O estranho fenômeno do gado que aplaude quem lhe tira o pasto.

ditadura
Obra feita pelo artista Sergio Ricciuto Conte

Há quem comemore o dia de hoje sob a justificativa de que o golpe de 64 livrou o Brasil do comunismo. Se João Goulart se mantivesse no poder, ninguém aqui pode afirmar o que teria acontecido no Brasil dada a complexidade da história e da natureza humana. Contudo, a hipótese da “ameaça vermelha” é burlesca. A incipiente e isolada luta armada que tivemos aconteceu depois do golpe civil-militar e em reação a ele.

Porém, há alguns elementos e documentos históricos que garantem algumas certezas. E sobre elas pretendo discorrer aqui.

Para começar, a versão da história de que vinte anos de torturas, assassinatos e censura foram necessárias para o bem do país não se sustenta quando entendemos que um país é composto pelo seu povo. A desigualdade social aumentou de forma exorbitante. Mataram e calaram para o bem de uma elite.

Outro erro frequente é dizer que só morreu ou foi torturado na época da ditadura quem era subversivo. Fala-se de um jeito como se fosse altamente justificável matar uma pessoa pelo simples fato de ela pensar de uma forma diferente. No entanto, nem isso é verdade. Tivemos mais de mil índios mortos. Na construção da  hidrelétrica de Tucuruí fizeram um massacre.  Índio de esquerda? Índio comunista? Ou índio querendo viver em paz em uma terra que estava sendo almejada por grandes empreiteiros e empresários?

Temos hoje mais de 12 milhões de desempregados. Vemos a violência urbana aumentando. As escolas seguem sem estrutura básica com professores cada vez mais depressivos e alunos desestimulados. Ainda assim, acompanhamos desde antes da posse do eleito, uma absurda atenção e prioridade para se comemorar e rememorar um período em que vimos um aumento sem precedentes na pobreza deste país e a nossa Constituição ser desprezada pelos militares.

Faltam medidas concretas para as demandas de nosso país. Daí, a aposta vai para essa batalha ideológica. Estamos vendo um movimento de negar o golpe de 64. Este esforço faz parte de uma estratégia consciente de substituir o debate político clássico sobre nossos problemas urgentes como o aumento da pobreza, por exemplo, por uma pauta moral.

Isso não é sem motivo. Há um interesse gigantesco por trás dessas atitudes e pelo desprezo e o escamoteio do verdadeiro modus operandi da Ditadura.

A tortura foi considerada como um “método científico” a ponto de ter sido incluído, pasmem, no currículo de formação dos militares. O ensino sobre esse método nunca foi meramente teórico. As cobaias, inicialmente, eram mendigos pegos nas ruas. Depois, alunos e alunas, professores e professoras e cidadãos que – simplesmente – possuíam uma ideologia de vida diferente de quem estava no poder. Nos documentos, temos mais de cem tipos diferentes de tortura que vai desde a psicológica até a agressão física e utilização de vários tipos de instrumentos.

O pau de arara era apenas um deles que consistia numa barra de ferro atravessada entre os punhos e a dobra dos joelhos. O corpo ficava assim pendurado. Por si só, isso já é um tanto humilhante, dolorido e agressivo. Ainda assim, com a pessoa nessas condições, eram aplicados eletrochoques nas partes íntimas, nos ouvidos, dentes e dedos, eram dados socos e usada a prática do afogamento (que consistia em introduzir um tubo na boca do torturado e jogar bastante água. Temos também variações do “método”. O tubo era inserido também nas narinas e quando a pessoa recebia o choque elétrico era obrigada a respirar causando assim o afogamento).

Havia “cadeiras especiais” como a famosa “cadeira do dragão” feita especialmente para um tipo de tortura em que a pessoa era torcida ao mesmo tempo em que recebia intensos choques elétricos e, também, “geladeiras” onde a pessoa ficava horas no escuro em uma temperatura extremamente baixa.

Insetos e animais foram usados nesse “método” para fazer com que o torturado entregasse outros companheiros e companheiras. Ratos, cobras e baratas vivas eram enfiados no ânus e na vagina por muitos oficiais. Queimaduras com cigarro, surra com cassetete a ponto de deixar o local em carne viva, amarrar o pênis para impedir que a pessoa que já estava pendurada não urinasse, pendurar os homens pelo testículo, colocar os testículos espaldados na cadeira com o oficial em sua frente segurando uma palmatória, deixar a pessoa esticada e desferir socos seguidos no estômago, encher a boca da pessoa de gasolina ou amarrar em um cano de descarga, tudo isso são apenas alguns exemplos desse “método”.

