O tempo que gostamos de perder não é tempo perdido*.

* Bertrand Russell

Passei bons momentos de minha adolescência na casa de uma amiga em Bento Ribeiro. Lúcia morava numa residência de um só andar com sala, três quartos, um banheiro enorme, uma cozinha onde cabia mesa de seis lugares e ainda sobrava espaço para a gente andar de patins. Havia também uma enorme varanda onde passávamos horas nos balançando numa rede e ignorando por completo a utilidade dos relógios. No quintal, onde havia bananeiras, mangueiras, jabuticabeiras e outras árvores sem sufixo além de muito mato, funcionava uma oficina que era destinada à fabricação de pranchas de surf. Essa era a ocupação do irmão da Lú que, embora, muito mais velho do que ela, recusava-se e amadurecer como os frutos das árvores do seu quintal.

Os anos, como muitos sabem e poucos compreendem, passam. A separação entre os amigos de infância e adolescência, assim como os membros de uma própria família, às vezes, é inevitável. Lú casou-se com Márcio que é piloto da aeronáutica, tem dois filhos e cada ano mora num estado do Brasil. Eu, por outro lado, também me casei, fui multiplicada por três e ando bastante ocupada comigo mesma. A prática da amizade tornou-se complicada assim como a minha frequência na academia, com o diferencial de que esta faz bem para o corpo e aquela, para a mente. Ou ao contrário. Não importa. Ambas, porém, tanto a amizade como a academia, existem independente da quantidade de suor derramado.

A casa da Lú fica no caminho que faço quando levo Nara à escola. E, da mesma forma que nos emocionamos ao sentir um cheiro que nos traz à memória um momento bem vivido ou um período mal desperdiçado, não era raro passar por ali com a velocidade do carro diminuída para que o passado tivesse tempo de tornar-se presente e rir com as histórias que ainda ecoavam nas paredes da casa de Seu Cassiano e Dona Teresinha.

A placa de “vende-se” pegou-me de surpresa. A possível imagem da casa reformada trouxe-me a mesma sensação quando ouço uma música antiga remixada. Eu fico me perguntando porque fazem esse tipo de coisa. Quando vi aquela folha de metal pendurada no portão, pensei em ligar para Seu Cassiano e falar para ele o que gostaria de falar para quem mudou a cadência de uma bela canção. Deixe as minhas lembranças em paz. Não mexa na harmonia entre o que passou e o que insiste em não passar. Por favor.

E como a vida, como muitos já se deram conta, não é fácil já que a maioria das orações não surtem efeito, o que já era opressivo e importuno tornou-se insuportável. Ao passar em frente à casa que tanto me abraçou um dia, deparei-me com a imagem de um trator que agia e avançava e destruía e derrubava e reduzia literalmente tudo tudo tudo a pó.

A melodia não foi alterada como eu imaturamente temia.

A melodia foi aniquilada.
Dias depois, já víamos no terreno vazio sem as árvores, sem a oficina e sem a casa, o preparo para que outras recordações fossem plantadas, polidas e edificadas. Várias casas geminadas estavam sendo construídas formando mais uma vila no subúrbio carioca.

Reencontrei Lú numa festa e, embora não ficamos tanto tempo conversando quanto gostaríamos, percebi que aquele estado melancólico causado pelo desejo de me esticar num tecido de malha suspenso pela força das paredes da casa de Bento Ribeiro não estava diretamente ligado à existência de nada material. Estranho. No entanto, a música, diferente do que eu esperava, foi tocada tal como ouvíamos “nos tempos idos de outrora”. Ficou de repente muito claro que a alegria de um momento trazida pelas mãos da nostalgia não precisa significar somente a saudade de um passado vivido com liberdade. Descomedir-se não é mais possível, mas a dualidade não necessariamente nos dilacera.

 

                                               Para Lú, Dona Teresinha e Seu Cassiano com muito carinho.




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18 Comentários

Arquivado em Crônicas, reflexões

18 Respostas para “O tempo que gostamos de perder não é tempo perdido*.

  1. ok, estou lendo seu blog todo, absolutamente vidrada. Dá até vontade de escrever mais no meu…Tia Élika escreve que é uma beleza!Mas chega de comentario… vou voltar a ler… falarei algo importante depois… rsrsBeijos!

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  2. Então… acabei. Mas estou, com o perdão do clichê, sem palavras. Me sentido invasora e abusiva. Íntima, mesmo sem ser. Me sentindo uma amiga próxima, que conhece a família próxima, a família distante, as gracinhas do filho mais novo, as peripércias do mais velho, as inquietudes da do meio…Não consigo me expressar quanto a isso. Tive vontade de pedir perdão, por invadir assim a sua vida… suas verdades, suas análises, seus sonhos…Na verdade estou agora em profunda reflexão em relação a isso tudo. Mas posso dizer que gostei. E que fiquei com vontade de comer rocambole…Enfim, senti saudades de uma Élika que não conheci, enquanto aluna, mas que me encantou como pessoa.Desculpe. E obrigada.

