Gavetas

gavetas

Você pensa que conhece bem alguém ou a si mesmo enquanto não adentra aquela gavetinha onde são guardados pedacinhos, a princípio sem maiores valores, de nossas vidas. Todo mundo tem uma, não? Pois então, vire a sua gaveta de cabeça para baixo e voilá o icognoscível.

Eu, por exemplo, vou citar algumas coisas que achei na minha caixa corrediça: duas pilhas rayovac que não sei se as guardei por estarem ainda boas ou por não saber onde descartá-las. Moedinhas de orelhão. Caneta azul bic-duvido-que-funcione. Uma tampa de caneta vermelha pentel. Um canhoto de talão de cheques. Um tubo de redoxon vazio. Um papel com um telefone que eu nunca soube de quem é. Outro papel com telefone que eu estava que nem louca procurando na semana passada e que agora não me adianta de nada. Um benjamim. Uma chave cuja porta sabe Deus se ainda existe. Uma capa de CD vazia. Duas fotos 3×4 do Hideo. Um manual de guia rápido para um celular de três gerações atrás. Um relógio Technos parado. Um restinho de borracha rosa. O Novo Testamento. Dipirona vencida. Comprovantes de depósito que não dá para ler mais nada. Dois bandaids. Receita de bolo de banana escrita de próprio punho, dois clips de plástico, pomadinhas, … e mais outras coisinhas que não cabem compartilhar aqui não por serem indecentes e sim vergonhosas mesmo, tipo um cotonete solto, sabe? Pedaços sem explicação da minha vida esparramados agora na minha cama. Um lixo para quem olha assim de repente. Um grande mistério se o olhar for um pouco mais demorado.

Com um dos braços esticados varro tudo para dentro da gaveta pressionada na lateral do colchão pelo outro membro tenso. Não jogo nada fora. E o maior enigma emerge nesse último gesto. Por que não consigo me desvencilhar desses objetos tão desconexos? Por que diabos não coloco esse lápis sem ponta para escrever de uma vez? O que eu quero guardar dentro dele? Até quando vou esperar uma caneta que precise de uma tampa? Qual a palavra que devo apagar com esse resto de borracha? Qual dor pretendo curar com esse remédio sem validade? Por que não coloco o tempo daquele relógio para correr? Para quem deixei de ligar naquela época medieval em que usávamos orelhão? E bababá? E bububú? Quando? Como? Quem? Pra onde? Pra que? Por que? Por que? Por que? Vai que… Vai que… Vai que…  Afff.

Como somos estrambólicos quando reviramos as coisas bem ali dentro, não?

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Arquivado em Crônicas, reflexões

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