Homem

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Na tela, vemos um Homem feliz na cozinha assobiando. No plano, ele está de costas e há muitas panelas e pratos sujos em cima da pia e da mesa.

Ouvimos a voz do Homem como se estivéssemos dentro de sua cabeça.

A câmera agora foca no rosto.

Homem:

Estou aqui lavando a louça enquanto ela dorme e pensando que isso é o certo a se fazer. Afinal, ela foi ao supermercado, ao banco, fez a comida, depois ainda foi ao salão fazer as unhas. Não entendo essa necessidade de fazer as unhas, acho ela linda de qualquer jeito. E ela fica muito tempo no salão. Mas quem sou eu para julgar e dizer o que ela deve ou não fazer, não é mesmo? Cabe a mim ajudar.

Homem com fisionomia brava:

Não. “Ajudar” não porque esse trabalho de casa é coisa de homem também fazer. Obrigação nossa. Não dela!

Homem balançando a cabeça dizendo “não”. As mãos estão sem movimento dentro da pia. A água cai forte da torneira aberta:

Digo, dela somente. É de nós dois.

Homem balança a cabeça positivamente e volta a esfregar a louça.

Acho legal as mulheres estarem se posicionando. É bonito de ver esse ‘empoderamento’, como elas falam. Antigamente nós, homens, éramos uns abusados.

Homem faz cara de mal.

Depois homem faz pose de mal segurando uma faca suja.

Homem faz cara de orgulhoso:

Se tivesse nascido em outra época, não estaria aqui ariando essa frigideira. Poderia estar em cima de um cavalo lutando pela libertação de uma nação depois de ter matado e comido um javali.

Homem mostra os dentes como se fosse um leão.

Se Abrahan Lincoln tivesse que trocar fralda de madrugada como eu fiz, colocar roupa na máquina e tivesse que dar alguma atenção a essa maldita mancha na frigideira, é possível que a escravidão continuasse até o século 20 tanto lá nos Estados Unidos quanto aqui – e a situação dos negros certamente seria pior!

Homem se lembrado de como Lincoln entrou para história… imagens passam pela sua cabeça.

Homem alucina:

Eu posso melhorar também a vida dos oprimidos do Brasil e diminuir as injustiças! Basta Maria Lucia me falar menos sobre Simone de Beauvoir.

Homem volta a lavar louça sério. Homem pega a porcelana com brutalidade.

Homem para de novo de movimentar as mãos e faz cara de quem está resolvendo um problema da mecânica dos fluidos com o uso do cálculo diferencial e integral.

Duvido que Freud pensou em tudo que pensou estendendo roupa na corda. Duvido. Não se tira aquela ideia toda mirabolante do Complexo de Édipo de filho querendo comer a mãe enquanto cheiramos amaciante antes de colocar no último enxague. Freud tinha liberdade e tempo para cheirar outras coisas.

Homem estufa o peito:

Se eu vivesse sem as obrigações impostas pela revolução feminista, ia conseguir explicar, por exemplo, porque todo mundo só fala sem sexo hoje.

É mamadeira de pinto para cá, é boneca inflável para lá… Eu podendo explicar o Brasil , me tornar um Julio Cesar em pleno século 21 e estou aqui ajudando nas tarefas domésticas!

Homem para. Reflete e faz cara de impaciente enquanto pega uma panela suja.

Homem faz cara de criança birrenta olhando para cima com a boca mole.

Ajudando não. Cumprindo minhas obrigações!

Homem volta a lavar a louça bufando impaciente.

Passam alguns segundos.

Homem faz cara de Arquimedes quando saiu da banheira e para de lavar a louça.

O próprio Jesus, por exemplo, se fosse macho desconstruído como eu sou e ciente de seus privilégios com aqueles olhos azuis, ia ser famoso? Ia ter tempo para dar atenção para tanto apóstolo? ah gente duvido…

Homem suspira.

Homem ouve um barulho e se assusta. Volta a lavar a louça correndo. O barulho sumiu.

Homem fecha a torneira e vai ver o que está acontecendo.

Era o gato.

Abre a torneira devagar e já se perde de novo. Faz cara de quem está jogando xadrez.

Não dá para ficar inventando história para o filho abrir a boca e comer a comidinha e pensar na humanidade!

Homem fica puto.

O cara para pensar que a espécie humana evoluiu, como todas as outras, por meio de um processo que não tem direção definida, com todos os animais partilhando um ancestral comum, que a espécie humana não foi feita à imagem e semelhança de Deus, mas surgiu de um macaco na savana africana ah me desculpe, Darwin para pensar nisso tudo não sabia a hora que o filho tinha que tomar antibiótico!

Homem passa pano em tudo.

Maria Lucia acorda.

A louça está limpa.

Ela o convida para irem ao cinema. Mostra os filmes que estão em cartaz. 

Homem olha. Homem sugere. Ela concorda alegre e animada.

Homem esquece.

Na tela, vemos um homem feliz na cozinha.

 

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