Palomar ao cair

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Há um ano resolvi correr e desde então tenho alcançado a meta de ver cinco quilômetros sendo deixados para trás em menos de quarenta minutos. Pelo menos, duas vezes por semana essa história se repete. Há três, faço pilates segundas, quartas e sextas e, a despeito de ser uma aluna assídua e dedicada, hoje na corrida, meus músculos, de uma forma que ainda não consegui entender, falharam.

Em todos os treinos matinais, a parte mais difícil sempre é começar. Não importa o dia, não importa o tempo, meu corpo jamais acorda disposto a se exercitar. Se ele se levanta é porque a mente lhe impõe isso e, tal como um títere, ele se veste, arrasta-se até que esteja diante a linha de partida imaginária no Parque. Somente após a largada, a mente descansa e se liberta dos cordéis e engonços sem os quais não conseguiria levar até lá a minha carne envolta por gorduras localizadas. Depois do primeiro passo, quem passa a mandar, no que em mim é matéria, são as próprias pernas. Assim tem acontecido desde o primeiro dia em que comecei.

Hoje, porém, diria que, em algum momento no início da corrida, ninguém mais estava no comando de minha carcaça. A alma vagando sabe deus por onde, crente que a matéria obedeceria, como lhe é habitual, sua inércia em movimento retilíneo e quase uniforme. Qual o quê! Até essa tendência natural a qualquer corpo que tenha um mínimo de massa resolveu sair do volume ao qual pertencia. Tal como os jogadores de vôlei que atiram-se no ar, como se estivessem mergulhando, para interceptar uma bola, e termina o movimento sob o próprio abdômen, eu caí ralando o joelho e o barrigão no asfalto. De repente, não mais que de repente, do vento fez-se a calma e do momento imóvel a metáfora.

Um tombo.

Um tombaço.

Se em Deus acreditasse, poderia entender aquilo não como um sinal que deveria ter ficado em casa curtindo mais a minha caminha em plena manhã de inverno lendo um livrinho qualquer, mas sim como uma prova. Como um desafio. Um ensinamento, diria. Sem que ninguém me ajudasse a levantar, eu teria que me erguer sozinha, tal como nas grandes decepções. Ele estava me preparando para os próximos desapontamentos e desencantos. Não desanimes com essa queda, Elika. Ela apenas te mostra que o chão não é o seu lugar! Levanta- te e corre! É. Talvez Deus tenha feito as quedas d’água para aprendermos quanta força de trabalho podemos extrair de nossos próprios tombos…

Estatelada no chão, após verificar o que o asfalto havia feito com as palmas de minhas mãos e com o meu joelho esquerdo que sangrava e após parar o tempo no aplicativo do celular cujo vidro estava completamente quebrado, eu vi a minha honra lá ao fundo do horizonte voando voando voando até desaparecer por completo. Se Deus existe, não poderia Ele ter me equilibrado ou ter Se metido na minha frente como um Air Bag e amenizado pelo menos o estrago no celular (que viria a saber, depois, que custaria a bagatela de 700 reais)? Será que foi Ele que me empurrou para que eu aprendesse algo com todos  esses clichês?

Aceito as metáforas, mas não posso admitir que as trivialidades movimentem a minha vida.

Então, caso Deus não exista, como tendo a acreditar, por que levantar e sair correndo? Se tudo o que o meu invólucro queria era parar, por que diabos não obedecer a ele? Lembrei-me de outros tropeços, de outros machucados e percebi que cair não é algo raro em minha vida. Vivo me levantando e caindo de novo e me levantando e caindo como agora cá estou, pensava. Não sei qual é a razão disso e se, de fato, há algum sentido, mas sei que essa é e sempre foi  a minha forma desalinhada de caminhar.

No lugar de Deus ou da logicidade dos acontecimentos, o Apesar De. Apesar De doer, devo escrever. Apesar De não sentir fome, devo compreender. Apesar De não querer, devo consentir. Apesar De sorrir, devo morrer. Apesar De amar tanto, caio. E quem disse que tenho que me manter forte mesmo quando transpiro fraquezas? Por que não aproveitar que a queda foi debaixo de uma árvore, tal como um fruto maduro sempre que cai naturalmente, e deitar-me na sombra? E se Deus existe e não me ilumina, mas sim me protege da luz? Desde quando desistir é vergonhoso? Quem impôs a ditadura da conquista a qualquer custo? E se abandonar for uma arte? Se é frequente essa situação em que me encontro, pensando se devo escolher entre prosseguir ou desertar, por que não sou capaz de repudiar honrosamente? Por que temos que prosseguir teimosamente esperando louros de tanta queda? São os fins que importam e não os e-mails?

Enquanto palomava (do verbo Palomar no mais que perfeito Ítalo Calvino), o sangue fluía e, uma pequena quantidade dele, escorria pela perna esquerda. Mais do que força divina, eu precisava encontrar a minha própria. Sempre, desde sempre, o maior obstáculo para eu seguir em frente e acelerar sou eu mesma. Um único problema: estava difícil levantar com charme e com movimentos suaves com a alma tão austera. Ainda assim, dispensando os amarrilhos e os barbantes, pus meu corpo, mais uma vez, ereto.

Destravei o tempo. Bati, mais uma vez, o meu recorde.

Não foi preciso acreditar em alguém ou em alguma coisa – bastou apesar. Nunca perdi a fé no apesar pelo estado de graça que ele sempre me conferiu depois.  É uma benção estranha, como ter a cura ainda estando febril. Delirar sem ser demente. Rezar sendo descrente. Sou assim mesmo, quase terna de tão estúpida. Nada posso fazer com tanta determinação obstinadamente serena: parece que há em mim um lado idiota, imbecil que não quer jamais entender e, de modo algum, parar.

Parar de escrever.

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Arquivado em corrida, Crônicas

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