Carrossel

 

Sou professora há mais de dez anos, na verdade quase vinte, mas isso pouco importa, na verdade importa, mas eu não quero falar sobre isso. Eu hoje já tenho ex-alunas que são mães, ex-alunos carecas, casados e até separados. Tenho ex-aluno nas universidades e nos shoppings. Ex-aluno artista, ex-aluno dentista. Tenho ex-aluno na França, na Alemanha e ex-aluno que não sei onde está. E é claro que não lembro o nome de todos eles (fato esse que entristece menos a eles do que a mim).

Mas nem só de ex-alunos é repleto o meu passado. Andei em academias de ginástica em toda a minha vida, na verdade de cinco em cinco anos, mas isso pouco importa. O que importa é que fiz amizades inesquecíveis das quais não me lembro do nome de quase ninguém. Fiz faculdade e conheci um tanto de gente assim lá, fiz mestrado e conheci outro tantão de gente mega inteligente, fiz curso de italiano, viajei pras Európis a trabalho com colegas de profissão e fiz três filhos. E de todas as pessoas que couberam nesse parágrafo e com as quais realizei altas trocas, eu sei o nome de mais ou menos cinco delas!

Isso posto, o fato do dia: Enquanto a minha vez não chegava na fila da pipoca em pleno calçadão de Copacabana, uma moça sorriu pra mim. Eu, mega fofa, sorri para ela. E daí, a dona do sorriso veio com o próprio escancarado na minha direção.

-Elika!!!! Há quanto tempo!!!!! – Exclamou com vontade a moça que me conhecia.

De onde, meodeos? Quem é você, jesuis? Pensa, Elika, pensa rápido. Abraça essa menina que está com braços abertos te esperando!

– Ô, põe tempo nisso, amiga!

Que amiga mané amiga?!? Por que falei assim? Por que essa louca está me esmagando?

– Como é que você tá, linda? E sua mãe… está bem?

Caramba… a menina sorridente conhecia a minha mãe…

– Estou ótima… mamãe também… – respondi fechando um pouco as minhas pálpebras e olhando bem na alma da fulana para ver se conseguia captar alguma coisa.

– E aí, Elika! Tem ido lá ainda?

Lá onde, senhor? Escola, academia, curso, outback, samba da Ouvidor, Berinjela… lá onde? Tantos lás por onde andei, meu pai! O que responder agora???

– Não. Nunca mais fui lá… – respondi maldizendo a minha memória.

– O quêêêê? Vocêêêê nuuunca mais foi lá???? Não acredito, Elika! Sério???? Não acredito!!! Por que???? Jura????– Perguntou a menina me fazendo sentir péssima por nunca mais ter voltado lá.

Se lá era tão legal pra mim, por que eu deixei de ir? Como a vida dá voltas… às vezes a gente é empurrado para um caminho que a gente nem sonhava em seguir. Daí você deixa de ir a um lugar bom que te faz bem, por que? Porque a vida é um feroz carrossel! Bem que o Chico havia me avisado… Acabei ficando triste e tendo segundos de reflexão sobre o que ando fazendo com a minha breve existência nesse planeta… o que dizer das canções que hoje não ouço mais, das academias que não mais frequentei, dos cursos que parei, das ondas que não surfei, das léguas que não corri, dos sonhos que desisti, dos mistérios que parei de sondar…

– Juro. – Respondi envergonhada.

– Fala sério, Elika! Nunca pensei que você seria capaz disso! Depois de tudo aquilo que você falava! De como você se sentia quando saía de lá! A não ser que você mentia pra gente!

– Não! Eu? Jamais menti para vocês! – Disse sendo sincera.

– Você lembra do que você falou para eu fazer com o Carlos Augusto? Você é gênia, Elika!Estava louca para te contar! Elikaaaa, nem te conto! – Falou a menina fazendo barbeiragem no português.

Gente, quem foi Carlos Augusto na vida dessa mulher! Só pode ter sido um namorado… O que eu disse para ela fazer???

– Ele morreu, você sabia? E eu fui a última a falar com ele. – Ela me disse sorrindo.

Quase desmaiei. Ela matou o Carlos Augusto e fui eu a mandante do crime!