Não. Não havia limites. Crianças e mulheres grávidas também passaram por isso. Colocar crianças para assistirem os pais e as mães sendo torturados e estuprados e obrigar pais e mães assistirem seus filhos passarem por uma situação extrema de dor provocada pelos militares era algo recorrente. Mulheres foram estupradas, passaram por diversos tipos de humilhações e muitas abortaram devido ao tratamento que receberam. O relato delas é roteiro para filme de terror.

Antes de 64, houve um rápido aumento das lutas populares por reformas estruturais. Estudantes, artistas, professores e diversas pessoas da classe trabalhadora lutavam por uma reforma educacional, pela Reforma Agrária e pelo impedimento de remessa de lucros para bancos estrangeiros.  Ainda assim, não houve condições de competir com as forças armadas e impedir o golpe de 64.

Muito semelhante ao que estamos vendo, ao mesmo tempo em que se falava em nacionalismo, abriam-se as portas para o capital estrangeiro causando a implantação de multinacionais, facilitando a remessa de lucros para fora e um endividamento externo.  Para se ter uma ideia, a dívida externa saltou de 3,4 para 100 bilhões entre 1964 e 1985.

Houve um achatamento de salários nunca visto em nossa história. De fato, vimos com isso alguns índices da economia indicando um “milagre brasileiro”. Obras faraônicas, “estranhas catedrais” sendo erguias enquanto “seus filhos levavam pedras feito penitentes”. O povo seguia piorando as condições de vida. A inflação explodiu na segunda metade da Ditadura chegando a mais de 200% ao ano. As favelas, a fome e a marginalidade seguiam crescendo em números expressivos e a olhos vistos.

No governo Jango, havia um compromisso com a Educação. A legislação previa a destinação de 12% do PIB para escolas. Os militares acabaram com isso, as escolas públicas foram abandonadas e aulas de filosofia e sociologia que permitem debater a sociedade foram retiradas do currículo já que um povo que tenha noção de que sua pobreza seja um projeto é um perigo para esse tipo de governo. Qualquer semelhança com os dias de hoje não é mera coincidência.

Para que tudo isso acontecesse, foi necessário mudar toda a estrutura jurídica para reforçar a aparato de controle e repressão. Daí, os Atos Institucionais.

O fato de hoje nenhuma ação desse governo ter qualquer ligação com a valorização e criação de empregos, de testemunharmos o fim de políticas sociais que contribuíram para a retirada do Brasil do mapa da fome, de acompanharmos os ataques às escolas direcionados a liberdade de cátedra dos professores – principalmente de história, filosofia e sociologia acusando-os de uma suposta “doutrinação marxista” por exporem  e debaterem os métodos da ditadura -, o fato de todo dia vermos o desmonte da cultura e de o eleito se mostrar submisso às políticas neoliberais dos Estados Unidos e uma exaltação ao período em que só era legitimado e permitido o discurso de quem se alinhava aos que estavam no poder – a ponto de hoje termos que insistir que não há nada para ser comemorado -, o fato de Lula estar preso enquanto outros comprovadamente criminosos estão no poder é um sinal de que o perigo iminente não é vermelho.

Muito menos verde e amarelo que é a cor de nossa bandeira.

O perigo é voltarmos a uma época sem cor. Sem brilho. Sem cantos. Sem arte. Sem leitura.

E com o gado aplaudindo quem lhe tira o pasto.

4 comentários em “O estranho fenômeno do gado que aplaude quem lhe tira o pasto.

  1. Parabenizo pela analise lúcida e coerente com a história. O continuo e gradativo investimento na des (educação) durante os últimos dois séculos sempre foi fundamental para a manutenção dos dois estratos da “república” mais garrida. O primeiro do gado que aplaude e o segundo das serpentes aplaudidas no paraíso.

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  2. Esses militares eram monstros e Bolsonaro foi picado por eles 💩💩💩💩🇺🇸🇺🇸🇺🇸🇺🇸🤬🤬🤬🤬🧠🧠🧠👎👎👎🐕👈🏿🤮🤮🤮

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