Perguntar não ofende

O que é mais condenável em nossa sociedade: a injustiça ou o fracasso?

Por que, do ponto de vista do poder, o extermínio da população pobre não é visto como um mal a ser combatido?

Por que os países que mais pregam a paz são os que mais armas vendem?

Antes de estimular a demanda, a publicidade produz que tipos de violência?

Quem matou mais pessoas até agora: a Segunda Guerra Mundial ou a pobreza?

Seria possível um planeta constituído só de países ricos?

Por que chamam de “mercado livre” aquilo que a maioria das pessoas só pode olhar e não pode comprar?

Se em um país que tivesse duas pessoas somente e uma delas fosse bilionária enquanto a outra vivesse para lhe servir, o PIB que seria alto teria qual significado?

Quem se beneficia com a decadência do controle público na economia?

Se as indústrias mais bem sucedidas no mundo capitalista são as mesmas que mais poluem o planeta, qual o preço que se paga por tanto desenvolvimento?

Em que medida a globalização se difere do imperialismo?

Por que os que vivem em comunhão com a natureza e consideram a terra sagrada são chamados de incivilizados?

Quais são as instituições que se dedicam em afirmar de diversas maneiras diferentes que a desigualdade social e o racismo fazem parte da harmonia do Universo?

Quando e onde aprendemos preferir a segurança do que a justiça?

Qual o nome que devemos dar quando um grupo de homens fardados derrubam governos civis?

Em que medida o medo alimenta o capitalismo?

Por que chamamos de progresso quando algumas pessoas passam fome e outras são envenenadas pela comida?

Por que nunca nos unimos contra as pessoas que lucram em cima da nossa dor?

Em que momento passamos a achar normal escolas privadas?

Temos mais medo da multidão ou da solidão?

Quem foi mais enfático em nos convencer que indígenas são selvagens porque tudo compartilham e não tem ambição de riqueza: a indústria cinematográfica de Hollywood ou as escolas?

Assusta mais uma criança sem livro ou com um celular?

O que acontece com os policiais honestos do Rio de Janeiro?

Por que quanto maior é o montante de dinheiro roubado menor é a pena?

Se as prisões significam segurança, por que os países com menos prisões são os menos violentos?

Se houver mais desempregados que empregados, como vão fazer para que a maioria obedeça?

Os responsáveis pela poluição de um rio são chamados de criminosos ou empresários?

A sociedade de consumo produz só objetos descartáveis ou, também, seres humanos que são usados e jogados fora a seguir?

Se somos livres, somos livres de quê exatamente?

Qual o nome do lugar em que pessoas que trabalham não têm medo de ficarem desempregadas?

Como se luta contra o terrorismo vendendo armas para países terroristas?

As caveiras riem de quem ainda vive?

Morre-se mais de overdose ou traficando drogas?

Contra quem as leis são aplicadas?

Se quem luta pela diminuição da desigualdade social é chamado de comunista, como devem ser chamadas as pessoas que não se preocupam com as injustiças sociais?

É direito dos empresários roubarem em grande quantidade?

Que nome damos ao sistema que há seres trabalhando em condições insalubres, sem lugar para comer, sem banheiros para usar durante o expediente, sem aposentadoria, sem direitos, sem férias e que ainda precisam agradecer por estarem trabalhando?

Se um país enriquece vendendo muitas armas, o PIB alto significa o quê exatamente?

Por que chamamos de progresso quando aplicamos uma tecnologia de ponta em indústrias que gera uma alta taxa de desemprego?

Por que em países, como o Japão, que morrem milhares de pessoas por ano por excesso de trabalho são considerados desenvolvidos?

Por que dizem que se portam mal quem defende a natureza e deseja que o salário mínimo seja maior?

As loucas da Praça de Maio são assim chamadas porque se recusam a esquecer?

Os terapeutas que percebem que grande parte de seus pacientes sofrem por excesso de trabalho lutam por um mundo mais justo?

