Quaresma e quarentena

Participo de um grupo de família do qual a maioria é de Minas e predominantemente católica. Há rezas no grupo, momentos de oração, vídeos de missas juntamente com fotos da gente quando era criança, lembranças dos meus avós, memes e receitas de pé de moleque.

Hoje, em pleno final de quaresma, como me sinalizou o grupo, uma prima querida comemorou a “saída da quarentena” repetindo o mantra “O Brasil não pode parar”. Deu uma cutucada no meu pai que é japonês dizendo que lá no Japão as pessoas seguem trabalhando (o que não é totalmente verdade mas, também, nenhuma mentira). “Né, tio Takimoto?”.

Antes que meu pai respondesse, elaborei uma resposta que compartilho com vocês.

Vale observar que há muitas pessoas que pensam da mesma forma que ela e é necessário conseguir conversar com quem acredita na dicotomia saúde e economia porque nem sempre agem por maldade. Segue o que escrevi caso queiram ler:

“Sair para trabalhar não respeitando as recomendações dos maiores infectologistas e especialistas na área é falta de amor ao próximo porque você se torna um transmissor consciente e minimiza a vida de quem deveria proteger.

É sabido que a imensa maioria desses casos vai ser leve. Mas, pelo grande número de acometidos em curto espaço de tempo, podemos ter superlotação do sistema de saúde, com indisponibilidade de leitos para tratar outras doenças, que não deixarão de ocorrer. Pessoas não morrem só de covid-19. Morrem de enfarto, por exemplo, porque o hospital não teve leito para socorrer. E isso não aconteceu no Brasil não. Isso já é fato na Europa. Lugar onde há países com garantias sociais e saúde pública, ok?

No comportamento social do japonês, a prática de isolamento de pessoas doentes já faz parte da cultura. Quem está gripado, por exemplo, evita sair de casa e, nas ruas, o uso de máscaras é comum antes da “moda” pegar. A situação sanitária do país também é melhor que a nossa: lá 100% do esgoto é tratado, enquanto no Brasil quase metade da população não tem acesso à rede de tratamento.

Comparar Brasil ao Japão é um erro. Os dois países têm processo de formação cultural completamente diferentes e lá não tem a nossa desigualdade social. Aqui temos lugares sem saneamento básico e não temos testes para todo mundo. E, ainda que o Japão seja muito eficiente em testar pessoas em busca do vírus, identificar grupos de contágio e isolá-los, saiba que o país não tem realizado a quantidade de testes que deveria. E isso pode levar a um aumento drástico no número de pessoas infectadas. Pode ser que exista um grupo de pessoas infectadas, sem sintomas, que não foram detectadas, além de casos importados de outros países. E, se isso estiver acontecendo, pode haver uma mudança na conduta. Vale lembrar, prima, que as escolas no Japão seguem fechadas.

Eu tenho muito medo do estrago que esse vírus pode fazer ao se alastrar ainda mais nas nossas populações mais carentes, nas favelas, nas comunidades que são aglomerados por essência, nas pessoas que têm feito parte das calçadas de colchão. Isso você não vai ver no Japão, minha prima.

Visitei ocupações e favelas no Rio. Tenho um comprometimento com um trabalho sério que cuida das pessoas que não têm onde morar (passou no jornal da Globo ontem). O isolamento horizontal já era difícil. O vertical é impossível. Nem na classe média conseguimos isolar os idosos. Sem contar a falta de amor que é isso “você, velho, fica aí trancado nesse quarto. Eu, que produzo, vou sair”. Qual seria o impacto psicológico dessa conduta nessa camada da população que já sofre de solidão, medo e depressão?

Embora o isolamento social traga consequências econômicas ruins – que podem muito bem ser revertidas com medidas humanitárias, estratégicas e eficientes -, temos que lembrar que outros países que não o fizeram de forma adequada hoje têm cenários TRÁGICOS. Na Itália, hoje, temos um novo recorde diário: quase MIL mortos em um ÚNICO dia.

Um dos governos que mais resistiu e criticou medidas de isolamento, o Reino Unido tinha, há dois dias, cerca de 8 mil infectados e mais de 430 mortes. O primeiro-ministro conservador, Boris Johnson, defendia que, para chegar à imunização, era preciso deixar que o maior número de pessoas se infectasse rapidamente. Hoje, está com covid-19 em estado não muito estável.

Enfim, não existe a dicotomia saúde e economia. Isso está fora de discussão, minha prima. Primeiro, precisamos salvar vidas. Cuidar do próximo. Amar o próximo passa por tomar esse cuidado numa hora dessa. A economia se ajeita. A história nos mostra que países se recuperaram economicamente depois de passarem por guerras. Uns mais rápidos. Outros nem tanto. Mas as vidas que foram perdidas não voltam jamais.

Eu não professo nenhuma religião. Mas seguindo e respeitando a do grupo, pergunto a vocês: o que Cristo orientaria? Se formos ouvir o Papa que desde que a epidemia de coronavírus eclodiu na Europa se pronunciou em várias ocasiões, a orientação é ficar em casa para que vidas sejam salvas.”

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