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  3. o mar o azul o sábadoliguei pro céumas dava sempre ocupado.Leminski.Hoje, sábado, acordei com este hai kai na cabeça. Talvez porque soubesse que havia escrito. Talvez porque compartilho dos mesmos sentimentos em relação ao passado.Mas não sabia que você havia encontrato uma folguinha na linha e havia conseguido ligar.É preciso sabedoria, sensibilidade e destreza.Parabéns e beijos.Ps. Aguardamos a aceleração das partículas, o retorno.

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  4. Amanda,É para invadir mesmo! " Minha vida é um Blog Aberto".Sinta-se em casa, volte sempre que a tia ELika agradece e mata as saudades!;-)Grande beijo, gata!

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  5. Não há folgas na minha vida, Djabal! Há negligências. Sempre.:-)Beijos e me aguarde! Em breve, aceleradíssima!!!!

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  6. Por isso prefiro deixar alguns sentimentos bons nos cantos reservados para tal, da memória. Era exatamente isso que eu falava quando escrevi que o menino não conseguia voltar mais à Rua; apesar de saber que seria muito bom poder rever aquelas imagens ao vivo, existia o medo e a quase certeza de que ao vivo elas não estariam mais lá.Excelente texto,Te amo.

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  8. Amiga, amiga, amiga, eternamente amiga… que bom que as lembranças não se apagam das nossas memórias… e ainda hoje nos fazem rir ou até mesmo chorar… de emoção, de saudade, de tristeza, de graça, de felicidade, enfim por qualquer motivo que tenha valido à pena… Que bom ter feito e ainda fazer parte da sua vida, e que bom você ter feito e ainda hoje fazer parte da minha. Esse sentimento me conforta e ampara me fazendo saber que você está ali ao meu alcance por um simples toque de teclado da internet e que minhas andanças não nos afastaram por completo. Você faz parte permanente da história da minha vida amiga. Que honra estar aqui com uma passagem em seu blog! Obrigada por existir! Te adoro!

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  9. Lú, tudo que psso dizer é que gostaria de "perder" mais tempo com vc!Que bom que vc gostou do texto!Beijaço!!!!!

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  10. Elika,Gostei muito do seu texto. Algumas passagens são muito inspiradas e dessa vez você mostra um tom mais melancólico do que o seu usual. Parabéns!Estou lendo "Retratos londrinos" de Charles Dickens. Se você ainda não leu, acho que você ia gostar.Beijos, Elise.

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  11. Elise,Vou providenciar o livro. Pode deixar.Sempre que tiver dicas pode mandar.Qto ao texto eu quis que ele ficasse pesado mesmo.Queria até que ficasse mais pesado, mas tudo bem.Obrigada pela força!Beijos

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  12. Excelente texto, custei um pouquinho para entendê-lo, mais com paciência e com um bom dicionário entendi a sua mensagem. Pouco a pouco conhecemos a grandeza das pessoas como você!Abreijos do seu querido Aluno Luan!

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  13. Oi, Luan!Que bom que entendeu a mensagem e tenha gostado do texto.Abreijos pra vc tb!

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  14. Elika, sempre que estou dirigindo pela web, passo por aqui, para dar uma olhada nas delicias que você colocou na janela pra gente provar. Às vezes tenho uma sensação (parecida com a da Amanda aí em cima) de estar recebendo alguma coisa que não merecia (pelo menos, não tanto). Creio que é assim com todos os Escritores com E maiúsculo, que nos presenteiam com seus tesouros preciosos e (não mais) secretos, desse jeito mesmo: de mão beijada. Só pra terminar esse (longo) comentário, mas sem querer dar uma de sabido, digo e repito que nunca que achei bom esse negócio de impossivel. Que achemos tempo pra descomedir sim! Se não for nas redes da varanda, que seja naquelas que você ajuda a gente a pendurar, na beirada do sonho.Obrigado.Andre Nakamura

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  15. André,Bom te ver por aqui novamente!Quanto ao "descomedir-se", como eu disse no texto, o fato dele ser impossível hoje não necessariamente é fato para lamentar-se. Impossível ter hoje uma liberdade que se associa à "falta de preocupação" como todos já tivemos na infância e na adolescência. Com três filhos…im-pos-sí-vel. Mas, ao contrário do que vc deva estar pensando, isso não é motivo de tristeza. Muito pelo contrário. Isso não necessariamente me dilacera.Entendido?Não há o que agradecer.Inté a próxima!

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  16. Reitero o mais do mesmo.Como excelente memorialista que és, urge colocar isso tudo em formato físico. Em suma, livro.Bj

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  17. Querida amiga ElikaSempre admirei aqueles que conseguem perpetuar pensamentos e inspirações, pois estes na maioria das vezes são tão fugazes e fugidios que não nos permitem relembrá-los em sua plenitude, vc assim como os compositores e os poetas possuem este dom fantástico de gravar o pensamento que aí passa do abstrato individual, para o concreto coletivo e se eterniza dividindo as emoções. Acredito como já citado acima que um chamado do seu interior está sendo feito para que vc amplie o seu universo de leitores.ParabénsBjksMazinho

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  18. Mazinho,Não me faça chorar olhando para essa tela!:_)Beijos e obrigada mais uma vez pela força!

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