Os cardiologistas que sabem que grande parte de seus pacientes sofrem infarto por tanta preocupação se manifestam contra o sistema que lhes adoecem?

É confiável o local cujas indústrias ecológicas movimentam uma fortuna maior do que as indústrias químicas?

A história oficial é escrita por quem preza a memória ou por quem tem interesse em apagá-la?

O quão disposta está em combater as causas das doenças a pessoa que lucra com elas?

Quem nada consome também pode ser chamado de cidadão?

O gastroenterologista que detecta que muitas gastrites são causadas por conta dos baixos salários de seus pacientes se manifestou contra a reforma trabalhista?

Países desenvolvidos são chamados assim porque se desenvolveram “a despeito” ou ‘por causa” do subdesenvolvimento alheio?

Por que quem participa da Guerra às drogas não se manifesta contra os agrotóxicos?

Por que os que matam os pobres não lutam para erradicar a pobreza?

Quando elogiamos uma flor dizendo que ela parece de plástico, precisamos de terapia ou de um professor de história?

Por que não proíbem também a propaganda de carros os que proibiram a propaganda de cigarros se ambos estragam o ar que respiramos?

Por que temos facilidade de condenar o criminoso e não o modelo de sociedade que intensifica o crime?

Qual o nome do sistema em que muitos constroem algo que jamais terão dinheiro para comprar?

Qual é a única espécie do planeta que acredita que um país vai melhorar cortando gastos com saúde e educação?

Engarrafamento também é sinal de progresso?

Por que quem se esperneava diante um triplex se cala ao ver apartamentos e mansões comprados com dinheiro vivo?

Por que na escola, quando explicam as cadeias alimentares, não falam das longas cadeias de subordinações sucessivas em nossa sociedade?

Por que chamam de democracia o sistema que ignora mais de cem processos de impeachment?

Quem naturalizou o fato dos animais não poderem pastar ou ciscar e terem o tempo de vida reduzido para que nos alimentemos com seus pedaços?

Nessa sociedade de consumo, a injustiça social é um erro a corrigir ou uma necessidade essencial?

O que mais assusta um empresário: um hipopótamo ou um sindicato?

Por que os que não se importam com o desmonte das estatais se mostram tão preocupados com os empregos criados pelo véio da Havan?

Quem nos ensinou a não se importar com os animais que são fervidos vivos?

Faz sentido definir a riqueza sem a pobreza?

Quando uma mulher negra será presidenta de um país?

Quem mandou matar Marielle?

5 comentários em “Perguntar não ofende

  1. Em 1987 ingressei no curso de Pedagogia na UFRN. Os livros que considero mais marcantes na minha formação enquanto educadora e cidadã politicamente situada no tempo e espaço histórico de atuação: Educação e luta de classes (Aníbal Ponce) e Educação: Do senso comum à consciência filosófica ( Dermeval Saviani). Este último, por ocasião da leitura obrigatória da disciplina Filosofia Geral da Educação, eu não compreendia muito, mas ao final do curso, tudo o que estudei e li nas demais disciplinas e o que vivia no dia a dia das escolas, nas lutas da categoria e no que observava e vivenciava no contexto daquele final da década de 1980 e início dos anos 1990, me remetia às ideias/reflexões/lições que me foram apresentadas por Saviani. E agora cá estou eu novamente sendo instigada a revisitar Saviani, desta vez a partir dos questionamentos que compõem este incrível texto de Elisa Takimoto. Segundo Saviani, ” refletir é o ato de retomar, reconsiderar os dados disponíveis, revisar, vasculhar numa busca constante de significado. É examinar detidamente, prestar atenção, analisar com cuidado. E é isto o filosofar”. E é isto o que o texto de Elisa Takimoto nos leva a fazer. Não sei se para quem não leu Saviani o efeito é o mesmo. Excelente!!

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  2. Perguntas altamente relevantes para inspirar uma agenda pedagógica para as nossas escolas. Não deixe de nos animar com a sua lucidez, Elika. Abraços de um professor veterano.

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