O Sagrado e o Profano

A mãe ouviu ao fundo a voz do pai gritando com o menino, coisa rara naquela casa, pois o menino que acabara de completar seis aninhos é muito bonzinho e obediente além de cuidar com carinho de todos os bichinhos da casa que consistiam em sete peixes, dois hamsters e um cachorrinho. Querendo saber o que estava acontecendo, a mãe deixou o resto da louça suja na pia e dirigiu-se para o cômodo da casa onde estavam o pai e o filho, o primeiro falando ainda de forma exaltada e com voz embargada, o segundo de cabeça baixa e aparentemente muito envergonhado.
– Você por um acaso… você…por um acaso… se eu ficasse doente, trocaria de pai? Da onde você tirou essa ideia? Com quem você tem andado, meu filho? Eu não esperava ouvir isso de você por toda a educação que nós temos te dado! Isso não é papel de homem, meu filho! Você quer me matar de desgosto falando uma coisa dessas? Você já viu o seu pai fazendo esse tipo de coisa por aí?
A mãe, sem ainda saber o motivo daquele emocionado discurso e sabendo que o pai jamais levantara a voz para criança daquela forma, como boa cúmplice, virou o rosto tenso para o filho e condenou com o olhar aquele ato indecoroso do menino. Balançava a cabeça negativamente e olhava o pai exclamando indignado. Com a mão direita espalmada por cima do peito esquerdo e com cara de choro, a mãe sentia a dor do pai como se fosse a dela.
– Vá beber uma água, Nelson. Se acalme, meu amor. Deixa que eu converso agora com ele, tá? O Kinho não vai fazer isso de novo, né, Kinho? – Alterou o semblante no mesmo instante em que olhou para o menino. O menino sabia que a mãe era mulher braba e curvou-se ainda mais de tanto medo e vergonha.
Nelson saiu do quarto vociferando sozinho pela casa. Onde erramos com ele? Que horror! Que horror! Isso não existe!!! A mãe mal se aproximara do menino quando ele começou a falar baixinho e chorando:
– Mãe, desculpa, eu disse pro pai que se ele mudasse eu ia com ele, que eu não vou deixar nunca o pai sozinho. Eu só quero ver o pai feliz…descuuuulpa, mãezinha, – soluçava nas vírgulas o menino arrependido – eu falei, mãezinha, que eu ia com ele… eu não quero ver mais o pai sofrer, mãe. Eu pensei que ele ia ficar mais feliz se a gente mudasse, mãe! Me desculpa, mãezinha…
– Ãhn? Mudar pra onde, Jesus? – Perguntou a mãe sem entender patavinas.
– Pro Fluminense, mãe. O Flamengo só perde… me desculpa, mãe, me desculpa…
O menino aprendera uma grande lição. Com o sagrado das pessoas não se mexe e que um homem não torce por um time, mas o consagra e o confunde com a própria consciência que tem de si mesmo.
– Ãhn?

12 Comentários

Arquivado em Crônicas, Humor, Yuki

12 Respostas para “O Sagrado e o Profano

  1. Espalhei em todo o Facebook Tricolor.Era inevitável.Você arrebenta.Chega a ser irritante de tão boa escritora! :)))

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  2. Own pobre criança… Realmente nosso time é sagrado mas devemos saber separar as coisas. Filho é mais importante e é apenas um ser inocente. Enfim, menino inteligente. Da-lhe Nense!

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  3. Essas crianças nascem sabendo de tudo hoje em dia! kkkk

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  4. KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK!!!!!!!!!!!!!!!! Até os dramas dessa família são divertidos!!!!!!!

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  5. Muito gradecídis, Paulo!!!beijos beijos e muitos beijos

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  6. Paula,Nós, mulheres, seres racionais conseguimos separar as coisas… mas esses homens…=)beijos e obrigada pelo comentário!

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  7. =Drealmente é muito bom viver aqui!Beijos

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  8. Pra vc, né?;-)Eu vou morrer sem entender isso…

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  9. ElikaDizem que a paixão é biológica, no sentido mesmo de haver alterações nos eletrólitos, hormônios e outros elementos presentes no corpo humano, daí porque a paixão não é perene pois quando estas espécies voltam ao equilíbrio, o sintoma, no caso a paixão, acaba e o indivíduo volta ao estado fundamental, mas quando se trata de Flamengo, estamos falando de uma alteração definitiva, uma vez flamengo sempre flamengo. Os eletrólitos, hormônios e etc, atingem o tal nível de excitação e jamais retornam ao estado fundamental e então vc vive em estado de paixão permanente. mais uma vez parabéns pelo texto que nos remete à situação real. Bjks

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