Treinando em plena Quinta

correr

Não sou muito dada a pensar em fazer alguma coisa. Querer, para mim, não é poder. Querer é fazer. Nada nunca foi planejado na minha vida, nem um dos meus três filhos, nem o casamento, nem a faculdade, nem a minha carreira acadêmica, nem morar ao lado dos meus pais até hoje, nem ser uma funcionária pública e, indo ao foco do que me trouxe hoje aqui, muito menos participar de alguma corrida.

Há mais ou menos um mês atrás resolvi sair do sedentarismo. Acordei numa quarta-feira e me dei conta que era uma total inativa. Aquilo repentinamente me incomodou e, então, me inscrevi no Circuito das Estações Adidas/2013, “o maior circuito de corridas de rua do Brasil que é inspirado nas 4 estações do ano”. Maneraço. Eu teria um mês para me preparar, ou seja, correr cinco quilômetros sendo que há uns dez anos que não andava nem meio. Era a motivação que precisava. O primeiro grande passo rumo à grande e minha triunfal saída da inércia havia sido dado.

Se ainda faltava mais algum incentivo, esse foi dado pelos meus amigos e claro, pelo meu paizão. Ao anunciar aos sete ventos que começaria o treinamento na segunda-feira via feicebuque, ésse-ême-ésse, uázapi, imeial, telefone…tive imediatamente o apoio para dar cabo ao desafio. Os que me conhecem muito bem duvidaram de que eu seria capaz e, preocupados d´eu ter um treco ou pagar um mico danado, questionaram a minha inscrição no circuito de corrida de ruas. Ao meu pai não foi sequer dado o benefício da dúvida. Ele foi publicamente taxativo em um comentário na minha postagem na rede: esquece isso porque você não vai conseguir. Mas, pai, a minha irmã consegue! Sua irmã consegue. Você não. Adorei. Meu pai sempre foi a pessoa que me deu a maior força para eu seguir não meus sonhos porque não os tenho, mas os meus impulsos. E dessa vez não foi diferente. Um dos maiores prazeres da vida consiste em fazer aquilo que os outros dizem que você não é capaz. Belezura.

Senti-me estranhamente bem ao vestir a roupa de corrida e calçar o tênis. Tudo comprado de primeiríssima qualidade com as notas devidamente coladas no espelho caso alguma indisposição para treinar pintasse no pedaço. E foi dado a largada!

Estou na minha terceira semana de treinamento e hoje resolvi fazê-lo na Quinta da Boa Vista. Saí do carro com postura de athlete: de boné, rabo de cavalo, meus óculos de sol mega esportivo Adidas A135 Evil Eye Explorer, short Oxer Split Hidrogen 008, camiseta Fila Soft Light, e meu super tênis Nike Air Zoom Marathoner. Peguei o celular, coloquei-o no Arm Band Bracelete e liguei o aplicativo que marca velocidade, tempo, distância, número de passadas por minuto, batimento cardíaco, respiração, enzimas pancreáticas, traça gráficos, faz pudim e ainda mostra toda a nossa façanha para os amigos conectados! Lembrei do preço de toda aquela marra que estava colocando e comecei a passos largos (exatamente, oito passos por minuto) distanciar-me da preguiça.

Mal começo e vejo uma senhora “correndo”. Vinha se arrastando a coitada. Com a boca aberta. Será que ela acha que está correndo daquele jeito? Senti pena. Eu não. Inspiro o ar pelo nariz e solto o ar pela boca fazendo barulhinho de atleta. Contraio o abdome e mando ver! Se vejo alguém correndo na minha frente dou um jeito de ultrapassar. Brinco mentalmente que estamos apostando corrida. Vejam que divertido: peguei-me sem querer correndo com os braços erguidos assim que ultrapassei um gordinho. Lá pelas tantas, depois de muuuuuito tempo correndo, tipo uns dez minutos (talvez menos), ouço uma criança conversando com o pai ao me ultrapassar naquelas bicicletas que parece o carro dos Flintstones. Pai, ela está andando ou correndo? Ah é? Ah é? Disparei na velocidade da luz e como é sabido que o som anda mais devagar, não consegui ouvir sequer a resposta do pai que, acho eu, foi até desnecessária depois da minha grande performance. Se eu não chegar naquele poste a minha mãe vai morrer. Se eu não passar por aquela ponte não vou conseguir terminar o doutorado. Se eu não ultrapassar aquele cachorro antes daquele banco o Yuki vai ficar doente. Pessoas maduras e experientes sabem vencer. E com pensamentos assim vou me auto-motivando ao longo do treino. Sempre funciona.

