Senhora Liberdade

Tem sido cada vez mais recorrente e começo a achar tudo curioso.

Geralmente é quando estou assistindo um filme, uma novela ou um seriado e me pego admirada com a beleza de uma senhora. Nossaaaaa que senhora linda. Muda a cena. Ela entra de novo e eu nooossaaa que beleza…

Daí, penso: “Quando eu ficar mais velha, quero ser assim”.

Depois, me lembro de verificar a idade da atriz. Vou investigar e pá. A atriz é da minha idade ou mais nova do que eu. Tóin tóin tóin (sons de martelos batendo na minha cabeça como nos desenhos do Pica Pau).

Percebi que mesmo me olhando no espelho diariamente tentando amansar meus fios grisalhos ou levantando com um dedo uma bochecha caída, esticando o pescoço para esconder a papada, encolhendo o barrigão mole, enfim, ainda assim, me sinto como uma menina de 30 anos. Só me dou conta que a idade da minha menina aumentou quando tenho que lidar com algo externo a mim, mas que também me pertence, como as estações.

O susto de saber que aquilo que achei bonito ou feio no outro está presente em mim é didático. Ele me explica que também sou definida.

Pareço embaraçada e apocalíptica, mas é porque falar de sentimentos é tão difícil quanto fazer um círculo perfeito à mão livre. A gente visualiza bem, sabe como ele é, mas não consegue enviar para os dedos o comando certo. Eu sei como sou afetada, só não consigo nomear.

Capta as entrelinhas.

Quando não me enxergo no que vejo, ou seja, quando a forma de existir do outro não me afeta, sinto que sou fluida como os gatos que cabem em qualquer recipiente, indefinida por essência e do mundo por natureza. Percebo-me de outro material. É como se a luz passasse por mim.

Assimilo que não preciso ser imaginada ou projetada para existir.

Compreendo melhor o infinito.

E tudo isso acaba ao ver no outro a beleza, a feiúra e a esquisitice das quais também sou feita e vítima. Tão alvo do tempo.

A consciência acorda com um despertador estridente no meio de um sonho bom.

Sinto-me mensurável quando percebo-me aparente.

Outro dia, ri alto e sensualizei fazendo polichinelo pelada para mostrar minha disposição para o marido. Senti as muxibas subindo e descendo, mas visualizei tudo em câmera lenta em uma floresta de girassóis. E na minha cabeça tudo estava tão bonito quanto uma biblioteca.

É como se eu não existisse ao mesmo tempo que me sentia tão viva. Agitei para além de mim mesma.

Quando isso acontece, viro uma senhora, mas não dessas que começam com “dona isso” ou “dona aquilo”. Torno-me a senhora liberdade.

Livre como tudo que é bastante percebido mas que jamais foi olhado.

Voar planando com essa paz tem sido, para minha sorte, algo também muito recorrente.

2 comentários em “Senhora Liberdade

  1. Nossa, há muitos anos não apareço por aqui e sempre me surpreendo com o seu “espelho”.
    Tem um reflexo “encantador”, vivo.
    E estou nos meus quase 63….

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