Que venham os tombos

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Não estava dando conta desse turbilhão de sentimentos que me persegue e me assusta. Acreditava que ao menos a mim mesma conhecia. Ledo engano.

Se colocados em situações distintas, ficaremos surpresos com o que conseguimos ou não fazer. É impressionante a nossa ignorância sobre o universo formado pelo nosso corpo.

Quem acredita que entende bem sobre si é aquele que vive todos os dias iguais. Aí não há mesmo como se testar e há muito para se iludir. Seja em um assalto, seja ao ter que lidar com a morte de um ente querido, com uma separação, ao conhecer um ídolo, diante de um novo amor não há como não ficarmos surpresos com a nossa força ou as nossas fraquezas.

Padeci essa semana. O corpo não deu conta de tanta adrenalina. Tive que lidar com o nascimento de um novo filho (Tenso, logo escrito), com a chegada da mesa redonda que dividi com dois gigantes da educação (Rafael Parente e Thiago Berto), fora a coordenação de física do cefet, meus estudos de novas metodologias para aplicar em minhas aulas e a responsabilidade com meus três filhos. Como se tudo isso não fosse o bastante, eu estava assustada com o que me vi prestes a fazer diante de uma grande saudade. Não estava sabendo frear os meus impulsos.

Foi muito para mim. O corpo reclamou.

A despeito de três horas de pilates que fiz essa semana mais dez quilômetros devidamente corridos, da minha excelente alimentação e as inúmeras tentativas de meditação, arrumei um torcicolo que assusta os que mexem no meu pescoço. Lateja. Virou pedra meu músculo. Não há massagem, analgésico, reza que dê conta.

Preciso parar de pensar, pensei.

Preciso parar de escrever, escrevi.

Preciso parar de inventar, criei.

Preciso parar de amar, chorei.

Dá a impressão que há, de fato, Alguém lá em cima fazendo algo mesmo sem eu pedir.

No meio da semana, recebi um convite para aprender a andar de skate. Era nada menos do que um puta profissional do ramo me estendendo a mão sem saber que eu, naquele momento, estava precisando de um guindaste para me tirar do poço.

Hoje foi minha primeira aula. Chegamos lá eu e meu pescoço com essa textura de chumbo. Em poucos minutos, Alex, o teacher, ficou sabendo de todos os meus problemas já que eu sou dessas de contar tudo que me aflige para quem quiser ouvir. Após escutar detalhes sobre minha vida com atenção e tentar me relaxar com uma massagem na qual detectou que eu era um caso grave e só um especialista na causa, começamos a aula.

Primeiro, precisava trabalhar o meu equilíbrio. Fiquei apoiada em um pé com o corpo inclinado durante muito tempo. Era só uma questão de concentração. Nada mais do que isso. Mole.

Depois de muito exercício no chão, fomos para a plataforma móvel. Sentei-me para colocar todo o equipamento de segurança.  Alex colocou o capacete para proteger minha cabeça, cotoveleira para não machucar meus cotovelos e joelheiras para poupar meus joelhos.

– Pronto. Disse ele.

– E no meu coração? Nada? E se eu me estabacar toda? O que vai me proteger? Preciso de algo, por favor. Tem nada aí para ele não? perguntei desesperada.

Alex apenas estendeu, agora literalmente, sua mão para eu me levantar.

Antes de qualquer coisa, aprendi a cair. Joguei-me no chão de propósito de formas diferentes.

– Sobe agora no skate. Lembra de tudo o que acabou de aprender. Coloque o peso no pé direito. O pé esquerdo tem que encostar todo no chão. Quando um subir, o outro vira sem que você o desencoste. Os dois pés têm que fazer 90 graus com o skate. Solte os ombros. Eles precisam se movimentar para te ajudar. Relaxe o corpo. Flexione os joelhos. A força tem que estar no seu dedão. Se for cair, aquilo que você aprendeu. Jogue o corpo para a frente. Proteja o cóccix. Levante o braço esquerdo inicialmente para te ajudar no equilíbrio. Vai. Comece assim…

Precisei me concentrar muito para não me esquecer de nada.

Incrivelmente, saí de lá depois que cansei de tanto brincar. Surpreendi positivamente o professor que não parou de me elogiar e dizer que, em breve, farei passinhos de dança no longboard.

