. Mas quem disse que consigo? O ambiente conspira sempre contra minha concentração. Saio de lá como aqueles que se despem de uma roupa apertada.

Nada contra quem vai e gosta. Mas eu nunca curti. Gosto de conversar com quem não conheço, mas nem isso consigo fazer em salão de beleza. Fico vendo a escova de uma, as cores parecidas dos esmaltes, a descoloração da outra, os produtos nas prateleiras, os diversos tipos de tesouras, as madames fazendo os pés, as pedicures de óculos para vista cansada em posição nada boa para coluna, enfim, tudo me distrai e minha mente se torna improdutiva até mesmo para um diálogo sem muitas pretensões.

Some-se a isso o fato de eu usar próteses auditivas. O barulho de televisão com apresentadores animados somado ao do secador de cabelo quando passam por um amplificador enfiado na orelha é algo tão perturbador como querer dormir perto de uma obra.

Daí, descobri a Ana que, além de cortar meu cabelo, faz com que eu me distraia de um jeito que gosto.

Ao chegar lá semana passada, falei que estava com calor, incomodada com a juba no meu pescoço e que era para ela meter a tesoura em tudo. Sem pena.

Ela olhou para ele e me perguntou o que estava acontecendo já que o cabelo estava ainda no corte e super bonitinho. Falou, com a paciência de quem compreende muita coisa, que eu podia usar um rabo de cavalo nos dias quentes.

Perguntou se eu estava achando meu corte feio. Respondi que não. Adorei de verdade e estava feliz com muita gente elogiando.

Ela, então, com a mesma sabedoria do seu Paulo, se recusou a atender meu pedido. Disse que daqui a alguns meses eu posso voltar lá, mas que não via necessidade alguma de mexer em algo que está muito bom.

Como disse no início, não sei se isso que estou sentindo seja algo positivo ou negativo. Não sei se estou sendo impulsiva ou madura.

Às vezes, fazemos coisas com muita calma e, ainda assim, nos arrependemos. Muitas vezes, tive dificuldade de me desapegar de coisas que só me faziam mal.

Eu daria a minha sala para um casal de amigos que está casando agora e que sempre a elogiou. Estava disposta a comprar algo bem mais barato para mim.

Não sei qual seria o efeito de uma sala nova e um cabelo curto nessa pré menopausa ou pós três vacinas. O arrependimento é sempre um risco. Disposição para corrê-lo é o que parece estar a mais dentro de mim, a ponto de assustar quem com ela podia lucrar.

Consegui trocar as cores das minhas panelas que estavam manchadas e velhas. Com isso, me animei em cozinhar novamente. As toalhas foram trocadas por outras melhores, mas não tomo mais banho por isso e sinto saudades das que me desfiz.

Está tudo confuso como a vida é quando estamos em pleno movimento.

No meio desse furacão de ansiedade, irritabilidade, vontade de sair correndo misturado com o desejo de ficar em uma sala de outra cor, no meio dessa coragem ou insanidade de estar pronta para raspar a cabeça, algo que me fez muito bem, enfim, de fato e com certeza, aconteceu.

Seu Paulo e Ana, na dúvida, e sem ousarem arriscar a me fazer algum mal, agiram como fazem os seres que valem muito. Os dois, com duas semanas de diferença, fizeram com que eu respirasse, refletisse e, enfim, fizesse algo que há muito tempo não fazia: escrever sobre mim mesma.

7 comentários em “Seu Paulo e Ana

  1. Você é numa mulher sensacional. Te admiro muito pela sua inteligência, te adoro pela sua simplicidade, te amo pelo seu charme, você é simplismente linda! Lendo os seu texto, parece que estou na sua sala batendo um papo com uma amiga de vários anos. Daqui envio pensamentos positivos para você. Axé.

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  2. Obrigada por essa crônica! Fez eu me sentir conversando comigo mesma. Por aqui cortei o cabelo que eu gostava porque precisava mudar o que era possível… difícil mesmo.saber o que é ansiedade ou desejo genuíno de mudança…
    Mais uma vez, obrigada!

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  3. Élika
    Excelente esse teu texto do seu Paulo e Dona Ana. Isso acontece mesmo e não há receita para lidar com essas coisas. Mas é ótimo ver que outras pessoas sentem coisas semelhantes e passam por fases parecidas. Continue na luta. Tenho grande admiração pelos incansáveis.

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  4. Maravilhoso depoimento que eu super entendo por está vivendo um momento muito parecido.
    Feliz de saber que também acontece com as pessoas que admiramos.

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