– Você matou o Carlos Augusto? – Perguntei baixinho puxando a menina pelo braço saindo da fila da pipoca bem quando era a minha vez.

– Elika, você bebeu? Por que eu mataria meu sogro? Não se lembra que ele estava no hospital e eu não falava com ele há três anos? Fui lá como você falou, pedi desculpas, disse que não guardava nenhuma mágoa dele, que ele sempre foi um pai maravilhoso…

Ai como sou fofa…meus olhinhos se encheram d´água ouvindo a história da…

– …e daí ele me disse: Janete, me perdoa, minha nora querida? Eu disse que sim e ele mo-réu.

JaneteJaneteJanete Janete….Janete!!!!!!!!!!! A manicure do salãozinho de beleza lá do Valqueire que eu ia quando trabalhava no Colégio Pentágono!!!!Janete!!!!

– Janete!!!!!!!!! Que saudades!!!!!!!!!!!!

– Pois é Elika!!! Como vai Nelson, Hideo e a Nara?

Ela era do tempo que Yuki não era nem pensamento, gente! Ah, a Janete…

– Eu tive mais um, Janete! Olha aqui a foto dele!

E daí que ela estava trabalhando em um salão lá em Copa e terminara o seu turno justo quando eu havia acabado de resolver uma pendência e vi o pipoqueiro. Dei carona para Janete porque assim como eu ela é subúrbia. Pegamos duas horas de engarrafamento que nem sentimos e nem foram suficientes para colocar as fofocas todas em dia!

Quando Janete saiu do carro fiquei pensando em tudo o que aconteceu e como posso definir o que Janete é para mim. Já ouvi tantas definições de amizade e em nenhuma delas Janete se enquadra. Engraçado… A amizade é algo tão complexo que sua essência jamais caberá numa frase. Querer explicá-la, justificá-la, julgá-la e moldá-la gera perdas de alguma espécie. Essa crônica, portanto, foi apenas uma tentativa de mostrar que a importância de uma pessoa não se mede com fita métrica, nem com dinamômetros, nem com palavras e nem com gestos! Acredito, depois de hoje, que uma boa medida da importância de uma pessoa seja a alegria que ela produza em nós. E eu amei ter reencontrado Janete!

Seguimos, então, tentando nos divertir nesse carrossel.

21 Comentários

Arquivado em Crônicas, Humor, reflexões

21 Respostas para “Carrossel

  1. Daqui a milênios, quero ser essa Janete… Te encontrar pelas telas da vida e te dar esse abraço!

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  2. "uma boa medida da importância de uma pessoa seja a alegria que ela produza em nós"Eka, AMEI essa frase!!! Amei o texto todo, mas essa frasa achei genial!

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  5. Nossaaaaaa…lindooooo muitão, tia Elika! Me emocionei 🙂 Arrasou!!! Beijosss, Bia Melo (sua ex-aluna do Pentágono, cantora, que está estudando Música na Suécia agora mas que fez vestibular pra Matemática antes e graças a Deus desistiu…que cantou com o Marcos Valle e você gostou do video…ai meu Deus, será que você vai lembrar quem eu sou…hehehe 🙂 Beijossss!!!

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  6. Elika. Muito bom, aprisiona o leitor com o clima de suspense e curiosidade do desfecho, mas ainda não escreveu o livro!! Estamos de olho!!! rs rs rs

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  7. KKKKKK Claro que me lembro de vc, sua boba!!!:-DBeijão

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  8. Puxa… Que legal.E vc sabe que eu quase não postei esse texto?! Mas é interessante o que acontece aqui. As vzs eu amo um texto e todo mundo tipo tchum pra mim. Outros que eu quase não posto e deleto tudo…Gosto quando vc gosta do que eu escrevo.;-)Beijos

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  9. Alice! Minha amiga virtual!!!!Obrigada pelo comentário carinhoso!Estamos juntas e quando nos encontrarmos prepare o esqueleto!=DBeijo procê!