Nunca na vida pensei que fosse me equilibrar com tanta facilidade em um skate. Sempre achei que essa brincadeira era algo que ou se aprende quando criança ou quando criança. Depois que crescemos e acumulamos traumas e medos, certas aventuras nos são vetadas. Assim acreditava.

Meu centro de massa não saiu da base em nenhum momento. Todos os comandos que eu mandava da minha cabeça, meu corpo respondia. Concentração máxima. Preciso desviar do buraco, pés, me ajudem. Olhe para a frente. Volte. Jogue o corpo para trás para fazer a curva. Isso.

Estava muito insegura, é claro, mas conseguia manter o equilíbrio ainda que bem instável. E mesmo sabendo que quanto maior a velocidade, pior seria o tombo, não resisti. Mal consegui ficar em pé no skate, só queria saber de dar mais impulsos e assim o fiz. Se caísse e quebrasse um osso, estava valendo a pena dado o prazer que estava sentindo.

Não adianta. A dor está iminente no deleite. Não há grandes felicidades sem perigos na mesma proporção. O maior risco, concluí depois da aula de hoje, não é aquele que não posso correr e sim o que não posso deixar de correr.

Cá estou depois desse aprendizado. Animada com o medo de me machucar.

Feliz por ser tão desequilibrada.

5 Comentários

Arquivado em Crônicas

5 Respostas para “Que venham os tombos

  1. Ganhei um skate do meu pai, aos 13 anos, depois de muito encher o saco dele, para comprar. Depois de uns 3 ou 4 anos, aposentei. Nunca mais na vida, subi em cima de um. Hoje, aos 53, depois de ler sua crônica – sensacional, como sempre -, deu até vontade de reaprender e cair pra dentro dos tombos, rs. Que vc tenha bons e produtivos tombos e um ótimo equilíbrio, Elika!

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  2. Lenilde

    Elika, continue assim: desequilibrada, sem medo dos tombos e ótima escritora!
    Um Grande Abraço.

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  3. Ingrid Mabial

    Olá professora, desta vez não é uma seguidora ou uma fã escrevendo pra você, sou apenas uma aluna que se inspira bastante. Achei incrível sua história com o skate pois lembrei de uma situação parecida com meu pai que, aos 46 anos, anda de skate até melhor do que eu. Ele sempre me disse que quando criança seus pais não deixavam se aventurar em absolutamente nada, não aprendeu a pedalar nem a conduzir um skate. Então eu, aos 13 anos, pedi de aniversário um longboard pois havia aprendido a andar( bemm mais ou menos), no play do meu prédio, mas ele me negou, disse que não me daria pois quebraria um braço ou algo do tipo. E depois de chorar e fazer um escândalo, ele disse que me daria porém teria de usar todos os equipamentos possíveis. Compramos e fomos a lagoa pra eu mostrar pra ele o quanto q eu já havia aprendido. Ele ficou até impressiodado na minha facilidade em cima do skate, fazia manobras, andava agaxada e tudo, foi quando eu caí em o cóxi direto no chão, e com dor fiquei lá esparramada né,e ele veio comigo já esperando um “eu te avisei e blablabla” mas não! Ele me ajudou a levantar e me mandou ficar sentada no gelo enquanto meus irmão continuavam brincando. O que eu não esperava é que ele fosse pegar meu skate e saísse andando com ele pela pista KKKKKK psé meu pai de 46 anos estava andando de skate, como ele sabia? Não sei! Só sei que até hoje andamos juntos de skate pela lagoa e nem uso mais os equipamentos de robô pra andar!
    Essa foi minha história, espero que goste! Saiba também que você em menos de 6 meses me fez fazer coisas que eu nunca imaginei fazer , já li 3 livros (um deles em inglês), eu odeio ler e já te disse isso. Mas você me motivou, pesquisas e pesquisas envolvendo física afim de estudar e conhecer. Mudei com foco em ti, sem você mesma imaginar né, psé. Sim Elika, você acabou de descobrir uma nova admiradora!

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  4. antonio

    quanta entrega. mas, sobre a ilustração: a skatista (‘você’) está descalça por quê?

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  5. Gilberto Barros Vieira

    Parafraseando o poeta. Levanta saco de a poeira de a volta por cima!

    Curtido por 1 pessoa

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