Depois, é claro, os alongamentos. Atleta que é atleta sabe a importância de um bom alongamento depois de uma corrida mega puxada de 2 km em 30 minutos. No portão da Quinta vários esportistas, como eu, se esticando. Alonguei bem os tríceps surais – cof cof para os leigos, as batatas da perna- , os tibiais anteriores – a parte da frente da canela, ok? -, os quadúpedes – para os metidos e inteligentes, os quadríceps – e resolvi também alongar a parte interna da coxa. Esse talvez tenha sido o grande erro do dia.

Com os pés em paralelo, fui lentamente afastando um do outro. Distanciei-os o máximo que consegui ficando completamente arreganhada com uns três palmos entre mim e o chão. Digo, três palmos de distância. Contei umas dez respirações olhando séria o horizonte. Hora de fechar as pernas. Quem disse que conseguia? Olhei para trás e o muro não estava ao meu alcance. As pernas simplesmente não tinham mais forças para obedecer qualquer comando. Pedir ajuda naquelas condições seria humilhante. Resolvi jogar o corpo para a frente contando com os braços para amortecer o impacto.

Tum! Os braços falharam e beijei o asfalto. Alguns atletas olharam. Sabiamente coloquei as mãos embaixo do queixo e permaneci olhando o horizonte séria, tal como o fazem os praticantes de sei lá, acho que Yoga. Lá no Japão a gente faz é yoga7assim depois de longas corridas, sabia não? Falei em pensamento para aqueles que continuaram me olhando como se não tivessem mais músculos para alongar. Um se aproximava para me ajudar. Não! Que vergonha! Não poderia deixar aquilo acontecer!  Daí, eu comecei a puxar os pés por detrás das costas e continuei praticando, com o corpo colado no asfalto, uma Yoga jamais praticada por qualquer ser nesse planeta.  Sempre séria para não dar bandeira. Funcionou. O homem sem noção da titica que ia fazer parou e continuou me olhando. Tentei lembrar do que havia lido há séculos atrás sobre os ensinamentos dos Sábios do Himalaia. Sei que essa ciência tem algo de adorar o Deus Sol e daí a sequência de flexões e extensões que o pessoal da Yoga faz. Com isso em mente ergui os braços pro céu pedindo a Deus que a minha camiseta lindéééésima Fila Soft Light rosa claro não ficasse preta. Fiquei umyoga2 tempo assim. Mantendo a cabeça voltada para as nuvens, olhei para baixo de rabo de olho disfarçadamente para ver se podia sair correndo pro carro. Qual o quê! Mais gente me olhava. Fala sério! Desci os braços fazendo um movimento bem suave e sem saber o que era chakra, pingala, nataraja, asana fiz a “postura da cobra” que consiste em ainda deitada ficar com as palmas da mão no chão, braços esticados fazendo a coluna manter uma curva hiper desconfortável e dolorida.

Com o foco aparentemente longe, perguntava-me se ninguém tinha mais nada o que fazer por ali do que ficar olhando uma louca ralando o barrigão no asfalto. Como me levantar dali mantendo a dignidade? Lembrei de Karatê Kid e sem saber direito o que fazer mas com movimentos bem suaves, que ainda de darem tempo para eu pensar em algo pareciam coisa de tai-chi-chuan, de repente me vi de joelhos. Agradeci à Meca colando a testa no chão. Repeti esse movimento lentamente três vezes tentando ver o estado da minha camiseta quando o corpo se curvava. Quando a coluna estava reta e o corpo ereto me dava conta que era cada vez mais observada. E agora? Fiz vagarosamente o unagui: um movimento com os dedos indicador e médio que qualquer fã do seriado Friends sabe ao qual me refiro. Levantei-me. Fiz quatro vezes o gingado de capoeira bem desapressadamente, essa não me pergunte o porquê, e sem olhar para trás me dirigi ao carro.

É isso. Apesar de todos esses gestos índio-baiano-orientais estou feliz e confiante que meu pai vai tirar uma foto minha cruzando a linha de chegada. O mais difícil é começar. E ainda que faça os cinco quilômetros em três horas quando for a vera, para mim, cada treino já é  uma grande vitória: venço a mim mesma. Porque metade de mim é a lembrança do que fui, a outra metade, sinceramente, eu não sei.

2 Comentários

Arquivado em corrida, Crônicas, Humor

2 Respostas para “Treinando em plena Quinta

  1. Claudia

    Gostaria muito de ser assim como vc, muito perspicaz e esperta nos movimentos, para q ninguém percebesse a merd@ q fiz, kkkkkkkkkkk
    Parabéns pelo texto e obrigada por me descontrair num feriado cheio de trabalho pra fazer! Bjs

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