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  10. Maza, Uma honra receber seu elogio.Obrigada sempre pela força.Beijos

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  11. Elika,Parabéns! Está muito divertido e interessante. Cada vez é um assunto trivial que serve a todos, e que por isso prende a atenção e atrai comentários.Agora vamos lá para a minha alfinetada…Isso posto, o fato do dia: Enquanto a minha vez não chegava na fila da pipoca em pleno calçadão de Copacabana, uma moça sorriu pra mim. Eu, mega fofa, sorri para ela. E daí, a dona do sorriso veio com o próprio escancarado na minha direção.-Elika!!!! Há quanto tempo!!!!! – Exclamou com vontade a moça que me conhecia.De onde, meodeos? Quem é você, jesuis? Eu já percebi que você tem usado com certa frequência essas duas formas de expressão. Sim, talvez você queira usá-los como sua marca individual, mas depois de algum tempo, isso parece fórmula de escrita, de ser engraçada, etc. Talvez você possa fazer uma variação,Muitos beijos!Elise (passando o feriado escrevendo a discussão da tese).

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  12. oi, EliseAdoro suas críticas. Sinal que me lê com atenção. Sempre são bem vindas.Tudo anotado.Em minha defesa, todos esses textos mais leves na verdade não eram para ser textos. Todos eles, eu começo como uma postagem no feicebuque. Daí acho que está ficando grande demais e jogo para o blog.São textos feitos em pouco tempo, no dia em que a coisa acontece para que eu não perca o timing e a emoção não esfrie ou eu simplesmente esqueça. Daí, do jeito que sai fica. Eu não fico lapidando muito, entende? Como vc percebeu. Mas, ficarei mais atenta, pó dexá.Ontem mandei o material da qualificação para a banca. mas no meu caso a qualificação será uma pre-defesa. Qualifico-me em dezembro e defendo assim que der. Na verdade falta mais um capítulo só. O doutorado de 4 anos está saindo em 3. Estou bem feliz com isso. =)Boa sorte para nós!!!Beijos para vc

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  13. oi Élika, lindo texto. fiquei na expectativa de saber do local que não ia mais e já imaginando um local bem esdrúxulo. Pensei: quero ver como ela se sairá desta? mas que surpresa este final fraterno! me emocionei tbém, vc me estimulou ao contato com algumas amigas e já reenviei pra outros (as) que o "tempo" nos distânciou. um grande abraços, saudades…vem pra cá?

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  14. Para refletir como pequenas atitudes nossas influenciam o próximo !

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  15. Prima!Estou tentando ir! Juro!!!Saudades imensas de todosBjs

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  16. Liliane,Obrigada pelo comentário!Beijos e sucesso para vc agora tb!!! 😉

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  17. Olá Elika!Sou o Lucas Rizzeto, ex-pentagonal como vc!Que delícia de texto e de reencontro. Com quantas janetes a gente perde o contato, né? A delícia de rever e no embaralhado da memória resgatar a pessoa, um tempo, um pedaço do passado, uma peça do quebra-cabeça maluco de nossa vida cada vez mais acelerada. Mas vc registra tudo com humor e lirismo, resgata esses momentos lindos, que temos a sorte de ter vez ou outra. Imagino também a sua alegria ao saber que vc tocou aquela pessoa no passado, entre uma unha e outra, com seu conselho de buscar resgatar a relação com o sogro… Fantástico esse poder que temos de poder tornar a vida das pessoas (e a nossa!) um pouco melhor… Com coragem pra se expor. Afinal, como se diz en neurolinguística, "linguagem cria realidade". parabéns por compartilhar essas sutilezas com a gente!

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  18. Lucas,Muito obrigada pelo seu comentário.Fico sempre feliz em te ver por aqui.Beijos

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  19. Querida Elika esses reencontros sao deliciosos!Pena que vc nao se lembrava da querida Janete ao momento kkk mas reencontras pessoas assim queridas e algo muito prazeroso sentir a alegria e o carinho de determinanas pessoas ao nos ver:)Eu tive 2 experiencias deliciosas uma em Roma ao encontrar uma amiga apos 20 anos e a mae de um ex namorado em Napolis e o que me comoveu foi ver o mesmo carinho e amizade de antes…..

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  20. A anonima do ultimo comentario sou eu mariana ramos bom … espero que vc se lembre kkkkkkk beijoooooo

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